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Mount Sinai: o hospital das grandes descobertas

Fundado há 159 anos, o Hospital Mount Sinai é um dos maiores e mais antigos hospitais dos Estados Unidos - e fez da inovação uma regra

Por Natalia Cuminale Atualizado em 24 Maio 2016, 16h36 - Publicado em 23 jul 2011, 00h14

Do alto de um edifício localizado entre a 5ª Avenida e a 100ª Rua de Nova York, tem-se uma magnifica vista do Central Park: é um perfeito e arborizado cartão-postal daquele que é talvez o mais famoso parque urbano do mundo. O dormitório, no interior da construção, também impressiona. No chão e nas paredes, carpete fino e cortinas elegantes; sobre a cama, lençóis de algodão de 300 fios e roupões cujo preço pode chegar a 300 dólares. O hóspede do quarto recebe ainda um kit cosmético de luxo ao chegar e uma caixa de chocolates belgas na saída. Entre as opções do cardápio, costela de carneiro marroquino, cuscuz e vegetais da estação refogados. O serviço de quarto, aliás, conta com funcionários treinados para atender prontamente a qualquer exigência.

Clique aqui para conhecer as alas do hospital
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Seria um local perfeito para passar um período de férias em Nova York. Mas trata-se, na verdade, de uma das 19 dependências do 11 West, o andar executivo do Mount Sinai Medical Center, uma das instituições de saúde mais importantes do planeta. Para se “hospedar” em um desses quartos, é preciso pagar diárias que variam entre 595 e 1.600 dólares – os valores flutuam de acordo com o tamanho (de 22 m² a 48 m²) e a vista do quarto (para o Central Park ou para o hall interno do hospital).

O luxo, é claro, não é o único atributo do hospital. Na verdade, nem é o principal. Longe do décimo primeiro andar, não há seda, carpete ou água importada. Restam os 1.152 quartos comuns, distribuídos pelos centros de cada especialidade, que são facilmente comparáveis às instalações de qualquer instituição particular do Brasil. Para essas unidades, os preços variam de acordo com o tipo de serviço. Mulheres que ficam na maternidade, por exemplo, pagam cerca de 500 dólares por dia por uma suíte de tamanho padrão. Assim como ocorre no Brasil, o hospital também é frequentado por políticos e celebridades. Por lá já passaram a atriz Gwyneth Paltrow, que deu à luz seu segundo filho; o ator Ben Stiller, que foi tratar uma fratura na mão; o ex-governador de Nova York, David Paterson, submetido a uma cirurgia de glaucoma; e o ex-prefeito da cidade de Nova York, Rudy Giuliani, tratado de câncer da próstata.

Ralph Maldari, diretor-assistente do 11 West (andar executivo)
Ralph Maldari, diretor-assistente do 11 West (andar executivo)

As diferenças entre os imponentes prédios que constituem o hospital Mount Sinai e as também grandiosas instituições brasileiras encontram-se principalmente no pioneirismo em diversas áreas, como cardiologia, geriatria, doenças do aparelho digestivo e saúde infantil. Pesquisa realizada pela U.S. News & World Report, uma revista americana reconhecida mundialmente por elaborar rankings, mostra que o Mount Sinai está entre os vinte melhores hospitais dos Estados Unidos. Além disso, a instituição ficou entre as principais colocadas em 13 de 16 especialidades consideradas pelo estudo.
A cultura de inovação e excelência do hospital é antiga. A instituição sempre teve o apoio financeiro necessário para crescer e investir em descobertas. Desde a sua fundação, apostou em contratar uma equipe com especialistas renomados, oriundos de universidades e hospitais respeitados de Nova York ou de centros médicos europeus, que foram ao país em busca de um ambiente com mais recursos e liberdade. “Alcançamos excelência em várias áreas da medicina porque, há cem anos, já éramos bons no que fazíamos”, resume a arquivista do hospital Barbara Niss.
Outro ingrediente da receita de sucesso é o fato de o Mount Sinai ter um histórico de administradores dispostos a mudar constantemente para acompanhar o progresso científico. Exemplo disso foi o momento que os membros da administração perceberam a necessidade de fundar uma escola para participar mais ativamente das mudanças que ocorriam na ciência e na medicina. Mais do que isso: eles queriam formar médicos e manter os melhores em sua equipe. Fundada em 1968, a Mount Sinai School of Medicine é uma das poucas escolas de medicina que está incorporada a um hospital nos Estados Unidos. A faculdade tem mais de 3.400 professores em 32 departamentos, distribuídos em 15 institutos. Assim como o hospital, a escola de medicina está entre as 20 melhores do país.

Planos e futuro – Em 2012, mais um edifício fará parte do complexo hospitalar do Mount Sinai: o Center for Science and Medicine, para a realização de pesquisas científicas. “Queremos ser o centro de estudos de onde sairá a cura para o câncer”, diz Marianne Coughilin, vice-presidente de operações. “Alguns anos atrás, não pensávamos que poderíamos competir com o Memorial Sloan Kettering (um dos maiores hospitais especializados em câncer dos EUA), mas agora nós decidimos que podemos fazê-lo”, completa.

Na visão da vice-presidente, a integração entre hospital e escola é um dos grandes trunfos do Mount Sinai. “Apostando em algo que chamamos de ciência translacional. Ou seja, a descoberta pode acontecer aqui e ser imediatamente transferida para a prática clinica. Por isso, é tão importante ter um hospital e uma escola trabalhando juntos”, conclui.

Para continuar apostando na excelência, o hospital investe muito dinheiro para atrair médicos de instituições de ponta, como o renomado cardiologista espanhol Valentin Fuster, chefe do departamento de cardiologia da instituição. Premiado em vários países, já foi médico até de papas. “Nós temos dinheiro para investir em pesquisas, em equipamento para diagnóstico e material humano. Precisamos sempre oferecer o melhor diagnóstico. Isso é realmente excitante”, diz Coughilin.

Marianne Coughilin, vice-presidente de operações
Marianne Coughilin, vice-presidente de operações

Histórico – Fundado há 159 anos, o Mount Sinai é um dos maiores e mais antigos hospitais dos Estados Unidos. Em janeiro de 1852, abriu as portas como Hospital Judaico, com 45 leitos para atender membros carentes da comunidade. Apesar da proposta, aceitava pacientes emergenciais de outras religiões. Em 1866, foi rebatizado Mount Sinai Hospital para deixar claro que não tinha laços exclusivos com uma comunidade.

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Desde então, o hospital não parou de crescer, muitas vezes forçado pelas circunstâncias. Em todo esse período, ajudou a fazer a história da medicina. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), por exemplo, operou em regime de capacidade máxima e foi obrigado a ampliar o número de leitos para atender os soldados feridos em batalha. Outras guerras atravessam sua história. Seus administradores tiveram que atrasar a ampliação da instituição durante a I Guerra Mundial. Já durante o conflinto mundial seguinte, entre 1939 e 1945, 802 funcionários, entre enfermeiras e médicos, foram enviados para servir no norte da África, Itália e França. Nove membros do corpo clínico morreram no conflito.

Enquanto se adaptava às mudanças, o hospital acumulava feitos para a história da medicina. Aconteceu no interior do Mount Sinai a invenção do primeiro teste de esforço cardíaco. Deu-se ali também a descrição da doença de Cronh, mal inflamatório intestinal, o desenvolvimento da primeira vacina geneticamente modificada contra a gripe, a descoberta da relação entre cigarro e câncer (e ainda entre amianto e câncer) e a aparição de um novo tratamento para tumores de mama e ovário, combinando radioterapia e quimioterapia. Desde sua fundação, membros do corpo clínico assinaram mais de 250.000 artigos científicos, entre pesquisas e livros.

Barbara Niss, arquivista
Barbara Niss, arquivista

Geriatria – Outro grande marco do hospital foi a criação do primeiro departamento de geriatria dos Estados Unidos, em 1982. A presença de médicos interessados em cuidar da saúde dos idosos é antiga. Em 1909, o médico Ignatz Nascher cunhou o termo “geriatria”; cinco anos depois, ele lançaria o primeiro livro de ensino sobre o tema. Na década de 1970, o médico Robert Butler, também no Mount Sinai, criou o termo “ageism”, para referir-se à discriminação contra os idosos. Na pesquisa da U.S. News & World Report, o hospital aparece na primeira posição entre as instituições mais bem avaliadas no cuidado ao idoso. Foram avaliados 1.500 hospitais.

No centro de geriatria do hospital, o Martha Stuart Center for Living, todos os pacientes são atendidos por uma equipe multidisciplinar, que inclui médicos, enfermeiras, psicólogos e assistentes sociais. Os idosos podem participar de aulas de tai chi chuan, yoga, pilates e nutrição. “As pessoas mais velhas precisam ser tratadas de uma forma diferente devido a características fisiológicas. Não se pode esquecer disso”, diz Rosanne Leipzig, professora de geriatria e cuidados paliativos da Mount Sinai School of Medicine. Segundo ela, as doenças podem se manifestar de forma diferente nos idosos, com outros sintomas e características. Além disso, o benefício propiciado por determinados tratamentos ou medicamentos a jovens pode não ser alcançado nos mais velhos.

Rosanne Leipzig, geriatra
Rosanne Leipzig, geriatra

Fantoches e remédios – Assim como envelhecimento saudável é prioridade do hospital, o bem-estar das crianças também é muito valorizado pelo corpo clínico da instituição. Duas vezes ao dia, crianças internadas no Kravis Children’s Hospital, ala infantil do Mount Sinai, têm um compromisso inadiável: sintonizar a TV no canal 78, a KidZone TV. A atração é outra mostra do pioneirismo do Mount Sinai, primeiro hospital a manter uma programação ao vivo voltada para o público infantil. São 21 programas que abordam arte, música, culinária e jogos apresentados em dois horários: 15h30 e 18h30.

A grade do canal exibe também Ask the Doctor (Pergunte ao Médico). No programa, as crianças podem fazer perguntas a um especialista a partir de seus próprios quartos. O especialista, diz a atração, foi raptado nos corredores no hospital e não poderá ‘fugir’ do estúdio até sanar todas as dúvidas. Outro sucesso de audiência é o show Name the Music/ Name the Movie (Qual é o filme/Qual é a música), liderado por Penina, um “fantoche-monstro” rosa, e Jaque-Pierre, o gato-fantoche.

Todos os programas são interativos. Em alguns casos, as crianças podem até participar da produção, desde que tenham sido autorizadas por seus médicos. “Esses programas são importantes para ajudar no desenvolvimento das crianças, especialmente para aquelas que estão internadas aqui há muito tempo”, diz Alayna Kramer, produtora executiva da KidZone TV.

Além do canal de TV, o hospital dispõe de um espaço terapêutico e educacional dedicado ao público infantil. A ideia ali é “brincar, aprender, sorrir e relaxar”. Entre as atividades oferecidas pelo andar, há uma biblioteca com livros de medicina, que pretende ajudar os pais a entender a doença de seus filhos, além do quarto silencioso, para a prática de atividades relaxantes, e o teatro, espaço utilizado para atividades em grupo, como ver filmes ou programas de entretenimento. “Ajudo os pais a encontrar as informações que precisam quando seus filhos estão doentes. Mas também os conforto quando a situação piora”, conta Dana Wyles, bibliotecária médica da ala infantil.

Alayna Kramer, produtora da KidZone TV
Alayna Kramer, produtora da KidZone TV
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