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Messi ou Pelé? O duelo dos gênios, nas páginas de PLACAR

A pergunta pressupõe uma única e sonora resposta para o torcedor brasileiro. Mas o craque argentino já encosta no rei em gols marcados 

Por Luiz Felipe Castro e Rodolfo Rodrigues - Atualizado em 7 ago 2020, 17h21 - Publicado em 7 ago 2020, 09h30

Palco: Camp Nou, 30 de junho de 2020. Apesar das arquibancadas tristemente vazias em decorrência da pandemia do novo coronavírus, Lionel Messi, um recatado vocacional, sabia que a ocasião pedia algo mais pomposo. O adversário era o Atlético de Madrid e o jogo valia pontos preciosos na corrida pelo título espanhol. E então, de madeixas impecavelmente aparadas, veio um suspiro de concentração e o toque sutil: de pênalti, e não apenas de pênalti, mas com uma audaz “cavadinha”, o genial atacante do Barcelona alcançou a espetacular marca de 700 gols em jogos oficiais. Fez história, e da história agora faz parte também o goleiro Jan Oblak, que por acaso deixara passar a bola de número 600 do argentino. Na comemoração, houve um estalar de dedos em referência ao personagem Thanos, da saga Vingadores. Super-herói, extraterrestre… Sobram adjetivos para o craque nascido em Rosário e consagrado na Catalunha, cujo talento inegavelmente justifica o debate: seria Messi o maior jogador de todos os tempos? O.k., antes que acusem PLACAR de exagero, cabe dar um pulo ao passado recente.

Na edição de maio de 2012, a revista pôs na capa o “duelo dos deuses” e uma frase provocativa: “pela primeira vez na história surge um jogador cujos feitos tornam possível uma comparação com Pelé”. Naquele tempo, entre a Copa do Mundo da África do Sul e a do Brasil, Messi ainda estava estatisticamente distante do Rei, seja em número total de gols, seja na média de tentos por partida, seja na relevância de suas conquistas. Mas, como previu PLACAR, de lá para cá, e na contramão da trajetória de Pelé, o canhoto La Pulga alcançou o seu auge como artilheiro justamente na segunda metade da carreira e conseguiu equilibrar a disputa, ao menos em relação aos números.

“Há oito anos, vislumbramos a possibilidade de que não seria tão absurdo comparar o Messi ao Pelé ao final da carreira do argentino. O tempo vem comprovando essa impressão”, diz o jornalista Gian Oddi, autor da matéria, digamos, premonitória. Na ocasião, a estimativa era de que o 10 do Barcelona pudesse alcançar o maior de todos, ídolo do Santos e da seleção brasileira, em gols oficiais aos 37 anos, a mesma idade com que Pelé se aposentou, pelo New York Cosmos, dos Estados Unidos, anunciando ao mundo: “Love, love, love”. Agora, eis aí uma novidade retumbante, já é possível enxergar a façanha para o ano que vem, caso Messi mantenha sua altíssima média goleadora. É informação derivada de minucioso levantamento feito pelo repórter Rodolfo Rodrigues. Os números não mentem: com sete centenas de gols até o fim de junho deste inglório ano, Messi está a apenas 62 de Pelé na contagem que leva em consideração somente partidas oficiais (acompanhe os dados ao longo desta reportagem).

Gráfico com gols de Pelé e Messi ano a ano
Gráfico com gols de Pelé e Messi ano a ano Arte/Placar

Nem o mais chauvinista torcedor brasileiro seria capaz de negar a grandeza do argentino, o modo como carrega a bola colada aos pés, os passes elegantes, os golaços, a antevisão dos lances — e, claro, seu poder como finalizador. “Messi é o melhor camisa 9, o melhor camisa 10, 11, 5…”, resumiu Pep Guardiola, o treinador que ajudou a moldar a faceta implacável do argentino no Barça — só em 2012 o rosarino marcou, sob a batuta de Pep, o recorde absoluto de 91 gols em um mesmo ano. O fato de ser, como Pelé, um jogador mais móvel e completo, arco e flecha, é o que o diferencia, por exemplo, de seu eterno antagonista, Cristiano Ronaldo. O matador português de 35 anos é tão vitorioso quanto — tem uma Liga dos Campeões a mais (5 a 4), títulos com sua seleção e apenas uma Bola de Ouro a menos (5 a 6) — e acumula mais gols (728), mas não costuma ser apontado como o número 1 com tanta frequência.

Messi é, sim, quem mais se aproximou de Pelé, não apenas por seu talento, mas por sua longevidade. O primeiro gol como profissional foi marcado em maio de 2005, contra o Albacete, num lindo toque por cobertura após assistência de… Ronaldinho Gaúcho, outro prodígio que fracassou na missão de superar o Rei, não por falta de talento, mas de constância. Casado com um amor de infância, Antonella, pai de três filhos, Messi é alheio a bebedeiras, festas e outras distrações. Mesmo franzino e caçado em campo, raramente se lesiona ou aparece fora de forma. Marcou mais de cinquenta gols em um mesmo ano nove vezes, nove!, incluindo os últimos seis. A título de comparação: Ronaldo e Romário só alcançaram o feito em um ano de suas carreiras, enquanto Ronaldinho, no período em que foi o melhor do mundo, 2004 e 2005, fez 23 e trinta, respectivamente. Pelé alcançou meia centena de bolas na rede em sete oportunidades — todas na primeira fase da carreira.

Comparação entre Messi e Pelé - PLACAR
Comparação entre Messi e Pelé com a mesma idade, até 30/06 Arte/Placar

Eleger o maior futebolista de todos os tempos, ainda mais comparando gerações tão distantes entre si, passa, claro, por aspectos altamente subjetivos, e pelo coração. Defensores de Messi dirão que o futebol atual é muito mais profissional, físico e exigente, de espaços para jogar reduzidos, com marcadores mais fortes e bem preparados. Já os súditos do Rei argumentam, com carradas de razão, que no passado havia maior equilíbrio entreos clubes e que, com gramados ruins, menos tecnologia e mais truculência (não existia cartão amarelo, por exemplo), era mais difícil se destacar. A frieza dos números levantados por PLACAR tem como propósito tornar o debate mais palpável e objetivo, mas, ainda assim, algumas considerações históricas se fazem necessárias. Para manter a isonomia, consideramos apenas os gols em jogos oficiais. O que não significa, porém, que não haja tentos relevantes entre aqueles excluídos de Pelé. O camisa 10 brasileiro tem, segundo suas próprias contas, 1 282 bolas na rede. Dessas, de fato, muitas são descartáveis, como aqueles gols marcados pelas Forças Armadas ou pelo Sindicato dos Atletas. Outras, porém, ocorreram em encontros históricos, como um Real Madrid 5 x 3 Santos, no Santiago Bernabéu, em 1959, no único embate entre Pelé e Alfredo Di Stéfano, outro argentino a postular o trono de maior da história. Naquela excursão, a primeira do Santos celebrado como o grande time mundial, o Peixe goleou a Inter de Milão por 7 a 1 e o Barcelona do brasileiro Evaristo de Macedo por 5 a 1. Eram amistosos, mas valiam muito, para ambos os lados, bem diferente do que ocorre nos torneios de pré-temporada na Ásia ou nos Estados Unidos atualmente.

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Outra prova de que não se deve beber do presente para medir o passado diz respeito ao peso das competições. Enquanto o Barcelona atual sonha em reconquistar a Liga dos Campeões após cinco temporadas, o Santos de Pelé tinha como prioridade — veja só — o Campeonato Paulista, cuja taça foi erguida pelo Rei dez vezes. A Libertadores era relevante, mas, depois de conquistar a América em 1962 e 1963 e cair nas semifinais nos dois anos seguintes, em jogos controversos contra Independiente e Peñarol, respectivamente, o Santos abriu mão de disputar as edições de 1966, 1967 e 1969, mesmo estando classificado.

“Os dirigentes achavam que não era interessante. Por questões financeiras, o Santos preferiu priorizar as excursões internacionais para conseguir bancar seus sete ou oito jogadores de seleção”, recorda José Macia, o Pepe, parceiro de Pelé e autor de 405 gols pelo Peixe. Outros aspectos intangíveis, quase etéreos, pesam contra Messi, nem tanto na comparação com Pelé, mas sobretudo com um compatriota: Diego Armando Maradona. As críticas por supostamente não “sentir a camisa argentina” já são parte do passado.

O recorde de setenta gols pela seleção e, sobretudo, gestos marcantes de emoção e comprometimento — como o choro desesperado ao desperdiçar um pênalti na final da Copa América perdida contra o Chile, em 2016 — foram valorizados de forma devida no vizinho argentino. Messi é, sim, um herói nacional, mas não um deus como Dieguito. “Leo é boa pessoa, mas não tem muita personalidade para ser um líder”, contou o próprio Maradona, que dirigiu o herdeiro na Copa de 2010, a Pelé, em uma conversa vazada durante um evento publicitário, há quatro anos, em Paris. Mais do que liderança ou carisma, falta-lhe uma Copa do Mundo. Messi sabe disso e pode ter uma derradeira chance, aos 35 anos, no Catar. Até lá, a clássica e espirituosa frase de Pelé, que em outubro completa 80 anos, segue fazendo sentido: “Os argentinos primeiro têm de decidir quem é o maior entre eles”, e só a partir dessa certeza tentar superar o Rei. Eis uma missão complicada, porque o tango argentino é infindável.

Levantamento de títulos entre Pelé e Messi
Levantamento de títulos entre Pelé e Messi Arte/Placar

Publicado em PLACAR de junho de 2020, edição 1465

Capa da Revista Placar da edição de Julho de 2020 Divulgação/Placar

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