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Venda de Brenner aos EUA surpreende; afinal, MLS é ou não uma boa?

Liga americana deixa de ser vista só como opção de aposentadoria e investe em jovens sul-americanos; a PLACAR, atletas brasileiros aprovam experiência

Por Luiz Felipe Castro, Klaus Richmond Atualizado em 8 fev 2021, 19h02 - Publicado em 5 fev 2021, 16h06

Principal revelação e artilheiro do São Paulo na temporada, o atacante Brenner está de malas prontas. Apesar de ter recebido sondagens de clubes da Europa, como o tradicional Ajax, da Holanda, o jogador de 21 anos foi vendido ao FC Cincinatti, clube novato da Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol dos Estados Unidos. O destino, até então incomum para jovens revelações brasileiras, causou surpresa e certa rejeição, mas segue uma tendência já vista em países vizinhos. PLACAR ouviu atletas que lá estão e o agente mais influente do país nesta sexta-feira, 5, para entender: afinal, a MLS passou a ser uma boa?

A negociação foi sacramentada em 15 milhões de dólares (mais de 80 milhões de reais), segundo informações do site Goal. A desvalorização das moedas sul-americanas, aliás, vem facilitando o plano da MLS de deixar de ser vista apenas como “a liga da aposentadoria”. Desde Pelé, Cruyff e Beckenbauer, na década de 70, até David Beckham, Andrea Pirlo, Kaká, entre tantos outros, nos últimos anos, o futebol nos EUA sempre foi tratado como paraíso dos veteranos que buscavam maior qualidade de vida e um fim de carreira tranquilo. A última estrela a desembarcar por lá foi o argentino Gonzalo Higuaín, de 33 anos, reforço do Miami FC, time que tem Beckham como dono. Até mesmo Lionel Messi já sinalizou que pode seguir o mesmo caminho.

O objetivo de tornar o soccer cada mais competitivo, repetido à exaustão na última década, ainda caminha a passos lentos. Clubes americanos e canadenses (sim, o país vizinho faz parte da MLS) bateram na trave nos últimos anos e jamais conseguiram superar os mexicanos na Liga dos Campeões da Concacaf – o atual campeão é o Tigres, adversário do Palmeiras na semifinal do Mundial de Clubes). Os americanos, então, perceberam que para qualificar sua liga também precisavam investir em jovens talentos e, nos últimos anos, vêm conseguindo rivalizar com mercados como o asiático ou o do Leste Europeu.

Lodeiro, ex-Corinthians e Botafogo, em ação pelo Seattle Sounders, na MLS -
Lodeiro, ex-Corinthians e Botafogo, em ação pelo Seattle Sounders, na MLS Abbie Parr/Getty Images

O Atlanta United, campeão da MLS em 2018, é quem melhor investe nesta estratégia: tem como estrelas o venezuelano Josef Martínez (27 anos) e o argentino Ezequiel Barco (21) e em 2019 surpreendeu ao contratar o argentino Pity Martínez, destaque do River Plate na conquista da Libertadores – o meia de 27 anos foi vendido ao Al-Nassr, da Arábia Saudita, mas já negocia seu retorno à MLS justamente para o time de Brenner, o Cincinatti.

Também vem do Atlanta United o melhor exemplo de que a MLS pode, sim, ser uma porta de entrada para o mercado europeu. O paraguaio Miguel Almirón trocou o Lanús, da Argentina, pela equipe americana quando tinha 22 anos. Hoje, aos 26, é destaque do Newcastle, da Inglaterra.

Em relação a salário, a MLS segue distante dos gigantes da Europa, mas também vem evoluindo. Uma das estrelas da liga é o uruguaio Nicolás Lodeiro, hoje com 31 anos. Com passagens por Botafogo, Corinthians e Boca Juniors, ele chegou ao Seattle Sounders, campeão da MLS em 2019 e 2016, há cinco temporadas e possui um dos maiores vencimentos: 2 milhões de dólares por temporada (a própria MLS divulga os dados), que atualmente equivale a quase 900.000 reais mensais.

Em 2019, a média salarial dos atletas “não designados” (como são chamadas as estrelas que têm direito a vencimentos maiores por atuarem como chamariz para a liga), foi de 345.000 dólares anuais, com um crescimento de 150% nos últimos cinco anos. Na atual cotação, isso equivale a um salário de 150.000 reais mensais, ou seja, bem abaixo das principais estrelas da elite do futebol brasileiro.

Wagner Ribeiro, empresário de diversos atletas de renome, como Neymar, é cético. “Não acho a MLS um sonho para atletas jovens e com potencial”, diz. “Morar em Cincinatti com certeza é muito bom, os EUA são maravilhosos. Mas um jogador de futebol de alta performance deveria ter a ambição de disputar uma Champions League, jogar uma Premier League, vestir uma camisa do Chelsea, Manchester, Liverpool, Real Madrid, Barcelona, PSG , Milan, Juventus…Onde realizaria todos seus sonhos e, também, a independência econômica”.

O agente ressalta que “com a pandemia, o dinheiro do futebol diminuiu. As contratações serão menores, assim como os salários” e acredita que o sonho americano segue sendo ideal para veteranos. “Penso que jogar e ter uma qualidade de vida americana seja muito bom para atletas já realizados, como o próprio David Beckham que parou de jogar para depois ser presidente de um clube em Miami.” Ribeiro chegou a negociar a venda do meia Lucas Lima, do Palmeiras, ao Orlando City, mas a transação não se concretizou. “Seria um bom salário, mas nunca comparando com uma negociação europeia.”

  • Brasileiros veem vitrine, segurança e evolução na liga

    Os atletas brasileiros que estão por lá se dizem plenamente satisfeitos.  O zagueiro Antonio Carlos tinha como certa a saída do Palmeiras em dezembro de 2019. Pouco aproveitado, estudava propostas de empréstimo do Bahia e do Vasco, até surgir a possibilidade do Orlando City. Pouco mais de um ano depois, o clube anunciou a compra em definitivo por três anos, com opção de renovação por mais um. O aspecto financeiro foi que menos pesou.

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    “O campeonato é muito bom, com alta visibilidade. Recebi algumas sondagens, mas preferi ficar em Orlando. Todo o jogador busca bons contratos, dinheiro, mas pensamos um pouco além, também. Eu pensei na minha família, filhas e esposa. Para mim foi uma mudança incrível, sofremos muita pressão no Brasil e isso nos deixa esgotados. Temos um público grande, que tem aumentado, e é diferente”, disse o jogador a PLACAR.

    Os brasileiros: Antonio Carlos, Judson e João Paulo -
    Os brasileiros: Antonio Carlos (Orlando City), Judson (San Jose Earthquakes) e João Paulo (Seattle Sounder) Andrew Bershaw/Lyndsay Radnedge/Jeff Halstead/Getty Images

    Destaque na campanha de acesso do Avaí à Série A, em 2018, o volante Judson surpreendeu ao ser anunciado pelo San Jose Earthquakes. Após duas temporadas, e com mais de 50 partidas, ainda há surpresas com relação a organização. Em julho, por exemplo, quando retornou após a paralisação devido ao agravamento da pandemia da Covid-19, a liga fretou voos particulares aos clubes.

    “Vejo a cada ano uma evolução e muitas coisas mudando por aqui. Tivemos a venda de jogadores jovens, como a saída do [lateral direito] Bryan Reynolds [do FC Dallas] para a Roma. Acredito muito no potencial da liga, de que logo estejam entre as sete melhores do mundo. O San Jose é um dos que menos investem e tem uma estrutura absurda e organizada. A MLS tem muito o que ensinar aos brasileiros, não tem disputa política que atrapalha os clubes e a associação dos atletas funciona perfeitamente. Lá, tudo é conversado e acertado entre os representantes. Durante a pandemia, só fizemos voos particulares, fretados. Fora de campo não há preocupação”, explicou o jogador.

    Judson contou ter constantes conversas com o técnico argentino Matías Almeyda, no clube desde 2018 e alvo constante de especulações no futebol brasileiro. O jogador disse que o treinador constantemente compara a organização nos Estados Unidos como disparidade com relação a Brasil e Argentina. “Ele gosta muito do Brasil, já falou que teve propostas, mas diz que vê uma realidade parecida com a de seu país, com dificuldades”.

    Situação similar vive o meia João Paulo, negociado por empréstimo com o Seattle Sounders e comprado em definitivo por 1 milhão de dólares (5,3 milhões). O jogador foi levado por intermédio do ex-volante Magrão, que tem empresa com atuação forte na liga. “O Magrão faz essa ponte, vieram ver alguns jogos meus no Botafogo e conversamos pessoalmente até consolidar a transferência em janeiro. Eles viraram uma página de ser uma liga que só contrata jogadores mais velhos. Sei que sou uma exceção até pelo novo perfil de investimentos”.

    Contratado quando tinha 28 anos, completa 30 em 8 de março, afirmou ter aceitado a proposta pela possibilidade de atuar competitivamente em um dos clubes de melhor desempenho na liga. Em termos salariais, não teve aumento dos tempos de Botafogo. “O salário não foi o principal fator, e digo que para a maioria dos brasileiros também não é. Não ganho muito mais do que ganhava no Botafogo, mas pesa a qualidade para a família, de tudo funcionar, da segurança de poder andar até de ônibus pela cidade, não correr muitos riscos de assaltos”, explicou o jogador.

    João Paulo ainda disse que o profissionalismo da liga elevou o próprio nível físico e técnico. Ele acredita viver um dos melhores momentos da carreira. “Creio que hoje os melhores times da MLS brigariam na tabela de cima do Brasileiro, mas claro que ainda fica atrás de grandes clubes. A maioria aqui ainda joga em transição, no Brasil há um futebol mais vistoso, mas o profissionalismo aqui supera. Estou melhor fisicamente e tecnicamente do que em anos anteriores”, concluiu.

    Além do trio e de Brenner, outros brasileiros devem disputar a MLS 2021, como o volante Júnior Urso (ex-Corinthians e Coritiba), do Orlando City, o meia-atacante Matheus Rossetto (ex-Athletico-PR), do Atlanta City, o lateral direito Danilo Silva (ex-Internacional), do Los Angeles FC, além de Ilsinho, nome mais conhecido entre os brasileiros na liga (ex-Palmeiras, São Paulo e Internacional no Brasil), principal referência do Philadelphia Union.

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