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Eduardo Bandeira de Mello: ‘Da arquibancada ninguém pode me tirar’

Ex-presidente do Flamengo não participa da vida política do clube após cisão com atual diretoria, mas frequenta jogos e está no Catar para ver o Mundial

Por Alexandre Senechal - Atualizado em 17 dez 2019, 14h01 - Publicado em 17 dez 2019, 13h10

O governo do Catar confirmou que quase 10.000 torcedores rubro-negros já estão no país para assistir ao jogo do Flamengo contra o Al Hilal, da Arábia Saudita, nesta terça-feira 17 pela semifinal do Mundial de Clubes. Entre eles, está um apaixonado que ajudou a equipe alcançar um novo patamar. Eduardo Bandeira de Mello foi presidente do clube entre 2013 e 2018 e um dos grandes responsáveis por reorganizar a agremiação financeiramente. Apesar de existir um “distanciamento” com o atual presidente Rodolfo Landim e não ter sido convidado pela diretoria, Bandeira viajou no último domingo para o país do Oriente Médio para acompanhar o time de coração na tentativa de buscar o bi. Dias antes de embarcar, concedeu entrevista exclusiva a VEJA por telefone e falou sobre seu trabalho à frente do Flamengo, os problemas com a diretoria atual, a expectativa para o Mundial, as vítimas da tragédia no Ninho do Urubu e sobre se candidatar para a prefeitura do Rio de Janeiro.

“Recentemente, tentaram me expulsar do clube e não conseguiram. Não fico atirando pedra, até porque eu sou Flamengo, mas é inegável que existe um distanciamento”, explicou durante pouco mais de uma hora de conversa. E deixou claro que não parou de acompanhar o clube após os seis anos de mandato. “Sinceramente, procuro não me aproximar muito, mas da arquibancada ninguém pode me tirar”.

A gestão de Bandeira de Mello tirou o Flamengo do vermelho, aumentou as fontes de receitas, pagou dívidas e deixou as contas em dia para Landim investir mais de 100 milhões de reais para montar o time de 2019, campeão brasileiro e da Copa Libertadores da América. Apesar da organização fora de campo, o ex-presidente foi muito criticado pela torcida por não ter conquistado títulos – o mais expressivo foi a Copa do Brasil de 2013, no primeiro ano de mandato. “Gostaria muito de ter ganhado mais títulos. Enfrentamos muitas dificuldades. O Flamengo fez sacrifícios durante quatro, cinco anos. Não tínhamos a disponibilidade de dinheiro que o clube tem hoje”, contrapôs. De acordo com Bandeira, o Flamengo já cogitava trazer Jorge Jesus ainda enquanto ele era o mandatário. “Não chegamos nem a fazer proposta por ele, porque não tínhamos esse dinheiro. Era algo irreal. Não estava nas nossas possibilidades.”

Sua gestão já havia se encerrado havia quase 40 dias quando aconteceu o incêndio no Ninho do Urubu, que vitimou dez crianças que atuavam nas categorias de base do clube. O ex-presidente não gosta de tocar no assunto, mas fez algumas considerações a respeito do que chamou de “a maior tragédia da história do Flamengo”. Disse que não participa das negociações sobre as indenizações para as famílias, mas espera que o clube resolva a questão de uma forma digna. “Espero como rubro-negro que o clube tenha consciência de sua responsabilidade social, que saiba zelar pela sua imagem de clube cidadão. Pode ser que a diretoria do Flamengo esteja chegando a uma solução que preserve essas questões. Vamos torcer para que tudo caminhe bem”.

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Funcionário do BNDES por 36 anos e presidente do Flamengo por seis, Eduardo Bandeira de Mello não cogita disputar a próxima eleição à presidência do Flamengo. O voo agora deve ser para uma carreira política. O partido Rede quer lançá-lo como candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020. Ele confirmou o interesse, mas revelou que isso só será decidido quando ele voltar do Mundial.

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Ainda não consegui parar para escrever do jeito que essa viagem a Lima merece… escolhi, então, essas 3 fotos para começar. Foi muito bom viver essa vitória histórica com meus filhos, meu cunhado, meu sobrinho, vários dos companheiros que estiveram ao meu lado nos 6 anos de mandato e, ainda, recebendo tantas manifestações de carinho por todos os lugares que passei!

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Confira a entrevista completa com Flamengo Eduardo Bandeira de Mello

Quais são as reais chances de bater o Liverpool numa eventual final? Primeiro tem que passar pelo Al-Hilal. Outros clubes acharam que iam fazer a final e acabaram em decepção. O Al-Hilal tem um bom time, foi treinado pelo Jesus. Acho que vai ser uma tarefa difícil. Se chegar à final contra o Liverpool, eles são tidos como os melhores do mundo e estão provando isso na Premier League. Vai ser complicado, mas não impossível. Flamengo é Flamengo.

O senhor tem um palpite para essa eventual final? Acho que vamos ganhar de 1 a 0 na prorrogação. Para aproveitar bastante 120 minutos de final.

Vários gestores de futebol, como Thiago Scuro, do Red Bull Bragantino, citam o Flamengo como referência de gestão. Como o senhor se sente ao ouvir esse tipo de elogio? Certamente não sou a pessoa certa para avaliar, mas quando recebo um reconhecimento desse tipo, como o do Thiago Scuro, que é um profissional altamente reconhecido, fico muito feliz. Só faço sempre a observação que não fiz nada sozinho. Tinha muita gente comigo trabalhando, seja como vice-presidente ou profissional do clube, e as pessoas foram fundamentais. Tivemos também um apoio muito grande da nossa torcida. Se eles não tivessem comprado nossa briga e aceitado fazer sacrifícios por quatro, cinco anos, não tinha chegado onde chegou.

Por que o senhor diz que não é a pessoa certa para avaliar? Porque fazer autoavaliação nunca é algo imparcial. As pessoas me perguntam se eu contribui para esse sucesso atual do Flamengo e digo que é lógico que sim. Mas não sou a pessoa mais indicada para avaliar. Mas se pessoas de fora, da imprensa, ou profissionais do futebol, ou torcedores fazerem esse tipo de avaliação e ela é positiva, fico muito feliz.

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O que a experiência do senhor em 36 anos como funcionário do BNDES ajudou no tempo em que geriu o Flamengo? Acho que ajudou muito, porque no BNDES você tem uma visão muito abrangente de todos os setores da economia, de atividade. Tive oportunidade de conhecer várias empresas, avaliar várias administrações. No BNDES a gente conhece empresas de todos os setores, tamanhos, naturezas. Conhece governos, organizações não-governamentais, empresas grandes, pequenas, bancos, e você tem a possibilidade de avaliar o desempenho de todas essas instituições. Então acho que não é difícil você levar esse tipo de experiência para um negócio complexo como o futebol. Mistura o conhecimento com a paixão e o resultado tende a ser bom.

Como o senhor entrou para a vida política do Flamengo? Dizem que o senhor não era muito ligado ao futebol… Ligado ao futebol eu sempre fui como torcedor, frequento o Flamengo desde os cinco anos. Não participava era da vida política do clube. Quando virei presidente, também era conselheiro, porque todo sócio pode ser conselheiro, mas não participava da vida política do clube, nem frequentava muito. Eventualmente ia nas reuniões do Conselho, mas como não participava de nenhum movimento político, minha capacidade de interferir era praticamente zero. Quando se formou aquele grupo da chapa azul em 2012, conheci pessoas e estava apoiando como torcedor e sócio. Não era o escolhido, mas como os candidatos à presidência e vice-presidência não puderam comprovar as condições estatutárias para concorrer [Wallim Vasconcellos e Rodolfo Landim, respectivamente], fiquei como plano B. Quando a coisa se concretizou e o Conselho proibiu as duas candidaturas, eu virei candidato e é a história que todo mundo sabe.

Qual foi o papel de Zico no primeiro triênio do senhor na presidência do Flamengo? O Zico sempre foi uma inspiração. É a figura mais importante da história do Flamengo. Estávamos naquela situação difícil, não só em termos financeiros, mas de credibilidade. E o Zico sempre teve muita credibilidade, sempre nos inspirou. Ele não teve participação efetiva, até porque ele tem os negócios dele. Não era uma presença diária, porque era inviável. Acho também que quando a pessoa é um ídolo, não deve assumir um cargo que gere uma exposição muito grande, porque é preciso preservar a imagem do ídolo. Isso é um ativo que pertence ao clube e à torcida e você não pode expor uma figura com a admiração do Zico a nenhuma bola dividida.

Como o Flamengo foi de um clube com o nome manchado no mercado a exemplo de gestão financeira? Não tem fórmula mágica. Não houve nenhum tipo de política sofisticada, nenhum coelho tirado da cartola. Foi simplesmente fazer a coisa certa, ter vontade política, fazer sacrifícios e ter competência para gerir um negócio que é cada vez mais complexo. Tinha o desafio de diminuir a dívida, considerada impagável, aumentar a receita, porque o Flamengo tem 40 milhões de torcedores e isso é um potencial a ser explorado para aumentar a receita, e a questão da credibilidade. Era um clube desacreditado e tínhamos que dar demonstrações de que íamos transformá-lo em um clube cidadão, para dar exemplo aos 40 milhões de torcedores. A grande maioria da torcida vem das camadas mais humildes, tem muita criança, e é um absurdo essas pessoas que têm o futebol como principal ponto de referência na vida verem um exemplo negativo vindo do clube, que é a paixão das vidas deles, como é da minha.

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O que foi o grande diferencial para conseguir organizar o clube? Com relação a receita, o plano de sócio torcedor não existia. Foi criado em março de 2013 e hoje é a segunda principal fonte de receita do clube. Além disso, conseguimos aumentar bastante os patrocínios. Sem as certidões negativas de débito, não podíamos ter patrocínios de empresas estatais, por exemplo. Logo depois que assumimos, conseguimos nos organizar e tivemos o patrocínio da Caixa Econômica e acesso aos recursos da Lei de Incentivo ao Esporte e das Loterias. Isso foi fundamental para estruturar o esporte olímpico, que sangrava as receitas do futebol, e passaram a ser praticamente autônomos. Além disso, começamos a trabalhar com licenciamentos de produtos, receitas de bilheteria, tudo isso somado contribuiu. Outro fator importante: o investimento na base, que fora negligenciado durante décadas, e, para mim, é a fonte de receita mais importante dentro do futebol. Não se colhe os frutos do investimento na base rapidamente. É uma maturação de cinco, seis, dez anos. Hoje a base do Flamengo é uma máquina de fazer dinheiro que vai garantir recursos por muito tempo. Negociamos Vinicius Júnior, Paquetá, esse ano teve o Jean Lucas, Léo Duarte, antes teve o Jorge. Antes de assumirmos, a última venda tinha sido o Renato Augusto em 2008. Hoje o Flamengo tem titulares de seleção brasileira em todas as categorias de base. Isso atrai observadores de clubes estrangeiros. Passou a ser um bom negócio, além da finalidade principal que é prover jogadores pro time profissional.

O Flamengo vem batendo recordes de arrecadação nos últimos anos. Em que patamar o clube pode chegar? Pode mesmo superar a marca do bilhão de reais? Está quase chegando lá. Claro que a receita recorrente, que não depende da venda de jogadores, ainda falta alguma coisa. Além de tudo que a gente fez com relação à redução de dívida e aumento de receita, tem acessórios que contribuíram. O departamento jurídico do Flamengo passou a ter profissionais de altíssimo nível, como acontece nas grandes empresas do Brasil. Hoje não sei como está, porque nosso pessoal já saiu, mas tínhamos 600 ações trabalhistas que foram reduzidas a praticamente zero. Isso tem um efeito importante nas finanças do clube. Quando a gente fala de formação de jogadores, temos que pensar em patrimônio também. O Flamengo não tinha um centro de treinamento. Tinha um barracão em um terreno. Hoje temos dois CTs de primeiro mundo. Isso tudo é um investimento que vai gerar receitas lá na frente. Não tenho a menor dúvida que vamos passar da casa do bilhão em faturamento e não vai demorar muito. Desde que persista nesse conceito de responsabilidade de profissionalismo.

Podemos imaginar o Flamengo em uma situação financeiramente igual a dos grandes clubes da Europa? A dificuldade não diz respeito ao Flamengo, mas ao Brasil. Infelizmente, vivemos num país periférico, que precisaria de uma recuperação parecida com a que o Flamengo teve para poder sonhar em sombrear as grandes economias do mundo. Mesmo assim, o Flamengo tem como chegar lá. Não digo num curto a médio prazo chegar ao nível de investimento do Barcelona, do Real Madrid, ou de um clube que tenha um mecenas, como o Paris Saint-Germain e o Manchester City. Nossa obrigação é ir progredindo para se inspirar e correr atrás.

Hoje o Flamengo pode caminhar financeiramente independente das receitas de TV? Está cada vez menos dependente. Já representou 90% das receitas do Flamengo. Hoje o sócio torcedor, bilheteria e patrocínios passam a ter uma expressão cada vez maior. Inegavelmente ainda é a principal receita do Flamengo e, provavelmente, de qualquer clube do mundo. Todos os clubes deveriam tentar maximizar as suas possibilidades de receita, independente de quais sejam, em todas as áreas. Essa coisa da identidade com a torcida, que leva ao sócio torcedor, tem uma possibilidade de crescimento muito grande.

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Qual a relação do senhor com o atual presidente do Flamengo Rodolfo Landim? Não é boa. Já estivemos juntos no primeiro mandato, depois houve aqueles problemas todos que a imprensa noticiou. Recentemente, tentaram me expulsar do clube e não conseguiram. Não fico atirando pedra, até porque eu sou Flamengo, mas é inegável que existe um distanciamento.

O grupo que apoia o atual presidente fazia parte da sua gestão em 2013 e vocês romperam politicamente na sua reeleição dois anos depois. Por que houve a cisão? No início de 2015, um dos vice-presidentes extrapolou [Luiz Eduardo Baptista, o Bap] e ofendeu alguns dos nossos vice-presidentes e a mim pessoalmente também. Ele se afastou e disse que ia montar uma chapa para ganhar da gente no final daquele ano. Alguns vices o acompanharam, acho que quatro, se não engano. Formaram uma chapa, concorreram contra nós, perderam, e ficaram na oposição. Não gosto de ficar falando muito disso, mas é só acompanhar o noticiário que tem vários exemplos de como eles se comportaram. Recentemente, depois que eles ganharam essa eleição, que não pude concorrer, mas apoiei um candidato. Houve até uma tentativa de me expulsar do clube. Sinceramente, procuro não me aproximar muito, mas da arquibancada ninguém pode me tirar.

A ida ao Mundial de Clubes é por sua conta? Claro, como foi na final da Libertadores e como tem sido minha vida no Maracanã. Eu sou um torcedor e não espero nada de convite, ou de gentileza, porque acho que ninguém tem a obrigação de fazer isso. Sou acima de tudo torcedor e estou muito feliz com isso.

Os seus hoje opositores disseram na época que o senhor era centralizador e, por isso, haviam rompido com sua gestão… Mas a maioria dos vices ficou comigo. A maioria esmagadora.

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Por que o Flamengo não teve bons resultados dentro de campo enquanto o senhor era presidente? Gostaria muito de ter ganhado mais títulos. Enfrentamos dificuldades. O Flamengo fez sacrifícios durante quatro, cinco anos. Não tínhamos a disponibilidade de dinheiro que o clube tem hoje. Tivemos alguns contratempos esportivos que no futebol acontecem. Em 2017, por exemplo, perdemos a Copa do Brasil na decisão por pênaltis, com nosso principal jogador da época perdendo sua cobrança. Acontece. Fomos para a final da Copa Sul-Americana e perdemos por conta de um pênalti mal marcado pelo juiz. Temos que estar preparados para esse tipo de coisa e não deixar que eventuais resultados ruins tirem a gente da rota da responsabilidade. As tentações sempre existem e muita gente nessas horas acha que a gente tem que abrir o cofre. Mas fomos muito firmes e conseguimos chegar numa situação excelente no final de 2018. Deixamos 50 milhões de reais corrigidos para a administração seguinte do contrato pelos direitos de transmissão com a Globo. Não só não adiantamos as receitas como deixamos parcelas para serem sacadas. Vendemos o Paquetá em outubro de 2018 e a receita praticamente toda para ser sacada pelo meu sucessor. Esse tipo de atitude, de ceder à tentação, de agora arrebentar, deixar rolar para ver se ganha algum título, isso não fizemos porque sabíamos que era errado.

A gestão atual teve mais ousadia para contratar e investir no futebol do que a sua? Isso os números falam. Os balanços do Flamengo são transparentes, auditados, todo mundo pode tirar suas conclusões. É evidente que eles têm um caminhão de dinheiro para gastar esse ano, se alavancaram um pouco mais, mas não condeno isso. Você pode se alavancar desde que você tenha condições para isso. E o Flamengo hoje além de dinheiro em caixa tem a capacidade de crédito que nunca teve antes. É uma coisa perfeitamente possível, desde que feita com responsabilidade, avançar um pouco mais no endividamento para investir no time de futebol. As contratações que foram feitas esse ano se provaram positivas dentro de campo.

O senhor daria esse passo se ainda fosse o presidente? Acho que sim. Está provado que foi correto. O que não pode é fazer um investimento que você não possa pagar depois. Algo que vá comprometer sua saúde financeira. Lembro quando trouxemos o Paolo Guerrero, que foi nossa primeira grande contratação, já no final de 2015, alguns colegas da imprensa disseram que nós não aguentamos e cometemos uma irresponsabilidade. Mal sabiam que tudo que a gente se comprometeu a pagar para ele já estava planejado. Ia pagar, como pagamos, até o último centavo. E no prazo correto. Sem deixar uma dívida trabalhista futura, que foi o cenário que a gente encontrou.

Houve algum outro ponto em que a gestão do senhor deixou a desejar? O que faria de diferente? Provavelmente nós erramos muito, ainda que sempre tentando acertar. Uma coisa que lembro sempre é essa coisa da troca excessiva de treinadores. Impaciência. Acho que nós exageramos nisso. Poderíamos ter tido mais paciência, dar mais tempo para alguns treinadores trabalharem. Acho que isso não é um problema só do Flamengo, mas do futebol brasileiro. Quase todos os clubes incorrem nesse erro. Um dia nós vamos evoluir para dar condições de trabalho, tempo e prazo para os treinadores, como acontece na Europa e mesmo aqui na América do Sul.

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O senhor irá disputar a próxima eleição do Flamengo? Não tenho essa intenção, já cumpri minha missão, fiz o melhor que eu pude. Minha família sofre muito, principalmente depois que eu saí, com todas essas acusações que estou sendo vítima. Acho que é um sacrifício que não tenho direito de exigir da minha família. Acho também que o Flamengo vai ter condições de encontrar pessoas para seguirem o trabalho que a gente deixou. Vou estar sempre à disposição dos meus amigos rubro-negros para ajudar no que for necessário. Não acredito que seja necessário ocupar cargo.

Jorge Jesus já era um desejo da sua gestão? Sim. O Flamengo sempre teve, durante minha administração inclusive, uma proximidade muito grande com o Benfica. Visitei o clube em 2014, quando o Jorge Jesus era treinador. Todos admiravam o trabalho dele, mas era uma coisa inatingível, não tínhamos dinheiro para dar essa tacada. Fiquei feliz que hoje o Flamengo tenha condições de contratar Jesus, o que se provou uma excelente aposta. Não chegamos nem a fazer proposta por ele, porque não tínhamos esse dinheiro. Era algo irreal.

De quem é a culpa no episódio dos dez meninos mortos após um incêndio dentro do Ninho do Urubu? Não gosto muito de me pronunciar sobre isso em respeito ao trabalho da Justiça, do Ministério Público. Eles estão cuidando disso e não acho correto eu entrar em detalhes. O que foi apresentado até agora me dá segurança de que minha inocência é facilmente comprovável, mas que tudo isso é secundário em relação à tragédia, que é a maior da história do Flamengo. Conhecia os meninos. Dois meses antes estava colocando medalha no pescoço deles quando foram campeões sub-15 na Gávea, então para mim foi uma coisa extremamente dolorosa. O que eu posso dizer é isso. Confio que a verdade vai aparecer no trabalho da Justiça e não quero fazer nenhum tipo de consideração sobre detalhes em respeito ao trabalho.

O senhor já foi procurado pessoalmente por alguma das famílias das vítimas? Não, não os conhecia. Claro que no dia em que eu premiei os meninos, provavelmente encontrei os pais, mas não tinha uma relação tão próxima com as famílias.

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O senhor teria interesse em conversar com essas pessoas? Tenho medo de ser mal interpretado. Claro que se for procurado, nem que seja para dar conforto às famílias, e eu não posso fazer muito mais do que isso, não me negaria. Mas acho que isso é secundário. Não gostaria nunca de estar na pele dessas famílias que perderam crianças com 14, 15, 16 anos de idade.

Se o Flamengo estivesse sobre sua gestão, o senhor acataria o pedido do MP em indenizar cada família com uma quantia de 10 000 reais por mês até que a indenização final fosse calculada? A última coisa que vou fazer é faturar em cima da maior tragédia da história do Flamengo. Não participo dessa negociação e não sei exatamente o que o clube está fazendo em relação a isso. Espero como rubro-negro que o clube tenha consciência da sua responsabilidade social, que saiba zelar pela sua imagem de clube cidadão. Pode ser que a diretoria do Flamengo esteja chegando a uma solução que preserve essas questões. Vamos torcer para que tudo caminhe bem. Mas é claro que como todo rubro-negro estou preocupado com, além da questão das famílias e da reparação, com a imagem do clube e sua responsabilidade social.

O senhor sairá como candidato à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020? Eles querem que eu seja e que a Andrea Gouvêa Vieira seja a vice. É uma coisa que temos que pensar, falar com as famílias, que são as que sofrem mais. Combinamos que depois que voltar de Doha e a Andrea voltar de Nova York, a gente vai tratar desse assunto. Por enquanto, estamos pensando.

Fred Luz, CEO do Flamengo durante a gestão do senhor, foi escolhido como pré-candidato pelo partido Novo. O que o senhor acha de reencontrá-lo em uma disputa pela prefeitura do Rio? Não sei, mas acho que ele é um grande candidato. Tenho certeza que é uma pessoa íntegra, correta, competente, bem intencionada. Se ele for prefeito e me convidar para trabalhar com ele, vou com o maior prazer. E tenho certeza que o contrário aconteceria também.

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