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Cuca diz que ainda sente efeitos da Covid e dirigiu Santos até do hospital

Em entrevista a PLACAR, técnico conta que tem dificuldades para respirar, diz que foi salvo por insistência do médico do Santos e que não pensa em parar

Por Klaus Richmond Atualizado em 4 dez 2020, 19h21 - Publicado em 3 dez 2020, 10h20

Mesmo em casa, o técnico Cuca, do Santos, ainda lembra de acordar por volta de 5h da manhã como se fosse iniciar a rotina de remédios que perdurava durante todo o dia no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Entre as duas injeções diárias de anticoagulantes aplicadas na barriga, usadas para frear a formação de coágulos na microcirculação do pulmão e em outros locais do corpo, a rotina recente do treinador de 57 anos incluía corticoides, antibióticos e mais de dez remédios diariamente.

Diagnosticado com Covid-19 no ultimo dia 7, o técnico santista viveu dias de aflição. Ficou internado por nove dias no hospital, chegou a ser transferido a unidade semi-intensiva, teve lesões no pulmão, contraiu uma hepatite e, poucos dias após sair, ainda perdeu o sogro Augusto, de 81 anos, para a mesma doença que atingiu toda a família: esposa, irmão, filhas, sogros e até a neta mais nova.

“Acredito que estou 90% curado, mas hoje canso só de subir uma escada. Me sinto fraco às vezes, também. Se eu tivesse insistido, do jeito que estava, ia morrer. O médico do Santos, o doutor Fabio [Novi] salvou a minha vida. É um cara que já tratou de um câncer, mas que me pôs para dentro do carro dele sem pensar nem por um segundo nele, só em mim. Ele me ajudou muito, virou como um irmão”, conta a PLACAR.

Cuca foi para o clube para o último treino antes da partida contra o Red Bull Bragantino, em Bragança Paulista, pela 20ª rodada do Campeonato Brasileiro, se sentindo indisposto. Ao chegar, o médico o levou às pressas para um hospital em Santos devido a uma taquicardia. Na sequência, acabou transferido para a capital paulista.

“Meu coração disparou e não parava mais. Por sorte, fui para o hospital porque se insisto, e já estava com as malas prontas para viajar, podia não ter aguentado. O coração batia mais de 140 vezes por minuto”, relata.

  • Mesmo no hospital, o técnico conta que manteve contato frequente com a família e com a comissão técnica, principalmente com o auxiliar fixo Marcelo Fernandes, responsável por comandar a equipe durante a sua ausência já que os auxiliares Cuquinha, seu irmão, e Eudes Pedro, além do preparador físico Omar Feitosa, também foram infectados.

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    “No hospital é muito duro ficar sozinho. Se eu falar que li um livro, vou estar mentindo. Eu dormia muito. Todos os dias a comissão me contava como foi o trabalho, o que tinham feito. A gente discutia, mas não de modo normal, dentro do possível, pois também estava abatido. Todas as trocas, as substituições, foram feitas comigo. Dia de jogo fico muito nervoso, as vezes não atendiam o telefone ou não entendiam. Já em casa, contra a LDU, em Quito, trocaram o Jean Mota antes do tempo, fiquei doido”, conta o treinador.

    “A família estava muito preocupada. Eles tinham medo que eu morresse, isso é normal porque não estão no dia a dia comigo. No hospital não senti esse medo, usei a fé. Não vou dizer que estava preparado, claro, mas não senti mesmo. Criei novas amizades no período, com as enfermeiras, os médicos. Valorizamos ainda mais esses profissionais”, completa.

    O técnico voltou a trabalhar efetivamente no último dia 26, após dez dias de repouso em Curitiba, por recomendação médica, onde ficou ao lado da família. Três dias depois, recebeu a informação do falecimento do sogro, também internado por Covid. “Foi um baque grande, a minha esposa ainda está arrasada. Ele foi para o hospital com uma febre, era um senhor inteiro que subia até no telhado. Ficamos com uma sensação de culpa, também. É horrível”, afirma.

    Durante a sua ausência, os associados do clube decidiram em assembleia-geral pelo impeachment do presidente José Carlos Peres, sob parecer de má gestão. O cartola se transformou no primeiro mandatário em 108 anos do clube a sofrer um impedimento.

    “Essa é a parte difícil de tudo, fico triste de ver o Santos em uma situação como essa, das coisas não andarem para frente. Quem me trouxe foi o Peres e outros dois membros do Comitê de Gestão. Me dei muito bem com eles, mas, de repente, tudo mudou. O que fazemos? Blindamos o elenco, trabalhamos muito e tentamos não deixar as coisas atrapalharem o trabalho. Estamos com quatro meses de direitos de imagem atrasados, diversos bichos não pagos, mas vamos seguir. Vim pelo prazer, não pelo financeiro”.

    Cuca, agora, evita maiores projeções futuras. O técnico ainda não sabe se permanecerá no clube após o fim do contrato, em fevereiro. A passagem anterior, em 2018, foi encerrada de forma surpreendente justamente devido a problemas de saúde, para a realização de uma cirurgia no coração para desentupir uma artéria no coração. O desejo maior é o de faturar novamente o título da Libertadores – foi campeão em 2013, pelo Atlético Mineiro.

    “Não faço mais grandes planos. Quero ser campeão da Libertadores, isso quero muito e vou dar a vida para isso. Eu acho que se parar adoeço de vez. Estou a vida inteira nisso, é muito difícil. A família cobra, ainda mais depois do que aconteceu, mas vou seguir por enquanto”.

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