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Aranha sobre racismo: ‘Causo um constrangimento necessário’

Luta do goleiro ganhou destaque após ser chamado de macaco em jogo contra o Grêmio, em Porto Alegre

Por Estadão Conteúdo - 23 Oct 2017, 11h55

Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, tornou-se um militante da questão racial no Brasil muito anos antes de ter sido chamado de “macaco”, quando defendia o Santos, por torcedores do Grêmio, em jogo pela Copa do Brasil, em 2014. Estudioso, o goleiro da Ponte Preta cita de memória autores e passagens da história do negro no Brasil e luta contra a vitimização e uma visão distorcida dos fatos.

Aranha se tornou uma referência no tema e costuma ser convidado com frequência para dar palestras em escolas e instituições federais. Antes da Olimpíada, ao lado da judoca Rafaela Silva, foi uma das estrelas da campanha “Por uma Olimpíada sem racismo”, do Ministério da Justiça e Cidadania. Tem preocupação extrema com o que chama de vitimização. “Já ouvi várias vezes que estava me aproveitando da situação para me colocar como vítima. Em alguns casos, quem sofre injúria racial no Brasil é visto como culpado”, critica o jogador de 36 anos.

Pelo mesmo motivo, Aranha costuma recusar os convites para programas esportivos. “Acabei abrindo mão da minha carreira por causa dessa situação. É o mesmo que acontece quando um cantor se nega a ir a um programa de rádio. Ele enfrenta dificuldades depois. Não vou porque vão dizer que eu estou usando o tema do racismo para me promover. É uma inversão”, afirma o goleiro.

Em 2014, antes do julgamento na esfera esportiva do caso, dirigentes gremistas sustentaram a tese de que ele havia sido o responsável pelos xingamentos ao provocar a torcida fazendo cera. A carreira do goleiro oscilou depois do episódio. Em janeiro de 2015, o goleiro saiu do Santos em litígio judicial, reclamando de salários atrasados. No mês de seguinte, assinou com o Palmeiras, mas teve poucas chances de jogar. Voltou para a Ponte, onde foi revelado, conseguiu se reafirmar, mas agora o time briga para não cair no Campeonato Brasileiro.

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Aranha não enxerga aumento dos casos de injúria racial, mas sim das denúncias. Acredita que uma fortalece a outra e assim por diante. Também destaca o poder da mídia. “Com essa expansão da mídia e maior cobertura do futebol, muitas coisas ruins diminuíram, entre elas a injúria racial. Era uma coisa comum e normal. Por isso, muitos nunca tocaram no assunto”, avalia.

Torcedora do Grêmio flagrada insultando racialmente Aranha vive no anonimato

A mudança de endereço, a busca pelo anonimato e até a troca da cor de cabelo não fizeram com que Patrícia Moreira conseguisse uma vida nova. Ela luta para deixar de ser a cara do racismo após ter sido flagrada pela TV xingando Aranha no jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil em 2014, em Porto Alegre. “Depois que ela se tornou a imagem da injúria racial do futebol no Brasil, ela ainda está tentando levar sua vida de volta à normalidade”, explicou o advogado Alexandre Rossato.

Patrícia viveu fases distintas ao longo desses três anos. Sua casa foi apedrejada e incendiada e ela sofreu ameaças nas redes sociais. Dias depois, chegou a ser cumprimentada no voo a São Paulo para uma das raras entrevistas que concedeu, à TV Globo. Ela não dá entrevistas e está processando um programa de televisão pela divulgação de imagens de sua mãe sem sua autorização. Atualmente, passa por tratamento psiquiátrico oferecido voluntariamente por um amigo do advogado.

No lugar de uma pena de um a três anos de reclusão, ela aceitou se apresentar a uma delegacia uma hora antes de cada jogo do Grêmio em Porto Alegre durante seis meses, pena que já foi cumprida. “Não foi um ato racista. Ela disse aquilo no calor da emoção”, defende o advogado. Após cinco anos ininterruptos assistindo aos jogos do clube nas arquibancadas, a torcedora nunca mais foi a um estádio. Tentou pedir desculpas ao goleiro Aranha, que não aceitou se encontrar com ela.

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