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Morre no Rio o escritor Millôr Fernandes

Por Da Redação
28 mar 2012, 12h06

Morreu nesta terça-feira, aos 88 anos, o escritor, jornalista e cartunista Millôr Fernandes. Ele havia sofrido um acidente vascular cerebral em fevereiro de 2011, e teve duas longas internações durante o ano. Morreu em sua casa, de parada cardíaca, às 21h de ontem.

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Embora seja mais conhecido do público como humorista, Millôr foi um intelectual como poucos, e participou de grandes momentos da imprensa brasileira do século XX. Foi um dos responsáveis pelo fenômeno editorial da revista O Cruzeiro, que chegou a ter tiragem de 750 mil exemplares nos anos 1950, e um dos fundadores do lendário O Pasquim, tablóide que se tornou símbolo da resistência à ditadura militar. Em VEJA, no Jornal do Brasil, no Correio Brasiliense, em O Estado de São Paulo e outros jornais, deixou a marca de um humor inteligente e ácido, que produziu frases antológicas como “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, ou “”A justiça pode ser cega: mas que olfato!”

Millôr era um intelectual inquieto. Publicou dezenas de livros, mas dizia que não tinha obra (“É coisa de pedreiro”). Tradutor de Shakespeare, Molière e Brecht, foi um dramaturgo premiado – entre as peças que escreveu, destacam-se Um Elefante no Caos e Liberdade, Liberdade (com Flávio Rangel). Como se não bastasse, reivindicava o título de inventor do frescobol, e foi vice-campeão mundial de pesca ao atum na Nova Escócia, em 1953. Seu perfil no Twitter tinha 285 mil seguidores.

Nascido no Méier, bairro da zona Norte do Rio, em 16 de agosto de 1923, Millôr foi registrado – com quase um ano de atraso – como Milton Viola Fernandes, e acabou adotando o nome que se conseguia ler na certidão de nascimento. Órfão muito cedo de pai e de mãe, teve uma infância dura – dickensiana, em sua própria definição, na biografia publicada no Facebook. “O período dickensiano, vendo o bife ser posto no prato dos primos, sem que o órfão tivesse direito. A família dispersa, os quatro irmãos cada qual pro seu lado, tentando sobreviver.”

Começou a trabalhar aos 13 anos em O Cruzeiro, junto com seu irmão Hélio, que depois seria o combativo e polêmico jornalista diretor do jornal Tribuna da Imprensa. Tornou-se um autodidata radical. Foi trabalhando que aprendeu tudo o que sabia fazer. E só parou de trabalhar quando sofreu o AVC. Em 2004, quando sua obra começou a ser relançada pela Editora Desiderata, disse a VEJA que continuava a fazer “dez coisas por dia”. “Se não faço, me sinto um fracassado”, explicou.

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Millôr Fernandes, que não era um saudosista, só admitia ter saudade de Ipanema nos anos 1960. “Fui morar lá em 1954. Meu edifício foi o primeiro, tive que espantar os índios da praia”, disse, em entrevista ao jornalista Sérgio Rodrigues, em 2008. Ele teve dois filhos – Ivan e Paula – com Wanda Rubino Fernandes. E deixa também um neto, Gabriel. O velório será nesta quinta-feira, das 10h às 15h, no Memorial do Carmo, no Caju, Rio de Janeiro. A cerimônia de cremação será restrita à família.

Nota da presidência – Em nota oficial, a presidente Dilma Rousseff lamentou a morte de Millôr, a quem se refere como “gênio brasileiro” e “ícone do humanismo”, e conclui: “Com sua morte, o Brasil e toda a nossa geração perdem uma referência intelectual.”

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também divulgou nota oficial na qual diz que Millôr é “indispensável”. Leia a íntegra:

O Rio de Janeiro perdeu hoje, com a morte de Millôr Fernandes, não apenas um homem fantástico, mas grande parte de seu humor e leveza. Jornalista, escritor, desenhista, tradutor, humorista: são tantos os talentos desse carioca nascido no Méier que se tivesse de escolher uma palavra apenas para defini-lo seria ‘indispensável’. Millôr foi uma figura ímpar na história recente dessa cidade, tendo participado ativamente da fundação do Pasquim e da luta intelectual contra a ditadura militar. Mas, principalmente, por ter travado uma batalha incessante contra a ignorância política, os desvios éticos e a “legalização da corrupção”, sempre usando o humor afiado como sua principal arma.

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