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São Paulo e o eterno desafio de acabar com a Cracolândia

Governo e prefeitura lançam mais um plano para tentar solucionar problema no centro da cidade. Por enquanto, só conseguiram dispersar os usuários de crack

Por Bruno Huberman - 5 jan 2012, 05h59

“Não se trata o dependente químico pela razão, mas pela dor”, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, coordenador de Políticas sobre Drogas do estado de São Paulo

A prefeitura e o governo de São Paulo iniciaram nesta terça-feira um novo plano para acabar com a Cracolândia, que há quinze anos faz parte do cenário da região central da capital. São cerca de 400 pessoas que passam dias e noites usando drogas livremente e a céu aberto na região da Rua Helvétia, próximo a Estação Júlio Prestes. Andam com o olhar perdido, envoltos em farrapos e cobertores. O local sofreu inúmeras intervenções ao longo desses anos, sempre fracassadas. As operações apenas dispersaram os usuários de drogas – como, por enquanto, aconteceu após a operação dessa semana. A reportagem de VEJA circulou pela região e constatou que, com a Cracolândia isolada pela polícia, dezenas de pessoas se espalharam pelo Largo do Arouche e pela Praça da República, caminhando sem rumo e com cachimbos de crack nas mãos. A última ação efetiva ocorrida na região foi em 2009, já na gestão Gilberto Kassab (PSD). E também não teve sucesso em resolver o problema. Esta nova investida faz parte do projeto Nova Luz, que pretende revitalizar a área central da capital. Para o chefe das operações, o comandante da Polícia Militar de São Paulo, coronel Álvaro Camilo, o principal objetivo é “resgatar as pessoas e diminuir a criminalidade”. A tática da polícia é eliminar o tráfico de drogas da região para permitir a ação de agentes sociais e de saúde. Tarefa esta que, se bem sucedida, seria inédita. Na visão das autoridades, apenas quando não tiver droga à disposição, o usuário vai aceitar e buscar a reabilitação. “Não se trata o dependente químico pela razão, mas pela dor”, afirmou o coordenador de políticas sobre drogas do estado, Luiz Alberto Chaves de Oliveira. Para o professor em psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Ronaldo Laranjeira, a solução encontrada pelo governo é ingênua e não abrange a complexidade da situação. Laranjeira é um dos maiores especialistas do Brasil no tratamento de usuários de crack e entende que a ação dessa semana é mais do mesmo. As mesmas pessoas que agora tentam eliminar a Cracolândia fracassaram há dois anos. Para o psiquiatra, não há motivos para acreditar que agora, com a estrutura de tratamento disponível, será diferente. “A cidade de São Paulo ainda não está preparada para combater o crack e tratar os seus dependentes como deveria”, afirma o psicanalista. O plano do governo prevê três etapas: a primeira, essencialmente policial, busca eliminar o tráfico de drogas. A segunda enfatiza o lado social e de saúde – para ela, estará disponível um centro de convivência para 1.200 pessoas na Rua Prates, no Bom Retiro, previsto para ser inaugurado no dia 30 de janeiro. A terceira servirá para consolidar as ações da etapa anterior e evitar que as pessoas tratadas voltem às ruas, o que aconteceu nas outras vezes em que se tentou resolver o problema. O que pode fazer a diferença desta vez é que, nos últimos anos, o governo do estado e a prefeitura criaram uma rede de atendimento ao usuário de drogas com clínicas de reabilitação de longo prazo que antes não existiam, com período de internação de três meses. “Não tínhamos essa estrutura nas outras operações. Hoje, São Paulo está preparada para enfrentar esse problema”, afirma o coronel Álvaro Camilo. “A maior dificuldade que encontramos nos últimos anos foi convencer o usuário a se tratar. Isso deve ser solucionado.” O professor da Unifesp diverge do método de execução do plano. Em primeiro lugar, diz Laranjeira, é preciso fazer uma forte campanha de intolerância ao uso público da droga. “Em nenhuma cidade grande do mundo se toleraria o uso público da droga como se tolerou em São Paulo”, afirma o psiquiatra. Ele também acredita que os atuais meios públicos de tratamento ao dependente no município, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são ineficientes. No combate ao crack, para Laranjeira a ingenuidade do poder público se concentra em dois pontos: não compreender o usuário de crack como um dependente químico diferente, com comportamentos de consumo singulares, e menosprezar a força do tráfico de drogas na cidade. “Com o tráfico pulverizado do jeito que está na cidade, espalhado em todos os cantos, achar que o usuário vai te procurar porque você cortou o suprimento em alguns quarteirões é um pensamento muito ingênuo”, diz. “Vão surgir várias ‘mini-cracolândias’ pelo centro como das outras vezes.” Internação compulsória – Um ponto controverso quando o assunto é crack é o da internação compulsória. Laranjeira entende que este tipo de intervenção é necessária quando o dependente químico corre risco de vida e não compreende o perigo que enfrenta. “A internação compulsória é importante principalmente com mulheres grávidas e crianças porque elas, mais do que ninguém, correm altos riscos de saúde”, afirma. Segundo a PM, entre os quatrocentos usuários fixos da Cracolândia, sessenta são crianças e vinte, grávidas. Esse método de tratamento tem sido evitado pelas autoridades paulistas. De acordo com o coronel Camilo, das quatrocentas vagas específicas para a reabilitação de dependentes químicos no estado, poucas são para internações compulsórias. “Não podemos obrigar as pessoas a irem para os abrigos”, diz o comandante da PM. A vice-prefeita e secretária municipal de Assistência Social, Alda Marco Antônio, lembra que a prefeitura busca a família do usuário antes e depois da internação, para ajudá-lo ao longo do processo de reabilitação.

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