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Como a PF desmontou o tráfico no Porto de Santos

Operações da Polícia Federal apreenderam 3,7 toneladas de cocaína no maior porto do país. E os desdobramentos ainda não terminaram

Por Felipe Frazão e Eduardo Gonçalves Atualizado em 10 dez 2018, 09h55 - Publicado em 5 abr 2014, 18h07

Uma operação da Polícia Federal (PF) evidenciou nesta semana a fragilidade da segurança no Porto de Santos (SP), o mais importante do país. Mesmo com a instalação de scanners na alfândega nos últimos dois anos, traficantes de drogas tentaram, sem sucesso, enviar do Brasil para a Europa, África e América do Norte 3,7 toneladas de cocaína. Essa quantidade é equivalente ao total do que foi apreendido pela PF entre março de 2013 e o último domingo.

As operações Hulk e Oversea da Polícia Federal identificaram dezenas de células criminosas operando no litoral paulista. Elas se articularam com traficantes da Bolívia e da Colômbia, responsáveis por fornecer a droga. Um dos pontos que mais impressionaram os investigadores foi o contato direto, por telefone e internet, entre fornecedores estrangeiros de cocaína e os pequenos traficantes da Baixada Santista ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) – a facção criminosa que domina os presídios do Estado.

Mais de 1,3 milhão de diálogos dos traficantes foram grampeados, com autorização da Justiça, pelo Grupo de Análise da PF de Santos. E-mails também foram interceptados. Apenas seis agentes coordenaram as escutas e produziram os relatórios de inteligência da Oversea. As operações Hulk e Oversea, classificadas por delegados como as maiores da PF no litoral paulista, foram deflagradas na segunda-feira, em meio a movimentos de classe sindical de agentes e escrivães da PF. Eles reclamam de falta de estrutura, sucateamento e desvalorização salarial da carreira e ensaiam greves por todo o país.

Números das operações da PF

1 ano de investigações

6 agentes de inteligência (Oversea)

23 presos na deflagração

69 presos desde o início da operação

23 foragidos

1,3 milhão de diálogos interceptados

130 números telefônicos grampeados

3.7 toneladas de cocaína

230 mil euros

440 mil dólares

10 veículos

2 embarcações (uma lancha e um catamarã)

19 pistolas e revólveres

2 fuzis

350 policiais mobilizados na deflagração

Apesar das manifestações e de uma disputa interna de poder entre delegados e agentes, os policiais apreenderam 3,2 toneladas em Santos (área da Oversea) e outra meia tonelada na capital paulista e no interior do Estado (área da Hulk). As operações tinham um alvo comum, o funcionário de um armador que trabalha há mais de dez anos no porto direcionava as quadrilhas às embarcações que navegariam até o destino da droga: Europa, África e América do Norte. As operações são tratadas pela PF como as maiores já registradas. E os desdobramentos ainda não terminaram.

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Depois de importar a droga da Bolívia e da Colômbia, os traficantes brasileiros enviavam a cocaína dentro de malas e mochilas para armazéns específicos conhecidos pela sigla redex (recinto especial para despacho de exportação). Há 47 deles registrados por empresas privadas no Porto de Santos.

Os produtos exportados pelo Brasil ficam armazenados nesses locais em contêineres antes de serem lacrados, pesados e transportados para os navios. Cabia ao armador indicar em que redex a droga deveria ser inserida nos contêineres. Ele também orientava em que tipo de carga as malas de cocaína deveriam ser escondidas para evitar fiscalização: commodities como café e celulose, por exemplo. As malas eram jogadas de forma grosseria e muitas vezes ficam visíveis no scanner, como mostram imagens obtidas pelo site de VEJA.

Pagamento – Prestadores de serviço cooptados pelas quadrilhas ficavam responsáveis por abastecer os contêineres com a cocaína. Eles recebiam cerca de 1.500 dólares por quilo da droga embarcada, de acordo com policiais federais ouvidos pelo site de VEJA. Segundo a Polícia Federal, até o momento não houve identificação de servidores públicos e donos de empresas ou navios envolvidos no esquema.

A cocaína exportada era de alto padrão, com pureza acima de 92%. Os fornecedores as identificavam com símbolos de empresas, como Toyota, Apple e até o personagem de desenho animado Pica-Pau.

As quadrilhas escolhiam o tipo da droga de acordo com a exigência do destinatário final. As principais rotas eram para a Europa e passavam pelos portos da Antuérpia (Bélgica), Valencia (Espanha) e Las Palmas (Ilhas Canárias). Um carregamento que deveria chegar ao México foi apreendido em Cuba. A PF chegou a monitorar um navio aportar na Itália com a cocaína oriunda de Santos, numa “ação controlada”. Os traficantes europeus ainda estão sendo identificados pelas polícias locais.

No Brasil, a PF prendeu o traficante Suaélio Martins Leda, que usava o nome falso Hélio Alves Leda, e o advogado Carlos Bodra Karpavicius. Leda foi alvo de outras operações similares da PF, como a Capitão Jack, de 2009. Ele é réu na Justiça Federal por tráfico internacional. Leda agia associado ao traficante Ricardo Blanco de Moura, de acordo com o Ministério Público Federal.

Ele importava droga do Paraguai e armazenava em Santos até conseguir despachar em contêineres. Na Oversea, o traficante foi apontado pela PF como o dono de um sítio “de dimensões cinematográficas” em Mogi das Cruzes (SP). O local fica próximo ao KM 74.4 da Rodovia Mogi-Bertioga. As fotografias do sítio registradas durante a Operação Oversea mostram dependências de alto padrão, com lago natural, piscina, deck, jardim ornamentado e duas quadras, sendo uma de tênis. O sítio estaria em nome de uma offshore uruguaia, segundo policiais. A PF também apreendeu uma catamarã de cerca de 70 pés de comprimento, supostamente em nome de Bodra.

Bahia – Outra quadrilha desmantelada na Oversea era liderada pelo ex-policial militar da Tropa de Choque Angelo Marcos Canuto da Silva, o Fusca. Canuto é ex-presidiário e atuava como empresário de jogadores de futebol e de boxeadores na Plus Sports. No site da agência de marketing esportivo, ele aponta como “agenciados” jogadores de clubes da elite nacional como Corinthians, Flamengo, Botafogo e Sport. Canuto também é sócio de uma transportadora, a Stillos Express, com sede declarada em São Paulo.

A célula operada em Santos e São Paulo por Canuto, João dos Santos Rosa e mais um comparsa enviou cocaína para a Europa também pelo Porto de Salvador, na Bahia. A inteligência da PF interceptou telefonemas em que os criminosos comentam a ação. Eles também buscavam outra rota de exportação pelo Sul do país, depois que as apreensões se intensificaram no fim do ano passado no litoral paulista.

PCC A quadrilha de Canuto transportava a droga dentro do painel e sob os bancos de carros de luxo, como SUVs. Durante uma apreensão, a PF encontrou 50 quilos de cocaína e uma conta de luz dentro de um automóvel. Ao chegar ao endereço do imóvel na conta de energia, uma casa em Bertioga (SP), os federais localizaram mais 400 quilos de cocaína.

A célula criminosa de Canuto era ligada ao traficante boliviano Rolin Gonzalo Parada Gutierrez, o Federi. Federi está foragido, assim como outros alvos da Oversea, a maioria moradores dos arredores do porto que executavam funções para despachar a droga. Eles eram aliciados por integrantes do PCC na Baixada Santista. Um deles é André Oliveira Macedo, o André do Rap, de 37 anos, também foragido.

Os investigadores também encontraram vínculos dos criminosos com o médico Frederico Chamone Barbosa da Silva, o Dr. Fred Barbosa, que foi candidato a vereador em 2012 pelo PSC, mas não se elegeu. Ele já estava preso desde o ano passado, acusado de tráfico de drogas e envolvimento com o PCC pela Polícia Civil de Santos.

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