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Técnica sueca é bola dentro da CBF. Mas não pode ser só golpe de marketing

Pia Sundhage é uma referência no futebol feminino e, logo, muito bem-vinda. Mas problemas da modalidade devem ser combatidos de baixo para cima

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 25 jul 2019, 18h59 - Publicado em 25 jul 2019, 15h32

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) oficializou nesta quinta-feira, 25, a contratação da técnica sueca Pia Sundhage para dirigir a seleção brasileira feminina de futebol. A chegada de uma das profissionais mais renomadas da modalidade – é bicampeã olímpica com a seleção dos Estados Unidos e especialista em desenvolver jovens talentos – representa um grande avanço depois de anos de ideias pobres e apatia de Oswaldo Alvarez, o Vadão, seu antecessor. A seleção certamente está em boas mãos, mas e o processo que levará novas meninas até ela? Os avanços são notórios, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

O presidente da CBF, Rogério Caboclo, disse estar atento. “A escolha da Pia reflete a nova dimensão que vamos imprimir ao futebol feminino no Brasil. A partir da sua chegada, desenvolveremos um planejamento totalmente integrado entre a seleção principal e a base, equilibrando objetivos de curto prazo, como Tóquio 2020, com a renovação contínua dos nossos talentos”, garantiu. No entanto, promessas semelhantes já foram feitas por diversos cartolas ao fim de cada Mundial e Olimpíada. E a autocrítica não vem sendo o forte da entidade. Para Marco Aurélio Cunha, o contestado coordenador da CBF que até o momento segue no cargo, os últimos trabalhos foram “bons”, ainda que os resultados e as atuações escancarassem o oposto. Mas é injusto culpar Vadão ou Marco Aurélio, congelados na ponta do iceberg, por todos os problemas nas profundezas do futebol feminino.

Pois até mesmo os avanços precisam ser relativizados. Atualmente, os grandes clubes do país possuem equipes femininas, mas isso se dá muito mais por questões legais (é uma exigência, esta sim louvável, da CBF, da Conmebol e da Fifa) do que propriamente por boa vontade. Diversas agremiações – incluindo o Palmeiras, a mais rica do país –, optaram por “terceirizar” suas equipes por meio de fusões ou parcerias ao invés de abraçar o projeto de corpo e alma. E até mesmo Corinthians e Santos, clubes com trabalhos mais sólidos e longevos do país, ainda apresentam falhas graves, como contratos amadores, sem carteira assinada, no caso do primeiro, e infraestrutura de baixa qualidade, na equipe do litoral.

“Mais importante do que o nome do treinador é ter um projeto. É o momento de pensarmos em longo prazo, pois está provado que há vários países à nossa frente. É preciso desenvolver as ligas antes da seleção”, afirmou Aline Pellegrino, ex-capitã do Brasil, que hoje atua como diretora de futebol feminino da Federação Paulista, durante evento de promoção da segunda fase do Paulistão. Na carona do sucesso da Copa do Mundo da França, que bateu recorde mundial de audiência no Brasil, Aline acredita que o momento é realmente de virada. “Dá para ver um interesse maior de três setores fundamentais: imprensa, torcida e patrocinadores. Isso nos dá confiança.”

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Mas para que haja maior interesse geral, as estrelas do espetáculo também precisam ter consciência de seus papéis e estar dispostas a vender seu peixe. Descontando, claro, o abismo entre o soccer lá e cá, a americana Megan Rapinoe mostrou o caminho nesta Copa: além de atuações brilhantes, que lhe renderam os troféus de campeã, artilheira e melhor jogadora, a craque dos cabelos roxos se tornou uma voz de peso do esporte, pregando respeito e tolerância. Mais importante do que o bate-boca público com Donald Trump, foram seu protestos por igualdade salarial e melhores condições junto à federação americana. A Rainha Marta, em menor medida, também fez o seu papel. 

Não dá para esperar que um atleta, homem ou mulher, peite a CBF publicamente, mas já é possível notar o discurso de Rapinoe ecoando. Outras atletas além de Marta, Cristiane e Formiga, a sobrecarregada “Santíssima Trindade” do futebol feminino nacional, têm se organizado para debater as pautas da modalidade. “O sentimento pós-Copa é bom, mas não podemos deixar cair. É um movimento natural, uma vai dando coragem uma para outra. Precisamos falar mais”, afirmou a zagueira Erika, de 31 anos, uma liderança da seleção e do Corinthians.

Justiça seja feita: CBF e Federação Paulista se mostram abertas ao diálogo e vêm adotando medidas iniciais louváveis, mas é fundamental que não passe apenas de jogo de cena. Pois, no país que se especializou, no esporte e na política, a buscar a figura do “salvador da pátria”, Pia Sundhage pode acabar como apenas a mais nova vítima do sistema. É preciso dar-lhe tempo e autonomia. E se preocupar com os outros e maiores problemas. 

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