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Churrasco e autógrafos de Messi: como Conmebol conseguiu vacinas de graça

Reportagem do diário argentino 'La Nación' detalhou os bastidores da negociação; Sinovac decidiu doar doses em troca de reforço de publicidade

Por Da Redação Atualizado em 16 abr 2021, 13h27 - Publicado em 16 abr 2021, 13h21

A Conmebol anunciou, com pompa, na última terça-feira, 13, um acordo com o laboratório chinês Sinovac Biotech, que doou 50.000 doses de vacinas contra a Covid-19 a serem distribuídas a atletas e membros de comissão técnica, visando a segurança da Copa Libertadores e, especialmente, da Copa América. Nesta sexta-feira, 16, o diário argentino La Nación narrou os bastidores da polêmica negociação, que teve início em um animado churrasco em Montevidéu, no Uruguai, e envolveu até mesmo camisas autografadas de Lionel Messi.

Tudo teve início quando a Fifa surpreendeu ao adiar a janela dupla das Eliminatórias Sul-Americanas, atendendo a apelos de clubes europeus que não queriam liberar seus jogadores para viagens internacionais em meio à pandemia. Com isso, a Conmebol se deu conta de que apenas vacinando os atletas conseguiria realizar suas competições sem maiores contratempos. A entidade, então, fez contato com diversos laboratórios como Pfizer, Moderna, Oxford/Astra Zeneca, Johnson & Johnson, mas ouviu de todas elas que este tipo de negociação só seria feita com os governos nacionais.

Eis que um bom churrasco portenho começou a mudar o cenário. Há um mês, o presidente da Conmebol, o paraguaio Alejandro Domínguez , esteve em Montevidéu para visitar o recém-inaugurado centro de treinamento do Montevideo City Torque, clube que faz parte do City Group, empresa de Abu Dhabi que controla, entre outros clubes, o Manchester City. Já na casa de um amigo comum de Domínguez e do presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, o chefe da Conmebol expressou sua preocupação com a falta de vacinas e lembrou que o Paraguai, país onde está sediada a Conmebol, não mantém relações comerciais com a China.

Lacalle Pou prometeu ajudar. Ainda de acordo com o La Nación, o presidente uruguaio instruiu seu embaixador na China, Fernando Lugris, a gerar contato entre a Conmebol e a Sinovac. Em seguida, também disponibilizou o secretário da Presidência, Álvaro Delgado. “A relação com os chineses começou a andar e Lacalle Pou se atualizava frequentemente sobre o andamento”, contou uma fonte da Conmebol.

No início, a Sinovac disse ser impossível disponibilizar as 150.000 doses pedidas pela Conmebol, que pretendia pagar pelos imunizantes. “Precisamos de um gesto humanitário e que nos vendam 150.000”, apelou a confederação; o laboratório insistiu que não tinha tantas doses disponíveis e a Conmebol passou a diminuir a pedida.

  • Material de campanha da Sinovac
    Material de campanha da Sinovac Sinovac/Reprodução

    “Temos 50.000 disponíveis”, responderam os chineses,  em uma das várias reuniões virtuais, segundo a apuração. “Negócio fechado”, comemorou, então, a entidade.  Os asiáticos, então, surpreenderam: “A Sinovac está disposto a doá-los.”

    A Conmebol aceitou e redobrou a aposta, dizendo que compraria outras 50.000 doses. A Sinovac, no entanto, e disse se tratar de uma doação para a Copa América, sob uma condição: “Queremos que este acordo seja conhecido. Mostre que a Sinovac foi a empresa que doou as vacinas para o futebol sul-americano ”

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    Acordo feito e a Sinovac fez questão de estampar sua marca em diversos materiais de divulgação. “A Sinovac se orgulha de ser parceira oficial da Copa América 2021 Argentina-Colômbia na área da saúde”. A Conmebol ainda retribuiu o agrado com três camisas do Barcelona assinadas por Lionel Messi, enviadas para gerentes do laboratório chinês.

    De Luque, cidade paraguaia onde está sediada a confederação sul-americana, chega a mensagem: “Nosso objetivo é proteger todo o ecossistema do futebol”. A Conmebol ainda celebra o fato de ter obtido o acordo antes mesmo da Uefa, que segundo fontes ouvidas pelo Na Lación, deve anunciar um acordo semelhante na próxima semana, para a realização da Eurocopa.

    Nota-se, portanto, que não se trata apenas de uma questão de saúde, mas também de publicidade. Antes, em 11 de março, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou parceria semelhante, com o governo chinês, para o fornecimento de vacinas contra a Covid-19 para as delegações da Olimpíada, marcada para 23 de julho e 8 de agosto, e Paraolimpíadas, entre 24 de agosto a 5 de setembro, e também para os Jogos de Inverno de Pequim, em 2022.

    O gesto foi imediatamente visto como uma forma de a China melhorar sua imagem diante da comunidade internacional. Ativistas vêm tratando a Olimpíada de Inverno de Pequim como “Jogos Genocidas”, relacionando o evento a conflitos em Hong Kong, Tibet e a repressão contra os uyghurs, uma minoria étnica muçulmana que vive nas fronteiras da China com o Afeganistão, Cazaquistão e o Quirguistão.

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