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Recorde, falhas e ‘clubismo’: as transmissões do Fla-Flu no YouTube

Após batalhas judiciais, canal FluTV mostrou final com exclusividade e FlaTV teve de se contentar com narração sem imagens. Em ambos, a isenção passou longe

Por Luiz Felipe Castro, Alexandre Senechal - Atualizado em 30 jul 2020, 15h58 - Publicado em 9 jul 2020, 01h11

Em uma decisão que começou nos tribunais, com uma série de reviravoltas, indefinições e uma verdadeira batalha de notas oficiais, no fim, quem fez a festa foi o Fluminense, dentro e fora de campo. Mandante do jogo sem torcida no Maracanã, e, portanto, responsável pela transmissão da final com base na Medida Provisória 984/2020, o clube tricolor bateu o Flamengo nos pênaltis, após empate em 1 a 1 na noite desta quarta-feira, 8, e garantiu o título da Taça Rio, o segundo turno do Campeonato Carioca. Turbinado pela audiência de tricolores e rubro-negros, o canal FluTV bateu o recorde de audiência em transmissões ao vivo no YouTube, enquanto a FlaTV, do rival, exibiu apenas o áudio do jogo – e alguns replays, que, em tese, não poderia. Em ambos os casos, sobraram falhas técnicas e comentários que não seriam ouvidos em uma transmissão “tradicional”.

A polêmica sobre quem poderia mostrar a decisão se arrastava havia dias, com Flamengo, Fluminense, Globo, federação carioca, advogados e juizes como protagonistas. Horas antes do jogo, o Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro concedeu ao clube rubro-negro o direito de passar o jogo na FlaTV – uma ação que, na prática, desrespeitava tanto a MP 984/2020 quanto o regulamento do Estadual. Neste momento, o Flamengo não deixava claro se iria ou não se fazer valer desta possibilidade. A certeza veio minutos antes de a bola rolar, quando o Superior Tribunal de Justiça Desportiva derrubou a decisão do TJD-RJ e definiu que apenas o Fluminense tinha tal direito. A partir daí, começou o “show de clubismo” nas transmissões.

Recorde absoluto e galhofa entre rivais

Como era de se esperar em um jogo envolvendo duas enormes torcidas, o Fla-Flu bateu o recorde entre todas as transmissões ao vivo do YouTube no mundo, com mais de 3,6 milhões de pessoas assistindo ao mesmo tempo, superando a marca de 3,3 milhões que era da live sertaneja de Marília Mendonça. A torcida flamenguista mostrou sua força em uma campanha de “dislike” no canal do Flu. Foram 436 000 cliques no botão negativo, contra 400 000 “joinhas” dos tricolores. Alguns rivais até aderiram ao recurso de doações em dinheiro – não sem deixar a sua provocação. A gozação incluía desde “ajudar a pagar a Série B”, até “para ajudar no INSS do Fred”, veterano atacante recém-contratado que não jogou por sentir dores no pé direito.

Nem Zico escapa dos problemas no pré-jogo

Zico teve problemas de comunicação durante a partida
Zico teve problemas de comunicação durante a partida FlaTV/Reprodução

Até pouco antes de o jogo começar, a audiência na FlaTV era bem maior (cerca de 800 000 a 400 000), no momento em que a transmissão rubro-negra recebeu o maior ídolo da Gávea. A videochamada com Zico, porém, foi repleta de lambanças. Durante vários momentos, o Galinho não escutava o que narrador Emerson Santos e seu ex-colega de time, o comentarista Raul Plassmann, diziam. Zico chegou a ficar sozinho no quadro, em silêncio, e uma mesma piada teve de ser contada três vezes pelo ex-goleiro Raul. Todos, porém, contornaram a situação, que seria bem mais embaraçosa em uma transmissão “clássica” de TV.

A equipe da FluTV também enfrentou problemas de áudio. Em algumas ocasiões, os microfones eram ligados com atraso, após o início da fala dos comentaristas. Em outras, os participantes falavam por cima dos outros, por um aparente problema no retorno. O narrador Anderson Cardoso chegou a reclamar após uma final de uma propaganda durante o intervalo. “Não estou ouvindo mais nada. Está desligado?”.

Na sequência, no exato momento em que o STJD derrubou a liminar que dava ao Flamengo o direito de transmitir o jogo, o presidente rubro-negro Rodolfo Landim entrou em cena no canal flamenguista e ouviu a pergunta que todos queriam saber: “O jogo será transmitido na FlaTV?”. O mandatário manteve a discurso das últimas notas oficiais, insistiu em um suposto imbróglio entre o rival e a Globo (que o Fluminense sempre negou) e explicou que o canal rubro-negro só passaria a final caso a FluTV não o fizesse.

Na FlaTV, ‘Mister’ e até VAR; na FluTV, só um time jogou

Transmissão da FlaTV mostrou o técnico Jorge Jesus na beirada do campo
Transmissão da FlaTV mostrou o técnico Jorge Jesus na beirada do campo FlaTV/Reprodução

Quando a bola começou a rolar (apenas na FluTV), o canal do Flamengo seguiu com a narração em áudio e passou a mostrar apenas as reações do treinador Jorge Jesus em um quadro e a cabine de transmissão em outro. O recorde em transmissões esportivas no YouTube, que era de 2,1 milhões na partida entre Flamengo e Boavista, há uma semana, foi superada na FluTV ainda aos 13 minutos do primeiro tempo. A “guerra de notas oficiais” não cessou: no início do primeiro tempo, o Fluminense emitiu comunicado questionando: de que é feito um time campeão? “Uma indagação se faz necessária neste momento em que se encerra o Campeonato Carioca de 2020: valeu a pena? Deu orgulho? E seu filho, o que aprendeu? Que valores ele internalizou ao acompanhar os acontecimentos deste campeonato?”, diz um trecho.

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Bola rolando e nada de Gabigol ou Bruno Henrique. E nem foi por causa da apagada atuação da dupla de ataque rubro-negra. A transmissão da FluTV não fazia questão nenhuma de citar o nome dos jogadores, tampouco do Flam…. “clube rubro-negro”. No primeiro lance de perigo do Tricolor, em uma cabeçada de Gilberto, o narrador Anderson Cardoso demorou alguns segundos para falar o nome do goleiro Diego Alves, que fez firme defesa. O camisa 1 foi um dos únicos que teve o nome citado algumas (poucas) vezes. A omissão irritou não só os flamenguistas, mas torcedores de outros clubes, que passaram a questionar este tipo de transmissão “clubista” nas redes sociais. Na segunda etapa, talvez informado pela produção, Anderson passou a falar um pouco mais os nomes dos flamenguistas.

O principal lance do primeiro tempo proporcionou outra situação pitoresca. No gol de Gilberto, no fim do primeiro tempo, a arbitragem recorreu ao auxílio do árbitro de vídeo. No entanto, quem mais mostrou o replay do lance, diversas vezes, foi a FlaTV, que, em tese, não poderia fazê-lo. “Estava impedido, sem dúvida nenhuma”, cravou o comentarista rubro-negro Raul Plassmann, ainda que o lance fosse bastante discutível. A transmissão tricolor mostrou apenas uma rápida repetição do lance, sem as linhas traçadas dos tradicionais “tira-teimas”, e o gol foi validado sem que os espectadores pudessem saber se a arbitragem acertou ou não.

Lance do gol reprisado na FlaTV
Lance do gol reprisado na FlaTV FlaTV/Reprodução

Som ambiente e excesso de propagandas

Quem acompanhou o jogo pela FluTV pôde compreender a expressão “tentar ganhar no grito”. Com o estádio vazio e aparentemente mais microfones na região dos bancos de reservas do que nas últimas transmissões feitas pelo Flamengo, foi possível ouvir os treinadores reclamando com a arbitragem e algumas faltas serem marcadas após os berros dos técnicos. Odair Hellmann foi mais barulhento do que Jorge Jesus. As broncas do técnico do Fluminense, principalmente sobre o lateral-esquerdo Egídio, foram captadas em alto e bom som.

Se o nome dos jogadores do Flamengo era “escondido” na transmissão tricolor, não faltaram inserções aos patrocinadores do clube. O mais citado foi um aplicativo de entregas de bebidas. A propaganda com um cupom de desconto de uma grande cervejaria apareceu cinco vezes somente no primeiro tempo – algo incomum nas tradicionais transmissões televisivas, que já fazem questão de expor bastante os apoiadores.

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Gol ‘fantasma’, replays ‘liberados’ e festa tricolor

Nenê discute com rivais; briga foi pouco explorada na transmissão
Nenê discute com rivais; briga foi pouco explorada na transmissão FluTV/Reprodução

Na segunda etapa, o “clubismo” seguiu presente, com expressões como “mão de pau” para tratar o goleiro adversário. A FlaTV também pareceu afrouxar suas normas e, mesmo sem ter os direitos de transmissão, exibiu diversos replays dos lances perigosos. O torcedor tricolor sofreu o que mais temia: um gol de uma de suas “crias”. Pouco depois de entrar em campo, o atacante Pedro, formado pelo Fluminense, empatou a partida, mas foi praticamente ignorado pela desanimada narração de Anderson Cardoso, que mal descreveu o lance e só falou, timidamente, o nome de Pedro no final do último replay.

O jogo ficou tenso, com maior pressão flamenguista. A decisão, porém, foi para as penalidades, e um dos momentos mais “quentes”, em que atletas dos dois times bateram boca, não foi exibido em detalhes na transmissão da FluTV, algo que certamente ocorreria numa transmissão padrão de TV, com mais replays e diretores de imagem mais experientes.

“O Pacheco foi ali fazer uma graça? O garoto tá empolgado, emocionado de jogar no Maracanã… Quem é o Pachequinho na fila do pão?”, ironizaram comentaristas do Flamengo, que em seguida narraram de forma bastante tímida a conquista do rival. Já os jornalistas do Fluminense exaltaram o “time de guerreiros”. Ao fim da transmissão na FlaTV, a repórter Luana Trindade teve a chance de fazer o questionamento que vem tirando o sono de torcedores e dirigentes rubro-negros e que qualquer jornalista “independente” faria: Jorge Jesus vai mesmo voltar para o Benfica, como especula a imprensa portuguesa? A pergunta, no entanto, jamais seria feita no canal oficial.

Atletas do Fluminense celebraram o título da Taça Rio no Maracanã
Atletas do Fluminense celebraram o título da Taça Rio no Maracanã FluTV/Reprodução

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