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Nigella Lawson: lugar de mulher é na cozinha

A celebridade das panelas defende que cozinhar é um ato inerente ao universo feminino e, justamente por isso, deve ser valorizado sem sombra de machismo

Por Mariana Zylberkan 5 Maio 2013, 07h33

A cozinheira britânica Nigella Lawson fala na mesma velocidade com que manipula panelas e colheres de pau na TV. O raciocínio só desacelera quando ela faz um paralelo entre a cozinha e o papel da mulher na sociedade, e escolhe as palavras com o cuidado de uma ensaísta. Aos 53 anos, a mulher que se tornou celebridade pela forma espontânea e sexy como fala sobre comida, com 8 milhões de livros publicados em vinte idiomas e um programa de culinária transmitido em diversos países, acredita que ir para a cozinha representa hoje um grito de independência feminino. “As mulheres estão só agora se desvencilhando de olhar para si mesmas sob a perspectiva masculina, que sempre foi a dominante na sociedade. A pena é que nós tivemos que esperar os homens irem para o fogão e se tornarem chefs para sentirmos e assumirmos o prazer em cozinhar”, diz Nigella, que tem seus programas de receitas transmitidos no Brasil pelo canal GNT há oito anos.

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Para ela, a relação conturbada entre a independência feminina e as panelas é decorrente da desvalorização do ato de cozinhar, visto historicamente como uma função menor. “As mulheres cozinham há muito tempo e isso nunca foi uma atividade remunerada.”

Nigella está no país para lançar o livro Na Cozinha com Nigella – Receitas do Coração da Casa (Best Seller, 512 páginas, 99,90 reais). Com 190 receitas, é a maior publicação já lançada por ela no país. Mas, é claro, aproveita a viagem para provar os sabores locais e expandir seu leque de referências gastronômicas. Ao conceder entrevista ao site de VEJA, em um hotel de luxo em São Paulo, ainda estava inebriada com um gosto que acabara de conhecer. “Adorei o purê de mandioquinha”, disse Nigella, que tratou de abastecer sua mala com uma muda do tubérculo para plantar no jardim de sua casa, em Londres.

Foi com a mesma naturalidade com que pega na comida sem luva na TV – prática controversa que já rendeu memes nas redes sociais – que a cozinheira tirou os sapatos para dar entrevista. “Meus dedos são muito compridos”, disse ela, com ar de alívio, sem contudo deixar de se certificar de que não havia câmeras por perto.

A mulher com belos traços faciais não perdeu um pingo da elegância com o gesto e provou que a falta de protocolo, que faz dela uma vítima de piadas na internet, é constante em sua vida. Além de pouco afeita à higiene, ela é apontada como musa do porn food, alcunha que rechaça, apesar da ênfase que dá ao prazer de cozinhar. Evitar perguntas com as palavras “sexy” e “sexo”, que se impõem a uma mulher bela e sensual, foi aliás condição imposta para que a entrevista fosse feita. Leia a seguir a conversa de Nigella Lawson com o site de VEJA.

Como os chefs se tornaram verdadeiras celebridades? Eu represento os cozinheiros e não os chefs. Todos nós precisamos de comida para sobreviver. A partir do momento que temos comida suficiente à disposição, passamos a pensar no paladar. Algumas pessoas veem esse interesse todo por comida como algo supérfluo. Eu vejo da seguinte forma: se você tem mais comida do que precisa para estar vivo, isso deve ser celebrado, você tem sorte.

Esse sucesso tem a ver com a volta das mulheres à cozinha, que havia sido deixada de lado por elas na luta por um lugar na sociedade? As mulheres cozinham há muito tempo e isso nunca foi uma atividade remunerada. Por outro lado, os homens foram remunerados a partir do momento em que foram para a cozinha e se tornaram chefs. Quando lancei o livro How To Be a Domestic Goddess (Como Ser uma Dona de Casa dos Sonhos, em tradução livre), que é um título irônico, fui tachada de machista. Pensando bem, essa era uma crítica antifeminista, como se as mulheres fossem denegridas por ocupar um lugar que sempre foi delas. As mulheres estão só agora se desvencilhando de olhar para si mesmas sob a perspectiva masculina, que sempre foi a dominante na sociedade.

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O lugar ocupado pela comida na sociedade mudou? Na Europa, pelo menos, hoje as pessoas discutem o que vão comer no jantar, algo que não me lembro de ser feito quando era criança. Comer e cozinhar se tornaram atividades sociais valorizadas e deixaram de ser uma tarefa obrigatória da dona de casa. A principal razão que me levou a escrever sobre comida foi ver mulheres da minha geração que nunca aprenderam a cozinhar porque suas mães morriam de medo de as filhas se tornarem donas de casa e não terem uma profissão.

Por isso que houve o tempo quando as mulheres se orgulhavam de dizer que não sabiam nem fritar um ovo? Exatamente. A parte triste é que nós mulheres tivemos que esperar os homens irem para a cozinha e se tornarem chefs para assumirmos o prazer de cozinhar. Eu não sabia da existência de um livro de receitas até os meus 15 anos porque preparar comida era algo automático e cotidiano na minha casa, só fui perceber que nem todas as famílias eram assim quando fui para a faculdade. Por isso, acho difícil escrever receitas. Faço tudo instintivamente, preciso parar para conferir as medidas.

Seu programa de TV ocupa o espaço que era dos livros de receitas feitos para quem aprende a cozinhar? Pode ser que sim, mas tenho dúvidas. Tenho a impressão de que, assim como a lareira era o centro de uma casa no passado, a televisão hoje assume esse lugar. O fogo era o foco principal da vida cotidiana e, agora, são as cores e sons da TV. É estranho as pessoas se sentirem à vontade e terem a impressão de serem íntimas de um estranho que entra em suas casas por um televisor. Percebo isso nas sessões de autógrafos dos meus livros. Pergunto a quem devo fazer a dedicatória e respondem simplesmente “a mim”, sem dar seus nomes, como se eu os conhecesse simplesmente pelo fato de estar em suas casas pela televisão. Vivemos em um mundo estranho em que as barreiras entre realidade e ilusão se confundem.

Você se vê como uma celebridade? Não, isso é algo imposto pela televisão. Não reclamo porque meu trabalho não seria o mesmo se não pudesse compartilhá-lo com outras pessoas. Adoro quando recebo sugestões sobre as minhas receitas e até mudo algumas delas.

O ato de comer se tornou algo superestimado? Quando recebo amigos em casa, a comida não é o foco principal, mas sim a reunião das pessoas. Faço o máximo para a comida passar despercebida. Eu só quero algo que acompanhe as conversas e deixe todos confortáveis. Acho terrível quando a comida é usada como sinal de status. Quase sempre me perguntam qual vai ser o próximo grande prato da moda e eu não faço a mínima ideia. Cozinhar para mim não é fazer uma obra de arte, está mais para fazer artesanato.

Você ficou triste com a morte recente de Margareth Thatcher (Nigella é filha de Nigel Lawson, chanceler do Tesouro no governo de Thatcher)? Não fico triste quando alguém com mais de 80 anos morre. Com todo respeito, mas tive algumas pessoas na minha família que morreram muito jovens. (Em 2001, Nigella perdeu o marido John Diamond, de 48 anos, vítima de câncer na garganta. Oito anos antes, havia perdido a irmã caçula, Thomasina, de câncer de mama, aos 32 anos.)

Você a conheceu? Sim, quando era criança, mas não me lembro direito. Era apenas a chefe do meu pai. Em casa, conversávamos sobre nós mesmos, o trabalho ficava de fora. Não falávamos sobre política.

Você fala sobre comida com seus filhos? Falo, mas não é algo muito importante. Às vezes, peço para eles anotarem a receita enquanto cozinho o jantar, assim os obrigo a escrever à mão um pouco, algo raro nessa geração tecnológica.

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