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“Não quero ser igual, prefiro ser esquisito”, diz Fause Haten

Estilista leva às passarelas da 37ª São Paulo Fashion Week clima lúdico com modelos vestidas como rainhas. “É isso que sei fazer, vestir as mulheres de um modo especial”

Por Raquel Carneiro 2 abr 2014, 10h42

O estilista Fause Haten faz jus à fama de excêntrico. Aplaudido por muitos e rejeitado por outros, Haten, que desfila sua nova coleção nesta quarta-feira na 37ª edição da São Paulo Fashion Week, diz repudiar a padronização da moda, exalta as pessoas que ousam fazer diferente e não se importa se sua roupa é exagerada ou não, já que, por mais “absurda” que seja, ela sai da passarela, vai para a loja que leva seu nome e alguém vai comprá-la. “Meu trabalho é lúdico. Busco o sonho, o escapismo, fugir da realidade, pois a realidade é muito chata”, diz o estilista em entrevista ao site de VEJA. “Se alguém quiser ser rainha, me procure, se quiser só uma camiseta, então não precisa de mim.”

A extravagância de seus desfiles faz com que ele esteja constantemente na lista dos mais aguardados da semana de moda paulistana. No último ano, Haten dispensou as modelos e fez uma apresentação com marionetes em longos vestidos. Em 2013, ele não só assinou a coleção, como assumiu o microfone e embalou a passarela com sua cantoria ao vivo.

Ser cantor, aliás, é apenas uma de suas muitas facetas. Seu último disco, Vício, traz versões autorais de hits famosos de artistas como Chitãozinho e Xororó, Sidney Magal e Cazuza. Além da carreira musical, Haten tem se firmado como figurinista de peças de teatro, escreveu uma autobiografia e, em breve, estreará como ator.

Você anunciou seu desfile da SPFW no Facebook com a frase “me entregue seu corpo e eu te farei rainha”. Este será o tema da sua coleção? Qual a ideia principal? Não gosto de falar sobre temas, nos meus últimos desfiles o público é quem define o tema, acho mais interessante assim. Porém essa frase é a inspiração. Tenho me perguntado qual meu lugar no mercado hoje. E acho que é isso que sei fazer, vestir as mulheres de um modo especial. Tenho uma mão para transformar mulheres, vesti-las para um momento de sonho, de fantasia. Então pensei: é isso, vou fazer o que sei fazer melhor, transformar mulheres em rainhas.Também estou trabalhando com materiais que são meus. Eu faço meus tecidos, minhas texturas e minhas estampas. Quero criar roupas que ninguém tenha.

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Muitos estilistas estão focados mais no produto final para os desfiles do que no espetáculo, já que as roupas de passarela não costumam vender bem nas lojas. Você se mantém na contramão deste pensamento. Pretende manter este caminho por muito tempo? Acho um engano essa história de a roupa do desfile não ir para a loja. Muitas vezes vejo um look na passarela, depois procuro para comprar e não acho. Se for assim, não entendendo a função do desfile. O público é subestimado. Muita gente quer uma roupa diferente, outra forma, outra textura. As empresas têm a meta de vender e por isso as marcas não ousam. Meu trabalho é lúdico. Busco o sonho, o escapismo, fugir da realidade, pois a realidade é muito chata. Por isso vou fazer rainhas, sim. Se alguém quiser ser rainha, me procure, se quiser só uma camiseta, então não precisa de mim.

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Croquis do desfile da grife Fause Haten
Croquis do desfile da grife Fause Haten VEJA

Suas roupas de desfile tem saída na sua loja? Sim, elas vendem. Até as mais absurdas são vendidas. Mesmo que sejam apenas três exemplares. Eu tento me posicionar nesse lugar da diferença, pois fico sem concorrência. Já fiz muita coisa padronizada, hoje, se faço um paletó, ele terá algo que nenhum outro tem. Quando outra pessoa me copiar, eu paro de fazer daquela forma e mudo tudo de novo.

Acredita que falta criatividade na moda brasileira? O que me interessa hoje é algum sopro de autoria, nunca me interessei pelo que é igual. A moda está em um momento, até porque ela foi vendida dessa forma, que se você não pertencer a ela, então está fora. Logo, ficamos com um monte de gente com o mesmo formato. Gosto de ter algo de diferente. Não quero ser igual, prefiro ser esquisito. Faço roupa para quem não quer ser igual. Já fiz toda a escola dos estilistas. Observei as tendências, viajei, vi desfiles, mas hoje procuro o avesso do avesso.

As redes de fast fashion continuam a crescer no mercado. Você fez uma coleção popular para a Riachuelo há alguns anos. Acredita que o luxo da peça exclusiva ainda consegue competir com essas lojas ávidas por novidades? Hoje todas as mulheres querem ter um armário cheio. A demanda por esse volume foi bem atendida pelas redes de fast fashion, pois elas também oferecem informação de moda. Antes você usava um jeans por causa da etiqueta, hoje não importa mais o quanto você pagou pela marca, mas sim a atitude de quem usa. Eu continuo me posicionando com um produto especial, feito de forma artesanal, com uma identidade. Na moda, além do volume, de vez em quando a pessoa quer consumir algo como se fosse uma obra de arte. Aquela peça que você paga mais caro, mas que você se apega, se emociona. É isso que me norteia. Faço peças que poderiam ser penduradas em um quadro, por ter uma beleza para se observar.

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Você é uma pessoa multitarefas. Trabalha como estilista, mas é cantor, ator, figurinista, escritor e empresário. Como encaixa tantas facetas em uma só pessoa? Isso já é orgânico, tudo funciona bem, e uma coisa ajuda a outra. Eu sou uma pessoa organizada. Eu sabia, por exemplo, que na hora que chegasse a SPFW eu estaria no teatro montando o cenário da minha peça, então antes do Carnaval minha coleção já estava pronta, pendurada na arara. Não sei trabalhar em cima da hora, não costuro roupa na véspera.

Qual destes seus muitos lados é o que sobreviveria se apenas um tivesse que restar? Não tenho a menor ideia, eu seria bem infeliz se eu tivesse que ser um só. Todas estas coisas não são carreiras, a única carreira que eu tenho é a moda. Agora começo a ter uma trajetória no figurino, nos últimos cinco anos eu fiz trabalhos grandes. Hoje o Fause já é visto como figurinistas. A música pra mim é diversão.

Você vai estrear como ator este ano em uma peça de teatro. O que pode falar sobre isso? Sou público assíduo de teatro. Lá eu estudo, analiso a luz, de onde vem, como se movimenta. Então, quando estou ali no palco eu me dirijo, tenho uma visão cênica. Não quero ser ator, mas me interesse pelo ao vivo, por sentar na frente de uma pessoa e contar uma história. E faço teatro porque sou meio controlador, na TV ou no cinema tem o controle de outras pessoas. Por enquanto, não posso dar mais detalhes da peça, mas logo estará em cartaz.

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