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As rotas da violência

Como armas e munições chegam às mãos de bandidos brasileiros

Por Bruno Abbud - 28 mar 2011, 18h49

Os contrabandistas desmontam as armas e enfiam as peças em bexigas de borracha, depois de besuntá-las com pó de café e graxa – truques utilizados para despistar os focinhos dos pastores alemães da PRF

Em 26 de novembro passado, uma sexta-feira, um tiro de fuzil calibre 7.62 varou as costas, rasgou os intestinos, perfurou o pâncreas e atravessou o abdômen de Rogério Cavalcante, 34, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O rombo provocado pela saída da bala não pôde ser costurado pelos médicos, por falta de pele. Seis meses antes, no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, assaltantes invadiram a joalheria Tiffany & Co e levaram 1,5 milhão de reais em jóias com a ajuda de pistolas 9 milímetros, escopetas calibre 12 e submetralhadoras. Há 32 dias, modelos idênticos foram utilizados por dez homens encapuzados para invadir a única agência do Banco do Brasil em Boninal, cidade de 13 mil habitantes a 513 quilômetros de Salvador, na Bahia. Os crimes aconteceram em horários diferentes, locais diferentes e de maneira diferente. Mas têm uma coisa em comum: as armas, todas elas comercializadas no mercado negro.

Finalizada em novembro de 2006, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou o tráfico de armamentos em todo o território nacional baseada em dados fornecidos pelo Ministério da Justiça e pela Polícia Federal concluiu que 66% do material bélico contrabandeado para o Brasil vem do Paraguai. “O principal corredor de armas é o Paraguai, não há dúvidas”, diz o deputado Paulo Pimenta, do PT do Rio Grande do Sul, que foi relator da CPI. De cada 100 armas em posse de criminosos brasileiros, 29 foram roubadas dentro do país (a maioria de funcionários de empresas de segurança) e 71 chegaram por contrabando, informa uma pesquisa da RCI First Security and Intelligence Advising, empresa de Segurança Privada sediada em Nova York, especializada em análise e gestão de risco, responsável pela construção da maioria dos 120 bunkers que existem hoje no Brasil. Dessas, 5% desembarcam por mar, vindas de outros continentes, 8% vêm da Bolívia, 17% do Suriname e a maioria absoluta, 68%, do Paraguai. Com 6,3 milhões de habitantes, o país, que em 1870 perdeu a guerra para a aliança formada entre Brasil, Uruguai e Argentina, agora importa uma quantidade de armas suficiente para equipar todos os integrantes da população.

Sem violar qualquer lei, 19 empresas paraguaias importam pistolas Glock da Áustria, fuzis AK-47 da Rússia, AR-15 dos Estados Unidos e metralhadoras genéricas da China – que têm coronha de plástico e com frequência apresentam defeitos funcionais que aborrecem os traficantes cariocas. De cada 100 armas que o Paraguai compra, 81 são importadas legalmente, revela a pesquisa. Devidamente embalado e registrado em notas fiscais, esse armamento chega em contêineres pelo porto de Paranaguá, no Paraná, conhecido por especialistas em segurança como o “porto do Paraguai”. Dali, o carregamento segue por estradas federais brasileiras até o Paraguai e é entregue às importadoras. O engenheiro Ricardo Chilelli, especialista em inteligência privada e diretor-presidente da RCI First, revela que, assim como os chineses monopolizam o contrabando de produtos piratas, os russos controlam o contrabando de armas no continente. “Isso faz com que as estatísticas de exportação se invertam”, conta. Só 17% das exportações de armas feitas pelo Paraguai acontecem dentro da lei. A imensa maioria, 83%, é fruto do contrabando.

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Mas a máfia russa não comanda tudo sozinha, alerta o jurista Walter Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas no governo Fernando Henrique Cardoso. Especialista em criminalidade transnacional, Maierovitch informa que “as máfias russa, italiana, turca, e até facções brasileiras atuam em conjunto no tráfico de drogas e armas na América do Sul”. Embora criminosos estrangeiros dominem o vaivém de material bélico no continente, quem se arrisca nas travessias para o lado brasileiro nada têm de europeu. Nessa etapa, existem dois tipos de contrabandistas: aqueles que são encarregados apenas de cruzar a fronteira e os que, além disso, levam o carregamento até as principais capitais do país.

Na fronteira da paranaense Foz do Iguaçu com a paraguaia Ciudad Del Este, por exemplo, esses traficantes são brasileiros que costumam caminhar normalmente pelas ruas, vestem roupas amarfanhadas, usam óculos de grau e falam o tempo todo sobre os míseros 800 reais que ganhariam, em média, caso optassem por empregos regulares. Para garantir o salário maior, entram no Paraguai em busca de armas, mantêm fornecedores fixos e especializam-se no transporte dos produtos para o lado brasileiro. “Armas e drogas atravessam o Rio Paraná em canoas a remo e, na parte alta, em lanchas motorizadas”, informa o promotor Rude Burkle, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Foz do Iguaçu. Em solo brasileiro, outros contrabandistas cuidam da entrega das encomendas que, na maior parte das vezes, têm como destino São Paulo.

Tudo chega por terra. Ricardo Schneider, inspetor da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Foz do Iguaçu, conta que, antes de alcançar a capital, os contrabandistas desmontam as armas e enfiam as peças em bexigas de borracha (daquelas que enfeitam festas de criança) depois de besuntá-las com pó de café e graxa – truques utilizados para despistar os focinhos dos pastores alemães da PRF e os policiais de faro apurado. Também camuflam as armas em caminhões de abacaxi (por causa do cheiro forte), em carregamentos de carvão (que são enormes e dificultam a revista) e em cargas de peixe: se as portas do freezer ambulante forem abertas, os peixes correm o risco de apodrecer. Caso não encontrem vestígios de armas ou drogas, os policiais podem ter de pagar indenizações ao peixeiro ou multa se contaminarem o carregamento.

“Em automóveis, os esconderijos variam bastante”, adverte Schneider. “No Uno Mille, por exemplo, é comum esconder armas num fundo falso no porta-malas”. Em carros de outras marcas, enfiam as peças no tanque de gasolina para disfarçar o cheiro. Frequentemente serram a lataria, ocultam os armamentos, soldam o ferro e refazem a pintura – como fizeram há alguns meses dois paraguaios em um Mercedes Classe A na BR-277, presos perto de Cascavel, no Paraná. A dupla dizia que estava no Brasil para jogar golfe. Foram flagrados com um rifle Barret ponto 50, próprio para atravessar blindagens.

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Olheiros a serviço de traficantes passam o dia monitorando postos policiais instalados nas estradas que ligam São Paulo ao Paraguai. “Como os policiais rodoviários andam todos fardados, é fácil identificar quantos têm no posto e quantos estão na rua”, adverte Schneider. Os criminosos localizam as viaturas e informam os comparsas por celular. Também telefonam para os postos para comunicar falsos acidentes. “É preciso acabar com a porosidade na fronteira”, diz Schneider. A porosidade é ainda maior em Mato Grosso do Sul. “Só dois homens da polícia militar circulam no lado brasileiro da fronteira de Coronel Sapucaia com Capitán Bado”, conta Ricardo Rotunno, promotor de Justiça de Amambai e ex-coordenador do Gaeco em Mato Grosso do Sul. “Lá não há delegados, agentes da Polícia Federal nem da Receita Federal”.

Algumas vezes, traficantes e contrabandistas denunciam suas próprias cargas em trânsito nas estradas brasileiras, conta Ricardo Chilelli. São carregamentos com drogas misturadas com produtos químicos e armas de pouca relevância para os bandidos. “Eles desviam a atenção da polícia”, diz o especialista. “Enquanto apreendem uma tonelada de maconha, por exemplo, um carregamento de 200 toneladas passa despercebido”. Aparentemente exagerados, os números são endossados pelo volume de armamentos apreendidos nos últimos anos pela PRF. Entre 2003 e 2010, 11.035 armas e 768.929 munições foram capturadas. Durante os primeiros 12 dias de ocupação da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, em novembro de 2010, no Rio de Janeiro, 518 armas foram apreendidas – entre elas 140 fuzis. O relatório de conclusão da CPI que investigou o tráfico de material bélico no Brasil informa que há 17 milhões de armas de fogo em circulação no país ─ 4 milhões em poder de criminosos.

As rotas do contrabando de armas são idênticas às do tráfico de drogas. “As propinas pagas por criminosos a policiais fazem com que os caminhos e os personagens sejam os mesmos”, diz Chilelli. A corrupção endêmica permite que um fuzil AK-47 seja alugado em São Paulo por diárias que variam de 500 a 800 reais. Na capital paulista, cinco quadrilhas fornecem o serviço de aluguel das chamadas “armas longas”. Um Fuzil Automático Leve (FAL) calibre 7.62 pode ser comprado por cerca de 45.000 reais – três vezes o preço negociado na fronteira com o Paraguai e com outros países da América do Sul (como mostra o Infográfico).

No Rio de Janeiro, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, presidirá a CPI que, aberta em 14 de março, vai tentar descobrir como armas e munições chegam às mãos dos traficantes cariocas. Segundo Freixo, as investigações não devem se restringir aos problemas na fronteira com países vizinhos. “Há indícios de corrupção nas polícias e falta sincronia entre o Exército e as forças locais”, observa o deputado. Daqui a cinco meses a CPI deve ser concluída. E uma série de propostas será feita às autoridades. Em 2006, a CPI do Tráfico de Armas resultou “num conjunto de recomendações ao Poder Executivo e de projetos de lei”, diz o deputado e ex-relator Paulo Pimenta. “Todos os projetos estão em tramitação”. Concretamente, o pacote de propostas foi responsável pela criação de uma delegacia especializada em tráfico de armas e munições na Polícia Federal e pelo Projeto Especializado em Policiamento de Fronteira, o chamado Pefron – um tipo de policiamento específico que até agora existe em 11 cidades. É pouco se levarmos em consideração a dimensão do contrabando de armas que, nas mãos de criminosos, matam, causam sequelas irreversíveis e agridem a população com prejuízos incontáveis.

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