Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

O desejo em pílulas

O primeiro remédio para aumentar a libido feminina foi aprovado nos EUA. O anúncio abre uma indagação ainda sem resposta: o prazer das mulheres pode ser regulado quimicamente?

Vamos falar de sexo? A hora é boa e incontornável, com a liberação, na semana passada, pela FDA, o órgão americano regulador de remédios e alimentos, da flibanserina, um medicamento que será vendido, em forma de drágeas cor-de­rosa, a partir de outubro nos Estados Unidos com o nome comercial de Addyi. A pílula foi anunciada como atalho para estimular o apetite sexual feminino. O tempo responderá a uma dupla questão que naturalmente se impõe depois da estrondosa autorização: ela terá a força comportamental revolucionária dos anticoncepcionais deflagrada nos anos 60 ou, em escala menor, o impacto nas relações sexuais imposto pelo uso do Viagra, a partir da década de 90? Não e não, é o que se pode responder agora. E, no entanto, essas negativas, ao contrário de encerrar um capítulo, abrem uma extraordinária janela capaz de iluminar uma busca comumente associada a um tabu, feita de silêncios e recuos: a compreensão do funcionamento do desejo da mulher, algo que a ciência e os estudos da psique humana estão muito longe de traduzir adequadamente.

A flibanserina age diretamente no cérebro. O remédio atua de forma a aumentar a liberação de dopamina, composto associado ao prazer e à excitação, e reduzir a quantidade de serotonina, relacionada à diminuição do interesse sexual. Esse intrincado mecanismo de ação foi descoberto ao acaso. Em 2006, técnicos do laboratório alemão Boehringer Ingelheim testavam um medicamento para a depressão. Em sucessivos experimentos, as voluntárias relataram um efeito colateral imprevisto – a melhora na vida sexual. A reação “adversa” (frisem-se aqui as aspas) surpreendeu os cientistas, já que antidepressivos tendem a apagar o fogo da libido. Desde então, a empresa mudou o rumo das pesquisas, investindo em estudos com o novo enfoque. Em 2010, contudo, a FDA barrou o lançamento comercial do remédio pela primeira vez (faria isso numa segunda oportunidade, até o recente aval). Desinteressada, a Boehringer vendeu o medicamento quase na bacia das almas para a americana Sprout. Na última quinta-feira, dois dias depois do sim para o Addyi, a Sprout foi adquirida pela Valeant Pharmaceuticals, do Canadá, por 1 bilhão de dólares.

Assustavam, nas recusas de comercialização do medicamento, os fortes efeitos colaterais apontados pelo próprio fabricante, como manda a legislação – a sedação, a queda da pressão arterial e os previsíveis desmaios decorrentes dessa condição. Mas o grande impeditivo foi a interação do remédio com bebidas alcoólicas. A combinação provoca uma baixa drástica e repentina da pressão arterial, podendo levar à síncope. A Sprout, sem saída, foi forçada a ampliar os estudos clínicos. Cerca de 11 000 mulheres participaram de ensaios com o composto. A FDA acatou as novas informações, verificou que os riscos estavam dentro de limites aceitáveis e cedeu – mas foi vencida mesmo por uma movimentação paralela. O laboratório americano coordenou uma agressiva campanha de marketing cuja ponta mais visível era um grupo feminista. As ativistas do Even the Score (“empatar o jogo”) chegaram a acusar publicamente a FDA de sexismo pela negação do pedido de aprovação do remédio. Da soma de trabalhos nos laboratórios e do lobby em um tema sensível à sociedade americana, deu-se o o.k. definitivo.

A flibanserina agora liberada pela agência de saúde americana não é muito diferente da flibanserina anteriormente rechaçada. Os efeitos colaterais permanecem: 11% das mulheres sofrem com tonturas, outros 11% com sonolência, 10% com náuseas e 9% com fadiga. E a antiga preocupação da FDA com a mistura ao álcool não só existe, como será estampada em letras garrafais nas embalagens. Impôs-se, ainda, como condição para a aprovação que tanto médicos quanto farmacêuticos recebam treinamento para compreender com profundidade a combinação nociva da medicação com bebidas alcoólicas. Para as mulheres que adotarem o Addyi, não há dúvida, sexo e bebida serão um casamento proibido. E a quem essa pílula vai ser indicada? Ela foi desenvolvida para mulheres que ainda não entraram na menopausa e que sofrem de um problema sexual específico – o transtorno de desejo sexual hipoativo (TDSH). Em outras palavras, a falta crônica de libido. Ressalve-se que a afecção tem origem fisiológica – não se trata, de modo algum, de problema comum a mulheres “emocionalmente imaturas”, como afirmou erroneamente o pai da psicanálise, Sigmund Freud, no início do século XX – embora nunca se deva esquecer a escassez de informações bioquímicas sobre o organismo humano então disponíveis para o gênio austríaco.

O TDSH atinge cerca de 7% das mulheres. Para elas, um comprimido de 100 miligramas da flibanserina ingerido diariamente ao longo de pelo menos oito semanas resultará no aumento de uma relação satisfatória a cada 28 dias. Significa que uma mulher que tenha uma relação sexual prazerosa passará a ter duas nesse período. Duas se transformarão em três etc. É pouco? Não convém transformar sexo e sentimentos em estatísticas. Diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clínicas (CPClin), em São Paulo: “A medicação não é milagrosa, tem pouca eficácia em comparação ao placebo e possui efeitos colaterais relevantes. Mas é melhor ter algo que apresente alguma diferença do que não ter absolutamente nada”. Tudo ou nada, a rigor tanto faz, cada mulher tem sua conta própria, única, personalíssima e inexplicável, ao menos em condições de saúde normais. Nas sábias palavras do sociólogo americano Tim Wadsworth, da Universidade do Colorado: “Vejo que as pessoas se preocupam mais em ter a frequência sexual divulgada por amigos ao redor do que refletir sobre a assiduidade em si que gostariam de ter”.

Por atalho didático, rapidamente a flibanserina foi apelidada de “Viagra feminino”. Como recurso semântico, é perfeito, faz todo o sentido. Mas está errado. Se a flibanserina, com sua capacidade antidepressiva, mexe com o circuito cerebral da libido, no caso do losango azul do Viagra, o funcionamento é mecânico, relaxando a musculatura do pênis, aumentando o aporte de sangue ao órgão e levando-o à esperada ereção. Convenhamos, é mais simples, mais fácil. A engrenagem da libido feminina é ainda um grande mistério. A lubrificação, vital para o sexo, é mero detalhe, embora boa parte dos homens não se dê conta dessa constatação. O intumescimento do organismo feminino é regido por uma delicada sinfonia de hormônios, neurotransmissores, receptores cerebrais e mais tantos outros elementos desconhecidos da ciência. Os problemas de irrigação sanguínea, os descontroles hormonais ou qualquer outra disfunção têm ainda como barreiras as repressões psicológicas e comportamentais. É dura a vida da mulher se comparada à do homem.

Como a flibanserina não pode ser posta em pé de igualdade com a pílula anticoncepcional, que promoveu enorme mudança na sociedade, é o caso de considerá-la como filha desse avanço monumental. Em 1968, a escritora americana Pearl S. Buck (1892-1973), Nobel de Literatura, disse: “Todo mundo sabe o que a pílula é. Um objeto pequeno, mas que pode ter um efeito mais devastador em nossa sociedade que a bomba atômica”. Ela estava certa. O anticoncepcional facilitou o controle da natalidade e libertou a mulher. O orgasmo, enfim, pôde ser dissociado do risco de engravidar. E o que se procura, agora, no limite, são mais orgasmos – mesmo que precisem ser induzidos com produtos químicos.

Não é fácil, mesmo em tempos tão liberais, enfrentar o assunto publicamente, mas seria ainda mais complicado sem a bravura pioneira de gente que cutucou preconceitos. O biólogo americano Alfred Kinsey (1894-1956) causou furor ao mapear os hábitos sexuais de homens e mulheres numa monumental série de 18 000 entrevistas. O célebre estudo, batizado de Relatório Kinsey, revelou que a masturbação era um hábito comum entre as mulheres. Mais: o clitóris, e não o canal vaginal, era o gatilho do prazer feminino. Uma revisão de seus dados, na década de 70, mostrou que nada do que ele publicou em seu primeiro relatório e no ainda mais polêmico Comportamento Sexual na Fêmea Humana, de 1953, pede revogação. Kinsey ajudou a derrubar os mitos sobre o prazer da mulher (que levariam seu tiro de misericórdia com outro relatório famoso feito nos mesmos moldes, pela feminista Shere Hite, nos anos 70). Ventilou, enfim, assuntos sobre os quais se guardava silêncio ou que se reservavam, na melhor das hipóteses, ao divã do psicanalista (Kinsey, aliás, detestava Freud, a quem considerava um mistificador). Pego em cheio pela onda moralista do macarthismo, Kinsey teve suas verbas cortadas e morreu logo em seguida, em 1956, aos 62 anos, sem testemunhar a revolução sexual da década seguinte, que ele indubitavelmente ajudou a impulsionar.

Na cola de seu trabalho, vieram a psicóloga Virginia Johnson e o ginecologista William Masters. Entre 1957 e 1965, o casal americano mediu a excitação sexual de 382 mulheres e 312 homens. O trabalho, que revelou os mecanismos da lubrificação vaginal e do orgasmo, resultou em descobertas então ruidosas e hoje plenamente aceitas, como a de que as mulheres podem ter múltiplos orgasmos.

É uma quimera imaginar que 100 miligramas diários de flibanserina possam resolver o mal-estar da civilização, as tais inadequações. Em um artigo publicado em 2010, a ensaísta americana Camille Paglia, crítica inteligente do feminismo sem sutilezas, estabelece os limites do medicamento, pondo homens e mulheres em seus respectivos papéis nessa história. Camille: “A vida familiar pôs os homens burgueses em uma situação difícil. Eles são simplesmente engrenagens de uma máquina doméstica dirigida pelas mulheres. As mães contemporâneas são virtuosas superadministradoras de uma complexa organização centrada no cuidado e no transporte das crianças. Mas não é tão fácil passar com um estalar de dedos do controle apolíneo ao êxtase dionisíaco”. Para ela, sem meias palavras, as empresas químicas nunca vão encontrar o Santo Graal de um “viagra feminino”, a drágea levada aos céus na semana passada. “As inibições são teimosamente interiores. E a luxúria é demasiadamente impetuosa para ser deixada nas mãos do farmacêutico”, anotou. Ela tem razão.

Para um homem, o sexo é sempre mais simples. O que vai pela cabeça masculina, salvo exceções, tem apenas duas nuances. Para as mulheres, é tudo fascinantemente mais complexo, vai muito além dos cinquenta tons. Uma charge popular nos anos 90, até hoje reproduzida, mostra com didatismo as diferenças. No mundo masculino, há um único botão: liga/desliga. O feminino é um vasto e rico painel de controles dos mais variados tipos, incompreensível até que alguém acredite compreendê-lo.

Não há, enfim, um remédio milagroso capaz de pôr desejo feminino onde ele inexiste, como também não há um que apague o prazer na marra. Dificilmente haverá. Diz Carmita Abdo, psiquiatra e sexóloga da Universidade de São Paulo (USP): “O novo remédio pode ser útil para uma parcela das mulheres, mas com certeza não será uma só pílula que vai servir para melhorar o desejo de todas”. Não há dúvida, no entanto, de que o feito extraordinário da autorização anunciada pela FDA, para além de seu uso prático, foi iluminar uma discussão que nos acompanha desde sempre e não terminará, porque nunca sabemos o lugar certo onde pôr o desejo. No pequeno e belo conto Ruído de Passos, de 1974, Clarice Lispector apresentou dona Cândida Raposo, uma senhora de 81 anos de idade com “vertigem de viver” que “fora linda na juventude”. Como o “desejo de prazer não passava”, ela procurou um ginecologista.

De Clarice:

“- Quando é que passa?

– Passa o quê, minha senhora?

– A coisa.

– Que coisa?

– A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.

– Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.

Olhou-o espantada.

– Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!

– Não importa, minha senhora. É até morrer.

– Mas isso é o inferno!

– É a vida, senhora Raposo.”

Com reportagem de Carolina Melo

Para ler outras reportagens compre a edição desta semana de VEJA no tablet, no iPhone ou nas bancas. Tenha acesso a todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no iba clube.

Outros destaques de VEJA desta semana