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Como São Paulo pode superar a crise hídrica

As saídas bem-sucedidas para a escassez de água têm, em comum, medidas planejadas a longo prazo para garantir a estabilidade hídrica. Especialistas ouvidos pelo site de VEJA afirmam que, no momento, a melhor opção são estratégias que combinam altos investimentos e grande impacto

Em São Paulo, a crise hídrica já afeta quase metade da população: 20 milhões de pessoas de 68 municípios mais a capital. O Sistema Cantareira, que atende 9,8 milhões de paulistas, sendo 8,4 milhões só na capital, tem batido recordes negativos constantemente – na última quinta-feira, o reservatório atingiu 4,1% de sua capacidade, segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Sem previsão de chuvas substanciais até os últimos dias de outubro, a estimativa é que a primeira parcela do volume morto, incorporada em 15 de maio, acabe em meados de novembro. Nesta sexta-feira, a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a Sabesp a utilizar a segunda parcela do volume morto, com 106 bilhões de litros, que deve durar até o início do próximo ano.

Rodeada de mananciais, mas enfrentando a pior seca das últimas décadas, São Paulo não é a primeira cidade a sofrer com uma grave crise hídrica. Países como Estados Unidos, Inglaterra, Israel, Japão, Austrália e Namíbia também tiveram de lidar com a escassez de água provocada por diferentes motivos, como da poluição de fontes naturais a secas sem precedentes. E encontraram saídas bem-sucedidas que, em comum, têm medidas planejadas a longo prazo para garantir a estabilidade hídrica.

Especialistas ouvidos pelo site de VEJA são unânimes ao apontar que a crise hídrica de São Paulo deve levar a uma revisão completa das estratégias de manejo da água – e como alerta para o fato de que os recursos hídricos não são infinitos.

“De imediato, a opção é tentar manter o consumo baixo e utilizar o menor volume possível dos reservatórios enquanto a chuva não volta. Mas é preciso pensar nos próximos anos, pois, se nada for feito, a crise se repetirá em outras ocasiões”, diz José Carlos Mierzwa, professor do departamento de engenharia hidráulica e sanitária da Escola Politécnica da USP.

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Reúso – A longo prazo, o reúso é apontado como melhor opção para a região metropolitana, já que proporciona um aumento na oferta de água sem produzir mais resíduos que a cidade não tem capacidade de tratar.

O tipo mais comum de reciclagem da água é o tratamento do esgoto para depois o utilizar em descargas ou a limpeza de ambientes. No entanto, esse método exige uma mudança em toda a rede hidráulica – a água potável deve ser separada da reciclada.

Para São Paulo, a melhor opção seria tratar a água do esgoto para transformá-la em própria para consumo. Apesar de ser mais cara – custa bilhões para ser feita do zero e inclui técnicas avançadas como filtragem química e por membranas – é possível aproveitar toda a rede que já existe.

Segundo o engenheiro sanitarista Eduardo Pacheco, diretor do Portal Tratamento de Água, um amplo site de informações técnicas sobre água, não existe nenhum impedimento para realizar esse tipo de reúso mais sofisticado no Brasil, mas a opção demanda tempo de planejamento e execução – pelo menos um ano para planejar e outro para a execução de usinas de reúso.

O modo mais simples de construir a planta é instalar “anexos” nas estações de tratamento de esgoto que tratam a água com produtos químicos diferentes para torná-la potável. Saindo das estações, ela é inserida em um aquífero, onde é captada novamente e tratada futuramente, ou vai diretamente até uma estação de tratamento, onde passa novamente pelo processo de despoluição e é jogada na rede.

“Esse reúso é mais caro porque utiliza equipamentos sofisticados, requer produtos químicos e mão de obra atenta, mas seria um plano de contingência. Quando voltasse a chover ela deixaria de ser usada, como ocorre com as termelétricas”, diz Pacheco.

A ideia costuma enfrentar resistência quando descrita, mas a barreira da desconfiança é, normalmente, vencida com informação e campanhas educacionais. “Na Califórnia e no Texas as estações de tratamento são abertas. Eles fazem questão de mostrar e explicar para todos”, afirma o engenheiro.

Economia – São Paulo já vive um quadro em que consome mais água do que tem naturalmente. Os especialistas preveem que, até 2030, o consumo em São Paulo aumentará de 180 para 200 metros cúbicos por habitante ao ano. Isso porque, com melhorias na qualidade de vida, as pessoas vão usufruir os recursos sem restrições. “Como a quantidade de água disponível não aumenta acompanhando o consumo, esse problema vai se agravar se não for feito um planejamento”, afirma o professor José Carlos Mierzwa.

Para ele, nesse momento, dispositivos hidráulicos (como chuveiro, torneira e vaso sanitário) que gastam menos água também devem ser divulgados. “Quando tivemos problemas de energia elétrica, os aparelhos econômicos foram muito difundidos e isso teve impacto significativo”, diz.

Como a demanda por água só irá crescer no futuro, buscar água de outros locais não é opção de longo prazo. Os outros municípios poderão começar a ter problemas de escassez e passar a sobrecarregar ainda mais o sistema de tratamento de esgoto da capital, que atualmente é capaz de tratar apenas 30% do que nele é despejado.

A baixa taxa de tratamento, por sua vez, leva a um reúso indireto da água, que não é planejado. “É o que ocorre quando o esgoto sem tratamento é despejado no rio Tietê e, mais a frente, outras cidade captam essa água e a tratam para o uso”, explica o engenheiro Eduardo Pacheco. O mesmo acontece com ocupações irregulares próximas de represas, com a Guarapiranga. Os efluentes são jogados nesta água, que é captada, tratada e distribuída para consumo.

Poços, fontes e transposição – Outras soluções para a crise hídrica frequentemente debatidas são a construção de usinas de dessalinização, transposição de águas, fontes ou poços artesianos. As usinas, além de caras, não são viáveis por causa da distância de São Paulo em relação ao litoral. A transposição de água de outros mananciais pode sobrecarregar outras regiões e, ainda que traga um alívio imediato, não representa uma solução definitiva​.

Já fontes e poços artesianos não garantem o recurso com segurança, segundo o geólogo Edílson Andrade, especialista em águas subterrâneas. “Minas, fontes e poços captam a água do lençol freático, que também corre o risco de secar. Sem a chuva, uma fonte não dura muito mais que dois meses e, desde o início do ano, sabe-se que centenas delas secaram”, diz.

Existe ainda a questão da contaminação da água coletada do subsolo. “O Ministério da Saúde proíbe famílias atendidas pelas redes de abastecimento de água de construírem poços, porque é grande o risco de contaminação a partir de esgotos e resíduos enterrados. Essa ideia de que construir poços vai ser a solução caso falte água está errada, pois acarreta risco para a saúde”, diz o especialista.