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Na trajetória da Rocinha, uma história carioca

Depois da pacificação, a favela tem o desafio de consolidar conquistas que podem sinalizar um novo caminho para o Rio de Janeiro

Por Cecília Ritto 13 nov 2011, 17h22

O morro entre a Gávea e São Conrado abrigava uma chácara, nos anos 1920. A localidade pacata era de onde partiam os agricultores rumo aos arredores do Hipódromo da Gávea, onde vendiam o que haviam plantado. Quem por lá passava e perguntava de onde vinha o alimento recebia como resposta: “Vem da rocinha”. Essa é a bucólica origem do nome da favela mais famosa do Rio de Janeiro, que tem hoje 120 mil habitantes e, na esteira de décadas de descaso do poder público, tornou-se um bolsão de pobreza onde, a partir dos anos 1980, traficantes se refugiaram e construíram a maior rede de distribuição de drogas da zona Sul da cidade.

A trajetória da Rocinha é um retrato do que aconteceu no resto do Rio de Janeiro. A ocupação acelerada do morro aconteceu na década de 1950, com a chegada em massa de nordestinos. Eram pessoas pobres que viviam, sobretudo, da pecuária e da agricultura. Para manter essa atividade em terra carioca, os moradores da Rocinha tinham pequenas plantações e criação de animais no redor da casa. Pela localização, próxima a bairros de classe média que representavam oportunidades de trabalho, a Rocinha acabou atraindo famílias de outras regiões do Rio. Passada uma década, em 1960, não havia mais espaço para horta alguma. Com a abertura do Túnel Zuzu Angel, que liga a Gávea a São Conrado, muitos trabalhadores acabaram por se mudar para a favela.

O alto da Rocinha, entre as casas de luxo da Gávea e os prédios da orla de São Conrado
O alto da Rocinha, entre as casas de luxo da Gávea e os prédios da orla de São Conrado VEJA

A Rocinha cresceu no mesmo ritmo em que toda a cidade se favelizou, na esteira da ausência de política habitacional e de transporte. Tornou-se, assim como as demais favelas, uma terra abandonada pelo estado, porém cobiçada por políticos acostumados a trocar votos por benfeitorias que deveriam ser responsabilidade dos governos. Assim como no Nordeste, em que a indústria da seca garantiu por décadas a permanência da miséria no sertão, criou-se no Rio uma indústria da favela capitaneada por políticos populistas – que têm no ex-governador Leonel Brizola seu mais bem acabado exemplo.

Nas duas gestões de Brizola, criou-se a lenda de que favela não é problema, e sim solução. Com base nessa maneira de mais uma vez tirar do poder público a responsabilidade por implementar políticas habitacionais e de transportes, distribuíram-se títulos de propriedade a rodo e adotou-se todo tipo de ação assistencialista. Para piorar a situação, sucessivos governos restringiram a ação da polícia nas favelas, transformando-as em verdadeiros bunkers do crime.

Hoje, a Rocinha é uma região administrativa do Rio – ou seja, deveria estar incluída nos marcos da cidade legal, com direito a todos os serviços básicos. Mas continua padecendo de graves problemas de infraestrutura, como coleta de lixo, abastecimento de água, falta de rede de esgoto. Segundo o censo residencial da Rocinha, feito pelo Escritório de Gerenciamento de Projetos do governo do Rio, apenas 31,1% das pessoas têm a sua rua toda pavimentada. Somente 1,8% das casas da favela podem ser acessadas por carro. Para chegar a todas as outras, é necessário passar por um beco, escadaria ou uma rua onde só é possível o trânsito de pedestres. A iluminação pública só chegou para metade da favela.

De 2007 a 2009, foi criado um plano diretor sócio-espacial da Rocinha. O arquiteto que coordenou a equipe responsável pela execução do projeto foi Luiz Carlos Toledo, que chegou a montar um escritório na favela, onde ficou durante um ano e meio. Com os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi dado o pontapé em alguma das obras propostas por Toledo. “Mas persistem os principais problemas, que são saneamento, esgoto, lixo, abastecimento de água e retirada de habitação em área de risco”, afirma Toledo.

A entrada efetiva da polícia na Rocinha é uma oportunidade para que os serviços cheguem, na escala necessária, aos milhares de moradores. É também a chance de acabar com o poder dos criminosos que dominam a área por quase quatro décadas. O retrato da Rocinha pode ser, a partir de agora, o retrato do que o Rio de Janeiro quer ser.

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