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Ricardo Teixeira, o dono do futebol brasileiro, sai de cena

Manuel Pérez Bella.

Rio de Janeiro, 12 mar (EFE).- Ricardo Teixeira, manda-chuva da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) durante 23 anos apesar das constantes acusações de irregularidades, renunciou nesta segunda-feira ao cargo, a dois anos da Copa do Mundo de 2014.

Teixeira, de 64 anos, também deixou o cargo de presidente do Comitê Organizador Local da Copa (COL), segundo uma carta que enviou à CBF e que foi lida por José Maria Marin, seu sucessor na entidade que comanda o futebol brasileiro.

O dirigente, que havia tirado uma licença médica de 60 dias na semana passada, destacou na carta de renúncia que sai ‘com a sensação do dever cumprido’ e que se dedicará agora a cuidar de sua saúde.

Sem bagagem prévia no futebol, Teixeira foi eleito presidente da CBF em 1989 pelas mãos de seu então sogro e presidente da Fifa, João Havelange, e depois ganhou outras quatro eleições, a última delas em 2007, após uma mudança de estatuto que lhe permitiria manter o cargo até depois de 2014.

No último dia 29 de fevereiro, diante dos rumores sobre uma possível renúncia, a Assembleia Geral da CBF o ratificou por unanimidade no cargo.

Seus detratores o acusam de dirigir a CBF como um feudo particular, de contratar e demitir treinadores por critérios pessoais e de pressionar imprensa, políticos e clubes de futebol com métodos questionáveis para conseguir seus objetivos.

Com tom áspero e habituado a responder de forma ríspida às perguntas incômodas, Teixeira desafiou os meios de comunicação que ousaram investigar suas supostas irregularidades que, no entanto, nunca se traduziram em condenações judiciais nem lhe impediram de manter-se no poder.

Em sua gestão destacam-se a criação da Copa do Brasil em 1989 e a modernização do Campeonato Brasileiro para o formato de pontos corridos, mas deixou pendente uma reforma profunda dos campeonatos regionais, para equiparar o calendário brasileiro com o da Europa.

Além disso, conseguiu que o Brasil fosse escolhido para organizar a Copa de 2014 e transformou a CBF de uma entidade sem patrocinadores em uma empresa muito lucrativa, enquanto os principais clubes do país continuam com dívidas gigantescas.

A faceta esportiva foi a mais bem-sucedida: sob sua gestão, a seleção brasileira ganhou duas Copas (1994 e 2002), cinco edições da Copa América (1989, 1997, 1999, 2004 e 2007) e três da Copa das Confederações (1997, 2005 e 2009).

O Mundial dos EUA acabou em 1994 com uma seca de 24 anos que serviu para Teixeira transformar-se em um personagem intocável na CBF, apesar das denúncias que já surgiam desde então.

A viagem de volta dos EUA com a seleção campeã se transformou em um escândalo que acabou nos tribunais. Teixeira foi acusado de não declarar na alfândega a importação de 15 toneladas de equipamentos para um bar de sua propriedade, mas o processo acabou arquivado.

Em 2001, o cartola foi um dos alvos da CPI do Futebol, no Senado, e da CPI da Nike, na Câmara dos Deputados. Na ocasião, o Senado pediu indiciamento de Teixeira por evasão de divisas, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e apropriação indébita.

A Justiça chegou a abrir processos para denunciar as denúncias, mas o dirigente foi absolvido das acusações.

Membro do Comitê Executivo da Fifa desde 1994, Teixeira também enfrentou denúncias de irregularidades fora das fronteiras brasileiras.

Seu nome aparece na lista de dirigentes da Fifa que teriam recebido subornos milionários da empresa ISL, que administrava a venda dos direitos audiovisuais de competições internacionais, segundo a emissora britânica ‘BBC’.

Teixeira, que pretendia candidatar-se à presidência da Fifa em 2015, deixou de lado de sua habitual postura polida na esfera pública, para criticar o atual presidente da entidade, Joseph Blatter, aproveitando suas polêmicas declarações sobre o racismo no futebol.

No plano doméstico, a última grande acusação da imprensa contra Teixeira foi a de ter recebido pagamentos irregulares da empresa responsável pela organização do amistoso entre Brasil e Portugal jogado em Brasília no final de 2010. EFE