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Após experiência mágica, Teixeira vê legado imaculado em sua saída

Presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entre 1989 e 2012, Ricardo Teixeira colocou sua saúde como parte importante de sua renúncia, divulgada na manhã desta segunda-feira. Após a ‘experiência mágica’ de comandar a entidade que rege o futebol nacional, o ex-dirigente avisou: nada irá macular o que foi construído no período em que esteve à frente da CBF.

Em carta, lida por seu substituto, José Maria Marin, o ex-presidente afirmou ter feito ‘tudo que estava ao seu alcance’, colocando em segundo plano sua saúde. ‘Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias. Mas isso é muito pouco, pois tive a honra de administrar não somente a Confederação de Futebol mais vencedora do mundo’, afirmou.

Citados em casos de corrupção, o ex-genro de João Havelange, que passou pela presidência da CBF e da Fifa, sofreu com a acusação de que teria feito lavagem de dinheiro, apropriação indébita, sonegação de impostos e evasão de divisas, no relatório da CPI do Futebol, no começo dos anos 2000.

Além desta, o dirigente foi acusado de ter participado de um superfaturamento do amistoso entre Brasil e Portugal, em 2008. Desde de 2010, também, o ex-presidente teve seu nome vinculado em um possível pagamento de propinas da empresa de marketing esportivo ISL à Fifa.

Com o caso tramitando na justiça da Suíça, o presidente da maior entidade do futebol, Joseph Blatter, cogita revelar os documentos desta investigação, que podem incriminar, além de Teixeira, João Havelange.

Apesar das acusações, o dirigente considera que os feitos conquistados durante estes 23 anos não serão apagados. ‘Deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação do dever cumprido. Não há sequência de ataques injustos que se rivalizem à felicidade de ver, no rosto dos brasileiros, a alegria da conquista de mais de 100 títulos, entre os quais duas Copas do Mundo, cinco Copas América e três Copas das Confederações. Nada maculará o que foi construído com sacrifício, renúncia e dor’, ressaltou.

Sua mais recente conquista está na vinda da Copa do Mundo de 2014 para o Brasil. Após polêmicas entre o governo brasileiro e Jérôme Valcke, secretário geral da Fifa, Teixeira, que também deixou a presidência do Comitê Organizador Local (COL) do Mundial, preferiu comemorar o fato de trazer um dos maiores eventos esportivos do mundo ao país.

Na despedida, o ex-mandatário deixou seu agradecimento à torcida brasileira, especialmente pela alegria das ‘taças conquistadas’. ‘A mesma paixão que empolga, consome. A injustiça generalizada, machuca. O espírito é forte, mas o corpo paga a conta. Me exige agora cuidar da saúde’, avisou.

‘Deixo a CBF, mas não deixo a paixão pelo futebol. Até por isso, a partir de hoje e sempre que necessário, coloco-me à disposição da entidade. Reúno-me com mais força à minha família, que entendeu minha missão, apoiou-me sempre e me faz ainda mais feliz’, disse Teixeira, em seu último ato como presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

Veja a carta de renúncia do presidente na íntegra:

‘Ser presidente da CBF durante todos esses anos representou na minha vida uma experiência mágica. O futebol, no Brasil, é mais que esporte, mais que competição. É a paixão que envolve, é o sofrimento que alegra, é a fidelidade que unifica.

Por essas razões, pensei muito na decisão que ora comunico e pensei muito no que dizer sobre minha decisão.

Presidir paixões não é tarefa fácil. Futebol em nosso país é sempre automaticamente associado a duas imagens: talento e desorganização. Quando ganhamos, despertou o talento. Quando perdemos, imperou a desorganização.

Fiz, nestes anos, o que estava ao meu alcance, sacrificando a saúde, renunciando ao insubstituível convívio familiar. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias. Mas isso é muito pouco, pois tive a honra de administrar não somente a Confederação de Futebol mais vencedora do mundo, mas também o que o ser humano tem de mais humano: seus sonhos, seu orgulho, seu sentimento de pertencer a uma grande torcida, que se confunde com o país.

Ao trazer a Copa de 2014, o Brasil conquistou o privilégio de sediar o maior e mais assistido evento do mundo, se inseriu na pauta mundial, alavancou mais a economia e aumentou o orgulho de todo o povo brasileiro.

Tentei, no limite das minhas forças, organizar os talentos. Nas minhas gestões, criamos os campeonatos de pontos corridos e a Copa do Brasil, aumentamos substancialmente as rendas do futebol brasileiro, desenvolvemos o marketing e, principalmente, vencemos.

Hoje, deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação do dever cumprido. Não há sequência de ataques injustos que se rivalizem à felicidade de ver, no rosto dos brasileiros, a alegria da conquista de mais de 100 títulos, entre os quais duas Copas do Mundo, cinco Copas América e três Copas das Confederações. Nada maculará o que foi construído com sacrifício, renúncia e dor.

A mesma paixão que empolga, consome. A injustiça generalizada, machuca. O espírito é forte, mas o corpo paga a conta. Me exige agora cuidar da saúde.

Em obediência ao estatuto da CBF, mais precisamente ao disposto em seu artigo 37, você, meu vice-presidente e ex-governador de São Paulo, José Maria Marin, passa a presidir a CBF. A você, desejo sorte, para que o talento se revele na hora certa; discernimento, para que o futebol brasileiro siga cada vez mais organizado e respeitado; e força, para enfrentar as dificuldades que certamente virão.

Deixo a CBF, mas não deixo a paixão pelo futebol. Até por isso, a partir de hoje e sempre que necessário, coloco-me à disposição da entidade. Reúno-me com mais força à minha família, que entendeu minha missão, apoiou-me sempre e me faz ainda mais feliz.

Agradeço de maneira especial aos presidentes de clubes e das federações estaduais, aos dirigentes e colaboradores da CBF, amigos leais em quem sempre encontrei apoio incondicional para o desempenho de meu trabalho.

À torcida brasileira, meu muito obrigado. Nunca me esquecerei das taças sendo erguidas. Elas estão no coração de cada um de nós. Elas são um pedaço do Brasil.

Ricardo Terra Teixeira’