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O maestro da Apple

Steve Jobs foge do formato da cinebiografia em favor de algo muito mais instigante: uma dramatização dos conflitos íntimos mais candentes na vida do gênio da tecnologia — e de como eles podem ter impulsionado sua visão

Por Isabela Boscov
15 jan 2016, 20h52

“Quem você é? O que você faz?” Da maneira como Steve Wozniak faz essa pergunta ao homem que muitos anos antes fundara junto com ele a Apple, ela não é uma indagação: é uma interpelação. Jobs não era designer. Não escrevia código. Não seria capaz de soldar dois circuitos que fossem. E em várias ocasiões sua capacidade de gerir as próprias empresas foi posta em xeque. Wozniak quer assim desafiar o amigo: se ele a rigor não é nada, por que age como se fosse tudo? Jobs, interpretado com brilhantismo por Michael Fassbender, pisca por trás das lentes redondas dos óculos e diz, como se fosse óbvio: “Eu rejo a orquestra”. Em Steve Jobs (Estados Unidos, 2015), já em cartaz no país, Jobs tem o direito de dar uma palavra sobre si mesmo – mas ela é só uma entre muitas outras.

Que nem se espere do filme, aliás, uma palavra definitiva sobre o visionário que redesenhou a passagem para o século XXI: o intuito não é retratar ou recriar, mas investigar. E o escopo da investigação conduzida pelo roteirista Aaron Sorkin e pelo diretor Danny Boyle é largo. Abrange desde a figura indecifrável em seu centro e as ligações (ou as desconexões) entre genialidade e caráter até uma discussão sobre o que é criar – é o ato de imaginar ou o de concretizar, o de enxergar ou o de antecipar? Steve Jobs, porém, está longe de se apresentar como um filme meditativo. É incessante, febril, tão intenso e implacável quanto seu próprio personagem – e é também estupendo. Chega ao Oscar com duas indicações justas, para Fassbender e para Kate Winslet, mas sem as muitas outras que mereceria. Foi prejudicado pelas acusações de que é antipático ao seu protagonista (na verdade, é até muito simpático a ele), pela bilheteria fraca e pela forma ambiciosa que propõe.

Steve Jobs se nega resolutamente a moldar-se às expectativas da plateia. Sorkin, um dos maiores roteiristas da atualidade, parte da ideia que já orientara seu trabalho em A Rede Social e a radicaliza: embora a base do filme seja a biografia escrita por Walter Isaacson, seu Jobs não é personagem de uma biografia, mas sim de uma tragédia clássica, dividida em três atos. Cada ato corresponde a um momento distinto: o lançamento do Macintosh, em 1984; o do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998. Preparando-se para essas apresentações, nos quarenta minutos que antecedem o início de cada um dos eventos, Jobs enfrenta, nos bastidores, os mesmos seis personagens. O mais crucial deles é Lisa, a filha que ele por muito tempo se recusaria a assumir. Estão lá também Chrisann Brennan (Katherine Waterston), a mãe de Lisa. John Sculley (Jeff Daniels), o executivo que se tornaria notório por demitir Jobs da própria empresa. Steve Wozniak (Seth Rogen), que quer de Jobs um reconhecimento que o amigo se nega a dar. Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), o criador do revolucionário sistema operacional do Macintosh. E, sempre do lado de Jobs, aturando seu temperamento tempestuoso e tentando chamá-lo à razão, está Joanna Hoffman (Kate Winslet), a executiva de marketing da Apple.

É evidente que a realidade não foi assim camarada nas suas coincidências a ponto de colocar sempre essas mesmas seis figuras ao redor de Jobs nos três instantes determinantes de sua trajetória – e de forma tão bem arranjada que a câmera ágil de Boyle possa passar de uma a outra praticamente sem cortes e em tempo real, com os diálogos copiosos de Sorkin encadeando-se com fluidez virtuosística. Essa compressão é uma invenção dramatúrgica, claro. Mas uma invenção de alto grau de excelência, já que permite articular todos esses conflitos um em torno do outro e interligá-los. Lisa, por exemplo, é tão parecida com o pai na personalidade que é um paradoxo inexplicável (além de revoltante) ele rechaçá-la – mas essa questão traz à tona outra, a da adoção de Jobs; e então mais outra, a da sua ligação filial com John Sculley; e então outra ainda, a da aprovação que ele nunca concede a Wozniak. Nesse seu movimento constante de descobrir e redescobrir seu personagem, Steve Jobs acaba, sim, compondo um retrato. E ele é tocante.

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