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Marina Silva lança neste sábado seu partido ‘sem respostas’

Ex-senadora promoverá ato neste sábado em Brasília para tentar fundar um novo partido no cenário brasileiro que, por enquanto, nasce com um único objetivo: sustentar sua candidatura à Presidência da República em 2014

Por Gabriel Castro e Marcela Mattos, de Brasília - 16 fev 2013, 12h32

“Não temos respostas prontas, mas temos certeza de que este é o caminho que queremos percorrer para construir respostas às indagações do presente e do futuro”

Candidata com quase 20 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010, a ex-senadora Marina Silva promove neste sábado o primeiro ato para a fundação de mais um partido no já saturado sistema político brasileiro. A nova agremiação, por enquanto batizada pela incomum nomenclatura “Rede”, terá dois grandes desafios até outubro: conseguir o registro na Justiça Eleitoral a tempo de disputar as eleições de 2014 e provar que tem uma proposta que justifique a sua criação – e que vá além do interesse particular da própria Marina.

O manifesto do “projeto de partido” de Marina é repleto de citações vagas e não esconde sua dificuldade para defender a própria existência. “O que virá dependerá do que formos capazes de criar e produzir, de inventar e distribuir, a partir deste encontro de sonhos e épocas, de gerações e destinos”. E continua, ainda mais incerto: “Não temos respostas prontas, mas temos certeza de que este é o caminho que queremos percorrer para construir respostas às indagações do presente e do futuro”.

Previstas para serem analisadas durante o lançamento da agremiação, as propostas do novo partido levantam a bandeira da ética na política, da justiça social e da valorização do meio-ambiente – bandeiras da campanha de Marina nas eleições de 2010. Outros pontos encontrarão resistência de eventuais filiados com pretensões eleitorais, como o limite às doações para as campanhas com o estabelecimento de um teto máximo por doador e a proibição de aporte financeiro de empresas dos setores de bebida alcoólica, cigarro, armamento e agrotóxicos.

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Outro item controverso é o veto à candidatura de um parlamentar, para a disputa do mesmo cargo, caso ele tenha exercido 16 anos de mandato pelo partido. E até a própria “Rede” tem prazo condicionado: o estatuto prevê uma autoavaliação em até dez anos após a criação. Se for vontade da maioria dos filiados, a sigla poderá ser extinta de pronto.

Antes da análise do estatuto da “Rede”, algumas atividades estão previstas na agenda deste sábado – uma delas um tanto abstrata. A primeira ação originalmente divulgada pelo evento seria a “atividade de identificação dos sonhos comuns”. No início da noite de sexta-feira, porém, os organizadores da futura legenda decidiram rever a proposta. Nos debates sobre o futuro da agremiação agora os participantes pretendem discutir “a fundação de um partido político radicalmente democrático”.

Reinaldo Azevedo: O novo “não partido” de Marina Silva

Registro no TSE – Um problema mais urgente aguarda o partido de Marina Silva: a dificuldade de obter o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a tempo de disputar as eleições de 2014. Pelo menos 500 mil assinaturas, recolhidas em nove estados, têm de ser entregues ao órgão um ano antes do pleito – ou seja, até o início de outubro deste ano – para que a sigla consiga registro. O PSD, do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, por exemplo, conseguiu seu registro apenas às vésperas do prazo final estipulado por lei.

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Para atingir a meta dentro do prazo, uma força-tarefa já está em ação. O trabalho será voltado principalmente para as redes sociais: nesta quinta-feira, um vídeo da própria Marina convidando simpatizantes para o evento deste sábado foi postado no YouTube. A divulgação também ocorre pelo Twitter. Além da instalação de stands de coleta de assinaturas em pontos estratégicos, os documentos a serem preenchidos serão enviados pelos Correios. O plano de comunicação será encabeçado pelo cineasta Fernando Meirelles

“Esse partido vai existir porque é uma vontade não só do mundo político, mas da nação como um todo”, afirma o deputado Walter Feldman (PSDB-SP), que vai aderir à nova legenda. “No momento em que o TSE aprovar, eu mudo de partido. Sem nenhum tipo de dificuldade, mágoa ou vida dupla”, diz. “Nos últimos anos tem diminuído a nossa ação dentro do PSDB. E eu tenho um encantamento na renovação política brasileira pelas propostas que estão sendo levantadas.”

Neste sábado, além do tucano, assinarão o ato de fundação da sigla Alfredo Sirkis (PV-RJ) e Domingos Dutra (PT-MA).

Dutra diz que vai integrar a lista dos primeiros filiados da “Rede” devido à insatisfação com a atual legenda e por causa da aliança do PT com o senador José Sarney, seu rival histórico no Maranhão. “O meu limite é o PT sair da aliança com o Sarney no Maranhão, é o PT deixar o curral do Sarney.”

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O deputado José Antônio Reguffe (PDT-DF), sondado para aderir à sigla, afirma que não pretende sair do PDT, mas ajudará na coleta de assinaturas. “Marina é uma pessoa do bem, merece a chance de ser candidata à Presidência da República”.

Partidos – A frase de Reguffe, involuntariamente, expõe aquele que se poderia chamar de “vício de origem” da Rede. O Brasil tem hoje uma profusão de partidos – e outros 22 em formação. Alguns são nanicos ou de aluguel, destinados de antemão a ser absvorvidos por legendas maiores. Outros, como o PMDB ou o recém-formado PSD, são máquinas construídas para ocupar o máximo de espaço em todas as esferas do poder público. Há, por fim, aqueles que se alimentam do carisma de um líder – o lulismo deu esse perfil ao PT, embora ele também trabalhe com a lógica de se infiltrar em todas as estruturas de governo ao seu alcance. A Rede, com todo o discurso e os “sonhos” de seus documentos de fundação, vem ao mundo com a missão de ser um veículo para o projeto presidencial de Marina Silva. Até aí, pode ser um partido novo. Mas não é um partido diferente.

Modificado por minirreformas eleitorais nas últimas décadas, o modelo partidário brasileiro facilita a profusão de legendas. Porém, são raras as que conseguem se consolidar pela ideologia que carregam ou pelo ideário político. A última grande sigla que surgiu no país, ainda que tenha se devirtuado ao longo do tempo, foi o PT, em 1980. Desde então, o aparecimento de agremiações é associado a interesses particulares. Na prática, são siglas cujo destino é orbitar plataformas de candidaturas de partidos estruturados – quando os nanicos ganham o rótulo de “legendas de aluguel”. O apelido tem explicação: ao coligar-se aos partidos grandes, os nanicos cedem seus segundos valiosos na propaganda partidária na televisão em troca de, no futuro, obter algum cargo na máquina pública em caso de vitória.

Recentemente, o ex-prefeito Gilberto Kassab decidiu se aventurar no sistema partidário e anunciou a criação do PSD (Parido Social Democrático). A intenção de Kassab era clara: montar um partido capaz de entrar no jogo com as mesmas moedas políticas: cargos públicos e apoio parlamentar. O PSD passou pelo primeiro teste das urnas em 2012: elegeu 497 prefeitos e 4.600 vereadores. No Congresso Nacional, arregimentou bancada de 48 deputados e de dois senadores, o que lhe renderá espaço no governo federal em troca dos votos no Legislativo.

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Atualmente, 22 siglas estão em formação no Brasil. Como não há prazo para cumprir todas as normas, a homologação pode se estender por anos. O Partido Ecológico Nacional (PEN), criado em junho de 2012, tem apenas um representante no Congresso, o deputado Fernando Francischini (PR). O Partido Pátria Livre (PPL), registrado em outubro de 2011, também possui só uma cadeira no Congresso, ainda que temporária: João Costa Ribeiro (PPL-TO) é suplente de Vicentinho Alves (PR-TO) e permanecerá no cargo somente até março deste ano, quando termina o período de afastamento do titular.

Ex-militante histórica do PT e ligada às causas ambientais, Marina Silva filiou-se ao PV para concorrer ao Palácio do Planalto em 2010. Na época, além de legenda, precisava de recursos para financiar sua campanha. A solução foi carregar na chapa o empresário Guilherme Leal, dono da Natura, como candidato a vice – ele desembolsou quase 15 milhões de reais para candidatos do PV. Desta vez, ao anunciar a fundação da Rede, Marina tem o apoio de personalidades ligadas ao setor financeiro. Mais uma vez, sua meta é pavimentar a candidatura à Presidência da República.

No atual cenário partidário, a “resposta” que a Rede diz buscar pode ser simples: apresentar ao país uma proposta que justifique sua existência. E não se resuma a mais um projeto particular de políticos brasileiros.

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