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Muro de Berlim

18/12/2013

às 18:32 \ Política & Cia

UM ESPANTO E UM ABSURDO: há um Centro de Difusão do Comunismo em uma importante Universidade federal — pago com nosso dinheiro. O currículo inclui até “militância anticapitalista”

 

Publicado originalmente a 4 de junho de 2013

campeões de audiência 02O comunismo como projeto de uma “nova sociedade” foi, provavelmente, o maior fracasso da história da Humanidade.

Durante décadas, oprimiu dezenas de países e centenas de milhões de pessoas, suprimiu-lhes a liberdade, condenou-as ao atraso e à carência.

Provocou milhões de mortes, prisões iníquas, violações sem conta dos direitos humanos.

Desabou a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989, e morreu de vez, como projeto global em 1991, com o fim inglório da União Soviética, que já vinha caindo aos pedaços há vários anos.

Como relíquias de uma época da qual as pessoas querem distância, persistem regimes comunistas em países miseráveis e famélicos como a Coreia do Norte, ou próximos dessa situação, como Cuba. E formalmente comunistas, a China e o Vietnã enveredaram por um feroz capitalismo de Estado e, da ideologia de Marx aplicada à realidade, só restou a ditadura de partido único.

Nada disso fez mudar uma importante universidade federal “deztepaiz” — a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

Com o suado dinheiro do contribuinte brasileiro, a Ufop mantém, sob as asas de sua Pró-Reitoria de Extensão (Proex), nada menos do que um inacreditável Centro de Difusão do Comunismo (CDC-Ufop). (TODAS AS ILUSTRAÇÕES DESTE POST FORAM EXTRAÍDAS DO SITE DESTE “CENTRO”).

Não se trata de um centro de ESTUDOS do comunismo, o que, naturalmente, se justificaria. Da mesma forma como se estudam dinossauros ou as pirâmides do Egito, o comunismo poderia, perfeitamente, ser objeto de estudos.

Nada tenho contra, nem poderia, o estudo de quaisquer doutrinas filosóficas ou de quaisquer correntes de pensamento. Estou falando DE OUTRA COISA.

Mas não se trata de estudos ou debates, vocês leram bem: uma Universidade federal abriga um centro de DIFUSÃO do comunismo.

De DI-FU-SÃO! Repetindo: DI-FU-SÃO.

Quem tiver dúvidas do que significa a palavra pode e deve consultar um dicionário.

Há, na Ufop, sem disfarce de espécie alguma, até um Grupo de Debate e Militância Anticapitalista.

Sim, vocês leram corretamente: a universidade propõe e ensina MILITÂNCIA.

Não sei da existência de um suposto “centro de estudos” que proponha aos alunos militância política! É o fim do mundo!

A coisa é tão espantosa, tão absurdamente distante do propósito de qualquer universidade pública, tão escandalosamente propagandística de uma ideologia totalitária, que, mais do que continuar a descrever do que se trata, vou simplesmente reproduzir um pouco do que diz o próprio site do tal “Centro”. (As letras maiúsculas estão no original).

Vejam só:

(Foto: Centro de Difusão do Comunismo / Universidade Federal de Ouro Preto)

“APRESENTAÇÃO

Liga dos Comunistas. Núcleo de Estudos Marxistas (CNPQ) é um PROJETO vinculado ao PROGRAMA CENTRO DE DIFUSÃO DO COMUNISMO (CDC – UFOP). Pretende ser um núcleo de estudo e pesquisa sobre o movimento do real, referenciado à teoria social de Marx e à tradição marxista.

JUSTIFICATIVA

Aberto à participação de alunos, professores e funcionários da UFOP e aos trabalhadores da região, a construção de um núcleo de estudo vinculado à tradição que se inspira em Marx e que defende o comunismo tem um objetivo seminal: a transformação da realidade. Nesse momento histórico e determinado, essa realidade é dominada por um “sistema de controle do metabolismo social” específico, o capital.

METODOLOGIA

Através do núcleo de estudos, realizar encontros quinzenais para leitura de textos de Marx e da Tradição marxista sobre o “movimento do capital”, seguidos de debate sobre o tema, além de incentivar a investigação científica (pesquisa), a produção de artigos e a divulgação em eventos e revistas.”

Continuando com mais elementos do site — e chegamos à “militância anticapitalista”:

(Foto: Centro de Difusão do Comunismo / Universidade Federal de Ouro Preto)

“EQUIPE ROSA LUXEMBURGO

APRESENTAÇÃO

Equipe Rosa Luxemburgo é um PROJETO vinculado ao PROGRAMA CENTRO DE DIFUSÃO DO COMUNISMO (CDC – UFOP) e se propõe a ser um Grupo de Debate e Militância Política Anticapitalista, com especial apoio ao movimento dos trabalhadores da mineração na região e às lutas próprias à educação na UFOP. Cabe à Equipe Rosa Luxemburgo a coordenação do PROGRAMA CDC – UFOP.

JUSTIFICATIVA

Existe na região de abrangência da UFOP um significativo número de trabalhadores na área da mineração que tem o direito de receber apoio da UFOP para fortalecer suas lutas. Dentro da UFOP também, alunos, professores e funcionários tem o direito de receber apoio em suas reivindicações.

METODOLOGIA

- Formação de uma equipe de debate anticapitalista que envolva estudantes, professores, funcionários e trabalhadores da região da UFOP.

- Apoio ao movimento dos trabalhadores e suas ações públicas.

- Encontros semanais para monitoramento do PROGRAMA CDC – UFOP (planejamento e avaliação das ações a serem desenvolvidas).”

Vou parando por aqui.

Se quiserem saber mais sobre essa aberração — uma universidade transformada em centro de militância –, cliquem no link do Centro de Difusão do Comunismo.

23/08/2013

às 17:45 \ Política & Cia

Sardenberg: Recuperação da economia dos EUA mostra que a boa ação do Estado é a que abre espaço para o funcionamento do mercado

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado (Foto: AP)

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com uma enorme injeção de dinheiro no mercado: mas a recuperação veio pelas empresas e famílias, pelos investimentos e pelo consumo (Foto: AP)

Publicado no jornal O Globo

LEMBRAM-SE? CONSENSO DE WASHINGTON

E essa agora, hein? O motor da economia mundial está de novo nos Estados Unidos. E não porque os EUA abandonaram a prática do seu capitalismo, mas, ao contrário, porque a energia do mercado funcionou amplamente.

Ora, mas isso é óbvio, poderiam dizer. A recuperação do capitalismo só poderia vir da principal economia capitalista.

Pois é, mas não era essa a história que se contava, com ampla aceitação, há poucos quatro anos.

Lembram-se? A crise financeira de 2008/09, criação dos EUA, seria o muro de Berlim do capitalismo; a Zona do Euro desabaria com suas políticas de ajuste; os Estados Unidos seriam superados pela China; e os emergentes triunfariam com suas próprias forças, independentemente da liderança e da vontade dos ricos.

Dirigentes chineses diziam, entre irônicos e sérios: agora nós é que daremos lições ao Ocidente, inclusive na organização política. Líderes dos emergentes, Lula à frente, celebravam a política de intervenção estatal como a “nova economia”.

Analistas resumiam: sai o Consenso de Washington, entra o Consenso de Beijing.

O panorama visto hoje é o contrário disso. Começa pela recuperação dos EUA. Sim, o governo Obama gastou dinheiro público para impedir a quebradeira de bancos e grandes empresas. E o Federal Reserve, o banco central deles, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado.

Mas impedir o desastre não garante a retomada. Esta veio do ajuste feito pelas empresas e famílias, reduzindo endividamento, saneando finanças, renovando investimentos e consumo. Privados, sobretudo no setor imobiliário. E com inovações, como o extraordinário evento do gás de xisto – um resultado acabado da economia de mercado.

George Mitchell, engenheiro e geólogo, acadêmico e empreendedor no negócio de petróleo, desenvolveu, durante anos de pesquisa e experimentos, uma nova tecnologia de extração do gás de xisto.

Investiu dinheiro e conhecimento para simplesmente revolucionar o setor de energia. Quando o sistema finalmente funcionou, as imensas reservas no xisto tornaram-se economicamente viáveis e o preço do gás desabou nos EUA. Isso barateou investimentos em toda a indústria, especialmente na petroquímica, e reduziu gastos das famílias.

Tudo pelo mercado, não por políticas públicas. Mitchell teve espaço institucional para desenvolver sua livre iniciativa.

Isso foi um marco, mas é o conjunto da economia americana que se move. Bancos e empresas que foram salvos pelo governo estão recomprando ações e devolvendo o dinheiro público. E até o ajuste das contas públicas está sendo feito antes do esperado. Saiu atrapalhado por conflitos políticos, Obama reclamou de cortes de gastos que foi obrigado a fazer, mas quando foram ver, o déficit público despencava e a economia continuava andando com as pernas do setor privado.

Dizem que poderia ter andado mais se mantidos os gastos do governo. Pode ser, mas também é verdade que o arranjo das contas federais melhora o ambiente para os próximos meses.

Olhem agora para o outro lado. A China desacelera e começa a mudança de modelo. Qual mudança? Mais salário, mais consumo, e uma boa reforma no amplo setor estatal, de modo a privatizar, com o perdão da palavra, e dar mais eficiência a companhias do governo. Ou seja, mais mercado.

Nos países emergentes, a desaceleração é geral. Parte dela se deve à mudança da política monetária americana, que está levando capitais de volta aos EUA. Todos sofrem com isso, mas alguns sofrem mais.

Quais? Aqueles que foram apanhados com baixo crescimento, inflação alta, déficit nas contas externas e desarranjo nas contas públicas, circunstâncias que levam a uma desvalorização maior da moeda local – e que devem exigir juros maiores.

Pensaram no Brasil?

Pois é. Mas repararam bem no diagnóstico?

Falharam aqueles que desrespeitaram os fundamentos clássicos: não pode ter inflação (e 6% ao ano é, sim, inflação alta); não se pode aumentar gasto público sem adequado financiamento; as contas externas precisam estar equilibradas; e é preciso criar condições institucionais que estimulem os investimentos privados, especialmente no setor de infraestrutura.

Não é o que o governo Dilma faz, embora seja o que tem prometido. Mas assim de contragosto, porque, sem querer provocar, estão ali as bases do Consenso de Washington. Repararam no que pediram os empresários vencedores do prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras.

Em resumo, fica a lição americana. A boa ação do Estado é aquela que abre espaço para o funcionamento do mercado. E o bom gasto público, financiado sem truques, deve se concentrar em educação, saúde, segurança.

As voltas que a história dá.

23/08/2013

às 11:47 \ Política & Cia

O BANDO DOS CARAS TAPADAS — Quem são os manifestantes baderneiros do black bloc, que saem às ruas para quebrar tudo

BLACK TROPICAL -- Na Europa, onde o grupo surgiu, coturnos e preto total fazem parte do uniforme dos mascarados; na versão brasileira, entraram as sandálias Havaianas e as camisetas de time (Foto: Luan Corrêa)

BLACK TROPICAL -- Na Europa, onde o grupo surgiu, coturnos e preto total fazem parte do uniforme dos mascarados; na versão brasileira, entraram as sandálias Havaianas e as camisetas de time (Foto: Luan Corrêa)

Reportagem de Bela Megale e Alexandre Aragão, com colaboração de Pâmela Oliveira, publicada na edição de VEJA que está nas bancas

O BLOCO DO QUEBRA-QUEBRA

Com slogans anarquistas na cabeça e coquetéis molotov na mão, os black blocs se espalham pelo Brasil e transformam protestos em arruaça. Jovens da periferia, punks e até universitárias de tênis Farm compõem o bando

No começo, quase ninguém notou a chegada deles. Em 20 de abril de 2001, o mesmo dia em que grupos anarquistas no Canadá protestavam contra a criação da Alca, em Quebec, na Avenida Paulista, em São Paulo, um bando de arruaceiros com o rosto coberto destruía a marretadas agências bancárias e uma loja do McDonald’s. Era a primeira arruaça black bloc no Brasil.

Embora, àquela altura, pouca gente soubesse o que era isso, o bando de inspiração anarquista, defensor da “destruição consciente da propriedade privada” e autodeclarado inimigo do capitalismo, começava a se organizar no país. Hoje, os militantes, por assim dizer, não chegam a duas centenas por aqui. É um grupo pequeno, mas que, engrossado por vândalos de ocasião, em algumas capitais tem transformado a baderna e a violência em uma assustadora rotina.

VIROU ROTINA -- Mascarado destrói vitrine de loja de carros em São Paulo. A cena se repete há mais de dois meses também no Rio de Janeiro, sem que haja quase nenhum baderneiro preso (Foto: Fabio Braga / Folhapress)

VIROU ROTINA -- Mascarado destrói vitrine de loja de carros em São Paulo. A cena se repete há mais de dois meses também no Rio de Janeiro, sem que haja quase nenhum baderneiro preso (Foto: Fabio Braga / Folhapress)

Na semana passada, os black blocs estiveram por trás de todas as manifestações violentas que explodiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, com exceção da tentativa de invasão do Hospital Sírio-Libânes, esta uma obra de sindicalistas. Na quinta, no Rio de Janeiro, cerca de 200 mascarados depredaram agências bancárias, pontos de ônibus e arremessaram um banheiro químico no meio da rua.

A Avenida Rio Branco, uma das principais vias da cidade, ficou parada por quase sete horas. No dia anterior, em São Paulo, black blocs haviam queimado uma catraca, que levaram durante toda a manifestação como troféu. Na sequência, invadiram o prédio da Câmara Municipal e destruíram suas vidraças.

Por princípio herdado dos seus precursores europeus, muitos dos black blocs desprezam qualquer movimento político organizado, à direita ou à esquerda, o que inclui até os, atualmente em voga, Fora do Eixo e Mídia Ninja. Mas, ao menos no Brasil, o fato de saberem do que não gostam não quer dizer que saibam o que querem.

Exemplo disso ocorreu durante a invasão da Câmara Municipal de São Paulo, quando um black bloc abordou aos berros o presidente da Casa, o petista José Américo: “O senhor é a favor da tarifa zero? Quem matou o Amarildo? Abriria mão do seu salário? É contra a Constituição?”.

MISTURA EXPLOSIVA -- Aos black blocs das periferias de grandes cidades se juntaram punks e universitários de classe média, que engrossaram as fileiras do bando nos confrontos com a polícia em São Paulo (Foto: Fernando Cavalcanti)

MISTURA EXPLOSIVA -- Aos black blocs das periferias de grandes cidades se juntaram punks e universitários de classe média, que engrossaram as fileiras do bando nos confrontos com a polícia em São Paulo (Foto: Fernando Cavalcanti)

Se os vândalos paulistanos não conseguiram ainda eleger seu alvo, os do Rio já o fizeram. Há mais de um mês, black blocs lideram um acampamento na porta da casa do governador Sérgio Cabral. Dentro de suas tendas, entre um baseado e um gole de vodca, exigem a renúncia do político.

Por trás dos lenços – pretos, na versão original; de qualquer cor que estiver à mão, na versão brasileira – estão principalmente moradores de periferia. Mas punks e egressos de movimentos sociais decadentes, como o MST, engrossam as fileiras do bando.

Nessa combinação, a adesão dos primeiros – com suas calças justas e coturnos de cadarços pretos, vermelhos ou amarelos (os brancos são abominados pela associação com os inimigos neonazistas) – contribuiu para aumentar o grau de violência do grupo e levar para dentro dele outros elementos deletérios, como vinho barato e cocaína.

Em São Paulo, completam a babel social estudantes de universidades como USP, PUC e Faap. Na semana passada, uma aluna de ciências sociais da USP engrossava o bloco do quebra-quebra calçando tênis da grife Farm, em média 250 reais o par. “É ótimo para manifestações”, justificava.

Manifestantes pela queda do governador do Rio, Sérgio Cabral (Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo)

Manifestantes pela queda do governador do Rio, Sérgio Cabral (Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo)

Na capital paulista, essa turma heterogênea se reúne em uma casa na Zona Oeste, em festas regadas a cerveja e ao som de cumbia – ritmo nascido na periferia de Buenos Aires. Ao final, assistem a filmes como Brad, Uma Noite Mais nas Barricadas, uma ode ao produtor de vídeo americano morto por um grupo paramilitar durante uma manifestação no México.

No Brasil, os primeiros integrantes dos black blocs viviam nos moldes das antigas comunidades hippies, em bairros como Perus, na Zona Norte de São Paulo. Politizados e interessados por história, liam livros como Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella, e The Black Bloc Papers, que conta o histórico do bando.

Ele surgiu nos anos 80, na Alemanha da Guerra Fria sacudida por protestos antinucleares. Naquele tempo, os black blocs diziam ter um objetivo diferente do atual: o de servir de “escudo humano” para os manifestantes que desafiavam a polícia e apanhavam dela.

Mas o contexto mudou. No fim da década de 90, com o Muro de Berlim despedaçado, o marxismo em baixa e o anarquismo em alta, os black blocs aterrissaram nos Estados Unidos e no Canadá com bandeiras já enegrecidas e gritos bem mais radicais: pela destruição da propriedades, do governo e das empresas privadas.

McDonald’s e Starbucks viraram imediatamente os alvos preferenciais da turma – e até hoje não escapam ilesas de nenhum protesto em que haja um mascarado. Em 2011, os black blocs participaram do Occupy Wall Street, em Nova York.

A violência do grupo assustou os manifestantes comuns e serviu para abreviar o movimento – o mesmo processo que pode ter acontecido com as manifestações que começaram em junho no Brasil.

Em reunião do G* na Alemanha, em 2007, manifestantes bloquearam rodovias para dificultar o acesso aos chefes de estado (Foto: Patrick Lux / AP)

Em reunião do G* na Alemanha, em 2007, manifestantes bloquearam rodovias para dificultar o acesso aos chefes de estado (Foto: Patrick Lux / AP)

Por aqui, a tática usada pelo grupo nos últimos atos obedece ao padrão de ação dos precursores europeus e americanos. Em turmas de cerca de 100 pessoas, os black blocs assumem a linha de frente dos protestos, a pretexto de compor uma barreira entre os manifestantes e os policiais.

De braços cruzados, movem-se como uma massa uniforme em direção às barreiras de segurança. Quando a polícia se aproxima, emitem em coro e de forma ritmada grunhidos semelhantes a um grito tribal. Nesse momento, alguns membros lançam morteiros, coquetéis molotov e pedras com estilingues.

O objetivo é provocar a polícia. Quando ela reage, eles se dividem: uma turma parte para cima e a outra foge para pichar muros, atear fogo em latões de lixo e destruir estabelecimentos, preferencialmente bancos, concessionárias de carros, lanchonetes de cadeia e tudo o que considerarem “símbolos do capitalismo”.

Placas de sinalização viram armas e orelhões, escudos. Na cartilha apreendida pelo delegado Marco Duarte de Souza, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, um grupo de black blocs descreve seus alvos: “bancos, grandes empresas e a imprensa mentirosa”.

Devem ser evitadas, segundo o texto, depredações de “carros particulares e pequenos comércios”. Os black blocs acham isso muito bonito e nobre – orgulham-se de dizer que não praticam o que chamam de “vandalismo arbitrário”.

Para eles e seus admiradores confessos – entre os quais professores universitários pagos com dinheiro público -, destruir uma agência bancária a marretadas ou golpes de extintor de incêndio não é vandalismo, mas uma “ação simbólica”, que, inserida na “estética da violência”, simularia a “ruína do capitalismo”. Embora haja uma definição mais precisa para isso – e ela pode ser resumida na palavra crime -, quase nenhum black bloc está preso hoje no país.

Em dois meses de manifestações, mais de 200 agências bancárias foram depredadas, o que causou um prejuízo superior a 100 milhões de reais. No comércio, foi de 38 milhões de reais. Em São Paulo, o governo e a prefeitura gastaram até agora 350.000 reais para consertar vidraças das estações de metrô destruídas, placas de rua e pontos de ônibus. No Rio de Janeiro, o prejuízo superou 1,5 milhão de reais.

Com toda essa destruição, por que não há vândalos presos? Para que uma pessoa tenha a prisão cautelar ou preventiva decretada nos flagrantes de vandalismo, é necessário comprovar que, solta, representaria risco à ordem pública. Essa decisão tem de partir de um juiz, que, para tomá-la, precisaria estar amparado numa investigação policial – que até hoje não foi feita, ao menos de forma sistemática.

OCUPA E AFUGENTA -- A presença de black blocs no occupy Wall Street afugentou os manifestantes comuns e ajudou a abreviar o movimento, fenômeno que pode ter ocorrido com os protestos que começaram em junho no Brasil: o uso da violência isola o grupo (Foto: John Minchillo / AP)

OCUPA E AFUGENTA -- A presença de black blocs no occupy Wall Street afugentou os manifestantes comuns e ajudou a abreviar o movimento, fenômeno que pode ter ocorrido com os protestos que começaram em junho no Brasil: o uso da violência isola o grupo (Foto: John Minchillo / AP)

Outra opção seria enquadrar os arruaceiros pelo crime de formação de quadrilha, além de dano ao patrimônio. Ocorre que, também nesse caso, é necessário haver uma investigação prévia que comprove que as pessoas se juntaram de modo estável e contínuo para cometer os delitos.

O anarquismo, do qual derivam os black blocs, prega a organização da vida em sociedade fora da moldura do estado – segundo creem, a fonte de todos os males. Os black blocs, no entanto, assimilam apenas o subproduto desse ideário: a improvisação, a baderna e a tolerância para com certos crimes. Tudo aquilo de que o Brasil está louco para se livrar.

A contar pela intensidade da ação policial e da disposição do grupo, inversamente proporcionais, isso não ocorrerá tão cedo. Integrantes dos black blocs já anunciaram que o pior ainda está por vir – e deram até a data, 7 de setembro, quando estão previstas, em dezenas de cidades brasileiras, manifestações de nome preciso e autoexplicativo: Badernaço.

 

Black bloc em hora de recreio

MARX NO INTERVALO -- Emma: entre as assembleias, livros e beijos (Foto: Leo Corrêa)

MARX NO INTERVALO -- Emma: entre as assembleias, livros e beijos (Foto: Leo Corrêa)

No começo do século XX, nos Estados Unidos, o rosto de Emma Goldman, nascida no que hoje é a Lituânia, era uma das faces mais conhecidas do anarquismo. Neste começo de século XXI, no Brasil, os olhos claros de outra Emma (pelo menos esse é o nome que ela escolheu para se apresentar ao mundo) foram os mais compartilhados nas redes sociais quando o assunto era a ala feminina dos black blocs.

Sempre coberta por uma camiseta enrolada em torno da cabeça, a Emma brasileira ganhou ensaio fotográfico amigo e entrevista no Mídia Ninja e ainda teve imagens suas circulando na internet nas quais discute com um policial, com quem quase chegou às vias de fato. Junto com duas dezenas de estudantes e até mendigos, ela está acampada há duas semanas nas proximidades do prédio onde mora o governador do Rio, Sérgio Cabral. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

08/04/2013

às 20:08 \ Vasto Mundo

THATCHER: Controvertida, polêmica, a maior estadista britânica desde Churchill ajudou a colocar abaixo o Muro de Berlim e a mudar o mundo — para melhor

Thatcher: mudou o Reino Unido e ajudou a mudar o mundo -- para melhor (Foto: telegraph.co.uk)

O que é que vou escrever sobre Margaret Thatcher, depois de uma cobertura de qualidade como a do site de VEJA, depois do que escreveram o Reinaldo Azevedo e o Caio Blinder?

Mas não se pode silenciar quando um gigante tomba — e a primeira-ministra que governou o Reino Unido de 1979 a 1990 e, como muito se lembrou hoje, alterou a agenda do grande país a ponto de mudar os rumos do próprio partido adversário era, efetivamente, uma estadista de porte gigantesco.

Pode-se concordar ou não com Thatcher, sua agenda liberalizadora, sua determinação férrea — daí o apelido –, sua autoconfiança não raro transmudada em arrogância.

Não se pode, porém, negar a brutal importância que teve para seu país, que ela retirou do atraso estatista rumo a uma economia extremamemente dinâmica a ponto de empresários britânicos dominarem, hoje, setores inteiros da economia da nação mais rica do mundo, os Estados Unidos. Thatcher colocava em segundo planos os grandes custos sociais que resultaram do enxugamento do Estado por considerar que o capitalismo, devidamente livre de amarras, cria riqueza suficiente para que a sociedade dê um salto conjunto de qualidade.

No poder, conseguiu o que um ou outro antecessor conservador timidamente havia tentado, como Edward Heath (1970-1974), em vão: quebrar a espinha dos sindicatos, que mandavam e desmandavam em setores-chave da economia, não admitiam modernizações  de qualquer espécie que implicassem em perda de empregos, paralisavam o país a três por dois e controlavam o Partido Trabalhista, a única alternativa de poder ao Partido Conservador.

O Reino Unido não tinha um estadista de grande porte desde Winston Churchill, um dos maiores senão o maior do século XX, que governou a Grã-Bretanha de 1940 a 1945 — foi um dos vencedores do maior conflito militar da história, a II Guerra Mundial — e, depois, de 1951 a 1955. E nem teve, depois dela.

Sua firme postura de confrontação com a União Soviética e o bloco comunista, ao lado do presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan — e com a contribuição inequívoca do papa João Paulo II –, revelou-se importante para a derrubada do Muro de Berlim e o fim das ditaduras “socialistas” que oprimiam a Europa Oriental.

Até na América Latina sua firmeza se fez sentir, ao derrotar implacavelmente em 1982, numa guerra rápida e cruenta, a ditadura militar argentina que determinou uma invasão suicida das ilhas Malvinas/Falkland, território britânico desde 1833 — a guerra teve como saldo positivo o fim da ditadura e a volta da democracia ao país vizinho.

Não se poderá, no futuro, falar na história mundial do século XX sem incluir um nutrido capítulo sobre Margaret Thatcher. Com o fim das ditaduras comunistas e a chegada da democracia e a melhoria nas condições de vida na maior parte dos países da Europa Oriental — vários deles, hoje, integrando a União Europeia –, o mundo mudou, muito. E para melhor.

22/12/2012

às 17:00 \ Política & Cia

Ferreira Gullar, grande poeta e crítico, ex-militante do Partido Comunista: “Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário”

Ferreira Gullar: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas" (Foto: Ernani D'Almeida)

Ferreira Gullar: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas" (Foto: Ernani D'Almeida)

Publicado originalmente em 27 de setembro de 2012

Entrevista a Pedro Dias Leite, publicado em edição impressa de VEJA que está nas bancas

UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS

 

O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.

Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.

É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.

Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”.

 

O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.

A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

 

Por que o capitalismo venceu?

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.

A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.

O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.

A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

 

O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola (Foto: ViagensImagens)

"O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola" (Foto: ViagensImagens)

 

O senhor se considera um direitista?

Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

 

E Cuba?

Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/10/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

FOTOS IMPERDÍVEIS: Um comovente retrato da vida em torno do surgimento do Muro de Berlim

Life-Paul-Schutzer

Uma mão solitária sobre a muralha em agosto de 1961 (Foto: Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Não é exagero considerar a divisão de Berlim, oficializada em 13 de agosto de 1961 com a construção da muralha que determinaria duas novas cidades, uma das grandes tragédias políticas e humanas do século XX.

Antes de tudo o que representaria simbolicamente – início para valer da Guerra Fria, conflito capitalismo x comunismo -, a estúpida muralha erguida pela assim chamada República Democrática Alemã, satélite de Moscou, separou famílias, casais e amigos, e ao longo de sua existência ignóbil foi cenário de dramáticas cenas de pessoas tentando fugir da opressão.

Foi derrubada, finalmente, em 1989, depois de uma fulminante sucessão de manifestações que culminaria com o fim da Alemanha comunista e a reunificação do país.

Conhecida por sua excelência em fotojornalismo desde 1936, a revista norte-americana Life publicou em seu site oficial uma série inédita de 28 retratos realizados durante a criação do Muro de Berlim — que a propaganda ocidental rapidamente transformaria em Muro da Vergonha – e os primeiros meses das vidas cotidianas das pessoas afetadas por ele.

As comoventes imagens são de Paul Schutzer, fotógrafo americano que faleceria aos 37 anos, em 1967, enquanto cobria a Guerra dos Seis Dias, entre Israel e seus vizinhos árabes Egito, Jordânia e Síria. Abaixo, algumas selecionadas. O pacote completo de fotografias pode ser visto aqui.

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Crianças da Alemanha Ocidental brincam de imitar o Muro, em agosto de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

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Soldado da Alemanha Oriental devolve bola de futebol que caiu do "outro lado", em junho de 1962 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

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Habitantes de Berlim Ocidental acenam para parentes no lado oriental, em dezembro de 1962 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Protestos de moradores de Berlim Ocidental contra a construção do muro, em agosto de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Civis de Berlim Ocidental observam soldados do outro lado, em agosto de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Homem trabalha na construção de trecho do Muro, em agosto de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Jovem tenta saltar do lado oriental para o ocidental, em outubro de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Soldado da Alemanha Oriental tenta atrapalhar trabalho do fotógrafo, em agosto de 1961 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

Pássaro preso em arame sobre o Muro, em janeiro de 1962 (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

(Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

O mesmo jovem de uma das fotos anteriores por fim consegue superar a muralha e é acolhido por policiais da Alemanha Ocidental. Várias centenas de outros morreram ao tentar a mesma coisa, e o número oficial de mortos não foi estabelecido ainda (Paul Schutzer—Time & Life Pictures/Getty Images)

14/10/2012

às 17:20 \ Política & Cia

MENSALÃO: Comentários patéticos de Lula sobre as condenações, as cartas deprimentes de Dirceu e Genoino, as notas do PT e da CUT são um desrespeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito

Por Sandro Vaia

O jornalista Sandro Vaia, autor deste post, é um velho e querido amigo desde que, há muitos anos, trabalhamos durante longo período no Jornal da Tarde, quando se fazia, ali, uma importante mudança na cara e no conteúdo do jornalismo brasileiro.

No JT de então, ele foi repórter, redator e editor, após o que percorreu uma rica trajetória: diretor de Redação da extinta revista Afinal, um dos diretores da Agência Estado e diretor de Redação do jornal O Estado de S.Paulo. É autor do livro A Ilha Roubada, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e colabora com diferentes publicações, entre as quais o blog do jornalista Ricardo Noblat (onde este texto foi originalmente publicado) e a revista piauí.

Caíram as pedras do muro

Sim, o ex-presidente Lula tem razão: estamos preocupados com o Palmeiras ameaçado pelo fantasma da série B.

Mas ao contrário do que ele pensa e expõe na sutileza de sua metáfora, a gente sabe que se cair, levanta a cabeça, disputa a Segundona com toda honra, e volta grande como sempre foi, e quem sabe com mais juízo e mais competência. Esse é o destino dos grandes.

É muito mais fácil manter a cabeça erguida com as infelicidades do futebol do que com uma condenação incontestável pela mais alta Corte do País por vários crimes de corrupção.

Por isso, a frase do ex-presidente é descabida e desrespeitosa para com a inteligência do brasileiro.

Se ele quis se referir especificamente à influência do julgamento do mensalão no resultado das eleições, pode estar lamentavelmente próximo da verdade.

Segundo uma medição da Datafolha – com todos os pés atrás que as pesquisas de opinião estão merecendo, principalmente em função da volatilidade da opinião pública- apenas 19% dos eleitores sofreria alguma influência dos resultados do julgamento do mensalão na escolha dos dirigentes municipais.

Acontece que a comprovação cabal da existência do mensalão e a consequente demolição da tese do “simples Caixa 2” por parte da Justiça, tem muito mais a ver com a construção dos fundamentos de um sistema politico ético para o futuro do que com o imediatismo do resultado eleitoral que conheceremos daqui a 20 dias.

Os comentários patéticos do ex-presidente, as cartas deprimentes dos condenados Dirceu e Genoino, as notas do partido e das suas linhas auxiliares, como a CUT, são um desrespeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito.

O julgamento foi feito inteiramente dentro das regras do jogo democrático. Grande parte dos juízes da Corte foram nomeados pelos 3 últimos governos.

A única suspeição que pode ser arguida é exatamente sobre um dos juízes que mais absolveram.

Um juiz que trabalhou para um dos réus durante cinco anos. Foi seu subordinado funcional e esperava-se que em função disso se declarasse impedido de participar do julgamento. Mas participou e absolveu o mais vistoso dos acusados, exatamente seu ex-chefe.

A repercussão imediata do resultado do julgamento nas eleições é o que menos importa. A opinião pública, como observa Cesar Maia, na base social, se cristaliza em ondas que requerem tempo.

Mudanças de hábitos e costumes políticos só se consolidam dentro de um tempo histórico.

Mas como as pedras do Muro de Berlim jamais serão recolocadas, os costumes políticos do Brasil, depois do episódio do Supremo, jamais serão os mesmos. A impunidade caiu, foi posta abaixo.

04/08/2012

às 17:01 \ Tema Livre

Fotos: cidades do mundo em cliques do Instagran

 

Berlin- grand prize by Bjorn Kocher

Berlim, na Alemanha, e a grande vencedora Bjorn Kocher

Estas 15 fotos mostram a vitalidade da vida urbana partir de 14 cidades: Barcelona, ​​Berlim, Bogotá, Chicago, Doha, Glasgow, Hong Kong, Jeddah, Londres, Los Angeles, São Paulo, Seul, Turim e Vancouver .

Elas são finalistas de um concurso, promovido  pelo site Mashable Us & World, em que o vencedor ganhará uma viagem ao redor do mundo, e a foto escolhida é a de Belim, da participante Björn Kocher.

Ela clicou uma pichação com as palavras: ”O mundo é pequeno demais para Muros”, em um pedaço remanescente do Muro de Berlim.

Barcelona (Espanha) de Sofia Ospina

Barcelona (Espanha), por Sofia Ospina

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Vancouver (Canadá), de Laurie Illan

Vancouver (Canadá), por Laurie Illan

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Torino (Itália), de Simone Mussat Sartor

Turim (Itália), por Simone Mussat Sartor

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Seoul (Coreia), de Jo Miller

Seul (Coreia do Sul), por Jo Miller

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São Paulo (Brasil), de Luiz Di Bella

São Paulo, por Luiz Di Bella

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Londres (Inglaterra), de David Ferrandez

Londres (Inglaterra), por David Ferrandez

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Los Angeles (EUA), de Dan Goldman

Los Angeles (EUA), por Dan Goldman

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Jeddah (Arábia Saudita), de Qusay Fayoumi

Jeddah (Arábia Saudita), por Qusay Fayoumi

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Londres (Inglaterra), de Roberta Cucchiaro

Londres (Inglaterra), por Roberta Cucchiaro

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Hong Kong (China), de Tyson Wheatley

Hong Kong (China), por Tyson Wheatley

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Glasgow (Escócia), de Trevor Lakey

Glasgow (Escócia), por Trevor Lakey

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Doha (Qatar), de Bassem

Doha (Qatar), por Bassem

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Chicago (EUA), de Stephanie Warsen

Chicago (EUA), por Stephanie Warsen

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Bogotá (Colômbia), de Manuel Villamizar

Bogotá (Colômbia), por Manuel Villamizar

 

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21/04/2012

às 21:00 \ Vasto Mundo

Eleição presidencial francesa de amanhã tem polarização à anos 80

Sarkozy x Hollande: disputa como nos tempos de François Mitterrand contra Jacques Chirac (Fotos: veja.com.br)

 

Andrei Netto, correspondente de O Estado de S.Paulo em Paris

Jeannette B.T., de 67 anos, deixava a estação de metrô Convention, em um bairro de classe média no sul de Paris, na quinta-feira, quando foi abordada por um universitário de 24 anos que lhe oferecia um panfleto do Partido Socialista (PS). “Só os estúpidos votam em François Hollande”, respondeu a senhora, recusando a oferta com gentileza parisiense.

“Tenho tanto medo de ele ser eleito que não vou ver os resultados. Será uma catástrofe para a França”, acrescentou. Sem se intimidar, o jovem respondeu: “Em matéria de catástrofe, será difícil superar Nicolas Sarkozy, madame. Eu farei parte dos estúpidos que tentarão outro caminho”.

É nesse clima de medo, esperança e rivalidade entre direita e esquerda que 43 milhões de eleitores vão às urnas neste domingo, 22, no primeiro turno das eleições presidenciais na França. Nunca, desde os enfrentamentos entre François Mitterrand e Jacques Chirac, nos anos 80, e da queda do Muro de Berlim, os franceses foram chamados a arbitrar discursos tão antagônicos quanto os de Hollande e Sarkozy, um clássico entre progressistas e conservadores.

[Para espanto de Sarkozy e de seus seguidores, o conservador ex-presidente Jacques Chirac -- de quem o atual presidente foi ministro do Interior -- revelou que votará no candidato socialista].

Razões para o medo

O clima de maniqueísmo que paira em Paris tem como pano de fundo a crise das dívidas na Europa, iniciada em 2009. Quinta maior potência mundial e segunda da zona do euro, atrás da Alemanha, a França sofreu no mês de janeiro o rebaixamento de sua dívida pública -até então avaliada como AAA, a nota mais elevada possível – pela agência de rating Standard & Poor’s.

Desde então, teme-se que o país seja envolvido pelo turbilhão que já arrastou Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e ameaça implodir a zona do euro.

As razões para o medo são concretas. A França registra déficit público de 5,2%, sua dívida pública chega a 87% do Produto Interno Bruto (PIB), seu crescimento é raquítico, de 0,2% no quarto trimestre de 2011, e sua taxa de desemprego chega a 9,8% da população ativa e a 25% entre jovens.

Mesmo apresentando essa credenciais, Sarkozy apresenta-se na campanha de 2012 com uma plataforma com base na austeridade fiscal e como o único fiador da estabilidade contra o caos. “Uma vitória de Hollande colocaria a França de joelhos”, alertou o chefe de Estado.

“Financial Times” elogia o candidato socialista

Hollande adota o discurso da “esperança” e aposta na receita contrária para tirar o país do buraco: controle das contas sim, mas com prioridade ao crescimento.

Com um forte discurso de esquerda, propõe taxar em 75% os salários anuais superiores a 1 milhão de euros, contratar 60 mil professores – quando seu oponente reduz o funcionalismo – e a reestabelecer a aposentadoria aos 60 anos para quem tinha direito adquirido. “Cada geração tem uma responsabilidade. A hora é agora de vocês tomarem a decisão de mudar”, afirmou na sexta-feira.

O surpreendente é que, mesmo com essa plataforma, o socialista obteve o elogio do jornal britânico Financial Times [bíblia do capitalismo]. “É encorajador que um número crescente de políticos, incluindo Hollande, defenda uma estratégia de crescimento para a Europa”, disse a publicação, em editorial que criticava Sarkozy.

Prognósticos dão Hollande com curta vantagem

O antagonismo segue em todas as áreas. Se o atual governo era conhecido pela isenção fiscal às grandes fortunas, o socialista propõe taxá-las para aliviar a carga sobre a base da pirâmide. Se Sarkozy promete reduzir em 50% a imigração ilegal, Hollande defende a regularização de parte dos estrangeiros ilegais.

“A opinião pública vê grandes diferenças nas propostas de ambos”, diz o cientista político Émmanuel Rivière, do instituto TNS-Sofres. “Há uma fronteira direita-esquerda que se aplica a quase todos os temas: economia, emprego, Estado, imigração, homossexualidade.”

Nessa disputa de conceitos, quem chega com curta vantagem é Hollande. Se os prognósticos dos institutos de pesquisa estiverem corretos, o candidato socialista deve obter entre 27% e 30% dos votos, contra 25% a 27% de Sarkozy. [O segundo turno será disputado a 6 de maio e os levantamentos também conferem vantagem para o candidato socialista.]

As explicações para o eventual fracasso eleitoral de um presidente respeitado no exterior, como Sarkozy, passam por sua personalidade. Centralizador, ele rompeu com a liturgia do cargo de presidente em 2007 e enfraqueceu o premiê, François Fillon. Expôs-se na política e na vida pessoal, com um estilo “novo rico” rejeitado pelos franceses.

11/03/2012

às 19:00 \ Política & Cia

Angela Merkel, a poderosa chanceler da Alemanha: ela é “o cara”

Angela Merkel com Sarkozy, Obama e Cameron: A chanceler da Alemanha, entre os donos do mundo. Ela é paciente. Ela se informa. Ela quer convencer. E confia mais nas mulheres que nos homens

Angela Merkel com Sarkozy, Obama e Cameron: A chanceler da Alemanha entre os donos do mundo. Ela é paciente. Ela se informa. Ela quer convencer. E confia mais nas mulheres que nos homens (Foto: Jim Watson/AFP)

Ela é o cara

 

“Eu não sou vaidosa, mas sei usar a vaidade dos homens”, já confidenciou Angela Merkel. Como esta senhora com cabelos de tigela virou a mulher mais poderosa do mundo? Da mesma maneira que os porcos-espinhos fazem amor: prudentemente

 

Não é difícil, num fim de semana, encontrar em um supermercado de Berlim uma senhora vestindo calças compridas, loira e banal.

Diante da gôndola dos queijos franceses e dos embutidos, colocando tranquilamente um camembert em um saco plástico, sem que ninguém a cumprimente.

Já faz algum tempo que essa dona de casa é designada pela revista americana Forbes como “a mulher mais poderosa do mundo”. Trata-se de Angela Merkel, que se tornou a primeira mulher chanceler da Alemanha em 2005. Tinha então 51 anos.

Angela Merkel no acampamento, na Alemanha, em 1973 (Foto: Bernd Gurlt/dpa/Corbis)

Merkel aos 19 anos de idade, estudante de Física, num acampamento com amigos na ex-Alemanha Orintal, em 1973 (Foto: Bernd Gurlt/DPA/Corbis)

Para chegar a funções tão altas, ela não tinha muitos trunfos. Família discreta, uma mãe professora, um pai pastor. Angela nasceu na então Alemanha Ocidental, em Hamburgo, mas ainda criança foi com seus pais para um vilarejo da Alemanha Oriental.

Vida desconfortável no cinzento lado soviético. O interior. O protestantismo de Lutero. A menininha faz maravilhas na escola. Acabará falando um excelente russo. Fará uma tese de Física cujo enunciado já dá vertigem: “Estudo do mecanismo das reações de decomposição com ruptura da ligação simples e o cálculo de suas constantes de velocidade tendo como base a química quântica”.

Tais equações não preparam muito para as astúcias da política. O que ela sabe do mundo, a jovem mulher ajuizada da Alemanha Oriental? Em 9 de novembro de 1989, quando o Muro cai, ela vai à sauna, como todos os dias, e depois dá “uma voltinha” pela Berlim liberada, só para ver. Ela vê. Ela adere à União Democrata Cristã (CDU).

No ano seguinte, é eleita deputada no Bundestag, o Parlamento alemão.

Discreta, em momentos diferentes, com o primeiro e o segundo marido, Joachim Sauer

Discreta, em momentos diferentes, com o primeiro marido, Ulrich Merkel, e o segundo, Joachim Sauer (Foto: Bogumil Jeziorski/AFP)

Nada de chá de cadeira

O chanceler, então, era Helmuth Kohl, da CDU. Um gigante. Do alto de seu vulto e de seu orgulho, Kohl observa essa Angela. Ele se surpreende com sua inteligência superior. Observa essa senhora engraçada com seu penteado em forma de tigela, sua franja um pouco curta demais, suas bochechas redondas, o azul de seus olhos.

Ela o diverte. Ele se enternece. E a chama Das Mädchen – a garotinha, ou mocinha, e a traz para sua equipe. E faz dela uma ministra. Os brilhantes e arrogantes políticos da Alemanha não gostam. Eles a apelidam de Mauerblümchen (uma dessas moças que tomam chá de cadeira nos bailes).

A mocinha de Kohl não irá tomar chá de cadeira por muito tempo. Ela se junta ao baile, pronta a empurrar um pouco seus vizinhos. Sua chance chega em 1999. A CDU é maculada pelo caso das caixas pretas, de contribuições financeiras ilegais.

O chanceler Kohl vacila. A mocinha o ajuda a cair. Ela publica um artigo demolidor no ultraprestigioso jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Como diria Freud, ela simbolicamente matou o pai

Kohl está no chão. Como diria Freud, Angela matou o pai. E, já que está com a mão na massa, ela também mata alguns tios: Wolfgang Schäuble, o presidente da CDU, de quem toma o lugar e do qual fará mais tarde, pois não é rancorosa, seu ministro do interior; Edmund Stoïber; Friedrich Merz. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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