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inflação

16/06/2013

às 16:00 \ Política & Cia

Maílson da Nóbrega: o “neobobismo” está de volta, no livro organizado por Emir Sader sobre 10 anos de PT no poder

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

A VOLTA DO NEOBOBISMO

A velha esquerda muito acusou o presidente Fernando Henrique de neoliberal. Numa das vezes, em 1997, FHC reagiu: “Só quem não tem nada na cabeça é que fica repetindo que o governo é neoliberal. Isso é neobobismo.”

Maílson da Nóbrega

Maílson da Nóbrega

Agora, o neobobismo ressurge para fanfarronar as administrações do PT, no livro 10 anos de Governos Pós-Neoliberais no Brasil: Lula e Dilma organizado por Emir Sader (Editora Boitempo).

O neoliberalismo, corrente nascida nos anos 1930, se opunha à intervenção estatal adotada na Europa e nos Estados Unidos para enfrentar a Grande Depressão.

Nos anos 1970 defendia a reforma do Estado intervencionista, ao qual atribuía a perda de dinamismo e o surto inflacionário de então nos países ricos. A esquerda passou a usar o termo em tom pejorativo.

Na América Latina, os mesmos problemas decorriam também das políticas de substituição de importações, que ficaram insustentáveis com as crises do petróleo (1973 e 1979) mas foram mantidas mediante elevação da dívida externa. O modelo ruiu de vez com a moratória mexicana de 1982, que fez secar a fonte de recursos do exterior. A inflação evoluiu para hiperinflação em muitos países.

No Brasil, chegara a hora de rever o modelo, que havia legado uma industrialização ineficiente e uma inaceitável concentração de renda. As bases do modelo eram o fechamento da economia o desregramento orçamentário, a tolerância com a inflação, a concessão de subsídios e favores fiscais a certos segmentos, e a escolha de vencedores pela burocracia.

Era preciso superar a hiperinflação, abrir a economia, redefinir o papel do estado, privatizar estatais ineficientes — inclusive para assegurar o acesso da população a serviços básicos como o das telecomunicações — e construir moderna regulação econômica e de defesa da concorrência.

A redistribuição de renda viria com o fim da corrosão inflacionária da renda dos trabalhadores e com programas sociais focalizados nos mais pobres. A universalização do ensino fundamental e novos investimentos em educação eram parte da grande empreitada.

Tais mudanças ciclópicas — “neoliberais” para a velha esquerda — atingiram o auge com FHC. A velha esquerda nunca entendeu a realidade. Manteve suas convicções estatistas mesmo depois da queda do Muro de Berlim. Não percebeu que o fracasso da substituição de importações e também do comunismo tinha a mesma origem, isto é a ausência de incentivos à inovação.

O governo Lula foi o maior herdeiro dessas transformações. O crescimento foi impulsionado pelos correspondentes ganhos de produtividade e pela emergência da China como nosso principal parceiro comercial. Havia, ainda, disponibilidade de mão de obra para incorporar ao processo produtivo.

Livro do Emir Sader: neobobismo puro

Livro do Emir Sader: neobobismo puro

Foi possível, por tudo isso, ampliar os programas sociais, agora unificados no Bolsa Família. Mas o êxito dificilmente viria se o presidente não houvesse abandonado as ideias erradas do PT sobre política econômica.

Isso aconteceu com sua Carta ao Povo Brasileiro (2002). O objetivo era afastar temores de uma ruptura desastrosa, caso o PT ganhasse as eleições presidenciais. Lula jurou cumprir contratos e se comprometeu com o superávit primário do setor público, um dos ícones do que a esquerda via como neoliberalismo.

No governo, manteve as privatizações, ampliou o superávit primário e reforçou a autonomia operacional do Banco Central.

Lula também seria um neoliberal? Infelizmente, ele abandonou as reformas, o que em grande parte explica a recente queda da produtividade.

Quem mudou rumos foi a presidente Dilma. Ela por certo agrada a neobobos com a ação política sobre o Banco Central, a reinstituição do controle de preços, o protecionismo e outras políticas típicas da era do intervencionismo excessivo e da substituição de importações. Colhe inflação alta e PIB baixo.

O artigo de Sader no livro é uma ode à alienação. Numa de suas pérolas, afirma que a Carta ao Povo Brasileiro contribuiu para a crise política iniciada em 2005, a do mensalão. A origem do maior escândalo político da história seria a continuidade da política econômica e a oposição, “dirigida por uma mídia privada e refugiada nas denúncias de corrupção contra o governo”.

Neobobismo puro.

12/06/2013

às 18:04 \ Política & Cia

Merval Pereira: Presidente Dilma — fora da zona de conforto para a reeleição

Presidente Dilma e Ministro Mantega -- zona do desconforto (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Presidente Dilma e Ministro Mantega -- zona do desconforto (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Artigo publicado no jornal  O Globo

PRESIDENTE DILMA — FORA DA ZONA DE CONFORTO PARA A REELEIÇÃO

Se as pesquisas mostrando um viés de baixa na popularidade da presidente Dilma causaram alguma mudança no ânimo de muitos dos políticos aliados, foi provocá-los a sair da zona de (des)conforto em que estavam, como se o resultado da eleição de 2014 estivesse já decidido, e procurar alternativas.

Para os assessores do Planalto, o viés de baixa trouxe novas dores de cabeça, como o “encarecimento” do apoio no Congresso, a mostrar que nada está decidido e que se quiserem se manter no poder terão que suar a camisa.

O Datafolha bateu muito pesado dentro do governo, e o efeito mais visível é muita gente voltando a falar na saída do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Haveria a necessidade de sinalizar uma mudança para o mercado e, sobretudo, para a sociedade. Não é um movimento da presidente Dilma, nem mesmo de assessores diretos do Palácio do Planalto, mas cresce na periferia do governo, mais especificamente nos políticos da base aliada.

Essa pesquisa mostra dois problemas gravíssimos para a presidente Dilma, de acordo com análises do próprio governo. A queda de popularidade é resultado do aumento do pessimismo, não é tanto o sentimento do momento, mas a percepção do futuro, o que é mais sério.

O sentimento generalizado na opinião pública seria de crença no aumento da inflação no ano eleitoral (e estão certos pela dificuldade de cortar os gastos públicos), e de que o salário não vai subir e o desemprego corre o risco de aumentar. Como a eleição é influenciada, mais do que pela sensação de momento, pela perspectiva de futuro, o aumento do pessimismo seria um sentimento que precisaria ser combatido.

Por isso, a primeira reação de alguns é sugerir uma guinada na condução da política econômica sinalizando a demissão de Mantega. Mas aí entra uma dificuldade específica da maneira de comandar da presidente Dilma: quem seria o substituto sem luz própria para aceitar suas interferências e, ao mesmo tempo, convencer o mercado e o eleitorado de que tudo mudará?

A especulação sobre o deslocamento do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para a Fazenda, como indicação de ortodoxia, seria trocar seis por meia dúzia, com a dificuldade adicional de que o Banco Central precisaria ser preenchido por alguém que gerasse confiança no mercado.

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, atualmente homem de confiança da presidente, seria uma indicação que mais preocuparia do que acalmaria o mercado. Da mesma maneira, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, poderia sinalizar um retrocesso na condução da economia.

Como esse não é o discurso da presidente, mas um discurso para a presidente, se a mensagem chegará a ela é difícil prever. Quem está pensando assim está querendo usar a pesquisa do Datafolha para justificar uma mudança de rumo da economia, mesmo sabendo que o rumo ditado até o momento é da própria presidente Dilma, e não de Mantega.

A única cola que une os diversos partidos aliados da base governista, devido à sua heterogeneidade, é a sensação de inevitabilidade da reeleição de Dilma. Embora os números de popularidade ainda sejam muito bons, quando alguém perde oito pontos em uma pesquisa, essa sensação passa a ser de insegurança, e mesmo de alívio para boa parte dos políticos que, não gostando nem do PT nem da maneira rude de tratar de Dilma, sentiam-se amarrados ao projeto supostamente vencedor.

Agora, já podem olhar para o lado em busca de alternativas, com a sensação de que uma nova situação é possível. Tanto Aécio Neves, do PSDB, quanto Eduardo Campos, do PSB, são políticos que já demonstraram na prática entenderem melhor do que Dilma de que maneira se lida com os seus colegas, mesmo que não necessitem usar métodos escrachados de negociação.

Como decorrência da antecipação da campanha eleitoral, o PSDB ganhou mais tempo para unir suas correntes regionais, e o convite do governador Geraldo Alckmin para que o senador Aécio Neves participe do programa do partido em São Paulo é um sinal inédito de unidade, ainda mais importante depois que a pesquisa Datafolha mostrou a força do governador paulista para a reeleição.

10/06/2013

às 16:29 \ Política & Cia

Ricardo Noblat: Queda de popularidade de Dilma acende luz amarela no PT. Aliados já torcem para que Lula seja o candidato em 2014

(Charge: Pelicano)

Por Ricardo Noblat, publicado no jornal O Globo

LUZ AMARELA NO PT

Ninguém me pauta. Vou fazer o que acho certo.”

Luís Roberto Barroso, novo ministro do STF, sobre o processo do mensalão

“Par délicatesse j’ai perdu ma vie“, escreveu Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, poeta francês que viveu e brilhou na segunda metade do século XIX. Aos 20 anos, encerrou sua produção literária. Morreu de câncer aos 37. “Por delicadeza eu perdi minha vida” são seus mais famosos versos, repetidos pelos que se valem deles para lamentar algo importante que perderam. Ou para reafirmar a disposição de não perder.

No último fim de semana, depois de examinar com preocupação os resultados da mais recente pesquisa de opinião do instituto Datafolha, um petista erudito declamou os versos de Rimbaud para garantir que por elegância seu partido não perderá a vida. Ou melhor: o poder. Nem daqui a pouco nem a perder de vista.

Afinal, que partido entregaria o poder sem oferecer severa resistência?

De março para cá, a aprovação do governo Dilma caiu oito pontos. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde que ela se elegeu. Dilma perdeu popularidade entre homens e mulheres, em todas as regiões do país, em todas as faixas de renda e em todas as faixas etárias.

A causa? A volta da dobradinha inflação em alta e crescimento econômico em baixa. O brasileiro está pessimista. Acendeu a luz amarela dentro do PT.

Os partidos existem para alcançar o poder – e uma vez que alcancem, lá se conservarem, empenhados em fazer o melhor por seus governados. Na democracia, devem ao povo o que conquistaram. E somente o povo poderá retirá-los de onde estão. Por delicadeza, há dois meses, Lula antecipou a campanha presidencial do próximo ano. Atendeu a um pedido da própria Dilma.

Era véspera de mais um aniversário do PT. Lula pretendia sair em caravana pelo país. E Dilma detectara movimentos favoráveis ao lançamento da candidatura dele à sua vaga. Para eleger Dilma em 2010, Lula inventara que ela era uma excelente gestora. Superior até mesmo a ele. Chegou ao ponto de sugerir que dividira com Dilma o comando do governo no seu segundo mandato. Um exagero compreensível.

Por maior que fosse seu prestígio, não bastaria a Lula pedir votos para Dilma. Era preciso fornecer um pretexto para que a maioria dos brasileiros elegesse presidente quem nunca disputara uma eleição.

Quem já rejeitara disputar uma, argumentando que não tinha “perfil de candidata”. E quem, por falta de sorte, vira falir uma loja onde tudo que ali se vendia custava apenas R$ 1,99.

Dilma jamais foi uma gestora excepcional – a verdade é essa.

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09/06/2013

às 19:04 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Para o clima tornar-se explosivo, faltava a baderna. Não falta mais

Vândalos e militantes de partidos radicais fazem manifestações em 4 capitais (Foto: Gabriela Batista)

Baderna na avenida Paulista, em São Paulo: vândalos e militantes de partidos radicais fazem manifestações em quatro capitais (Foto: Gabriela Batista)

Por Carlos Brickmann

 AVANÇO PARA O PASSADO

Em quatro capitais, São Paulo, Rio, Goiânia e Natal, houve manifestações e tumultos contra o aumento das tarifas de transporte público.

Em São Paulo, vândalos misturados a militantes de partidos radicais puseram fogo em bancas de jornais na Avenida Paulista, que dá acesso, entre outros equipamentos urbanos, a nove hospitais, e ficou interditada por algumas horas; quebraram lixeiras, depredaram estações de Metrô, chutaram carros de quem nada tinha com isso, invadiram um shopping.

A tropa de choque dissolveu o tumulto com gás lacrimogêneo.

[Na sexta-feira, dia de enorme movimento viário em São Paulo com a saída de centenas de milhares de veículos para o fim de semana e o litoral, baderneiros interromperam o pesado tráfico de algumas grandes avenidas exatamente na hora do rush -- incluindo a vital Marginal de Pinheiros, que chega a ter oito pistas de rolamento em alguns trechos. A Polícia Militar mobilizou grandes contingentes, em várias dezenas de viaturas e motos para desobstruir as vias, e teve trabalho durante horas para evitar novas interrupções.]

Há alguns fatos curiosos a examinar. O primeiro é que Movimento Passe Livre, que organizou a manifestação, foi criado pelo Fórum Social Mundial, onde se reúnem bolivarianos de várias partes do mundo por conta do nosso dinheiro, canalizado pelo governo gaúcho.

O segundo é que a tropa de choque paulista estava nas ruas na véspera da manifestação. Aparentemente, sabia de tudo, e apenas esperava a oportunidade de, bem postada, dissolver o eventual tumulto.

O fato é que há vários indícios de crise, muitos com origem na ação ou inação do governo federal. Há dois anos, ninguém, exceto meia dúzia de saudosistas, pensava em militares.

Hoje, com a ação nem sempre equânime das comissões da verdade, há em organização até um Partido Militar, e antigos torturadores voltam a ser ouvidos – por poucos, sim, mas que buscam articular-se. A inflação ficou livre por muito tempo, o crescimento é baixo, a dívida das famílias é alta.

Para o clima tornar-se explosivo, faltava a baderna. Não falta mais.

Mais um pouco

1 – A agência de classificação de riscos Standard&Poor’s rebaixou as notas do Brasil, em vista do baixo crescimento econômico, do investimento declinante do setor privado e da deterioração da política fiscal do Governo. Prevê a SP um terceiro ano seguido de baixo crescimento e a redução no consumo das famílias.

2- A revista britânica The Economist brinca com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Referindo-se às informações de que Mantega se fortalecera após ter recebido críticas da revista, a Economist fez-lhe elogios, dizendo que agora o Governo brasileiro pode demiti-lo sem parecer que está cedendo a pressões.

3 – A balança comercial brasileira teve déficit de US$ 5,4 bilhões de janeiro a maio. Comparada a igual período do ano passado, quando o superávit foi de US$ 6,26 bilhões, a queda é de US$ 11 bilhões. É o pior resultado já obtido pelo país.

E que temos a ver com isso? Tudo: os estrangeiros estão avisados de que é arriscado trazer dinheiro. Os negócios com o Brasil ficam mais caros. E, como dizia o ministro Mário Henrique Simonsen, inflação aleija e crise cambial mata.

Resumo geral

O problema é que o PIB é pequeno e o buraco é grande.

02/06/2013

às 17:00 \ Vasto Mundo

México, Colômbia, Peru e Chile mostram ao Brasil o que deveria ser feito em vez de permanecer atolado no Mercosul

É ASSIM QUE SE FAZ -- Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos, Ollanta Humala e Sebatián Piñera (da esq. para a dir.) celebram a formalização da Aliança do Pacífico, em Cali, na Colômbia. Eles, sim, querem fazer negócios (Foto: Luis Robayo / AFP)

É ASSIM QUE SE FAZ -- Enrique Peña Nieto, Juan Manuel Santos, Ollanta Humala e Sebatián Piñera (da esq. para a dir.) celebram a formalização da Aliança do Pacífico, em Cali, na Colômbia. Eles, sim, querem fazer negócios (Foto: Luis Robayo / AFP)

Reportagem de Duda Teixeira e Tamara Fisch, publicada em edição impressa de VEJA

O QUARTETO FANTÁSTICO

México, Colômbia, Peru e Chile iniciam uma área de livre-comércio ao zerar as tarifas de 90% dos seus produtos de exportação. Enquanto isso, o Mercosul afunda

Durante a campanha eleitoral de 2011, o atual presidente do Peru, Ollanta Humala, discursou para uma pequena plateia de agricultores, em Lima. “No tempo dos incas, não havia tratados de livre-comércio e nem por isso as pessoas aqui passavam fome”, disse ele, sob aplausos.

Humala fazia, assim, eco à exaltação de um passado indígena idealizado de sua sigla, o Partido Nacionalista Peruano (PNP), e à aversão da esquerda aos acordos comerciais, que beneficiaram tremendamente o Peru nos últimos anos. No império Inca, ele tinha razão, o que não faltava era batata. E só.

Na quinta-feira 23, o mesmo Humala apareceu para as câmeras fotográficas em uma situação totalmente diferente. Em Cali, na Colômbia. posou ao lado do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, do mexicano Enrique Peña Nieto, e do chileno, Sebastián Piñera, para sacramentar a entrada em vigor da Aliança do Pacífico.

Essa área de livre-comércio, cujo projeto foi anunciado no ano passado, passa a funcionar no dia 30 de junho, quando 90% dos produtos comercializados entre essas nações terão as tarifas zeradas.

A reviravolta de Humala é um exemplo de político que, apesar das preferências ideológicas, se rendeu à realidade. Não há maneira mais eficiente para reduzir a pobreza e distribuir a riqueza de um país do que o livre-comércio.

Já o seu inverso, o protecionismo, é o grande responsável por afugentar os investimentos estrangeiros e a chance de uma economia crescer e de criar empregos. Se ainda estivesse apegado aos ideais bolivarianos do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, Humala provavelmente teria optado por ingressar no Mercosul, o palanque político travestido de união aduaneira, que inclui Brasil, Argentina, Venezuela e Uruguai.

O efeito mais imediato da Aliança do Pacífico para o Brasil é a perda de clientes ao redor do mundo. “Um produto chileno ou mexicano, exportado para a China ou para os Estados Unidos, não pagará tarifas, enquanto um brasileiro arcará com algo entre 20% e 35%”, diz Evaldo Alves, professor de economia internacional na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

31/05/2013

às 18:00 \ Política & Cia

J.R. Guzzo: Crise provoca reviravolta e faz profissionais qualificados ganharem salários maiores nos países menos ricos

Salarios mais altos em países em desolvolvimento atraem executivos de primeiro mundo -- só a França já perdei mais de 1,6 milhão de profissionais (Foto: Getty Images)

Salários mais altos em países em desenvolvimento atraem executivos de primeiro mundo -- só a França já perdeu mais de 1,6 milhão de profissionais (Foto: Getty Images)

Artigo publicado em edição impressa da revista Exame

OS POBRES PAGAM MAIS

A crise no mundo rico e a falta de gente qualificada em países como o Brasil provocam uma inversão inédita de salários dos executivos. Eles têm perspectiva de ganhar mais aqui do que lá.

O quadro não é novo, mas hoje está mais claro do que em qualquer outra época. Pela primeira vez na história, possivelmente, trabalhar como executivo — em português simples, como chefe de alguma coisa, e não como operário imigrante — pode estar sendo melhor no mundo pobre, ou pelo menos no que se chama de “emergente”, do que no mundo rico.

A regra não é clara, mas os números são. Os resultados da pesquisa mundial mais recente sobre o tema, fruto de estudo feito por 20 000 especialistas em remuneração que trabalham em 70 países, comprovam que os executivos dos quatro Brics, e algumas dezenas de nações com características parecidas, terão em 2013 altas salariais maiores do que em qualquer lugar do Primeiro Mundo.

Dentro de três anos, os salários dos executivos na Ásia deverão ser superiores aos dos Estados Unidos. Já agora, na China, um gestor vindo de fora ganhará logo de saída 30% mais do que recebia no país rico de onde veio. O Brasil, nesse pelotão, é um dos que apresentam os maiores aumentos.

Tirando os mandarins da primeiríssima linha das megaempresas americanas e multinacionais, sobretudo na área financeira, a remuneração dos executivos no Brasil está se aproximando, já igualou ou passou à frente da que é paga a profissionais do mesmo nível em países ricos.

E precisamente isso, por sinal, que tem trazido ao Brasil e países semelhantes um número cada vez maior de executivos estrangeiros.

A compensação para os riscos provocados pelas incertezas políticas do mundo “emergente” (com o consequente risco para a manutenção do emprego), as ameaças sempre presentes da inflação e o crescente aumento do consumo nesses países estão na base do movimento que está à vista de todos.

Os grandes vetores dessa “transferência mundial” dos rendimentos mais altos, porém, parecem claramente movidos por duas forças: a oferta maior que a demanda dos empregos superiores, fruto da ruindade geral da educação em países como o Brasil, e o marasmo, às vezes quase o estado de coma, no mercado de trabalho no mundo desenvolvido.

A primeira situação está mais do que demonstrada na economia brasileira: falta, pura e simplesmente, gente qualificada para ocupar os postos oferecidos.

A indústria, principalmente, não consegue encontrar os profissionais de que precisa, seja para projetos de expansão, seja para a simples manutenção de suas operações normais; mesmo para um crescimento econômico que não chega nem a 1% ao ano, as empresas vivem à procura, sempre demorada e frequentemente malsucedida, de executivos que sejam realmente capazes de executar as tarefas exigidas por seus cargos.

Falta pessoal em centenas de atividades, sendo a área de engenharia a mais dramática. O ambiente na maioria dos países ricos, porém, já é coisa cercada por nevoeiro grosso.

A França talvez seja o melhor exemplo

A França talvez seja o melhor exemplo dessa situação. A renda média, número algo discutível diante de sua cohabitação com uma “renda mediana” criada pelos estatísticos, é geralmente colocada em 2400 euros por mês, ou cerca de 6 250 reais.

Só 10% das famílias ganham mais do que o equivalente a 14 000 reais por mês — havendo contas ainda mais rigorosas, segundo as quais os 90% restantes recebem mensalmente menos de 3300 euros, ou 8500 reais. Enfim, apenas 1% ganha mais do que 7600 euros, ou 20 000 reais por mês.

São cifras altamente equilibradas, às quais se juntam excelente educação e serviços públicos de primeira qualidade. No entanto, nunca os franceses estiveram tão insatisfeitos com seu bem-estar — e têm demonstrado isso com as pernas.

Contando apenas os que se registram nos consulados, há hoje 1,6 milhão de franceses vivendo no exterior, um número que pode estar próximo a 3 milhões, na contabilidade real.

Não querem os poucos empregos que a França pode oferecer e não se interessam pelo Estado de bem-estar social que tanto esforço, tanto imposto e tantas décadas custou ao país.

É um caso que dá o que pensar.

30/05/2013

às 17:48 \ Política & Cia

Simpatias do PMDB por Aécio Neves reveladas por deputado são um problema a mais no caminho de Dilma-2014

Deputado Leonardo Quintão: foi ele quem conseguiu 199 assinaturas -- 52 de seu partido, o PMDB, supostamente parte da base papara formar uma CPI sobre a Petrobras que o governo não quer ver nem pintada

Leiam essa frase do deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), em entrevista concedida ao site de VEJA:

“Boa parte do PMDB tem simpatia pelo Aécio Neves. Mas o jogo político começa no ano que vem. O senador tem uma habilidade muito grande de convencimento. A gente tem de ser franco nesse diálogo: se a parceria não for boa para o PT e o PMDB, o partido tem a obrigação de procurar os seus caminhos.”

Leonardo Quintão não é um deputado qualquer. Como você verá na entrevista, “enquanto o Palácio do Planalto tentava contornar a crise que travou a articulação política no Congresso nas últimas semanas, ele percorreu o plenário coletando assinaturas de deputados para criar uma CPI da Petrobras”

Aproveitando os ânimos acirrados — diz ainda a matéria — recolheu 199 nomes, bem acima do número necessário para instalar uma CPI. E, vejam bem, 52 dos deputados que pediram a CPI — num momento em que o governo quer ver Belzebu em pessoa do que a comissão funcionando — são do PMDB, partido do vice-presidente da República, Michel Temer, e esteio do governo Dilma no Congresso.

“O descontentamento dos parlamentares do PMDB com o governo tem aumentado muito”, afirmou Quintão ao site de VEJA. Para o deputado, a crise tem duas frentes: a dificuldade dos parlamentares em conseguir recursos nos ministérios e as negociações eleitorais nos Estados.

E esta, meus amigos, é apenas uma das pedras no sapato da campanha de reeleição da presidente Dilma, lançada como candidata pelo próprio Lula no começo do ano e que, em discursos, inaugurações e pronunciamentos à nação, pode-se considerar que, mesmo fora da época e da lei, já começou.

As pedras não são poucas. Vamos a elas:

1. Crescimento do PIB. A economia vai capengando. Dilma caminha para um provável terceiro ano com taxas de crescimento do PIB inferiores às do lulalato. A oferta de empregos declinou um pouco, mas o problema nessa área é que a grande maioria dos postos oferecidos é de baixo salário.

2. Ameaça da inflação. A inflação voltou a assombrar, ameaçando duas décadas de conquistas dos brasileiros, e as mágicas tentadas pela área econômica do governo — como cortar impostos, intrometer-se na política de preços da Petrobras e das elétricas, entre outras ações — não vêm funcionando a contento, tanto é que o Comitê de Política Monetária (Copom), acaba de decretar a segunda alta consecutiva nas taxas básicas de juros.

3. Um aliado que pode debandar. O eleitorado potencial de Dilma em 2014 pode ser corroído pela candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, chefão do PSB, partido que vinha fechando com o PT em todas as disputas presidenciais desde 1989. Também Marina Silva, com seu novo partido de nome esquisito, tem cacife para atrair eleitores potenciais de Dilma.

4. Um aliado duvidoso. O PSD do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab remancha e é reticente quando se fala na eleição de 2014.

5. Problemas sérios em alguns Estados. Vou ficar em apenas um — o Rio de Janeiro, Estado que possui o terceiro maior eleitorado após São Paulo e Minas Gerais. O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, ambos do mesmo PMDB do deputado Leonardo Quintão, são, sim, aliados da presidente Dilma. Mas estão furiosos com a manutenção, pelo PT, da candidatura do senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu Lindbergh Farias. Diante da ameaça clara de não eleger o candidato do partido, o vice-governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão, não custa lembrar que ambos mantêm excelentes relações com o presidenciável tucano Aécio Neves, que foi criado no Rio de Janeiro e mantém na cidade um largo círculo de amizades e influências.

Cabral é aliado de Dilma, sim — mas será que vai querer um rival do PT em seu lugar no Palácio Guanabara? A cunha aberta no PMDB pode beneficiar Aécio. Se a ruptura não ocorrer, o senador já confidenciou a amigos ter uma carta surpreendente no bolso, alguém de muito prestígio mas de fora da política. A ver.

O Rio, de todo modo, é um entre vários Estados onde os palanques estaduais ameaçam a aliança do PMDB com a presidente.

6. Um adversário que vai dar trabalho. Quem acredita na pecha de gozador da vida pouco conectado com os grandes problemas nacionais que os adversários querem colar no senador Aécio Neves poderá se surpreender na campanha. Diferentemente de José Serra — que, não custa lembrar, levou Lula e Dilma ao segundo turno –, Aécio é vastamente conhecido como um agregador, um aparador de arestas. Diferentemente de Geraldo Alckmin — que deu um susto em Lula em 2006, indo também para o segundo turno — é dotado de forte carisma.

Tem um bom currículo como político: foi um deputado ativo, um presidente da Câmara dos Deputados que articulou proezas antes consideradas impossíveis, como acabar com a imunidade total para deputados e senadores e um governador de Minas bem avaliado e popular por dois mandatos, a ponto de eleger como sucessor seu vice, Antonio Anastasia, que começou a campanha com 3% de intenção de votos.

Como presidente recém-eleito do PSDB, obteve carta branca de governadores e cardeais do partido para a montagem dos palanques estaduais tendo em vista sempre o objetivo de obter o melhor resultado eleitoral — e quem vai montar é ele mesmo. Pretende trabalhar duro para tornar-se conhecido em São Paulo (que, somado à sua Minas natal, perfazem 43% do eleitorado brasileiro). Está muito mais próximo do governador Alckmin do que se imagina. Vai viajar por todo o país a partir de agosto e, no problemático (para os tucanos) Nordeste, acha que a ação de seu governo e do de Anastasia no empobrecido norte de Minas (incluído na área da Sudene) — Minas chegou a investir na região o triplo do que fazia no restante do Estado — pode servir de vitrine sobre o que representaria um presidente tucano para a região.

Além do mais,  está armando palanques que incluem os poucos governadores que PSDB tem na região e no Norte (Rosalba Carlini, do DEM, no Rio Grande do Norte, e Simão Jatene, do PSDB, no Pará) mas uma boa rede de prefeitos de grandes cidades, que vai de ACM Neto (DEM) em Salvador a Arthur Virgílio (PSDB) em Manaus.

A eleição de 2014, não é ousado arriscar, não deve ser um passeio para a presidente Dilma.

28/05/2013

às 16:03 \ Política & Cia

José Roberto de Toledo: Boato, tomate e ferrugem

Entre boatos e tomates, o que desgasta é a ferrugem que fica (Imagem: Veja.com)

Entre boatos e tomates, o que desgasta é a ferrugem que fica (Imagem: Veja.com)

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo

BOATO, TOMATE E FERRUGEM

Nem boato, nem tomate. O que desgasta a popularidade de Dilma Rousseff é a perda de otimismo do consumidor. Sem vender esperança de que melhores ventos virão, nenhum capitão consegue manejar o leme à vontade por muito tempo. É a confiança de que o barco está no rumo certo que evita o motim da tripulação.

Boatos fabricados e tomates exorbitantes passam. Já a lenta mas constante perda de poder de compra da base eleitoral tem efeito corrosivo na imagem de qualquer governante. As ondas chacoalham, mas é a ferrugem que afunda o navio no longo prazo. Marola quase imperceptível no oceano de notícias sobre o boato, a nova queda da confiança do consumidor registrada na sexta é ferrugem.

Antes, porém, uma espiada na comoção coletiva e efeito manada.

O descomunal interesse sobre o Bolsa Família provocado pelo boato de que o programa iria acabar ficou documentado na página de tendências do Google – o Google Trends. O volume de buscas pela expressão “bolsa familia” (assim mesmo, sem acento) foi recorde no domingo 19 de maio: dez vezes maior do que de hábito. Mas durou pouco. Em três dias a preocupação voltou ao normal.

O vagalhão produzido por mensagens fraudulentas enviadas a celulares de beneficiários do Bolsa Família – por empresa de telemarketing carioca, segundo a Polícia Federal – dissipou-se tão rapidamente quanto chegou. Arrastou multidões aos caixas eletrônicos, mas deixou para trás apenas a desconfiança – menos sobre a continuidade do programa do que sobre a origem do boato.

No fim, a armação pode ter o efeito contrário ao previsto, porque o boato não encontrou respaldo na realidade. É diferente da busca coletiva pelo tomate perdido de quarenta dias antes.

Preços impagáveis elevaram o tomate à categoria de fenômeno digital em 5 de abril. As buscas por “tomate” no Google chegaram ao pico no dia seguinte, um sábado, e persistiram por mais uma semana. Embora o auge não tenha sido tão intenso quanto no boato do Bolsa Família, o efeito mais prolongado acabou gerando, no acumulado, mais buscas – um indicativo de maior interesse.

A diferença é que ao chegar à feira as pessoas encontravam o preço do tomate exorbitantemente alto. Embora isso não fosse símbolo de inflação – era apenas escassez -, dava respaldo ao que se lia na internet e na imprensa. Não era boato. Mas o interesse acabou dissipando-se quando o preço voltou ao normal.

Boato e tomate foram factoides de pouca consequência. Talvez tenham sido uma prévia do que o governo verá quando a campanha eleitoral começar para valer. Mas não tiveram força para mudar o destino de Dilma na Presidência. A queda da confiança do consumidor, porém, não é boato nem efeito manada. É tendência.

O ICC da Fundação Getúlio Vargas vem em queda desde abril do ano passado, se olhado pela média trimestral. Os últimos três índices ficaram abaixo da referência histórica. O que está arrastando a confiança do consumidor para baixo é a perda do otimismo. Ele olha para frente e já não vê tudo azul como via há alguns meses. Tem dúvidas sobre o futuro.

O fenômeno é mais agudo em São Paulo, mas a tendência se repete, ainda que com menor intensidade, em outras regiões do País – como mostra outro índice que mede a mesma coisa, o INEC da Confederação Nacional da Indústria. A ferrugem não se limita à expectativa do consumidor. As medições sobre o mercado de trabalho feitas pelo IBGE e pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostram que o desemprego segue excepcionalmente baixo, mas a oferta de vagas desacelera. E a renda dos trabalhadores está começando a cair. Some-se inflação e o resultado é perda de poder de compra.

Até o PT já percebeu que mais do mesmo não levará Dilma ao segundo mandato. A presidente vai precisar restaurar o otimismo do brasileiro se quiser arear sua popularidade.

26/05/2013

às 18:00 \ Política & Cia

Surpreendente entrevista de Jaques Wagner, o governador petista da Bahia: “O Brasil não começou com o PT”

"Se FHC fez o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Lula investiu no social, a presidente Dilma agora tem de deixar o país mais competitivo" (Foto: Pedro Accioly)

"Se FHC fez o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Lula investiu no social, a presidente Dilma agora tem de deixar o país mais competitivo" (Foto: Pedro Accioly)

Entrevista concedida a Otávio Cabral, de Salvador, publicada em edição impressa de VEJA

 O BRASIL NÃO COMEÇOU COM O PT

O governador da Bahia afirma que o país vem evoluindo desde o Plano Real, defende a liberdade de imprensa e diz que seu partido deve apoiar Eduardo Campos em 2018

Um problema antigo tem tirado o sono do governador Jaques Wagner: a seca que castiga metade dos municípios da Bahia, que dependem de carros-pipa para matar a sede da população. Embora o Brasil tenha se desenvolvido muito nos últimos vinte anos, diz ele, e não apenas graças ao seu partido, o PT, como admite, o drama da seca ainda castiga o Nordeste, só que de forma menos visível.

Quando fala de política, Jaques Wagner se mostra um petista pouco radical: reconhece o resultado do julgamento do mensalão, defende a liberdade de imprensa e se diz favorável até mesmo a que seu partido se comprometa a apoiar a candidatura presidencial de Eduardo Campos, do PSB, em 2018.

O Nordeste passa pela maior seca em setenta anos. Como o governo federal está lidando com isso?

Não há legiões de famintos vagando pelo sertão nem imagens de crianças desnutridas pelas estradas, mas, dependendo da região, a seca é, de fato, a mais severa em noventa anos. Aqui na Bahia açudes de 92 anos secaram pela primeira vez. A dor é a mesma, a consequência econômica é a mesma, a diferença é que hoje há uma rede de proteção social maior, que minimiza o drama da fome.

Infelizmente, não há como zerar o problema. Existe essa rede de proteção social, mas uma eficiente rede de proteção econômica ainda precisa ser consolidada. No último ano, aumentou muito a migração de nordestinos para o Sul e o Sudeste, um fenômeno que praticamente não era mais visto. Não estamos mais como no passado, quando se viam crianças morrendo e famintos pela rua, mas ainda é preciso fazer muito contra a seca.

Outro problema que atinge diretamente a população pobre é a inflação. O fraco desempenho da economia pode pôr em risco a reeleição da presidente?

No início do governo Lula, havia um clamor para que os juros baixassem numa paulada. O Henrique Meirelles (ex-presidente do Banco Central) defendia uma queda mais gradual e, didaticamente, dizia: “A questão dos juros é igual ao aquecedor do chuveiro de casa. A gente liga e tem um tempinho para a água chegar quente à ponta”. Os juros caíram em um ritmo correto e o país voltou a crescer.

Agora é a mesma coisa com o controle da inflação. Tem gente defendendo a ideia de que se dê uma trancada forte nos juros para segurar a inflação. Mais uma vez, acho que a coisa deve ser feita devagar e que, com o tempo, a inflação volta para o centro da meta. Prefiro ficar nesse resultado, de um crescimento que não é exuberante, mas é consistente, a voltar àquele ciclo de altos e baixos que já tivemos.

"Não há legiões de famintos vagando pelo sertão nem imagens de crianças desnutridas pelas estradas, mas, dependendo da região, a seca é, de fato, a mais severa em noventa anos" (Foto: Ricardo Cardoso / Frame)

"Não há legiões de famintos vagando pelo sertão nem imagens de crianças desnutridas pelas estradas, mas, dependendo da região, a seca é, de fato, a mais severa em noventa anos" (Foto: Ricardo Cardoso / Frame)

Há gente em seu partido que defende a tese de que uma inflação acima da meta pode ser tolerada em prol de um crescimento maior. O senhor concorda?

Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso deram uma tremenda contribuição ao incorporar à cultura brasileira o controle da inflação e a parcimônia nos gastos públicos. Foi uma coragem que deu ao Fernando Henrique duas eleições. Disputas políticas à parte, não podemos retroceder, temos de fazer o país avançar, mantendo as conquistas anteriores.

O Lula pegou essa herança e manteve o que era bom para a economia não desandar. Muitas vezes ele é injustiçado ao ser comparado com outros populistas da América Latina, mas jamais aceitou pôr a economia em risco em nome do populismo. Quem escolheu manter o salário mínimo abaixo do prometido em 2003 e 2004 foi ele. Quando houve o mensalão, muita gente falava para ele esculhambar o Orçamento para pacificar a base política. Ele se negou. Por isso tudo, acho injusto pensar que o governo do PT vá abrir mão do controle da inflação.

O governo Dilma tem enfrentado problemas na economia e ainda não conseguiu deixar uma marca. Qual é o símbolo do atual governo?

Fui coordenador do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e levei dezoito meses para chegar a um consenso: o maior obstáculo ao desenvolvimento eram as desigualdades sociais. Foi unânime, da Febraban ao MST. Lula então aprofundou as políticas sociais. Dilma pegou a economia equilibrada e os avanços sociais e decidiu aumentar a competitividade. O primeiro ponto a enfrentar foi o custo do dinheiro, o que a levou a comprar briga com os bancos. Se o FHC fez o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Lula investiu no social, a presidente Dilma agora tem de deixar o país mais competitivo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

24/05/2013

às 14:00 \ Vasto Mundo

Medo do governo de Cristina Kirchner faz argentinos recorrerem ao dólar. Vejam os números

Na Argentina, os dólares ficam embaixo do colchão (Foto: StockPhoto)

Na Argentina, os dólares ficam embaixo do colchão (Foto: StockPhoto)

3 de cada 5 dólares que os argentinos possuem não são declarados.

Com medo da inflação e do caos econômico do governo Cristina Kirchner, eles guardam esse dinheiro em contas no exterior, em cofres privados ou o escondem em casa

170 bilhões de dólares, o equivalente a 35% do PIB da Argentina, é o valor dessa reserva paralela.

Ela é quatro vezes maior que as reservas do Banco Central argentino, o Banco de la República. Na semana passada, Cristina prometeu que anistiaria quem repatriasse dólares não declarados mantidos no exterior

700.000 argentinos, ou 1,6% da população, alugam cofres particulares.

De cada cinco cofres do vizinho Uruguai, um está alugado para um cidadão argentino

(Texto publicado na seção “Panorama” da edição de VEJA que está nas bancas)

 

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