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Fernando Haddad

28/02/2015

às 19:00 \ Política & Cia

J. R. GUZZO: Não há perigo de o Ministério e as secretarias da Cultura fazerem qualquer coisa de bom “neste país”

(Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

Grafite autorizado: por decisão de Fernando Haddad, o patrimônio histórico de São Paulo — em lugares como os chamados “arcos do Jânio”, descobertos em escavação durante o mandato do ex-presidente como prefeito (1986-1989) –, agora estampa imagens como um rosto estranhamente parecido com o de Hugo Chávez (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SUPREMO TRIBUNAL CULTURAL

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

J. R. GuzzoSe alguém, seja lá pelo motivo que for, quer impedir que alguma tarefa útil seja executada na cultura brasileira, pode chamar o Ministério da Cultura; o resultado é 100% garantido. E as secretarias de Cultura, ou outros mamutes culturais do poder público – haveria algum risco de fazerem algo de bom?

Fiquem todos sossegados: não há o menor perigo de que venha a acontecer, também aí, qualquer coisa que preste. Os fatos, sempre eles, são a prova disso. O Museu do Ipiranga, monumento básico da cultura de São Paulo, está fechado até 2022; é uma proeza que se candidata ao livro de recordes da cervejaria Guinness.

A formidável Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro vive esperando o padre para receber a extrema-unção. (Ainda recentemente passou meses a fio sem ar condicionado, com temperaturas internas que chegaram aos 50 graus. Nos últimos doze anos o governo fez três planos de carreira para seus funcionários; não cumpriu nenhum.)

O Museu Nacional de Belas Artes, também no Rio, com 200 anos de história e sua notável fachada de estilo Renascença francesa, é humilhado por goteiras. As construções das cidades históricas de Minas Gerais e do Norte, relíquias únicas da arquitetura colonial brasileira, podem virar entulho. Cinquenta anos após sua fundação, Brasília, a capital do Brasil Potência, ainda não tem um museu decente. É a vitória do Bolsa-Cupim.

Mas as figuras que mandam desde 2003 na máquina pública brasileira não se contentam com isso. Além de se negarem a fazer o trabalho pelo qual são pagas, querem, acima de tudo, decidir o que é cultura neste país e o que não é – ou o que é cultura certa e o que é cultura errada. São contra, é claro, essa cultura “que está aí”. A única que admitem é a sua, e no Brasil de hoje isso quer dizer “cultura popular”.

Basicamente, trata-se de um conjunto de atividades exercidas por pessoas que não sabem pintar, escrever, compor uma melodia, fazer um filme ou montar uma peça de teatro capazes de interessar a alguém – e que são sustentadas, de um jeito ou de outro, pelo Erário, por serem contra a “arte burguesa”, a favor da “arte dos desvalidos” ou praticarem algum outro truque que esconda a sua falta de talento, de mérito e de público.

Seu grão-vizir no momento é o doutor Juca Ferreira, ministro da Cultura (pela segunda vez), ex-secretário da Cultura da prefeitura de São Paulo e marechal de campo no combate contra o modelo de cultura “excludente”; imagina que “uma política cultural abrangente é um essencial instrumento da construção de uma nova cultura política”.

O ministro Juca e todos os que ganham a vida como ele formam hoje o Supremo Tribunal Cultural brasileiro. Não cabe nenhum recurso contra as suas decisões.

O último feito de armas dos árbitros que ora determinam se podemos ou não gostar disso ou daquilo deu-se na cidade de São Paulo, governada pelo PT do prefeito Fernando Haddad. Para executar sua “política de cidadania cultural”, a prefeitura resolveu convocar grafiteiros amigos para pichar os “Arcos do Jânio”, um modesto conjunto de arcadas que alivia um pouco a paisagem de deserto do centro de São Paulo.

Esses arcos nunca fizeram mal a ninguém. Não são o Coliseu de Roma ou a Catedral de Notre-Dame de Paris, mas é o que temos – e, já que temos tão pouco, supõe-se que esse pouco deveria ser deixado em paz. Nada disso: a prefeitura de São Paulo tem uma política cultural a executar. No caso, sem consultar ninguém, sepultou as arcadas sob um amontoado de rabiscos, borrões e desenhos deformados.

Oficialmente, isso é “arte da periferia”. Na prática, trata-se apenas de degradar a superfície de um muro. Esse tipo de coisa, como se sabe, sempre pode ficar pior, e ficou. Não demorou muito e apareceu, no meio da pichação, um rosto que é a própria fotografia do coronel Hugo Chávez, o líder de massas da Venezuela que a esquerda mais rústica tenta transformar num novo “Che” Guevara, ou algo assim.

Chávez? Nem pensar, diz a autoridade municipal. O autor queria apenas pintar um “rosto negro”, só isso. Foi pintando, pintando – e no fim, quem diria, saiu uma figura que é a cara do Chávez. Que coisa, não? Essa vida é mesmo uma caixinha de surpresas.

O prefeito se encanta com o homem que presenteou a Venezuela com a falta de papel higiênico? Problema dele. Mas Haddad foi eleito para governar a cidade por quatro anos; não tem o direito de privatizar a paisagem urbana para exibir suas crenças políticas, nem de mudar o “gosto conservador do paulistano”. Isso não é promover cultura. É fazer propaganda, apenas.

23/02/2015

às 18:49 \ Tema Livre

As bicicletas elétricas já viraram, rapidamente, tudo aquilo que a propaganda dos “e-carros” diz que eles vão ser

(Foto: E-bike.com.pt)

Uma e-bike como esta da Coluer chega a 30 km/h (Foto: E-bike.com.pt)

POLÍTICA DE UMA RODA SÓ

Artigo de José Roberto de Toledo publicado no jornal O Estado de S. Paulo

A prefeitura da metrópole argumenta com estatísticas: o uso de bicicletas na cidade cresceu 10% no último trimestre e bateu seu recorde. Elas já são 16% do tráfego de veículos no centro da cidade. É preciso fazer mais ciclovias e estações de aluguel.

Não, não é o paulistano Fernando Haddad. É seu colega londrino, que investe R$ 4 bilhões para melhorar a infraestrutura cicloviária de Londres e aumentar a segurança dos ciclistas. Fora do Brasil, o transporte a pedal não é uma mesquinha questão partidária. É uma imposição econômica.

Todo ano, o mundo produz mais de 130 milhões de bicicletas – o dobro do que fabrica de carros. E essa diferença continua crescendo, entre outros motivos, porque uma invenção centenária está, enfim, seduzindo o mercado: a e-bike.

A bicicleta motorizada existe desde o fim do século 19, mas apenas nos últimos anos a tecnologia evoluiu ao ponto de popularizar a produção de motores elétricos realmente eficientes e de baterias leves, recarregáveis e duradouras. Tudo isso combinado a sensores que captam o movimento e a força da pedalada e transferem para a roda a energia que faltava. O resultado é uma bicicleta que aplaina qualquer cidade.

Um ciclista neófito e com sobrepeso é capaz de subir os três quarteirões da ciclovia da Rua João Ramalho, uma das mais íngremes ladeiras paulistanas, sem ter um infarto – porque o motor elétrico complementa a pedalada com a força necessária. No plano, uma e-bike chega, sem esforço, a 25 km/h. Não é brinquedo. É muito mais um meio de transporte do que de lazer.

(Foto: E-bike.com.pt)

O motor elétrico dá impulso em percursos exigentes (Foto: E-bike.com.pt)

A e-bike já virou aquilo que a propaganda diz que o carro elétrico será um dia. Os números são incomparáveis. Enquanto as vendas de automóveis híbridos no mundo se contam aos milhares, as e-bikes são produzidas aos milhões. Tudo começou na China, onde o desenvolvimento dessa tecnologia é uma prioridade de Estado desde 1991. Hoje, nove em cada dez e-bikes são chinesas. Mas europeus e norte-americanos tentam recuperar o terreno perdido.

As vendas de e-bikes na Alemanha crescem 45% ao ano. Nos EUA, 80%. Um dos inventores da mountain bike, Gary Fisher disse aos fabricantes de bicicletas dos EUA no seu último congresso: “As e-bikes vão eclipsar as mountain bikes. Isso vai ser maior do que qualquer coisa que vocês já viram. E é melhor darem duro, porque, senão, a indústria automobilística vai tomar conta”.

As grandes montadoras de veículos e os fabricantes de autopeças já perceberam a oportunidade e entraram no mercado. Bosch e Yamaha, por exemplo, desenvolveram sistemas integrados de motor e bateria que podem ser adaptados a bicicletas comuns de outros fabricantes. Audi, Ford, Porsche e Smart – para citar algumas marcas que estão se adaptando das quatro para duas rodas – desenvolveram e vendem e-bikes. Não é difícil entender o motivo.

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05/02/2015

às 14:00 \ Política & Cia

BOLSA-TRAVESTI: a falsa solução de Haddad para um problema real de São Paulo

TRANSOFENSIVA — Haddad e seu secretário de Direitos Humanos, Rogério Sottili, com beneficiários do programa Transcidadania (Foto: Carla Carniel/Frame/Agência O Globo)

TRANSOFENSIVA — Haddad e seu secretário de Direitos Humanos, Rogério Sottili, com beneficiários do programa Transcidadania (Foto: Carla Carniel/Frame/Agência O Globo)

JE SUIS LGBT (E O QUE MAIS VIER)

Na busca pelo eleitorado de sua provável rival em 2016, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, cria o bolsa-travesti, mais uma falsa solução para um problema real

Reportagem de Mariana Barros publicada em edição impressa de VEJA

Desde segunda-feira, gays, travestis e transexuais que vivem nas ruas de São Paulo têm direito a uma bolsa de 840 reais por mês para frequentar a escola. O autor da ideia é o prefeito Fernando Haddad (PT), para quem o projeto, batizado de Transcidadania, vai “pôr São Paulo na vanguarda e colocar essas pessoas no caminho, dando [a elas] respeito, educação e trabalho”.

Os 100 inscritos até agora no programa, que custará 2 milhões de reais aos cofres da prefeitura, são, em sua maioria, semialfabetizados, moram na rua e não têm emprego fixo. O objetivo da prefeitura paulistana é que, com mais escolaridade, eles consigam encontrar uma colocação e melhorar de vida.

Trata-se de mais uma falsa solução de Primeiro Mundo para um problema real do Brasil. Os empecilhos para que essas pessoas obtenham um trabalho fixo não são os que o prefeito imagina. No mundo real, o principal deles é a pouca disposição — em geral, fruto de preconceito — de empregadores para aceitar travestis e transexuais no quadro de funcionários. E isso é algo que pouco mudará se um candidato tiver alguns anos a mais de estudo.

Outro empecilho é uma imposição do mercado: o salário oferecido a quem tem até o ensino médio — o máximo que o programa oferece nos primeiros dois anos — dificilmente superará os ganhos obtidos na prostituição, atividade exercida por 80% dos travestis de São Paulo, segundo estimativas da prefeitura.

Esses equívocos não são os únicos fatores a prenunciar a má sorte do novo projeto da prefeitura de São Paulo. O Transcidadania já nasceu sob a inspiração de uma ideia fracassada, o programa De Braços Abertos. Criado em janeiro do ano passado, ele tem como público-alvo os viciados em crack que vivem na região central paulistana conhecida como Cracolândia. Os beneficiários do bolsa-crack recebem 450 reais por mês, moradia gratuita em hotéis do centro da cidade e três refeições ao dia. A busca por tratamento não é obrigatória.

A contrapartida para os viciados receberem o dinheiro é trabalhar na varrição de ruas durante quatro horas por dia. Hoje são 453 os participantes (40% dos inscritos na primeira fase abandonaram o programa depois de dois meses, 21 saíram depois de um ano para trabalhar com carteira assinada). No ano passado, somente com o treinamento da equipe que atua no programa, a prefeitura gastou 15 milhões de reais. Até agora, no entanto, o resultado mais gritante do De Braços Abertos foi o aumento do preço do crack, que em dias de pagamento da bolsa dobra de valor: a pedra sobe de 10 para 20 reais.

Agora, os traficantes sabem que os usuários contam com uma fonte de renda garantida. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

13/01/2015

às 19:00 \ Política & Cia

A “conversão” de Marta Suplicy em crítica do lulopetismo é o-por-tu-nista. Ela conviveu com as maracutaias do partido por longos anos, e agora se afasta dele porque quer ser candidata em São Paulo

(Fotos: Ayrton Vignola/AE)

Marta Suplicy em 2010, quando estava às boas com a presidente Dilma Rousseff — a ponto de lhe fazer o papel de copeira. Um tanto contrariada, é verdade, mas…  (Fotos: Ayrton Vignola/AE)

Muito interessante a senadora Marta Suplicy (PT-SP) começar, de repente, a atirar publicamente contra o governo Dilma e contra o próprio PT.

O fel começou a vir à tona quando Marta deixou o Ministério da Cultura, em novembro passado, em cerimônia gelada na qual mal falou com a presidente. Depois, com seu famoso texto no Facebook no finalzinho de dezembro, baixando o sarrafo em seu sucessor, Juca Ferreira. E, finalmente, mais que tudo, na explosiva entrevista que concedeu à jornalista Eliane Cantanhêde, na edição deste domingo do Estadão. (A íntegra está aqui).

Uma das cortantes frases de Marta foi a seguinte:

– Cada vez que abro um jornal, fico mais estarrecida com os desmandos do que no dia anterior. É esse o partido que ajudei a criar e fundar? Hoje, é um partido que sinto que não tenho mais nada a ver com suas estruturas.

Puxa, como demorou, não, senadora? O PT foi fundado há quase 35 anos, em 1980. Os casos de corrupção nas administrações municipais — inclusive maracutaias em capitais importantíssimas — já datam desta década. Foram denunciados nos primórdios do partido por gente como Paulo de Tarso Venceslau, que, longe de ser de “direita”, participou da luta armada durante a ditadura militar.

Denúncias de outras natureza e sérias questões éticas vieram à tona por iniciativa de outros fundadores, sejam de “esquerda”, como o hoje editor César Queiroz Benjamin, também antigo participantes da luta armada, sejam do campo liberal, como o jurista Hélio Bicudo, que se destacou pela coragem e integridade como promotor público em sua luta contra o Esquadrão da Morte durante o período militar, foi deputado, candidato ao Senado e vice-prefeito de São Paulo antes de desiludir-se, como os demais citados, com o partido de Lula.

Vamos supor, porém, que tais questões fossem pequenas, embora graves.

Mas o mensalão, senadora? O maior escândalo de corrupção política da história da República até o surgimento do petrolão já vai completar DEZ ANOS em agosto, dona Marta. DEZ anos. Onde ficaram seus protestos contra os chefões petistas acusados e, finalmente, condenados à cadeia?

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Marta, quando ministra, com o vice-presidente Michel Temer, chefão do PMDB: ida ara o partido pode ter um Chalita pela frente (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Oportunidades para fazer reparos aos condenados não faltaram, não é mesmo? Como os dois réveillons que o ex-tesoureiro do PT que terminou na Papuda, Delúbio Soares, passou com a senhora, marido e amigos no Guarujá, lembra?

Onde estavam suas críticas quando estourou o escândalo Rosemary Noronha, a amigona de Lula — este mesmo que a senhora erigiu em “Deus” –, responsável pela transformação do escritório da Presidência em São Paulo em balcão de negócios?

De que lado a senhora esteve durante as várias tentativas de gente de seu partido de calar a boca da imprensa?

Quando foi que a senhora se posicionou contra a política externa de vassalagem a Cuba, Venezuela, Irã e outros regimes párias?

Não ouvimos seus reparos à barbaridade em que se constituiu a concessão de asilo político ao terrorista e assassino Cesare Battisti, julgado e condenado por todas as instâncias pelo Judiciário italiano, mas tratado pelo governo lulopetista como um “perseguido político”, como se a Itália de democracia exemplar fosse uma ditadura?

Agora, num passe de mágica, a senadora quer se dissociar de tudo isso. Como, porém, acreditar que isso se deva a convicções, e não por oportunismo?

Na entrevista à excelente Eliane Cantanhêde, ela própria acabou, talvez, dizendo mais do que pretendia, quando desabafou, a certa altura, entregando suas prováveis razões:

– Se for analisar friamente, é um partido no qual estou há muito tempo alijada e cerceada, impossibilitada de disputar e exercer cargos para os quais estou habilitada.

Ah! Chegamos ao ponto… A braveza da senadora pode estar todinha abrigada aqui. Ela quer espaço no partido, quer concorrer à Prefeitura no ano que vem — e o problema não está em que seu “Deus”, acima de partidos e convenções, já decidiu que o prefeito Fernando Haddad será o candidato do PT.

O problema é que Marta aprendeu com as eleições do ano passado que o PT não tem futuro em São Paulo. O massacre sofrido por Dilma no pleito presidencial diante do tucano Aécio Neves — que teve dois terços dos votos do eleitorado mais numeroso do país –, e a espetacular vitória em primeiro turno do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que venceu em 644 dos 645 município do Estado, deixando em um distante terceiro lugar o petista Alexandre Padilha, tornaram evidente, para a senadora, que com uma estrela vermelha no peito ela não chegará a lugar algum.

Eis aí, então, a razão de seu desencanto com o PT e do namoro com o PMDB. Se Lula conseguir emplacar o novo secretário municipal de Educação paulistano, Gabriel Chalita, como candidato do partido mais fisiológico do Brasil, gente perto de Marta assopra que ela poderá até ir para o Solidariedade, partido fundado pelo sindicalista e oportunista profissional Paulinho da Força.

Convicção ideológica é isso aí.

02/01/2015

às 17:34 \ Política & Cia

SÃO PAULO: Candidato à reeleição no ano que vem e com baixos índices de aprovação, o prefeito Haddad (PT) demora muito para socorrer a cidade no pós-vendaval. E o motivo é a folga de fim de ano de funcionários…

Haddad (dir.) com o governador tucano Geraldo Alckmin, na assinatura de um convênio autorizando quase 4 mil policiais militares a prestarem serviços remunerados à Prefeitura em horários de folga: o prefeito enfrentará o poderio do PSDB em sua tentativa de reeleição (Foto: Silva Junior/Folhapress)

Haddad (dir.) com o governador tucano Geraldo Alckmin, na assinatura de um convênio autorizando policiais militares a prestarem serviços remunerados à Prefeitura em horários de folga: o prefeito enfrentará o poderio do PSDB em sua tentativa de reeleição. Neste pós-vendaval, porém, não parece particularmente preocupado em agradar aos eleitores  (Foto: Silva Junior/Folhapress)

Nasci em São Paulo, criei-me no Paraná e, sempre seguindo os passos paternos, como o restante da família, morei, me formei e me tornei jornalista em Brasília, antes de tornar à terra natal, há longos 45 anos.

Ao longo de todos esses 45 anos, jamais vi a maior cidade do Brasil demorar tanto a se recuperar de uma situação de emergência como está acontecendo nestes dias posteriores ao vendaval de domingo passado, dia 28, quando a capital perdeu cerca de 500 árvores de grande porte, teve parte considerável de sua rede elétrica atingida, sofreu com a piora do trânsito e, por alguns períodos, chegou perto do colapso.

O prefeito Fernando Haddad (PT), abatido por baixíssimos índices de aprovação, é candidato à reeleição no ano que vem, quando deverá enfrentar a poderosa máquina do PSDB paulista, que está há 20 anos no governo estadual e conferiu ao presidenciável tucano Aécio Neves, em outubro passado, inéditos dois terços do total de votos válidos — na capital e no Estado.

A gestão que o prefeito confere à atual situação, porém, leva a crer que ele não está nem um pouco preocupado com isso — e me refiro apenas ao aspecto eleitoral para não me arriscar a cometer uma eventual injustiça imaginando que ele não se aflija preocupe com a situação dos paulistanos.

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Quedas de grandes árvores ou de grandes galhos de árvore, como este caso na Avenida República do Líbano, junto ao Parque do Ibirapuera, prejudicaram o trânsito e danificaram a rede elétrica. Esta árvore, especificamente, já foi retirada. Muitas outras ainda não (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

O fato, porém, é que a cidade, cinco dias depois do vendaval que atingiu quase 100 quilômetros por hora, exibe por toda parte ferimentos ainda não tratados: árvores caídas, troncos já serrados e montanhas de galhos e folhas que continuam amontoados em calçadas, semáforos (encargo da municipal Companhia de Engenharia de Trânsito) sem funcionar em cruzamentos absolutamente vitais — a bênção é o tráfego irrisório resultado do feriadão que boa parte da população fez por conta própria, ignorando ser hoje, sexta-feira, um dia útil.

O espantoso em tudo isso é a explicação oficial oferecida pela Prefeitura: há menos mão de obra disponível, devido às folgas de fim de ano de parte dos funcionários das Subprefeituras encarregados desse tipo de serviço.

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Esta árvore tombou cruzamento muito movimentado, o das ruas Cubatão e Eça de Queiroz, no bairro do Paraíso (Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo)

É verdade! A maior cidade da América do Sul se dá ao luxo de conceder folga a grandes contingentes de trabalhadores que têm entre as principais funções, justamente, a de atuar em emergências — como é o caso. Fico imaginando se se tratasse de uma colossal inundação.

O incansável Corpo de Bombeiros, corporação ligada à Polícia Militar do Estado, atuou, como sempre, com rapidez e bravura enquanto se fez necessário, mas enfrenta limites legais: não pode remover árvores, limpar bueiros entupidos e por aí vai.

Diga-se a bem da verdade que a Eletropaulo, concessionária dos serviços de distribuição de eletricidade de São Paulo e braço da multinacional norte-americana AES, exibe comportamento igual ou similar ao da Prefeitura diante da multidão de problemas causados pelo temporal: parte da iluminação pública da cidade AINDA não voltou, muitos semáforos importantes estão sem energia, há ainda hoje bairros às escuras.

Só que os anônimos burocratas que tocam a empresa não são candidatos a nada, exceto, eventualmente, a um cortezinho de bônus no final do ano. Já Haddad…

15/10/2014

às 18:09 \ Política & Cia

OS BASTIDORES DO DEBATE DA BAND: tensão, piadas, Lula vestido de azul e…’fabulando?’

(Fotos: Ivan Pacheco/VEJA.com)

Durante os intervalos do debate, Dilma e Aécio trocam impressões com seu pessoal da área de comunicação (Fotos: Ivan Pacheco/VEJA.com)

Confiram algumas reações de partidários de Dilma e Aécio Neves nos estúdios da Band

Por Talita Fernandes, Mariana Zylberkan e Bela Megale, de São Paulo, para VEJA.com

Beagá – A propaganda eleitoral da presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) nunca escondeu que a busca pelo voto mineiro e a desconstrução das gestões de Aécio Neves (PSDB) no Estado são o grande alvo da campanha até as urnas, no dia 26.

Mas até petistas reconheceram que, ao martelar Minas no centro do debate, Dilma abriu a guarda para o tiro: Aécio afirmou que a petista está mais preocupada – e visitou mais Minas Gerais na campanha – com o Estado do que nas últimas décadas.

Tutu – O vice de Aécio, senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), cutucou: “Parece que ela está querendo ser governadora de Minas”.

No stress – Conhecido pelo seu temperamento explosivo, Aloysio Nunes Ferreira brincou com colegas na plateia antes do início do debate: “Já tomei meu Rivotril!”

Transitivo direto – O “fabulando” usado por Dilma quatro vezes para dizer que Aécio estaria remontando fatos surpreendeu a plateia no estúdio e até marqueteiros de plantão. “Fabulando?”, questionou um petista na plateia.

Confusa – Tucanos comemoraram quando Aécio cutucou a petista na pergunta sobre taxas de homicídios em Minas: “Apesar de confusa, vou tentar responder sua pergunta…”

Visual - Celso Kamura, cabeleireiro de Dilma Rousseff, disse que a petista está com as madeixas mais escuras. Ela deixou de fazer luzes porque seu cabelo estava ficando muito ressecado, contou.

Turbulência – Tucanos concordaram que o momento mais tenso para Aécio foi quando Dilma voltou a falar da construção do aeroporto na minúscula cidade mineira de Cláudio. A avaliação é que ele terá de responder sobre o tema nos próximos três debates.

Corujão – Cansado, o presidente do PT, Rui Falcão, comemorou quando o diretor de Jornalismo da Band, Fernando Mitre, anunciou que o debate acabaria antes da meia-noite. “Não durmo no avião, só jogo paciência para esquecer que estou lá no alto”.

Para o PT ver – O prefeito de São Paulo Fernando Haddad, com Aloizio Mercadante à frente, comemorou quando Dilma soltou a frase repetida sobre a nomeação prévia de Armínio Fraga como eventual ministro da Fazenda de Aécio: “Muito bom, hein?”, festejou Haddad.

Rodízio - O número elevado de convidados para o debate desta terça fez com que o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman tivesse de ceder sua credencial de acesso ao estúdio para o senador Agripino Maia (DEM – RN), coordenador da campanha de Aécio.

Cabos eleitorais - Animado com a possibilidade de vitória de Aécio, o sindicalista e deputado Paulinho da Força (SD-SP) ironizou o impacto que os escândalos da Petrobras podem ter na corrida presidencial. “Antes nós tínhamos um cabo eleitoral, o Haddad, agora nós temos três, com o Paulo Roberto Costa e o Alberto Youssef.”

Censura amiga - Wellington Dias, eleito governador do Piauí, brincou que a proibição de perguntas de jornalistas aos candidatos nos debates é uma forma de “censura”. Desavisado, ele não sabia que essa decisão partiu de seu próprio partido, o PT.

Azul ou vermelho? - Enquanto esperavam os candidatos chegarem à TV Bandeirantes, o deputado federal Bruno Araújo (PSDB-PE) e o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman assistiam na TV ao horário eleitoral. “Olha o Lula usando azul”, brincou Araújo, insinuando que o petista vestia a cor do partido tucano. “A chance deles agora é abolir o vermelho”, respondeu Goldman.

Programa eleitoral 2 - Araújo comentava indignado com os pernambucanos João Lyra Neto (PSB), governador de Pernambuco, e o prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), que o PT mostrou a transposição do São Francisco no horário eleitoral.

As obras estão atrasadas e o governo federal resolveu testar, mesmo assim, o projeto. “Eles abriram a torneira só para ir lá e filmar”. O comentário do parlamentar aconteceu depois de pernambucanos enviarem mensagens para ele por WhatsApp.

08/10/2014

às 12:00 \ Disseram

Oportunidade de mudar

“Não existem obstáculos insuperáveis. Temos de dar cada vez mais para o paulistano as condições de ele repensar os seus hábitos, a sua mobilidade.”

Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, ao defender as polêmicas ciclovias instaladas por toda a cidade em seu mandato

01/10/2014

às 15:35 \ Política & Cia

ELEIÇÕES SP: O debate que você não viu: homofobia, mensalão e a reação das famílias dos candidatos

Os candidatos ao governo de São Paulo: Geraldo Alckmin (PSDB), terceiro da esquerda para a direita,  Paulo Skaf (PMDB), segundo da direita para a esquerda, e Alexandre Padilha (PT), último da direita (Foto: Ivan Pacheco/VEJA.com)

Os candidatos ao governo de São Paulo no debate da TV Globo: Geraldo Alckmin (PSDB), terceiro da esquerda para a direita, Paulo Skaf (PMDB), segundo da direita para a esquerda, e Alexandre Padilha (PT), último da direita (Foto: Ivan Pacheco/VEJA.com)

Por Bruna Fasano e Andressa Lelli, de São Paulo, para VEJA.com

Mensalão – Alexandre Padilha (PT) e Laércio Benko (PHS) travaram o bate-boca mais quente do debate. Apoiador de Marina Silva, o nanico questionou Padilha sobre os ataques do PT à presidenciável do PSB e disse que muitos petistas mudaram de lado: “Muitos estão por trás das grades”, disse, referindo-se aos condenados no escândalo do mensalão. A ala tucana na plateia caiu em risadas. Padilha cobrou respeito: “Por mais de dez anos passei pelas áreas mais complexas e nunca fui acusado de nada. Marina é quem muda de posição a cada dia.”

Sofá de casa – Todos os candidatos ao Palácio dos Bandeirantes levaram a família para assistir ao debate promovido na TV Globo, o último no primeiro turno. O campeão de acompanhantes foi Paulo Skaf (PMDB), que levou quatro filhos. O governador Geraldo Alckmin (PSDB), que concorre à reeleição, levou a esposa, Lu Alckmin, dois filhos e as duas noras. Postaram selfies e fotos no Instagram.

Cegonha – Mulher de Alexandre Padilha, a jornalista Thássia Alves deixou o estúdio duas vezes para ir ao banheiro durante o debate. Thássia está grávida de quatro meses do primeiro filho do casal e diz que fará o pré-natal e o parto pelo SUS.

Não foi desta vez – O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), que acompanha o debate no estúdio, reconheceu que a eleição para o governo do Estado de São Paulo está morna. “Eu tenho impressão de que as pessoas começaram a prestar atenção na eleição estadual agora, que estava muito apagada. Os problemas estaduais são muito graves”, afirmou. O candidato do partido de Haddad, Padilha, ainda não conseguiu sair da casa dos 9% das intenções de voto. Faltam apenas quatro dias para as eleições.

Meu bem, volto já – Haddad deixou o estúdio da TV Globo no fim do segundo bloco e não foi mais visto. O relógio marcava 23h45.

Asseclas – Tanto petistas quando tucanos reuniram também as principais lideranças dos partidos para o debate. Na plateia, na primeira fila, torcendo por Padilha, estava o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o senador Eduardo Suplicy e presidente estadual do PT, Emídio de Souza. No lado oposto, os apoiadores de Alckmin: o deputado José Aníbal e o presidente estadual dos PSDB, Duarte Nogueira.

Guarda-roupa – O petista Alexandre Padilha e o tucano Geraldo Alckmin sincronizaram a escolha do visual. Ambos vestiram terno escuro, camisa branca e gravata vermelha.

Sincronizados – Apenas um minuto de diferença separou a chegada de Skaf e de Alckmin. O carro blindado do peemedebista cruzou os portões da emissora às 21h36. O de Alckmin, às 21h37.

Repeteco – Na troca de perguntas entre Gilberto Natalini (PV) e Gilberto Maringoni (PSOL), o verde ironizou a formação da dupla, que se repetiu quase em todos os debates anteriores: “Ah, que bom! Vou perguntar para o meu xará”.

Bateu no Aerotrem – O nanico Gilberto Maringoni (PSOL) usou parte do tempo de uma resposta sobre Transportes para criticar a fala homofóbica do candidato à Presidência Levy Fidelix (PRTB), durante debate da TV Record no domingo. Visivelmente constrangido e sem saber como abordar o assunto, o verde Gilberto Natalini, a quem caberia a réplica, preferiu não entrar na questão e voltou a discutir a mobilidade urbana.

Futuro – O candidato do PHS, vereador Laércio Benko, perguntou a Skaf sua opinião sobre reeleição. O peemedebista deu a entender que, se reeleito, o governador Geraldo Alckmin não completaria seu mandato, já de olho nas eleições presidenciais de 2018. Mas saiu pela tangente, uma vez que seu partido, o PMDB, apoia a reeleição de Dilma. Na réplica, Benko escorregou e disse: “sou contra a eleição de deputados”.

Conectado – O marqueteiro Duda Mendonça, responsável pela campanha de Skaf, acompanhou todo o debate sem tirar os olhos do celular. Ele conversava com várias pessoas ao mesmo tempo pelo WhatsApp.

28/09/2014

às 14:00 \ Política & Cia

ELEIÇÃO EM SÃO PAULO: Por que o “poste” que Lula inventou como candidato não emplacou — e continua atolado em um dígito das preferências do eleitorado

Lula com o candidato que inventou para o PT tentar chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Alexandre Padilha, porém, não emplacou, e sua luta agora é sair de um dígito nas preferências do eleitorado (Foto: Felipe Cotrim/VEJA.com)

Lula com o candidato que inventou para o PT tentar chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Alexandre Padilha (dir.), porém, não emplacou, e sua luta agora é sair de um dígito nas preferências do eleitorado (Foto: Felipe Cotrim/VEJA.com)

Campanha errática do neófito Alexandre Padilha pode repetir o desastroso desempenho do PT em 1990, o pior do partido até hoje no Estado: os 9,5% de votos obtidos por Plínio de Arruda Sampaio

Por Felipe Frazão, para VEJA.com

A menos que a eleição para o governo de São Paulo produza uma reviravolta histórica, o Partido dos Trabalhadores não chegará ao segundo turno – isso se houver segundo turno.

Segundo as pesquisas eleitorais, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, lançado na disputa como o “terceiro poste” do ex-presidente Lula — os outros foram a presidente Dilma, eleita em 2010, e o prefeito da capital, Fernando Haddad, em 2012 –, deve fracassar na tentativa de conquistar o eleitorado paulista e realizar a maior obsessão de seu padrinho político: desalojar o PSDB do Palácio dos Bandeirantes depois de quase duas décadas.

Após três meses de campanha, Padilha não conseguiu sequer atingir dois dígitos nas pesquisas. Contra o desempenho do PT, que nas eleições recentes amealhou 30% dos votos, o ex-ministro chega à última semana com 9%, segundo o Datafolha.

Se o prognóstico se confirmar nas urnas, o percentual representa apenas um quarto dos 35,21% dos votos atingidos em 2010 pelo ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil), candidato do PT com o melhor desempenho até hoje, mas derrotado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) no primeiro turno. Há doze anos (três eleições seguidas), o PT consegue mais de 30% dos votos no Estado.

Se permanecer abaixo dos dois dígitos, Padilha repetirá um resultado que o PT paulista não amarga desde 1990, quando o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio (morto em julho deste ano) teve o pior desempenho de um candidato petista, com 9,55% dos votos válidos.

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Em debate, Padilha e Skaf tentam ataque casado contra Alckmin

Dirigentes do PT admitem: eleição está perdida

Apesar de admitir reservadamente que a eleição está perdida, dirigentes do PT paulista ainda com alguma dose de otimismo apostam que Padilha conseguirá chegar a pelo menos 15% dos votos até o próximo domingo. As pesquisas internas são mais modestas: indicam 11%, resultado próximo ao obtido pelo mensaleiro José Dirceu, quando foi candidato ao Palácio dos Bandeirantes há vinte anos.

Padilha também entra na reta final fustigado por um novo escândalo em sua gestão no Ministério da Saúde. A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira uma operação contra locadoras de veículos da Bahia que fraudaram uma licitação da Secretaria Especial da Saúde Indígena – as apurações apontam para a atuação de uma consultora do ministério que falava em nome de Padilha e teria cobrado propina de 15% em contratos superfaturados em 6,5 milhões de reais.

O petista negou envolvimento e disse que ele mesmo pediu as investigações após verificar o sobrepreço no serviço. Ainda que nada tenha sido provado, o desgaste é inevitável para quem já havia sido alvejado pela PF na Operação Lava Jato, que descobriu as gestões do ex-petista André Vargas no ministério durante a gestão de Padilha, em prol de um convênio com um laboratório Labogen, ligado ao doleiro Alberto Youssef.

Em uma das mensagens interceptadas, Vargas citou a indicação de um funcionário por Padilha – o que o ex-ministro nega. Além dos casos em âmbito nacional, Padilha viu seu discurso de combate ao crime organizado ser fragilizado pela descoberta de que o deputado estadual e ex-presidiário Luiz Moura (PT) havia sido flagrado em uma reunião na qual também estavam dezoito criminosos do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Expulso do partido e impedido de concorrer à reeleição, o deputado-bomba chegou a anular temporariamente na Justiça a candidatura de Padilha e de todos os candidatos do partido em São Paulo.

Campanha fracassada é planejada desde 2013

Desenhada por Lula, a campanha de Padilha começou a ser planejada em 2013, embora ainda em 2012 ele já sinalizasse que poderia despontar no partido, dada a sua dedicação em acompanhar as eleições municipais no Estado.

O PT elegeu para a presidência do Diretório Estadual o ex-prefeito de Osasco Emídio de Souza, que montou ampla base de partidos aliados e rendeu três vitórias seguidas ao PT na cidade da região metropolitana de São Paulo. Ex-coordenador da campanha de Mercadante, Emídio assumiu a mesma função com Padilha, com uma tarefa: popularizar o candidato no PT no interior do Estado – região mais refratária ao partido e simpática ao PSDB – e quebrar a base de apoio de Alckmin, atraindo para a coligação de Padilha partidos à direta do PT no espectro político brasileiro e que apoiavam, ao mesmo tempo, o governo Dilma Rousseff.

As duas principais metas traçadas pelo ex-presidente, porém, não foram atingidas. Padilha tem a menor coligação entre os três principais candidatos, ao lado apenas do PR e do PCdoB.

 

 

(Foto: Michel Filho/O Globo)

O apoio de Maluf ao candidato do PT: “foi a pior coisa possível, ficamos só com a foto”, admite um estrategista da campanha petista (Foto: Michel Filho/O Globo)

A adesão de Maluf 

Em junho, na última semana para formalizar as alianças, Padilha viu o PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab, e o PP, do deputado Paulo Maluf — alguém que o PT passou três décadas combatendo –, aderirem ao candidato do PMDB, Paulo Skaf. Padilha já tinha passado pelo desgaste público de anunciar, com fotos e abraços, uma aliança do PT com Maluf, que teria barrada sua nova candidatura à Câmara dos Deputados neste mês pela Lei da Filha Limpa.

“Foi a pior coisa possível, ficamos só com a foto do Maluf”, admitiu reservadamente um estrategista da campanha petista.

Ex-presidente da Federação de Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Skaf acumulava recall da eleição anterior e, com ampla exposição na TV em comerciais da entidade, já despontava como segundo colocado. O peemedebista também conseguiu apoio formal do Pros e do PDT, ambos da base governista – o que frustrou a estratégia recomendada por Lula. O site de VEJA apurou que um deputado estadual do PT chegou a sugerir pessoalmente a Padilha que ele “renunciasse e apoiasse Skaf no primeiro turno” – a aliança é tácita caso haja segundo turno entre Alckmin e Skaf.

Coube ao próprio Lula advertir, no início de setembro, que o candidato do PMDB estava “fazendo a campanha que o PT deveria fazer”. “Como se explica numa fábrica que eu vi o Skaf estar na frente do Padilha? No meu tempo, era impensável imaginar um peão votar no seu empregador”, reclamou Lula em reunião pública do partido. “Não tem explicação. Só pode ser falta de conhecimento e de motivação.”

Leia também: Para Alckmin não vencer em 1º turno, Padilha torce por Skaf

Quem é ele?

Dados de pesquisas internas encomendadas pelo PT indicam que Padilha ainda é um total desconhecido de 70% dos eleitores de São Paulo – a mesma taxa de seis meses atrás. O “desconhecimento” de Padilha, aliás, tornou-se a principal justificativa do partido para o iminente fracasso de um candidato estreante, que seguia a cartilha dos “postes”.

Saiu do governo federal com um programa para exibir como bandeira, o Mais Médicos, que espalhou em um ano 14.462 médicos generalistas por 3.771 municípios do país – capilaridade de 68% das prefeituras, atingida por meio de uma parceria destinada a repassar dinheiro para a ditatura cubana.

O programa, porém, foi apenas tema de propagandas no horário eleitoral na TV, sem grande repercussão a favor ou contra Padilha, ainda que São Paulo tenha recebido o maior contingente – 2.187 profissionais. A suposta desatenção de sete em cada dez eleitores, porém, não impediu que a rejeição de Padilha batesse a casa de 36% na última pesquisa Datafolha.

Segundo aliados, também faltou ao candidato uma articulação fina com o comitê de Dilma em São Paulo. A primeira evidência ocorreu em junho, quando a presidente faltou à Convenção Estadual que homologou a candidatura de Padilha. Alegando estar gripada, Dilma só gravou de última hora uma mensagem em vídeo exibida nos telões do Ginásio do Canindé.

Padilha cumpriu agenda distinta – e distante – da presidente em pelo menos mais quatro atos de grande exposição de Dilma no Estado: caminhada em Campinas e em São Bernardo do Campo, visita à Assembleia de Deus Ministério do Brás e um comício em Jales (promovido pelo PMDB com a presença de Skaf). Em outros três encontros de Dilma – com centrais sindicais, mulheres e taxistas –, Padilha compareceu, mas não teve destaque no palanque.

O Palácio do Planalto hesitou em privilegiar a campanha do petista, já que a presidente dizia ter “dois candidatos” na disputa paulista (Padilha e Skaf), o que considerava uma fórmula para derrotar o tucanato. Mas Skaf evitou se associar a Dilma por causa da rejeição da presidente, que chegou a 47% entre o eleitorado paulista. Só nesta semana, Dilma apareceu em depoimentos do programa de TV de Padilha – e defendendo investimentos do governo federal no Estado.

Falta de dinheiro

Coordenador da campanha de Dilma no Estado, o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), reconheceu mais um complicador na campanha estadual: a falta de dinheiro, que represou a produção de material de campanha, como cavaletes, bandeiras e adesivos. Uma das críticas é que Padilha gastou demais na fase da pré-campanha, quando percorreu 126 cidades no interior, de ônibus e avião.

Além da ínfima repercussão, o candidato e o PT acabaram multados em 50.000 reais por propaganda antecipada com as caravanas. Os gastos com a empresa Sales Táxi Aéreo durante a campanha, mais um item de valor elevado, ainda não foram declarados, correspondentes aos voos num bimotor turbohélice King Air B200, para oito passageiros. “A escassez de recursos, como nunca visto em campanha eleitoral, fez com que o nível de campanha de Padilha, a intensidade, fosse muito sofrível no começo”, disse Marinho na semana passada.

Segundo dados da Justiça Eleitoral, Padilha arrecadou 4,1 milhões de reais, mas gastou 35 milhões de reais – um rombo de 30,9 milhões de reais numa conta parcial até agosto. No mês passado, as equipes de comunicação e marketing, que consumiram cerca de 27 milhões de reais do borderô de campanha, chegaram a ser temporariamente reduzidas por causa de atrasos nos pagamentos.

Padilha investiu pesado em transmissões na internet ao vivo das agendas de campanha, o que demandou uma equipe paralela dedicada a web e redes sociais. Como ficou empacado no terceiro lugar e com previsão de arrecadação baixa em setembro, o comitê passou a concentrar a campanha nos maiores colégios eleitorais, ou seja, nas regiões metropolitanas da capital paulista, de Campinas e da Baixada Santista, onde o PT costuma obter melhor desempenho nas urnas.

A coordenação pediu empenho total até ao senador Eduardo Suplicy, que se tornou um fiel acompanhante de Padilha, a ponto de protagonizar uma cena símbolo da campanha: carregou o ex-ministro nas costas durante uma caminhada.

A estratégia de priorizar os grandes centros urbanos também visa a dar a Padilha uma identidade maior com o eleitorado que passou a votar no PT a partir da primeira eleição de Lula – aqueles 30% de votos válidos dos paulistas. Nas últimas semanas, Padilha endureceu o discurso e buscou polarizar com Alckmin – estratégia usada desde o início da campanha por Skaf.

Com jeito bonachão, fala mansa e ainda sem muita familiaridade com as câmeras, Padilha começou a campanha com um discurso que soou tímido e tentava atrair eleitores mais conservadores: foi apresentado como “bom moço” e “esperança da família”. O estilo levou Lula a taxá-lo como o petista com mais “cara de tucano”.

Ele fez questão de exacerbar a religiosidade, citando Deus e a Bíblia na TV e em entrevistas. Sempre apareceu em público ao lado da mulher, a jornalista e ex-assessora de imprensa Thássia Alves, o que provocou uma série de críticas no comitê, principalmente dos deputados que buscavam aparecer ao lado dele. Os políticos reclamavam que a candidata a primeira-dama aparecia demais e dispersava a atenção ao candidato.

Thássia se afastou dos palanques ao longo da campanha. Na quarta-feira, o ex-presidente Lula mostrou que a reclamação chegou até seus ouvidos, e que o desconhecimento de Padilha, de fato, ainda preocupa. Durante comício em Guarulhos, na Grande São Paulo, orientou cabos eleitorais e militantes petistas para a ordem de votação nas urnas no dia 5 de outubro e pediu que confirmassem o voto só quando reconhecessem o rosto de Padilha: “Olhem a cara dele para vocês não esquecerem. A mulher dele não vai aparecer junto, é só ele”.

Âncora

O fraco desempenho surpreende também porque ele sempre se mostrou à vontade entre militantes, andando nas ruas, pulando e cantando gritos e saudações típicas do partido durante caminhadas com juventude. O jeito “boa praça” agradou os militantes, mas não emplacou na TV.

O prefeito Fernando Haddad, que não tinha a mesma desenvoltura entre cabos eleitorais e militantes nas eleições de 2012, apresentou um discurso mais claro e objetivo, contrapondo-se como um candidato “novo” contra o tucano José Serra e o fenômeno Celso Russomanno (PRB).

Pouco adepto a reuniões partidárias, Haddad demorou a aderir à campanha de Padilha porque durante a maior parte do pleito ostentou baixíssima popularidade: chegou a ser aprovado por apenas 15% dos paulistanos, e sua gestão, reprovada por 47%. Depois de ter sido cobrado por Lula, Haddad apareceu na TV pela primeira vez nesta semana pedindo votos para a chapa de deputados do PT.

A entrada de Haddad na campanha coincide com sua recuperação de popularidade, agora na casa dos 22%. A reprovação de sua administração diminuiu para 28% após a inauguração de ciclovias na cidade. A campanha de Padilha também mandou rodar um panfleto distribuído nas ruas com promessas de campanha de Haddad já atingidas – ainda que nem todas tenham sido de fato cumpridas como aparece no panfleto. A assinatura é da coligação PT-PCdoB-PR, embora não atenda as exigências da Lei Eleitoral: não há CNPJ registrado, tampouco a tiragem.

Para o PT, a cara campanha de Padilha – ao menos 35 milhões de reais declarados à Justiça Eleitoral até agora – serviu apenas para tirar Haddad do buraco.

21/09/2014

às 19:40 \ Política & Cia

CARLOS BRICKMANN — Boa notícia: quem é assaltado deixou de ser criminoso e passou a ser vítima. E gente do PT e da Prefeitura petista de SP (paga pelos cofres públicos) investindo contra a Polícia Militar, que cumpria ordem judicial. E por aí vai a nossa aquarela tropical…

(Foto: Evaristo Sá/AFP)

Coisas que só acontecem no Brasil: badernaços nos grandes centros, criminalização de vítimas e privilégios para líderes do governo (Foto: Evaristo Sá/AFP)

AQUARELA TROPICAL

Notas da coluna de Carlos Brickmann publicadas neste domingo em diversos jornais

Se só existe no Brasil, e não é jabuticaba, é preciso tomar cuidado.

José Peixoto Filho e seu pai José Peixoto, 76 anos, foram assaltados a mão armada em Cascavel, Paraná. Reagiram e mataram os dois assaltantes. Peixoto Filho, ferido, foi preso e hospitalizado. Peixoto pai foi preso, passou a noite na cadeia e um juiz teve de soltá-lo. O juiz também suspendeu a prisão do filho. Uma boa notícia: quem é assaltado deixou de ser criminoso e voltou a ser vítima.

Os líderes do grupo de sem-teto que atacou a Polícia Militar, em São Paulo, para impedi-la de cumprir uma ordem judicial de reintegração de posse, levando a tumultos e incêndio de ônibus, são Ricardo Bonfim, da liderança do PT na Assembléia paulista, Osmar Silva Borges e Vera Eunice, ambos da Cohab, da Prefeitura paulistana, todos pagos com dinheiro público. O prefeito é Fernando Haddad, do PT.

O caro leitor consegue enviar qualquer coisa pelo Correio sem selo ou autenticação mecânica do pagamento? Não? Então não conhece as pessoas certas.

Por ordem da Diretoria Regional Metropolitana de São Paulo, chefiada por Wilson Abadio de Oliveira, ligado a Michel Temer, PMDB, vice de Dilma e candidato à reeleição, os Correios estão enviando, “em caráter excepcional”, pouco menos de cinco milhões de panfletos da chapa Dilma-Temer.

A norma exige chancela em cada panfleto, com nome e CNPJ do candidato e o ano da eleição – e o objetivo é atestar que o envio foi devidamente pago. Mas comprovar o pagamento é para os fracos.

Quem conhece gente certa faz como gosta, do jeito que quer. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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