18/03/2013
às 17:35 \ Tema LivreElio Gaspari — Façam uma caridade para o papa Francisco: leiam seu livro

Elio Gaspari, depois de ler o livro do novo papa: "Ele é tudo menos um clérigo conservador" (Foto: Reuters)
Da coluna dominical de Elio Gaspari, no jornal O Globo
UMA CARIDADE PARA FRANCISCO, LEIA SEU LIVRO
O papa Francisco precisa de uma ajuda. Leiam seu livro Sobre el Cielo y la Tierra. (O e-book está à venda na Amazon americana por US$ 6,99, mas, por arte de Asmodeu, está fora da loja eletrônica brasileira.) Tem 215 páginas e saiu no início do ano passado.
Trata-se de um longo diálogo com o rabino Abraham Skorka. Coisa inteligentíssima. É impossível lê-lo e sair por aí repetindo rótulos tais como “conservador” ou “homem simples” porque anda de ônibus. A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além.
Ele vê o catolicismo como algo despojado: “Bispos e padres têm que sujar os pés de barro”. Uma das suas mais duras críticas (depois das lambadas nos ladrões-milionários) vai para os meios de comunicação que simplificam as agendas, tornando-as irrelevantes ou insolúveis: “Desinformam”.

A capa de "Sobre el Cielo y la Tierra". A editora Sudamericana, com grande agilidade, já lançou nova edição com foto de Bergoglio na capa já como pontífice
Até a noite de quarta feira o signatário não sabia quem era ele. No dia seguinte, não encontrou um só bergogliólogo que mostrasse ter lido o livro de Francisco. Ele é tudo menos um clérigo conservador. (Segundo o fidedigno jornalista Horácio Verbitsky, há 30 anos ele deu uma mãozinha à ditadura, numa época em que a hierarquia católica estava casada com os generais. Bergoglio admitiu que foram cometidos erros genéricos, mas não assumiu responsabilidade pessoal.)
[Observação minha: acredito mais, no caso, no Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, campeão dos direitos humanos na Argentina, que nega peremptoriamente ter sido Bergoglio "cúmplice da ditadura", acrescentando a ressalva: "Mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis."]
Pode ser conservador um cardeal que quer abrir os arquivos do Vaticano para que se estude o Holocausto? Ele é contra o casamento de homossexuais e o aborto, mas isso não é conservadorismo, é a doutrina da igreja. Pílula? Astuciosamente calado. Em diversas ocasiões critica a conduta da igreja, seu regalismo e a promiscuidade com afortunados que fingem fazer caridade. Propõe tolerância zero para os pedófilos e chama o velho truque de transferi-los para outras paróquias de “estupidez”.
O papa Francisco é um jesuíta severo. Diz que senhoras emperiquitadas, “vestidas, ou desvestidas”, em casamentos não vão às igrejas para um ato religioso, mas para exibirem-se. Tabela de preços para cerimônias? “Isso é fazer comércio com o culto.” Ao mesmo tempo, reconhece que casais morando juntos antes do matrimônio são um “fato antropológico”.
Francisco tem um “alertômetro”. Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.
O livro é muito melhor que este breve resumo. Quem lê-lo viverá umas boas duas horas. Não pode ser conservador (seja lá o que isso significa) uma pessoa que diz o seguinte:
“O religioso às vezes chama atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor da paróquia. Ele não tem direito de se meter na vida privada dos outros. Se Deus, na criação, correu o risco de nos tornar livres, quem sou eu para me meter?”
Tags: "Sobre el Cielo y la Tierra", aborto, arquivos do Vaticano, cardeal Bergoglio, casamento de homossexuais, ditadura, Elio Gaspari, Holocausto, papa Francisco, pedófilos, Pílula, promiscuidade, rabino Abraham Skorka













































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