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aborto

18/03/2013

às 17:35 \ Tema Livre

Elio Gaspari — Façam uma caridade para o papa Francisco: leiam seu livro

A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além (Foto: Reuters)

Elio Gaspari, depois de ler o livro do novo papa: "Ele é tudo menos um clérigo conservador" (Foto: Reuters)

Da coluna dominical de Elio Gaspari, no jornal O Globo

UMA CARIDADE PARA FRANCISCO, LEIA SEU LIVRO

O papa Francisco precisa de uma ajuda. Leiam seu livro Sobre el Cielo y la Tierra. (O e-book está à venda na Amazon americana por US$ 6,99, mas, por arte de Asmodeu, está fora da loja eletrônica brasileira.) Tem 215 páginas e saiu no início do ano passado.

Trata-se de um longo diálogo com o rabino Abraham Skorka. Coisa inteligentíssima. É impossível lê-lo e sair por aí repetindo rótulos tais como “conservador” ou “homem simples” porque anda de ônibus. A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além.

Ele vê o catolicismo como algo despojado: “Bispos e padres têm que sujar os pés de barro”. Uma das suas mais duras críticas (depois das lambadas nos ladrões-milionários) vai para os meios de comunicação que simplificam as agendas, tornando-as irrelevantes ou insolúveis: “Desinformam”.

A capa de "Sobre el Cielo y la Tierra". A editora Sudamericana, com grande agilidade, já lançou nova edição com foto de Bergoglio na capa já como pontífice

Até a noite de quarta feira o signatário não sabia quem era ele. No dia seguinte, não encontrou um só bergogliólogo que mostrasse ter lido o livro de Francisco. Ele é tudo menos um clérigo conservador. (Segundo o fidedigno jornalista Horácio Verbitsky, há 30 anos ele deu uma mãozinha à ditadura, numa época em que a hierarquia católica estava casada com os generais. Bergoglio admitiu que foram cometidos erros genéricos, mas não assumiu responsabilidade pessoal.)

[Observação minha: acredito mais, no caso, no Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, campeão dos direitos humanos na Argentina, que nega peremptoriamente ter sido Bergoglio "cúmplice da ditadura", acrescentando a ressalva: "Mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis."]

Pode ser conservador um cardeal que quer abrir os arquivos do Vaticano para que se estude o Holocausto? Ele é contra o casamento de homossexuais e o aborto, mas isso não é conservadorismo, é a doutrina da igreja. Pílula? Astuciosamente calado. Em diversas ocasiões critica a conduta da igreja, seu regalismo e a promiscuidade com afortunados que fingem fazer caridade. Propõe tolerância zero para os pedófilos e chama o velho truque de transferi-los para outras paróquias de “estupidez”.

O papa Francisco é um jesuíta severo. Diz que senhoras emperiquitadas, “vestidas, ou desvestidas”, em casamentos não vão às igrejas para um ato religioso, mas para exibirem-se. Tabela de preços para cerimônias? “Isso é fazer comércio com o culto.” Ao mesmo tempo, reconhece que casais morando juntos antes do matrimônio são um “fato antropológico”.

Francisco tem um “alertômetro”. Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.

O livro é muito melhor que este breve resumo. Quem lê-lo viverá umas boas duas horas. Não pode ser conservador (seja lá o que isso significa) uma pessoa que diz o seguinte:

“O religioso às vezes chama atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor da paróquia. Ele não tem direito de se meter na vida privada dos outros. Se Deus, na criação, correu o risco de nos tornar livres, quem sou eu para me meter?”

16/03/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Neil Ferreira: Chico Primeiro é tão gracinha que nem parece hermano

"Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI: captei sua mensagem e votei no africano". Na foto, Cardeal Turkson (Foto: EFE)

"Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI: captei sua mensagem e votei no africano". Na foto, o cardeal Turkson, de Gana (Foto: EFE)

Por Cardeal Neil Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

CHICO PRIMEIRO É TÃO GRACINHA QUE NEM PARECE HERMANO

Não votei nele, mas gostei. Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI, na homilia em que sugeriu à Igreja a penitência pelos pecados, a renovação, a transparência e a abertura de um diálogo mais amplo com a sociedade. Captei a mensagem e votei no africano, que poderia ser um sopro de oxigênio para o Vaticano, assim como o Joaquinzão Barbosa foi para a Justiça brasileira.

Eu queria um Joaquinzão Barbosa; seria uma tremenda tacada de marketing, que viraria a Igreja de cabeça pra baixo sem que ela se deslocasse um milímetro sequer de onde sempre esteve.

Como Minas, estaria e ficaria onde estava, sem nunca dali arredar o pé por nada deste mundo. Como Lampedusa escreveu em “O Gatopardo”, é necessário mudar muito para ficar no mesmo lugar.

Um novo Papa tipo Joaquinzão Barobosa, seria uma chacoalhada na opinião pública. Despertaria em alguns setores do clero tipo linha Frei Betto, nosso Demônio de porta de igreja, esperanças de desvio a bombordo — fim do celibato dos padres, aceitação do aborto e do casamento gay. Sem chance.

Ser concedida a uma mulher a possibilidade de ser a Segunda Papisa, nem pensar, em que pese o poder atribuído à Merkel, Hillary, Michelle, La Kirchner, La Roussef e La Bundchen, não nesta Eternidade, quem sabe em outras, pouco mais distantes.

Em nenhuma das 115 cabeças dos cardeais eleitores, entre as quais incluo a minha, jamais passou um fiapo de intenção de mexer numa política, sim é política, que vem sendo testada há apenas 20 séculos e já tem alguém aí com a ideia de jerico de mudar tudo.

A foto do “Osservatore Romano” publicada na nossa imprensa, dos cardeais milimetricamente alinhados, como batalhões do exército da Coréia do Norte no funeral do seu líder, sob o teto sem igual no mundo da Capela Sistina, congelou o que parece congelado há 2 mil anos.

Quem observa nota que nada há de congelado, o que há lá nunca parou de se mover, para frente, para trás, para os lados, para cima, nunca para baixo, embora tenha sofrido baixíssimos baixos, de onde se recupera.

Aí, a fumacinha preta. Um ohhh e um frisson, no Mundo. Aí, a fumacinha branca. Um ohhh e um frisson no Universo. Numa sociedade de ícones modernosos, permanecem os que tenho o desplante de chamar de clássicos: a Cruz de Cristo, a Estrela de Davi, a Suástica e a Foice e o Martelo. Não me envergonho de acrescentar as fumacinhas preta e a branca.

(Uma parte mais desavergonhada do meu ser atreve-se a acrescentar, entre parênteses e a sottovoce, a maçã mordida da Apple. Corro o risco de Bill Gates me dedurar a Deus que coloquei aqui o fruto proibido. Para Gates, seguidor fiel das Escrituras, a maçã mordida é e sempre será o fruto proibido).

Aí, o grand finale. As luzes da sacada acesas, abrem-se as cortinas do espetáculo (lembra do cara que narrava futebol como enorme dramaticidade?), aparece lá um dos meus colegas, acho que o mais velhinho, são tantos os mais velhinhos que nem sei mais quem é qual e com sua voz trêmula quase d’além túmulo, fala de maneira quase incompreensível “Habemus Papam” e em seguida pronuncia um nome com sobrenome italiano. Deu zebra ! O Papam é hermano.

É anunciado que ele escolheu o nome de Francisco, foi o que foi informado, assim mesmo, Francisco. Neste momento em que escrevo, há uma tremenda discussão teológica, feita na frente da tv, se ele é Francisco ou Francisco I. Nem eu, a bordo das minhas vestes cardinalícias, posso aconselhar uma saída para o impasse.

"A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do “Oscar”, dos playoffs da NBA e do Superbowl" (Foto: Giuseppe Cacace / AFP)

"A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do 'Oscar', dos playoffs da NBA e do Superbowl" (Foto da Praça de São Pedro lotada: AFP)

Mas eis que Francisco assume o seu cargo de pastor, humilde (nem parece argentino) pede que os fieis rezem por ele. A Praça de São Pedro, lotada, embandeirada, contei uma boa meia-dúzia de bandeiras brasileiras, orava, aplaudia, cantava.

Você pensa que os musicais e o showbizz são invenções da Broadway e do cinema de Hollywood; não são.

A invenção é da Igreja, que apresenta seu espetáculo e seus figurinos com tanta pompa e circunstância; os americanos são aprendizes esforçados, que contribuíram com o sentido de mídia.

Mas até nisso a Igreja aperta o cerco. A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do “Oscar”, dos playoffs da NBA e do Superbowl.

A do próximo Papa vai bater em todas essas e até na final da Champions League.

13/02/2013

às 15:00 \ Tema Livre

O NOVO PAPA: Cinco questões sérias que aguardam o sucessor de Bento XVI

Cardeais trocam comentários após o discurso em que o papa informou sobre sua renúncia: quem assumir herdará uma vasta agenda (Foto: L'Osservatore Romano)

Do jornal O Globo

Confira os assuntos que emergiram no pontificado de Joseph Ratzinger e que precisarão ser debatidos pelo próximo papa

 

USO DA CAMISINHA 

Em uma ruptura com seu pensamento geralmente conservador [e numa declaração próxima ao espantoso diante do que tem sido há décadas um tabu dentro da igreja católica], o papa Bento XVI disse, durante uma longa entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald, em novembro de 2010, que o uso de camisinhas era aceitável em “certos casos”.

“Se for um prostituto, usando um preservativo para reduzir o risco de infecção por HIV, esse pode ser um primeiro passo no sentido da moralização, um primeiro ato de responsabilidade, no caminho para a recuperação de uma consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer o que se quer”, disse o papa.

O pontífice, porém, não fez menção ao controle de natalidade nem ao uso de preservativos em relações heterossexuais. O próprio Vaticano afirmou, mais tarde, que as declarações do papa não representavam uma mudança na visão da igreja sobre o assunto e que, de forma alguma, Bento XVI estava estimulando um comportamento “amoral”, mas considerando que o uso de preservativos para reduzir o risco de infecção é um “primeiro passo na estrada para uma sexualidade mais humana”.

Antes disso, em 2009, o papa levantou polêmica ao dizer que a maré crescente de HIV na África poderia ser ainda pior — não melhor — com a distribuição de preservativos. A afirmação foi feita na presença de jornalistas, durante a primeira visita de Bento XVI à África, onde ocorre a maioria das mortes por HIV no mundo. Caberá ao seu sucessor decidir se essa continuará sendo a posição da igreja.

ABUSO SEXUAL DENTRO DA IGREJA 

O papado de Bento XVI foi abalado, em 2010, por terríveis casos de pedofilia e abuso sexual envolvendo padres das igrejas da Irlanda, Alemanha, Áustria, Bélgica e Estados Unidos. O escândalo respingou no Papa, que chegou a ser acusado de ter “encoberto” os padres pedófilos durante seu tempo como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.

Após classificar os escândalos como “fofocas mesquinhas”, o papa acabou por reconhecer que sente “vergonha” da igreja pelos “crimes abomináveis​​” cometidos por padres pedófilos. Também pediu desculpas às vítimas.

Em maio do ano passado, o Vaticano revelou que estava investigando denúncias de abuso sexual a menores relacionadas a sete sacerdotes da congregação Legionários de Cristo.

O papa Bento XVI foi forçado a demitir vários bispos e ainda ordenou a limpeza da irmandade dos Legionários de Cristo, depois de confirmar que seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, falecido em 2008, abusou sexualmente de seminaristas e teve filhos com diversas mulheres.

Muitos críticos da Igreja Católica, porém, apontaram que o Vaticano seria muito lento e muito sigiloso na hora de reconhecer e investigar o abuso sexual.

HOMOSSEXUALIDADE 

No início de seu pontificado, Bento XVI condenou a violência física e verbal contra os gays, acrescentando que tais atitudes deveriam ser condenadas pelos pastores das igrejas locais, em aparente sinal de renovação do pensamento religioso.

À ocasião, o papa fez questão de ressaltar que a condenação de atos de agressão não mudariam a opinião da igreja quanto ao casamento gay ou a homossexualidade.

Em dezembro de 2012, o Vaticano insistiu que as crianças devem ser criadas por um pai e uma mãe, após a Suprema Corte italiana ter entregado a custódia de uma criança a sua mãe homossexual.

Em sua mensagem de Natal, o papa ainda reforçou que atitudes modernas em relação à sexualidade e manobras para promover o casamento homossexual constituem um ataque “à verdadeira estrutura da família, composta por pai, mãe e filho”.

ABORTO 

A posição anti-aborto do Vaticano só foi reforçada durante o papado de Bento XVI.

Um dos sinais foi dado em 2010, quando o papa nomeou o cardeal canadense Marc Ouellet, conhecido por sua posição firme contra o aborto, como chefe da Congregação para os Bispos. A posição é considerada como o terceiro cargo mais importante do Vaticano, já que seu titular é responsável pela elaboração de listas de futuros bispos.

O cardeal Marc Ouellet, que, hoje, é dos candidatos favoritos ao papado, considera o aborto como “um crime moral”, inclusive em casos de estupro.

O LUGAR DA MULHER NA IGREJA 

O papa abordou a questão do lugar da mulher na igreja durante um discurso em Roma, em 2007, dizendo: “Jesus escolheu 12 homens como pais da nova Israel, para estar com Ele e para disseminar a mensagem, mas entre os discípulos, muitas mulheres também foram escolhidas. Elas desempenharam um papel ativo na missão de Jesus”.

Porém, em abril do ano passado, Bento XVI reprimiu os católicos “desobedientes” que desafiam a doutrina da Igreja na ordenação de mulheres ou na questão do celibato sacerdotal.

“É desobediência um caminho de renovação para a igreja?” , perguntou retoricamente o papa, durante um sermão na praça de São Pedro, no dia em que padres ao redor do mundo renovavam seus votos.

Ele salientou que a proibição de ordenar mulheres era “definitiva” e que o embargo fazia parte da “constituição divina” da igreja.

 

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12/02/2013

às 19:00 \ Tema Livre

BENTO XVI: islamismo, aborto, a questão da homossexualidade, vazamento de documentos secretos, pedofilia na igreja… Em oito anos de papado, muitas polêmicas. Confiram aqui

O MAIOR ESCÂNDALO -- O mordomo do papa, Paolo Gabriele, que vazou documentos secretos e comprometedores à imprensa, comparece ao tribunal do Vaticano com a advogada, Cristiana Arru, em outubro de 2012 (Foto: L'Osservatore Romano / AP)

Do jornal O Globo

O papa Bento XVI conduziu seus oitos anos de pontificado com mão de ferro: protestou contra os diretos dos homossexuais, o aborto e a eutanásia, e enfrentou outras religiões, como o islamismo.

O pontífice também precisou lidar com diversos escândalos surgidos durante seu comando. Confiram abaixo uma lista de polêmicas que emergiram em seu pontificado.

HOMOSSEXUALIDADE - Em novembro de 2005, o Vaticano impôs restrições à ordenação de homossexuais como padres. “A Igreja não pode admitir no Seminário e nas Ordens Sacras aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam profundas tendências homossexuais ou apoiam a chamada cultura gay”, disse Bento XVI.

Já em novembro de 2010, o papa chegou à Espanha para uma visita de dois dias e atacou o aborto e o casamento homossexual, recentemente legalizado no país, durante missa em que consagrou a célebre igreja barcelonesa da Sagrada Família.

As declarações fizeram parte de críticas mais amplas do pontífice ao “secularismo agressivo” da Espanha.

ISLÃ - Em setembro de 2006, o papa visitou sua terra natal, a Baviera, na Alemanha, e, durante um discurso em Regensburg, ele motivou protestos do mundo islâmico ao citar um imperador bizantino do século XIV, segundo o qual o islamismo se difundiu pela espada e só fez mal ao mundo.

Dias depois, Bento XVI disse “lamentar profundamente” a reação muçulmana ao seu discurso, que, segundo ele, foi mal compreendido.

Já em novembro, durante uma visita à Turquia, o papa estendeu a mão aos muçulmanos, em um gesto histórico de reconciliação, para que, juntos, encontrem “um caminho para a paz”. Ao visitar a Mesquita Azul, em Istambul, Bento XVI se tornou o segundo papa a visitar um local sagrado para o Islã. [Ali, cruzando os braços no peito, e não fazendo o sinal da cruz, ele rezou e lembrou que cristãos e muçulmanos veneram o mesmo Deus.]

ABORTO - Em maio de 2007, o papa veio ao Brasil, em sua primeira viagem à América Latina, e ameaçou excomungar políticos que defendem o direito ao aborto.

Ao fim da mesma viagem, após celebrar uma missa para 150 mil fiéis e visitar o ex-presidente Lula, uma outra polêmica: em um discurso para os arcebispos da América Latina e Caribe, declarou que a Igreja Católica não se impôs, apenas purificou os indígenas da América e que a retomada de suas religiões seria um passo para trás.

Os líderes indígenas brasileiros classificaram a atitude do papa como “arrogante e desrespeitosa”.

A ÚNICA - A Congregação do Vaticano para a Dourtirna da Fé, órgão que Bento XVI havia dirigido antes de se tornar papa, publicou, em julho de 2007, um documento no qual reafirma que a Igreja Católica é a única verdadeira igreja de Jesus Cristo.

Declarações deste tipo, emitidas por João Paulo II em 2000, provocaram a ira da comunidade protestante.

GENÉTICA - Em março de 2008, o Vaticano atualizou os sete pecados capitais, introduzindo os sete pecados mortais modernos.

Entre os novos pecados estão: “prejudicar o meio ambiente, participar de experimentos cietíficos duvidosos e de manipulação genética, acumular riqueza excessiva, consumir ou traficar drogas e promover a pobreza, a injustiça ou a desigualdade social”.

O HOLOCAUSTO - Bento XVI revogou a excomunhão de dois arcebispos tradicionalistas, em fevereiro de 2009.

Um deles, [o britânico] Richard Williamson, havia negado o Holocausto em uma entrevista na televisão. A decisão provocou grande ira na Europa, e a chanceler alemã, Angela Merkel, pediu para que o papa esclarecesse sua posição sobre o assunto.

PEDOFILIA - Um dos escândalos que mais atingiu a imagem da Igreja Católica aconteceu em 2010, quando padres das igrejas da Irlanda, Alemanha, Áustria, Bélgica e Estados Unidos foram acusados de [milhares de casos de] pedofilia.

O escândalo respingou no papa, que chegou a ser acusado de ter “encoberto” os padres pedófilos durante seu tempo como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.

Por causa das acusações, o Papa Bento XVI foi forçado a demitir vários bispos e ainda ordenou a limpeza da irmandade dos Legionários de Cristo, depois de descobrir que seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, falecido em 2008, abusou sexualmente de seminaristas e teve filhos com diversas mulheres.

O papa reconheceu no livro-entrevista Luz do Mundo, do escritor alemão Peter Seewald, que o caso de Maciel foi tratado com “lentidão e demora”, porque “foi muito bem encoberto”.

ORLANDI - Em maio de 2012, a polícia italiana abriu uma tumba na Basílica de São Apolinário, onde estão enterrados vários cardeais e altos cargos do Vaticano, e confirmou a existência de dezenas de ossadas e do corpo intacto do mafioso Enrico De Pedis, um dos chefes da organização Magliana, que agia em Roma.

De Pedis, que morreu em 1990, é suspeito do desaparecimento da jovem Emanuella Orlandi, há quase 30 anos, filha de um empregado do Vaticano, que vivia no pequeno Estado papal.

A suspeita foi confirmada após análises de DNA. A decisão do Ministério Público de reabrir o túmulo veio depois de um telefonema anônimo a um programa de TV, em 2005, que denunciava o enterro do mafioso na basília romana.

Pouco depois, a ex-namorada do mafioso, Sabrina Minardi, revelou que teria sido ele quem sequestrara Emanuela.

A jovem tinha 15 anos quando desapareceu depois de sair do apartamento da família dentro do Vaticano para ir a uma aula de música.

A Igreja ainda teria aceitado um bilhão de liras (mais de R$ 1,245 milhão), a antiga moeda italiana, como pagamento para permitir o enterro do mafioso.

VATILEAKS - O escânadalo mais recente do pontificado de Bento XVI foi o caso conhecido como “VatiLeaks”: o vazamento de documentos confidenciais da Santa Sé.

O tribunal do Vaticano chegou a condenar Paolo Gabriele, ex-mordomo do Papa Bento XVI, responsável por entregar os documentos ao jornalista Gianluigi Luzzi, que publicou os dados, a 18 meses de prisão domiciliar pelo roubo.

O papa, porém, perdoou o ex-funcionário, que foi libertado pouco mais de dois meses após a sentença. O papa perdoou ainda Claudio Sciarpelletti, funcionário da Santa Sé condenado por ser cúmplice de Gabriele.

O ex-mordomo foi preso em maio de 2012, quando a polícia encontrou cópias de documentos papais em sua casa. O ex-ajudante admitiu ser a fonte do vazamento de documentos da Santa Sé para a imprensa, incluindo cartas ao papa que denunciavam supostos atos de corrupção nos negócios do Vaticano e textos que revelavam disputas internas.

 

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03/11/2012

às 12:15 \ Vasto Mundo

EUA: quem é Mitt Romney, o candidato que ameaça a reeleição de Obama

 

O ANTI-OBAMA -- Romney faz campanha no estado de Ohio, que pode ser decisivo em novembro: quanto menos governo, melhor (Foto: Brian Snyder / Reuters)

O ANTI-OBAMA -- Romney faz campanha no estado de Ohio, que pode ser decisivo em novembro: quanto menos governo, melhor (Foto: Brian Snyder / Reuters)

Reportagem de Duda Teixeira publicada em edição impressa de VEJA

 

UM CEO PARA A CASA BRANCA

Mitt Romney, o executivo de sucesso e membro de uma religião vista como exótica nos EUA, ameaça a reeleição de Obama com a promessa de pôr ordem na economia

 

Willard Mitt Romney, o candidato republicano à Casa Branca, nasceu em Detroit, em 1947. Foi batizado em homenagem a um amigo da família, J. Willard Marriott, que depois se tornaria conhecido pela rede de hotéis que criou. Marriott, tal como os Romney, era mórmon, seguidor da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

“Mitt” era o apelido de Milton Romney, primo do seu pai, George, e quarterback do time de futebol americano Chicago Bears. George era presidente de uma empresa de automóveis na cidade, foi governarod eo Estado de Michigan e tentou a candidatura à Presidência pelo Partido Republicano em 1968. Ele aconselhou o filho a só se aventurar na política depois de ser bem-sucedido no mundo dos negócios.

Mitt Romney seguiu a recomendação. Foi um consultor de destaque no Boston Consulting Group. Depois, foi o CEO de uma firma de capital de risco, a Bain Capital, que rendeu milhões em dividendos aos seus investidores. Só então se candidatou ao Senado (foi derrotado) e ao governo de Massachusetts (foi eleito), o Estado menos conservador dos Estados Unidos.

Essa trajetória cuidadosamente planejada será posta à prova nesta terça-feira. Romney tem aparecido à frente de Barack Obama, que tenta a reeleição, em metade das pesquisas de intenção de voto, mas ainda perde na contagem do Colégio Eleitoral, cujos delegados são definidos em cada Estado pela votação popular. São eles que efetivamente elegem o presidente.

Muitos eleitores apostam que a experiência de Romney e sua capacidade de analisar montanhas de dados para tomar decisões acertadas possam servir para tirar os Estados Unidos do marasmo econômico. O desemprego, o déficit nas contas governamentais, a queda no padrão de consumo e outros problemas econômicos são considerados essenciais para a escolha do candidato por 72% dos eleitores.

A POLIGAMIA É PASSADO -- Ann, a (única) mulher de Mitt Romney, com dois de seus netos em um ônibus de campanha na Flórida, na semana passada (Foto: Brian Blanco / Reuters)

A POLIGAMIA É PASSADO -- Ann, a (única) mulher de Mitt Romney, com dois de seus netos em um ônibus de campanha na Flórida, na semana passada (Foto: Brian Blanco / Reuters)

Obama assumiu o poder em 2009, quando a crise financeira ainda estava fresca. Seus pacotes de estímulo podem ter evitado o pior, mas não tiraram o país da crise.

Em contraste com o discurso democrata que defende a intervenção do estado na economia, Romney encarna a essência do Partido Republicano, para o qual governo demais atrapalha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

22/10/2012

às 14:12 \ Vasto Mundo

Meio século depois, o Concílio Vaticano II não conseguiu seu principal objetivo: atrair mais fieis para a Igreja Católica

"VARRER A POEIRA DO TRONO DE PEDRO" -- Assim o papa João XXIII definiu os objetivos do Concílio Vaticano II (Foto: Corbis / Latinstock)

"VARRER A POEIRA DO TRONO DE PEDRO" -- Assim o papa João XXIII definiu os objetivos do Concílio Vaticano II (Foto: Corbis / Latinstock)

Matéria publicada por Adriana Dias Lopes, em edição impressa de VEJA

1962 — OBRA EM ABERTO

Passados cinquenta anos, o Concílio Vaticano II, marco na modernização da Igreja, não alcançou sua principal missão: atrair os fiéis

O acontecimento mais impactante na história da Igreja Católica desde os primórdios da Idade Moderna começou às 9 horas da manhã de 11 de outubro de 1962, no Vaticano. Foi quando 2 500 bispos de 86 países iniciaram uma marcha pela Praça de São Pedro em direção à basílica. Uma multidão assistia à movimentação em silêncio.

Participavam da procissão todos os escalões da hierarquia católica, desde os patriarcas mais poderosos até bispos de dioceses mais humildes. O tempo estava ensolarado e fresco. Às 10 horas, quase todos os bispos já haviam se acomodado nas arquibancadas erguidas na nave central da igreja especialmente para aquele dia. Chegara, finalmente, a vez de o último da fila entrar, o papa João XXIII.

O pontífice vinha carregado em uma cadeira gestatória sobre os ombros de funcionários do Vaticano. A um passo do portão da igreja, ele quebrou o protocolo e pediu para descer, em um gesto de humildade. Em seguida entrou na basílica a pé. A plateia se levantou e o aplaudiu durante seu percurso até o altar.

Entendeu-se que o gesto representava o mais perfeito símbolo do evento que seria iniciado ali, o Concílio Vaticano II, a assembleia religiosa que pretendia ser um marco na modernização litúrgica e doutrinal da Igreja. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

19/09/2012

às 16:00 \ Política & Cia

O Reinaldo Azevedo e eu pensamos de forma diferente sobre vários temas. Mas eu assinaria feliz esse texto dele: sobre como setores “progressistas” da imprensa inflaram a candidatura do Menino Malufinho em SP

O candidato à prefeitura de São Paulo pelo PRB, Celso Russomanno (Foto: Alexandre Moreira / Folhapress)

O candidato à prefeitura de São Paulo pelo PRB, Celso Russomanno: ao mesmo tempo um rebaixamento e uma sofisticação do populismo rastaquera (Foto: Alexandre Moreira / Folhapress)

Amigas e amigos do blog, aqueles que são leitores do Reinaldo Azevedo e me honram também com sua leitura sabem que ele e eu não pensamos da mesma forma sobre uma série de itens a respeito dos quais escrevemos, que vão desde a avaliação de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos até como deve ser tratada a questão do aborto, passando pela abordagem de problemas como o combate à aids ou o papel da religião na sociedade.

Algo naturalíssimo entre pessoas que usam o próprio cérebro, e típico de homens livres, se expressando em sociedades livres.

Como não passa por minha cabeça submeter amizades ao crivo de minhas convicções, gosto muito do Reinaldo pessoalmente. E, é claro, também concordamos sobre muita coisa.

Um exemplo é o que ele escreveu na sexta-feira, 14, em sua coluna, com o título que segue abaixo. Eu teria orgulho de tê-lo escrito — embora, já que não somos clones um do outro, eu veja de forma diversa o que meu amigo Reinaldo chama de “kit gay” e não teria mencionado o tema.

Como os “progressistas” tornaram viável o candidato Russomanno

A destruição de qualquer parâmetro razoável para analisar a gestão da cidade [de São Paulo] — e alerto que setores da imprensa paulistana começam a fazer o mesmo com o governo do Estado (ainda voltarei ao assunto) — deu à luz Celso Russomanno, que é, ao mesmo tempo, um rebaixamento e uma sofisticação do populismo rastaquera.

É um rebaixamento porque não me lembro de alguém com o seu despreparo ter chegado tão longe. E é uma sofisticação porque, como está claro, Russomanno não está só, não? Ele é uma legião. A mão que balança o berço é Edir Macedo. Quem perde é a civilidade.

A cada vez que a imprensa “progressista” deu destaque às creches que faltam na cidade sem lembrar as 150 mil vagas criadas (eram 60 mil quando Serra chegou à Prefeitura, em 2005), o intento era preparar o terreno para um “candidato progressista”, mas se estava alimentando um Russomanno.

A cada vez que a imprensa “progressista” deu destaque aos problemas de transporte e mobilidade, desprezando os investimentos feitos e ignorando que uma política agressiva do governo federal de incentivos inundava a cidade de carros, o intento era preparar o terreno para um “candidato progressista”, mas se estava alimentando Russomanno.

A cada vez que a “imprensa progressista” demonizou todo e qualquer debate sobre educação e costumes como “coisa de reacionários religiosos” — era proibido e ainda é debater à luz do dia o kit gay de Haddad —, o intento era preparar o terreno para o “candidato progressista”, mas se estava alimentando Russomanno.

A cada vez que a “imprensa progressista” trata a ideia estúpida do tal Bilhete Único de Haddad como solução para o transporte coletivo — como se isso alterasse as condições objetivas do sistema —, o intento é preparar o terreno para o “candidato progressista”, mas se está alimentando Russomanno.

Que importância tem?

“Que importância tem a imprensa escrita, Reinaldo?, especialmente os jornais, hoje os mais engajados na campanha de Haddad?” Tem, sim! Ainda são referências do debate. Sua pauta vai parar nas rádios, nos sites, nos blogs, espalha-se. As camadas mais pobres e menos informadas não leem jornal, é evidente, nem desfilam por aí com iPAD, mas as informações chegam de um modo ou de outro — como chega lá nos cafundós do Iêmen a conversa sobre um filmeco…

A gestão Kassab foi analisada durante quatro anos segundo o filtro da ONG petista Nossa São Paulo. É aquela gente bacana que analisou o cumprimento de metas da Prefeitura item por item, de sorte que construir um hospital tem o mesmo peso que criar uma pracinha. Tudo vale “1 ponto”. Espalhou-se a mentira de uma administração desastrada, caótica, que não se importa com as pessoas.

Então veio Russomanno.

Russomanno, no programa "Aqui Agora", em 1994 (Foto: Egberto Nogueira)

Russomanno, no programa "Aqui Agora", em 1994: "Ele vende a ideia estúpida de que, se eleito, vai ser fiscal de quarteirão" (Foto: Egberto Nogueira)

Enquanto isso, a TV Record estava aquecendo Celso Russomanno. E se rompeu a casca do ovo, não é? Os “progressistas” estavam certos de que bastava dar umas duas ou três pancadas nele e pronto! Estaria tudo resolvido! Não perceberam que o próprio Edir Macedo é um evento que resiste às luzes mesmo do jornalismo mais rigoroso e técnico. Este rapaz, com sua ignorância “alastrante”, com sua incapacidade de dissertar mais do que três minutos sobre um determinado tema, com suas propostas esdrúxulas, ganhou setores importantes do cinturão de votos tradicionalmente petista, mas entrou também em fortalezas tradicionalmente antipetistas.

Preparou-se o terreno para o advento de um novo Schopenhauer, ancorado em Dilma, Lula e Marta, e o que se vê um populista vulgar, gestado na mente divinal de Edir Macedo. E com marketing profissionalizado — porque, nessa área, convenham, a Igreja Universal rivaliza com o próprio PT.

No horário eleitoral, Russomanno se diz agora perseguido. Enquanto os candidatos que disputam o segundo lugar têm se de estapear — preservando o rapaz do PRB de suas próprias bobagens e de sua biografia —, o que fez o ex-menino Malufinho? Foi à TV se dizer “perseguido”. Por quem? Pelos adversários é que não é! Não! Perseguido pela “mídia”. Leiam trecho de sua fala, olho no olho do espectador:

“Isso [a crítica] não vai tirar do rumo. Vou continuar te defendendo, cuidando de você. Imagina o prefeito que vai às ruas fiscalizar! Um prefeito que não avisa aonde vai para pegar as coisas do jeito que elas estão? A verdade nua e crua.”

Entenderam? Ele vende a ideia estúpida de que, se eleito, vai ser fiscal de quarteirão. Sugere que sairá por aí dando incertas, como fazia quando se apresentava como suposto “defensor do consumidor”.

Sim, é verdade! Se Russomanno for eleito, a responsabilidade será do eleitor. Mas não se duvide um só minuto de que ele só se tornou viável porque adequado a critérios tornados influentes pelos “pensadores”. E o mais impressionante é que a delinquência intelectual continua — agora voltada para o Palácio dos Bandeirantes. Trato disso em outro post.

12/09/2012

às 15:06 \ Política & Cia

LIBERALIZAÇÃO DE DROGAS: divergências entre senadores mostra que será quente o debate sobre o novo Código Penal

Senadores Magno Malta, Randolfe Rodrigues e Lídice da Mata

Senadores Magno Malta, Randolfe Rodrigues e Lídice da Mata: questão das drogas vai esquentar o debate sobre o novo Código Penal

Da Agência Senado

Convidados a opinar sobre o tema da liberação das drogas, senadores de três partidos e Estados diferentes anteciparam a polêmica que fatalmente vai cercar o assunto nos próximos meses. A liberalização é um dos pontos mais delicados do projeto do novo Código Penal, em discussão em Comissão Especial criada pela Casa.

O texto, elaborado por uma Comissão de Juristas instituída pela Presidência do Senado, descriminaliza o uso pessoal de quantidade de substância entorpecente que represente consumo médio individual de cinco dias. O mesmo vale para o plantio para consumo próprio.

A quantidade exata seria definida por regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tendo em vista os danos potenciais da droga. Para distinguir consumo pessoal e tráfico, outros aspectos seriam levados em consideração, como a situação concreta da pessoa e sua conduta no momento do ato.

Segundo o DataSenado, serviço da Secretaria de Pesquisa e Opinião Pública (Sepop) do Senado, enquete concluída em 31 de agosto sobre descriminalização da produção e do porte de drogas para consumo próprio obteve a participação de mais de 370 mil internautas. O resultado foi amplamente favorável ao dispositivo: 84,92% de votos “sim”, contra 15,08% de votos “não”.

Embora enquetes não tenham rigor científico, a grande adesão à consulta indica que o tema deve mobilizar a sociedade. É o que já acontece no Senado, onde há dezenas de projetos tratando do assunto. A tramitação das propostas deve ficar suspensa até que a Casa vote o novo Código Penal.

“Se não houver usuário, não haverá traficante”

Mudanças que signifiquem maior liberalização em relação ao uso de drogas não serão facilmente aprovadas, conforme afirmou o senador Magno Malta (PR-ES), quando da entrega do anteprojeto da Comissão de Juristas.

— Se nós fizéssemos plebiscito, se fizéssemos uma pesquisa, mais de 70% da sociedade rejeitaria — disse o senador em relação aos dispositivos que tratam de drogas e aborto.

Segundo Elga Lopes, diretora da Sepop, será realizada uma pesquisa sobre o assunto em outubro.

Magno Malta disse não concordar com a proteção penal do usuário de drogas. Para ele, se não houver usuário, não haverá traficante por falta de mercado. Ele disse que o Estado deve apoiar as instituições que trabalham com prevenção e tratamento de drogados, tarefa que não realiza, além de dificultar a atuação dos voluntários.

Para a senadora Lídice da Mata (PSB-BA), há no Senado condições favoráveis para o debate de temas polêmicos como as drogas.

- Eu acho que há ambiente para que o debate se dê de forma mais aberta do que há anos atrás. Espero que isso possa contaminar sociedade brasileira – disse a senadora.

Polêmica: plantio/produção, comercialização e uso de drogas na pauta do Senado (Foto: Uriel Sinai / Getty Images)

Polêmica: plantio/produção, comercialização e uso de drogas na pauta do Senado (Foto: Uriel Sinai / Getty Images)

Senadora quer flexibilizar o tratamento da questão

Lídice está entre os parlamentares que acham que o uso de drogas deve ser tratado no âmbito das políticas de saúde pública.

- É preciso flexibilizar o uso das drogas, principalmente as de menor dano à saúde, como a maconha. A pessoa não pode ser presa por ser usuário de drogas. Pelo Código Penal [atual] já não é crime o consumo, mas há uma fronteira que pode levar à prisão o usuário com determinada quantidade. É uma bobagem e o problema tem que ser tratado no ambiente da saúde publica, das famílias e num trabalho de prevenção. As estatísticas dizem que o álcool provoca muito mais crimes e acidentes e ninguém é preso por beber ou por vender – argumentou.

A senadora é favorável também a mudanças no tratamento penal do tráfico de drogas.

- Nós é que transformamos o vendedor de pequenas quantidades um delinquente – afirmou.

Descriminalizar o usuário — mas plantio para uso próprio, não

O senador Randolfe Rodrigues adota posição intermediária: descriminalização do uso e manutenção de penas severas para traficantes.

- Temos que descriminalizar o usuário, mas sou contra o plantio, ainda que para uso pessoal. Sou contra medidas que signifiquem facilitar o acesso a substâncias que fazem mal à saúde. Defendo mais restrições, inclusive às drogas lícitas, como o álcool – afirmou Randolfe Rodrigues, que tem posição divergente de seu partido, o PSOL, favorável à liberalização do uso e produção para consumo próprio.

Os senadores tiveram até o dia 5 de setembro para apresentar emendas ao texto que tramita na Comissão Especial do Código Penal. O início das discussões das propostas pode indicar a tendência da Casa em relação ao tema.

23/07/2012

às 15:19 \ Política & Cia

Liberalização do aborto, mais do que a da maconha, deve fazer pegar fogo a comissão do Senado que vai discutir o novo Código Penal. Sarney designou hoje os integrantes

Manifestação a favor da legalização do aborto em São Paulo: discussão no Senado vai opor os dois extremos

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), anunciou nesta terça-feira, 17, quais senadores irão compor a comissão especial que analisará o anteprojeto do novo Código Penal. (Se quiser,consulte aqui a íntegra do documento).

Antes de mais nada, já é possível prever: de tudo o que o anteprojeto contém — e contém muita coisa boa e algumas mudanças discutíveis — o que vai dar mesmo o que falar é o dispositivo que ampla os casos de aborto legal, hoje restritos a dois casos: se não há outra forma de salvar a vida da gestante e se a gravidez é resultado de estupro.

O barulho sobre o aborto deve até ser maior do que a descriminalização do plantio e porte de maconha para consumo próprio.

O aborto, na prática, fica liberado

O artigo 128 , seus incisos e seu parágrafo, que transcrevo abaixo, praticamente libera o aborto até a 12ª semana de gestação, além de formalizar a legalidade do abordo de anencéfalos que o Supremo Tribunal Federal interpretou, à luz do atual Código, ser legal.

Vejam os dispositivos que devem dar muito pano para manga:

“Art. 128. Não há crime de aborto:

“I – se houver risco à vida ou à saúde da gestante;

“II – se a gravidez resulta de violação da dignidade sexual, ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida;

“III – se comprovada a anencefalia ou quando o feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida extrauterina, em ambos os casos atestado por dois médicos; ou

“IV – se por vontade da gestante, até a décima segunda semana da gestação, quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade.

“Parágrafo único. Nos casos dos incisos II e III e da segunda parte do inciso I deste artigo, o aborto deve ser precedido de consentimento da gestante, ou, quando menor, incapaz ou impossibilitada de consentir, de seu representante legal, do cônjuge ou de seu companheiro.”

O anteprojeto foi elaborado por uma comissão de 15 juristas — magistrados, membros do Ministério Público e advogados — indicados pelas lideranças partidárias e presidida pelo ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça. O documento teve como relator o procurador da República Luiz Carlos Gonçalves.

Maconha plantada em vasos: se depender do anteprojeto, plantar em casa, para consumo próprio, não será crime (Foto: Dedoc / Editora Abril)

Serão revogadas 130 leis

Quando empossada a comissão, há sete meses, Dipp disse que a ela cabia“a tarefa ingesta de elaborar um código que atenda tanto o executivo da Avenida Paulista quanto o ribeirinho do Amazonas”. E, com sinceridade, assinalou: “os membros da comissão representam as mais variadas vertentes do pensamento jurídico brasileiro e assim deve ser. Somos uma sociedade plural e desigual e esta comissão reflete exatamente isso”.

A comissão de juristas trabalhou duro durante sete meses. E produziu um anteprojeto de Codigo Penal de 542 artigos contra 361 do atual — o velho código baixado por decreto pelo ditador Getúlio Vargas em 1940 e que sofreu, ao longo desses 72 anos, centenas de mudanças pequenas, médias e grandes. Aumentar o número de artigos, no caso, foi um bom trabalho de simplificação e racionalização, diferentemente do que possa parecer, já que o novo Código, se aprovado, vai incorporar dispositivos penais contidos em 130 diferentes leis, que serão, todas, revogadas.

Marta Suplicy x Magno Malta

A briga na comissão especial do Senado sobre o aborto vai ser boa, já que, entre titulares e suplentes, reúne políticos defensores do direito das mulheres ao aborto, como a senadora Marta Suplicy (PT-SP), e arquiinimigos da hipótese, como o senador e líder evangélico Magno Malta (PR-ES).

Em muitos outros temas, como o aumento da pena para crimes de trânsito ou o endurecimento para o crime de tortura, deverá haver consenso.

Os membros titulares são os senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), Armando Monteiro (PTB-PE), Benedito de Lira (PP-AL), Clovis Fecury (DEM-MA), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Jorge Viana (PT-AC), Magno Malta (PR-ES), Pedro Taques (PDT-MT) e Ricardo Ferraço (PMDB-ES).

Os suplentes são Ana Rita (PT-ES), Eduardo Amorim (PSC-SE), Gim Argello (PTB-DF), Jayme Campos (DEM-MT), José Pimentel (PT-CE), Luiz Henrique (PMDB-SC), Marta Suplicy (PT-SP), Sérgio Souza (PMDB-PR) e Vital do Rêgo (PMDB-PB).

Os senadores da comissão deverão discutir o projeto e propor mudanças antes de sua votação pelo Plenário do Senado. Um complicador para seu trabalho é o fato de que todos os projetos de lei sobre assuntos criminais ou de emendas ao atual Código serão anexados ao anteprojeto, examinados e discutidos.

19/07/2012

às 20:03 \ Política & Cia

FHC em entrevista: governo Dilma tem DNA diferente do de Lula — se é que este tinha algum DNA

"Não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso na sua relação com o mercado" (Foto: Gilberto Tadday)

FHC: "No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento" (Foto: Gilberto Tadday)

(Entrevista feita por André Petry, de Washington, publicada nas Páginas Amarelas da edição de VEJA que está nas bancas. O título original está abaixo.)

 

Mas onde foi parar o debate?

 

Honrado com um prêmio equivalente a um Nobel, o ex-presidente diz que o Brasil continua no rumo, mas reclama da apatia social e da falta de discussão política

Com seu proverbial bom humor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contou a uma plateia de 200 pessoas em Washington que só não aceitou ficar nos Estados Unidos nos anos 70, quando dava aulas no país, porque o convite não incluía uma cadeira de senador. “No Brasil, concorro e ganho”, brincou. Voltou e ganhou a cadeira. Aos 81 anos, FHC cumpriu uma carreira brilhante, que lhe rendeu, na semana passada, o prêmio Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso americano.

Equivalente a um Nobel na área de humanas, o prêmio vem com um cheque de 1 milhão de dólares, que ele pretende partilhar com os netos para ensinar-lhes a fazer ação social. Depois da premiação, em seu hotel na capital americana, ele falou do mundo e do Brasil na entrevista a seguir.

 

No exterior, até o ano passado o Brasil era uma estrela mundial, o país do futuro ao qual o futuro finalmente chegou. Agora, deu uma virada. Houve exagero antes ou agora?

Houve exagero tanto antes quanto agora. O Brasil melhorou muito, mas não foi tanto assim. Faltou a percepção de que o PIB cresceu mas a sociedade continua com problemas. Não somos uma sociedade organizada, com democracia enraizada, acesso à educação e à saúde de boa qualidade. O mundo começou a olhar para o Brasil como se tudo estivesse resolvido. O exagero não se deu apenas em relação ao Brasil. Fiz uma visita recente à China, e lá eles fazem questão de insistir que são um país em desenvolvimento. Olhe que a China é o segundo PIB do mundo. Mas, efetivamente, é um país em desenvolvimento. Como o Brasil.

 

A mudança da percepção externa sobre o Brasil não é fruto do ativismo econômico do governo atual?

A mudança começou quando apareceram alguns sinais de que talvez o Brasil fosse se desviar do caminho anterior, com as intervenções tópicas do governo na economia. Depois, a balança comercial deixou de ser tão favorável. O sujeito que tem bilhões de dólares investidos no Brasil começa a ficar com receio. Mas a situação não é tão negativa quanto está sendo pintada. O governo tem obrigação de se ajustar à conjuntura. A economia política é política por um lado, mas não é propriamente ciência por outro.

É uma navegação. Se tem uma ilha, desvia-se. Sem tem tormenta, reduz-se a velocidade. Só não pode perder o rumo. Agora, não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso no que diz respeito à sua relação com o mercado. É o comando do Estado sobre o mercado, mas não é estatista. Tanto que acabou de fazer a concessão dos aeroportos.

O que se percebe é que o DNA do governo atual é outro. O presidente Lula procurava disfarçar o seu DNA, se é que o tinha. A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação.

 

DNA Governo Dilma (Foto: Agência Brasil)

"A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação" - por parte do Estado (Foto: Wilson Dias/ABr)

 

Há risco de o Brasil perder o rumo?

Não acredito. Falaram muito por causa da mudança cambial, mas é bobagem. Eu mesmo mexi no câmbio várias vezes. Já demiti presidente do Banco Central. O perigo está na tendência ao protecionismo. A Argentina tem tendência protecionista abertamente. O Brasil também, mas é topicamente. O protecionismo seria ruim para nós. Temos de aumentar a produtividade para poder baixar os preços e assim beneficiar a todos. Mas, quando se fecha o mercado, reduz-se a competição e, ao fazê-lo, reduz-se também o incentivo para as pessoas aumentarem a produtividade. Com o tempo, fica-se defasado. Nada disso é do interesse do Brasil.

 

Para manter o rumo, qual deve ser a prioridade do Brasil nos próximos anos?

O vento no mundo não sopra mais a nosso favor. Então, o desafio do governo da presidente Dilma é retomar algumas reformas e fazer o que o governo do presidente Lula não fez durante o bom momento do crescimento econômico, que é cuidar do investimento e da poupança. No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento.

A produtividade da nossa indústria perdeu em comparação com a de outros países. Mas não é a produtividade de dentro da fábrica. É de fora. São as estradas, o custo da energia, os aeroportos, o sistema tributário, a educação. Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí.

 

A crise no capitalismo ocidental está ajudando a tornar o capitalismo de Estado da China mais atraente?

Há muita insatisfação social nos países ocidentais e, daí, há um fascínio com o que se imagina que seja o outro lado. Mas a China tem um modelo complicado. Ali, deu-se a aliança do capitalismo de estado com as grandes corporações internacionais. O preço é menos liberdade. Não é um caminho para o Brasil. Nós somos mais ocidentalizados, estamos acostumados à liberdade. E PIB não é tudo. Nos anos 70, nosso PIB cresceu muito mas as pessoas não foram beneficiadas. Havia concentração de renda. Monopólios, públicos ou privados, concentram renda. Só ter grandes empresas concentra renda. É o perigo do Brasil de hoje.

Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí (Foto: stock.XCHNG)

"Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí" (Foto: stock.XCHNG)

 

Mas o Brasil não vive um processo de desconcentração de renda?

A transferência de renda saudável é para baixo, mas também temos a transferência para cima. O BNDES pega dinheiro do Tesouro e empresta a empresas com juros subsidiados. Quem paga o subsídio? Nós, os contribuintes. Dá cerca de 20 bilhões de dólares. A Bolsa Empresa está forte no Brasil. É provável que na década de 70, com grandes estatizações e grandes empresas, a renda tenha se concentrado. Agora, não será igual porque temos os dois movimentos: concentração para cima e desconcentração para baixo. O Brasil hoje é o país da Bolsa Família e da Bolsa Empresa, o que resultou na felicidade geral. Daí o apoio ao governo.

 

Isso é ruim?

Primeiro, a felicidade é quase geral. A classe média ficou de fora. Mas, com a prosperidade das bolsas, as pessoas perderam a motivação para debater. Não há mais debate. O debate político-partidário perdeu sua centralidade. Não é um fenômeno só brasileiro. A Europa vive isso, os EUA também, mas com menor intensidade. No nosso caso, isso decorre da desconexão entre o mundo institucional da política e a sociedade. Passou a haver uma relação direta do Executivo com o povo, pulando o Congresso. É uma tendência brasileira antiga, mas se acentuou. Toda hora dizem que não temos oposição no Brasil. Está errado. A oposição está dentro do Congresso, só que o Congresso não tem repercussão na rua. Os partidos saíram da sociedade e se aninharam no Congresso ou no governo. O partido com mais vínculo com o movimento social era o PT.

Com o PT no governo, o movimento social virou cadeia de transmissão da vontade oficial. Perdeu vitalidade. O debate se deslocou para a mídia. É por isso que o governo acusa a mídia de ser oposição. Porque é a única instituição que fala e o povo ouve.

 

Como os partidos podem voltar a se reconectar com a sociedade?

Eles precisam tomar posição diante dos fatos correntes. Como têm medo de assumir posições, os partidos não falam nada. Legalização das drogas? Silêncio. Aborto? Silêncio. Relação do estado com a religião? Silêncio. Qual a melhor maneira de resolver a questão do transporte? Silêncio. São questões do cotidiano. Questões que levariam a população a se identificar com os partidos. A própria sociedade civil, antes vibrante e ativa, se encolheu. Sempre digo: se você não politiza, não acontece nada. Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve. Política requer que se tome partido, que se tome posição. Tem de dizer se está certo ou se está errado. A política é valorativa.

 

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, foi indiciado por crime de formação de quadrilha

Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve (Foto: VEJA.com)

Se o debate político perdeu vigor no Brasil, mas também na Europa e nos EUA, pode-se falar em crise da democracia?

Fala-se nisso, mas não concordo. Ninguém quer não democracia. Mas é preciso ter um mecanismo pelo qual a população possa participar do processo decisório. Do debate, do antes. Só consegui fazer reformas porque houve muito debate e discussão. Agora, não. Quem debateu as quatro usinas da Petrobras? Quem debateu o trem-bala?

 

Se os réus do mensalão forem absolvidos pelo Supremo Tribunal, qual será o tamanho do desastre?

Não sou juiz e não sei qual deve ser a sentença. O que sei é que, se houver algo a ser corrigido, e for, será um marco histórico. Até hoje, o povo sente que gente importante pode fazer o que quiser e não paga o preço. Uma absolvição, se for percebida como algo por baixo do pano, vai referendar isso. É um julgamento histórico porque uma sociedade se forma de símbolos. Quando Lula foi eleito, preparei a transição mais civilizada possível. Entre outras razões, porque Lula era o primeiro líder popular sindical eleito presidente. Simbolicamente, é importante.

 

Faltou diplomacia brasileira na crise que resultou no afastamento do presidente do Paraguai?

Faltou diplomacia, mas não só brasileira. De todo mundo. Se eu pudesse ter interferido, aconselharia evitar o afastamento faltando dez meses para o fim do governo. A ação do Paraguai foi muito rápida, o que é politicamente inconveniente, mas não foi ilegal. Agora, grave também foi a entrada da Venezuela no Mercosul na ausência do Paraguai. Sou a favor da Venezuela no Mercosul. Mas ela tinha de ter cumprido o requisito básico de adotar a tarifa externa comum.

 

O Brasil está perdendo o foco na América do Sul ou perdendo influência?

Está perdendo influência. Antes, tínhamos uma influência não discutida, automática e não anunciada. No meu governo, houve várias crises no Paraguai. Lidamos com elas de maneira efetiva e discreta. O Peru e o Equador estavam em guerra. Ajudei muito na paz entre esses países, mas nunca anunciei isso. Agora, com Hugo Chávez na Venezuela, criou-se outro polo de influência. Tenho a impressão de que o Brasil prefere não se contrapor. É como se fôssemos da mesma família. Sei que ele é meu primo, meu primo é meio canhoto, eu preferia que ele não fosse, mas é meu primo. O Brasil fica um pouco tolhido de tomar posições para não ser percebido como alguém que saiu da família.

 

Há analistas dizendo que a relação entre estado e mercado será definida pelo que os Brics fizerem. O senhor concorda?

Ninguém vai transformar a Europa numa China, ou vice-versa. É preciso entender que há diversidade na cultura, na forma de organização política. A Rússia é uma plutocracia autocrática. Isso não se aplica ao Brasil, à Índia nem à China. A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. Na minha visita ao país, fiquei bem impressionado com o debate na universidade. Eles estão voltando a falar em termos confucianos da virtude. O funcionário público, o mandarim, deve ser competente, fazer concurso e ter a virtude de servir o público. Na Rússia, não tem isso. No Brasil, o estado sempre foi muito importante, continua sendo e sempre será. Há diferenças. Nos EUA, fala-se em universalizar a saúde e eles entram em pânico. No Brasil, quem vai dizer que saúde gratuita é medida socialista? Não teremos um modelo só no mundo. Haverá vários. Os países árabes, islâmicos, não vão adotar comportamentos idênticos aos do Ocidente. Isso é ilusão do ocidentalismo e seu poder militar, que vinha para impor a cultura. Isso não dá mais. O desafio é como conviver com as diferenças.

 

China em desenvolvimento (Daniel Berehulak/Getty Images)

A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. (Daniel Berehulak/Getty Images)

O que seguirá unindo o mundo?

A noção de direitos humanos está voltando a ter peso. Sem perceber, estamos recriando a ideia de humanidade. Quando Hegel falava de humanidade, Marx dizia que, enquanto houvesse classe social, seria a classe. Só quando todos fossem iguais, poderíamos falar em humanidade. Agora, por causa da bomba atômica, do meio ambiente, é preciso pensar em humanidade. Gorbachev diz isso. Temos de pensar no conjunto, no que é universal e afeta a todos. Voltamos a ter de nos preocupar com os direitos que pertencem à humanidade. Temas como igualdade de homem e mulher, como tortura. O mundo terá de se organizar a partir de um núcleo de valores que afetem a humanidade, mas há que ter limite. Não podemos usar isso para impedir manifestações de diversidades culturais que são normais. Inclusive na política. O próprio mercado, hoje praticamente universal, sofre restrições diferentes aqui e ali. Vai continuar sofrendo. Esse é o desafio para o século XXI.

 

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