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aborto

11/07/2014

às 18:00 \ Política & Cia

Candidato do PV à Presidência quer acabar com o Senado

Na direção contrária de Marina Silva, o candidato do PV, Eduardo Jorge, pretende radicalizar (Foto: PV)

Na direção contrária de Marina Silva, o candidato do PV, Eduardo Jorge, parte para extremos (Foto: PV)

PELO FIM DO SENADO

Nota publicada na seção “Holofote” de edição impressa de VEJA

Em 2010, com Marina Silva, e contra a legalização das drogas e do aborto, o PV conseguiu 19% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais. A

gora, sem Marina, o candidato a presidente pelo partido, o ex-deputado Eduardo Jorge, vai radicalizar.

Além da defesa da legalização da maconha e do aborto, sua campanha apregoa a extinção do Senado, com o argumento de que a Casa não representa a população de maneira proporcional (cada Estado elege três parlamentares, qualquer que seja o seu número de habitantes).

[A ideia de representação igual dos Estados existe desde a primeira Constituição, a de 1891, e foi copiada da Carta dos Estados Unidos, com a ideia de que, enquanto a Câmara dos Deputados representa a população -- e daí cada Estado tem bancada de tamanho diferente --, o Senado representa os Estados, que devem ser igualmente considerados.]

Ainda assim, o PV vai lançar dois candidatos a senador em outubro.

Eduardo Jorge permanece estacionado em 1% nas pesquisas de intenção de voto.

06/01/2014

às 15:25 \ Vasto Mundo

VÍDEO: Senadora que fez história nas primárias para o governo do Texas pede respeito às mulheres e é ovacionada

Leticia-Van-de-Putte

Leticia Van de Putte: “em que ponto uma senadora mulher deve levantar a sua mão ou sua voz para ser reconhecida entre os seus colegas homens?” (Foto: vandeputte.senate.state.tx.us)

O episódio ocorreu no ano passado na Assembleia Legislativa do Texas e repercutiu bastante nos Estados Unidos, mas quase nada em outros países.

Diante da iniciativa de representantes do Partido Republicano de tentar interromper o longo discurso da senadora democrata Wendy Davis, que criticava uma a lei antiaborto em vias de ser votada, sua colega de ofício e sigla Leticia Van de Putte pediu a palavra e perguntou:

– Senhor presidente, em que ponto uma senadora mulher deve levantar a sua mão ou sua voz para ser reconhecida entre os seus colegas homens nesta sala?

Antes que alguém esboçasse qualquer resposta, uma onda de aplausos do público presente à sessão foi tomando o recinto em ruidoso crescendo exponencial. Assistam:

A sessão acabou adiada, mas a lei seria aprovada em votação posterior. O caso contribuiu, no entanto, para o aumento da popularidade de Van de Putte. Nascida em 1954 na base militar de Fort Lewis, no Estado de Washington, esta farmacêutica descendente de mexicanos – seu nome de solteira é Leticia Rosa Magdalena Aguilar San Miguel – elegeu-se para  Senado estadual há 15 anos.

Desde então, tem sido uma das vozes de destaque em causas a favor das mulheres e dos imigrantes de origem hispânica no Texas, um dos Estados mais conservadores dos Estados Unidos.

Em novembro, Leticia, que vive em San Antonio, deu um passo adiante: anunciou que participará em março próximo das primárias democratas destinadas a escolher o candidato do partido ao governo do Texas nas eleições 4 de novembro de 2014, como candidata a vice-governadora (cargo definido separadamente ao de governador)

A pré-candidata democrata a governadora é justamente Wendy Davis, o que faz com que, pela primeira vez na história do Estado  - e apenas quarta na do país -, o Partido Democrata tenha uma dupla de mulheres como seus principais postulantes.

Caso vença as disputas, Leticia Van de Putte também quebraria outro tabu importante, sendo a primeira “latina”– como equivocadamente são chamados os latino-americanos nos EUA — a governar o Texas. O Estado faz fronteira com o México e tem mais de um terço de sua população de 26 milhões de habitantes composto por pessoas provenientes ou com ancestrais originários do vizinho do sul.

27/11/2013

às 14:45 \ Tema Livre

Papa Francisco apresenta plano de reforma da Igreja

Fotos divulgadas pelo Vaticano nesta quinta-feira (29), mostram interação entre o papa Francisco e jovens participantes de uma missa na Basílica de São Pedro (Foto: Osservatore Romano / Reuters)

Fotos divulgadas pelo Vaticano nesta quinta-feira (29), mostram interação entre o papa Francisco e jovens participantes de uma missa na Basílica de São Pedro (Foto: Osservatore Romano / Reuters)

Publicado no site de VEJA

PAPA FRANCISCO APRESENTA PLANO DE REFORMA DA IGREJA

No documento Exortação Apostólica, divulgado hoje, o papa critica a ‘economia de exclusão’ e o comodismo da Igreja. O texto orientará a postura do Vaticano nos próximos anos

Um dos mais aguardados documentos do pontificado do papa Francisco, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), foi apresentado nesta terça-feira no site oficial do Vaticano.

Baseado nas conclusões do Sínodo de Bispos sobre a Nova Evangelização, realizado no último mês de outubro, o documento de mais de 100 páginas traz as reflexões e os planos de reforma do sumo pontífice para a Igreja Católica.

Entre as críticas de Francisco, destacam-se sua decepção com o que chamou de “economia de exclusão” e com o comodismo de alguns padres e agentes evangelizadores. O papa cobra também maior participação das mulheres na Igreja.

Sobre a “economia de exclusão”, segundo o papa argentino, “assim como o mandamento de ‘não matar’ coloca um limite claro para garantir o valor da vida humana, hoje temos de dizer ‘não a uma economia de exclusão e desigualdade’. Essa economia mata. (…) Hoje, tudo está dentro do jogo e da competitividade, onde o forte come o fraco. Como resultado, grandes massas da população são excluídas e marginalizadas: sem emprego, sem horizontes”. Para Francisco, os “excluídos não são explorados, mas resíduos, excedentes”.

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Uma das razões para esta situação, ainda de acordo com o documento, reside na relação que estabelecemos com o dinheiro. Para o papa, “pacificamente aceitamos o domínio do dinheiro sobre nós e nossas sociedades”. “A crise financeira que estamos enfrentando nos faz esquecer que no início há uma profunda crise antropológica: a negação do primado do ser humano! Criamos novos ídolos”. (…) “A crise global que afeta as finanças e a economia mostra seus desequilíbrios e, acima de tudo, a grave falta de orientação antropológica que reduz o ser humano a uma das suas necessidades: o consumo”.

Papa Francisco recebeu no Vaticano as delegações de Itália e Argentina, que se enfrentam em amistoso nesta quarta-feira, em Roma (Foto: Osservatore Romano / AP)

Papa Francisco recebeu no Vaticano as delegações de Itália e Argentina, que se enfrentam em amistoso nesta quarta-feira, em Roma (Foto: Osservatore Romano / AP)

Sobre os desafios da Igreja no mundo atual, Francisco afirma que a “humanidade está em um momento uma mudança histórica”, com avanços significativos no campo da saúde, educação e comunicação. “Estamos na era do conhecimento e da informação”, escreveu. Porém, o papa ressalta que há muitos “homens e mulheres do nosso tempo vivendo precariamente diariamente, com consequências terríveis”.

 

AS REFLEXÕES E RECOMENDAÇÕES DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA

Criticas a Igreja

Criticando a comodidade dos sacerdotes, Francisco afirma que a passividade é fruto do “pragmatismo cinza da vida cotidiana da Igreja, em que aparentemente tudo prossegue normalmente, mas na realidade a fé está se deteriorando e degenerando em mesquinhez”. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

17/10/2013

às 14:00 \ Tema Livre

INCRÍVEL ENTREVISTA COM O PAPA: Ele diz ser “um pecador”, ter sido “autoritário” e admite dúvidas sobre Deus. Incrível!

O CAMINHO DA VERDADE --  “É necessário ser humilde. A atitude correta é a agostiniana: procurar Deus para encontrá-lo e encontrá-lo para procurá-lo sempre”

O CAMINHO DA VERDADE — “É necessário ser humilde. A atitude correta é a agostiniana: procurar Deus para encontrá-lo e encontrá-lo para procurá-lo sempre” (Foto: AP)

Reportagem de Adriana Dias Lopes, publicada em edição impressa de VEJA

O PAPA SEM SEGREDOS

Francisco não mexerá nas doutrinas da Igreja Católica. Mas numa entrevista histórica e reveladora concedida a um padre jesuíta como ele, a um só tempo erudita e simples, mostra que há uma enorme mudança de tom na Santa Sé em busca dos fiéis que perdeu com o tempo

La Civiltà Cattolica

La Civiltà Cattolica

 

Francisco é um papa falante. Ouvi-lo ajuda a entender os caminhos da Igreja Católica. A mais recente edição da revista italiana La Civiltà Cattolica, editada pelos jesuítas, e que só vai às bancas depois da aprovação da Secretaria de Estado da Santa Sé, publicou uma longa – e desde já histórica – entrevista com o primeiro pontífice filho da Companhia de Jesus.

Conduzida pelo diretor da publicação, o padre italiano Antonio Spadaro, de 47 anos, ela revela uma estrutura de pensamento erudita e simples ao mesmo tempo. Ao longo da conversa com Spadaro, Francisco deteve-se detalhadamente em assuntos teológicos e eclesiásticos.

Falou de forma profunda e delicada de fé, confissão, oração e da estrutura burocrática dentro dos muros do Vaticano. É possível antever em suas palavras o modo como Francisco pretende implantar a reforma na Cúria. Serão mudanças lentas, mas profundas.

O papa também voltou aos assuntos práticos e espinhosos abordados anteriormente, como as questões relativas ao aborto e a aceitação de homossexuais na Igreja, temas que repercutiram à exaustão em jornais e televisões de todo o mundo. O encontro com Spadaro ocorreu em três etapas, em agosto, sempre na Casa Santa Marta, no Vaticano, onde o papa mora.

O padre jesuíta descreve o lugar como simples e austero – poucos livros, poucos papéis, poucos objetos. Spadaro, o interlocutor de Francisco, é cogitado para substituir o poderoso Federico Lombardi, o atual porta-voz do Vaticano e diretor da Rádio Vaticano.

UM AUTORRETRATO SINCERO

“Sou um pecador. E não é modo de dizer, um gênero literário. Sim, talvez possa dizer que sou um pouco astuto, sei me adaptar às circunstâncias. Sou também um pouco ingênuo. Mas a melhor síntese, aquela que me vem mais de dentro e que sinto mais verdadeira, é exatamente esta: sou um pecador para quem o Senhor olhou.

“Quando vinha a Roma, visitava a Igreja de São Luís dos Franceses com muita frequência. Lá, contemplava o quadro Vocação de São Mateus, de Caravaggio. Aquele dedo de Jesus assim dirigido para Mateus. Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus. Este sou eu: um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar”.

 

VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS -- (1599-1600), DE CARAVAGGIO “Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus (...) Um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar”

VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS — (1599-1600), DE CARAVAGGIO “Assim sou eu. Assim me sinto. Como Mateus (…) Um pecador para o qual o Senhor voltou o seu olhar”

 

O ESTILO DA COMPANHIA DE JESUS

“Na Companhia de Jesus, três coisas me marcaram: o espírito missionário, a comunidade e a disciplina. Isso é curioso porque eu sou um indisciplinado nato. Mas a disciplina deles e o modo de organizar o tempo me marcaram muito.

“Outro ponto para mim fundamental é a comunidade. Não me via como um padre sozinho. E assim se entende por que estou aqui em Santa Marta. O apartamento pontifício no Palácio Apostólico não é luxuoso. É antigo, grande e de bom gosto. Mas nele se entra como em um funil ao contrário. A entrada é verdadeiramente estreita. E eu, sem gente, não posso viver. Preciso viver minha vida junto dos outros.

“Para Santo Inácio (fundador da Companhia de Jesus, no século XVI), é possível ter grandes projetos e realizá-los agindo sobre pequenas coisas. Esse discernimento requer tempo. Muitos, por exemplo, pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento.

“O discernimento, por sua vez, estimula a fazer depressa aquilo que inicialmente se pensava fazer depois. E foi isso que também me aconteceu nestes meses. As minhas escolhas, mesmo aquelas ligadas à vida cotidiana, como usar um automóvel modesto, estão ligadas a um discernimento espiritual que responde a uma exigência que nasce das coisas, das pessoas, da leitura dos sinais dos tempos”.

O MODO AUTORITÁRIO DE GOVERNAR

“Na minha experiência como superior na Companhia de Jesus (na década de 70), nem sempre fiz as consultas necessárias. E isso não foi uma boa coisa. O meu governo como jesuíta tinha muitos defeitos no início. Estávamos num tempo difícil para a Companhia: uma geração inteira de jesuítas havia desaparecido. Eu era muito jovem.

“O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ultraconservador. Nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”.

O MODO DEMOCRÁTICO DE GOVERNAR

“Com o tempo, aprendi muitas coisas. Já como arcebispo de Buenos Aires, a cada quinze dias fazia uma reunião com os seis bispos auxiliares e, várias vezes por ano, com o Conselho Presbiteral. Isso me ajudou a tomar as melhores decisões. E agora escuto algumas pessoas que me dizem: ‘Não faça muitas consultas e decida’.

“Mas a consulta é fundamental. Os consistórios e os sínodos são lugares importantes para tornar essa consulta verdadeira e ativa. É necessário torná-los, no entanto, menos rígidos. Quero consultas reais, não formais. A consulta a oito cardeais não é uma decisão simplesmente minha, mas é fruto da vontade do cardinalato, tal como foi expressa nas congregações-gerais antes do conclave. Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis.

“Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se ele tem o colesterol ou o açúcar alto. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de todo o resto. E é necessário começar de baixo. A Igreja, por vezes, encerrou-se em pequenos preceitos. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos. As reformas organizativas e estruturais vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de Estado”.

"Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos. As reformas organizativas e estruturais vêm depois" (Foto: Andrew Medichini / AP)

“Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos. As reformas organizativas e estruturais vêm depois” (Foto: Andrew Medichini / AP)

A HOMOSSEXUALIDADE E O ABORTO

“Em Buenos Aires, recebia cartas de pessoas homossexuais, que diziam sentir-se como se a Igreja sempre as tivesse condenado – por isso, chamo-as de ‘feridos sociais’. Mas a Igreja não quer fazer isso. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro, disse que, se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la.

“A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, nos tornou livres. A ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Certa vez, alguém me perguntou, de modo provocativo, se eu aprovava a homossexualidade. Respondi com outra pergunta: ‘Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a?’.

“Na vida, Deus acompanha as pessoas, e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. Essa também é a grandeza da confissão. O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos.

“Penso também na situação de uma mulher que carregou um matrimônio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois essa mulher voltou a se casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito, e ela está sinceramente arrependida.

“O que faz o confessor? Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e ao uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível. Eu não falei muito dessas coisas, e censuraram-me por isso. Mas, quando se fala disso, é necessário falar num contexto.

“De resto, o parecer da Igreja é conhecido, e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente. A proposta evangélica deve ser simples, profunda, irradiante. É dessa proposta que vêm as consequências morais”.

AS DÚVIDAS DE FÉ

“A procura por Deus é sempre acompanhada por incertezas. Tem de ser assim. Se uma pessoa diz ter certeza total de que encontrou Deus, alguma coisa não está bem. Se alguém tem resposta para todas as perguntas, essa é a prova de que Deus não está com ele. É um falso profeta.

“Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. É necessário ser humilde. A atitude correta é a agostiniana: procurar Deus para encontrá-lo e encontrá-lo para procurá-lo sempre”.

DISCERNIMENTO -- “Para Santo Inácio, é possível ter grandes projetos e realizá-los agindo sobre pequenas coisas. Este discernimento requer tempo”

DISCERNIMENTO — “Para Santo Inácio, é possível ter grandes projetos e realizá-los agindo sobre pequenas coisas. Este discernimento requer tempo” (Imagem: Bettimann / Corbis / Latinstock)

UMA VIDA DE ORAÇÕES

“Rezo o Ofício (livro de orações da Igreja) todas as manhãs. Gosto de rezar com os Salmos (livro da Bíblia). Depois, celebro a missa. Rezo o rosário. Entre 7 e 8 da noite, estou diante do Santíssimo (hóstia consagrada) durante uma hora, em adoração. Mas também rezo mentalmente quando espero no dentista ou em outros momentos do dia”.

10/08/2013

às 15:00 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: Ante uma igreja católica do “proibir, proibir, proibir”, que tal o Sermão da Montanha?

"O sermão da montanha", quadro do pintor dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834-1890)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

PENSAMENTO SIMPLES

O papa Francisco foi-se embora do Brasil, levando consigo a sensacional simpatia que promete fazer dele uma estrela internacional. Deixou para trás aquele sorriso capaz de desmanchar uma pedreira de granito, e lembranças que muita gente guardará para o resto da vida.

O mais importante para o futuro, porém, são as primeiras pistas que Francisco foi colocando aqui e ali, muito discretamente, sobre suas ideias gerais a respeito de como enfrentar a ameaça mais perigosa que a Igreja Católica tem pela frente hoje: a perda lenta, gradual e segura de fiéis pelo mundo afora, cada vez mais desinteressados em questões de fé religiosa como um todo, e da fé cristã em particular.

Essa vazante é mundial — inclusive no Brasil, o país que a tradição diz ser o mais católico do mundo. Ano após ano, a Igreja de Roma vem perdendo fiéis brasileiros para religiões concorrentes, como os chamados cultos evangélicos, ou para a indiferença de um público muito mais interessado nas coisas materiais, que podem ser compradas com dinheiro e consumidas de imediato, do que nas coisas do espírito.

Os seminários andam com taxas de ocupação abaixo do necessário, e em alguns dos países mais católicos da Europa já começa a haver mais igrejas do que padres.

Francisco, em sua visita ao Brasil, não tem uma solução clara para isso, nem para o caminhão de outros problemas que a Igreja Católica carrega hoje nas costas — da pedofilia, que leva cada vez mais famílias a não colocar seus filhos em colégio de padre, à corrupção vulgar de qualquer república bananeira.

Nem Jesus Cristo em pessoa, se pudesse descer hoje à terra, conseguiria destrinchar a horrorosa variedade de estorvos que seus pastores foram criando ao longo de vinte séculos — não nos sete dias que Deus precisou para construir o mundo. O que pode fazer, diante disso tudo, um homem só, por mais papa e mais infalível que seja?

Pode, para começo de conversa, mostrar uma qualidade preciosa em situações como essa: a capacidade de encarar situações complicadas com pensamentos simples. O papa Francisco parece capaz de fazer isso.

“Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse Francisco pouco depois de deixar o Brasil. Ele reclamou, é verdade, dos grupos gays que se formam para influir no Vaticano. Mas o que vale, mesmo, é a essência de sua convicção: sim, afirmou o papa, a pessoa pode ser gay e cristã ao mesmo tempo.

Por que não?

É o contrário do que sustenta há séculos a doutrina da Igreja, numa resistência teimosa, mesquinha e inútil à liberdade de costumes no mundo de hoje. Mas Francisco parece estar avisando que não pretende rezar exatamente por esse catecismo — e que não considera inteligente estreitar a porta de entrada na Igreja num momento em que o catolicismo perde um número cada vez maior de seguidores.

Não parece fazer muito sentido, de fato, ficar com tanto enjoamento, numa hora dessas, para dizer quem está ou não qualificado para ser católico.

Pelos critérios vigentes, um católico não pode ser gay, nem divorciado, nem casado com uma segunda mulher.

Não pode usar camisinha.

Não pode casar se quiser ser padre, e tem de casar se quiser viver com uma pessoa de outro sexo.

Não pode aceitar o aborto, trabalhar em pesquisas com células-tronco ou descrer de milagres e de outras coisas que ofendem a lógica mais elementar.

Não pode achar que o homem vem do macaco, nem que as espécies evoluem e se transformam com o passar do tempo.

Não pode isso, não pode aquilo — são exigências demais.

Pior: todas essas exigências não têm absolutamente nada a ver com nenhum valor moral.

Uma pessoa pode levar uma vida perfeitamente exemplar, do ponto de vista moral, e ser divorciada, por exemplo. Por que, então, deveria estar excluída do catolicismo?

Eis aí o desafio real para a Igreja Católica de hoje: aceitar como cristã toda pessoa que viva com decência, tenha valores e se comporte segundo um código moral.

Está tudo explicado no Sermão da Montanha, o texto mais importante do Evangelho e o primeiro guia de conduta apresentado à humanidade, junto com os Dez Mandamentos; é nele que Cristo ensina que o homem tem de ser honesto, tolerante e generoso, tem de dizer a verdade, saber perdoar e buscar a justiça, viver em paz e amar o próximo.

Basta fazer o que está escrito lá — o que, por sinal, é muito difícil. Lembrar o Sermão da Montanha, que a Igreja jamais seguiu, poderia ser um bom começo para salvar o catolicismo no século XXI.

07/07/2013

às 16:00 \ Vasto Mundo

EUA: Nesta vitória jurídica dos gays, o peso de um ministro da Suprema Corte

CELEBRAÇÃO --  Gays festejam decisão da corte: agora, com direitos iguais aos de casais heterossexuais (Foto: Jim Wilson / The New York Times)

CELEBRAÇÃO -- Gays festejam decisão da corte: agora, com direitos iguais aos de casais heterossexuais (Foto: Jim Wilson / The New York Times)

Reportagem de André Petry, de Nova York, publicada em edição impressa de VEJA

VITÓRIA DOS GAYS

Como um juiz conservador, mas inimigo da rigidez ideológica, põe a Suprema Corte em sintonia com pleitos progressistas dos americanos, como o casamento homossexual

Mesmo os militantes mais otimistas do movimento gay americano tinham dúvidas sobre o caminho que a Suprema Corte tomaria no julgamento da constitucionalidade da chamada Doma, a sigla em inglês da Lei em Defesa do Casamento. Ao definir que matrimônio é o laço que une um homem e uma mulher, a lei impedia que casais gays tivessem acesso a uma série de benefícios federais, como receber a herança do parceiro sem pagar tributos ou fazer declaração de renda conjunta.

Por 5 votos a 4, os juízes decidiram que a Doma, no que se refere à discriminação aos gays, é inconstitucional. A decisão não legaliza o casamento homossexual. Diz apenas que homossexuais legalmente casados nos estados em que esse tipo de união é permitido agora têm direito aos mesmos benefícios federais que casais heterossexuais.

Edith Windsor, a senhora de 84 anos que questionou a Doma depois que sua parceira de quatro décadas morreu e o Fisco americano lhe deu uma mordida de 360.000 dólares pela herança, festejou a vitória: “Hoje, nosso país nos deu dignidade”. Deu-lhe também 360.000 dólares de volta.
A Suprema Corte tem quatro juízes conservadores, quatro juízes progressistas e o juiz Anthony Kennedy, que também é conservador mas não é um fóssil ideológico.

O quinto voto que derrubou a Doma foi dele. Ele mesmo leu a decisão majoritária no plenário da corte, e o fez num tom solene. Disse que o espírito da Doma era prejudicar gays e lésbicas, bem como suas famílias, humilhando “dezenas de milhares de crianças que são hoje criadas por casais do mesmo sexo”.

FIEL DA BALANÇA --  Kennedy: entre os Montecchios e os Capuletos (Foto: Rich Pedroncelli / AP)

FIEL DA BALANÇA -- Kennedy: entre os Montecchios e os Capuletos (Foto: Rich Pedroncelli / AP)

Kennedy fará 77 anos no fim de julho trabalhando, pois não existe aposentadoria compulsória na corte americana. Ele teve um  escritório privado de advocacia, que herdou do pai, em Sacramento, na Califórnia, e deu aula de direito constitucional. Virou juiz da Suprema Corte graças a um conservador feroz cuja indicação foi rejeitada pelo Senado e a outro que se retirou da disputa porque não fumou maconha só na juventude.

Indicado por Ronald Reagan, que conheceu quando o ex-ator era governador da Califórnia, Kennedy passou seus primeiros anos enfileirando votos conservadores. No começo dos anos 90, a coisa começou a mudar. Num caso, decidiu contra a reza nas escolas públicas, afastando-se da bancada conservadora da corte. Noutro, movendo-se na mesma direção, reforçou o direito ao aborto. Entre os quatro Montecchios e os quatro Capuletos da Suprema Corte, Kennedy tornou-se o príncipe de Verona.

Aos poucos, Kennedy virou o que é hoje: o árbitro das grandes questões do mundo jurídico dos Estados Unidos. Para onde ele se inclina, inclina-se a maioria. Desde 2005, das 31 ocasiões em que a Corte aprovou decisões defendidas pelos juízes progressistas, Kennedy foi o fiel da balança em 26 vezes. Entre essas decisões, estão pontos relevantes, como limitações à pena de morte no Texas ou à manutenção de detentos no complexo penal da Baía de Guantánamo, em Cuba.

Kennedy mora numa casa modesta, dirige o próprio carro e nunca, sob hipótese alguma, mesmo quando está dirigindo para o trabalho nas desertas ruas de Washington às 6 da manhã, fura um sinal vermelho. Ele não gosta de ser chamado de fiel da balança, talvez porque a expressão
em inglês carregue um tom levemente pejorativo — “o voto que balança”.

Quando examina um caso, reúne os assessores no seu gabinete, numa mesa à janela, e os bombardeia de perguntas. Quer sempre ouvir o melhor
argumento a favor e o melhor argumento contra. O ritual se prolonga por dias, semanas, e os assessores raramente sabem para onde seu voto está indo.

Já se discutiu se faz bem à democracia americana que um único juiz tenha o poder quase majestático de ser o voto decisivo sobre as grandes questões da sociedade americana. O fato é que a liberdade intelectual de Kennedy só virou um item tão decisivo devido à rigidez ideológica dos demais.

30/06/2013

às 12:20 \ Disseram

Wendy Davis, senadora do Texas — tudo pela causa

“Minhas costas doem. Não me sobraram muitas palavras”

Wendy Davis, senadora do Texas, que fez um discurso de quase onze horas, de pé, sem beber água e sem pausa para ir ao banheiro, para impedir que a votação de uma lei que proibiria o aborto no estado ocorresse dentro do prazo. A estratégia deu certo

18/03/2013

às 17:35 \ Tema Livre

Elio Gaspari — Façam uma caridade para o papa Francisco: leiam seu livro

A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além (Foto: Reuters)

Elio Gaspari, depois de ler o livro do novo papa: "Ele é tudo menos um clérigo conservador" (Foto: Reuters)

Da coluna dominical de Elio Gaspari, no jornal O Globo

UMA CARIDADE PARA FRANCISCO, LEIA SEU LIVRO

O papa Francisco precisa de uma ajuda. Leiam seu livro Sobre el Cielo y la Tierra. (O e-book está à venda na Amazon americana por US$ 6,99, mas, por arte de Asmodeu, está fora da loja eletrônica brasileira.) Tem 215 páginas e saiu no início do ano passado.

Trata-se de um longo diálogo com o rabino Abraham Skorka. Coisa inteligentíssima. É impossível lê-lo e sair por aí repetindo rótulos tais como “conservador” ou “homem simples” porque anda de ônibus. A simplicidade do cardeal Bergoglio vai muito além.

Ele vê o catolicismo como algo despojado: “Bispos e padres têm que sujar os pés de barro”. Uma das suas mais duras críticas (depois das lambadas nos ladrões-milionários) vai para os meios de comunicação que simplificam as agendas, tornando-as irrelevantes ou insolúveis: “Desinformam”.

A capa de "Sobre el Cielo y la Tierra". A editora Sudamericana, com grande agilidade, já lançou nova edição com foto de Bergoglio na capa já como pontífice

Até a noite de quarta feira o signatário não sabia quem era ele. No dia seguinte, não encontrou um só bergogliólogo que mostrasse ter lido o livro de Francisco. Ele é tudo menos um clérigo conservador. (Segundo o fidedigno jornalista Horácio Verbitsky, há 30 anos ele deu uma mãozinha à ditadura, numa época em que a hierarquia católica estava casada com os generais. Bergoglio admitiu que foram cometidos erros genéricos, mas não assumiu responsabilidade pessoal.)

[Observação minha: acredito mais, no caso, no Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, campeão dos direitos humanos na Argentina, que nega peremptoriamente ter sido Bergoglio "cúmplice da ditadura", acrescentando a ressalva: "Mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis."]

Pode ser conservador um cardeal que quer abrir os arquivos do Vaticano para que se estude o Holocausto? Ele é contra o casamento de homossexuais e o aborto, mas isso não é conservadorismo, é a doutrina da igreja. Pílula? Astuciosamente calado. Em diversas ocasiões critica a conduta da igreja, seu regalismo e a promiscuidade com afortunados que fingem fazer caridade. Propõe tolerância zero para os pedófilos e chama o velho truque de transferi-los para outras paróquias de “estupidez”.

O papa Francisco é um jesuíta severo. Diz que senhoras emperiquitadas, “vestidas, ou desvestidas”, em casamentos não vão às igrejas para um ato religioso, mas para exibirem-se. Tabela de preços para cerimônias? “Isso é fazer comércio com o culto.” Ao mesmo tempo, reconhece que casais morando juntos antes do matrimônio são um “fato antropológico”.

Francisco tem um “alertômetro”. Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.

O livro é muito melhor que este breve resumo. Quem lê-lo viverá umas boas duas horas. Não pode ser conservador (seja lá o que isso significa) uma pessoa que diz o seguinte:

“O religioso às vezes chama atenção sobre certos pontos da vida privada ou pública porque é o condutor da paróquia. Ele não tem direito de se meter na vida privada dos outros. Se Deus, na criação, correu o risco de nos tornar livres, quem sou eu para me meter?”

16/03/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Neil Ferreira: Chico Primeiro é tão gracinha que nem parece hermano

"Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI: captei sua mensagem e votei no africano". Na foto, Cardeal Turkson (Foto: EFE)

"Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI: captei sua mensagem e votei no africano". Na foto, o cardeal Turkson, de Gana (Foto: EFE)

Por Cardeal Neil Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

CHICO PRIMEIRO É TÃO GRACINHA QUE NEM PARECE HERMANO

Não votei nele, mas gostei. Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI, na homilia em que sugeriu à Igreja a penitência pelos pecados, a renovação, a transparência e a abertura de um diálogo mais amplo com a sociedade. Captei a mensagem e votei no africano, que poderia ser um sopro de oxigênio para o Vaticano, assim como o Joaquinzão Barbosa foi para a Justiça brasileira.

Eu queria um Joaquinzão Barbosa; seria uma tremenda tacada de marketing, que viraria a Igreja de cabeça pra baixo sem que ela se deslocasse um milímetro sequer de onde sempre esteve.

Como Minas, estaria e ficaria onde estava, sem nunca dali arredar o pé por nada deste mundo. Como Lampedusa escreveu em “O Gatopardo”, é necessário mudar muito para ficar no mesmo lugar.

Um novo Papa tipo Joaquinzão Barobosa, seria uma chacoalhada na opinião pública. Despertaria em alguns setores do clero tipo linha Frei Betto, nosso Demônio de porta de igreja, esperanças de desvio a bombordo — fim do celibato dos padres, aceitação do aborto e do casamento gay. Sem chance.

Ser concedida a uma mulher a possibilidade de ser a Segunda Papisa, nem pensar, em que pese o poder atribuído à Merkel, Hillary, Michelle, La Kirchner, La Roussef e La Bundchen, não nesta Eternidade, quem sabe em outras, pouco mais distantes.

Em nenhuma das 115 cabeças dos cardeais eleitores, entre as quais incluo a minha, jamais passou um fiapo de intenção de mexer numa política, sim é política, que vem sendo testada há apenas 20 séculos e já tem alguém aí com a ideia de jerico de mudar tudo.

A foto do “Osservatore Romano” publicada na nossa imprensa, dos cardeais milimetricamente alinhados, como batalhões do exército da Coréia do Norte no funeral do seu líder, sob o teto sem igual no mundo da Capela Sistina, congelou o que parece congelado há 2 mil anos.

Quem observa nota que nada há de congelado, o que há lá nunca parou de se mover, para frente, para trás, para os lados, para cima, nunca para baixo, embora tenha sofrido baixíssimos baixos, de onde se recupera.

Aí, a fumacinha preta. Um ohhh e um frisson, no Mundo. Aí, a fumacinha branca. Um ohhh e um frisson no Universo. Numa sociedade de ícones modernosos, permanecem os que tenho o desplante de chamar de clássicos: a Cruz de Cristo, a Estrela de Davi, a Suástica e a Foice e o Martelo. Não me envergonho de acrescentar as fumacinhas preta e a branca.

(Uma parte mais desavergonhada do meu ser atreve-se a acrescentar, entre parênteses e a sottovoce, a maçã mordida da Apple. Corro o risco de Bill Gates me dedurar a Deus que coloquei aqui o fruto proibido. Para Gates, seguidor fiel das Escrituras, a maçã mordida é e sempre será o fruto proibido).

Aí, o grand finale. As luzes da sacada acesas, abrem-se as cortinas do espetáculo (lembra do cara que narrava futebol como enorme dramaticidade?), aparece lá um dos meus colegas, acho que o mais velhinho, são tantos os mais velhinhos que nem sei mais quem é qual e com sua voz trêmula quase d’além túmulo, fala de maneira quase incompreensível “Habemus Papam” e em seguida pronuncia um nome com sobrenome italiano. Deu zebra ! O Papam é hermano.

É anunciado que ele escolheu o nome de Francisco, foi o que foi informado, assim mesmo, Francisco. Neste momento em que escrevo, há uma tremenda discussão teológica, feita na frente da tv, se ele é Francisco ou Francisco I. Nem eu, a bordo das minhas vestes cardinalícias, posso aconselhar uma saída para o impasse.

"A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do “Oscar”, dos playoffs da NBA e do Superbowl" (Foto: Giuseppe Cacace / AFP)

"A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do 'Oscar', dos playoffs da NBA e do Superbowl" (Foto da Praça de São Pedro lotada: AFP)

Mas eis que Francisco assume o seu cargo de pastor, humilde (nem parece argentino) pede que os fieis rezem por ele. A Praça de São Pedro, lotada, embandeirada, contei uma boa meia-dúzia de bandeiras brasileiras, orava, aplaudia, cantava.

Você pensa que os musicais e o showbizz são invenções da Broadway e do cinema de Hollywood; não são.

A invenção é da Igreja, que apresenta seu espetáculo e seus figurinos com tanta pompa e circunstância; os americanos são aprendizes esforçados, que contribuíram com o sentido de mídia.

Mas até nisso a Igreja aperta o cerco. A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do “Oscar”, dos playoffs da NBA e do Superbowl.

A do próximo Papa vai bater em todas essas e até na final da Champions League.

13/02/2013

às 15:00 \ Tema Livre

O NOVO PAPA: Cinco questões sérias que aguardam o sucessor de Bento XVI

Cardeais trocam comentários após o discurso em que o papa informou sobre sua renúncia: quem assumir herdará uma vasta agenda (Foto: L'Osservatore Romano)

Do jornal O Globo

Confira os assuntos que emergiram no pontificado de Joseph Ratzinger e que precisarão ser debatidos pelo próximo papa

 

USO DA CAMISINHA 

Em uma ruptura com seu pensamento geralmente conservador [e numa declaração próxima ao espantoso diante do que tem sido há décadas um tabu dentro da igreja católica], o papa Bento XVI disse, durante uma longa entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald, em novembro de 2010, que o uso de camisinhas era aceitável em “certos casos”.

“Se for um prostituto, usando um preservativo para reduzir o risco de infecção por HIV, esse pode ser um primeiro passo no sentido da moralização, um primeiro ato de responsabilidade, no caminho para a recuperação de uma consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer o que se quer”, disse o papa.

O pontífice, porém, não fez menção ao controle de natalidade nem ao uso de preservativos em relações heterossexuais. O próprio Vaticano afirmou, mais tarde, que as declarações do papa não representavam uma mudança na visão da igreja sobre o assunto e que, de forma alguma, Bento XVI estava estimulando um comportamento “amoral”, mas considerando que o uso de preservativos para reduzir o risco de infecção é um “primeiro passo na estrada para uma sexualidade mais humana”.

Antes disso, em 2009, o papa levantou polêmica ao dizer que a maré crescente de HIV na África poderia ser ainda pior — não melhor — com a distribuição de preservativos. A afirmação foi feita na presença de jornalistas, durante a primeira visita de Bento XVI à África, onde ocorre a maioria das mortes por HIV no mundo. Caberá ao seu sucessor decidir se essa continuará sendo a posição da igreja.

ABUSO SEXUAL DENTRO DA IGREJA 

O papado de Bento XVI foi abalado, em 2010, por terríveis casos de pedofilia e abuso sexual envolvendo padres das igrejas da Irlanda, Alemanha, Áustria, Bélgica e Estados Unidos. O escândalo respingou no Papa, que chegou a ser acusado de ter “encoberto” os padres pedófilos durante seu tempo como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.

Após classificar os escândalos como “fofocas mesquinhas”, o papa acabou por reconhecer que sente “vergonha” da igreja pelos “crimes abomináveis​​” cometidos por padres pedófilos. Também pediu desculpas às vítimas.

Em maio do ano passado, o Vaticano revelou que estava investigando denúncias de abuso sexual a menores relacionadas a sete sacerdotes da congregação Legionários de Cristo.

O papa Bento XVI foi forçado a demitir vários bispos e ainda ordenou a limpeza da irmandade dos Legionários de Cristo, depois de confirmar que seu fundador, o padre mexicano Marcial Maciel, falecido em 2008, abusou sexualmente de seminaristas e teve filhos com diversas mulheres.

Muitos críticos da Igreja Católica, porém, apontaram que o Vaticano seria muito lento e muito sigiloso na hora de reconhecer e investigar o abuso sexual.

HOMOSSEXUALIDADE 

No início de seu pontificado, Bento XVI condenou a violência física e verbal contra os gays, acrescentando que tais atitudes deveriam ser condenadas pelos pastores das igrejas locais, em aparente sinal de renovação do pensamento religioso.

À ocasião, o papa fez questão de ressaltar que a condenação de atos de agressão não mudariam a opinião da igreja quanto ao casamento gay ou a homossexualidade.

Em dezembro de 2012, o Vaticano insistiu que as crianças devem ser criadas por um pai e uma mãe, após a Suprema Corte italiana ter entregado a custódia de uma criança a sua mãe homossexual.

Em sua mensagem de Natal, o papa ainda reforçou que atitudes modernas em relação à sexualidade e manobras para promover o casamento homossexual constituem um ataque “à verdadeira estrutura da família, composta por pai, mãe e filho”.

ABORTO 

A posição anti-aborto do Vaticano só foi reforçada durante o papado de Bento XVI.

Um dos sinais foi dado em 2010, quando o papa nomeou o cardeal canadense Marc Ouellet, conhecido por sua posição firme contra o aborto, como chefe da Congregação para os Bispos. A posição é considerada como o terceiro cargo mais importante do Vaticano, já que seu titular é responsável pela elaboração de listas de futuros bispos.

O cardeal Marc Ouellet, que, hoje, é dos candidatos favoritos ao papado, considera o aborto como “um crime moral”, inclusive em casos de estupro.

O LUGAR DA MULHER NA IGREJA 

O papa abordou a questão do lugar da mulher na igreja durante um discurso em Roma, em 2007, dizendo: “Jesus escolheu 12 homens como pais da nova Israel, para estar com Ele e para disseminar a mensagem, mas entre os discípulos, muitas mulheres também foram escolhidas. Elas desempenharam um papel ativo na missão de Jesus”.

Porém, em abril do ano passado, Bento XVI reprimiu os católicos “desobedientes” que desafiam a doutrina da Igreja na ordenação de mulheres ou na questão do celibato sacerdotal.

“É desobediência um caminho de renovação para a igreja?” , perguntou retoricamente o papa, durante um sermão na praça de São Pedro, no dia em que padres ao redor do mundo renovavam seus votos.

Ele salientou que a proibição de ordenar mulheres era “definitiva” e que o embargo fazia parte da “constituição divina” da igreja.

 

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