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Dilma e Merkel têm seu dia de UFC em Hannover

Em feira alemã, líderes trocam farpas sobre a questão cambial e a política industrial protecionista do Brasil

Ao discursar na abertura da Feira Internacional das Tecnologias da Informação e das Comunicações, a Cebit, em Hannover, na Alemanha, a chanceler Angela Merkel não economizou alfinetadas ao governo brasileiro, após ter sido alvo da artilharia da presidente Dilma Rousseff, no início da manhã. Dilma abriu a feira alemã discursando antes mesmo da própria chanceler e aproveitou para criticar os países da zona do euro pelo “tsunami monetário” – expressão utilizada pela presidente para quantificar o excesso de liquidez provocado pelos empréstimos do Banco Central Europeu (BCE) aos bancos dos países do bloco.

De maneira discreta, a chefe do governo alemão afirmou que, se o Brasil está preocupado com o câmbio, os países desenvolvidos estão preocupados com as medidas protecionistas tomadas pelo governo brasileiro, como o aumento de 30 pontos percentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis importados, ocorrido no segundo semestre de 2011.

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Dirigindo-se à presidente brasileira, Merkel declarou: “Discutiremos a crise e as preocupações que cada um tem. A presidente falou de um ‘tsunami de liquidez’ que a preocupa. Da nossa parte, olhamos para onde estão as medidas protecionistas”.

Segundo a chanceler alemã, é preciso criar regras que resultem em uma política orçamentária estável. “As consequências da crise internacional são consequências da crise do endividamento. Penso que a confiança é o caminho que devemos trilhar para sair da crise. Nós, europeus, estamos conscientes do fato de que temos que olhar além das nossas fronteiras”, declarou Merkel. Segundo ela, trata-se de uma “crise bem delicada”.

Dilma dispara críticas – A presidente Dilma Rousseff deu início a um discurso econômico crítico em relação à Europa no dia em que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou um novo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na compra de títulos no exterior com prazo inferior a três anos. Para o governo brasileiro, o excesso de liquidez provocado pelos empréstimos do BCE tem feito com que empresas brasileiras busquem capital no exterior, onde os juros estão baixos, fazendo com que a entrada de dólares no Brasil pressione o câmbio. Outra preocupação do governo é que o excesso de liquidez na Europa estimule os investimentos especulativos de estrangeiros no Brasil.

Em seu discurso, a presidente brasileira citou números do Banco de Compensações Internacionais (BIS), que mostram que foram despejados 8,8 trilhões de dólares em liquidez na economia mundial desde o início da crise. De acordo com ela, as medidas causam “desvalorização artificial” das moedas e “equivalem a barreiras tarifárias”, além de gerar bolhas e especulação. O assunto será tratado nesta segunda com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Dilma mostrou-se contrariada com os novos números divulgados pelo BIS e disse que não apenas o Brasil, mas todos os países emergentes, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o próprio BIS estão preocupados com a enxurrada de dinheiro novo no sistema financeiro. “O efeito é internacional, não nacional. Como o mundo é globalizado, quando há um nível de expansão desses, são produzidos dois efeitos: um é a desvalorização artificial da moeda. (…) O outro problema sério é que cria uma massa monetária que não vai para a economia real. O que se produz? Bolha, especulação”, protestou.

(Com agência France-Presse)