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José Mujica

27/03/2014

às 15:23 \ Política & Cia

Advertência do velho e sábio presidente do Uruguai: “A pior doença para um país é as pessoas não acreditarem mais em seu governo”

O presidente "Pepe" Mujica em sua modestíssima casa: "os políticos não são todos iguais, não" (Foto: EFE)

O presidente “Pepe” Mujica em sua modestíssima casa: “os políticos não são todos iguais, não” (Foto: EFE)

A revista semanal do jornal madrilenho El País encomendou ao grande escritor espanhol Juan José Millás, autor de três dezenas de romances, relatos e livros de reportagens, um longo perfil do presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica.

Sim, o ex-integrante do grupo terrorista-guerrilheiro Tupamaros que passou 15 anos na cadeia, sofreu as mais inimagináveis torturas — chegou a comer papel higiênico, sabão e moscas ao sentir-se morrer de fome em sua cela — e hoje, aos 80 anos, eleito por uma frente de partidos de esquerda, é um pacato chefe de governo sem ressentimentos contra ninguém, que dirige ele mesmo um fusquinha velho, mora em uma casa quase miserável de quatro cômodos numa chácara próxima a Montevidéu (que Millás visitou), doa 80% de seu salário a projetos sociais e abençoa os investimentos estrangeiros e a democracia liberal.

Ele concedeu, há tempos, uma entrevista às páginas amarelas de VEJA que desconcertou os “esquerdistas” brasileiros ao defender o enxugamento do funcionalismo público e outros itens supostamente “neoliberais” de governo.

Na revista de El País, já no final da reportagem, quando Millás e o presidente estão em Colonia del Sacramento, a cidade de onde se tomam os velozes aliscafos (espécie de ferry-boats que deslizam sobre grandes esquis) em direção a Buenos Aires, o escritor descreve a seguinte cena:

“Terminamos a tarde (…) tomando uma cerveja no terraço de uma cafeteria. A partir deste instante, Mujica se converte em propriedade da gente que se acerca dele, beija-o, toca-o, pergunta-lhe sobre Manuela (a cachorrinha do presidente que perdeu uma perna), pede-lhe que resolva isso e aquilo. Mujica pega o telefone e chama aqui e ali. Parece que levou seu gabinete para fora do palácio do governo. A mesa da cafeteria se converte em instantes numa mesa de despachos, onde o presidente toma nota de todos os pedidos”.

E aí vem a parte que considero mais importante e que justificou, para mim, este post. O que o presidente diz ao escritor:

– É muito importante dessacralizar a Presidência — dirá depois. — Isso tem um sentido político: acentuar o republicanismo. A distância dos políticos com as pessoas comuns está criando muito descrédito. E a pior doença [para um país] é as pessoas não acreditarem mais em seu governo. Quando as pessoas dizem: “são todos iguais”. Pois não, não são!

 

 

 

26/02/2014

às 15:00 \ Política & Cia

MARCUS GUEDES: A insanidade tributária no Brasil. Só de tributos, pagamos mais do que o PIB da Arábia Saudita, da Suécia…

Evolução da carga tributária (Charge: Jornal do Comércio)

Evolução da carga tributária (Charge: Jornal do Comércio)

Artigo do economista e professor universitário Marcus Guedes

INSANIDADE TRIBUTÁRIA

Estudos preliminares apontam que a carga tributária do Brasil, em 2013, atingiu a marca recordista dos 36,42% (em 1986, primeiro ano do governo Sarney, ela era de apenas 22,39%).

Cambiando pelo dólar de 31 de dezembro passado (US$ 1.00 = R$ 2,358), nós teremos fechado o PIB de 2013 em US$ 2,049 trilhões, com uma carga tributária equivalente a US$ 746,222 bilhões. Um número superlativo em termos de carga tributária!

EVOLUÇÃO DA CARGA TRIBUTÁRIA NO BRASIL

Evolução da carga tributária no Brasil (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Somos os campeões da tributação dentre os BRICS (Rússia, 23,00%; China, 20,00%, Índia, 13,00%; e, África do Sul, agora integrada ao grupo, com 18,00%). Se contarmos com o Brasil, a média da tributação no bloco fica em 22,08%. Se subtrairmos o Brasil do ranking, a média cai para 18,50%.

Na América Latina, só perdemos para a Argentina, ora vivendo uma forte crise econômica (que fechou com uma carga tributária de 37,30%, um pouco superior à nossa, de 36,42%). O Uruguai, que tem o terceiro maior nível de tributação, fechou com 26,30%; o México, com 19,60%, mesmo percentual da Colômbia. Na moribunda Venezuela, a carga chega a meros 13,70%; e, na Guatemala, temos a menor carga tributária, equivalente a 12,30%.

Carga tributária brasileira (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Carga tributária brasileira (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Talvez, o mais doloroso nesse confronto de números é constatar que somente 18 (dezoito) economias mundiais têm um Produto Interno Bruto (PIB) maior do que o montante de tributos que os brasileiros pagaram em 2013.

O valor dos tributos que recolhemos só é menor do que o PIB (pela ordem) de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, França, Brasil, Inglaterra, Itália, Rússia, Índia, Canadá, Austrália, Espanha, México, Coreia do Sul, Indonésia, Turquia e Holanda. As demais economias do mundo não produzem, individualmente, volume de riquezas suficiente para pagar os impostos brasileiros. Isso mesmo!

Carga tributária dos Brics (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Carga tributária dos Brics, em % (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Para que se tenha uma ideia do peso dessa insanidade tributária, a nossa carga de impostos é superior ao PIB de países como a Arábia Saudita (grande produtora de petróleo), Suíça, Suécia, Noruega, Áustria…

Nós pagamos duas vezes mais tributos do que o PIB de países como a Colômbia, Emirados Árabes Unidos, Dinamarca, Chile, Singapura, Hong Kong, Egito e Grécia.

Carga tributária dos países da América Latina, em % (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Carga tributária dos países da América Latina, em % (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

 

Produzimos três vezes mais impostos do que riquezas em países como a Finlândia, Israel, Portugal, Irlanda e Peru. Para chegar ao patamar do que pagamos de tributos, Vietnã, Iraque e Hungria terão de fazer crescer as suas riquezas em mais de cinco vezes.

Ah, não vamos infernizar a vida do presidente José (Pepe) Mujica, do Uruguai: para ter em seu país a produção de riquezas compatível com o nosso insano poder de tributar, ele terá de fazer crescer o PIB de sua economia quinze vezes mais do que os US$ 49,7 bilhões alcançados em 2013.

A fictícia Belíndia (nação com impostos da Bélgica e prestação de serviços da Índia que se assemelharia ao Brasil), criação primorosa do economista Edmar Bacha, avançou para pior: em 2013, a carga tributária brasileira equivaleu a uma vez e meia o PIB da Bélgica (cotado pelo FMI, para 2013, em US$ 476,8 bilhões).

Carga tributária Brasil X países escolhidos, em  US$ bilhões X PIB (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Carga tributária Brasil X países escolhidos, em US$ bilhões X PIB (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

 

Na verdade, pagamos muito para receber serviços públicos ainda piores, típicos de Bangladesh, Etiópia, Uganda ou Afeganistão.

Desde 1988 (advento da Constituição Cidadã) foram publicadas 4,7 milhões de normas legais voltadas ao ordenamento jurídico do País, nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal).

Dessas, 309.147 se referem à legislação tributária. Isso significa a emissão de 31 (trinta e uma) normas tributárias/dia ou 1,29 norma/hora!

Países com PIB maior do que a carga tributária brasileira, em  US$ bilhões (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

Países com PIB maior do que a carga tributária brasileira, em US$ bilhões (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)

 

Ou seja, vivemos num ambiente de insanidade legal que obriga o contribuinte brasileiro a trabalhar mais de quatro meses por ano somente para pagar tributos, sem merecer justa contrapartida de um estado que segue escandalosamente perdulário e submetido a uma gestão de botequim.

Diante disso, parece que “Basta!” soa cada vez mais como boa palavra de ordem.

Fontes: Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, Fundo Monetário Internacional e sites de diversas economias mundiais.

28/01/2014

às 15:15 \ Vasto Mundo

Secretária do presidente do Uruguai posa para fotos ousadas. Vejam também um vídeo dela

Fabiana Leis, a secretária do presidente (Foto: Juan Obregon)

Fabiana Leis, a secretária do presidente (Foto: Juan Obregon)

Nota de Juliana Linhares, publicada em edição impressa de VEJA

DEVE SER ALGUMA COISA NA ÁGUA

José Mujica reduzida Infolatam.com

Mujica (Foto: infolatam.com)

O presidente do Uruguai, José Mujica, 79 anos bem vividos, encarna à perfeição a imagem de tiozão excêntrico: mora em um sítio, dirige um Fusca, usa chinelão e, bobeou, arranca a dentadura em público.

De repente, aparece nesse quadro a perturbadora Fabiana Leis, 33. Funcionária contratada como secretária da Presidência, ela resolveu mostrar todo o seu potencial em fotos sensuais para uma revista.

Constrangimentos? Nada. Em 2010, Fabiana fez algo ainda mais ousado, numa folhinha de borracharia.

“Autografei umas 200. Só faltou o presidente ter uma”, diz ela. Bom para ambos.

A mulher de Mujica, a senadora Lucía Topolansky, foi da luta armada, ficou presa por treze anos e é conhecida como La Tronca.

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Ensaio na praia de El Pinar (Foto: Andrés Fernández)

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(Foto: Andrés Fernández)

Ensaio na praia de El Pinar (Foto: Andrés Fernández)

(Foto: Andrés Fernández)

(Foto: Alfredo Leirós / EFE)

Fabiana Leis, secretaria presidencial do Uruguai (Foto: Alfredo Leirós / EFE)

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(Foto: Andrés Fernández)

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20/04/2013

às 10:06 \ Disseram

Cristina Kirchner: “É cada panaca que fala ao microfone”

“É cada panaca que fala ao microfone”

Cristina Kirchner, presidente da Argentina, em recado ao colega uruguaio José Mujica, que no mês passado a chamou de velha, sem saber que a fala estava sendo transmitida ao vivo pela internet

07/04/2013

às 19:00 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Sobre “velhas”, “caolhos” e ofensas — ou não

A declaração foi infeliz, pois não se deve pegar pesado com uma senhora idosa (Foto: El Pais)

O chanceler argentino reclamou que Mujica (foto) ofendeu o falecido ex-presidente Néstor Kirchner -- mas se esqueceu de que ofensa, se houve, foi contra a viúva, a presidente Cristina Kirchner (Foto: El Pais)

Por Carlos Brickmann

OLHOS NOS OLHOS

Crise brava entre dois vizinhos: o presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, sem perceber que o microfone estava ligado, comentou, a respeito da presidente argentina Cristina Kirchner, que “essa velha é pior que o caolho”.

O caolho é o falecido presidente Néstor Kirchner, marido de Cristina.

E esta foi só a primeira falha diplomática.

Em seguida, o chanceler argentino, Hector Timmerman, partiu para nova gafe: considerou “inaceitável que comentários que ofendem a memória de uma pessoa falecida, que não pode replicar nem defender-se, tenham sido feitos por alguém a quem o dr. Kirchner considerava seu amigo”.

Só que Pepe Mujica não ofendeu a memória de ninguém: disse que Néstor Kirchner era caolho, e Néstor Kirchner era caolho mesmo. Caolho, no caso de Kirchner, não é ofensa, é descrição.

Mujica poderia ter dito que o ex-presidente argentino tinha olhos atraentes, já que um atraía o outro; ou que se esforçava tanto para abarcar a realidade que cada olho buscava uma ponta do cenário. Mas preferiu a linguagem coloquial, embora absolutamente precisa. Teria sido indelicado, havemos de convir, se o chamasse de “aquele vesguinho”.

Já a terceira falha diplomática não tem perdão – nem do lado argentino, nem do lado uruguaio. O chanceler argentino reclamou apenas das referências a Néstor Kirchner, esquecendo-se de que o alvo dos comentários de Mujica era a atual presidente, Cristina. Deveria tê-la defendido, claro.

E Mujica foi muito grosso: qualquer cavalheiro sabe que não se deve pegar pesado com uma senhora idosa.

Compromisso compromissado

Discurso da presidente Dilma Rousseff em Fortaleza, Ceará, sobre a prioridade à educação:

– Eu queria dizer para vocês, nesta noite, aqui no Ceará, em Fortaleza e nessa escola, o compromisso forte, o compromisso que é um compromisso que eu diria o maior compromisso do meu governo. Porque é que o compromisso com a educação tem que ser o maior compromisso de um governo.

Prioridade do compromisso

Tudo tem de ser feito degrau a degrau, etapa por etapa.

Por exemplo, antes de aprender a escrever, os estudantes têm de aprender a falar.

06/04/2013

às 19:00 \ Vasto Mundo

VÍDEO (para rir ou chorar): o presidente do Uruguai dizendo que a colega argentina Cristina Kirchner, “essa velha”, é “pior” do que “o vesgo” (o ex-presidente Néstor Kirchner)

O caso aconteceu na sexta-feira, rendeu um incidente diplomático entre o Uruguai e a Argentina, como já foi muito divulgado, mas vale a pena ver o pedaço do vídeo que deu origem a tudo.

Durante um encontro com Mario Pereyra, prefeito da cidade de Sarandi, no norte do Uruguai, próximo à fronteira com o Brasil, o presidente uruguaio José Mujica, sem saber que o microfone de gravação estava aberto, revelou-se o sujeito simples, direto e sem papas na língua que acabou conquistando os eleitores na disputa presidencial de 2009 no país — e atropelou as normas diplomáticas.

Referiu-se à presidente Cristina Kirchner como “a velha”e a seu marido e antecessor no cargo, o falecido Néstor Kirchner, como “o vesgo” (Kirchner era estrábico), opinou que Cristina é “pior” do que o marido e por aí vai.

Dependendo do ponto de vista de cada leitor, são declarações para rir, pela ironia e pelo fundo de verdade do que diz Mujica, ou de chorar, por se constatar o nível do “debate” entre vizinhos importantes.

Vejam o vídeo e, abaixo, a tradução do trecho que nele aparece:

O QUE DIZ MUJICA NO VÍDEO:

“… é que para conseguir alguma coisa na Argentina é preciso curvar-se um pouco ao Brasil. Essa velha é pior do que o vesgo. É pior se (incompreensível). O vesgo era mais político, essa é mais teimosa. Não sabe o que está fazendo (incompreensível) (…) Mas a um papa argentino que já tem 77 anos vai explicar o que é um mapa [referência às Ilhas Falkland/Malvinas, território britânico reivindicado pela Argentina]. O que é um mate [referência ao chimarrão, hábito nacional argentino e de boa parte do sul da América do Sul]… uma garrafa térmica [para a água quente destinada a preparar o chimarrão]…

 

06/04/2013

às 11:07 \ Disseram

“A velha é pior que o vesgo”

“A velha é pior que o vesgo”

José Mujica, presidente do Uruguai, comparando a colega Cristina Kirchner a Néstor, seu marido e antecessor no governo da Argentina. Mujica não se deu conta que o microfone estava ligado durante uma entrevista coletiva

24/12/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

Acredite: o proprietário e motorista desse fusquinha é o presidente de um país — o Uruguai

Publicado originalmente em 18 de junho de 2012.

Amigos, diante de tantos exemplos de vidão à custa do dinheiro público que temos “neste país”, achei interessante o contraponto trazido pelo jornalista gaúcho Mario Marcos de Souza em seu blog, mostrando aquele que o jornal espanhol El Mundo considera “o presidente mais pobre do mundo” — José “Pepe” Mujica, chefe de governo do Uruguai desde março de 2010 e que permanecerá no poder até março de 2015.

Confiram. O título original é o que vai abaixo, os intertítulos e algumas considerações entre colchetes são de responsabilidade do blog:

Quem está a bordo deste fusquinha é o presidente de um país

O presidente do Uruguai, José Mujica, desce de seu Fusca, que vale mil dólares

Todos os dias ele embarca no seu Fusquinha azul de estimação, de 1.300 cilindradas (foto), e toma o rumo de seu pequeno sítio Rincón del Cerro, nos arredores de Montevidéu, onde vive com a mulher, senadora da República – que é a proprietária da área. A casa é discretamente vigiada por dois seguranças.

No fim do mês, quando recebe o salário de 12,5 mil dólares como presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica separa 1,25 mil [para si] e doa o restante, cerca de 90%, a pequenas empresas e Organizações Não-Governamentais que trabalham com habitações populares.

– Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com menos – costuma repetir este uruguaio de maneiras simples, 77 anos, que, em reportagem do jornal espanhol El Mundo, foi chamado de “o presidente mais pobre do mundo”.

Além de sua casa no pequeno sítio, seu único patrimômio é o Fusca avaliado em pouco mais de mil dólares.

Vida espantosamente simples

Como transporte oficial, em vez dos carrões com ar-condicionado dos demais presidentes, ele usa um Corsa. Sua mulher, a senadora Lúcia Topolansky, parceira de muitos anos, também doa boa parte de seu salário.

O presidente da República na casa em que vive, no sítio pertencente à mulher (Foto: estadao.com.br)

Mujica vive de forma espantosamente simples, apesar de presidir um dos países mais importantes da América do Sul, nunca usa gravata (é quase sempre uma camisa branca com casaco) e convive com os mesmos amigos de antes da eleição que o conduziu ao poder.

É capaz de pegar o Fusca, ir até uma loja de ferragem comprar um acessório de banheiro e, no caminho, parar em um pequeno estádio para animar os jogadores do Huracán, time da segunda divisão, e prometer um churrasco caso subam para a Série A.

Ele não tem dívidas nem conta em banco

Sem contas bancárias ou dívidas, de acordo com El Mundo, ele apenas repete que espera concluir seu mandato para um descanso sossegado no Rincón del Cerro.

A vida simples não é mera figuração ou tentativa de construir uma imagem, seguindo orientações de um marqueteiro. Não, ela faz parte da própria formação de Mujica, um homem que lutou contra a ditadura, foi preso e, ao lado de dezenas de [guerrilheiros e terroristas] Tupamaros, participou de uma fuga cinematográfica da antiga prisão onde hoje está o Centro Comercial Punta Carretas, em Pocitos, lutou pela volta da democracia e hoje é presidente eleito do país.

Tudo isso sem abrir mão de suas convicções, em nenhum momento – a ponto de rejeitar a ideia de mudança de sua vida por ser o chefe de uma nação. [Mujica, que continua se considerando um político de esquerda, defende e pratica ideias que em outras latitudes são desprezadas "neoliberais". Em outubro de 2010, o presidente concedeu uma entrevista às Páginas Amarelas de VEJA em que expôs suas posições, muito distantes do marxismo que defendia nos tempos de juventude.

Uma de suas declarações fala por si: “A estatização é uma solução que foi abandonada. Trata-se de uma receita perfeita para desenvolver uma burocracia opressora. Continuo sendo socialista porque sou inimigo da exploração do homem pelo homem. Isso não inclui defender um Estado grande e um funcionalismo público inchado. Seria um desastre”.

Quanto a querer controlar a imprensa, como ocorre com outros governos supostamente "progressistas" do continente, o presidente não poderia ser mais claro:

“Quando um governo se mostra mais tolerante à diversidade, acaba ajudando a formar uma imprensa respeitosa. Quando radicaliza nas suas políticas, no entanto, vai tudo pro diabo. (…) A melhor lei de imprensa que existe é a que não existe”.]

A residência presidencial já serviu de abrigo a uma moradora de rua e seu filho. O presidente prefere não morar na mansão (Foto: ultimahoradiario.com.ar)

No último dia 24 de maio, por ordem de Mujica, uma moradora de rua e seu filho foram instalados na residência presidencial, que ele não ocupa por seguir morando no sítio. Ela só saiu de lá quando surgiu vaga em uma instituição.

Neste início de inverno, a casa e o Palácio Suarez y Reyes, onde só acontecem reuniões de governo, foram disponibilizadas por Mujica para servir de abrigo a quem não tem um teto. Em julho do ano passado, decidiu vender a residência de veraneio do governo, em Punta del Este, por 2,7 milhões de dólares. O banco estatal República comprou e transformará a casa em local de escritórios e espaço cultural. Quando ao dinheiro, será inteiramente investido – por ordem de Mujica, claro – na construção de moradias populares, além de financiar uma escola agrária na própria região do balneário.

Nada de carros blindados

Ele nem se preocupa em reforçar seus esquemas de segurança e, ao circular no Fusca ou em um Corsa, claramente não está a bordo de veículos blindados.

Nem sei se é certo ou não alguém, no papel de um país, com toda a importância que o cargo tem e nestes tempos loucos ditados muitas vezes por fanatismo, levar a vida de uma pessoa comum.

Até acho que não. Afinal, um presidente não pode conduzir sua própria vida. Há milhões de pessoas que deram a ele o direito de dirigir um país e esperam não ver nada abalando esta tarefa – e é por isso que de Barack Obama, num extremo, a Dilma Rousseff, no outro, todos os presidentes são devidamente protegidos por fortes esquemas de segurança. Ao ser eleito, o escolhido faz uma espécie de renúncia pública de sua autonomia – e sabe que não terá mais tanta liberdade assim.

O que me causa profunda admiração no caso de Mujica, independentemente das razões destacadas acima, é ver alguém que se recusa a renunciar a suas próprias convicções, mesmo desafiando todas as regras do protocolo. Ele pensa nestes princípios, lutou a vida inteira por eles, arriscou sua segurança e de sua própria família, por que mudar logo agora?

Foi eleito por isso, certamente, por suas ideias e estilo de vida. Dane-se a liturgia do cargo, deve pensar este uruguaio. Para Mujica, ela não tem importância. O que importa, acima de tudo, é dormir com a consciência tranquila (…).

O mundo seria um lugar bem melhor e, com toda a certeza, muito mais pacífico se tivéssemos outros Mujicas conduzindo países por aí.

16/11/2012

às 19:45 \ Política & Cia

Maconha faz mal, sim. Quem afirma é a Medicina

Maconha faz mal sim

Reportagem de Adriana Dias Lopes, publicada na edição impressa de VEJA

 

MACONHA FAZ MAL, SIM

O atual liberalismo em torno do consumo da droga está em descompasso com as pesquisas médicas mais recentes. As sequelas cerebrais são duradouras, sobretudo quando o uso se dá na adolescência

Hoje ainda, até o fim do dia, 1 milhão de brasileiros terão fumado maconha. A maioria dessas pessoas está plenamente convencida de que a droga não faz mal. Elas conseguem trabalhar, estudar, namorar, dirigir, ler um livro, cuidar dos filhos…

A folha seca e as flores de Cannabis são consumidas agora com uma naturalidade tal que nem parece ser um comportamento definido como crime pela lei penal brasileira. O aroma penetrante inconfundível permeia o ar nas baladas, nas áreas de lazer dos condomínios fechados, nos carros, nas imediações das escolas.

A maconha, que em outros tempos já foi chamada de “erva maldita”, agora ganhou uma aura inocente de produto orgânico e muitos de seus usuários acendem os “baseados” como se isso fosse parte de um ritual de comunhão com a natureza, uma militância espiritual de sintonia com o cosmo.

Tolerância cada vez maior com o consumo

Há uma gigantesca onda de tolerância com esse vício. Nos Estados Unidos, dezessete Estados já regulamentaram seu uso medicinal. No dia 6 passado, os Estados de Washington e Colorado realizaram plebiscitos sobre a legalização e o eleitorado aprovou. No Uruguai, o presidente José Mujica pretende estatizar a produção e a distribuição da droga.

Em maio deste ano, no Brasil, sob o argumento do direito à liberdade de expressão, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a marcha da maconha – desde, é claro, que ela não fosse consumida pelos manifestantes.

Em um de seus shows, em janeiro, Rita Lee causou tumulto ao interromper a apresentação em Sergipe para interpelar os policiais que tentavam reprimir o fumacê na plateia: “Este show é meu. Não é de vocês. Por que isso? Não pode ser por causa de um baseadinho. Cadê um baseadinho pra eu fumar aqui?”.

Na contramão da liberalidade oficial, legal e até social com o uso da maconha, a ciência médica vem produzindo provas cada dia mais eloquentes de que a fumaça da maconha faz muito mal para a saúde do usuário crônico – quem fuma no mínimo um cigarro por semana durante um ano. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

10/08/2012

às 17:15 \ Política & Cia

Sai o Mercosul. Entra em cena o “mercochávez”. E logo vem aí a Bolívia do cocaleiro Evo Morales

QUARTETO  Chávez, Dilma, Mujica e Cristina na cerimônia de adesão da Venezuela ao Mercosul, em Brasília (Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)

QUARTETO -- Chávez, Dilma, Mujica e Cristina na cerimônia de adesão da Venezuela ao Mercosul, em Brasília (Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)

 

(Reportagem de Nathalia Watkins publicada na edição impressa de VEJA)

 

SAI O MERCOSUL. ENTRA EM CENA O “MERCOCHÁVEZ”

Brasil, Argentina e Uruguai suspenderam o Paraguai do bloco alegando desrespeito às regras. Mas isso é o que eles mais têm feito

 

Um dos conceitos basilares nas relações internacionais é o de boa-fé. Entende-se por isso a vontade de um governo de respeitar o que foi combinado com os outros. Sempre que um Estado subscreve um tratado, seja uma trégua, seja um acordo comercial, pressupõe-se que o seu interlocutor se esforçará para seguir à risca todos os artigos e cláusulas.

Tal virtude desapareceu do Mercosul, o bloco econômico regional criado em 1991 por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

O mais recente golpe na boa-fé se deu na terça-feira 31, quando uma reunião em Brasília entre os presidentes José Mujica, do Uruguai, Dilma Rousseff, do Brasil, e Cristina Kirchner, da Argentina, formalizou a adesão da Venezuela de Hugo Chávez, também presente, como membro pleno do Mercosul.

O ingresso da Venezuela violou descaradamente as regras inscritas nos documentos que criaram o bloco e que cimentaram suas bases institucionais, como o Tratado de Assunção, de 1991, e o Protocolo de Ouro Preto, de 1994. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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