Blogs e Colunistas

DNA

31/03/2013

às 15:00 \ Política & Cia

O governo paga bolsas para nossos cientistas se aperfeiçoarem nas melhores universidades do mundo. Na volta para casa, o de sempre: burocracia e falta de verbas

LONGA ESPERA -- Verjovski, no laboratório de pesquisas sobre câncer da USP: "Nossos estudos estão sempre defasados" (Foto: Egberto Nogueira)

LONGA ESPERA -- Verjovski, no laboratório de pesquisas sobre câncer da USP: "Nossos estudos estão sempre defasados" (Foto: Egberto Nogueira)

Reportagem de Nathália Butti publicada em edição impressa de VEJA

 

BEM PREPARADOS. E AGORA?

Cientistas que se aperfeiçoaram nas melhores universidades do mundo, patrocinados pelo governo, voltam para casa e deparam com o de sempre: burocracia e falta de verbas

Até 2015, 100000 estudantes brasileiros, patrocinados pelo governo federal, terão vivido a experiência de trabalhar lado a lado com os mais preeminentes cientistas do mundo, nas melhores universidades estrangeiras.

Esses jovens estão sendo garimpados entre os mais talentosos dos cursos de graduação ao pós-doutorado das universidades para fazer parte do Ciência sem Fronteiras, programa criado para preparar gente capaz de produzir conhecimento e inovação à altura dos melhores centros de pesquisa do mundo – e assim contribuir para reduzir o histórico atraso do Brasil nesse campo.

Desde 1951, quando o país passou a enviar alunos ao exterior, nunca se viu um plano tão ambicioso. Parte da primeira leva de quase 6000 bolsistas que embarcou para o exterior começa a voltar agora. E aqui começam os problemas.

Não se sabe como nem onde esses jovens cérebros – e tudo o que eles absorveram em sua temporada fora – serão aproveitados. Certo é que, como seus pares – mesmo aqueles que compõem a nata da academia -, eles terão de enfrentar obstáculos que há tempos vêm refreando os avanços científicos no país.

Um grupo de especialistas ouvidos por VEJA chama atenção para o fato de que o esforço e o dinheiro empreendidos pelo governo (o projeto deve consumir 3,4 bilhões até 2015) de pouco adiantarão se as cabeças em que ele investiu não tiverem o mínimo necessário para dar o desejado salto agora, na volta.

A maior dificuldade que espera os bolsistas é conseguir que, como eles, material e equipamentos também atravessem a nossa fronteira e cheguem aos lugares certos. “Esbarramos sempre em um problema burocrático recorrente. É preciso superá-lo de uma vez por todas para que possamos competir de igual para igual com as potências científicas do mundo”, reforça a bióloga Mayana Zatz, à frente do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo.

Desde 2010, ela e seu grupo tentam trazer da Índia para o Brasil moléculas de DNA que permitiriam aprofundar o conhecimento de uma rara doença degenerativa do sistema nervoso, ainda sem cura. Mas a remessa já foi e voltou duas vezes sem que a alfândega brasileira a liberasse nem tampouco desse explicação alguma a respeito. A importação de reagentes é outra epopeia: leva até quatro meses, enquanto nos países da OCDE o processo se conclui em, no máximo, uma semana. “Por causa disso, nossos estudos estão sempre defasados”, lamenta Sergio Verjovski, que lidera pesquisas sobre câncer no Instituto de Química da USP.

As ideias que circulam no meio acadêmico para avançar nessa área são simples. Sugere Mayana: “Nos Estados Unidos, o país mais inovador do mundo, há um canal especial para que pesquisadores e fornecedores de reagentes negociem diretamente, usando um cartão que autoriza as compras sem imposto nem burocracia. Não seria difícil adotar um sistema parecido aqui. O governo já tem todos os dados”.

Garantir o mínimo de condições para que a ciência evolua é apenas o ponto de partida para tornar o Brasil atraente para os melhores alunos. A experiência mostra que é preciso ir muito além. É fundamental dar incentivos concretos aos pesquisadores para que permaneçam no país, como fizeram China e Coreia do Sul.

Nos anos 1960, 97% dos cientistas coreanos formados em universidades americanas se recusavam a retornar à Coreia, destroçada pela guerra civil que havia se encerrado anos antes. O governo então investiu para trazê-los de volta, oferecendo-lhes altos salários e posições de prestígio nos centros de pesquisa e tecnologia que começavam a ser criados.

As grandes empresas também fizeram movimento semelhante. Funcionou. Em vinte anos, 70% dos que haviam debandado já faziam o motor da economia coreana girar.

Um programa com a dimensão do Ciência sem Fronteiras – que promete quadruplicar o número de bolsas no exterior – impõe desafios inéditos e complexos, que não podem ser enfrentados com improviso.

Apesar da magnitude do projeto, o quadro de funcionários do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por exemplo – as duas instituições encarregadas de selecionar os alunos, distribuir e monitorar as bolsas – continua inalterado.

Os labirintos da burocracia (Clique para aumentar a imagem)

Os labirintos da burocracia (Clique para aumentar a imagem)

Não é surpresa, portanto, que alguns estudantes tenham recebido o dinheiro da bolsa com atraso (problema já resolvido) e que outros se queixem de não conseguir obter informações básicas nesses órgãos (ainda uma dor de cabeça).

Outro sinal de que o programa saiu do forno sem estar completamente maduro: os acordos com as universidades que encabeçam o ranking mundial, como Harvard e Stanford, ainda não haviam sequer sido selados quando a presidente Dilma Rousseff rompeu a fita inaugural.

Só agora começam a ser firmados – e é essencial que sejam. Como lembra o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educação e articulista de VEJA: “Não se pode baixar a régua. Para dar certo, é preciso que nossos cérebros convivam realmente com os melhores do mundo”. Investir neles – na ida e na volta – é pavimentar o futuro do Brasil.

07/08/2012

às 18:00 \ Tema Livre

A Telefônica testa, na Espanha, fios de cobre com DNA para rastrear ladrões. Quando chegará a vez do Brasil?

O Túnel Jânio Quadros, que passa por baixo do Rio Pinheiros, em São Paulo, de quase 2 quilômetros de extensão, em uma das várias vezes em que foi interditado por estar sem luz devido ao roubo de cabos de cobre (Foto: O Globo)

Amigos do blog, sempre fui um defensor ferrenho de investimentos públicos em tecnologia para combater o crime.

É espantoso como as autoridades de segurança pública da maioria dos Estados gasta na compra de veículos, armas e outros itens naturalmente indispensáveis às políciais, mas, com exceção de São Paulo e alguns outros, investe pouquíssimo, quando nada, em tecnologia.

A tecnologia contra o crime pode muitas vezes ser usada pela iniciativa privada. Veja o caso da multinacional espanhola Telefonica, que no Brasil atua em São Paulo e tem a maior rede brasileira de telefonia fixa (além de sociedade em empresas de telefonia celular).

Neste momento, na Catalunha, na Espanha, a Telefonica está começando a utilizar tecnologia britânica para combater um problema crônico na região – e mais do que crônico no Brasil: o roubo de fios de cobre, que no nosso país inferniza empresas de telefonia, empresas de metrô, linhas de trem e outros setores. Dá prejuízo às empresas, públicas e privadas, e dor de cabeça aos consumidores, já que em certas cidades, bairros inteiros ficam com telefones mudos ou sofrem problemas de gravidade semelhante por causa dos ladrões de cobre.

Montanhas de fios de cobre roubados na Catalunha, Espanha: em futuro próximo, será possível identificar os ladrões e a origem do produto (Foto: 20minutos.es)

A Telefonica está começando a revestir toda a sua rede na Catalunha com uma espécie de DNA eletrônico, como se fosse uma pintura, invisível a olho nu e que só pode ser detectado por raios ultravioletas. O produto tem um tal grau de sofisticação que pode permitir à polícia, nas constantes apreensões de material que promove, saber se os fios são roubados e até a identidade dos ladrões, se forem presos suspeitos, já que a substância tem a capacidade de se impregnar na pele durante várias semanas, e, na roupa, durante vários meses.

A empresa britânica que fabrica o produto, a Selecta DNA, se orgulha de ser “temida por criminosos no mundo inteiro” e garante que o DNA eletrônico, se incluído na matéria prima do produto a ser fabricado já no momento da produção – o que inclui até motores e peças de veículos – pode sair para o mercado com todos os principais dados da companhia fabricante codificados: nome, logotipo e, no caso dos fios de cobre, até informação sobre a área onde os cabos foram colocados.

O cobre sempre atraiu ladrões (não só no Brasil), e mais ainda com a atual crise econômica internacional, com o fato adicional que seu preço triplicou nos últimos três anos. A tonelada do metal vale, hoje, algo como 8 mil reais.

Quando será que a Telefonica vai começar a usar o DNA eletrônico – “micropontos circulares de tamanho mínimo, praticamente invisíveis a olho nu”, segundo a empresa britânica – no Brasil?

19/07/2012

às 20:03 \ Política & Cia

FHC em entrevista: governo Dilma tem DNA diferente do de Lula — se é que este tinha algum DNA

"Não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso na sua relação com o mercado" (Foto: Gilberto Tadday)

FHC: "No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento" (Foto: Gilberto Tadday)

(Entrevista feita por André Petry, de Washington, publicada nas Páginas Amarelas da edição de VEJA que está nas bancas. O título original está abaixo.)

 

Mas onde foi parar o debate?

 

Honrado com um prêmio equivalente a um Nobel, o ex-presidente diz que o Brasil continua no rumo, mas reclama da apatia social e da falta de discussão política

Com seu proverbial bom humor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contou a uma plateia de 200 pessoas em Washington que só não aceitou ficar nos Estados Unidos nos anos 70, quando dava aulas no país, porque o convite não incluía uma cadeira de senador. “No Brasil, concorro e ganho”, brincou. Voltou e ganhou a cadeira. Aos 81 anos, FHC cumpriu uma carreira brilhante, que lhe rendeu, na semana passada, o prêmio Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso americano.

Equivalente a um Nobel na área de humanas, o prêmio vem com um cheque de 1 milhão de dólares, que ele pretende partilhar com os netos para ensinar-lhes a fazer ação social. Depois da premiação, em seu hotel na capital americana, ele falou do mundo e do Brasil na entrevista a seguir.

 

No exterior, até o ano passado o Brasil era uma estrela mundial, o país do futuro ao qual o futuro finalmente chegou. Agora, deu uma virada. Houve exagero antes ou agora?

Houve exagero tanto antes quanto agora. O Brasil melhorou muito, mas não foi tanto assim. Faltou a percepção de que o PIB cresceu mas a sociedade continua com problemas. Não somos uma sociedade organizada, com democracia enraizada, acesso à educação e à saúde de boa qualidade. O mundo começou a olhar para o Brasil como se tudo estivesse resolvido. O exagero não se deu apenas em relação ao Brasil. Fiz uma visita recente à China, e lá eles fazem questão de insistir que são um país em desenvolvimento. Olhe que a China é o segundo PIB do mundo. Mas, efetivamente, é um país em desenvolvimento. Como o Brasil.

 

A mudança da percepção externa sobre o Brasil não é fruto do ativismo econômico do governo atual?

A mudança começou quando apareceram alguns sinais de que talvez o Brasil fosse se desviar do caminho anterior, com as intervenções tópicas do governo na economia. Depois, a balança comercial deixou de ser tão favorável. O sujeito que tem bilhões de dólares investidos no Brasil começa a ficar com receio. Mas a situação não é tão negativa quanto está sendo pintada. O governo tem obrigação de se ajustar à conjuntura. A economia política é política por um lado, mas não é propriamente ciência por outro.

É uma navegação. Se tem uma ilha, desvia-se. Sem tem tormenta, reduz-se a velocidade. Só não pode perder o rumo. Agora, não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso no que diz respeito à sua relação com o mercado. É o comando do Estado sobre o mercado, mas não é estatista. Tanto que acabou de fazer a concessão dos aeroportos.

O que se percebe é que o DNA do governo atual é outro. O presidente Lula procurava disfarçar o seu DNA, se é que o tinha. A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação.

 

DNA Governo Dilma (Foto: Agência Brasil)

"A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação" - por parte do Estado (Foto: Wilson Dias/ABr)

 

Há risco de o Brasil perder o rumo?

Não acredito. Falaram muito por causa da mudança cambial, mas é bobagem. Eu mesmo mexi no câmbio várias vezes. Já demiti presidente do Banco Central. O perigo está na tendência ao protecionismo. A Argentina tem tendência protecionista abertamente. O Brasil também, mas é topicamente. O protecionismo seria ruim para nós. Temos de aumentar a produtividade para poder baixar os preços e assim beneficiar a todos. Mas, quando se fecha o mercado, reduz-se a competição e, ao fazê-lo, reduz-se também o incentivo para as pessoas aumentarem a produtividade. Com o tempo, fica-se defasado. Nada disso é do interesse do Brasil.

 

Para manter o rumo, qual deve ser a prioridade do Brasil nos próximos anos?

O vento no mundo não sopra mais a nosso favor. Então, o desafio do governo da presidente Dilma é retomar algumas reformas e fazer o que o governo do presidente Lula não fez durante o bom momento do crescimento econômico, que é cuidar do investimento e da poupança. No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento.

A produtividade da nossa indústria perdeu em comparação com a de outros países. Mas não é a produtividade de dentro da fábrica. É de fora. São as estradas, o custo da energia, os aeroportos, o sistema tributário, a educação. Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí.

 

A crise no capitalismo ocidental está ajudando a tornar o capitalismo de Estado da China mais atraente?

Há muita insatisfação social nos países ocidentais e, daí, há um fascínio com o que se imagina que seja o outro lado. Mas a China tem um modelo complicado. Ali, deu-se a aliança do capitalismo de estado com as grandes corporações internacionais. O preço é menos liberdade. Não é um caminho para o Brasil. Nós somos mais ocidentalizados, estamos acostumados à liberdade. E PIB não é tudo. Nos anos 70, nosso PIB cresceu muito mas as pessoas não foram beneficiadas. Havia concentração de renda. Monopólios, públicos ou privados, concentram renda. Só ter grandes empresas concentra renda. É o perigo do Brasil de hoje.

Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí (Foto: stock.XCHNG)

"Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí" (Foto: stock.XCHNG)

 

Mas o Brasil não vive um processo de desconcentração de renda?

A transferência de renda saudável é para baixo, mas também temos a transferência para cima. O BNDES pega dinheiro do Tesouro e empresta a empresas com juros subsidiados. Quem paga o subsídio? Nós, os contribuintes. Dá cerca de 20 bilhões de dólares. A Bolsa Empresa está forte no Brasil. É provável que na década de 70, com grandes estatizações e grandes empresas, a renda tenha se concentrado. Agora, não será igual porque temos os dois movimentos: concentração para cima e desconcentração para baixo. O Brasil hoje é o país da Bolsa Família e da Bolsa Empresa, o que resultou na felicidade geral. Daí o apoio ao governo.

 

Isso é ruim?

Primeiro, a felicidade é quase geral. A classe média ficou de fora. Mas, com a prosperidade das bolsas, as pessoas perderam a motivação para debater. Não há mais debate. O debate político-partidário perdeu sua centralidade. Não é um fenômeno só brasileiro. A Europa vive isso, os EUA também, mas com menor intensidade. No nosso caso, isso decorre da desconexão entre o mundo institucional da política e a sociedade. Passou a haver uma relação direta do Executivo com o povo, pulando o Congresso. É uma tendência brasileira antiga, mas se acentuou. Toda hora dizem que não temos oposição no Brasil. Está errado. A oposição está dentro do Congresso, só que o Congresso não tem repercussão na rua. Os partidos saíram da sociedade e se aninharam no Congresso ou no governo. O partido com mais vínculo com o movimento social era o PT.

Com o PT no governo, o movimento social virou cadeia de transmissão da vontade oficial. Perdeu vitalidade. O debate se deslocou para a mídia. É por isso que o governo acusa a mídia de ser oposição. Porque é a única instituição que fala e o povo ouve.

 

Como os partidos podem voltar a se reconectar com a sociedade?

Eles precisam tomar posição diante dos fatos correntes. Como têm medo de assumir posições, os partidos não falam nada. Legalização das drogas? Silêncio. Aborto? Silêncio. Relação do estado com a religião? Silêncio. Qual a melhor maneira de resolver a questão do transporte? Silêncio. São questões do cotidiano. Questões que levariam a população a se identificar com os partidos. A própria sociedade civil, antes vibrante e ativa, se encolheu. Sempre digo: se você não politiza, não acontece nada. Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve. Política requer que se tome partido, que se tome posição. Tem de dizer se está certo ou se está errado. A política é valorativa.

 

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, foi indiciado por crime de formação de quadrilha

Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve (Foto: VEJA.com)

Se o debate político perdeu vigor no Brasil, mas também na Europa e nos EUA, pode-se falar em crise da democracia?

Fala-se nisso, mas não concordo. Ninguém quer não democracia. Mas é preciso ter um mecanismo pelo qual a população possa participar do processo decisório. Do debate, do antes. Só consegui fazer reformas porque houve muito debate e discussão. Agora, não. Quem debateu as quatro usinas da Petrobras? Quem debateu o trem-bala?

 

Se os réus do mensalão forem absolvidos pelo Supremo Tribunal, qual será o tamanho do desastre?

Não sou juiz e não sei qual deve ser a sentença. O que sei é que, se houver algo a ser corrigido, e for, será um marco histórico. Até hoje, o povo sente que gente importante pode fazer o que quiser e não paga o preço. Uma absolvição, se for percebida como algo por baixo do pano, vai referendar isso. É um julgamento histórico porque uma sociedade se forma de símbolos. Quando Lula foi eleito, preparei a transição mais civilizada possível. Entre outras razões, porque Lula era o primeiro líder popular sindical eleito presidente. Simbolicamente, é importante.

 

Faltou diplomacia brasileira na crise que resultou no afastamento do presidente do Paraguai?

Faltou diplomacia, mas não só brasileira. De todo mundo. Se eu pudesse ter interferido, aconselharia evitar o afastamento faltando dez meses para o fim do governo. A ação do Paraguai foi muito rápida, o que é politicamente inconveniente, mas não foi ilegal. Agora, grave também foi a entrada da Venezuela no Mercosul na ausência do Paraguai. Sou a favor da Venezuela no Mercosul. Mas ela tinha de ter cumprido o requisito básico de adotar a tarifa externa comum.

 

O Brasil está perdendo o foco na América do Sul ou perdendo influência?

Está perdendo influência. Antes, tínhamos uma influência não discutida, automática e não anunciada. No meu governo, houve várias crises no Paraguai. Lidamos com elas de maneira efetiva e discreta. O Peru e o Equador estavam em guerra. Ajudei muito na paz entre esses países, mas nunca anunciei isso. Agora, com Hugo Chávez na Venezuela, criou-se outro polo de influência. Tenho a impressão de que o Brasil prefere não se contrapor. É como se fôssemos da mesma família. Sei que ele é meu primo, meu primo é meio canhoto, eu preferia que ele não fosse, mas é meu primo. O Brasil fica um pouco tolhido de tomar posições para não ser percebido como alguém que saiu da família.

 

Há analistas dizendo que a relação entre estado e mercado será definida pelo que os Brics fizerem. O senhor concorda?

Ninguém vai transformar a Europa numa China, ou vice-versa. É preciso entender que há diversidade na cultura, na forma de organização política. A Rússia é uma plutocracia autocrática. Isso não se aplica ao Brasil, à Índia nem à China. A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. Na minha visita ao país, fiquei bem impressionado com o debate na universidade. Eles estão voltando a falar em termos confucianos da virtude. O funcionário público, o mandarim, deve ser competente, fazer concurso e ter a virtude de servir o público. Na Rússia, não tem isso. No Brasil, o estado sempre foi muito importante, continua sendo e sempre será. Há diferenças. Nos EUA, fala-se em universalizar a saúde e eles entram em pânico. No Brasil, quem vai dizer que saúde gratuita é medida socialista? Não teremos um modelo só no mundo. Haverá vários. Os países árabes, islâmicos, não vão adotar comportamentos idênticos aos do Ocidente. Isso é ilusão do ocidentalismo e seu poder militar, que vinha para impor a cultura. Isso não dá mais. O desafio é como conviver com as diferenças.

 

China em desenvolvimento (Daniel Berehulak/Getty Images)

A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. (Daniel Berehulak/Getty Images)

O que seguirá unindo o mundo?

A noção de direitos humanos está voltando a ter peso. Sem perceber, estamos recriando a ideia de humanidade. Quando Hegel falava de humanidade, Marx dizia que, enquanto houvesse classe social, seria a classe. Só quando todos fossem iguais, poderíamos falar em humanidade. Agora, por causa da bomba atômica, do meio ambiente, é preciso pensar em humanidade. Gorbachev diz isso. Temos de pensar no conjunto, no que é universal e afeta a todos. Voltamos a ter de nos preocupar com os direitos que pertencem à humanidade. Temas como igualdade de homem e mulher, como tortura. O mundo terá de se organizar a partir de um núcleo de valores que afetem a humanidade, mas há que ter limite. Não podemos usar isso para impedir manifestações de diversidades culturais que são normais. Inclusive na política. O próprio mercado, hoje praticamente universal, sofre restrições diferentes aqui e ali. Vai continuar sofrendo. Esse é o desafio para o século XXI.

03/07/2012

às 17:20 \ Política & Cia

Boa notícia: banco de DNA e tecnologia moderna vão ajudar a solucionar crimes no país

TECNOLOGIA A SERVIÇO DA LEI Perito analisa mostra de DNA no laboratório  do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília (Foto: Cristiano Mariz)

TECNOLOGIA A SERVIÇO DA LEI -- Perito analisa mostra de DNA no laboratório do Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília (Foto: Cristiano Mariz)

(Reportagem de Laura Diniz publicada na edição impressa de VEJA)

 

A CIÊNCIA CONTRA O CRIME

Banco de dados que checa o DNA de bandidos chega a dobrar a eficiência da polícia

 

O aparato de investigação policial no Brasil está para o crime como Davi está para Golias – com a diferença de que, aqui, o vitorioso é quase sempre o gigante. A boa notícia é que as delegacias poderão contar em breve com dois novos recursos com potencial para diminuir consideravelmente os números da impunidade.

O primeiro é um banco de dados de DNA. Trata-se de um programa de computador doado ao Brasil pelo Federal Bureau of Investigation (FBI). Ele armazena e analisa os rastros genéticos colhidos na cena de um crime e os confronta com a identidade de indivíduos já condenados por outros delitos.

Como a taxa de reincidência é alta entre os bandidos – em São Paulo, ela atinge metade dos presos -, é comum descobrir que o assassino de hoje foi o ladrão de ontem. No Reino Unido, o índice de resolução de casos salta de 26% para 43% quando o DNA é recolhido no local da ação e inserido no banco de dados. Nos Estados Unidos, a eficiência da polícia também dobra com o uso da tecnologia.

CSI BRASIL Cardozo e a maleta cujo apelido faz referência à série de TV que mostra o trabalho de um grupo de peritos americanos (Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)

CSI BRASIL -- Cardozo e a maleta cujo apelido faz referência à série de TV que mostra o trabalho de um grupo de peritos criminais americanos (Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)

No Brasil, a lei que criou o banco de dados nacional e autorizou colher o DNA de condenados por crimes violentos começará a valer em novembro. A partir de agora, a coleta de material – como uma ponta de cigarro [que contém traços de saliva] ou o sêmen do estuprador – será ainda mais importante para solucionar os casos.

Essa amostra de DNA será lançada por um perito em uma máquina, que a transformará em uma sequência numérica única para cada pessoa. Dali, a informação vai para o computador, onde o DNA do criminoso desconhecido será confrontado com o de suspeitos e condenados. Quanto maior a base de dados, maior a chance de resolução do caso.

A precariedade na maior parte dos Estados

Por enquanto, porém, a nova tecnologia vai se chocar com a precária realidade das delegacias. Na maior parte dos Estados, a escassez de recursos é tal que os peritos se limitam a fazer uma análise visual da cena do crime, sem embasamento científico algum. Nesta semana, o governo federal começa a se movimentar para melhorar essa situação.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, destinou 25 milhões de reais para a compra de equipamentos de laboratório e de dez maletas portáteis para perícia in loco, com máquina fotográfica, reagentes para sangue e drogas.

A cidade de São Paulo resolve 50% dos homicídios; Alagoas, menos de 10%

O Estado de Alagoas será o primeiro a receber o kit. Alagoas ostenta a maior taxa de assassinatos do país – 67 homicídios por 100 000 habitantes, quase o triplo da média do Brasil e cinco vezes a de São Paulo.

Os números mostram que uma investigação rápida e uma perícia eficiente guardam relação direta com a queda da impunidade. Na cidade de São Paulo, por exemplo, onde o Departamento de Homicídios concentra a investigação nas primeiras 48 horas após o crime, o índice de esclarecimento dos casos é de 50%. Em Alagoas, a taxa de resolução é menor que 10%.

01/07/2012

às 11:08 \ Disseram

Madona paranoica: no camarim, nem seu DNA

“Temos de tomar cuidado como nunca tivemos com qualquer outro artista. Nós não podemos nem mesmo olhar o camarim ou até mesmo abrir a porta.”

Álvaro Ramos, promotor do show de Madonna em Portugal, dizendo que a cantora está paranoica e tem uma equipe para eliminar do camarim qualquer vestígio de seu DNA

22/03/2011

às 16:04 \ Tema Livre

Espetacular: viaje pelo universo macro até o universo microscópico nessas imagens

Uau!

Amigos, é espantoso viajar, em imagens, do universo macro, de um ponto localizado a milhões de anos-luz da Terra, até os meandros mais infinitesimalmente pequenos da matéria no nosso planeta.

Na imagem abaixo, veja, inicialmente, a Via Láctea a uma distância de 10 milhões de anos-luz. Depois, clicando na flechinha, mova-se através do espaço em direção à Terra em sucessivas ordens de magnitude até chegar a uma árvore, um carvalho, no jardim do laboratório High Magnetic Field (Alto Campo Magnético) – responsável pelo projeto - em Tallahassee, capital da Flórida, nos Estados Unidos.

Em seguida, a partir da folha do carvalho, mergulhe dentro de um mundo microscópico, que revela as paredes celulares da folha, o núcleo da célula, a cromatina, o DNA e, finalmente, o universo subatômico dos elétrons e prótons que constituem a folha.

This text is replaced by the Flash movie.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados