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Venezuela

19/12/2014

às 18:45 \ Vasto Mundo

VENEZUELA: Para quem ainda acha que não existe uma ditadura no país, leiam os depoimentos de dez pessoas que sofreram violência e tortura do regime — e vejam suas fotos

Post publicado originalmente a 25 de abril de 2014

A VOZ DOS TORTURADOS

Campeões-de-audiênciaOs relatos de dez vítimas da repressão na Venezuela são testemunhos do declínio do regime chavista, tristemente apoiado pelo governo brasileiro

Reportagem de Nathalia Watkins, de Caracas, publicada em edição impressa de VEJA

Ele apanhou de cinquenta paramilitares a pauladas

José Ribas, de 19 anos, cursa direito na Universidade Central da Venezuela e é líder estudantil.

José Ribas, 19 anos: atacado por paramilitares chavistas dentro da universidade (Foto: Luiz Maximiano)

No último dia 3, ele participava, dentro do câmpus, de uma reunião para listar propostas econômicas para o governo. As conclusões seriam expostas em faixas durante uma manifestação.

De repente, 200 paramilitares chavistas invadiram a universidade e correram no encalço dos que estavam no evento, batendo em quem pudessem alcançar.

Cinquenta deles lincharam José a pauladas. “Eu não podia nem gritar. Senti que ia desmaiar a qualquer momento”, diz. Os algozes gritavam que ele estava apanhando por convocar passeatas. Alguns estudantes tiveram as roupas arrancadas enquanto eram espancados.

José foi levado por amigos ao hospital universitário. No corredor, soube que civis armados haviam estado ali procurando por ele. Ficou com tanto medo que fugiu antes de receber alta. “Os protestos não são um pretexto para derrubar Maduro. O que desejamos é que o governo se responsabilize pelo povo”, diz José.

“Sangrei por três dias e me senti totalmente humilhado como homem”

Jorchual Vargas estava a caminho de uma manifestação quando a Guarda Nacional Bolivariana atirou uma bomba de gás lacrimogêneo dentro do veículo (Foto: Luiz Maximiano)

O estudante de comunicação Jorchual Gregory Vargas, de 19 anos, saiu com os amigos Juan Manuel Carrasco, de 21 anos, e Jorge Luis León, de 25 anos, para jantar e, em seguida, participar de uma manifestação contra o governo na cidade de Valência, a 170 quilômetros de Caracas, no dia 13 de fevereiro passado.

Antes de chegar ao local da concentração do protesto, o carro do trio foi cercado por membros da Guarda Nacional Bolivariana (GNB). Os militares quebraram os vidros, jogaram uma bomba de gás lacrimogêneo dentro do veículo e obrigaram os três a sair a cacetadas. “Andem logo, seus malditos, que vamos fuzilar vocês”, gritou um deles.

Logo depois, Jorchual foi atingido por um disparo, provavelmente de bala de borracha, e posto contra a parede junto com os dois amigos, sempre apanhando dos fardados.

Os três foram obrigados a se deitar no chão, em posição fetal, e passaram a receber golpes na cabeça e nas costelas. “Como vocês gostam de queimar coisas, vamos queimar o carro de vocês”, disse um dos guardas, em referência às barricadas montadas pelos manifestantes. Os três nunca haviam queimado um pneu na vida.

No chão, Jorchual e seus amigos se abraçaram e rezaram enquanto apanhavam. Então Jorchual e Jorge Luis ouviram Juan Manuel gritar ainda mais alto. Um dos guardas estava usando o cano do fuzil para violentá-lo, no meio da rua. “Ele implorava para que não introduzissem nada nele”, lembra Jorchual.

“De tudo o que sofri, essa parte foi a que mais me doeu. Sangrei por três dias. Além da dor física, eu me senti totalmente humilhado como homem. Nunca vou perdoar esse governo por isso”, diz Juan Manuel.

O suplício de Juan Manuel, Jorchual e Jorge Luis não terminou ali. Eles foram levados com outros nove jovens para um quartel da Guarda Nacional. No caminho, amontoados em uma caminhonete, eram ameaçados de morte e de estupro. Na instalação militar, todos permaneceram de joelhos. Um cachorro da raça boxer, treinado para atacar, era mantido a curta distância para aterrorizá-los.

Juan Manuel Carrasco, violentado com o cano de um fuzil: “nunca vou perdoar esse governo por isso” (Foto: Luiz Maximiano)

Eles foram obrigados a se despir e receberam um banho de gasolina e, em seguida, de água. Depois, algemados uns aos outros em um pátio, em círculo, começaram a levar golpes na cabeça com capacetes e cassetetes.

“Quem paga a vocês para participar das manifestações?”, gritavam os torturadores, enquanto lançavam bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta sobre os jovens. O espancamento durou a noite inteira.

Na manhã seguinte, receberam a visita de um promotor público. Ele explicou aos presos que, quando fossem soltos, deveriam dizer que tudo o que aconteceu foi por culpa deles mesmos.

Em seguida, chegaram dois médicos-legistas. “Quando viram meu estado, eles começaram a chorar. Eu pedi ajuda, mas eles não nos deram nenhum remédio, só recomendaram repouso. Quando os médicos foram embora, voltamos a apanhar”, diz Juan Manuel.

Depois de 48 horas, o tempo máximo que teoricamente um cidadão na Venezuela pode ser mantido preso sem acusação formal, os jovens foram levados a uma audiência num tribunal que durou doze horas. “Quando chegamos, disseram que deveríamos fingir e nos comportar como se não estivéssemos sentindo dor”, diz Jorchual.

Eles não tiveram direito a uma reunião prévia com advogados. Estão respondendo por delitos como alteração da ordem pública e ganharam liberdade condicional. A Justiça, controlada pelo chavismo, diz que está investigando a tortura. Trinta militares participaram das atrocidades, mas nenhum delesfoi chamado para que as vítimas pudessem reconhecê-los. Um dos torturados tinha 16 anos.

ELES PODERIAM PERFEITAMENTE TER NASCIDO NO BRASIL

Os nomes Jorchual, Carkelys, Marvinia e Lourds podem parecer estranhos aos leitores da revista. Mas todos eles são de pessoas que poderiam perfeitamente ter nascido no Brasil.

São estudantes esforçados que sonham em seguir uma boa carreira. Donas de casa preocupadas com o bem-estar dos filhos. Profissionais liberais com garra para trabalhar.

Por terem nascido e viverem na Venezuela, porém, mesmo para as coisas mais elementares, como comprar carne em um açougue ou expressar sua opinião pessoal, eles precisam batalhar.

Desde fevereiro, centenas de milhares de venezuelanos como eles foram às ruas protestar, na maioria das vezes pacificamente, contra o governo. O presidente Nicolás Maduro reagiu colocando todas as forças de segurança do Estado, além de milícias paramilitares, para reprimir as manifestações e espalhar o terror entre os cidadãos que ousam se organizar para lutar por seus direitos.

A Venezuela vive, hoje, uma crise social da qual ainda não se pode antever uma saída. As forças a serviço de Maduro realizaram mais de 2 000 prisões arbitrárias. Os casos de tortura, no cálculo mais conservador, somaram 59. Quarenta pessoas morreram.

O ataque aos cidadãos solapou o já frágil Estado democrático de Direito no país e criou uma situação ainda mais cruenta que a do primeiro período da ditadura brasileira, entre abril de 1964 e o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968, quando o regime ainda não havia organizado e intensificado os métodos de tortura. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

14/12/2014

às 18:00 \ Disseram

Um país… livre?

“Os Estados Unidos acreditam que sancionando a Venezuela vamos soltar o assassino. Aqui não tem jeito, imperialistas dos Estados Unidos, aqui não tem jeito de vocês nos pressionarem porque a Venezuela é um país livre.”

Nicolás Maduro, presidente venezuelano, sobre o opositor Leopoldo López, preso em um cárcere militar desde fevereiro por participar de protestos contra o governo

13/12/2014

às 6:00 \ Disseram

Medo não é uma opção

“Não tenho medo, não podemos ter medo. Nossa única opção é lutar e conquistar a democracia e a liberdade.”

María Corina Machado, ex-deputada, opositora do governo venezuelano, acusada pelo Ministério Público do país — com base em e-mails que a empresa detentora dos endereços eletrônicos afirma que são falsos — de participar de uma conspiração para matar o presidente Nicolás Maduro

05/12/2014

às 17:02 \ Vasto Mundo

VENEZUELA: Vejam a foto e me digam se militares de um país democrático fariam essa saudação com o punho levantado

Chefes militares venezuelanos, tendo à frente o ministro da Defesa, almirante Diego Molero Bellavia, fazem a saudação com o punho levantado (Foto: Telesur / AFP)

Post publicado originalmente a 6 de março de 2013

Campeões-de-audiênciaDepois de anunciar ontem que os militares venezuelanos cumprirão a Constituição chavista — como se, num país democrático, fosse preciso militares “anunciarem” que farão sua mais elementar obrigação –, o ministro da Defesa da Venezuela, almirante Diego Alfredo Molero Bellavia, encabeçou uma saudação ao falecido caudilho Hugo Chávez levantando o punho ao alto, no velho estilo comunista do século passado.

Os demais chefes militares que o circundavam no pronunciamento feito pela TV fizeram o mesmo.

Vocês já imaginaram oficiais-generais franceses, australianos ou canadenses fazendo isso?

E nem é preciso ir tão longe: se chefes militares brasileiros agissem assim, o mundo viria abaixo — e com razão.

Esta é a Venezuela “democrática” que o chavismo legou.

Ah, enquanto anunciava o cumprimento da Constituição, o almirante Molero Bellavia deslocou tropas para as ruas de Caracas, por solicitação do vice-presidente Nicolás Maduro, sob o pretexto de “manter a ordem”.

Para isso não existe a polícia?

09/11/2014

às 19:00 \ Política & Cia

CARLOS BRICKMANN: Os deuses atenderam aos pedidos dos homens após a reeleição de Dilma

(Foto: Ueslei Marcelino)

Aumento da gasolina, juros mais altos, José Dirceu solto… Não foi um ótimo começo para o novo mandato de Dilma Rousseff (Foto: Ueslei Marcelino)

Notas de Carlos Brickmann publicadas neste domingo em diversos jornais

carlos_brickmannUm país em movimento

Quem se queixava de que o país estava parado desde o início do ano já pode ficar contente: seus desejos foram atendidos.

A partir da reeleição de Dilma, no domingo, José Dirceu foi solto, os juros cresceram, a gasolina subiu, a eletricidade aumentou, o governo anunciou o maior rombo já ocorrido nas contas do país, as autoridades da área de energia acham que não vai haver racionamento, mas por pouco. 

São Paulo resolve reutilizar os esgotos para não ficar sem água, e Guido Mantega, o demitido adiado, continua sem substituto.

Quando os deuses querem destruir um homem, atendem a seus pedidos.

Hermanos bolivarianos

Deve-se ao repórter Cláudio Tognolli, do Yahoo, a descoberta dos documentos mais impressionantes dos últimos meses: as provas de que o governo venezuelano do Hermano Nicolás Maduro assinou acordos de cooperação, sem conhecimento das autoridades brasileiras, com o MST, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, liderado por João Pedro Stedile.

Os acordos incluem treinamento dos brasileiros por venezuelanos, seja lá que tipo de treinamento for. 

O vice-presidente do Desenvolvimento do Socialismo da Venezuela e ministro das Comunas, Elías Jaua, viajou ao Brasil a serviço da causa, sem comunicação ao governo brasileiro. Veio armado; e, para disfarçar, enviou a arma com a babá de seu filho, em outro avião.

Não deu certo. Ela foi presa no aeroporto, por porte ilegal, e aguarda julgamento.

Jaua agiu com tanta desenvoltura que o Brasil decidiu reagir: o chanceler Luiz Alberto Figueiredo chamou o encarregado de Negócios da Venezuela, Reinaldo Segovia, para protestar contra a interferência do ministro em assuntos internos brasileiros. E pensar que houve época em que os EUA interferiam na política brasileira. 

Hoje, até a Venezuela se mete por aqui.

Ahn? Soberania? 

Agora, a não novidade: o PSDB, partido que diz liderar a oposição ao governo petista de Dilma, não se manifestou sobre a ação do ministro venezuelano.

Quem protestou foi o DEM. O deputado e senador eleito Ronaldo Caiado (GO) pediu a convocação do chanceler brasileiro pelo Senado para que explique o que pretende fazer para evitar que o MST seja treinado ilegalmente por militares estrangeiros.

09/11/2014

às 15:00 \ Vasto Mundo

Miguel Otero, dono do último jornal de oposição da Venezuela: “O Brasil está caminhando rumo ao populismo autoritário, cujos líderes querem perpetuar-se no poder”

(Foto: Gabriel Osorio/Archivolatino)

Impedido pelo governo de comprar papel, Miguel Henrique Otero, dono e editor do El Universal, alerta que o Brasil pode estar indo pelo mesmo caminho da Venezuela (Foto: Gabriel Osorio/Archivolatino)

“BOLSA HOJE, FOME AMANHÔ

O jornalista venezuelano vê nos planos de controle da imprensa no Brasil o mesmo padrão do chavismo e diz que manter os pobres dependentes é ruinoso, mas essencial ao populismo

Entrevista a Nathalia Watkins publicada em edição impressa de VEJA

O jornal venezuelano El Nacional é o último de alcance literalmente nacional a resistir à repressão do governo de Nicolás Maduro. Sem autorização para comprar bobinas de papel, o jeito foi reduzir o número de páginas e contar com a solidariedade de jornais estrangeiros. A matéria-prima, contudo, acaba no fim do ano e o diário corre o risco de fechar.

Seu proprietário e editor, Miguel Henrique Otero, de 67 anos, resiste bravamente. O estrangulamento imposto pelo chavismo por meio da restrição à compra de papel e de ações judiciais derrubou a tiragem dominical do jornal, fundado pelo avô de Otero em 1943, de 250 000 para 100 000 exemplares. Otero comanda a publicação desde 1988. Se tiver de fechar as portas, será o golpe final na liberdade de expressão no país.

O senhor vê semelhanças entre os caminhos trilhados pelo governo petista no Brasil e pelo chavismo na Venezuela?

Sim. O Brasil está seguindo a tendência de uma parcela da América Latina de caminhar em direção ao populismo autoritário. Esse modelo começa confrontando o setor privado e logo passa a transbordar rumo à liberdade de expressão e aos direitos humanos.

O populismo autoritário também tem como característica a intenção dos seus líderes de perpetuar-se no poder. Para isso, eles modificam as leis, de preferência a Constituição como um todo, para evitar a alternância de poder. Na Venezuela, por exemplo, Chávez acabou com o limite de mandatos para presidente.

Outra forma de conseguir isso é garantir o apoio popular, o que é obtido com políticas que distribuem à população comida e dinheiro. O problema é que essa política não gera riqueza. Com os benefícios, o povo pode até momentaneamente acreditar que sua condição melhorou, mas o fato é que permanecerá pobre, porque não terá boas opções de emprego e a economia ficará estagnada.

Nas estatísticas, eles deixam de ser considerados pobres porque recebem salário ou ajuda financeira adicional, mas a longo prazo a ascensão social é nula. É o que na Venezuela chamamos de “comida hojefome amanhã“. Para esses governantes, manter a população na pobreza é importante porque isso lhes garante a sustentação política de que precisam.

No Brasil, essa lógica ficou muito clara. No Norte, onde estão muitos dos beneficiários do Bolsa Família, o apoio ao governo é forte. No Sul, onde há uma classe média em expansão e a economia é mais produtiva, as pes- soas votaram no candidato da oposição. Fica claro que grande parte da população brasileira está condenada a ser mantida na pobreza, no que poderiam chamar de “bolsa hojefome amanhã“.

Qual é a origem desse modelo populista e autoritário?

Sem dúvida, a inspiração é o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas ele não veio do nada. Chávez é uma criação do Foro de São Paulo (o encontro de partidos e organizações de esquerda da América Latina que surgiu em 1990 de uma conversa entre o ex-presidente Lula e o ditador cubano Fidel Castro). No fundo, é a ideologia castrista de supressão das liberdades individuais não mais pela revolução armada, mas por eleições.

Pode parecer legítimo, mas não é. Quando estão na iminência de perder o pleito, eles trapaceiam, violam os resultados e exigem reformas políticas boas apenas para eles. São persistentes. Na reforma constitucional tentada por Chávez em 2007, o presidente perdeu, mas logo conseguiu o que queria de outra forma (em 2009, Chávez fez aprovar a reeleição indefinida, que havia sido rejeitada antes, em referendo).

O uso da democracia para acabar com a democracia foi a estratégia comum dos populistas na Venezuela, Nicarágua, Equador, Bolívia e Argentina.

Por essa lógica, quais seriam, a seu ver, os próximos passos do populismo no Brasil?

Provavelmente, dentro de quatro anos, o Brasil mudará a Constituição para permitir a reeleição de Dilma Rousseff, que usará a ameaça da volta de Lula para conseguir o que pretende. A perpetuação no poder é parte integrante do modelo populista totalitário, mesmo que isso não possa ser feito descaradamente.

Cristina Kirchner, na Argentina, não teve como disputar uma terceira eleição, mas o poder, que já foi do marido, Néstor, se depender dela, será passado ao filho, Máximo Kirchner. O Brasil, por ser um país continental, talvez pareça mais resistente ao populismo autoritário, mas o que se constata no seu país não é nada animador.

Quais são as características comuns aos governos que, a exemplo da Venezuela, namoram com o modelo do populismo totalitário?

A principal é reprimir a liberdade de expressão. Esses regimes simplesmente não podem sobreviver com imprensa livre. A verdade é tóxica para eles. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

04/11/2014

às 6:00 \ Disseram

Futuro incerto

“Não tenho bola de cristal, é importante que [o STF] não se converta numa corte bolivariana.”

Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal que corre o risco de ser o único a não ter sido indicado por governos petistas a partir de 2016, ao expressar seu medo que o Brasil siga no caminho da Venezuela e da Argentina

02/11/2014

às 16:00 \ Política & Cia

VÍDEO: O bolivariano Maduro comemora vitória “heroica” da “irmã e companheira Dilma” e diz que eleição no Brasil “reforça todas as forças revolucionárias do continente”

O bolivarianismo, é claro, ficou em festa com a reeleição da presidente Dilma. Vejam o discurso do tiranete da Venezuela, Nicolás Maduro — pateticamente tentando imitar o tom de voz do falecido coronel Hugo Chávez –, celebrando a “vitória heroica” da presidente, que, diz ele, “vem reforçar todas as forças revolucionárias do continente”.

Maduro afirmou que “na América Latina vai haver cada vez mais revolução” e enviou um recado à anos 60: “Que o saiba o imperialismo”. Imagino que os Estados Unidos devem estar tremendo de medo do discurso do chefe do regime sem papel higiênico.

16/10/2014

às 18:04 \ Política & Cia

EMBAIXADOR RUBENS BARBOSA: O Brasil nunca foi tão desprestigiado no cenário internacional como é hoje

No cenário mundial, o Brasil se encontra como a sua bandeira na foto acima: isolado e praticamente fora da visão dos outros países (Foto: btgovtenforcement.com)

No cenário mundial, o Brasil se encontra como a sua bandeira na foto acima: isolado e praticamente fora da visão dos outros países (Foto: btgovtenforcement.com)

O BRASIL NOS PRÓXIMOS QUATRO ANOS

Artigo de Rubens Barbosa publicado no jornal O Estado de S. Paulo

(Rubens Barbosa, diplomata de carreira aposentado, ocupou, entre outros postos, os de embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha)

No dia 26 a sociedade brasileira vai decidir o que deseja para o Brasil nos próximos quatro anos. Muito será discutido e escrito sobre o impacto que o resultado da eleição vai ter sobre a economia e sobre a melhoria da qualidade dos serviços na educação e na saúde. Alguns vão pensar na sustentabilidade e poucos se vão preocupar com o papel que o Brasil deveria desempenhar na cena regional e global.

O presidente da República é o comandante-chefe das Forças Armadas e o responsável pela voz do Brasil no cenário internacional. Ao tratar da reação de militares a pedido de desculpas pelas violências ocorridas durante o regime autoritário, escutamos a chefe de governo dizer que “quem não quiser pedir desculpas que não peça”. Uma surpreendente reação de quem se espera comando firme.

Quase ao mesmo tempo, perplexos, ouvimos em entrevista recente nas Nações Unidas, pela sua voz mais alta, que lamenta profundamente os bombardeios para conter um dos grupos terroristas mais violentos do mundo, deixando implícita, como alternativa, a negociação, como se isso fosse possível.

Nos últimos anos uma série de equívocos arranharam a credibilidade do Brasil e puseram em evidência, de forma negativa, a diplomacia como a expressão da projeção externa do país no mundo.

Os exemplos multiplicaram-se: a omissão do Brasil no conflito entre a Rússia e a Ucrânia e em relação à guerra civil na Síria; o desprezo pelas violações dos direitos humanos na região e em outros países, aos quais abrimos as portas do BNDES com empréstimos generosos que, em alguns casos, são depois perdoados com custo para o Tesouro Nacional; atuamos com baixo perfil, ao invés de apresentarmos uma liderança clara nas discussões sobre sustentabilidade e mudança de clima.

Em nosso entorno geográfico, assistimos ao prejuízo para o Brasil pelo imobilismo do Mercosul, que marginalizou nosso país da negociação de acordos comerciais e do acesso às cadeias produtivas. A perda de iniciativa no processo de integração regional colocou o Brasil como caudatário de uma agenda que não é a nossa.

A ausência de um pensamento estratégico na integração física na América do Sul impediu a abertura de corredores de exportação de produtos nacionais pelos portos do Pacífico para a China, nosso principal parceiro comercial. E viu-se o abandono das empresas exportadoras brasileiras pela ausência de uma defesa mais firme de nossos interesses nos mercados da Argentina e da Venezuela em nome de afinidades ideológicas.

Tratar temas internacionais complexos com a mesma ligeireza e o mesmo populismo com que são conduzidas as questões internas é receita fácil para criar problemas. A influência partidária, acima dos interesses nacionais, explica equívocos inexplicáveis, antiamericanismos ingênuos e minguados resultados.

O Itamaraty, marginalizado, perdeu o papel central de principal formulador e executor da política externa. Há 77 novos postos, a maioria no Caribe e na África, um crescimento de 50%. A rede no exterior, hoje com 227 postos, está superdimensionada e na sua totalidade, subutilizada; toda a rede de postos deve estar operando a mais ou menos 60% de sua capacidade de funcionamento.

A drástica redução de recursos financeiros, que em 2014 representam 0,16% do Orçamento-Geral da União, impede uma administração eficiente, com grave dano à ampliada representação externa do país; o aumento dos quadros diplomáticos criou problema de fluxo de promoções, gerando insatisfação. Diplomatas em todos os níveis estão desestimulados e exasperados pela falta de perspectiva para suas carreiras e para seu trabalho no Brasil e no exterior. Os mais jovens protestaram em carta ao ministro das Relações Exteriores contra anomalias no Itamaraty.

Agora se noticia, sem desmentido oficial, que o governo estuda modificar a legislação para permitir a nomeação de pessoas de fora da carreira, sem qualificação, para cargos em comissão do Ministério das Relações Exteriores, seguindo o exemplo da Venezuela.

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15/10/2014

às 0:15 \ Política & Cia

TEMA DO DEBATE DA BAND — O PORTO QUE O BRASIL FINANCIOU EM CUBA: se é bom, por que é secreto?

FIDEL COM DILMA -- "Cultivo una rosa bianca / en junio como enero / para el amigo sincero / que me da su mano franca" (Foto: Alex Castro / AP)

FIDEL COM DILMA — “Cultivo una rosa bianca / en junio como enero / para el amigo sincero / que me da su mano franca” (Foto: Alex Castro / AP)

Reportagem de Duda Teixeira, publicada em edição impressa de VEJA

Post originalmente publicado a 4 de fevereiro de 2014

SE É BOM, POR QUE É SECRETO?

Nos detalhes do empréstimo do BNDES para um porto em Cuba, protegidos por sigilo, está a resposta para saber se foi mesmo um bom negócio ou a sobrevida para a ditadura

Em visita a Cuba na semana passada, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o Porto de Mariel, reformado em sua maior parte com dinheiro brasileiro, participou de uma reunião de cúpula latino-americana e teve um encontro particular com Fidel Castro, que segue mandando no país mesmo tendo passado a bengala para o irmão Raúl.

Com a Venezuela reduzindo o envio de petróleo a aliados, o amparo brasileiro tornou-se essencial para a ditadura cubana. De Dilma, o enfraquecido Fidel ganhou suporte não apenas econômico como político. A presidente até ecoou a desculpa do “injusto embargo” dos americanos a Cuba, usada largamente pelos irmãos Castro para podar os direitos de sua população.

Na tentativa de justificarem ao público brasileiro o empréstimo de 682 milhões de dólares do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ao porto dos gerontocratas, Dilma e seus subordinados apresentaram uma lista pronta de argumentos. Nenhum explica a razão da confidencialidade do acordo entre governos.

Uma das condições do empréstimo concedido pelo BNDES é que a ditadura só poderia gastá-lo na compra de bens e serviços brasileiros. Os capacetes de proteção, o cimento e até um carro Gol foram levados do Brasil. A maior parte das exportações foram serviços.

Os projetos de engenharia, por exemplo, foram traçados por escritórios brasileiros. Dos 233 milhões de dólares exportados para a ilha no ano passado para atender à obra, 201 milhões de dólares foram em serviços. O governo diz que 156.000 empregos foram gerados no Brasil.

Tudo muito bonito, não fosse o alto risco de calote. O Brasil aceitou conceder o empréstimo ancorado em garantia soberana, balizada pelos bancos centrais. Essa modalidade é segura quando há um mecanismo de compensação de exportações entre os países, o que não ocorre com Cuba.

O argumento do governo federal de que a modernização do porto caribenho ajudou a economia brasileira não se sustenta no campo do pensamento lógico. Se investir em uma ilha do Caribe submetida há mais de meio século a uma ditadura comunista tem efeito positivo na economia no Brasil, imagine, então, os ganhos se o dinheiro do contribuinte brasileiro tivesse sido investido diretamente na melhoria dos atulhados e obsoletos portos do Brasil.

É difícil para Brasília explicitar os motivos reais da generosidade na reforma do Porto de Mariel. O que a indigente economia cubana tem para exportar que justifica o investimento brasileiro? Nada. O Porto de Mariel ficou mundialmente conhecido em 1980 pela exportação em massa de… gente.

Em apenas duas semanas cerca de 125 000 cubanos escaparam da ditadura castrista, que, pressionada pela miséria, suspendeu a proibição de abandonar o país. O episódio ficou conhecido como o Êxodo de Mariel.

Na impossibilidade de justificar o empréstimo a Cuba, a saída para o governo brasileiro foi classificá-lo como “secreto”. Os detalhes do projeto, portanto, só poderão ser conhecidos em 2027, dois anos antes do prazo final para Cuba quitar a dívida. É estranho que os negócios do governo do PT com Cuba e também com Angola sejam fechados em segredo.

Nem o Congresso Nacional tem acesso aos termos dessas transações. Dessa forma, até que esse conteúdo seja exposto à luz do sol, os brasileiros têm todo o direito de desconfiar das intenções desses projetos. Têm todo o direito de achar, por exemplo, que o que o Brasil fez foi simplesmente uma doação aos irmãos Castro. Ou coisa pior. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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