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26/03/2011

às 16:20 \ Bytes de Memória

Gaveta de presidentes: Costa e Silva me passou uma impressão de fragilidade física, que seria confirmada, pois um derrame encerrou seu mandato

A primeira entrevista do marechal Costa e Silva como "candidato" à Presidência, em 1966: os jornalistas Manuel Peres (de óculos escuros), da "Folha", Antonio Menezes, da UPI, e João Emílio Falcão, do "JB". Eu sou o magricela de óculos à esquerda (Foto: Adão Nascimento)

Publicado originalmente em 23 de janeiro de 2011

Amigos, como já escrevi antes, não tenho todo um vasto baú de presidentes, como ocorre com meu amigo Augusto Nunes em seu esplêndido blog. Passei parte da carreira na área internacional, e outros períodos em cargos executivos em empresas jornalísticas.

Mesmo assim, ao longo de minha longa trajetória profissional, tive oportunidade de ter contatos com vários presidentes, em diferentes circunstâncias. Continuo, assim, em ordem cronológica, os relatos que comecei há tempos e já incluíram JK e Castello. Confira aqui).

Brasília, longínquo ano de 1966. Começo de junho, uma tarde de céu azul sem nuvens, com a secura que se abate feio sobre o Planalto Central no meio do ano já dando seus primeiros sinais.

O cenário é uma ampla casa térrea, pintada de branco e decorada com a impessoalidade típica das residências oficiais e situada no Setor Militar Urbano – região do Plano Piloto de Brasília onde se concentra o grosso das guarnições militares da capital.

A grande sala de estar da casa, iluminada por amplos janelões, é onde o futuro presidente da República, o segundo desde a implantação do regime militar, marechal Arthur da Costa e Silva, concederá sua primeira entrevista à imprensa na condição de “candidato” – em eleição indireta, e sem concorrente.

A Executiva Nacional da Arena, o partido político inventado pelo regime, acaba de indicar oficialmente à convenção que se reunirá dias depois o nome do então ministro da Guerra – era assim que se chamava o titular da pasta do Exército, que desapareceria nos anos FHC sob o manto do Ministério da Defesa – para ser o candidato oficial à sucessão do marechal Castello Branco (1964-1967).

Na verdade, como se sabe, a Arena não mandava nada, e Costa e Silva, usando a força do cargo de ministro e sua ascendência sobre a chamada “linha dura” do regime, se impôs a Castello como candidato.

Coisa impensável na época: nada de perguntas proibidas

Por uma deferência especial ao pequeno grupo de jornalistas que fazia o difícil trabalho de garimpagem de notícias no dia-a-dia da área militar, o então tenente-coronel Oswaldo Oliva (futuro general-de-Exército e comandante da Escola Superior de Guerra), integrante da área de comunicação do Ministério da Guerra, conseguiu que o ex-ministro concedesse sua primeira entrevista já fora do cargo a esses quase anônimos operários da notícia, e não a figurões mais conhecidos do jornalismo político ou titulares de colunas em jornais e revistas.

Coisa rara, quase impensável naqueles tempos: Costa e Silva poderia ser entrevistado sobre qualquer tema, sem censuras ou perguntas proibidas, e não seria necessário submeter previamente as perguntas ao entrevistado ou a seus assessores .

O marechal entra na sala no horário combinado e, sorridente, cumprimenta, um por um, o magote de jornalistas.

Costa e Silva, contrariando os hábitos, não está fardado: usa terno escuro de listras discretas, camisa branca, gravata escura. Não tem os óculos escuros de praxe.

Vamos mastigar, pessoal, vamos mastigar”

O ministro da Guerra é pessoalmente afável, sorridente, atencioso. Garçons chegam com bebidas e salgadinhos. Costa e Silva, ele próprio com fama de bom de copo, e de olhos brilhando diante dos pequenos pratos, convida:

– Vamos mastigar, pessoal, vamos mastigar.

A conversa introdutória evolui para perguntas mais diretas, a entrevista começa sem solenidade e acaba acontecendo com todos de pé, inclusive o marechal. Dura por volta de uma hora, e vai ser manchete na televisão, à noite, e de todos os jornais do dia seguinte.

Apesar da liberdade de perguntar, o marechal driblou questões mais complicadas. No final, proferiu uma coleção de generalidades. A única grande novidade, que lembraria uma discussão do final dos anos 90 e início do século XXI, é a promessa do marechal de “humanizar” a política econômica de Castello, de rígido controle monetário e fiscal para conter a inflação e a gastança.

A intenção se mostraria consentânea com sua tentativa pessoal de humanizar a própria figura do presidente – daí, entre tantas outras coisas, a difusão do apelido “seu Arthur”.

Mas, declarado candidato antes do final de maio, e eleito bionicamente em outubro para a posse em março do ano seguinte, Costa e Silva seria um presidente confuso e fraco. Diante de crescentes manifestações de oposição, que iam do Congresso às ruas, e pressionado pelos quartéis, viria a decretar em dezembro de 1968 as trevas do Ato Institucional número 5. Como se viu, portanto, não humanizaria coisa alguma – pelo contrário.

A memória mais marcante que fica daquela entrevista não é seu conteúdo banal, mas o entrevistado e os surpreendentes sinais de vulnerabilidade física que ele transmitia, e que seriam confirmados depois.

Um senhor idoso — e ele era mais novo do que Caetano Veloso hoje

Visto de perto, Costa e Silva era um homem baixo, por volta de 1m70, de voz algo roufenha e titubeante. Embora de compleição maciça, mostrava-se lento nos movimentos, parecendo ter dificuldades para mover o pescoço e o tronco.

Com 66 anos, aparentava mais. E é inacreditável, para mim, constatar hoje que aquele senhor idoso, de certo modo frágil, que estava à nossa frente era mais moço do que Caetano Veloso, em plena forma na flor de seus 68 anos.

Muito tempo mais tarde, vários de seus camaradas diriam que a saúde do marechal já não era boa na época. No poder, ele teria uma trombose em agosto de 1969, seria substituído pela nefanda Junta Militar e viria a morrer a 17 de dezembro do mesmo ano.

Os militares preferiram eles próprios assumirem o poder, atropelando a Constituição já bastante restritiva que Castello obtivera do Congresso, em vez de permitir a posse do vice-presidente civil, Pedro Aleixo, velho e conservador político da extinta UDN mineira. Aleixo, liberal da velha guarda, cometera o pecado mortal de se opor à edição do AI-5.

Foi sucedido pelo trevoso general Emílio Garrastazu Médici, que assumiria a 30 de outubro daquele ano e governaria até 15 de março de 1974.

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26 Comentários

  • kitty

    -

    26/11/2013 às 17:53

    Tem gente muito grosseira, Ricardo. Meu apreço como desagravo…VEJA, a minha revista favorita de muitos anos!!! Um abraço-Kitty

  • kitty

    -

    26/11/2013 às 17:49

    Caro Ricardo, estarei fora de ar por 48 horas. Internet com falhas…não consegui entrar no Bytes. Vi as fotos que enviou hoje.. Estou na empresa de um amigo…////Um abraço-Kitty

    Isso acontece, internet com falhas. Logo você estará com tudo certinho.
    Um abração

  • Aldrei

    -

    6/4/2011 às 1:36

    Façamos um minuto de silêncio para este grande canalha e seu outros amigos(milicos de plantão) que tanto este pasquim de **** idolatra! Que tal?

    Se você, grosseiro e sem educação, se refere a VEJA, só mostra sua enorme, gigantesca ignorância sobre a história de seu próprio país. VEJA foi um dos únicos veículos da grande imprensa que sempre manteve postura crítica em relação à ditadura militar, foi censurada, teve uma de suas primeiras edições inteiramente apreendida, divulgou corajosamente episódios como o sequestro dos uruguaios refugiados em Porto Alegre pela sinistra Operação Condor, montada clandestinamente pelas ditaduras do Cone Sul, e o atentado do Riocentro, cometido por militares golpistas, além de ter publicado dezenas de reportagens mostrando abusos, violências e corrupção durante o duríssimo período da ditadura, com risco para a própria sobrevivência da empresa.

    Informe-se mais, seu ignorante.

  • JT

    -

    28/3/2011 às 15:47

    Caro Paulo Bento Bandarra, obrigado pela observação. Vamos corrigir a frase de acordo com ela:

    “Lula acreditava que – e se portava como se – isso ocorreria em breve, mas ainda levou uns dez anos para que seu projeto pessoal de se tornar presidente fosse consumado.”

    Prezado Ricardo Setti, estou tão desanimado com o futebol, que até para defender o Movimento Slowfoot fiquei sem motivação. Para me animar um pouco, vou recorrer ao passado novamente, para contar sobre uma partida inesquecível que joguei, num campinho com traves de eucalipto, cuja inclinação justificava a expressão “subir ao ataque”. Quando estiver pronto, mando o link.

    Cordiali saluti,
    Jean

  • Paulo Bento Bandarra

    -

    27/3/2011 às 16:59

    O comentário do Jean Tosetto bem poderia ter sido colocado no Post do Leitor.
    .
    Só uma correção importante: seu projeto JAMAIS FOI sacramentado. Se tivesse sido teria sido um desastre total. Felizmente ele fez o contrário de TUDO AQUILO que pregou e defendeu na sua longa vida de candidato eterno. Do bolsa família a globalização que sempre combateu.

  • Envelope (pardo) de presidentes: o dia em que vi Lula no estúdio do Programa do Jô

    -

    27/3/2011 às 11:15

    O Brasil tem muitos rincões, vilas e cidades pequenas, onde a possibilidade de conhecer pessoalmente um presidente é inversamente proporcional à distância que separa estes lugares dos grandes centros.

    Sempre morei numa cidade pequena. Passei a infância numa chácara, que era tão longe do centro que até o fuso horário poderia ser distinto. Mas, mesmo não sendo um jornalista, também tive a oportunidade de ver alguém que se tornaria presidente do Brasil, talvez o mais popular deles.

    Obviamente isso não aconteceu na porta de casa. Eu era aluno do segundo grau e minha escola organizou uma excursão para São Paulo. Iríamos aos estúdios do SBT acompanhar as gravações do programa “Jô Soares Onze e Meia”. Estávamos em 1992.

    Fomos esperar o ônibus fretado na entrada do colégio. Era um Mercedinho com seus bons 20 anos de uso. Os bancos eram de plástico vermelho, que pouco combinavam com as cortinas marrons das janelas. Tudo bem. Tudo era festa.

    Paramos num posto da Rodovia Bandeirantes para tomar um lanche. Na saída, um contratempo: o ônibus havia enguiçado. O motorista mexeu no motor e subiu no corredor: “Precisamos de homens para empurrar!”

    Pessoalmente, eu não tinha porte físico sequer para empurrar uma moto. Era tão magro que poderia usar o relógio de pulso na cintura da calça. Mas obviamente não me fiz de rogado. Fui lá atrás colocar minhas duas taquaras (braços) à serviço da coletividade. Com tanta gente para ajudar não percebi que fiquei junto do escapamento.

    De repente, um estouro! A nuvem preta de óleo diesel explodiu na minha cara! Cheguei em São Paulo parecendo um operário de mina de carvão. Tive que me lavar no banheiro das instalações do SBT, que ainda eram no bairro do Sumaré.

    A propósito, me decepcionei um pouco com o lugar, que parecia acanhado demais para servir um importante canal de televisão. Algo imperceptível para quem só recebe a imagem editada, em casa.

    Ficamos numa sala de espera. O Jô Soares gravava vários programas por dia, para passar durante a semana seguinte. Quando chegou a nossa vez de virar platéia, logo percebemos que o apresentador não fazia questão nenhuma de ser simpático. Antes de começar a gravar, ele deu um recado bem seco para a molecada. Não queria saber de espertinhos. Nada de risadas estapafúrdias. Nada de cochichos. Nada de chamar a atenção dos entrevistados. Com outros funcionários do estúdio, Jô Soares não agia tão diferente. Só quando as câmeras filmavam é que ele mudava o semblante, para aquele que estamos habituados a assistir.

    Naquela ocasião, o grande ator Paulo Autran também estava sendo entrevistado. Fiquei sabendo, por exemplo, que ele era advogado, antes de ir para o Teatro.

    Mas a grande estrela do dia (ou da noite) era mesmo o sempre candidato Lula. Vale lembrar que na época o presidente Fernando Collor já era uma espécie de cachorro morto na política, que o petista fez questão de não chutar. Como o Plano Real ainda nem havia sido forjado por Itamar Franco e Fernando Henrique, não havia no cenário nacional um nome mais forte para se eleger presidente em poucos meses.

    Logicamente Lula negou que já estivesse fazendo campanha. Ele sequer admitia ser chamado de candidato. Eram tempos em que ele percorria o Brasil. Era o trabalho dele: conhecer os rincões. Muita gente naquele estúdio já o idolatrava. Eram os jovens da geração cara pintada, da qual nunca fiz questão de participar, por considerar aquilo tudo uma coisa manipulada. Eu, que já convivia com bois no pasto do vizinho, ao abrir a porta balcão de meu quarto, não queria saber de ser conduzido como gado.

    Também não fui pedir autógrafo para ele, depois do encerramento das gravações. Mas reconheço seu grande carisma e magnetismo junto aos demais. Algo me dizia que, cedo ou tarde, ele seria presidente do Brasil. Lula acreditava que – e se portava como se – isso ocorreria em breve, mas ainda levou uns dez anos para seu projeto ser sacramentado.

    Depois disso, Jô Soares foi para a Globo, Lula foi para Brasília, e eu voltei para a minha cidadezinha – agora disposto a colaborar para o seu crescimento.

    Foi assim que preenchi meu envelope pardo de presidentes – o uso do plural no termo se justifica pelo fato de que ainda nutro uma esperança de conhecer outros. Sei que não tenho gabarito para encher uma gaveta, porém sonhar não paga imposto.

    Abraços do leitor e entusiasta da coluna,
    Jean Tosetto

  • JT

    -

    27/3/2011 às 9:27

    O jovem Setti amealhou uma gaveta de presidentes, uma escrivaninha de playmates, um escritório de amigos e um ministério inteiro de leitores.

    Você é sempre muito gentil e generoso para comigo, caro Jean.
    Quando puder, dê notícias do blog!
    Abraços

  • alvaro

    -

    27/3/2011 às 2:28

    E aquela velha história de que ele não era, digamos assim, muito inteligente?
    Conheço dezenas de piadas sobre a suposta falta de inteligência do ex-presidente.

    É o que se dizia, na época. Havia centenas de piadas a respeito. Durante o encontro com os jornalistas, naturalmente, não foi possível julgar esse item. Mas o marechal, definitivamente, não era um homem refinado e não me pareceu ter qualquer veleidade intelectual.
    Abraços

  • elizio

    -

    26/3/2011 às 22:05

    Caro Setti:
    completamente fora de tópico: não estou conseguindo acompanhar seu blog, por problemas sérios de saúde com pai e mãe.
    Mas nesse entremeio, aindo continuo lendo um pouco e, por aparentemente saber que gosta do tema, estou terminando e estou achando ótimo o livro Irmãos de Armas, de José Gonçalves e Cesar Campiani Maximiano, sobre a história de um pelotão da FEB na II Guerra Mundial. Achei alguma semelhança com o “Soldado Cidadão” de Sthepen E. Ambrosi.
    Receba um abraço e meu reconhecimento.
    elizio – Campo Grande – MS

    Caro Elizio, obrigado pela dica mas o principal que queria lhe dizer é sobre meus sinceros votos para que seus pais se recuperem completamente.
    Um abraço

  • Paulo Bento Bandarra

    -

    26/3/2011 às 21:00

    Esta coisa de humanizar é discutível. Uns dizem que processar os torturadores é pelos direitos humanos, outros que perdoar e esquecer é que é humano. Uns dizem que se deve voltar ao passado criando leis para punir aqueles que cometeram crimes contra a humanidade, (impedir o comunismo de avançar), outros dizem que ninguém pode ser punido por leis criadas depois, como o caso do Ficha Limpa. Como é fácil julgar-se certo e infalível!

  • Paulo Bento Bandarra

    -

    26/3/2011 às 20:43

    Acho que o melhor do seu artigo está nas suas respostas. Mais diretas e objetivas. Costa e Silva era tido como burro, e não falava inglês bem, sendo objeto de chacotas. Na verdade o discurso do deputado Márcio Moreira Alves foi a gota d’água de um processo que vinha se agudizando ao longo do tempo. Foi uma declarada declaração de guerra que o congresso fez e perdeu. Já em 61 tinha grupos que iam praticar treinamento em Cuba e armazenavam armas no país. Alexina Crespo, mulher de Francisco Julião, já tinha ido a China, e pedido financiamento para a luta armada e armamentos. O mesmo Mao que Jango visitava em 61, por qual motivo e inspiração? Haveria eleições para JK? É difícil de acreditar quando o presidente dizia que faria as coisas na lei ou na marra. Em 66 esta turma da luta armada já estava treinada e infiltrada atuando para criar as FARCs no país. Em 67 morria Che na Bolívia democrática. No plano internacional as coisas eram complicadíssimas. É difícil comparar pessoas e presidentes frente a situações diferentes e que não voltam mais. Figueiredo enfrentou uma época externa terrível, que com as suas medidas, outros presidente não enfrentaram as mesmas crises. A nossa dependência do petróleo era uma, hoje estamos em posições diferentes. Como comparar? Quando vemos em uma situação tranqüila como o atual Presidente apoiando ditaduras, ditadores, virando as costas aos direitos humanos, debochando de presos políticos e dissidente. Aí sim podemos ver o injustificável. Aí é fácil acertar, E, mesmo assim, se erra criminosamente. Alegar que estes que erram escandalosamente hoje acertariam no passado é ilusão.

  • Roberto P. Pedroso

    -

    26/3/2011 às 20:42

    Caro Ricardo,
    Realmente um “Post” Fantástico, é admirável o seu conhecimento principalmente por ter vivenciado todos estes fatos de muito perto. É uma verdadeira Aula!
    Sensacional também a forma gentil, simpática e educada que você trata seus leitores – Este é um fato extremamente raro em qualquer veículo de comunicação.
    Eu estava muito preocupado com você, pois achei que você andava meio chateado.
    Todos os dias entro neste seu espaço com a certeza que vou aprender mais sobre o nosso País.
    Forte Abraço,
    Roberto

    Caro Roberto, obrigado por seu comentário simpático. Não, eu não estou nem um pouco chateado, não haveria razão para isso. Estou é fora de SP em um lugar com uma certa dificuldade de comunicação que tem dificultado a atualização do blog com a constância que me agrada. Logo voltarei à plena normalidade.
    Abraço

  • Rodolfo

    -

    26/3/2011 às 16:49

    “Coisa impensável na época: nada de perguntas proibidas”

    Ricardo,
    Não lembra alguns ou algum partido que infelizmente nos governa por mais de 8 anos? Os Militares, quem diria, fizeram escola!
    Aliás, pelo menos eles foram muito mais corajosos e HONESTOS dos que hoje aí estão: fizeram o AI-5 às claras, enquanto alguns fazem o AI-5 por debaixo dos panos.

    Abraços.

  • carlos nascimento

    -

    24/1/2011 às 17:47

    Ricardo,
    Grato mais uma vez. Não vou tomar seu espaço.
    Agora, deve ter sido emocionante e de alta voltagem o episódio do fechamento do Congresso, vc lá dentro como repórter,vivenciando tudo, os deputados sendo presos, pena que hoje não prendam de outra maneira os CORRUPTOS que continuam por lá.
    Fico imaginando a fila de deputados e Senadores que seriam presos, caso fizessemos uma transposição de corpos – o presente para o passado – seria maravilhoso, imagine “sirnei” e seu séquito, sendo enfileirado rumo ao CAMBURÃO. OBRIGADO de coração.
    Carlos Nascimento.

    De nada, caro Carlos. Mas no dia 13 de dezembro não houve prisões no Congresso. Vários deputados e senadores seriam cassados e iriam para o exílio. O próprio Márcio refugiou-se numa embaixada naquela mesma noite. Tempos duros e tristes. Eu ouvi a leitura do Ato 5 no lotado gabinete do então líder do MDB, deputado Mário Covas.

  • carlos nascimento

    -

    24/1/2011 às 13:01

    Ricardo,

    O tema provoca bastante curiosidade, dentre os quais:
    - Vc acredita que um pronunciamento no Congresso de um Deputado – Se não estou enganado, foi Márcio Moreira – teria sido o estopim da Revolução ?
    - Como vc avaliou o comportamento dos EUA no processo de exceção no País ?
    - O acidente aéreo com o Presidente Castello foi uma fatalidade ?
    - O acidente rodoviário com o JK foi uma fatalidade ?
    - João Saldanha foi realmente detonado pelos militares e, o Dario “peito de aço” foi imposto pelo Médici à Seleção Brasileira ?
    - O episódio do Riocentro foi um divisor de águas dentro da cúpula militar, o Geisel ficou furioso ?
    - Quem foi o maior “baba ovo” dos militares, Maluf ou Delfim Neto ?
    DESCULPE PELO ABUSO, a questão é que o tema é apaixonante, apenas lendo os livros não tem a mesma graça.
    Carlos Nascimento.

    Caro Carlos, vamos por partes:

    1. O discurso do deputado Márcio Moreira Alves que despertou reações nas Forças Armadas se deu no segundo semestre de 1968, portanto anos depois de o regime militar ter se instalado, em 1964. O discurso serviu de pretexto para um golpe dentro do golpe, ou seja, para a decretação do Ato Institucional número 5, que eliminou as liberdades civis e inaugurou o período mais negro da história recente do Brasil. O governo pediu licença à Câmara para processar o deputado, a Câmara, depois de meses de grande tensão — eu estava lá, como repórter –, acabou negando a licença no dia 12 de dezembro de 1968. No dia 13, à noite, foi decretado o malfadado AI-5.

    2. Os Estados Unidos apoiaram o golpe por baixo do pano. Enviaram inclusive uma esquadra que ficou não muito distante do nosso litoral, para alguma eventualidade. Foi a chamada “Operação Brother Sam”, revelada pela primeira vez em público nos anos 70 pelo jornalista Marcos Sá Corrêa, no “Jornal do Brasil”. Publicamente, reconheceram logo o novo governo. Só muitos anos depois, quando o presidente Jimmy Carter chegou ao poder, que assumiu em 1977, os EUA esfriaram com os militares por causa da política de direitos humanos do novo presidente. Em consequência das críticas americanas às violações de direitos praticadas na época no Brasil, o presidente Ernesto Geisel acabou suspendendo um acordo militar que o país tinha com os EUA.

    3. O acidente aéreo com o marechal Castello tudo indica que foi uma fatalidade. E o mundo é pequeno: o piloto do avião militar que se chocou contra o avião que conduzia o ex-presidente era irmão do futuro ministro da Fazenda de FHC, Pedro Malan, cujo pai foi um general importante, e moderado, durante o regime militar, o general Souto Malan.

    4. Sobre o acidente rodoviário com JK ainda pairam dúvidas. Pessoalmente, e sem ser adepto de teorias conspiratórias, não me convendi dos resultados periciais e outros. Que fim triste e doloroso teve o ex-presidente!

    5. Não, Saldanha saiu porque se indispôs com os dirigentes da seleção e estava atritado com muita gente. Médici não escalou o Dadá Maravilha, até porque ele não atuou no time.

    6. O episódio do Riocentro, ocorrido em 1981, foi um divisor de águas no regime militar, sim. E o presidente não era mais o general Geisel (1974-1979), mas o general Figueiredo (1979-1985), cuja omissão no episódio decretou sua desmoralização, levou à saída do governo de seu mais importante estrategista, o general Golbery do Couto e Silva, e fez com que o presidente começasse um processo de depressão que o levaria a ter problemas cardíacos.

    7. Foram muitos, foram incontáveis os puxa-sacos dos principais integrantes do regime militar. Difícil indicar o maior. Entre os dois que você citou, inquestionavelmente foi Maluf.

    Um abraço

  • Miguel Alves pereira Jr

    -

    24/1/2011 às 10:16

    Prezado Ricardo

    Se não me engano Ministro da Guerra foi uma denominação de caiu em desuso antes da era FHC, no primeiro Governo da Revolução.
    Acho que Ministro do Exercito foi a denominação usada após a de Ministro da Guerra, e na era FHC, então Ministro da Defesa

    Vamos lá, caro Miguel. O Ministério da Guerra mudou de nome muitíssimo antes da era FHC. Foi ainda durante o regime militar. Não tenho no momento a data exata, mas certamente não foi no primeiro governo da “revolução”, porque o segundo presidente do ciclo militar, marechal Costa e Silva, era, justamente, ministro da Guerra quando deixou o posto para suceder ao marechal Castello Branco. E, sim, o novo nome adotado foi o de Ministério da Guerra.

    Na era FHC ocorreu a importantísima mudança que foi a criação do Ministério da Defesa, com o fim dos ministérios e dos ministros militares. Agora, os comandantes das Forças Armadas — Exército, Marinha e Aeronáutica — e o chefe do que até pouco tempo era o Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA) não são mais ministros, e se reportam ao ministro da Defesa, que por sua vez se reporta ao ou à presidente da República. Ele ou ela, no caso de Dilma, segundo a Constituição, é o comandante supremo das Forças Armadas, tal qual ocorre nos Estados Unidos.

    Abração

  • Paulo Cesar Ferreira

    -

    23/1/2011 às 23:44

    O melhor Governante que o Brasil já teve foi Pedro II, o melhor presidente, Médici e o pior… disparado LULA!

    Gosto não se discute, não é mesmo, caro Paulo César? Sua opinião, democraticamente, está registrada aqui. Volte sempre e um abraço.

  • SergioD

    -

    23/1/2011 às 22:50

    Ricardo, comento agora a resposta sua ao comentário do leitor Luiz Fernando. O livro do Bojunga sobre o JK é sensacional. Traduz com precisão o ambiente político carregado da época. A cada página dá para sentir a tensão política em que viviam JK, Lacerda e outros. Poucos livros que já li tiveram a capacidade de transmitir essa sensação.
    Para conhecer o outro lado, adquiri recentemente o livro DEPOIMENTO, de Carlos Lacerda, baseado numa grande entrevista dada ao Jornal da Tarde e ao Estado de São Paulo meses antes de sua morte.
    Você não imagina como Lacerda foi um marco divisório em minha família. Meu pai sempre foi seu profundo admirador, enquanto minha avó materna, que amava meu pai como a um filho, o detestava. No entanto, assistia todos os seus pronunciamento pela TV, sempre com o seguinte comentário: Eu detesto esse sujeito, mas que ele fala bem, ela fala.
    Quanto aos Presidentes baixinhos, acho que Ernesto Geisel estava bem acima dessa média, não?
    Um abraço e boa noite.

    Caro SergioD, você sempre enriquece o blog com seus comentários. Realmente, o caso JK x Lacerda daria margem a vários livros. Só Freud explicaria. Mas ainda me lembro, com emoção — eu era um jovem jornalista e cobria as atividades desse pessoal –, da “Frente Ampla” que Lacerda tomou a iniciativa de formar para fazer frente ao regime militar. Ele, que passou boa parte de sua carreira odiando publicamente JK, falando mal dele, se opondo ferozmente a seu governo, teve a extraordinária grandeza de procurar o ex-presidente, estender-lhe a mão — que a grandeza de JK levou a aceitar — para começarem a conversar sobre a volta da democracia no Brasil. Lacerda também estendeu a mão a outro inimigo figadal, eterno, indestrutível (aparentemente), o ex-presidente João Goulart. A Frente Ampla não andou muito, pois JK morreu num acidente estranho, em 1976, e o Grande Tribuno (ninguém nega a Lacerda o fato de ter sido um dos maiores oradores da história da República) faleceu precocemente, em 1977.

    O livro “Depoimento”, a que você se refere, é um precioso documento histórico. Felizmente, tenho em minha biblioteca — mas confesso que não tive a oportunidade de ler. É um dos que está na imensa fila de espera…

    Abração

    Eu tive a oportunidade de acompanhar um pouco as atividades da Frente Ampla como repórter político em Brasília. O então deputado Renato Archer, muito ligado a JK, era uma espécie de porta-voz do movimento, ia sempre ver JK na Europa, reunia-se com Lacerda e Jango etc.

  • Marco

    -

    23/1/2011 às 20:15

    Caro R. Setti: tu é o mais alto ? To achando q quem gosta de poder é só baixinho, um dia desses podia fazer essa pesquisa sobre altura dos presidentes na coluna dos números.
    Abs.

    ÓTIMA IDÉIA, caro Marco. Temos uma tradição de só ter presidente baixinho, rapaz! Eu tenho 1m87, quando não estou encolhido…
    Abração

  • Marcos Aarão Reis

    -

    23/1/2011 às 19:51

    Caro Setti, o general Medici pode ser considerado trevoso hoje, pois no governo alcançou índice de popularidade [82%] quase igual a que Lula ostentou ao final do seu segundo mandato [87%].

  • SergioD

    -

    23/1/2011 às 18:20

    Ricardo, meu computador deu um probleminha e acabei mandando dois comentários. Favor considerar somente o segundo.
    Um abraço.

  • SergioD

    -

    23/1/2011 às 18:16

    Ricardo, excelente esse seu post. Traduz a idéia que tenho do ex-presidente Costa e Silva, um presidente fraco e sem capacidade de decisão. Certamente a doença já se fazia notar pois essa postura foi muito diferente do ministro da Guerra que se impôs ao Presidente Castello Branco. Quanto ao Ministro Jarbas Passarinho, citado por um dos seus leitores, vale a pena rever a entrevista dada por ele ao Geneton Moraes Neto na GLOBONEWS.

    Obrigado pelo elogio, amigo SergioD. Quanto à entrevista com o Passarinho, obrigado pela dica. Eu a assisti. E veja como o mundo é pequeno: sem qualquer tipo de conotação política, minha velha mãezinha foi amiga da falecida esposa do ex-ministro, dona Ruth Passarinho. Elas faziam um trabalho de caridade costurando para famílias pobres. Sempre achei Passarinho um homem muito inteligente, mas divergi de suas ideias. A última vez em que conversei longamente com ele já faz tempo, foi quando ele era ministro da Justiça do então presidente Fernando Collor.
    Abraços

  • luiz fernando

    -

    23/1/2011 às 17:34

    Obrigado por abrir sua gaveta. Estava ansioso por ler mais um post que me remete a uma época distante e saudosa. Que JK fez para atrair a antipatia, ou fúria, dos militares?

    Obrigado por suas boas palavras sobre a gaveta. A coisa contra JK era antiga, remontava aos militares antigetulistas (JK foi de alguma forma ligado a Getúlio, que tinha sempre um pé no PTB e outro no PSD). Alguns setores não gostavam de sua posição “passiva” ante os comunistas, que o apoiavam por baixo do pano. Outros o acusavam de ser um grande corrupto — coisa que o modestíssimo inventário feito depois da morte do ex-presidente revelou ser a grande mentira que sempre se contou sobre ele. Fica difícil explicar na resposta a um comentário. A propósito, recomendo um ótimo livro sobre JK lançado há não muito tempo, escrito pelo jornalista Cláudio Bojunga: “JK — O Artista do Impossível”. Talvez o melhor livro já publicado sobre o ex-presidente tão amado até hoje por muitos brasileiros.

  • carlos nascimento

    -

    23/1/2011 às 17:04

    Caramba, uma aula em poucas palavras,não vou abusar, dá vontade de esticar isso, fico pensando – não seria um desperdicio – nossas Universidades não o requisitarem para proferir palestras, em vários temas, tenho certeza que estamos diante de um POLIGLOTA cultural de altissimo nível.
    Ricardo, lhe devo desculpas, por ter sómente agora descoberto tamanho diamante cultural, vc não poderia ter ficado tanto tempo ausente do País, a sorte dos atuais politicos é que seu coração é bastante generoso, concede o direito do perdão em demasia, se vc tivesse uma verve de indignação contra esses imorais, seria imbativel.
    Estou aprendendo e espero aprender mais ainda, diariamente, quando abro a página de sua Coluna.
    Resta-me dizer MUITO OBRIGADO !
    Carlos Nascimento.
    Quem diz muito obrigado sou eu, caro Carlos. Abração

  • Thales

    -

    23/1/2011 às 15:13

    Vc pode não ter um repertório presidencial grande tanto quanto do Augusto Nunes, mas a sua “gaveta dos presidentes” é excelente.
    São posts como esse que enriquecem ainda mais o seu blog; atualmente são poucos os jornalistas que tratam a ditadura como ela deve ser tratada: um período político “duro” mas não tão infernal como uns pintam e bordam.
    Esta sua seriedade que me impressiona muito, mais uma vez só me resta te dar os parabéns!

    Muito obrigado, de coração, por suas palavras generosas, caro Thales.

    Um grande abraço

  • carlos nascimento

    -

    23/1/2011 às 14:56

    Ricardo,

    Vejo que vc poderá doravante ser minha fonte de consultas sobre à epóca da Revolução Militar, já vou começar então minhas perguntas:-
    a)- O golpe militar era necessário, o Brasil estava realmente fora dos trilhos ?
    b-)- Vários interlocutres que tenho conversado me dizem maravilhas do Gen.Castelo Branco, afirmam que suas idéias eram boas, apesar de militar, tinha consciência de que o caminho da Democracia deveria logo ser restaurada. Qual sua visão sobre tudo isso e, em especial do Castelo Branco ?

    b)- Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, dos cinco, qual verdadeiramente foi o melhor Presidente e qual foi o pior ?
    Já voto no pior,Figueiredo !
    c)- Voltando ao Passarinho – lembra – êle quase chega à Presidente, tinha uma corrente que queria lançá-lo, outra preferia o Figueiredo, que acabou vencendo, até hoje acho que se o Passarinho tivesse sido Presidente o PAÍS teria tido outro rumo, para melhor, o que vc pode comentar sobre isso ?
    d)- Aponte se possivel, um ponto positivo da era militar e um ponto negativo (não vale o cerceamento à liberdade de expressão, outro tema) ?

    Espero não estar abusando do meu caro amigo.

    Carlos Nascimento.

    Em homenagem a leitor tão fiel como você, vamos lá, caro Carlos:

    1. Para mim, um golpe militar nunca é “necessário”. Sou cegamente a favor do respeito às instituições. Havia como mudar os rumos do governo completamente ineficaz, perdido e bagunçado de João Goulart. Bastava esperar o início da campanha eleitoral, em que JK enfentaria Carlos Lacerda nas urnas. Mais alguns meses e a campanha já estaria nas ruas. O problema é que militares radicais não queriam nem pensar na volta (provável) de JK. O golpe também foi contra ele, o presidente Juscelino.

    2. O marechal Castello era um homem preparado e culto. Fez um trabalho de saneamento das finanças públicas, organizou vários setores do país — criou o arcabouço do Sistema Financeiro, o Banco Central, o Sistema Nacional de Habitação, estabeleceu-se o planejamento econômico etc. Suas eventuais boas intenções democráticas, se é que as houve, foram sobrepujadas pela chama “linha dura” do regime, que impôs como seu sucessor o ministro da Guerra, general (e depois marcehal) Arthur da Costa e Silva. A linha “castelista” perdeu a batalha pela sucessão. Mas no governo Castello se cometeram muitos abusos e violências, infelizmente.

    3. O pior presidente em que aspecto? No terreno dos direitos humanos, sem dúvida, Médici. Na soma geral de incompetências e realizações, acho que Costa e Silva e Figueiredo se equivalem, embora o primeiro tenha governado apenas dois anos e pouco, e Figueiredo seis longos anos.

    4. Passarinho era (e é) homem inteligente, culto, com ideias claras sobre o país e seu lugar no mundo. Sempre foi considerado um bom quadro do regime militar. Mas, diferentemente do que você pensa, jamais foi cogitado como presidenciável pelo regime, por uma razão muito simples: ele era coronel da reserva, e para o regime militar era absolutamente impensável que um coronel fosse o comandante supremo das Forças Armadas, superior hierárquico de generais-de-Exército e seus equivalentes na Marinha e na Força Aérea. O presidente precisava ser um oficial-general de quatro estrelas, e sempre do Exército, a força principal entre as Forças Armadas.

    5. Um ponto positivo do regime militar, sem a menor dúvida, foram os pesados investimentos em infraestrutura, começando pelas telecomunicações.

    Abração e bom domingo.

 

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