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Austrália enfrentou o mês de janeiro mais quente de sua história

OCDE acusa o país de não reduzir uso de combustíveis fósseis; omissão na área ambiental é uma das causas do calor 'sem precedente´

A Austrália registrou o mês de janeiro mais quente da história, com as temperaturas médias ultrapassando os 30 graus pela primeira vez. A onda de calor não teve precedentes, segundo o  Escritório de Meteorologia do país.

Pelo menos cinco dias de janeiro estão entre os 10 mais quentes já documentados, com máximas que chegaram aos 40 graus. As condições causaram incêndios florestais, com vítimas fatais, e aumento de internações em hospitais de alguns estados australianos.

Mais de 90 cavalos selvagens morreram por causa das condições climáticas atípicas. A última quinzena de temperaturas altas também causou a morte de mais de um milhão de peixes pela seca no estado de Nova Gales do Sul.

As medições superaram as de 2013, quando a onda de calor foi considerada a pior da história da Austrália. Em 2018, Sydney já havia enfrentado uma tarde com 47,3 graus, o dia mais quente registrado desde 1939.

“A tendência ao aquecimento que fez a média de temperatura australiana aumentar mais de um grau nos últimos 100 anos é a mesma que contribui para as condições atípicas de calor”, disse o climatologista Andrew Watkins à rede britânica BBC. 

Autoridades informaram que 2017 e 2018 foram, respectivamente, o quarto e o terceiro ano mais quentes já registrados no país. Ontem, o mapa de calor da Windy.com indicou que a Austrália era o lugar mais quente do mundo – fato lamentado pela população local nas redes sociais.

Mesmo que a variação de temperatura esteja dentro do acertado no Acordo de Paris, que traz compromissos dos países para evitar o aumento previsto de até 2 graus na temperatura média do planeta no final deste século, em relação à da era pré-industrial, os cientistas acreditam que a Austrália enfrente uma tendência perigosa.

A parte leste do país sofre com a pior estiagem da história recente, e milhares de cidadãos tiveram de deixar suas casas para fugir dos incêndios de Queensland, em novembro do ano passado.

Além disso, quando as temperaturas ultrapassam os 40 graus, o corpo humano começa a sofrer exaustão. Acima dos 41 graus, funções biológicas param de ser desempenhadas. Alertas de saúde foram emitidos por toda a Austrália, aconselhando as pessoas a permanecerem em ambientes fechados nos horários de pico de calor, minimizarem suas atividades físicas e intensificarem a hidratação.

Enquanto as atuais condições causam problemas aos australianos, cientistas alertam que pode ser apenas o início, se nenhuma ação for tomada para frear as mudanças climáticas. Michael Grose, pesquisador do Centro de Ciência Climática, disse à CNN que a cidade de Adelaide, por exemplo, pode enfrentar até 22 dias com temperatura acima dos 40 graus a cada ano, no pior cenário projetado.

“Mesmo que a emissão de CO2 diminua, nós esperamos ver um aumento no número de dias com recorde de calor”, afirmou Grose.

Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou um relatório contundente sobre as políticas ambientais australianas. Intimando o governo do país a proteger melhor a “rica biodiversidade” de seu território e a reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, acima da média global, o comunicado afirmou que a Austrália caminha para não cumprir as metas do Acordo de Paris.

“O país irá falhar em cumprir suas metas de emissão para 2030 se não houver um grande esforço para a implantação de um modo de funcionamento à base de baixo-carbono”, afirmou a OCDE.

O primeiro-ministro australiano Scott Morrison, líder do Partido Liberal, defendeu suas políticas contra mudanças climáticas em janeiro, dizendo estar comprometido a combater o problema globalmente. Morrison ficou conhecido por ter levado um pedaço de carvão para o Parlamento, quando era Tesoureiro do país, em fevereiro de 2017, e pedido aos membros da oposição que “não tivessem medo.”

Especialistas e ativistas ambientais, assim como o Partido Trabalhista, insistem que a Austrália está sendo omissa. Uma pesquisa da empresa local Essential Vision, feita em dezembro de 2018, mostrou que 53% dos australianos estavam convencidos que o país “não estava fazendo o suficiente” para combater as mudanças climáticas.