Clique e Assine VEJA por R$ 9,90/mês
Continua após publicidade

Por que o vinho francês está virando álcool em gel

Com uma imensa reserva acumulada na pandemia e a nova safra chegando, os vinicultores europeus estão tendo de transformar a bebida em outro produto

Por Julia Braun Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 4 jun 2024, 15h46 - Publicado em 7 ago 2020, 06h00

Nas vinícolas da Europa, o clima é de desolação, e não é (só) por causa do novo coronavírus. “Parte o nosso coração”, suspira Alexandre They, presidente da Federação de Produtores Independentes de Vinho da região de Aude, no sul da França, referindo-se aos caminhões-pipa que vão passando e recolhendo litros e litros de bom vinho francês, prontinho para ser consumido. Seu destino é a destilaria mais próxima, onde a bebida vai virar álcool industrial e, eventualmente, ser convertida em álcool em gel, para higienizar mãos e superfícies em tempos de Covid-19. Com a nova safra a caminho, a saída dos vinicultores está sendo dar esse destino meritório mas inglório a um estoque calculado em 1 bilhão de litros em todo o continente.

A transformação do vinho em álcool entrou na conta da Destilação de Crise, mecanismo usado em outras ocasiões, embora nunca em tão grande escala, pelo qual a produção perdida é subsidiada à base de menos de 1 euro por litro — pouco, mas melhor do que nada. O programa é financiado em conjunto pelos governos e pela União Europeia, que neste ano lhe destinou 155 milhões de euros. Evidentemente, os rótulos consagrados não estão nessa dinâmica. “Os produtores dão um destino à bebida estocada, têm a chance de regular a produção dos próximos anos e podem até reduzir a área de plantio, o que também é subsidiado pela UE”, expli­ca Philippe Bontems, especialista em setor alimentício da Escola de Economia de Toulouse. Na França, 33 destilarias estão trabalhando a pleno vapor para dar conta da demanda — só na Alsácia, uma das regiões mais atingidas pela crise, 5 000 vinícolas estão se desfazendo de estoques.

PRESSA - Vinhedo na Espanha: o tempo ensolarado resultou em colheita precoce – (Jaime Reina/AFP)

A indústria francesa de vinhos já vinha sentindo o baque da sobretaxa de 25% imposta no fim do ano passado pelo governo de Donald Trump, em represália à aprovação de um novo imposto sobre transações digitais na França que afetou as grandes empresas americanas de tecnologia. Com a quarentena, o fechamento dos bares e restaurantes e o adiamento das festas de casamento e outras reuniões sociais abriram um buraco nas vendas que nem a alta do consumo em casa, estimulada pelo confinamento, preencheu. “A indústria europeia é muito dependente dos restaurantes, porque é neles que os vinhos mais caros são vendidos”, diz Nikolaos Georgantzís, da Escola de Admi­nistração da Borgonha, em Dijon.

Continua após a publicidade

Esperar a pandemia passar para vender o excedente não é opção, dizem os especialistas, porque a súbita inundação do mercado com o produto causaria uma derrubada nos preços. A crise atinge sobretudo os pequenos produtores, que enfrentam o dissabor adicional do cancelamento das feiras onde costumam fazer a maior parte de seus negócios. Além de tudo, existe um problema que não é problema: a safra deste ano, beneficiada pelo tempo ensolarado, foi precoce e abundante, o que tornou mais premente a necessidade de espaço para a nova produção. “Vinho requer um ano de trabalho e um ano de cultivo, e não gastamos esse tempo todo para vê-lo virar álcool. Mas agora não teve outro jeito”, lamenta They. Resta abrir uma garrafa, erguer um brinde ao álcool em gel e seguir em frente. Santé!

Publicado em VEJA de 12 de agosto de 2020, edição nº 2699

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 9,90/mês*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 49,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.