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‘USS Callister’ vai de sátira de ‘Star Trek’ a terror psicológico

Episódio de 'Black Mirror' usa o mundo virtual como fuga da realidade e espaço para vingança

U.S.S. Callister, primeiro episódio da quarta temporada de Black Mirror, promete ser um divisor de opiniões — como foram alguns dos melhores e mais controversos títulos da série, caso de Queda Livre, Urso Branco e San Junipero. Entre suas qualidades está a óbvia sátira ao universo Star Trek. A trama começa com uma tripulação de atuação exagerada, a bordo de uma nave espacial, lutando contra um caricato vilão cabeludo, envolta por antiquados efeitos especiais. Os figurinos anos 1960 e 70 e o cenário destoam do restante da série, ambientada majoritariamente em futuros próximos, distantes e, por vezes, distópicos.

O estranhamento passa quando se descobre que, fora dali, o capitão da nave é Robert Daly (Jesse Plemons, de Fargo e Breaking Bad), programador que desenvolveu um ambiente em que mistura inteligência artificial e realidade virtual, em que o jogador imerge em um universo paralelo. De dia, Robert sofre com o sócio da empresa (Jimmi Simpson, de Westworld), um chefe irritadiço, sempre pronto a humilhar o colega, e com o restante da equipe, que também não faz questão de tratá-lo com respeito. Durante a noite, o programador foge para seu mundo particular, em que todos os mesmos personagens, que o rechaçam no trabalho, agora o admiram: o chefe abusivo vira capacho, as mulheres o desejam, enquanto as aventuras intergalácticas saem ao seu gosto e desfecho.

O que parecia ser uma trama sobre um clássico caso de solidão e bullying, com refúgio na imaginação, ganha contornos mais sombrios quando Nanette Cole (Cristin Milioti, de How I Met Your Mother) chega à nave. Aparentemente inofensivo, o jogo, na verdade, lança mão de cópias criadas a partir do DNA de seus personagens. Ali, eles são não só avatares virtuais, mas seres com anseios, memória, desejos, dores e medo. Robert deixa o papel de vítima e se mostra um tirano assustador, ciente do sofrimento que causa aos seus prisioneiros.

São muitas as metáforas que podem ser lidas nas entrelinhas do episódio. Assédio sexual em ambiente de trabalho é uma delas, já que Nanette é a única que demonstra simpatia pelo criador do jogo, logo, seu aprisionamento não representa um aspecto de vingança, mas sim de satisfação de outro tipo de desejo de Robert. Sob uma ótica mais leve, a trama faz uma crítica aos exageros dos fãs de cultura pop. Na ponta mais distante e séria, revela os problemas de um mundo governado por homens imaturos e opressores. É necessário, contudo, um olhar sobre os comportamentos apresentados de ambos os lados das telas, que dividem o real do virtual. É sob o anonimato das redes, e da distância das leis, que pessoas se sentem confortáveis para destilar o seu pior.

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