Blogs e Colunistas

31/01/2015

às 14:10 \ Economia

Não somos Joaquim Levy

Por Rubem de Freitas Novaes*, publicado no Instituto Liberal

Segundo relato da imprensa, Joaquim Levy, o “Chicago-boy”, passou a ser o queridinho de Davos e do “mercado financeiro”. Aqui no Brasil, economistas representativos de nossa esquerda desenvolvimentista já se insurgem contra a adoção, pelo PT, de um projeto considerado neoliberal, antecipando uma posição de oposição ao segundo governo Dilma. Cabem, portanto, alguns esclarecimentos sobre a Escola de Chicago, onde Levy conquistou o seu PhD em Economia, e sobre o pensamento liberal, em geral.

Nestes 45 anos que se passaram desde a criação do Prêmio Nobel para economistas, nada menos que 30 professores laureados eram de alguma forma associados à Universidade de Chicago, campeã do liberalismo. Milton Friedman e Friedrich Von Hayek, ex professores da Escola, só ficam atrás de Karl Marx, Adam Smith e John Maynard Keynes nas citações na literatura, o que os coloca entre os cinco economistas mais influentes da História. Milton Friedman é considerado por muitos como “o economista do século XX”. Chicago influenciou a revolução liberal da segunda metade do século passado, ajudando a moldar a política econômica de Reagan e Thatcher e dando as bases para o processo de globalização que viria atingir inclusive a China. Aqui, na América Latina, colegas de Levy, orientados por professores de Chicago, transformaram o Chile, de um país apenas mediano na década de 70, na economia mais rica da região em termos per capita e no país menos corrupto, já que a redução com simplificação do Estado é a melhor receita para o combate da corrupção.

Não podem restar dúvidas de que as propostas até agora apresentadas por Levy representam um expressivo avanço sobre a balbúrdia em que se transformou a nossa política econômica depois de estabelecida a “nova matriz” dos heterodoxos instalados no poder. Afinal, para onde quer que olhássemos, o quadro era preocupante. Até nas reservas externas, área onde dispomos de razoável grau de liberdade, passamos a correr riscos, caso não se alterasse a percepção das agências de “rating” em relação ao Brasil. Levy, sem dúvidas, pelo menos no mundo das expectativas, mudou o quadro para melhor. Mas, será que age como um legítimo Chicago-boy?

O ministro, na verdade, torna-se criticável nas hostes liberais por ter aceito um papel secundário: o de fiscalista apenas, que lhe impedirá de comandar medidas de base capazes de realmente resolver sérios problemas econômicos, segundo o que aprendeu e parece acreditar. Levy transmite a impressão de ter ficado num pragmático meio termo, que permite sobrevivência num ambiente político hostil, mas que impede a confiança em dias gloriosos no futuro.

Que a redução de subsídios via crédito, a eliminação da contabilidade criativa, o respeito maior ao sistema de preços livres como sinalizador de produção, investimento e consumo etc. representam importante progresso em relação ao passado recente, não restam dúvidas. Mas, o que dizer do aumento de impostos num país em que a carga tributária já atinge 37% e as despesas públicas 40% do PIB, quando muitas outras medidas de redução de gastos e de privatização poderiam ser tomadas, quando menos para oferecer o bom exemplo?

Como justificar o dreno de mais recursos do setor privado quando temos 39 ministérios, diversas agências públicas inchadas e/ou desnecessárias, funcionários públicos em excesso e com remuneração acima da realidade de mercado, oportunidades várias de venda de ativos e de barateamento de obras públicas etc. etc.? Queremos propostas realmente estruturais como uma reforma da previdência nos moldes do Chile, mudanças nas regras que regem e emperram o setor de petróleo e de energia em geral, maior liberalização do comércio, com abertura de novas frentes no exterior e a flexibilização da legislação trabalhista, mas parece que, de Levy, deixado de fora do núcleo duro palaciano, o que se espera é um simples papel fiscalista, mais para “mão de gato” que “mão de tesoura”. E sabemos que uma obra incompleta, um meio-termo cinzento, pouco fará por nosso futuro. Mais sério: permitirá mais uma vez que se debite, a uma política liberal nunca implantada, o insucesso que provavelmente virá.

Em suma, Levy, dentro das limitações que lhe são impostas, tem se mostrado um profissional diligente e competente, mas está longe de defender e bem representar os ideais liberais. Quem sabe um dia seja capaz de fazê-lo? Mas, enquanto isso, “não somos Joaquim Levy!”.

*O autor, 69 anos, é PhD em economia pela Universidade de Chicago e colaborador do Instituto Liberal-RJ. Foi professor da EPGE/FGV, diretor do BNDES e presidente do SEBRAE.

31/01/2015

às 13:29 \ Economia

O milagre econômico

“As condições físicas abrem possibilidades, erigem obstáculos, mas não criam civilizações, que são puro produto do espírito.” (Pierre Gourou)

Alain Peyrefitte foi ministro de vários governos franceses no pós-guerra, diplomata e deputado, além de membro da Academia Francesa. Ele escreveu vários livros, entre eles Os “Milagres” na Economia, notas de aulas pronunciadas em 1994 no Collège de France, onde procura analisar as principais causas do desenvolvimento econômico. Peyrefitte começa logo reconhecendo a dificuldade da etologia, por conta de sua incômoda situação de abordar toda espécie de campos de pesquisa sem ser especialista em nenhum deles. No entanto, há o risco oposto de quem foca demais nas árvores e não consegue enxergar a floresta.

Um dos primeiros obstáculos na análise do desenvolvimento surge na dificuldade de se reconhecer uma diferença de capacidades, ainda que seja estritamente cultural. Conforme diz Peyrefitte, “admitir que nossos atrasos ou nossos fracassos têm a ver com o que temos de mais íntimo, nossa educação, nossas influências mentais, o que recebemos dos nossos, de nossos pais, de nosso grupo, é humilhante”. O mea culpa honesto não é tarefa trivial, e afasta muitos da sincera busca da verdade. “Para um país subdesenvolvido”, continua o autor, “é mais reconfortante culpar a natureza do solo, ou o regime dos ventos, ou o imperialismo colonialista, ou o do Fundo Monetário Internacional”. Em resumo, parece mais confortável explicar o avanço ou atraso do desenvolvimento pela geografia do que pelas mentalidades. Mas isso não quer dizer que seja mais correto.

O materialismo histórico ignora totalmente este fator fundamental. Na prática, profundas resistências mentais tornaram ineficaz, ou até negativa, a transferência de técnicas de produção e gestão para países pobres. Peyrefitte entende que, “da mesma forma que não se muda uma sociedade por decreto, não se faz ‘decolar’ uma economia, impondo-lhe um modelo copiado do exterior”. O desenvolvimento não é facilmente reproduzido, como a experiência atesta. É preciso, portanto, descobrir o segredo de sua força desencadeadora. Para Peyrefitte, esse segredo encontra-se em uma mentalidade favorável à economia. A democracia, por exemplo, não se limita a instituições, mas exige um espírito público apto a fazê-las valer. O fator cultural, em outras palavras, é determinante na influência do atraso ou progresso econômico. Peyrefitte admite que “seria inútil isolar um fator pretendendo que ele explicasse tudo”. “Mas parece útil”, ele diz, “entre os numerosos fatores da evolução, sublinhar a importância daquilo que nosso materialismo ingênuo negligencia: o comportamento humano”.

Objetivando, antes de tudo, identificar uma economia não-desenvolvida, Peyrefitte estabelece alguns traços predominantes: é uma sociedade imóvel (a mobilidade social e profissional é suspeita ou mesmo proibida); uma sociedade hostil à inovação (a novidade é sentida como uma desordem); uma sociedade fragmentada (o grau de heterogeneidade impede o estabelecimento de uma verdadeira economia de trocas); uma sociedade intolerante (exerce forte censura sobre seus membros e a autonomia intelectual é considerada uma ameaça); uma sociedade obscurantista (a difusão do livro e da imprensa é reservada à camada favorecida); uma sociedade sob tutela (comandada por feudos que controlam as atividades sociais, com uma casta no poder que “sabe” melhor que os indivíduos o que lhes deve ser conveniente); uma sociedade dominada (a produção das riquezas está nas mãos dos detentores do poder político); uma sociedade de saúde precária (uma mortalidade elevada é aceita com fatalismo); uma sociedade supernatalista (a mortalidade infantil é compensada por uma fecundidade irresponsável); uma sociedade de penúria (grande proporção não dispõe de um mínimo vital e não está ao abrigo da miséria e da fome); e uma sociedade fechada (a recusa das trocas condena a sociedade ao recuo e à xenofobia). Claro que uma sociedade desenvolvida seria o contrário disso tudo.

Peyrefitte deposita enorme relevância no conjunto das disposições mentais, o fator imaterial que foi negligenciado por diversos economistas, como Keynes e Marx. “O ambiente cultural forma um húmus sobre o qual algumas plantas podem crescer, enquanto que outras ressecam”. Falando para seus concidadãos franceses, que muitas vezes alimentam um profundo ressentimento em relação aos ingleses, Peyrefitte vai direto ao ponto: “Repugna-nos admitir que se a Grã-Bretanha industrializou-se primeiro, não foi essencialmente porque ela possuía carvão – como muitos outros países – mas porque encontravam-se, ali, mais que alhures, pioneiros capazes de utilizar seu carvão”. Como muito bem colocou Pierre Gourou, autor de A África Tropical, “a noção de que tudo é fatalidade está destinada às inteligências inferiores”. O fatalismo conforta, mas engana também, pois é falso.

Outro aspecto importante do desenvolvimento lembrado por Peyrefitte é sua raridade na história da humanidade. Muitos, especialmente os que vivem nos países desenvolvidos, tomam como certo o desenvolvimento, não como exceção, e defendem direitos com base nisso. No entanto, é preciso admitir o fato de que “o desenvolvimento é um gênero histórico raro”, e que certas condições culturais lhe são indispensáveis, mas não são facilmente reunidas. Peyrefitte diz: “O que hoje chamamos de subdesenvolvimento, esquecemos que é o estado natural da humanidade, desde a origem”. Há apenas dois séculos, por exemplo, metade das crianças morria antes da puberdade. Com isso em mente que Peyrefitte utiliza o termo “milagre” para falar do desenvolvimento.

O livro trata de alguns casos particulares de desenvolvimento, sempre através da abordagem que foca na conduta humana como diferencial. O caso alemão, por exemplo, deixa evidente aquilo que Peyrefitte considera como as causas morais do “milagre” econômico: “vontade obstinada de sair da miséria e da derrota, espírito de iniciativa, convicção de que o restabelecimento se dará no campo econômico, o papel do político limitando-se a uma simples regulação”. Há mesmo um milagre, no sentido que as causas naturais não bastam para explicar o avanço de uns e o naufrágio de outros. No campo da religião, milagre está associado à fé. Para Peyrefitte, a metáfora é válida para a ordem dos fatos econômicos e sociais, trocando-se fé por confiança. Peyrefitte conclui: “Fé e confiança são os pares, religioso e laico, da mesma raiz”. Para um povo experimentar o “milagre” econômico, é preciso ter confiança na confiança.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

31/01/2015

às 12:28 \ Corrupção

Entreguem a cabeça do capo, senhores empreiteiros!

A Operação Lava-Jato tem sido comparada à Operação Mãos Limpas da Itália, que prendeu centenas de membros graúdos da máfia local. Para que a analogia fique perfeita, será preciso alcançar os chefes das quadrilhas infiltradas na Petrobras e demais estatais. Será necessário chegar aos que realmente mandam no PT, esse ajuntamento criminoso disfarçado de partido político.

Até aqui, o foco tem sido colocado nas empreiteiras. Mas alguém realmente acredita que os empresários teriam acesso aos bilhões da Petrobras apenas subornando um ou outro diretor qualquer da empresa? Esse tese é mais furada do que um queijo suíço ou as estradas federais brasileiras. Claro que o esquema, que irrigava os cofres do PT, tinha o aval e provavelmente a idealização da própria cúpula do partido.

Como no mensalão, que levou José Dirceu à cadeia. Hoje o petista já cumpre pena em casa, enquanto a banqueira bailarina Kátia Rabello continua presa, assim como o publicitário Marcos Valério. Ou seja, os intermediários, os operadores do esquema, pagaram um preço muito maior do que aqueles que arquitetaram a sujeira toda e dela mais se beneficiaram.

Cientes do desfecho do mensalão, os empresários envolvidos no petrolão ficam cada vez mais impacientes. É o que relata a reportagem de capa da Veja desta semana. Alguns executivos continuam presos, aguardando julgamento, enquanto os políticos permanecem livres por aí. Os empresários e executivos não vão aceitar pagar o pato sozinhos desta vez.

Claro, a estratégia de aproximar o escândalo cada vez mais dos políticos do andar de cima, incluindo o ex-presidente Lula e a presidente Dilma, tem como objetivo se livrar da punição. Os empreiteiros acreditam que, ao lado de figuras tão poderosas, estariam blindados, protegidos da lei. Não é um ato de altruísmo em prol da República, e sim uma tentativa desesperada de livrar a própria pele.

Não importa. Foi assim na Itália também. Sempre que um mafioso aceitou o Omertà, o silêncio conspiratório, e afundou sozinho, sendo leal aos cúmplices, a Justiça saiu perdendo. Quando um membro da máfia, por outro lado, entregou seus comparsas, de preferência as lideranças, o mundo melhorou um pouco, ainda que sua intenção não seja esta.

Ninguém vai enxergar os empreiteiros como vítimas inocentes, muito menos santos, mesmo que resolvam abrir a boca para não caírem sozinhos. Mas sem dúvida milhões de brasileiros ficarão gratos pela atitude. É inadmissível o país passar por mais um escândalo dessa magnitude sem punir de fato aqueles que montaram a quadrilha para se perpetuar no poder.

Reinaldo Azevedo, em sua coluna na Folha esta sexta, colocou os pingos nos is e constatou que será uma grande farsa o petrolão caso termine endossando a tese de que as empreiteiras são as protagonistas do esquema. Conclui Reinaldo:

Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares gozam já das regalias de seus respectivos lares. A banqueira Kátia Rabello e o publicitário Marcos Valério, no entanto, estão em cana. Até parece que poderiam ter feito sozinhos o mensalão e que aqueles crimes não eram parte da estratégia de tomada do Estado, liderada, como registrou Celso de Mello, por “marginais do poder”. A exemplo do doutor Dallagnol, avalio que nem Kátia nem Valério eram vítimas. Mas, definitivamente, não eram protagonistas.

E jamais deixarei de especular sobre uma obviedade: os crimes do mensalão e do petrolão envolveram muitos agentes e interesses. Ocorriam no submundo. Se há desentendimentos entre os que são santos, imaginem entre os que não são. Quem dava o murro na mesa: “Vamos pôr ordem nesta orgia, companheiros!”? 

Boa pergunta: quem era o mandachuva da quadrilha? Quem mais usufruiu dos bilhões todos desviados do estado? Quem vem se perpetuando no poder nos últimos anos torrando esses bilhões todos em campanhas milionárias e mentirosas, comprando os votos de milhões de eleitores? Quem?

Acreditar que alguns diretores ou gerentes mequetrefes foram os arquitetos de tudo é uma piada, quase tão ruim quanto a de crer que os empreiteiros seduziram as pobres vítimas da estatal. Sabemos que esquemas dessa monta são decididos no andar de cima, sob o aval direto de quem manda.

Para que o Brasil saia fortalecido dessa podridão toda, portanto, é preciso punir o alto escalão da quadrilha. Entreguem a cabeça do sapo, digo, do capo, senhores empreiteiros!

Rodrigo Constantino

31/01/2015

às 11:26 \ Economia, Privatização

O preço baixo do petróleo veio para ficar e a única solução é privatizar

Qualquer tipo de previsão já um risco, pois o futuro é sempre incerto. Quando se trata do preço de uma commodity como o petróleo, então, é ainda pior. Afinal, são tantas variáveis que entram na equação e influenciam seu resultado que fica impossível estimar com alguma precisão seu preço futuro.

Ninguém diria, por exemplo, que o avanço da tecnologia permitiria a extração do gás de xisto nos Estados Unidos nessa magnitude atual, causando uma revolução no setor energético mundial. Mas se ninguém poderia antecipar com exatidão o que aconteceu, era possível, por outro lado, esperar com algum otimismo uma mudança favorável tecnológica. Afinal, essa tem sido a história do capitalismo nos últimos 300 anos.

E foi o que fez um dos maiores especialistas em energia do mundo, Daniel Yergin. Já li seu livro The Prize (traduzido no Brasil como O Petróleo), que conta a história da indústria desde a perfuração bem-sucedida de Edwin Drake na Pensilvânia em 1859. Desde então, os alarmistas de plantão já cantam a era do fim do petróleo, que até hoje não chegou e parece longe de chegar.

Yergin, que é autor do também excelente The Commanding Heights, em co-autoria com Joseph Stanislaw e que mostra as incríveis vantagens da era das privatizações lideradas por Margaret Thatcher, repetia há alguns anos que o avanço tecnológico iria levar a uma redução do preço do petróleo, quando muitos acreditavam que os US$ 100 por barril seria o novo patamar mínimo. Yergin acertou.

Sua visão para o setor daqui para frente está resumida na entrevista que concedeu à Ana Clara Costa na Veja desta semana. Falou de Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, e fez importantes alertas para o Brasil, que não estaria preparado para enfrentar a nova era mais competitiva. Diz ele:

Yergin

Ou seja, a partir de agora teremos o mercado ditando mais o preço do petróleo, com menos influência e poder dos governos produtores como Arábia Saudita. Isso significa que o preço baixo veio para ficar, caso não ocorra nenhuma grande mudança geopolítica. E os países terão de se adaptar, pois a era de petrodólares abundantes se esgotou, ao que tudo indica.

Países como Irã, Rússia e Venezuela enfrentarão sérios problemas. E o Brasil? O Brasil certamente é mais diversificado, mas sabemos que o peso da Petrobras é grande na economia, algo como 10%, e que a receita proveniente do petróleo é importante para o governo também.

A Petrobras tem um agressivo programa de investimentos em curso, que consumiu dezenas de bilhões de dólares recentemente. E qual foi a contrapartida? Quase nenhum crescimento na produção, enquanto a dívida líquida não para de subir e já soma R$ 261 bilhões. O pré-sal foi uma grande ilusão até aqui, uma esperança tola que despertou o ufanismo estatizante de nossa esquerda.

As decisões da Petrobras passaram a ser políticas, como a criação da Sete, fornecedora de equipamentos para a própria estatal. Hoje a Sete, que tem na Petrobras seu único cliente, encontra-se em sérias dificuldades financeiras. Há ainda o caso das refinarias no nordeste, escolhidas por pressão direta do ex-presidente Lula, e que foram para o ralo, levando junto bilhões da Petrobras.

Em The Commanding Heights, Yergin mostra como a mentalidade estatizante foi responsável pelo atraso econômico nos países emergentes. Quando as empresas foram repassadas para a iniciativa privada, as coisas começaram a melhorar, e muito. Não é coincidência, tampouco sorte; são os mecanismos de incentivos.

Em um cenário de preço de petróleo mais baixo, o custo de exploração se torna ainda mais crucial. A competitividade será a palavra-chave para os sobreviventes. As regras fiscais dos governos terão de ser mais claras e menos hostis às empresas produtoras. O ufanismo bobo que leva a aberrações como cotas nacionais terá de ser revisto. “O Brasil correrá um grande risco se ficar surdo a essas vozes”, conclui Yergin.

A Petrobras vem sendo destruída há anos pelo PT. As decisões foram politizadas, o populismo tomou conta da empresa, e a corrupção saiu de controle, com uma quadrilha montada dentro da estatal pelo partido em conluio com empreiteiras. Só há uma solução para o Brasil e para a Petrobras nessa nova era de petróleo barato: a privatização!

Rodrigo Constantino

30/01/2015

às 13:09 \ Economia

Se o estado brasileiro fosse uma família, tinha quebrado e estaria na mão de um agiota

Uma “gestora eficiente”…

“Os governos nunca quebram. Por causa disso, eles quebram as nações.” (Kennet Arrow)

Qualquer administrador das finanças do lar compreende que não é possível gastar mais do que ganha indefinidamente. O “superávit primário” nada mais é do que poupar uma parte das receitas para ter condições de pagar o custo da dívida acumulada nos anos anteriores.

O mínimo que se espera de um governo responsável é um saldo positivo primário, pois o certo mesmo seria um saldo final positivo, o que significaria que o governo consegue pagar todas as suas despesas, incluindo a de juros, e ainda amortizar um pouco do estoque de dívida.

No Brasil, curiosamente, nossas esquerdas rejeitam até mesmo a necessidade de um superávit primário. Ou seja, é como se acreditassem que o governo é muito diferente de uma família, e que pode simplesmente gastar mais do que arrecada como se não houvesse amanhã.

Em um aspecto ao menos o governo é diferente de uma família, ainda que seja apenas o administrador dos recursos públicos em nome de todas as famílias brasileiras: ele tem o poder de arrecadar impostos e de emitir dinheiro (um imposto disfarçado).

Quando uma família perdulária gasta sistematicamente mais do que ganha, mergulha no vermelho de forma perigosa, adere ao cheque especial e eventualmente cai na mão de um agiota. Paga juros altíssimos e corre o risco de ter que declarar falência e perder todos os seus bens remanescentes.

Mas quando o governo gasta cada vez mais, sem a contrapartida na receita, ele pode sempre emitir mais moeda e gerar inflação (como fez o governo Dilma), ou decretar aumento de impostos (como fez o governo Dilma). Ele não quebra como uma família; mas ele acaba quebrando a nação!

Digo tudo isso, claro, para chegar ao lamentável fato ocorrido em 2014, divulgado agora: tivemos o primeiro déficit fiscal primário desde 1997! As “pedaladas” do governo Dilma foram criando uma bola de neve que, ao ser parcialmente reconhecida no final de 2014, levou a esse rombo superior a R$ 30 bilhões no consolidado.

Só para refrescar a memória do leitor, o governo falava em superávit primário de R$ 100 bilhões no começo do ano, depois revisto para R$ 80 bilhões. Entregou um déficit de R$ 32 bilhões. Primário, ou seja, sem levar em conta o serviço da dívida que, como qualquer indivíduo bem sabe, também é despesa.

Em outras palavras, Dilma rasgou a Lei de Responsabilidade Fiscal, jogou no lixo o legado mais importante da era FHC. E para não ser punida legalmente pelo crime de responsabilidade, ainda mandou ao Congresso uma alteração na Lei das Diretrizes Orçamentárias no apagar das luzes do ano passado, para se livrar das consequências de seus atos irresponsáveis. Quem paga por seus erros somos nós, trabalhadores, consumidores e pagadores de impostos.

Agora o governo Dilma fala em um superávit de 1,2% do PIB para 2015. E quem acredita? Não basta colocar ministro novo com fama de “fiscalista” ortodoxo. O esforço fiscal necessário para essa reviravolta seria homérico, especialmente em uma economia em crise, sem crescimento. Dilma vai mesmo entregar o que promete agora? Como?

O certo seria cortar na carne, bilhões e bilhões de despesas inúteis do governo, que aumentaram exponencialmente nos últimos anos, sem contrapartida alguma na melhoria dos serviços públicos.  Quando analisamos que a receita do governo subiu de R$ 991,1 bilhões em 2013 para R$ 1,01 trilhão em 2014, fica claro que o problema não é falta de receita.

O problema é excesso de gasto. As despesas saíram de R$ 914,1 bilhões em 2013 para R$ 1,03 trilhão em 2014. Estamos diante de um governo gastador, perdulário, irresponsável e incompetente (já que nada disso significou melhoria nos serviços públicos).

Mas sabemos que Joaquim Levy e a presidente Dilma desejam ir pelo caminho mais fácil e proteger todos aqueles pendurados em tetas estatais, jogando o fardo uma vez mais nas costas dos pagadores de impostos. O caminho escolhido será o aumento de impostos, prerrogativa que só os governos têm, não as famílias.

Outra medida que as famílias endividadas podem tomar quando as contas apertam é a venda de ativos. Aquele carro extra, talvez um relógio ou uma joia, quem sabe as ações que guardavam para o filho? O estado tem ativos também. Muitos, no caso brasileiro, pois a União é dona de centenas de empresas.

Logo, a privatização seria outra alternativa para reduzir o rombo fiscal e abater endividamento, que subiu bastante e ultrapassou 62% do PIB. Mas aqui o governo Dilma também fez grandes lambanças (e onde não fez?). A Petrobras, sem dúvida o principal ativo, foi destruída pela incompetência e roubalheira. O valor de suas ações despencou. A empresa perdeu mais de R$ 20 bilhões de valor de mercado em apenas 3 dias!

Somando tudo, eis o que temos: o governo Dilma rasgou a Lei de Responsabilidade Fiscal e entregou o primeiro déficit primário desde 1997, fez isso aumentando arrecadação, mas aumentando ainda mais despesas, produziu uma inflação elevada e crescente para financiar sua irresponsabilidade, expandiu a dívida do governo, e destruiu o valor dos ativos do estado. E é nela que alguns depositam a esperança de consertar essa trapalhada toda?

Rodrigo Constantino

30/01/2015

às 11:27 \ Cultura

A obsessão antiamericana

“O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”. (Arnold Toynbee)

A esquerda costuma ser bastante organizada e unida, enquanto os liberais, por definição, são mais independentes e vivem isolados, cuidando da própria vida. Vemos, portanto, uma difusão de certas inverdades por parte da esquerda, que ficam sem muita contestação. O objetivo desse texto é desfazer algumas delas, principalmente no que diz respeito ao alvo predileto deles: os Estados Unidos.

Em primeiro lugar, vamos tentar compreender o motivo dessa obsessão antiamericana. No passado recente, num mundo bipolar, os Estados Unidos representavam o experimento capitalista liberal, enquanto a União Soviética era o socialismo planejado. Com a queda do segundo, ocorreu uma perda de identidade por parte dos países socialistas, já que ele representava o denominador comum desses povos. Atônitos, eles precisam encontrar um novo foco, que passa a ser então o antiamericanismo.

Não recuperados da humilhação que foi a queda da “cortina de ferro” e o aparecimento de suas cruéis atrocidades, com mais de cem milhões de vítimas fatais no currículo, precisam tentar “provar” que os Estados Unidos, e por conseguinte o capitalismo, também falharam. Jamais vão perdoar os americanos pela vitória na Guerra Fria! Nessa jornada passional, vale absolutamente tudo, desde mentiras grosseiras, passando por propaganda enganosa maciça, sofismas, inversão de causalidade ou ocultação de fatos. O objetivo é apenas um: condenar o capitalismo liberal e seu maior ícone.

Vale aqui um alerta: os Estados Unidos não representam o ideal dos liberais. Lá, o Estado é um Leviatã também, que extorque quase 30% da riqueza privada em nome do bem-estar social. Mas atualmente, é o que temos mais próximo do liberalismo, justamente a causa de seu sucesso relativo.

O artigo tenta resumir o livro de Jean-François Revel, renomado escritor que foi membro da Academia Francesa. De tempos em tempos, apesar de a França ser um dos países mais antiamericanos da Europa, surge um francês que faz uma avaliação isenta de xenofobia. Aléxis de Tocqueville escreveu no século XIX seu clássico A Democracia na América, excelente livro que destaca com detalhes as diferenças básicas entre a França e os Estados Unidos. Revel também utiliza bastante a comparação entre as nações. O que mais impressiona no antiamericanismo não é a desinformação, já que a quantidade de informação disponível sobre o tema é vasta. O que é incrível nisso tudo é a vontade deliberada de estar desinformado.

Vejamos um primeiro exemplo, a Guerra do Vietnã. Normalmente um dos assuntos mais citados para se criticar o “império” americano – não sem boa dose de razão, mas que nunca ninguém destaca as causas da guerra, atreladas aos fracassos militares da França, que por não abrir mão da Indochina como colônia, acabou levando à intervenção americana. Falam também do fato de a guerra ter matado cerca de um milhão de pessoas ao longo de quase duas décadas, enquanto omitem que o regime comunista de Ho Chi Minh, que lá se instalou quando os americanos saíram, matou mais de três milhões. Camboja, que não sofreu intervenção americana, viu cerca de um terço de sua população ser dizimada pelo regime comunista, e isso não costuma ser lembrado. Não lembram ainda que a ajuda americana na Coréia foi o que possibilitou a sulista ser próspera e livre hoje, e não como sua irmã do norte. Os Estados Unidos podem e devem ser condenados pelos erros no Vietnã, mas reforço o apelo pela busca mais imparcial dos fatos, já que a paixão pode cegar um homem.

Um dos pontos mais repetidos diz respeito ao argumento marxista de que, para o rico ficar mais rico, o pobre tem que ficar mais pobre. Logo, como os americanos prosperaram economicamente, conclui-se automaticamente que o mundo pagou o preço. Esse absurdo pode ser refutado com a mais singela observação empírica, mas a falsidade nunca impediu um ponto de vista de prosperar, quando sustentado pela ideologia e protegido pela ignorância.

Gostando ou não, a verdade é que a superpotência americana resulta em parte da vontade e criatividade de seu povo, e em parte pelos fracassos acumulados do resto do mundo. Afinal, foram os europeus que tornaram o século XX o mais negro da história, provocando duas guerras mundiais e regimes totalitários assassinos. Foram as nações européias, assim como Japão e China, que tentaram conquistar outros países. O papel dos Estados Unidos foi justamente o de salvar o mundo das garras de Stalin e Hitler, e depois ajudar na reconstrução financeira européia com o Plano Marshall. Mas, paradoxalmente, são os americanos os acusados de “império colonizador”. Logo eles, que restauraram a democracia na Alemanha e no Japão, e que compraram terras como a Louisiana e o Alaska.

O antiamericanismo é repleto de contradições. Ora falam que o livre comércio é o veículo de exploração americana, ora acusam o embargo de Cuba pela sua miséria. O embargo nada mais é do que a proibição de empresas americanas negociarem com a ilha, atitude bastante razoável dado o calote cubano em 1986 e seus mísseis apontados para a Flórida no passado. A Europa reclama do protecionismo de alguns setores nos Estados Unidos, como aço e agricultura, ao mesmo tempo em que garante muito mais subsídios agrícolas em seus quintais. O Bovè, um dos maiores beneficiados dessa ausência de competição leal, é o maior crítico da globalização, e é recebido no Fórum Social Mundial com honrarias, justamente pelos que mais sofrem com esses subsídios paternalistas. Criticam violentamente a globalização, mas suas ideologias totalitárias esquerdistas sempre tentaram avançar internacionalmente. O que detestam não é a globalização em si, mas a globalização liberal e democrática. E o mais engraçado é que esses jovens, com coquetéis Molotov em mãos, se intitulam “pacifistas”.

Outra acusação comum é o aparente alargamento da distância entre ricos e pobres. Deixando claro que para alguém ficar mais rico não é necessário que outro fique mais pobre, não vamos confundir também a distância entre eles com o nível absoluto de vida das pessoas. Na Índia, apenas para dar um exemplo, a produção de gêneros alimentícios multiplicou-se por dez em poucos anos, o que permitiu o fim da fome em massa. Esse ganho absoluto deveria ser louvável, mas parece que o ser humano olha apenas para a grama mais verde do vizinho. Vários indicadores mostram facilmente como a qualidade de vida dos pobres melhorou nos últimos séculos, com inúmeros avanços graças a carona no progresso dos ricos. Se isso não é relevante, é porque estamos lidando com um dos sentimentos mais mesquinhos da humanidade: a inveja.

Como não reconhecer a evidência clara de que vários países, como México, Canadá, Taiwan, Coréia e Cingapura, melhoraram de vida rapidamente com o comércio com os americanos, normalmente maiores compradores de seus produtos? Os americanos importam cerca de US$ 800 bilhões a mais do que exportam todo ano. Até mesmo a Europa depende dos Estados Unidos para crescer e gerar empregos. Muitos mundo afora dependem praticamente do sucesso de uma nação, mas a criticam o tempo todo. E se ainda temos tanta miséria pelo mundo, como na África e países da América Latina, isso nada tem a ver com os americanos, mas sim com o fato de essas nações terem adotado um modelo socialista com receita de coletivização de terras e regimes totalitários.

Capciosos, os críticos de plantão dos Estados Unidos não cansam de repetir o fato de o país ser o que mais investe na indústria bélica no mundo. Ignoram tranqüilamente o fato da economia americana representar cerca de 30% da mundial, ou seja, eles serão, via de regra, os que mais investem em todos os setores, incluindo educação e saúde. Além disso, é fato que os americanos acabam servindo como polícia do mundo livre, através da Pax Americana. Já a China, que ainda está sob regime totalitário, vem aumentando vertiginosamente seus gastos militares, e isso sim deveria preocupar os “pacifistas”. De acordo com estimativas do Pentágono, a China tem atualmente mais de setecentos mísseis próximos de Taiwan, e está acelerando esta estocagem. Não é segredo que o Partido Comunista Chinês tem a intenção de anexar a ilha ao seu território. O governo chinês mantém relações amistosas com diversas ditaduras perigosas. A Coréia do Norte e o Irã se armando deveria dar calafrios nos que almejam a paz, e não a força americana. Estranhamente, são os Estados Unidos que são vistos por muitos como real ameaça à paz global.

O caso da América Latina é especial. Como bem colocou o pensador venezuelano Carlos Rangel, “para os latino-americanos é um escândalo insuportável que um punhado de anglo-saxões, chegados ao hemisfério muito depois dos espanhóis, tenham se tornado a primeira potência do mundo”. Seria necessário um doloroso mea culpa, que acaba levando a uma solução mais confortável de explicar nossa situação inferior através do “imperialismo” americano, o bode expiatório de sempre.

Sem dúvida, uma das críticas mais pesadas em relação aos Estados Unidos é seu unilateralismo. Em primeiro lugar, deve ficar claro que esse unilateralismo é conseqüência, não causa, da perda de influência do resto do mundo. E como argumentar contra esta postura americana quando se tem uma total ausência de um outro lado ativo, ou que está evidente o viés antiamericano nas demais nações? Será que alguém ainda duvida da inoperância da ONU, que nada fez sobre a Chechênia, Tibete, Coréia, Kosovo e tantos outros casos?

A China tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, e tem usado este poder constantemente para desviar as sucessivas tentativas dos Estados Unidos de impor sanções aos países que representam ameaças, como o Irã em suas ambições nucleares. O Conselho dos Direitos Humanos da ONU conta com países como China e Cuba, onde os direitos humanos são completamente ignorados. A Liga das Nações, antecessora da ONU, estaria provavelmente ainda hoje debatendo os riscos da Alemanha nazista, enquanto o Füher estaria sentado em um trono europeu, quiçá mundial. Como culpar o unilateralismo americano quando sabemos que a Europa reluta até para reconhecer o perigo real do islamismo fanático?

Os supostos “pacifistas”, que aclamam por solução diplomática, são ou sonhadores românticos ou hipócritas. Aliás, vestidos com a causa pacifista, os comunistas franceses exortaram os trabalhadores das fábricas de armamento a sabotarem seu trabalho e pressionaram os soldados a desertarem, quando os exércitos nazistas estavam a poucas semanas de ocupar Paris. Pablo Picasso criou a litografia da pomba da paz como presente para o genocida Stalin! Alguns “pacifistas” poderiam estar em Guantánamo. É preciso lembrar que seria necessário termos motivações lógicas e racionais por parte dos terroristas para se ter alguma esperança de acordo diplomático. Mas sua cruzada já ficou clara: destruir os infiéis, ou seja, todos os não muçulmanos. O aforismo é antigo: com terroristas não se negocia. Podemos fazer um paralelo com o caso de Hitler, onde fica claro que não seria razoável alguém pensar em solução política amistosa.

Ainda em relação ao Islã, existe mais contradição. O principal alvo é novamente os Estados Unidos, mas estes, por sua vez, nunca colonizaram países muçulmanos, e pelo contrário, nas intervenções na Somália, Bósnia ou Kosovo, assim como pressões sobre o governo macedônio tiveram por objetivo defender as minorias islâmicas. Quem ataca de facto os muçulmanos são os próprios muçulmanos, como no caso do Iraque no Kwait, que foi defendido pelos americanos, ou na Argélia, onde o próprio povo se massacra. Como que tamanha contradição pode passar despercebida? Em 1956, foram os Estados Unidos que detiveram a ofensiva militar anglo-francesa-israelense contra o Egito, na chamada “Expedição Suez”. Nada disso é relevante para os povos obstinados e imbuídos de fé cega, assim como pesada lavagem cerebral de seus líderes, que utilizam os Estados Unidos como perfeito bode expiatório, justificando assim o regime opressivo doméstico.

Os antiamericanos inundam os canais de propaganda com afirmações de que foram os Estados Unidos que criaram Bin Laden, e de tanta repetição, se tornou verdade incontestável. Somente se explica isso por total ignorância ou má fé. No contexto da Guerra Fria, o que haveria de anormal no fato de que Reagan aceitasse os serviços de todos aqueles que quisessem resistir à União Soviética, fossem ou não do Islã? Imaginem o que poderia ter representado para a Índia, Paquistão ou países do Golfo uma ocupação definitiva dos soviéticos sobre o Afeganistão. Gorbachev talvez jamais tivesse se tornado líder, a Perestroika não teria existido e possivelmente teríamos ainda hoje milhões de gulags espalhados pelo mundo.

No campo econômico, os antiamericanos costumam fugir dos números como o diabo foge da cruz. O fato dos Estados Unidos terem criado quase dois milhões de empregos por ano nos últimos 15 anos, enquanto a Europa criou praticamente zero, incomoda profundamente. Em nome do social, os europeus adoram criticar os americanos, que não se interessariam tanto pela saúde dos mais pobres. Acontece que as despesas públicas com saúde representam nos Estados Unidos uma percentagem sensivelmente igual às da França, sem que isso asfixie o setor privado. Aliás, o sucesso relativo dos americanos se deve justamente ao maior espaço dado ao setor privado, bem mais eficiente que o público. Essa diferença faz a taxa de desemprego na França ser praticamente o dobro da americana, ou a renda média por habitante dos americanos ser 30% maior que a dos franceses.

Como Voltaire disse, “julgue um homem mais pelas suas perguntas que suas respostas”. Os antiamericanos não querem fazer perguntas, pois temem pelas respostas, ou então porque já possuem a resposta “certa” para todas as perguntas: é culpa da América! A dificuldade de debater com um antiamericano típico está na percepção que Karl Popper teve, de que é impossível debater com alguém que prefere te matar a te dar razão.

Não consigo entender, utilizando a lógica, o motivo para tanto rancor ao “american dream”. Se acham que é tão ruim assim viver lá, como explicar a migração constante de diversos povos diferentes para lá? Será que os pioneiros não iriam alertar seus sucessores, em vez de mandarem passagens desenfreadamente? E ainda conseguem acusar os americanos de racistas, sendo que são um dos únicos grandes países a abrigarem diversas etnias e religiões de forma civilizada. O sucesso da integração à americana é precisamente que os descendentes de imigrantes podem perpetuar suas culturas ancestrais sentindo-se plenamente cidadãos americanos. Essa convivência amistosa deve realmente irritar muito pessoas que gostariam de impor, à força, suas crenças religiosas ou políticas. Nos Estados Unidos já existem quase 40 milhões de hispânicos, e cerca da metade dos bebês que nascem na Califórnia são de famílias mexicanas. São mais de 30 milhões de negros, e milhares de outros grupos, todos ajudando a criar essa superpotência capitalista e liberal.

Muitos se sentem agredidos com a “invasão” da cultura americana, do excesso de McDonalds em seus países. Não param para pensar que a globalização não uniformiza, mas diversifica. A reclusão é que exaure a inspiração. Se temos várias lanchonetes americanas espalhadas pelo mundo, temos também diversos restaurantes árabes, italianos ou japoneses. As trocas entre nações fizeram florescer a diversidade cultural, não o contrário. Além disso, diferente do que muitos costumam afirmar, a cultura americana não se limita às canções de Madonna ou filmes de Bruce Willis. São também um país onde há 1.700 orquestras sinfônicas, quase 8 milhões de entradas para óperas por ano, 500 milhões de entradas nos museus. Desenvolveram mais de 6 milhões de patentes. As vendas anuais de livros passam de US$ 30 bilhões, enquanto a “educada” Rússia luta para chegar a cifra de US$ 1 bilhão. Suas universidades, por seguirem um modelo mais lógico e eficiente de ligação com o mercado, absorvem os melhores intelectos do mundo todo.

Os povos se sentem agredidos pela adoção do inglês como língua predominante no mundo. Ora, é justamente a difusão dele que facilita a comunicação entre diferentes culturas, permitindo que cada povo possa ter acesso às mais diversas informações. Imaginem a loucura que seria se tivéssemos que aprender cada língua diferente para se comunicar ou ler um livro! O latim já desempenhou esse papel no passado, e não tem nada demais usarmos o inglês como língua internacional. Isso não impõe de forma alguma a cultura americana aos outros povos; pelo contrário, facilita a diversificação cultural.

A ideologia é uma máquina de rejeitar fatos no momento em que estes apresentam risco de constrangimento. Com tanta evidência de viés e incoerência, o americano pode tirar uma só conclusão: os Estados Unidos são sempre culpados. Como julgar, portanto, o unilateralismo deles? Deixo as palavras finais por conta de Revel: “As perfídias freqüentemente delirantes do ódio antiamericano, as imputações da mídia, dependendo ora da incompetência ora da mitomania, a maledicência perseverante que inverte o significado de todo acontecimento de maneira a interpreta-lo, sem exceção, como desfavorável aos Estados Unidos, leva-os ao convencimento da inutilidade de qualquer consulta”.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

30/01/2015

às 10:18 \ História, Religião, Terrorismo

O canário na mina de carvão e o silêncio dos bons

A vida de muitos mineiros já foi salva colocando-se um canário para cantar no local. Enquanto a cantoria segue seu curso, tudo bem. Mas quando o canário interrompe a performance, é sinal de que o gás inflamável que se solta nas minas de carvão pode estar em quantidade perigosamente elevada. Ou seja, é um alerta de que vem problema por aí.

Muitos já usaram a metáfora para se referir ao povo judeu. Quando o antissemitismo (ou judeofobia, termo que julgo mais correto) começa a recrudescer, então é sinal de que algo de errado acontece no mundo e que vem problema por aí.

Os judeus representam não só um grupo minoritário e relativamente fácil de ser identificado, como abraçam um monoteísmo ético que responde apenas ao seu Deus superior, não se dobrando ao relativismo moral vigente. Quando a convivência com tal rigidez ética se mostra insuportável para muitos, é sintoma de que o mundo está doente.

Historicamente, os judeus sofreram perseguições em diversas ocasiões, que invariavelmente representavam esses delicados e críticos momentos de inflexão e subversão de valores predominantes. O caso mais chocante, e relativamente recente, foi com o nazismo. Mas esse horror todo seria impensável sem a conivência ou cumplicidade de grande parte da população. Os judeus foram os principais alvos, mas era um aviso de que algo de muito podre estava no ar.

O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons“, disse Martin Luther King. Combater o aumento da judeofobia deve ser uma obrigação moral de todos que repudiam a injustiça. Mas também há razões pragmáticas para tanto: começam as perseguições com os judeus, mas nunca ficam restritas apenas a eles.

Nesta quinta tive o prazer de contar para centenas de judeus minhas experiências em Israel e falar um pouco de minha visão sobre a situação do país e do povo judeu. O evento foi organizado pelo Clube Israelita Brasileiro (CIB), e o local estava abarrotado. Fiquei emocionado ao ver a calorosa recepção. Ao mesmo tempo, chamou a minha atenção como os judeus estão carentes de defensores imparciais na imprensa.

CIB

Não deveria ser assim. Alguém como eu não deveria virar uma “celebridade” para a comunidade judaica, apenas por colocar os pingos nos is, preservar o bom senso e constatar que Israel é vítima dos mais pérfidos e injustos ataques, fruto ou de interesses mesquinhos ou de um preconceito abjeto. Por que somos tão poucos?

O canário já parou de cantar faz tempo, mas continuamos lá, presos à mina de carvão, como se não houvesse perigo. Não queremos enxergar a realidade. A judeofobia cresce a cada dia, mas a maioria finge que não vê, acha que não é problema seu. É sim! É um problema de todos nós que nos importamos com a vida humana, com a justiça. E com nossa própria liberdade, pois os ataques ao judaísmo carregam um ódio à ética objetiva e aos nossos valores ocidentais por trás.

Osias Wurman, o cônsul honorário de Israel no Rio e que me honrou com sua presença ontem, escreveu um belo texto no GLOBO hoje, fazendo um alerta à indiferença dos demais, usando como pano de fundo os 70 anos da libertação dos prisioneiros de Auschwitz. Diz ele:

É preciso registrar que, na véspera do histórico domingo da passeata em Paris, quando cerca de 1,5 milhão de pessoas foram às ruas para protestar contra o massacre na redação do “Charlie Hebdo”, uma manifestação convocada para a porta do shopping Kosher, onde foram mortos quatro judeus franceses, passou indiferente ao grande público e apenas duas mil pessoas compareceram, sendo a maioria absoluta de judeus.

Derrotar a filosofia de Auschwitz é derrotar o ódio, a ignorância histórica e a passividade popular. Dizem os historiadores que as estradas que levavam a Auschwitz foram construídas pelo ódio, mas foram pavimentadas pela indiferença mundial.

As vítimas no mercado Kosher foram mortas por serem judeus, nada mais. O fato em si derruba de uma só vez as desculpas esfarrapadas que os “intelectuais” de esquerda usaram para “explicar”, ou mesmo “justificar” o ato terrorista na revista satírica. Ninguém ali desenhou charge alguma de Maomé. Ninguém ali ridicularizou o Islã. Foram brutalmente assassinados pelo único motivo de serem judeus. E o mundo ficou em silêncio.

Tive a honra de conhecer no evento Aleksander Henryk Laks, presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista. Um senhor simpático que passou, quando criança, pelos campos de concentração nazistas. Simboliza aquilo que melhor define, em minha opinião, a história do povo judeu: a superação. Apesar dos obstáculos, das perseguições, do preconceito, é um povo que, em geral, olha para frente e deseja avançar.

Com Aleksander Laks

Com Aleksander Laks

Mas não podem fazer isso sem a ajuda dos demais, sem a colaboração das pessoas decentes das outras religiões ou povos, pois são uma minoria minúscula. O silêncio dos bons é inadmissível perante o ataque dos maus.

Se não queremos ter uma nova Anne Frank, se não desejamos que ninguém mais sofra perseguições injustas apenas por ser de uma minoria, então é hora de agir, de defender seus direitos com coragem. A covardia poderá destruir a todos nós, defensores da justiça e da liberdade.

Rodrigo Constantino

30/01/2015

às 9:21 \ Cultura

A opinião de um ator: de Kevin Spacey para Wagner Moura

Por Lucas Berlanza, para o Instituto Liberal

O hollywoodiano Kevin Spacey, ao dizer que a opinião de um ator sobre política é absolutamente irrelevante, foi mordaz e cutucou, ainda que essa possa não ter sido sua exata intenção, um problema importante. No Brasil, esse ataque seria ainda mais doloroso, escandalizando os ânimos de muitas figuras que se consideram notáveis intérpretes do Estado e da economia brasileira porque fazem sucesso nas artes cênicas, como se uma coisa estivesse ligada à outra. Em verdade, a problemática se torna maior, com músicos sendo considerados “intelectuais” porque fizeram canções de protesto (contra governos que não estão no poder há tempos), e continuam sendo paparicados pelos vultosos recursos públicos via Lei Rouanet.

Spacey expressou, no entanto, uma meia verdade. Natural que assim seja; poucas vezes uma única frase solta, sobretudo quando dita em tom de desabafo, tem o condão de sintetizar algo perfeitamente. Trata-se de uma meia verdade porque, abstração feita da qualidade de ator, alguém pode ter uma percepção interessante da realidade social, como pode ter a respeito de qualquer outro assunto. Discutir a importância de uma opinião não é tarefa simples, e a conclusão estará repleta de subjetividades. A ela, bom dizer, todos têm direito, inclusive o de expressá-la. Meia verdade, também, porque o impacto que uma figura pública – e um ator normalmente se enquadra nessa categoria – consegue ao proferir e disseminar distorções indefensáveis é coisa muito séria e, por isso mesmo, nada irrelevante. Uma opinião estúpida não é e não pode ser considerada, por isso apenas, um crime; é inegociável o direito de externá-la. No entanto, é imperioso que as vozes sensatas não percam a oportunidade de denunciá-la como sendo o que é, cientes da existência dos militantes e dos “pseudo-intelectuais” vendidos que de pronto a divulgarão como propaganda de seus ideais autoritários e intolerantes.

O ator global Wagner Moura, campeão de socialismo entre as estrelas da televisão e do cinema nacionais, em entrevista ao Jornal O Globo, em fevereiro de 2014, soltou uma dessas pérolas imperdoáveis que não podemos deixar de tornar desnudas em sua imbecilidade abjeta. Não satisfeito, resolveu republicar exatamente esse trecho infeliz em seu perfil na rede social Facebook, como um “presente” indigesto de fim de ano, em 27 de dezembro passado. Disse ele:

“É uma pena que muitos comediantes, e não só comediantes, mas muitos artistas jovens brasileiros sejam de direita. Sejam garotos fascistas. Eles fazem um trabalho que a gente ensina nossos filhos a não fazer. Apontam para os outros e dizem: “hahaha, você é preto, você é viado, você é aleijado”. Eu sou politicamente correto. O politicamente correto é uma ferramenta civilizatória que inventamos para que uma criança negra não veja um negro sendo humilhado na TV. Mas todo garotão que é artista gosta de dizer que o maneiro é ser politicamente incorreto. Isso não é engraçado, não é humor.” (MOURA, WAGNER)

Vamos examinar o terrível problema. O judicioso cientista social Wagner Moura acredita que os valores e bons princípios, reduzidos sistematicamente a nada por teóricos de esquerda como Trotsky, vêm sendo prejudicados no Brasil, isto sim, pelo surgimento de uma “direita” que, ocupando um grande espaço nas artes, vem “doutrinando” os jovens para o descaminho. Gostaria de saber em que país – ou antes, em que PLANETA ele vive. Brasil, América do Sul, Terra, certamente não é. De memória, me recordo, por exemplo, do cantor Lobão, que vem defendendo ideias mais à direita e tem participado de manifestações públicas contra o governo, e o humorista e apresentador de TV Danilo Gentilli, que vem dando louvável espaço a figuras que contrastam com o mainstream de esquerda. Talvez haja mais; talvez haja aqueles que nada falam, embora pensem assim, por receio de prejuízos na carreira. De qualquer forma, o que desponta são notórias EXCEÇÕES. Já paranoicos como Wagner Moura, que enxergam um monstruoso “direitismo” tomando de assalto o poder no Brasil do PT, esses existem aos montes.

Seduzidos pelo “politicamente correto”, que Moura desfralda como ferramenta civilizatória, esses os há mais ainda. Na “ditadura do mimimi”, as insistências panfletárias das esquerdas vão tornando a mera verbalização da verdade um crime imperdoável, exigindo-se que ela seja mascarada por uma série de camadas de etiquetas, adornos e esquisitices. Em ponto extremo, já chegamos a ter pessoas deixando de grafar palavras masculinas que, pela convenção da língua, designam os dois gêneros sexuais, substituindo letras e adulterando idiomas, supostamente para não ferir suscetibilidades. Com base nessa busca por privilégios, que abarca a reivindicação irracional por cotas em cada vez mais setores, a cultura da liberdade vai sendo desprestigiada, e a consagração pelo mérito, sendo desestimulada. Quem se cansa disso, por ter bom senso, é um “fascista”, que aprecia debochar dos outros por serem negros, homossexuais ou deficientes físicos, de acordo com Moura. São “a direita”.  Irônico que Wagner Moura tenha relembrado essa excrescência na mesma semana em que o ditador da Coreia do Norte taxou o presidente dos EUA, Barack Obama, de “macaco”. Kim Jong-un,  por certo, é de “direita”, assim como Stálin, Mao, Pol Pot…

A “direita”, ou as tradições liberais e conservadoras, constituem correntes políticas admissíveis e importantíssimas em qualquer regime democrático, com livre circulação de ideias. Assim deve ser. No entanto, o aparecimento de “direitistas”, para o senhor Wagner Moura, é um escândalo. O horror que os nossos esquerdistas sentem pelo diferente e pelo contraditório é prova cabal de como não têm a mínima legitimidade para se proclamarem os defensores únicos e impecáveis da tolerância e da pluralidade.

Possivelmente, Wagner Moura se considera uma voz de contestação muito necessária. Não é; assim como o partido nanico e barulhento cujos candidatos ele tem o hábito de apoiar, o brasileiro se situa na “pseudo-oposição” que colabora para “criminalizar” moralmente a verdadeira. Marionete fanfarrona de um jogo em que não dá as cartas, ele, em que pese sua competência como ator – que eu reconheço , está, sem nenhuma dúvida, entre os que com mais afinco procuram dar razão ao seu colega de ofício americano.

29/01/2015

às 15:02 \ Corrupção, Legislação

Dilma escolhe o lado do crime

Unidos contra as leis brasileiras

Há um ano entrava em vigor a Lei Anticorrupção, que adequava o Brasil aos parâmetros internacionais, intensificando as punições às empresas que praticam atos ilícitos. Desde então, as empresas também seriam punidas com mais rigor, não só os executivos envolvidos em esquemas corruptos.

À época, alguns liberais, desconfiados sempre do excesso de poder do estado em um país cujo custo da legalidade pode ser proibitivo, alertavam que tal medida poderia ser usada para pressionar os empresários, reféns dos políticos. Sabemos que muitas vezes o governo cria dificuldades legais para vender facilidades ilegais depois. No Brasil, o suborno pode ser uma questão de sobrevivência legal, em meio a tantas regras e leis absurdas.

Não é esse o caso das grandes empreiteiras, naturalmente. Se não é verdade a tese de que a Petrobras é uma vítima nessa história, cujos diretores teriam sido “corrompidos” pelas empresas, tampouco é verdade que essas grandes empreiteiras sejam inocentes, pagando bilhões em propinas apenas porque não há como se fazer diferente. Ali não há inocentes, como escreveu Dora Kramer hoje.

Políticos e empresários aliaram fome e vontade de comer. Vislumbraram a oportunidade de montarem um gigantesco esquema de desvio da maior empresa do país, uma estatal sob o comando de políticos ou apaniguados. Ninguém foi “passivo” nesse abjeto relacionamento, típico do “capitalismo de estado”.

Logo, os receios de alguns liberais não se aplicam ao caso do “petrolão”. A Lei Anticorrupção existe justamente para casos assim. Era o momento de o Brasil mostrar que não tolera a impunidade, que está caminhando rumo aos modelos dos países mais desenvolvidos, que punem com rigor as empresas envolvidas em esquemas de corrupção deste tipo. A pessoa jurídica, não apenas a física, paga o preço por suas falcatruas com recursos públicos.

Mas eis que a tese da Petrobras como vítima inocente não colou, e o “clube das empreiteiras” reagiu, afirmando que foi a própria Petrobras que montou o esquema e exigiu o pagamento de propinas para fazer negócios – bilionários – com a estatal. Diante da nova tese – bem mais crível – o governo percebeu que a chapa iria esquentar para o seu lado. Não seria possível mexer com tantos tubarões impunemente, ainda mais com tubarões que financiaram a campanha do PT.

Ciente do novo quadro, o governo já ensaia uma aproximação diplomática. A própria presidente Dilma, em seu primeiro discurso depois de semanas em constrangedor silêncio, disse que os indivíduos devem pagar pelos crimes, não as empresas. O argumento, pasmem!, leva em conta o impacto da aplicação da lei na economia. Criou-se o conceito de “grande demais para punir” em nosso país, sob o aval da Chefe de Estado.

Como se não bastasse a própria Presidente da República ignorar as leis e proteger empresas corruptas abertamente, seu ministro da Justiça veio atrás e fez o mesmo, também com a desculpa de que a economia sofreria muito. José Cardozo acha que as leis podem ser ignoradas se for para não afetar o crescimento econômico. O ministro da Justiça!

Em artigo publicado no Estadão, o jurista Modesto Carvalhosa chama a atenção para o absurdo da coisa, mostrando que temos uma Lei Anticorrupção “virgem” e uma presidente que, não obstante discurso contrário, age de forma conivente. Diz ele:

Carvalhosa

O jurista vai direto ao ponto ao acusar a presidente de crime de responsabilidade, e ainda explica que seu argumento pragmático econômico é ignorante, pois o Brasil precisa respeitar os acordos jurídicos internacionais, o que poderá levar a uma multa e uma punição ainda maiores para essas empresas. Se o governo brasileiro quer bancar o “bonzinho” e o cúmplice dessas empreiteiras e da Petrobras, o governo americano certamente agirá de outra forma.

O editorial do Estadão também mencionou o caso, concluindo que a presidente Dilma escolheu seu lado, e não foi o da lei:

Estadao

É complicado ter uma presidente que se coloca do lado do crime, não da lei. Quem quer que analise seu histórico, verá que não se trata de uma novidade. Dilma foi terrorista no passado, participou de grupos armados que roubavam e matavam. Se naquela época havia a desculpa de combate ao regime militar, qual a desculpa de hoje? Combater a crise econômica causada por seu próprio governo incompetente?

É assustador viver num país em que a própria presidente rasga as leis que sanciona, de acordo com as conveniências do momento e de seu partido. Se os próprios governantes são cúmplices, estão mancomunados com as grandes empreiteiras e lutam contra a aplicação das leis do país, então quem vai defender o Estado de Direito? Só mesmo um impeachment pode salvar o Brasil…

Rodrigo Constantino

29/01/2015

às 12:57 \ Economia

A questão do juro: a esquerda nunca aprende

Enquanto Dilma dizia que enfrentaria os banqueiros para reduzir na marra a taxa de juros, o governo gastava e emprestava como se não houvesse amanhã e o BNDES selecionava os “campeões nacionais”, os típicos economistas de esquerda, “formados” em lugares como a Unicamp, eram só elogios. Textos e mais textos aplaudindo a mudança desenvolvimentista.

Agora a conta chegou, como previam os liberais. Estagflação. Queda da atividade prevista para este ano, mesmo com inflação de 7%. Até mesmo alguém como Dilma precisa recuar, chamar Joaquim Levy, falar em reequilíbrio das contas públicas. E o que fazem esses mesmos economistas? Condenam a ortodoxia e pedem mais desenvolvimentismo, como se nada de errado tivesse ocorrido com suas receitas.

Foi o que fez Marcelo Miterhof em sua coluna de hoje na Folha. Sei que pouca gente o lê, e a maioria não sabe quem ele é, mas mesmo assim vale refutar suas falácias, por dois motivos: 1) o sujeito é economista do BNDES, ajudando na tomada de decisões que mexem com os nossos recursos; 2) sua mentalidade representa a de milhares de outros economistas.

A tese fantástica dele é que não existe “taxa de juros natural”, aquela que seria definida pelo encontro entre a demanda e a oferta de capital. O custo do capital é justamente o juro, mas Miterhof acha que este pode ser simplesmente decretado pelo governo, impunemente. Acha, ainda, que firmas precisam poupar para investir, mas o governo, graças à moeda fiduciária, pode simplesmente ignorar essa restrição, novamente de forma impune. Diz ele:

Há uma controvérsia teórica. A ortodoxia entende que a poupança precisa ser acumulada previamente ao investimento. Isso faz sentido, por exemplo, para uma firma: reter lucros ajuda a conseguir financiamentos a custo mais baixo.

Mas a moeda fiduciária, criada pelo BC e pelo sistema financeiro ao conceder empréstimos, torna macroeconomicamente prescindível o acúmulo prévio de recursos. A poupança agregada é necessária para pagar os financiamentos, mas pode ser obtida com a atividade gerada posteriormente pelos investimentos.

E eis que Miterhof descobriu o moto perpétuo de crescimento! Basta o governo imprimir papel-moeda, conceder empréstimos, definir arbitrariamente uma taxa de juros reduzida, e tudo isso vai gerar mais investimentos, mais crescimento, e acabaremos num ciclo virtuoso rumo ao progresso, cuja locomotiva será o próprio governo, especialmente o BNDES.

Mas não foi justamente isso que fez o governo Dilma?, poderia perguntar um liberal chato. Sim, foi. Mas isso parece ser um detalhe bobo para o economista do banco público. O BNDES expandiu sua carteira de crédito de forma impressionante, escolheu vários “campeões nacionais”, e o investimento não veio. O que deu errado? Ora, os fatos, que insistem em incomodar a teoria brilhante do rapaz…

Taxa Selic. Para os economistas de esquerda, o erro não foi derrubá-la na marra e de forma irresponsável antes, mas sim subi-la agora, mesmo com a inflação bem acima da meta.

O culpado do fracasso evidente da receita desenvolvimentista só poderia ser ele, o tal “mercado”, os bancos. Miterhof explica:

É possível compensar o menor juro com maior volume de crédito. Porém é mais arriscado. Além disso, os bancos públicos conseguiram continuar aumentando sua participação no crédito total, de 41,7% em 2010 para 53,5% em 2014.

A estratégia exigiu reforçar as fontes de recursos dos bancos públicos, o que elevou a dívida pública bruta. Ainda assim, em 63% do PIB, ela continua baixa internacionalmente. O problema não é seu tamanho, mas o juro incidente elevado.

Traduzindo: o governo marretou a taxa de juros para baixo, e os bancos privados tinham que compensar isso emprestando muito mais, ponto. Mas os bancos se negaram a tanto, pois o risco era grande demais. Os bancos públicos, que não precisam se importar com solvência, retorno sobre o capital ou outras chatices do gênero, pisaram no acelerador. A Caixa aumentou sua carteira inteira de crédito em 45% só em 2012!

Para financiar essa irresponsabilidade, o governo emitiu mais dívida ainda, levando seu endividamento para mais de 60% do PIB. Miterhof não acha nada demais, pois é um patamar inferior ao dos países desenvolvidos. Esquece apenas que o Brasil não é um deles, e por vários motivos. Os mesmos que levam os investidores a cobrar muito mais pelo financiamento.

Esse nível de dívida é bem maior do que a média dos países “emergentes”, por exemplo. Outro detalhe bobo, garante o economista do BNDES, já que o governo pode sempre definir de sua caixola a taxa de juros sobre tais financiamentos. Miterhof deve jurar que a Grécia pode decidir quanto pagar por sua dívida, e sem dúvida deve ter vibrado com a vitória da esquerda caloteira nas últimas eleições.

Mas os que apontam para suas falácias e mentiras só podem trabalhar pelos interesses dos poderosos banqueiros, claro! Esqueça essa coisa de “ciência econômica”. Isso é uma invenção do “mercado”. Miterhof aponta o vilão da história:

Grandes anunciantes e defensores de um status quo que beneficia os mais ricos com taxas de juro muito altas, não foi difícil para o dito “mercado” ecoar sua insatisfação, como se fosse a defesa de uma indiscutível “ciência” econômica.

Seu poder não se restringe aos meios de comunicação. É forte no mercado financeiro propriamente dito. Assim é até compreensível que o governo tente reeditar a estratégia de 2003, cedendo ao que a elite entende por estabilidade econômica.

Estabilidade econômica, um conceito da “elite”. Para o economista de esquerda, o povo não precisa dela. Quem disse que o governo não pode gastar mais do que arrecada, emprestar o que não tem, jogar artificialmente o juro para baixo e imprimir mais moeda? Ora, basta ver o resultado no Zimbábue ou na Venezuela para verificar que é possível, sim. Ops!

Após suas diatribes contra o “mercado”, o economista do BNDES conclui que o ano será difícil, e por culpa dos ajustes ortodoxos, impostos pelas elites, pelos banqueiros. Sim, vai ser um ano bem difícil. Afinal, economistas como Miterhof estão no controle da economia e foram os responsáveis, junto com a presidente Dilma, por essa lambança que se abate sobre o país. Mas a nossa esquerda nunca aprende mesmo…

Rodrigo Constantino

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados