Blogs e Colunistas

23/04/2014

às 14:02 \ Cultura

450 anos de Shakespeare: uma singela homenagem

Há 450 anos nascia William Shakespeare, um dos grandes gênios da humanidade, que exerceria enorme influência no pensamento da civilização ocidental. Como singela homenagem aos momentos de prazer que o Bardo me propiciou, seguem trechos de algumas de suas peças:

“Não concedais à natureza mais do que aquilo que ela exige e a vida do homem será de tão baixo valor como a dos animais.” (Lear, em Rei Lear)

“‘Não está dentro de minha capacidade’, uma ova! Está em nós ser isso ou aquilo outro. Nossos corpos são jardins, dos quais nossas vontades são os jardineiros. [...] Se à balança de nossas vidas faltasse o prato da razão para estabilizar o outro, da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossas natureza acabariam por nos conduzir a conclusões absurdamente grotescas. Mas dispomos da razão para resfriar nossos impulsos de paixão e fúria, os ardores de nossa carne, nossos desejos, as luxurias desenfreadas. Vejo, portanto, isso que você chama de amor como sendo mero rebentão ou enxerto.” (Iago, em Otelo)

“É morta… Não devia ser agora. Sempre seria tempo para ouvir-se essas palavras. Amanhã, volvendo trás amanhã e trás amanhã de novo. Vai, a pequenos passos, dia-a-dia, até a última sílaba do tempo inscrito. E todos esses nossos conténs têm alumiado aos tontos que nós somos nossos caminho para o pó da morte. Breve candeia, apaga-te! Que a vida é uma sombra ambulante: um pobre ator que gesticula em cena uma hora ou duas, depois não se ouve mais; um conto cheio de bulha e fúria, dito por um louco, significando nada.” (Macbeth, em Macbeth)

“Delírio! O meu pulso, como o seu, marca o tempo calmamente, e soa música saudável. Não é loucura o que eu proferi; é só me pôr à prova que repito, palavra por palavra, aquilo que a loucura embolaria. Mãe, pela graça divina, não passa em tua alma esse enganoso ungüento de que não é o teu delito que fala, mas a minha demência. Isso é apenas uma pele fina cobrindo tua alma gangrenada, enquanto a pútrida corrupção, em infecção oculta, corrói tudo por dentro. Confessa-te ao céu; arrepende-te do que se passou e evita o que há de vir; não joga estrume sobre ervas daninhas que elas crescem ainda com mais força. Perdoa-me por minha virtude: É! Na velhacaria destes tempos flácidos, a virtude tem que pedir perdão ao vício; sim, curvar-se e bajulá-lo pra que ele permita que ela o beneficie.” (Hamlet, em Hamlet)

“Em tempos de paz, nada fica melhor em um homem que a humildade e uma modesta calma. Mas, quando a guerra vem trovejar em nossos ouvidos, então imitem a ação do tigre: tencionem os músculos, evoquem todo o seu sangue, disfarcem sua natureza simpática com uma raiva cruel, dura. Depois, emprestem ao olhar um aspecto pavoroso, permitam-se ter os olhos esbugalhados; que, para enxergar, eles avancem nas órbitas, como canhões de bronze. Deixem as sobrancelhas tomarem conta do semblante: o cenho franzido sobre os olhos de modo tão temerário quanto um penhasco debruçado sobre o mar selvagem, e este lhe corroendo a base com a energia devastadora das águas.” (Rei, em Henrique V)

“Embora os altos crimes por eles perpetrados tenham me deixado em carne viva, ainda assim tomo o partido de minha razão, porquanto mais nobre, contra minha fúria. A ação mostra-se mais rara na virtude que na vingança. Em sendo eles penitentes, a única intenção de meu propósito agora pára de somar rugas à minha fronte.” (Próspero, em A Tempestade)

“Mas acontece que tal homem não existe, porque, meu irmão, os homens sabem aconselhar e consolar quando a dor é aquela que eles próprios não sentem. [...] Claro, claro, é obrigação de todo homem pedir paciência àqueles que se contorcem sob o peso da tristeza, mas não existe em homem algum nem a virtude nem a capacidade de ser tão moral assim quando é ele quem tem de suportar o mesmo fardo. Portanto, não me dês conselhos; meu desalento grita mais alto que tuas censuras.” (Leonato, em Muito Barulho por Nada)

“Apenas, meu bom amo, por mais que admiremos essa virtude, essa disciplina moral, rogo-lhe não nos tornemos estóicos ou insensíveis. Nem tão devotos da ética de Aristóteles a ponto de achar Ovídio desprezível. Apóie a lógica nos seus conhecimentos do mundo e pratique a retórica na conversa usual; inspire-se na música e na poesia e não tome da matemática e da metafísica mais do que o estômago pode suportar; o que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” (Trânio, em A Megera Domada)

Shakespeare muito me agrada. Espero que agrade ao leitor também…

Rodrigo Constantino

23/04/2014

às 13:01 \ Economia, Filosofia política

Túnel do tempo: Bresser-Pereira aplaudindo o desenvolvimentismo do governo Dilma

Um leitor, passeando pelo meu antigo blog, recuperou um artigo de Bresser-Pereira que lá postei, recomendando antes um Engov. Trata-se de uma empolgada defesa do desenvolvimentismo do governo Dilma, antes de este completar um ano de vida.

Hoje, todos tentam se afastar do modelo adotado por Dilma, ou alegar que não é efetivamente desenvolvimentista. O fracasso, como sabemos, é órfão. Mas basta seguir o rastro das cenas do crime que encontraremos todas as impressões digitais dos desenvolvimentistas. Bresser-Pereira escreveu:

Desde 1991 a política econômica do Brasil se pautava pelo ortodoxia convencional ou o consenso de Washington. A partir, porém, de 2006, já com Guido Mantega no Ministério da Fazenda e Luciano Coutinho no BNDES, o governo Lula começou a mudar a estratégia de desenvolvimento em direção ao novo desenvolvimentismo.

Em 2009 um passo decisivo nesse sentido foi dado com o início do controle da entrada de capitais. Agora, no nono mês do governo Dilma Rousseff, a decisão do Banco Central de baixar a taxa de juros, surpreendendo o mercado financeiro, e a decisão do governo de taxar a importação de automóveis com menos de 35% de conteúdo nacional consolidam essa mudança.

[...]

O novo desenvolvimentismo não é uma panaceia, mas está ancorado teoricamente em uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, tem como critério o interesse nacional, e sabe que este só pode ser atendido por governantes que em vez de aplicarem fórmulas prontas avaliam cada problema e cada política com competência. Adotado com firmeza e prudência, o Brasil crescerá a taxas mais elevadas, com maior estabilidade financeira, e com a inflação sob controle.

[...]

Dessa maneira, a hegemonia neoliberal entrou em colapso, e as forças desenvolvimentistas – os empresários industriais, os trabalhadores e uma parcela da classe profissional- fortaleceram-se, o que abriu espaço para que o governo Dilma aprofundasse seus compromissos para com elas. Um novo e amplo pacto político está se formando no Brasil. Vamos esperar que leve o Brasil mais depressa para o desenvolvimento.

Pois é, eis o resultado concreto: estagflação. O Brasil não cresce praticamente nada e continua com uma inflação alta, no topo da meta já elevada. Mas nem tente cobrar responsabilidade dos desenvolvimentistas! Essa turma nunca reconhece erros, até porque se o fizesse teria de abandonar uma ideologia tão equivocada e sem nada de bom para mostrar no currículo prático.

À época do texto de Bresser-Pereira enaltecendo o desenvolvimentismo do governo Dilma, quando os problemas ainda não tinham surgido, eu escrevi:

Comentário: Sem comentários! A estupidez ideológica é mesmo impressionante. Tem gente que nunca aprende, e insiste no erro com a obstinação de um jumento. É espantoso que este senhor ainda tenha espaço na imprensa para pregar suas imbecilidades. Vai idolatrar o fracasso assim em Cuba!

Um tanto agressivo, reconheço. Era a fúria de saber que tudo daria errado e que, quando isso acontecesse, ainda iam culpar o “neoliberalismo” ou as estrelas, tudo, menos o próprio modelo desenvolvimentista. Esse tipo de desonestidade cansa.

E advinha quem ainda tem espaço na imprensa para expor suas incríveis análises econômicas? Sim, o mesmo Bresser-Pereira, os desenvolvimentistas que soltavam fogos de artifício com as medidas do governo Dilma em 2011. Só me resta repetir: vai idolatrar o fracasso assim em Cuba!

Rodrigo Constantino

23/04/2014

às 12:18 \ Economia, Socialismo

O novo plano de Maduro para destravar a produção na Venezuela

Fonte: GLOBO

Por que faltam produtos nas prateleiras em países socialistas? Ora, porque os donos de supermercados são capitalistas insensíveis e egoístas que só querem lucrar, claro! Parece piada, eu sei. Em pleno século 21 alguém defender algo tão estúpido seria mesmo chocante. Mas é exatamente o que fazem os bolivarianos liderados por Maduro:

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, lançou ações para incrementar a produção e combater o desabastecimento, baseadas no aumento da fiscalização sobre estabelecimentos como frigoríficos e supermercados.

A Venezuela tem atualmente a maior inflação da América Latina (cerca de 57% no ano passado) e sofre com a escassez de produtos básicos, o que, junto com os altos índices de violência, levou à realização de protestos que já deixaram 41 mortos desde fevereiro deste ano.

A ação econômica se iniciaria ontem com a inspeção em locais de comércio de alimentos. As primeiras empresas a serem fiscalizadas seriam a processadora de carnes Fitca, no Estado de Aragua, e o supermercado Central Madeirense, em Miranda, segundo informou a agência de notícias AVN.

Na noite de anteontem, Maduro disse que a operação é “uma nova ofensiva econômica para produzir mais, para produzir melhor e para destravar todos os mecanismos que impedem a produção no país”.

Ele acrescentou que os pilares da medida são “o abastecimento pleno em todos os níveis” e o “estabelecimento de preços justos”.

Não é incrível? Quem fiscaliza a produção e o comércio nos Estados Unidos? Será que o presidente Obama tem um exército de fiscais para garantir o nível de produção local? Será que a Wal-Mart conta com um fiscal do estado em cada loja para garantir o abastecimento dos produtos? Será que os empresários venezuelanos são mais gananciosos do que os capitalistas ianques?

É uma mistura de constrangimento com tristeza e comicidade ver o socialismo mergulhando nos mesmíssimos equívocos do passado. Não aprenderam nada com a história! A Gosplan calculava o “preço justo” de milhares de produtos, os bolcheviques inspecionavam os estabelecimentos, e o resultado era a escassez até de papel higiênico nas prateleiras e um enorme mercado paralelo. Por que será que nos países capitalistas e mais liberais nada disso ocorre?

O mais trágico de tudo, pela ótica de um brasileiro, é o fato de termos, aqui em nosso país, uma legião de sacripantas que deseja copiar exatamente o modelo socialista bolivariano. E apenas para adicionar gravidade à tragédia, tais pulhas estão no poder!

Rodrigo Constantino

23/04/2014

às 11:12 \ Inflação

A culpa é do chuchu! Ou: Inflação alta? Quebra-se o termômetro…

O conceito de “core inflation” é até interessante: retira-se do cálculo aqueles itens mais voláteis, dependentes de condições climáticas ou geopolíticas, para suavizar a tendência e, dessa forma, analisar a real trajetória dos preços. São dois problemas que surgem: 1. acaba-se criando um índice de inflação para pessoas que não comem nem andam de carro; 2. quando os preços de alimentos e petróleo sobem sistematicamente, o índice “core” acaba subestimando muito a inflação verdadeira.

Tudo isso faz parte de debates econômicos interessantes, em condições normais de temperatura e pressão. Agora, quando a proposta de retirar os alimentos do índice surge no governo do PT, sob o comando do ministro Mantega, em época de inflação elevada e prestes a estourar o teto da banda, aí é para ter muitos calafrios. E foi justamente o que aconteceu:

Preocupados com o impacto da alta dos alimentos na inflação, alguns técnicos do governo começaram a defender nos bastidores mudanças polêmicas na formulação da política econômica. Diante dos frequentes choques nos preços de produtos in natura por causa de problemas climáticos, eles acreditam que esses itens deveriam simplesmente ser retirados do cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A ideia não é novidade e tem a simpatia da equipe econômica, pois tornaria o indicador mais realista. No entanto, todos os técnicos ouvidos pelo GLOBO são unânimes em afirmar que isso teria que ser feito com cuidado e num momento de inflação baixa, para que o governo não seja acusado de mais uma maquiagem.

Economistas do mercado financeiro estimaram na terça-feira, pela primeira vez, que a inflação vai estourar o teto da meta do governo em 2014. Analistas ouvidos pela pesquisa Focus, do Banco Central, pioraram suas estimativas e esperam agora que a inflação oficial medida pelo IPCA encerre o ano em 6,51% — ante uma projeção de 6,47% na semana passada. Esta foi a sétima alta consecutiva na previsão para a inflação.

O argumento dos defensores da mudança na formulação da política econômica é que as altas de alimentos, como o tomate e o chuchu, por exemplo, não deveriam influenciar o IPCA total, uma vez que não são produtos insubstituíveis. Os consumidores costumam deixar de comprá-los quando os preços sobem demais em função do clima. Eles afirmam que inflação teria de ser medida por itens que não podem ser trocados por outros, como combustíveis ou alimentação fora de casa.

E eis que, uma vez mais, o culpado é o chuchu! Só que não. A inflação brasileira está alta porque o Banco Central demorou muito a aumentar a taxa de juros, o governo gasta sem parar, e os bancos públicos expandiram demais a carteira de crédito. Com tanto estímulo à demanda e sem a contrapartida na oferta, por baixo investimento e nenhum ganho de produtividade, o efeito é direto nos preços.

Culpar o clima é indecoroso. Fingir que o tomate é o vilão é indecente. Estamos com uma inflação crônica, com ampla difusão (a maioria dos itens em alta), e isso mesmo com os preços administrados pelo governo represados. E técnicos do governo ainda vêm falar em retirar os alimentos do IPCA? Num momento desses? Com a credibilidade do governo totalmente em baixa? Após tantos malabarismos primários?

Alexandre Schwartsman resumiu bem quando disse que a ideia “tem um alto nível de cretinice”. Ele acrescentou: “Acho surpreendente que as pessoas voltem a debater isso neste momento, porque parece que elas não prestam atenção nos números”. E, de fato, é surpreendente. Se bem que nada mais nesse governo chega realmente a surpreender tanto, pois já esperamos o pior…

O núcleo da inflação (“core inflation”) está ainda maior do que o índice oficial nos últimos 12 meses! Daí o espanto de Schwartsman. A culpa não é dos alimentos. É a pressão no setor de serviços que tem mantido a inflação tão elevada. O que o governo deseja de fato? Retirar apenas o chuchu e o tomate, porque subiram muito?

É o debate errado na hora errada. O que os técnicos deveriam estar discutindo é como debelar efetivamente a inflação, e não o índice. A inflação é a perda de poder de compra da moeda, que o povo brasileiro sente toda vez que vai no supermercado, num restaurante, no shopping center.

A economia brasileira está doente, com febre. O governo parece preocupado só com a imagem no termômetro, não com a febre em si. Se ao menos esse maldito termômetro pudesse ser quebrado…

Rodrigo Constantino

23/04/2014

às 10:40 \ Corrupção

Facções petistas brigam entre si e é a Petrobras que paga o pato

Desde que o ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, disse em entrevista ao Estadão que Dilma “não pode fugir da sua responsabilidade” no caso da refinaria no Texas, os petistas avaliam suas armas de cada lado, com um clima cada vez mais tenso.

O Planalto resolveu “entubar” a provocação de Gabrielli até agora, apenas reforçando indiretamente que a compra foi um mau negócio. Ambos os grupos, Gabrielli e Lula de um lado, Dilma e Graça Foster do outro, continuam unidos por um objetivo comum: evitar uma CPI exclusiva para investigar a Petrobras.

Como Merval Pereira disse, a presidente Dilma teria cometido um “sincericídio” ao reconhecer o enorme equívoco da compra da refinaria em Pasadena durante a gestão de Gabrielli. Agora, paga o preço de ter feito uma crítica sincera, ignorando seu próprio papel lá atrás, como presidente do Conselho de Administração da estatal, e também o fato de que a nuvem que impede a transparência da empresa serve para proteger seu próprio partido e seu mentor, o ex-presidente Lula.

O editorial do GLOBO de hoje, após breve resumo do caso, conclui que essa confusão toda aumenta a necessidade de uma CPI:

Disso tudo, sai fortalecida ainda mais a ideia da CPI exclusiva — como deve ser, segundo juristas. E fica mais evidente o choque entre o lulopetismo e Dilma, em torno do passado nebuloso da Petrobras. Não esquecer que a gestão Gabrielli tem como patrono o presidente Lula, de cuja campanha à reeleição, em 2006, o então presidente da estatal participou com estrelinha na lapela do paletó. O conflito dentro de hostes do PT realça, ainda, o aparelhamento da estatal pelo lulopetismo, um combo de que participam sindicalistas e frações fisiológicas de partidos aliados na função de padrinhos de técnicos da casa, um estilo gerencial que marca a administração de Gabrielli.

Espera-se que as investigações da PF sobre o ex-diretor Paulo Roberto Costa, um dos elos naquele aparelhamento, ajude a desenrolar, pelo menos em parte, este novelo. Mas a CPI daria uma contribuição essencial no esclarecimento de desmandos e na defesa do patrimônio da Petrobras.

Nunca antes na história deste país a Polícia Federal havia invadido a sede da maior empresa brasileira e prendido um importante diretor seu. São coisas que somente o PT consegue. Ao mesmo tempo, o partido, apesar dessas brigas entre facções internas, faz de tudo para impedir uma investigação mais profunda.

O ex-presidente Lula chegou a afirmar aos “blogueiros camaradas” que uma CPI tem sempre alto grau de incerteza, lembrando do caso do mensalão e da CPI dos Correios. Ou seja, os petistas alegam abertamente que a preocupação é apenas com o risco de emergir do pântano novos escândalos de corrupção que afetem o partido. Para a estatal em si eles não dão a mínima!

Rodrigo Constantino

23/04/2014

às 9:36 \ Cultura

Francisco Bosco ou Rolando Lero? Quando uma mente confusa posa de profunda…

Bosco tendo um de seus pensamentos “profundos”…

Em sua coluna de hoje no GLOBO, Francisco Bosco tece pensamentos sobre a ética e a moral, e em determinado momento parece rebater críticas feitas a ele pelos leitores deste blog. Vários leitores apontaram, naquela sua tentativa de “dissecar” o meu livro Esquerda Caviar (que ele não leu), para o fato de que Bosco tenta falar bonito e de forma complicada, sem dizer coisa alguma. Seu relativismo moral foi condenado também, por mim mesmo, pois na hora de defender os black blocs ele consegue ser bem objetivo. Diz ele:

A dúvida e a hesitação intelectuais não representam necessariamente falta de clareza cognitiva ou coragem moral para se posicionar com firmeza diante da realidade. Pois muitas vezes a própria realidade não é clara e firme, e sim turva e ambígua. Nesses casos, ao contrário do que se poderia pensar, o estatuto cognitivo da dúvida é justamente a verdade, e seu estatuto moral é a coragem (não é fácil suportar a angústia da indecisão).

[...]

Quem chama de “pedante” alguém que escreve “difícil” (difícil para quem?) mobiliza um álibi moral para uma reação, no fundo, imaginária: sente-se diminuído porque sua incompreensão revela sua ignorância — e procura recalcar isso projetando no outro seu sentimento de inferioridade. De resto, é absurdo moralizar o que não se compreende.

Aqui chegamos ao cerne da questão. O conto de Hans Christian Anderson, publicado em 1837, já nos alertava para essa tática: se você não enxerga algo estupendo e magnífico, então claro que o problema só pode estar em você mesmo, em sua capacidade cognitiva. Não pode ver a linda roupa invisível do rei? Não pode compreender o que o pensador diz com seus rodeios repletos de termos pomposos? É porque apenas os muito inteligentes são capazes disso…

Só que o rei muitas vezes está nu mesmo. Há, infelizmente, quem escreva de forma deliberadamente difícil só para simular inteligência e profundidade, pois lhe faltam verdadeira inteligência e objetividade. A linguagem é muito importante para a comunicação, troca de ideias, raciocínio e debates. Portanto, é fundamental para preservar a liberdade. Dou tanto valor a isso que acrescentei um capítulo sobre o “duplipensar” nesse mesmo livro que Bosco tentou rebater sem ler. Segue um longo trecho:

Para Orwell, uma linguagem com regras aceitas e mutuamente compreendidas era condição indispensável a uma democracia aberta. Karl Popper era outro que defendia como um dever de todo intelectual “o cultivo de uma linguagem simples e despretensiosa”. E foi além: “Quem não pode falar de modo simples e claro deve calar-se e continuar trabalhando até que possa fazê-lo”.

Para Isaiah Berlin, a meta da filosofia é sempre “ajudar os homens na compreensão de si mesmos e assim operar na claridade, e não loucamente, no escuro”. Em seu livro A força das ideias, Berlin resume:

Uma retórica pretensiosa, uma obscuridade ou imprecisão deliberada ou compulsiva, uma arenga metafísica recheada de alusões irrelevantes ou desorientadoras a teorias científicas ou filosóficas (na melhor das hipóteses) mal compreendidas ou a nomes famosos, é um expediente antigo, mas no presente particularmente predominante, para ocultar a pobreza de pensamento ou a confusão, e às vezes perigosamente próximo da vigarice.

Muitos intelectuais da esquerda caviar tentam criar a impressão de profundidade, mesmo quando dizem algo mais raso que um pires. A Escola de Frankfurt ora vem à mente. Karl Popper, em O mito do contexto, chega a analisar trechos desses pensadores obscuros, e conclui sobre um deles:

É por razões deste teor que acho tão difícil discutir qualquer problema sério com o professor Habernas. Tenho certeza de que é perfeitamente sincero. Mas penso que não sabe como colocar as coisas de modo simples, claro e modesto, em vez de um modo impressionante. A maior parte do que diz parece-me trivial. O resto parece-me errado.

Outro Karl, o Kraus, também atacou esse tipo de postura: “Uma aparência de profundidade surge com frequência pelo fato de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma cabeça confusa”. Alguém aí pensou em Gilberto Gil? Roger Scruton, em The Uses of Pessimism, bate no mesmo ponto, mostrando como isso pode ser também uma tática deliberada:

Professores de ciências humanas aprenderam com seus mentores franceses que há uma forma de escrever que sempre será considerada “profunda”, contanto que ela seja (a) subversiva e (b) ininteligível. Enquanto um texto puder ser lido, de alguma forma, contra o status quo da cultura e da sociedade ocidentais, minando a sua pretensão de autoridade ou verdade, não importa que ele seja sem sentido. Pelo contrário, isso é apenas uma prova de que o seu argumento opera em um nível de profundidade que faz com que ele seja imune às críticas.

Alan Sokal adotou uma estratégia para desmascarar vários desses intelectuais. Mandou para uma famosa revista um artigo com título complexo, e trechos bem obscuros. Seu texto não só foi aceito, como gerou bastante reação positiva. Qual não foi a surpresa geral quando o autor confessou tratar-se de um emaranhado de frases soltas e sem sentido?

Sokal aprofundou então o tema em seu livro Imposturas intelectuais, que, segundo o próprio autor, “trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorreto dos conceitos científicos”. São desmontadas certas táticas, como o uso de terminologia científica ou pseudocientífica sem dar a atenção ao seu real significado, ou a ostentação de erudição superficial, que recorre a termos técnicos fora de contexto, para impressionar. 

Eis a questão: Francisco Bosco ou Rolando Lero? Trata-se de um “pensador profundo” ou de uma mente confusa e rasa em busca de uma blindagem impermeável para ocultar a triste realidade? Há muita gente especializada na arte de não dizer absolutamente nada, mas de forma pedante. Ou gente que defende o que há de pior, como o socialismo e os vândalos niilistas dos black blocs, simulando uma superioridade moral, “elástica”, que no fundo serve somente para enaltecer o podre. Gente que escreve:

Os que querem pairar ou soar acima da moral dizem: “Eu não julgo”. Mas não se deve simplesmente abdicar da moral (seria um desastre), e sim alargá-la, complexificá-la, torná-la compreensiva (nos dois sentidos da palavra: abrangência e entendimento). Logo, eu julgo sim, o tempo todo, mas compreensivamente.

Uma pessoa mais “pé no chão” poderia perguntar, com ceticismo: que raios é “julgar compreensivamente”? Porque dá a nítida impressão de ser apenas relativizar a moral a ponto de abrigar nela muita coisa imoral, tipo vandalismo de mascarados vagabundos ou ditaduras socialistas, por conta de suas “conquistas sociais”. Não é mesmo?

Por essas e outras eu digo: eu julgo sim, o tempo todo, mas objetivamente.

Rodrigo Constantino

22/04/2014

às 19:17 \ Sem categoria

Clipping do dia

22/04/2014

às 14:30 \ Racismo

Suprema Corte americana mantém decisão de Michigan contra ação afirmativa

Uma decisão importante foi tomada pela Suprema Corte americana nesta terça: ela sustentou uma lei de Michigan vetando o uso do critério racial para a aprovação em universidades, batalha crucial envolvendo as ações afirmativas no país.

Por 6 votos a 2, foi decidido que a justiça de instância inferior não tinha autoridade para ignorar uma medida aprovada em 2006 por 58% dos eleitores em referendo. Essa medida proíbe que universidades financiadas com recursos públicos garantam tratamento preferencial a qualquer indivíduo ou grupo com base no critério de raça, sexo, etnia ou nacionalidade.

A juíza Sonia Sotomayor, vista como “progressista”, foi um dos votos vencidos e repudiou a decisão majoritária: “Para os membros de grupos historicamente marginalizados, que dependem dos tribunais federais para proteger os seus direitos constitucionais, a decisão dificilmente pode reforçar a esperança em uma visão de democracia que preserve para todos o direito de participar de forma significativa e igualitária no auto-governo”.

Mas, como outros juízes colocaram, o caso sequer era sobre a ação afirmativa em si, e sim sobre quem tem a autoridade de decidir sobre o assunto. Juízes “progressistas”, ligados ao presidente Obama, não costumam ter muito apreço pelo federalismo e a divisão de poderes, tampouco pela preferência da maioria. São “agentes do progresso” imbuídos de uma missão revolucionária que pode passar por cima da Constituição e das escolhas locais.

Nem preciso dizer que concordo tanto com a decisão da Suprema Corte como com a medida de Michigan, aprovada em referendo popular. Permitir que universidades financiadas com os impostos utilizem critérios raciais para discriminar alunos é absurdo, fere a igualdade perante as leis, e acaba fomentando o racismo que se pretende combater.

Não faz o menor sentido segregar a população com base na “raça” e criar privilégios, tudo isso em nome da luta contra o racismo. Que a decisão da Suprema Corte representa um marco na defesa do verdadeiro liberalismo, não aquele colocado na boca de “progressistas” de esquerda como Obama, e sim aquele clássico, que prega a igualdade de todos perante as leis.

Rodrigo Constantino

22/04/2014

às 13:53 \ Comunismo, História

O extermínio dos Romanov

A presidente Dilma discursando com a foto do assassino atrás, em evento comunista

A presidente Dilma discursando com a foto do assassino atrás, em evento comunista

Dando continuidade às homenagens pelo aniversário de Lênin, o psicopata idolatrado pelos idiotas úteis, segue a resenha que escrevi do ótimo livro de Helen Rappaport sobre o extermínio da família do czar russo, obra arquitetada e liderada pelo próprio líder da revolução bolchevique.

O extermínio dos Romanov

“Lênin era absolutamente indiferente ao sofrimento humano e não hesitava em ordenar as medidas mais selvagens para se vingar.” (Helen Rappaport)

Que o comunismo ainda consiga adeptos em pleno século 21 é um mistério, mas mais absurdo ainda é esta ideologia ser vista como nobre em sua origem. Muitos condenam o chamado “socialismo real” para proteger a utopia igualitária defendida por gente como Lênin, como se o comunismo tivesse se degenerado com o tempo. Mas o fato é que, desde sua concepção, aqueles atraídos pelo comunismo sempre foram os mais ressentidos. Os bolcheviques anunciaram que havia chegado a hora de fazer “a burguesia passar fome”. O próprio Lênin alimentava um ódio pela morte de seu irmão em 1887, enforcado por ter se envolvido em uma conspiração para assassinar o czar. A máscara do altruísmo foi usada pelos bárbaros em busca de vingança, sangue e violência.

Existem inúmeros casos que podem ser citados para corroborar com esta afirmação, mas poucos concentram tão bem este lado negro do comunismo como o assassinato da família Romanov, após a tomada de poder pelos bolcheviques. A historiadora Helen Rappaport, especialista em história russa, fez uma pesquisa minuciosa sobre este evento sombrio, relatada no livro Os últimos dias dos Romanov. O grau de detalhes contido no livro é impressionante, e ao mesmo tempo assustador. A frieza dos líderes bolcheviques fez com que as vítimas não fossem vistas como seres humanos, mas sim como representantes de uma classe política que deveria ser eliminada. Até mesmo as crianças eram apenas uma “instituição” a ser extirpada do jogo político para sempre.

Naturalmente, o destino dos Romanov não inocenta o governo autocrático de Nicolau, um czar tolerante à repressão violenta aos rebeldes. Mas nada justifica a forma com a qual os bolcheviques, liderados por Lênin, trataram a família durante a fase de consolidação do poder. O império de Nicolau estava bastante impopular devido à miséria, agravada pela guerra. A imagem negativa de Alexandra, esposa de Nicolau, não ajudava; sua forte ligação com o manipulador Rasputin era motivo de insatisfação popular. O “homem santo” desfrutava da confiança da czarina pois ela jurava que somente ele era capaz de cuidar da doença de seu filho hemofílico. Ainda assim, o povo russo, em geral, não compartilhava do mesmo ódio que os bolcheviques. Tanto que a prisão domiciliar de dezesseis meses da família e seu desfecho trágico tiveram que ser mantidos em sigilo, pois os bolcheviques sabiam o quão impopular seriam seus atos se viessem à tona.

O relato de Rappaport mostra uma família bastante comum durante o período confinado numa casa em Ecaterimburgo, na Sibéria. O desespero frente às incertezas de seu destino fez com que a família imperial buscasse na fé religiosa a força para resistir. Seu cotidiano era basicamente preenchido com leitura e orações, uma vez que o confinamento dentro da casa era total. As janelas haviam sido pintadas e um muro de paliçada fora erguido para impedir a visão dos ilustres prisioneiros. Do lado de fora, reinava um clima de guerra civil, com a fome se espalhando após as medidas bolcheviques. As pessoas estavam sendo presas indiscriminadamente, e com prisões lotadas, os hotéis e fábricas foram usados como locais de confinamento. Nesse tenebroso contexto, uma família buscava, unida, manter a esperança no futuro. Mas os bolcheviques tinham em mente um destino diferente para a dinastia dos Romanov.

Planos para resgatar o czar foram elaborados, mas Nicolau se recusava a ser salvo deixando para trás sua família. E resgatar todos, incluindo suas quatro filhas e seu primogênito doente, parecia tarefa quase impossível. Aceitando seu destino com resignação, Nicolau aguardaria aquilo que Deus tivesse preparado para sua vida. Ele não sabia que era Lênin, o diabo em pessoa, quem dava as cartas. Lênin considerava o regicídio uma necessidade, e julgamentos transparentes não passavam de uma besteira burguesa. Os bolcheviques jogavam no tudo ou nada, e quaisquer meios eram aceitáveis para seus fins. Trotski chegou a afirmar: “À nossa frente está a vitória total ou a ruína absoluta”. A palavra preferida dos bolcheviques era “aniquilação”: da propriedade privada, da monarquia, da religião, dos costumes burgueses etc. A palavra se tornou eufemismo empregado pelos bolcheviques quando se referiam a assassinar seus oponentes, ou até para justificar uma extensa limpeza social.

Exterminar a família Romanov inteira não era algo politicamente tão simples assim. Lênin desejava colocar um fim na dinastia, mas não sabia como fazer isso sem manchar seu nome. Além disso, uma coisa era matar o czar, mas outra completamente diferente era eliminar a família toda, incluindo as crianças. Os líderes bolcheviques teriam que manter isso em segredo de Estado, ocultando os fatos principalmente dos estrangeiros. Apenas a lógica política era levada em conta pelos bolcheviques. Questões humanísticas não tinham espaço em suas reflexões. Como Trotski afirmaria mais tarde, “a família do czar foi vítima do princípio que compõe o próprio eixo da monarquia: a herança dinástica”. Diferente da Revolução Francesa ou da revolução de Cromwell, não bastava cortar a cabeça do rei; era preciso cortar “uma centena de cabeças Romanov”. Na verdade, o número foi infinitamente maior que este.

Os momentos finais da família Romanov são contados com riqueza de detalhe por Rappaport. Trata-se de uma cena digna de filme de terror. A família foi acordada no meio da noite e colocada num quarto escuro no subsolo da casa que funcionava como sua prisão. Foi dito aos Romanov que se tratava de uma mudança de endereço, pois estava perigoso demais permanecer naquele local. Yurovsky, que era muito próximo de Lênin e estava no comando da operação, leu um trecho da mensagem que selava o destino da família. Então, após a perplexidade do czar, o bolchevique sacou sua arma, deu um passo à frente e atirou no peito de Nicolau à queima-roupa. Em seguida, os demais bolcheviques encarregados da chacina abriram fogo no apertado cômodo escuro, fuzilando cada membro da família, incluindo o médico do czar.

Os tiros deixaram uma névoa que tornava a visão ainda mais difícil, e os gemidos vinham de toda parte. Os assassinos tiveram que golpear os corpos com a baioneta para finalizar o serviço, descarregando todo seu ódio. Nenhuma das filhas teve morte rápida ou pouco dolorosa. “Foram necessários vinte minutos de atividades frenéticas para matar os Romanov e seus serventes”, conforme explica Rappaport. Ela completa: “O que deveria ter sido uma execução limpa e rápida se transformou em um banho de sangue”. Não menos fria foi a tarefa de se livrar dos corpos na floresta depois, ateando fogo neles. Lênin tomou o devido cuidado de apagar qualquer registro oficial que ligasse seu nome a este ato bárbaro e covarde cometido pelos bolcheviques sob o comando de seu camarada Yurovsky, subalterno de sua extrema confiança.

Helen Rappaport resume a situação: “A execução a sangue-frio das crianças Romanov, junto com a tentativa de promover um extermínio sistemático de toda a dinastia, foi o teste final para a imoralidade da política bolchevique”. E pensar que até hoje há quem acredite que o comunismo é uma utopia nobre que atrai pessoas altruístas em busca de justiça e um mundo melhor, e não bárbaros ressentidos procurando dar vazão ao seu ódio e sua pulsão de morte…    

Rodrigo Constantino

22/04/2014

às 13:15 \ Comunismo, História

Aniversário de Lênin: uma homenagem ao psicopata

Esse gesto parece familiar?

Esse gesto parece familiar?

No dia 22 de abril de 1870* nascia Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lênin, o líder da Revolução Soviética. Filho de classe média alta e até nobre, Lênin seria o responsável por uma das maiores desgraças da história da humanidade. Muitos ainda tentam defender seu legado, jogando a culpa do fracasso e da violência comunista apenas em Stalin, mas erram feio: o “pai” da revolução era igualmente psicopata.

Algumas declarações do líder bolchevique, recuperadas após a abertura dos documentos soviéticos e reunidas em O livro negro do comunismo, demonstram o quão pacífico era esse senhor:

Toda a essência do nosso trabalho visa à transformação da guerra numa guerra civil. Não podemos prometer a guerra civil, nem decretá-la, mas temos o dever de trabalhar – o tempo que for necessário – nessa direção.

Enquanto não aplicarmos o terror sobre os especuladores – uma bala na cabeça, imediatamente – não chegaremos a lugar algum!

É chagada a hora de levarmos adiante uma batalha cruel e sem perdão contra esses pequenos proprietários, esses camponeses abastados.

Camaradas! O levante kulak nos cinco distritos de sua região deve ser esmagado sem piedade. É necessário dar o exemplo. Enforcar, e digo enforcar de modo que todos possam ver, não menos que cem kulaks.

Haja pacifismo! Haja sentimento nobre! Na verdade, Lênin tinha sede por vingança, violência e poder. Ele desejava uma guerra civil. Os anos dos czares na Rússia foram cruéis, e uma revolta popular era o caminho lógico. Porém, em 1917, a tomada do poder foi tão fácil que uma luta armada nem se fazia necessária. Os bolchevistas deram na verdade um golpe dentro do golpe, e partiram para a instalação do terror.

Para se ter uma rápida ideia em números, de 1825 a 1917, menos de 4 mil pessoas foram executadas, quantidade esta já ultrapassada pelos bolchevistas após quatro meses no poder. Os kulaks, pequenos proprietários de terras, seriam praticamente dizimados da Rússia. Entre 10 a 15 mil execuções sumárias ocorreriam em dois meses somente, sob ordens da Tcheka. Em poucas semanas, eles já teriam executado três vezes mais pessoas do que todo o império czarista havia condenado à morte em 92 anos!

Vários massacres foram acontecendo de forma ininterrupta na década de 1920. Em Criméia, pelo menos 50 mil civis foram aniquilados pelos bolchevistas em dois meses em 1920. A troiki, que eram tribunais de descossaquização, condenaram à morte mais de 6 mil cossacos nesta época. Suas casas eram destruídas e as terras eram distribuídas entre os membros do partido. Em regiões cossacas onde houve oposição aos bolchevistas, populações inteiras foram mortas, totalizando mais de 500 mil vítimas em apenas dois anos nas regiões do Don e Kuban, cuja população total não ultrapassava 3 milhões.

Outra arma muito utilizada pelos bolchevistas foi a fome. Eles simplesmente cortavam o fornecimento de comida para determinadas regiões, matando de fome populações inteiras. Pelo menos 5 milhões de pessoas, numa estimativa conservadora, morreram de fome em 1921 e 1922 apenas! A era de Stalin não iria deixar por menos, e entre 1932 a 1933 mais de 6 milhões de pessoas iriam morrer de fome também.

As perseguições não eram seletivas, e praticamente qualquer um poderia se tornar uma vítima do rolo compressor vermelho. “Burgueses”, “capitalistas”, pequenos proprietários, membros da Igreja, participantes de outros partidos, enfim, qualquer um que não fizesse parte dos bolchevistas era alvo potencial. Em 1936, por exemplo, mais de 70% das igrejas locais haviam sido destruídas.

Lênin foi o grande cérebro por trás desse extermínio todo. Inspirado em Marx, desenvolveu a tese (absurda) de que o imperialismo era a extensão natural do capitalismo, e que para conter esse avanço era preciso uma revolução armada que criasse a ditadura do proletário. O resultado foi tal tragédia sem precedente na história. Hitler iria inclusive se inspirar nos campos de concentração soviéticos.

Como fica claro, Lênin não era um idealista em busca de justiça e paz, mas um psicopata, um alienado revoltado, incapaz de lidar com a morte de seu irmão, enforcado após tentativa de assassinar o czar, disposto a sacrificar milhões de vidas inocentes no altar de sua utopia, uma escapatória para seus problemas psicológicos. O comunismo nasce do desvio mental e de caráter, e Lênin comprova isso com perfeição.

Stalin e Hitler são abominados pela imensa maioria das pessoas (à exceção de um ou outro crápula ou idiota útil, como era o caso de Oscar Niemeyer, defensor do carniceiro soviético até o final de sua longa vida). Mas Lênin, por ignorância, acaba poupado, até mesmo defendido por muitos ainda. Deveriam conhecer melhor sua trajetória, para eliminar qualquer dúvida remanescente: tratava-se de um verdadeiro assassino psicopata.

* Na verdade, nasceu no dia 10 de abril pelo calendário gregoriano e 22 de abril pelo juliano.

Rodrigo Constantino

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados