Blogs e Colunistas

22/12/2014

às 11:27 \ Cultura, Socialismo

Os riquinhos contra o capitalismo e o tédio da abundância

Sugestão de presente: um iPhone novo com a capa do Che!

A coluna de Luiz Felipe Pondé hoje está ácida do jeito que eu gosto. Se o filósofo já pega no pé dos “inteligentinhos”, aqueles que fazem jantares caros para demonstrar como se preocupam com os pobres africanos, a destruição do planeta e as baleias em extinção, agora ele ataca uma espécie similar, possivelmente a mesma: a dos riquinhos que adoram odiar o capitalismo.

Pega bem entre certos círculos meter o pau no capitalismo, na ganância, no próprio dinheiro, mesmo quando se vive pelo dinheiro, com muita ganância, desfrutando dos bens que só o capitalismo pode oferecer. É o que mais vemos por aí: riquinhos que viajam pelo mundo de classe executiva, tomam bons vinhos, compram bolsas ou roupas caríssimas, e depois destilam todo seu ódio contra o materialismo capitalista. Diz Pondé sobre a origem do fenômeno:

Muita gente já tentou entender de onde vem essa “pulsão” (ricos têm “pulsão”, pobres têm “instintos” –imagino o número de inteligentinhos brincando com seus livros de psicanálise, achando que essa ironia tem algum caráter de preconceito).

Por que alguns ricos se dedicam a combater as ferramentas do capitalismo, ou as ferramentas da livre competição, ou se dedicam à arte com crítica social?

A resposta está além e aquém do que pensa nossa vã inteligência viciada em construir um mundo melhor. A razão para alguns ricos (principalmente mais jovens) se dedicarem a atividades “santas” é apenas uma: eles já têm muito dinheiro e morrem de tédio por isso. Alguns dizem ser consciência culpada. Eu, que sou um cético, acho que o tédio vem antes.

No fundo, sou mais materialista histórico do que os marxistas de butique que assolam nossos centros culturais e revistas inteligentinhas pagas por bancos.

Ou seja, quem tem tudo fácil demais fica “bobo”, não aprende a dar valor às coisas, não sabe como é duro sobreviver contra a natureza hostil, conseguir o básico, como água, comida, abrigo. A riqueza herdada pode tornar o sujeito um mimado que crê em suas “boas intenções”.

O tédio do dinheiro herdado deveria ser mais levado a sério quando se compara comportamentos entre os mais jovens. A certeza da grana ganha enfraquece a alma”, conclui Pondé. Concordo com ele, e tratei do tema em meu Esquerda Caviar, onde abordo vinte possíveis causas para o fenômeno aparentemente estranho de ricos pregando o socialismo. O tédio é uma das respostas, como a “elite culpada”. Segue um trecho:

Não podemos excluir ainda o puro tédio como imã para a esquerda caviar. Vivendo vidas seguras e confortáveis, fúteis e vazias, a fina flor da esquerda abraça ideias revolucionárias ou exóticas apenas para afastar de si a angústia de suas existências. A sociedade da abundância ajuda a parir os radicais chiques. São os “senhorzinhos satisfeitos” de que falava Ortega y Gasset.

Normalmente incapazes de se enquadrar ao sistema, por considerarem aquelas pessoas de classe média “felizes” com suas distrações burguesas, tais como novelas e futebol, um bando de alienados, esses membros da elite entediada partem para aventuras mais radicais. Eles precisam “cair fora” (drop out) da sociedade, buscar alternativas que ofereçam um novo sentido a suas vidas.

O esoterismo encanta essas pessoas, sempre em busca do último modismo antiocidental. Ioga, feng shui, florais de Bach, xamanismo, ervas milagrosas, dieta “detox”, tudo prato cheio para as madames entediadas. São as “socialites socialistas”, muitas vezes esposas ou filhas de ricaços, que compram seu passe no mundo intelectual por meio de filantropia às causas esquerdistas ou exóticas.

Um anúncio que vi em uma revista parece feito sob medida para essas senhoras. O título era “Para sua proteção” e divulgava joias a partir de R$ 480, de ouro ou prata, “benzidas” por uma estudiosa da cabala e banhadas em água salgada. Os colares e pulseiras eram, portanto, “espiritualizados”. O local da loja? Leblon, claro! 

[...]

Em A elegância do ouriço, Muriel Barbery usa uma das narradoras, uma menina muito inteligente de 13 anos, para descrever o desconforto com essa atitude de sua mãe. Elas moram em um endereço de luxo em Paris, repletas de conforto. Não obstante, sua mãe vive a pregar o socialismo, entre uma conversa e outra com suas plantas. E claro, mesmo depois de dez anos de terapia, ela ainda precisa tomar remédio para dormir…

O autor coloca na outra narradora da história, uma concierge humilde, porém extremamente culta, as palavras de desprezo em relação ao grupo de riquinhos mimados que tentam aparentar um estilo artificial de pobreza cool:

Se tem uma coisa que abomino, é essa perversão dos ricos que se vestem como pobres, com uns trapos que ficam caindo, uns bonés de lã cinza, sapatos de mendigo e camisas floridas debaixo de suéteres surrados. É não só feio mas insultante; nada é mais desprezível que o desprezo dos ricos pelo desejo dos pobres.

No entanto, basta frequentar uma faculdade privada para ver a quantidade de jovens que aderem a esse estilo “riponga”, com suas camisetas do Che Guevara, apenas para entrar depois em seus carros importados do ano. São os “revolucionários de Facebook”, que escrevem em seus perfis da rede social americana o quanto odeiam o sistema capitalista americano e o lucro que tornou o instrumento viável.

O Natal está chegando, e o que mais veremos por aí são os riquinhos gastando fortunas em presentes para os seus familiares e amigos, enquanto repetem como o dinheiro e a ganância são, ao lado do capitalismo, as raízes de todos os males do mundo…

Rodrigo Constantino

22/12/2014

às 10:50 \ Economia, Intervencionismo

Cartel é fruto de acordo entre grandes produtores e governos, não do mercado

“Há um excesso de produção de smartphones no mundo, e temos hoje um excedente de dois milhões de unidades. Isso tem feito o preço dos aparelhos cair muito, o que é irresponsável. É preciso mais racionalidade no mercado, os governos precisam intervir para manter a produção menor e os preços maiores”.

O leitor acharia normal uma declaração como essa? Não ficaria evidente que se trata de um conluio de produtores em busca de apoio dos governos para ferrar com os consumidores? A queda no preço dos smartphones não é vista como algo positivo pelos milhões de consumidores do mundo todo?

Pois esse é justamente o discurso dos produtores de petróleo organizados na Opep, o maior cartel oficial do mundo, criado por governos autoritários com muito petróleo. O representante de Abu Dhabi na Opep disse exatamente isso, acusando de “irresponsáveis” aqueles que jogam mais oferta no mercado, e conclamando os produtores a cortar produção:

ABU DHABI As nações produtoras não associados à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) deveriam cortar sua produção “irresponsável”, cujo excesso está prejudicando o setor petrolífero, disse ontem o ministro de Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail al-Mazrouei, durante uma conferência em Abu Dhabi. Segundo seu colega do Qatar, Mohammed al-Sada, o mercado mundial de petróleo está com uma oferta excessiva de dois milhões de barris diários (bpd). A Opep vem produzindo 30 milhões de bpd desde janeiro de 2013, ao passo que a oferta global subiu mais de dois milhões de bpd, para 93,6 milhões de bpd, segundo dados compilados pela Bloomberg.

— Conclamos todos os demais produtores a pararem de elevar (a produção), porque o aumento está prejudicando o mercado — disse al-Mazrouei.

Os preços do petróleo do tipo Brent recuaram 45% este ano. A Opep decidiu no mês passado, em sua reunião anual, manter sua produção inalterada em 30 milhões de bpd, resistindo aos apelos da Venezuela, que vem sofrendo com a queda nas cotações, já que sua economia é totalmente dependente do setor petrolífero.

Preço do barril de petróleo. Fonte: Bloomberg

Preço do barril de petróleo. Fonte: Bloomberg

De fato, o preço do barril despencou no mercado, graças aos produtores independentes, como as empresas americanas privadas, ou seja, os “irresponsáveis”. E o governo venezuelano, autoritário, deseja impedir o funcionamento do livre mercado, que claramente beneficia os consumidores do mundo todo.

O caso deveria servir como lição para todos aqueles – e são muitos – que repetem que a tendência natural do mercado é formar cartéis, e que a intervenção estatal é necessária para impedir isso. Tal visão marxista é totalmente equivocada.

O livre mercado é o melhor amigo dos consumidores, pois a concorrência sem amarras estatais tende a impor uma constante busca por excelência que, por sua vez, melhora a qualidade dos produtos e reduz seus preços. Basta ver o funcionamento do mercado de tecnologia, um dos mais livres do mundo.

Por outro lado, os governos poderosos, em simbiose com grandes produtores, costumam impedir o funcionamento desse mecanismo de competição, erguendo obstáculos e até mesmo criando cartéis, como o mais famoso do mundo, a Opep. Não é resultado do livre mercado, mas justamente das intervenções estatais.

Da próxima vez que o leitor escutar alguém acusando o mercado de formar cartéis e demandando intervenção estatal para “proteger o consumidor”, procure se lembrar da Opep e de como tais cartéis são possíveis graças à intervenção estatal no livre mercado. Este, insisto, é o melhor amigo dos consumidores.

Rodrigo Constantino

22/12/2014

às 10:17 \ Filosofia política

A lição econômica de Henry Hazlitt

“Enxergar o problema como um todo, e não em fragmentos: esse é o objetivo da ciência econômica.” (Henry Hazlitt)

Se alguém quisesse ler apenas um livro para entender os conceitos básicos de economia, ainda que ignorados por muitos economistas famosos, esse livro deveria ser Economics in One Lesson, de Henry Hazlitt. O autor, que ajudou a divulgar os pensamentos da Escola Austríaca, escreveu o excelente livro com base principalmente nas idéias de Bastiat, Wicksteed e Mises. O livro é uma análise objetiva das falácias que dominam boa parte do pensamento econômico. Pela sua simplicidade, sem que perca valor por isso, Hayek afirmou não conhecer nenhum outro livro “moderno” (foi publicado em 1946 originalmente) pelo qual um leigo inteligente possa aprender tanto sobre as verdades básicas da economia em tão pouco tempo.

A grande lição econômica, que irá acompanhar a análise dos diferentes exemplos citados no livro, é fruto basicamente do que Bastiat já havia descoberto: a diferença entre aquilo que vemos e aquilo que não vemos. Há uma tendência persistente das pessoas focarem somente nos efeitos imediatos de uma determinada política, ou então em seus efeitos somente num determinado grupo específico, ignorando as conseqüências no longo prazo e os efeitos gerais da medida. Trata-se da falácia de esquecer as conseqüências secundárias.

Para Hazlitt, eis a diferença entre um economista bom e um ruim: este enxerga apenas o que imediatamente chega aos olhos, enquanto o outro também enxerga além. Muito daquilo que parece óbvio no campo individual é ignorado no campo da economia pública, já que muitos passam a considerar uma abstração coletivista qualquer esquecendo os indivíduos que a formam. Hazlitt chega então à sua lição básica: “A arte da economia consiste em olhar não meramente o imediato, mas para os efeitos mais longos de qualquer ato ou política; consiste em traçar as conseqüências da política não meramente para um grupo, mas para todos os grupos”. Parece simples e óbvio demais, e de fato é. Mas chega a ser espantosa a quantidade de gente que ignora esta lição elementar, mesmo entre os economistas.

Considerar todos os efeitos de uma medida costuma demandar uma cadeia de raciocínio mais longa e complicada. Boa parte do público pode achar difícil ou tedioso seguir todos os passos necessários, e pode acabar vítima dos sofistas. A falácia mais freqüente que costuma surgir em todos os debates sobre economia é justamente concentrar a visão nos efeitos de curto prazo e nos grupos específicos. São inúmeros os casos para exemplificar isso. Um dos economistas mais famosos de todos os tempos, cujos seguidores são justamente grandes defensores desta falácia, já dizia que “no longo prazo estaremos todos mortos”. Infelizmente, o longo prazo chega algum dia, pois as medidas insensatas do passado cobram seu elevado preço depois. A seguir, veremos alguns exemplos onde fica evidente a presença desta falácia.

O primeiro exemplo seria aquele usado por Bastiat mesmo, da janela quebrada. Algum vândalo joga uma pedra que estilhaça a janela de uma loja. Em seguida, algumas pessoas tentam consolar o dono da loja alegando que ao menos ele estará gerando emprego ao consertar a janela. Afinal, se janelas nunca fossem quebradas, de que iriam viver os reparadores de janelas? Esta linha de raciocínio cai justamente na falácia acima citada, pois ignora aquilo que não se vê de imediato. Sim, o conserto da janela iria propiciar um ganho para o vidraceiro. Mas o que seria feito desse dinheiro gasto caso a janela não tivesse sido quebrada? Eis a pergunta que nem todos fazem, porém crucial para o entendimento da economia.

Existem várias alternativas que o dono da loja poderia dar ao dinheiro. Ele poderia investi-lo para aumentar a produtividade, poderia poupá-lo ou poderia gastar com qualquer outra coisa. Supondo que ele gastasse a mesma quantia na compra de um terno, o alfaiate teria sido beneficiado, mas agora que o dinheiro foi usado para consertar a janela, esse terno deixou de ser vendido. Isso é aquilo que não se vê, ao menos de imediato. O alfaiate do exemplo é ignorado, é o homem esquecido na análise superficial da coisa. Parece ridículo de tão óbvio este caso, mas o leigo ficaria chocado em como os demais casos são apenas variações dessa mesma falácia. E nunca é demais lembrar que ainda existem pessoas que acreditam que guerras geram riqueza, pois faz necessária a reconstrução de muitos ativos.

Como exemplo, basta mencionar que muitos ainda encaram os gastos públicos como uma panacéia para os males econômicos, especialmente o desemprego. Esquecem que não existe almoço grátis, e que todos os gastos do governo devem ser pagos eventualmente por impostos, incluindo a inflação, o mais perverso tipo de imposto, que ataca com violência especialmente os mais pobres. Todo emprego criado pelo gasto público inventado com este objetivo é um emprego destruído em algum outro lugar. A riqueza que é extraída dos pagadores de impostos seria utilizada de alguma forma qualquer pelo setor privado, e esta alternativa é o que não se vê de imediato.

Focando apenas nos efeitos de curto prazo e nos grupos particulares beneficiados pelo gasto público, muitos advogam que essa é uma medida fantástica para se gerar empregos. Argumentam que manter burocratas inúteis tem utilidade por conta do seu poder de compra, esquecendo que pela mesma “lógica” os ladrões que roubam acabam consumindo depois, e nem por isso a sociedade fica melhor. Apelando para o reductio ad absurdum, poderíamos concluir que haveria pleno emprego se o governo contratasse metade da população para cavar buracos e a outra metade para fechá-los! Acaba ignorado, na análise das vantagens dos gastos públicos, tudo aquilo que representa seqüelas de longo prazo e incide sobre o restante da população.

Hazlitt segue estudando vários outros casos. O crédito fornecido pelo governo é um deles. Todo crédito pressupõe um débito, e propostas de aumento do crédito público são sinônimo de propostas para aumento do débito público. Quando o governo empresta dinheiro, ele está antes tirando do setor privado, que usaria este dinheiro de alguma outra forma, normalmente ignorada pelos analistas. Fora isso, os critérios de julgamento do setor público são bem diferentes daqueles do setor privado, que arrisca os próprios fundos quando empresta capital.

O governo acaba emprestando para aqueles que o setor privado considera mais arriscados, sem falar do perigo de favoritismo por critérios políticos. A inadimplência tenderá, portanto, a ser maior no empréstimo público. O resultado, então, é negativo não apenas pelo uso alternativo que este dinheiro teria se fosse mantido no setor privado, como também pela ineficiência maior de seu uso público. O efeito líquido de longo prazo é a destruição de riqueza geral, efeito esse ignorado quando focam apenas no crescimento de riqueza imediato pelos agraciados com o crédito público. A mesma lógica se aplica na questão dos subsídios.

A intervenção estatal que objetiva interromper ou atrasar um avanço tecnológico é outro caso típico da falácia citada. O exemplo dos ludistas, que chegaram a destruir máquinas que “roubavam” seus empregos, vai à mesma linha. O argumento de que avanços da técnica destroem empregos é falacioso pelo mesmo motivo que os demais já estudados. Observa-se o efeito imediato daquele emprego específico que perde sua razão de ser, mas se ignora o efeito positivo de forma geral para a sociedade ao longo do tempo, já que a maior produtividade permite maiores salários e maior conforto material.

Será que alguém consegue mesmo acreditar que o mundo estaria melhor se o emprego dos fabricantes de vela tivesse sido mantido na marra pelo governo quando a luz elétrica surgiu? Ou então o emprego dos fabricantes de carroças, quando Ford lançou seu Modelo T? Schumpeter falara da “destruição criativa”, e é justamente o que ocorre com o progresso tecnológico. Alguns grupos específicos são prejudicados no primeiro momento, mas o resultado líquido é altamente positivo de forma geral. Não há limites para esse processo contínuo de criação e inovação.

Os demais exemplos citados por Hazlitt passam pela tentativa do governo de controlar preços, incluindo aqui aluguel, juros, câmbio e salários. De forma geral, quem acaba sendo o personagem esquecido em todas essas políticas é o consumidor, assim como o pagador de impostos. Uma tarifa de importação que protege a indústria nacional está na verdade beneficiando um grupo específico no curto prazo, mas penalizando a sociedade no longo prazo. Um preço de algum produto determinado arbitrariamente acima daquele de mercado, onde a oferta se iguala a demanda, irá inevitavelmente gerar escassez, prejudicando o próprio consumidor. Um preço determinado abaixo do de mercado também irá gerar escassez ou mercado negro.

O caso do salário, que muitos esquecem ser também um preço, é idêntico. O salário mínimo colocado acima daquele que equilibra a oferta e a demanda costuma gerar apenas desemprego ou informalidade. Aumento no salário real é reflexo de maior produtividade, não de decretos estatais. E a maior produtividade vem pelo acúmulo de capital. Não há forma mais certa de reduzir os salários que diminuir os incentivos dos empresários a investir em máquinas e equipamentos.

Hazlitt trata desses casos e de outros no detalhe. A conclusão é sempre a mesma, obtida pela dedução lógica da teoria econômica básica: muitas dessas medidas acabam sendo defendidas pela miopia das pessoas, que focam nas vantagens imediatas e ignoram os efeitos de longo prazo na sociedade como um todo. O fato de o benefício do privilégio ser concentrado e o custo disperso não ajuda nada. Os lobistas dos grupos interessados se organizam mais que os consumidores e pagadores de impostos que assumem o fardo, muitas vezes sem nem se dar conta.

Justamente por isso é fundamental que as pessoas passem a julgar as políticas públicas sob esta ótica correta, buscando contrabalançar as vantagens que logo aparecem para determinados grupos com as inúmeras desvantagens que surgem ao longo do tempo para os indivíduos em geral. Se feito isso, ficará bem mais claro que não existe almoço grátis, e que na maioria dos casos o governo é demandado para solucionar problemas que surgiram justamente por sua causa.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

22/12/2014

às 9:40 \ Economia, Inflação

Mercado reduz estimativa de crescimento e aumenta a de inflação para 2015

Segunda-feira é dia de o Banco Central divulgar o relatório Focus, com as estimativas dos principais analistas do mercado. Como tem sido o comum, houve nova rodada de revisão das expectativas, com viés cada vez mais pessimista. O mercado espera crescimento cada vez menor e inflação cada vez maior para 2015, o “ano perdido”.

Crescimento do PIB esperado para 2015. Fonte: Focus/Bloomberg

Crescimento do PIB esperado para 2015. Fonte: Focus/Bloomberg

O PIB, segundo estimativas desses analistas, deverá crescer apenas 0,5% em 2015, um ano de fortes ajustes necessários. Arrisco dizer que ainda se trata de uma projeção otimista, e não descarto a possibilidade razoável de o Brasil experimentar uma recessão no ano, ou seja, uma queda da atividade geral.

Inflação esperada para 2015. Fonte: Focus/Bloomberg

Inflação esperada para 2015. Fonte: Focus/Bloomberg

Não obstante o “crescimento” anêmico projetado, o mercado acha que a inflação, medida pelo IPCA, irá estourar o teto da elevada meta, fechando 2015 acima de 6,5%. Em outras palavras, a estimativa do mercado é que 2015 será mais um ano de estagflação, na verdade com um agravamento do quadro atual. São os custos altos pelos equívocos do governo nos últimos anos.

Chama a atenção o fato de que os economistas desenvolvimentistas, ligados ao governo Dilma, insistam em seu manual de economia, mesmo após retumbante fracasso de seu modelo. Tudo que as políticas expansionistas do governo Dilma conseguiram produzir foi estagnação com inflação.

Agora vem um “fiscalista” ortodoxo fazer o “trabalho sujo”, tentar colocar a casa em ordem, e será ele – e suas medidas restritivas tidas como “neoliberais” – o acusado pela situação lúgubre da economia. Mas tudo isso foi cantado lá atrás, pelos economistas liberais, críticos do nacional-desenvolvimentismo de Dilma e Mantega. Foi tudo previsto por quem entende mais de economia, por quem sabe que é impossível produzir crescimento sustentável depositando no estado o controle minucioso da economia.

O intervencionismo exacerbado, o voluntarismo, o aumento dos gastos e do crédito públicos, os subsídios seletivos, a escolha dos campeões nacionais, o controle do câmbio e dos preços, todo o manual desenvolvimentista, enfim, fracassou uma vez mais. O triste é que sabemos que, novamente, essa turma não vai aprender a lição…

Rodrigo Constantino

22/12/2014

às 8:03 \ Terrorismo

As ameaças terroristas a Israel

Uma aula de pouco mais de 15 minutos sobre as principais ameaças terroristas a Israel, por Andre Lajst, um especialista em contra-terrorismo que atuou na inteligência do Exército na última operação em Gaza:

Rodrigo Constantino

21/12/2014

às 19:05 \ Sem categoria

Clipping do fim de semana

21/12/2014

às 13:37 \ Filosofia política

A ordem espontânea: biologia, ciência, mercados

Pássaros criam uma “ordem espontânea”

“Quanto mais o Estado ‘planeja’ mais difícil se torna o planejar para o indivíduo.” (Hayek)

O químico húngaro Michael Polanyi, tal como seu colega Hayek, acreditava numa ordem espontânea, tanto para a ciência como para a economia. Ele deixa isso claro em seu livro A Lógica da Liberdade, quando diz: “Minha argumentação pela liberdade da ciência guarda semelhança próxima com a doutrina clássica do individualismo econômico”.

A percepção que Adam Smith tivera a respeito dos homens de negócios foi na mesma linha, e Polanyi reconhece isso. Os esforços de cada um, se valendo do mesmo mercado de recursos produtivos com o objetivo de satisfazer diferentes partes do mesmo sistema de demanda, seriam coordenados por uma “mão invisível”, levando a mais efetiva utilização dos recursos disponíveis.

Polanyi compara esta ordem espontânea com outros exemplos que seguem os mesmos princípios. Um desses exemplos seria um jarro no qual a água se acomoda, preenchendo perfeitamente o espaço do recipiente com densidade uniforme. Ele explica: “As partículas ficam assim livres para obedecer às forças internas que agem entre elas, e a ordem resultante representa o equilíbrio entre todas as forças internas e externas”. A própria evolução das espécies seria outro exemplo, parecendo ter resultado de “um processo continuado de equilíbrio interno da matéria viva, sob diversificadas circunstâncias externas”.

Transportando isso para a sociedade, temos que o sistema de ordem espontânea seria obtido quando os seres humanos pudessem interagir uns com os outros por iniciativa própria, sujeitos apenas às leis que se aplicam uniformemente a todos eles. Nesse caso, “os esforços desses indivíduos são coordenados pelo exercício da iniciativa de cada um”, e essa autocoordenação “justifica sua liberdade em termos públicos”.

Cada indivíduo estaria sob uma obrigação impessoal e geral, ou seja, todos seriam iguais perante as mesmas regras. Polanyi cita como o mais sólido exemplo de uma ordem espontânea na sociedade a vida econômica com base num agregado de indivíduos em competição. Eis como ele coloca isso: “As aquisições consecutivas dos compradores, cada uma das quais é ajustada às condições de mercado criadas pelas compras anteriores, tendem a produzir uma condição na qual os consumidores recebam – sujeita às condições em vigor das receitas – a máxima satisfação para suas preferências entre os bens e serviços disponíveis”.

O jornalista James Surowiecki, em seu livro The Wisdom of Crowds, focou bastante nesse aspecto da ordem espontânea, citando inúmeros casos diferentes. Em um deles, ele usa o bando de pássaros starlings, que atravessa o céu africano numa forma e velocidade que parece artificialmente criada. Quando algum predador se aproxima, cada pássaro foge para um lado diferente, mas assim que o perigo passa, eles se juntam novamente, mantendo a formação.

De fora, os movimentos dos pássaros parecem ser fruto de uma mente que guia o bando. Mas a verdade é que cada pássaro age por conta própria, seguindo basicamente quatro regras: manter-se tão próximo do meio quanto possível; manter-se um pouco distante do vizinho; não bater em nenhum outro pássaro do bando; e se um predador se aproximar, bater em retirada. Não é preciso um comando para manter o bando unido e organizado. Seguindo apenas essas regras, o bando resiste aos predadores e se mantém agrupado.

O bando de pássaros é um excelente exemplo da organização social que alcança seus objetivos e soluciona problemas de baixo para cima, sem líderes ou sem a necessidade de seguir complexos modelos e regras. Surowiecki considera o caso um ótimo exemplo para aquilo que Hayek, e também Polanyi, chamavam de “ordem espontânea”. Uma espontaneidade programada geneticamente, ou internamente, sem que nenhum plano precise ser feito. Seria a “mão invisível” em vez do planejamento central. E o livre mercado seria justamente isso: um mecanismo designado a resolver um problema de coordenação, o mais importante de todos, que é alocar os recursos certos nos lugares certos pelos custos certos.

Se o mercado funciona bem, os produtos e serviços vão das pessoas ou firmas que podem produzi-los com o menor custo e melhor qualidade para aqueles que mais desejam tais bens. Ninguém precisa perceber o quadro geral do que o mercado está fazendo, assim como ninguém tem como saber adiantado aquilo que será a melhor resposta para o problema da coordenação. O conhecimento está disperso entre os bilhões de indivíduos interagindo livremente, e não existe de forma alguma integrado em uma entidade única.

Hayek dizia que é justamente porque cada indivíduo sabe tão pouco e, em particular, porque raramente sabemos qual de nós sabe melhor, que confiamos nos esforços independentes e competitivos de muitos para levar ao surgimento daquilo que poderemos desejar quando olharmos. Tentar coordenar essas ações através de uma autoridade central qualquer, como foi feito no modelo soviético, acaba destruindo a eficiência do funcionamento da economia, muitas vezes paralisando-o por completo. O “milagre” da eficiência econômica é resultado de uma “mão invisível”, ou então, para usar o termo que Polanyi escolheu, de uma “ordem espontânea”.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

21/12/2014

às 12:28 \ Terrorismo

Sderot: uma cidade israelense sob o constante pânico do terrorismo

Imagine, caro leitor, o que é viver em um lugar que é alvo de até dez mísseis caseiros por dia. Como isso afeta o cotidiano dessas pessoas? Como as crianças podem estudar e se divertir se a qualquer momento escutam uma sirene e precisam correr para algum abrigo? É a vida de uma cidade sitiada, sob constante pânico, em clima de eterna guerra. É a vida dos pouco mais de 20 mil habitantes de Sderot, a cidade israelense que está localizada a menos de 3 km de Gaza.

Visitei o local, com direito a uma excelente guia que é filha de brasileiros, que falava português. Eugenia Scholnik vive num kibutz, tem viés ideológico de esquerda, odeia o Likud, o partido mais à direita do atual primeiro-ministro Bibi Netanyahu, e alimenta uma visão de mundo que eu chamaria de romântica. Não obstante, mesmo alguém com esse perfil compreende perfeitamente que é preciso reagir, e com firmeza, aos ataques constantes do Hamas.

Atrás de mim, já é possível ver os prédios de Gaza

Atrás de mim, já é possível ver os prédios de Gaza

“Como seria se São Paulo fosse vítima de ataques com mísseis diariamente?”, pergunta ela. De fato: gostamos de julgar o conflito no Oriente Médio, especialmente na Faixa de Gaza, com uma ótica distante, inclusive dos fatos. Não nos colocamos no lugar dessa gente humilde – Sderot é uma das cidades mais pobres de Israel – que quer apenas viver em paz, trabalhar, tocar música (é um local conhecido pela musicalidade, e há uma estátua de um baterista conhecido de lá feita com restos de mísseis do Hamas):

IMG_1912

A vida se torna insuportável para quem é obrigado a conviver com uma ameaça constante de atos terroristas. É tudo o que o Hamas quer. Seu objetivo é destruir Israel, e para tanto eles valorizam a morte, enquanto o lado israelense luta para sobreviver, valorizando a vida. Trata-se de uma diferença absurda entre quem quer deliberadamente matar inocentes, e quem deseja evitar qualquer morte, inclusive a dos inocentes do lado inimigo.

Abaixo, uma conversa de 15 minutos com a guia, e depois um vídeo de quase dez minutos das imagens e declarações obtidas durante minha visita ao local:

Da próxima vez que o leitor ler alguma notícia sobre a Faixa de Gaza e aquela emoção automática de tomar o partido do lado “mais fraco” vier com força, tente se colocar na pele desses pobres israelenses, e imaginar como seria viver sob constante ataque terrorista. O Hamas não quer a paz. É um grupo terrorista que simplesmente não aceita a existência de Israel ali. Como reagir a isso? Com flores?

Rodrigo Constantino

21/12/2014

às 10:26 \ Comunismo, Democracia, História, Socialismo

Não existe a Cuba admirável. Ou: A Cuba de Verissimo

Hospital cubano, o “lado admirável” do regime assassino segundo os idiotas úteis

Você logo identifica um socialista envergonhado quando ele “faz críticas” ao regime cubano para logo depois jogar um “mas, por outro lado, as conquistas sociais…” Tudo balela! Se alguém achasse que conquistas sociais justificam ou amenizam tiranias assassinas, então precisariam, antes de mais nada, enaltecer o regime de Pinochet, que foi bem menos sangrento que o de Fidel Castro e com resultados econômicos e sociais infinitamente melhores.

As “conquistas sociais” cubanas não passam de um mito. A educação não é boa, e quem diz o contrário não entende que doutrinação ideológica jamais pode ser tratada como boa educação. Que educação boa é esta em que as pessoas sequer podem ler os livros que desejam, pois há um índice enorme de livros proibidos? Que boa educação é esta em que prostitutas e taxistas desfrutam de formação superior, mas não conseguem exercer suas profissões por falta de trabalho?

Falar em saúde é ainda pior: em Cuba falta o básico do básico. Os familiares dos pacientes precisam levar comida e lençóis, e as instalações são precárias. Qual a grande contribuição que Cuba deu à medicina mundial, à exceção de algum avanço sobre o tratamento do vitiligo? Nada. Fidel se trata com médicos espanhóis, pois sabe que são melhores. Chávez sim, acreditou na medicina cubana. E morreu.

Portanto, quem enxerga o “lado admirável” de Cuba não passa de um míope, ou um cego mesmo, dominado pela ideologia. Cuba é um retumbante fracasso em todos os sentidos, a mais longa e cruel ditadura do continente, que ceifou a vida de dezenas de milhares de pessoas inocentes. E não, isso não foi culpa dos “imperialistas ianques”, dos “malditos estadunidenses”. Quem repete isso dá atestado de estupidez.

O embargo americano é a simples proibição de comércio entre os dois países, após Cuba roubar as empresas americanas e apontar mísseis soviéticos para as cidades dos Estados Unidos. Fidel e Raúl Castro sonhavam em efetivamente destruir os Estados Unidos, como evidências apontam. Não há bloqueio algum, como alguns pensam, tanto que Cuba pratica comércio com Espanha, Brasil, Venezuela, Canadá, etc.

Só os americanos estão impedidos, e é hilário saber que nossa esquerda radical acha que essa é a causa da miséria na ilha. Ou seja: falta comércio com os… ianques! Se ao menos Cuba fosse “explorada” pelos consumistas burgueses americanos, tudo seria melhor… Ignoram, além da contradição de que estão defendendo indiretamente aquilo que odeiam (globalização e comércio com americanos), que a miséria crescente venezuelana não tem embargo algum como desculpa. É o socialismo mesmo que sempre, em todo lugar, produziu apenas miséria e escravidão.

Logo, quem fala em “meios e fins” para avaliar Cuba, como fez Verissimo em sua coluna de hoje, está sendo hipócrita. Não só os fins nobres não justificam os meios de uma assassina tirania, como não há fins nobres ali. Cuba não era um prostíbulo americano como os mentirosos ou ignorantes alegam. Era um dos países mais avançados da América Latina, com indicadores sociais acima da média. E foi transformada num feudo particular dos Castro.

O prostíbulo cubano existe hoje, não há 50 anos. São os maiores índices de prostituição, inclusive infantil, pois o povo miserável mal tem o que comer. Além de ter virado um bordel sob o regime socialista, Cuba virou um hub para o tráfico de drogas internacional, e até para terroristas. Chacal foi parar lá, como tantos outros. É essa a Cuba “admirável” de Verissimo e companhia? Diz o escritor:

Havia a Cuba que se transformara de bordel dos Estados Unidos em país independente, inclusive dos Estados Unidos, a Cuba que resistira durante anos à retaliação americana enquanto dava lições ao resto da América Latina em matérias como saúde publica e educação universal, a Cuba do idealismo preservado apesar de todas as privações — e a Cuba dos paredões, das prisões politicas, da censura à imprensa, da perseguição a dissidentes e do culto à personalidade dos irmãos Castro, eternizados no poder. Era possível admirar uma Cuba e lamentar a outra. Ou não era? A dúvida nos remetia à velha questão, velha como o tempo: quando é que os fins justificam os meios? Até onde a Cuba admirável dependia, para sobreviver a tão poucos quilômetros da Flórida, da Cuba lamentável? Felizmente, quem não era cubano não precisava se definir. As relações das duas Cubas eram apenas pontos de um debate teórico.

Pois é, eis o problema de nossos “intelectuais”: gostam de um “debate teórico” enquanto pessoas de carne e osso pagam com suas vidas e liberdades o preço dessas utopias assassinas. Cuba não preservou idealismo algum. É apenas uma fazenda dos irmãos Castro, com os quase 11 milhões de habitantes tratados como gado bovino. Quem encontra um lado para admirar em Cuba diz muito de si mesmo, de sua falta de princípios, de seu nulo apreço pelo próximo, de sua falta de empatia que permite colocar a ideologia acima dos fatos.

Mas a cara de pau de Verissimo é tanta que ele compara o regime cubano, há mais de meio século matando e escravizando, com a CIA, agência de inteligência do governo americano que eventualmente torturou terroristas em busca de informações para salvar vidas inocentes. Não, isso não é o mesmo que aplaudir os meios nefastos para os fins nobres. É apenas constatar o abismo intransponível entre ambas as coisas.

De um lado temos um ditador que usa dos piores meios por décadas, fuzilando inocentes, prendendo inocentes, apenas para se perpetuar no poder. Do outro lado, temos excessos condenáveis praticados por um órgão de um país democrático que abusa de métodos inaceitáveis sobre terroristas para tentar preservar a paz e a liberdade dos inocentes. Quem não enxerga o contraste moral é mesmo muito imoral.

Enfim, os defensores da pior tirania da América Latina estão prestes a perder a última desculpa esfarrapada que restou para justificar a tirania. E isso vale também para os defensores envergonhados, aqueles que “criticam” os “excessos” de Fidel e Raúl Castro, mas admiram, por outro lado, as “conquistas sociais” que existem apenas na mitologia canhota latino-americana.

Rodrigo Constantino

20/12/2014

às 18:11 \ Guerras, Religião, Saúde, Terrorismo

Governo de Israel e médicos judeus salvam vidas de sírios

Se há algo que percebi claramente nessa viagem a Israel é que seu povo não é lá muito bom de marketing. Em primeiro lugar, pois não aprecia nada o sensacionalismo, a dramaticidade que latinos conhecem tão bem e exploram como poucos. Em segundo lugar, pois julga que se faz a coisa certa, então não precisa divulgá-la ao mundo. Tal postura não tem ajudado o país nos ataques sistemáticos e pérfidos de que é alvo.

Por exemplo: eu mesmo, que acompanho há algum tempo notícias de Israel e não tenho viés negativo algum sobre o país (ao contrário), nunca tinha ouvido falar em Ziv Medical Center e no trabalho maravilhoso que fazem lá. Simplesmente temos vários médicos, a maioria de judeus, trabalhando arduamente para salvar centenas de vidas… de vítimas da guerra civil na Síria!

Foi um dos momentos mais tocantes dos cinco dias de agenda intensa que tive em Israel. Nosso grupo ficou por mais de uma hora conversando com alguns médicos e visitando o hospital. O Ziv Medical Center fica ao norte de Israel e perto do “mar” da Galileia, e conheci, além de seu belo trabalho em prol das crianças vítimas da guerra civil síria, o simpático Dr. Marcelo Daitzchman, brasileiro de Curitiba que vive há 35 anos em Israel.

Fiquei impressionado com tudo que fazem lá. O governo de Israel paga pelo tratamento caro de vítimas da Síria, que encaram os judeus como inimigos. Alguns chegam desacordados, tamanha a gravidade dos ferimentos causados por outros sírios, e quando acordam se dão conta de que estão sendo tratados pelos “inimigos”, por aqueles que aprenderam a odiar desde muito cedo. 

Um fixador externo colocado pelo Dr. Alexander Lerner, um ortopedista renomado que veio da União Soviética, custa caro, e no caso dos pacientes sírios, cinco vezes mais caro. Afinal, os aparelhos costumam ser reutilizados nos pacientes israelenses algumas vezes, enquanto os sírios tendem a voltar ao seu país os levando junto. Eis duas fotos que tirei no local, de um menino e uma menina árabes tratados lá:

sirio

IMG_2448

Abaixo, segue um trecho de apenas dez minutos das entrevistas que fiz com alguns dos médicos envolvidos nesse belo trabalho humanitário:

Quando fui filmar uma sala de aula em que professoras árabes ensinam essas crianças, uma delas ficou visivelmente nervosa e pediu para parar a gravação. Disse, quase tremendo, que sua imagem não poderia ser divulgada, pois se soubessem na Síria que ela estava trabalhando em hospital judeu, ainda que para ajudar as crianças sírias, sua vida estaria em perigo.

Assim é a realidade que poucos conhecem: Israel tem hospitais que cuidam com esmero e dedicação de vítimas da guerra civil na Síria, algo desconhecido por praticamente todos, inclusive aqueles que adoram odiar o país “imperialista”. Não custa lembrar que até mesmo filhas e esposas dos líderes do Hamas, grupo terrorista que deseja nada menos do que destruir Israel, costumam se tratar em seus hospitais também.

Enquanto o governo brasileiro trata nossos médicos como os judeus eram vistos pelos nazistas, no sentido de vê-los como bodes expiatórios para os males de nossa péssima saúde pública, os médicos judeus estão labutando em prol da vida de vítimas da guerra civil síria, produzida pelos muçulmanos. Como odiar um país e um povo que trabalham para salvar a vida dos seus inimigos, daqueles que desejam destruí-los?

Rodrigo Constantino

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados