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29/06/2015

às 20:57 \ Comunismo

O nababinho do Caribe: filho de Fidel Castro é flagrado em hotel de luxo e segurança agride jornalista

Nunca um só episódio representou tão bem o que é a esquerda na prática. Socialismo igualitário é uma bandeira para enganar trouxas, nada mais. Os socialistas querem meter a mão nos recursos alheios, sempre os alheios. Na prática, quando chegam ao poder são os mais gananciosos de todos, autoritários, que desejam levar vidas de nababos sem serem incomodados. Quando isso acontece, partem para a agressão. Isso é socialismo na prática, ou “socialismo real”, o único existente, já que o outro é apenas a utopia que serve como base para este.

Pois bem, deu no GLOBO: O filho caçula do ex-líder cubano Fidel Castro se envolveu em situação polêmica num resort de Bodrum, na Turquia. De acordo com meios da imprensa local, Antonio Castro Soto del Valle alugou cinco suites de diárias de US$ 1 mil para 12 acompanhantes, após chegar em um iate alugado na grega Mykonos. Pouco depois, um guarda-costas dele flagrou repórteres e fotógrafos e partiu para cima deles.

De acordo com a revista “Gala”, o repórter Yasar Anter, da agência Dogan, foi atacado por um segurança cubano após filmar o filho, e a delegação de Antonio fugiu do local em um carro. Um turco, que seria guia ou guarda-costas, acabou interrogado pela polícia.

Nesta segunda-feira, a “Gala” publicou novas imagens e relatos do episódio. A revista ironizou a ausência de explicações para a procedência dos fundos utilizados para pagar a visita de luxo do filho de Fidel.

Detalhe: a coisa foi na Turquia, país que reprimiu com violência a comemoração da decisão da Suprema Corte americana sobre casamento gay. Vamos recapitular então: o filhinho do ditador assassino, idolatrado pelos idiotas úteis que acreditam na “justiça social” de Cuba, vai para um país islâmico que reprime com violência os gays gastar milhares de dólares na noite, enquanto os Estados Unidos, o Capeta na Terra, legaliza nacionalmente o casamento entre homossexuais. Mas a esquerda aplaude Cuba!

Como já escrevi aqui, resenhando ótimo livro de seu ex-segurança particular, Fidel Castro não passa de um nababo do Caribe, um mafioso, que mascara suas atividades criminosas sob o manto do socialismo. Mas não é coincidência que todos os experimentos socialistas tenham acabado de forma muito parecida: ditaduras corruptas deixando um rastro de sangue, escravidão e miséria, enquanto a nomenklatura vive repleta de privilégios como se fosse feita de magnatas capitalistas.

Sério, quem ainda consegue acreditar no socialismo? Quem ainda tem a cara de pau de elogiar Cuba e Fidel Castro? Quem ainda cai nessa de revolucionários abnegados e altruístas? É preciso ser muito otário mesmo…

Rodrigo Constantino

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29/06/2015

às 16:05 \ Filosofia política

Liberais e conservadores no Brasil

Por Catarina Rochamonte, publicado no Instituto Liberal

Quando o termo política se referir ao quesito de conduta dos povos, então deve-se levar em conta a possibilidade de acordo entre tipos divergentes de discursos, pois a primazia de uma determinada vertente ideológica não aniquila a possibilidade de diálogo. O diálogo favorece a incorporação de novas qualificações, novas atribuições ou mesmo o desvio de pretensões iniciais que não puderam se efetivar.

Há, no quadro político brasileiro, uma crise identitária entre os partidos políticos. Nenhum partido conseguiu levar adiante um projeto claro e bem delineado cujo conteúdo apontasse para algo além da condução e conservação de cargos. Viu-se, pois, um vazio entre as demandas efetivas da população e, com isso, criou-se um espaço na sociedade civil em que pontos de vista defendidos tradicionalmente pelo liberalismo, como livre-comércio e livre iniciativa, encontraram ressonância.

Essa postura política parece ser atualmente a menos dogmática, pois parte do pressuposto de que os partidos, cuja fonte de renda são os impostos pagos pelo próprio indivíduo, são incapazes de fazer frente aos anseios desse mesmo indivíduo que os mantém. Farto do uso abusivo que a política atual fez da sua própria competência, o indivíduo passou a requerer para si os recursos mal-utilizados pelo governo e nessa bandeira da livre-iniciativa, do livre-comércio, da diminuição de impostos, etc. encontrou o  horizonte de atuação política que lhe fora negado, já que as instâncias partidárias tal como se desenvolveram pertencem a uma mentalidade pouco afeita ao significado do esforço individual e da resposta a esse esforço. O individualismo, portanto,  emerge hoje no Brasil como contra-revolução, no sentido de contrariar as estratégias governistas e tomar para si um engajamento cujo ponto de partida é a ideia da busca pela própria felicidade como motor do dinamismo econômico e social.

Por trás desse quadro, porém, há uma outra corrente de pensamento. É a daqueles que viram na luta do indivíduo contra o Estado um meio eficaz de difusão das suas ideias que, entretanto, ultrapassam as fronteiras do individualismo irrestrito, pois há entre eles uma grande preocupação em reavaliar todo o quadro cultural da nação e o interesse em defender efetivamente os valores basilares da civilização. Aproxima-se aqui o conservadorismo do liberalismo contra o inimigo comum que outro não é senão o partido cujas pretensões autoritárias fecham as portas ao diálogo que poderia conduzir a política a novos patamares e a sociedade a novas ideias. O inimigo comum é a mentalidade travada em preconceitos incompatíveis com o dinamismo social na nova era tecnológica, do novo mundo globalizado, das novas democracias pluralistas e de emergências teóricas.

É preciso, portanto, que esse novo grupo que reuniu forças no Brasil concentre-se na tentativa de resgatar o papel cultural do nosso país e a dignidade da nossa nação perante as demais potências democráticas do globo. É preciso que liberais e conservadores esqueçam momentaneamente suas divergências e dissonâncias para continuar lutando contra uma ideologia que pretende calar a ambos e submeter o país a um projeto fracassado.

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29/06/2015

às 13:34 \ Comunismo, Socialismo

Greg, a esquerda caviar e o monopólio da virtude

Luciana Genro e Greg: adoram o socialismo… para os outros!

Sei que muitos leitores acham que dou trela demais para o “humorista” Gregorio Duvivier, aquele que se esforça muito para ser um novo Chico Buarque da vida, ícone da nossa esquerda festiva. Mas me sinto como Darwin observando as tartarugas em Galápagos, e por isso insisto no penoso ofício de ler aquela coluna na Folha toda segunda-feira. Gosto de saber o que essa gente diz por aí, pois é importante verificar a estratégia da esquerda caviar. Ela ainda seduz alguns incautos.

No texto de hoje, Greg usou e abusou das principais táticas pérfidas dos esquerdistas. Atacou a “elite”, da qual assume fazer parte (dessa forma tentando se mostrar mais “consciente” e “descolado” do que seus pares), recorrendo a caricaturas absurdas do passado. Por exemplo: a elite teria sido contra o fim da escravidão. O “humorista” só ignora que foram liberais, não socialistas como ele, que lutaram pela abolição. Gente como Joaquim Nabuco no Brasil, ou os quacres religiosos na Inglaterra.

Em seguida, ele associa a elite a Collor, ignorando que a alternativa era Lula, mas um Lula ainda pior do que o atual, se isso for possível. Um barbudo raivoso que falava em calote da dívida externa e confisco de propriedade dos “ricos”. Como seria o Brasil hoje se em 1989 tivesse dado PT? Se mesmo hoje o partido está conseguindo destruir o Brasil, o que teria feito naquela época? Seríamos a Venezuela já. Mas Greg ridiculariza o risco, ainda hoje, como se falar das Farc ou do Foro de São Paulo e sua ligação com o PT fosse pura paranoia da elite.

A mesma tática é usada para falar de 1964. Em primeiro lugar, não foi a elite que clamou pela intervenção militar, mas a classe média (Greg faz constante confusão entre ambos, ignorando que ele é da elite festiva, enquanto muito trabalhador de classe média, longe do conforto que ele tem na vida, defende valores conservadores e liberais, não socialistas). Ao fazer isso, ignora o contexto e, novamente, ridiculariza o “fantasma comunista”, que era bem real na época da Guerra Fria.

Por fim, vem o velho truque da esquerda: monopolizar as virtudes, os fins nobres. Greg dá a entender que é a pobreza a causa da criminalidade (bandeira típica da esquerda), e que o caminho para reduzir ambos é distribuir recursos, de preferência pela coerção estatal, mas pode ser por filantropia também:

Você sabe que lá fora você pode abrir seu laptop na praça, pode deixar a porta aberta, a bicicleta sem cadeado. Mas lá fora, não esqueça, é você quem limpa a sua privada. Você já relacionou as duas coisas?

Nos países em que você lava a própria privada, ninguém mata por uma bicicleta. Nos países em que uma parte da população vive para lavar a privada de outra parte da população, a parte que tem sua privada lavada por outrem não pode abrir o laptop no metrô (quem disse isso foi o Daniel Duclos).

Não adianta intervenção militar, não adianta blindar todos os carros, não adianta reduzir a maioridade penal (SPOILER: isso nunca adiantou em lugar nenhum do mundo).

Sabe por que os milionários americanos doam tanto dinheiro? Não é por empatia pelos mais pobres. Tampouco tem a ver só com isenção fiscal. Doam porque sabem que, quanto mais gente rica no mundo, mais gente consumindo e menos gente esfaqueando por bens de consumo.

Um pobre menos pobre rende mais dinheiro para você e mais tranquilidade nos passeios de bicicleta. A gente quer o seu (o nosso) bem. É melhor ser a elite de um país rico do que a de um país pobre.

Curioso mencionar os países ricos e depois a maioridade penal: SPOiLER: todos possuem uma idade penal menor! O Brasil tem uma das legislações mais brandas, tratando marginais de 17 anos como crianças (à exceção da hora do voto). Isso o Greg não diz. Assim como não diz que é possível abrir o laptop na praça pública ou no metrô pois não há impunidade. Pobreza há, bem menos, é verdade, mas há. O que não há nos países desenvolvidos é a impunidade que a esquerda do Greg ajuda a fomentar com seu discurso sensacionalista que transforma bandido em “vítima da sociedade”.

Mas chega a ser hilário ver o Greg colocando a carroça na frente dos bois e trocando causa e efeito. Ou seja, há pouca pobreza nesses países porque os ricos lavam suas privadas, e não o contrário: os ricos lavam as privadas porque há pouca pobreza, logo, custa muito caro ter empregada doméstica. Talvez Greg “pense” que a solução é decretar aumento de salário e benefícios para as domésticas, em vez de entender que, nesses países ricos, há menos “conquistas trabalhistas”. Como já escrevi aqui, desse ser terrível ser uma faxineira desamparada nos Estados Unidos…

Greg conclui com uma frase verdadeira: é melhor ser a elite de um país rico do que a de um país pobre. Isso é óbvio. É melhor ser pobre de um país rico do que pobre de um país pobre. Também é melhor ser classe média de um país rico do que de um país pobre. O óbvio ululante: é melhor ser um país rico do que um país pobre! A questão toda é saber como o país pode ficar mais rico. A resposta, segundo todas as experiências históricas e a boa teoria, é o capitalismo liberal. Para Greg, a resposta está em distribuir a riqueza dos ricos, pelo visto. Ou seja, ele “pensa” que riqueza é um jogo de soma zero, algo estático.

Só não dá para entender, então, porque ele mesmo não começa fazendo sua parte. Já que ele é da elite, como admite, e da ala rica da elite, ao contrário de muitos trabalhadores da classe média que ele condena pelo conservadorismo, por que ele não pratica filantropia e não reduz as desigualdades dando parte de sua fortuna para os mais pobres? Não é essa a saída para o problema da criminalidade, segundo o próprio? Então o que ele está esperando exatamente? Aliás, os capitalistas ricos dos EUA fazem isso: por que os socialistas ricos do Brasil não podem fazer o mesmo?

A menos que tudo não passe de um discursinho hipócrita para a própria elite culpada que lê a Folha e compra seus livros. Seria isso? Ó, céus! Seria Greg uma espécie de Chico Buarque mesmo, que defende Cuba de Paris, que prega mais igualdade e socialismo de sua cobertura no Leblon, que aplaude até os invasores do MST de seu campo particular para peladas no Recreio? Como é doce a vida hipócrita da esquerda caviar, não é mesmo? E como é divertido o meu ofício darwinista de dissecar a espécie à luz do dia. E meus leitores ainda querem me tirar esse prazer!

PS: Pergunto-me: quando foi a última vez que Greg lavou a própria privada? Tenho para mim que ele escreve esses textos nela, mas duvido que meta a mão na massa depois…

Rodrigo Constantino

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29/06/2015

às 12:00 \ Educação

A disciplina escolar funciona. Ou: Menos Paulo Freire e mais Dom Lourenço!

Fonte: GLOBO

Uma reportagem do GLOBO de hoje mostra como a gestão de uma escola em Manaus, transferida para a polícia, gerou excelentes resultados. Especialmente nas periferias mais pobres, a violência representa um grande impeditivo ao aprendizado. A disciplina imposta pela PM pode representar, portanto, a única alternativa nesses locais mais abandonados. Mas a mensagem é válida para todas as escolas: um pouco mais de disciplina não fere ninguém. Ao contrário: talvez seja a única solução para o caos instalado pelos revolucionários de 1968. Vejamos o caso em Manaus:

Pintados de branco e azul, os muros da Escola Estadual Professor Waldocke Fricke de Lyra, na zona oeste de Manaus, em nada lembram as pichações que antes estampavam as paredes. Os alunos só saíam para o intervalo com a mochila nas costas, por medo de serem roubados pelos próprios colegas. Nos banheiros, vasos entupidos com o descarte das carteiras de dinheiro furtadas. Brigas no pátio, armas brancas circulando e uso de drogas completavam o cenário.

A violência que sempre marcou o bairro Tarumã, fruto de invasões e considerado hoje uma “área vermelha” da capital amazonense devido aos altos índices de criminalidade, havia ultrapassado os muros do colégio. Em 2012, a pedido do governo estadual, a Polícia Militar assumiu o controle da escola, que passou a se chamar 3° Colégio Militar da PM Professor Waldocke Fricke de Lyra, que atende cerca de 2 mil alunos dos ensinos fundamental e médio.

A mudança veio acompanhada de uma reforma na estrutura física e de uma gestão “linha dura”. Farda e horário rígido para entrar. Para sair, só quando todas as tarefas forem finalizadas. A ordem é tirar a bateria do celular depois de entrar na escola. Se flagrado usando o aparelho, o aluno terá que esperar até o bimestre seguinte para reavê-lo. O coronel aposentado Rudnei Caldas, responsável pela implantação das regras, diz que pais e professores chiaram no início, mas ele não arredou pé.

Hoje, ao passarem pelos policiais armados que atuam como inspetores nos corredores, estudantes endireitam a coluna e batem continência. A rotina nos rígidos moldes militares inclui gritos de guerra antes de iniciar a jornada, além de distribuição de distintivos e de patentes para quem tem notas de destaque. Indisciplinas reiteradas levam à expulsão. Só nos cinco primeiros meses de 2015, cinco foram desligados por não se adequarem. O corpo docente também mudou, e a maioria dos professores antigos deixou a escola.

— Sei que há uma corrente na educação resistente ao nosso modelo, mas acho que, para o nosso público, vindo de uma desestrutura familiar e carência social muito grande, ele faz a diferença — diz o coronel.

De 2011 para 2013, a escola deu um salto no Ideb. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a média passou de 3,3 para 6,1. Nos finais, foi de de 3,1 para 5,8. O índice de reprovação, de 15,2% em 2012, foi zerado no ano passado.

A melhoria no desempenho apareceu também nas Olimpíadas de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Órfã de pai desde os 8 anos e filha de uma motorista de ônibus, Jennyfer da Silva Veloso, de 16 anos, levou o bronze e uma menção honrosa na competição. Ela foi aprovada em primeiro lugar no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), onde começou a cursar matemática este ano.

Ela conta a dificuldade de se adaptar na transição da escola para o regime militar e lembra do primeiro dia da mudança.

— Eu estava com o cabelo pintado, usava piercing no nariz, tinha franja. Fomos levados para a quadra, nos explicaram tudo. Tive que tirar esmalte, prender a franja. Com o tempo, me acostumei e percebi que, aqui, realmente o que importa é o conhecimento, e não a aparência. A escola melhorou muito no novo modelo.

[...]

Parte da equipe de aproximadamente 60 professores efetivos que atua nos três turnos, Maria do Rosário de Almeida Braga, de 54 anos, diz que é uma das poucas educadoras que continuaram no colégio depois que a PM assumiu o controle.

— Aqui só fica professor que quer trabalhar. Há exigências para o aluno e para o professor também. Mas o retorno é muito grande, inclusive financeiro — diz Maria do Rosário.

Já havia comentado aqui um caso similar ocorrido em Goiás, e vale a pena repetir os argumentos usados:

Claro que há críticas legítimas. O medo da repressão dos policiais ao fazer críticas é uma delas. Mas algumas reclamações parecem infundadas, e mostram justamente a distância entre a elite dos “especialistas” e a real necessidade dos alunos. Uma professora, por exemplo, reclama que experiências exitosas no mundo foram à contramão dessa verticalização, partindo para uma horizontalização que reduzia as relações hierárquicas.

Discordo. Ainda mais para a realidade brasileira. Acredito que essa mentalidade que rejeita e abomina qualquer hierarquia nas escolas e universidades está no epicentro de nossos problemas educacionais. Basta ver que alunos em universidades públicas invadem até a reitoria ou impedem professores de dar aulas se discordarem de sua mensagem. Isso é absurdo, demonstra que esses jovens chegam nas faculdades sem respeito pela autoridade, pelas regras, achando-se os donos do universo.

A disciplina funciona. Claro que o excesso de repressão pode sair pela tangente, pode ser um tiro no pé, gerando revolta. Encontrar um equilíbrio será o desafio constante. Mas não resta dúvida de que, atualmente, o pêndulo foi em demasia para o lado do afrouxamento das regras, do “vale tudo”, do desrespeito aos professores e às normas escolares.

escrevi aqui também uma resenha do livro da professora Kátia Simone Benedetti, que faz um desabafo sobre a indisciplina escolar no país. Repito alguns argumentos aqui, por julgá-los pertinentes ao caso:

Exercer a autoridade necessária não é o mesmo que autoritarismo. Claro que alguns vão abusar desse direito, mas o abuso de alguns não deve tolher o uso dos demais. Para combater os excessos, as falhas de alguns por conta inclusive da natureza humana, os pós-modernos acabaram jogando o bebê junto com a água suja do banho, e destruíram a autoridade legítima. O caminho ficou livre para a baderna.

Não são poucos os casos em que a hierarquia se encontra invertida, com os protagonistas trocados: a autoridade dentro das salas de aula deixou de ser exercida pelo professor e passou a ser exercida pelos alunos. Como apostar em uma boa instrução assim? Como achar que esses jovens sairão das escolas não só com boa formação, mas com respeito aos outros? Essa horizontalização passou dos limites.

Hoje, damos trela demais para um Foucault da vida, e pouca para os estudiosos sérios da natureza humana. Damos muita bola para um Paulo Freire da vida, que levou Marx para dentro das salas de aula, e pouca para um grande educador como Dom Lourenço de Almeida Prado, que foi reitor do prestigiado Colégio São Bento, o melhor do Rio nos principais rankings nacionais. Dom Lourenço compreendia a importância de se adotar um modelo com disciplina, pois escola não é parque de diversão.

Foucault e seus seguidores ficavam horrorizados com a padronização das instituições “opressoras” que eliminavam a individualidade. Achavam que por trás disso tudo havia a “microfísica do poder”. A solução seria uma espécie de “liberar geral”, abolindo-se as regras “opressoras”. Na realidade brasileira, especialmente nas periferias, isso significa deixar verdadeiros marginais tomarem conta das escolas. O resultado é caótico.

Ninguém precisa endossar a gestão policial nas escolas para compreender a importância da mensagem explícita nesses casos de sucesso: a libertinagem foi longe demais no ensino, e há necessidade clara do resgate de certa disciplina, sem a qual os jovens simplesmente ficam sem freios e limites. Os “libertários” inspirados em Foucault têm ojeriza à “uniformização”, mas a falta de uniformes e de regras básicas de conduta têm levado a ambientes “anárquicos” no pior sentido do termo, onde não há espaço para o aprendizado.

Vamos escutar menos os “pedagogos” esquerdistas e resgatar o velho bom senso: escolas sem disciplina e regras são territórios hostis aos alunos que efetivamente desejam aprender e estudar. A quem interessa esses ambiente caótico?

Rodrigo Constantino

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29/06/2015

às 10:52 \ Crise Internacional

Grécia: o Maranhão da Europa

Muito charmosa para turismo, mas sem competitividade alguma

Muito charmosa para turismo, mas sem competitividade alguma

Ainda para ajudar o leitor a compreender como chegamos até aqui, com o governo socialista grego decretando feriado bancário e controle de capitais e, com isso, colocando a Grédia a um passo de sair do euro com consequências imprevisíveis, segue um texto que escrevi há alguns anos sobre a trajetória do país e como a negligência de muitos ajudou a criar a bolha que inevitavelmente iria estourar um dia.

O Maranhão da Europa

A situação atual na Grécia, todos já conhecem. O que nem todos sabem é o passado grego, especialmente antes de o país ingressar no clube do euro. Este artigo tem exatamente esta intenção, qual seja, a de resgatar alguns dados sobre a Grécia e questionar como foi possível permitirem a adesão do país na moeda comum européia. A principal fonte será o livro “Bust: Greece, The Euro, And The Sovereign Debt Crisis”, de Matthew Lynn, experiente colunista de finanças da Bloomberg.

O euro foi uma criação da elite européia com objetivos claramente políticos. A maior integração permitiria a paz, tão escassa naquela região. O que seus idealizadores não anteciparam é que a moeda teria de ser defendida com gás lacrimogêneo nas ruas de Atenas. Segundo Lynn, a arrogância e a pretensão dominaram uma geração de políticos e líderes que forçaram demais a barra na direção da união monetária e política na Europa. Países culturalmente muito diversos selariam um casamento sem cláusula de divórcio. A Grécia irresponsável seria o “cavalo de Tróia” no grupo, um legítimo presente de grego que iria catalisar a crise atual.

A idéia de criar uma moeda comum na Europa não é nova. O escritor Victor Hugo chegou a aventar esta possibilidade, Napoleão Bonaparte chegou a propor este caminho, e o filósofo John Stuart Mill também advogou neste sentido. Após a queda do regime de Bretton Woods, onde as moedas eram atreladas ao dólar, países europeus tentaram replicar a idéia entre eles, com o Snake. Suas moedas poderiam oscilar contra outras, mas não muito entre si. Não funcionou direito. Apenas a Alemanha, com sua ortodoxia e disciplina, permaneceu no sistema até 1979. Em seguida veio o EMS (European Monetary System), seguindo basicamente a mesma idéia, de forma mais restrita. Também fracassou. Em vez de tais experimentos servirem como alertas, a lição extraída pelos burocratas e líderes europeus foi a de que era preciso tentar de maneira ainda mais firme uma integração monetária. Nascia o euro.

Os alemães, especialmente os membros do rigoroso Bundesbank, seu banco central, fizeram diversos alertas sobre os riscos do modelo. Mas, como se tratava de um projeto político, a idéia foi adiante mesmo assim. As pressões do Bundesbank ao menos serviram para a aceitação de normas rígidas para os países membros. Disciplina fiscal, controle da inflação e estabilidade econômica com endividamento contido seriam metas necessárias para participar do clube. O problema é que não existiam mecanismos concretos para punir os irresponsáveis. Muitos países, mesmo na época da criação do euro, flexibilizaram alguns conceitos para atingir as metas. Ainda assim, a Grécia não foi capaz de conquistar a aprovação. Foi barrada na festa.

Não foi por falta de vontade. O governo grego tentou convencer seus companheiros em Bruxelas a deixarem o país participar do euro logo na largada. Mas as contas eram feias demais. O então ministro das Finanças alemão, Theo Waigel, foi enfático ao negar as demandas gregas, alegando que um país pequeno, semi-agrário, pobre como a Grécia não estava em condições de fazer muitas exigências para nações industriais poderosas como França e Alemanha. O ministro ainda levantou a possibilidade de a Grécia jamais entrar no euro. Uma ducha de água fria para os gregos. Mas eles não desistiriam tão facilmente assim.

Na Grécia, o berço da democracia ocidental nos tempos de Péricles, o poder tem sido dividido entre duas famílias influentes desde 1940. As famílias Karamanlis e Papandreou tratam o pequeno país como um feudo particular. George Papandreou, avô do atual primeiro-ministro, ocupou o poder três vezes, a primeira começando em 1944 e a última terminando em 1965. O pai do atual primeiro-ministro, Andreas Papandreou, dominou a política grega durante os anos 1970 e 1980, chegando perto de um regime como o modelo soviético socialista. A família Papandreou, portanto, esteve no poder desde 1940, com alguns períodos de ausência. Estes foram ocupados pela família Karamanlis. É uma espécie de modelo medieval de troca de poder entre as duas famílias.

Dionísio, o Antigo, tirano de Siracusa que nasceu por volta de 430 a.C., governou a cidade com mão-de-ferro e, após incorrer em vastas dívidas para financiar suas extravagâncias e campanhas militares, assim como os espetáculos para o povo, ficou sem dinheiro. Como solução, Dionísio obrigou todos a entregar seus recursos ao governo, sob pena de morte para quem se negasse. De posse de todas as moedas de dracma, ele simplesmente estampou em cada uma um novo valor, duas vezes maior, e usou as novas moedas para pagar suas dívidas. Simples assim. A Grécia moderna não iria se sair muito melhor. Desde 1800 até depois da Segunda Guerra Mundial, a Grécia esteve quase sempre em situação de “default”. Como mostram Rogoff e Reinhart em seu livro “Desta vez é diferente”, a Grécia possui um histórico de calote pior que qualquer vizinho europeu, e até mesmo pior que os países latino-americanos, à exceção de Equador e Honduras.

A Grécia, por sua posição geográfica estratégica, sempre foi palco de interesses na Guerra Fria. O país possui um poderoso partido comunista, o KKE, que seguia uma linha de obediência a Moscou. Após a guerra, a Grécia viveu anos de guerra civil entre comunistas e forças leais à democracia ou monarquia. O que ficaria desta época seria um legado de rancor, conspiração e violência no país, acostumado às greves gerais e badernas dos comunistas. Em 1967, um grupo de coronéis tomaria o poder por meio de um golpe, instalando uma junta militar que governaria até 1974. Em 1973, a inflação bateu 30% ao ano, e a economia estava em ruínas, o que levou à deposição da junta. A família Karamanlis assumiria o poder e iria nacionalizar boa parte da economia, incluindo os bancos.

Em 1981, com a democracia restaurada, Andreas Papandreou foi eleito primeiro-ministro. A Grécia iria flertar com o socialismo total. Economista que estudou em Harvard, Papandreou rejeitava o modelo capitalista de livre mercado como meio para um futuro mais próspero. A Grécia se voltava com mais força para a esquerda em uma época em que a Inglaterra de Thatcher e os Estados Unidos de Reagan seguiam na direção oposta. Os salários foram aumentados de forma artificial, os sindicatos foram fortalecidos, e os bancos estatais foram usados para estimular indústrias que não eram competitivas. Em 1980 o governo controlava 30% do PIB, mas em 1990 esta parcela já era de 45%. A inflação saía de controle novamente, chegando a 25%. O dracma seria desvalorizado em 15%. A União Europeia ajudaria o país com um empréstimo de emergência. Conforme nota Lynn, a Grécia descobria um padrão: um novo governo entra, embarca em um programa de gastos extravagantes, a economia desaba, o governo anuncia um pacote de austeridade e recebe um resgate da União Europeia.

O dracma é uma das moedas mais antigas do mundo. Foi reintroduzido na Grécia em 1832, após o estabelecimento do estado moderno. Em 1944, um segundo dracma foi emitido, após a devastação nazista. Em 1954, mais uma emissão substituía a moeda antiga e fracassada. Em 1994, o dracma sofreria ataque especulativo dos mercados, por conta de suas finanças fora de controle. A dívida pública estava em 110% do PIB na época. A taxa de juros chegou a 500% para segurar a moeda. Metas de austeridade foram anunciadas, mas não foram cumpridas. Em 1997, o dracma sofreu novo ataque, e os juros chegaram a 150%. De 1995 até 2004, os gastos do governo ficaram na faixa dos 50% do PIB, com um déficit fiscal entre 6% e 15%. A dívida pública em 2004 já estava acima de 100% do PIB novamente.

De qualquer ângulo analisado, a economia grega não tinha condição alguma de competir em pé de igualdade com as demais economias do norte, assumindo uma moeda única. O turismo era um dos principais setores da economia, faltando competitividade nos demais setores. Vários alemães sabiam disso e ficaram contra a entrada da Grécia no euro, que fora criado como um time de atletas preparados, e não um clube de recreação. Antes era preciso fazer o dever de casa, para somente depois ter o privilégio de fazer parte do seleto grupo. Mas a visão ortodoxa alemã seria a perdedora, e mesmo no lançamento do euro, em 1999, países como Itália, Espanha e Portugal foram aceitos, sem plenas condições para tanto. A Grécia foi barrada no baile neste primeiro momento.

Mas, após verdadeiras “mágicas” que, de uma hora para outra, tornaram suas contas públicas mais saudáveis, a Grécia foi finalmente aceita em 2001. Um feriado nacional foi decretado logo depois. A Grécia fazia parte agora do clube dos países ricos, sem ter passado pelos necessários ajustes econômicos. Se Milton Friedman dizia que não existe almoço grátis, tal alerta não chegou aos gregos. A Grécia descobriu que poderia, como um alquimista, transformar chumbo em ouro. O país, de repente, era capaz de tomar empréstimos de bilhões de euros a um custo infinitamente menor. Na verdade, o “spread” em relação a rica Alemanha chegou a ridículos 50 pontos percentuais por ano. Era a convergência por magia, pela simples adoção da moeda comum.

Esta idéia fantástica iria conquistar muitos políticos, especialmente os de esquerda, que adoram sonhar com uma revolução mágica, que de uma só vez cria o paraíso terrestre. Este sonho permitiu que os gregos – e muitos outros – ignorassem a dura realidade, evitando perguntas incômodas. Um país sem competitividade, acostumado a viver além de suas posses, sem estabilidade econômica e política, passaria de um dia para o outro a adotar uma postura fiscal ortodoxa. Alguns argumentam, não sem razão, que o euro ao menos impõe reformas de austeridade que nenhum partido liberal seria capaz de realizar na Grécia. Mas devemos perguntar: a que custo? As revoltas violentas tomam as ruas de Atenas uma vez mais. Será que seu destino desta vez será diferente? Será que a simples adoção de uma moeda comum pode transformar o Maranhão europeu em uma Suíça, da noite para o dia?

Para isso acontecer, além de inúmeros outros obstáculos, seria preciso que os próprios gregos aceitassem um grau de ingerência alemã muito maior em sua política. Afinal, são os alemães que podem acabar sendo obrigados a pagar a conta da farra das cigarras gregas. A Grécia conta com o poder da chantagem, pois um “default” poderia ser catastrófico para a moeda comum, que não possui uma estratégia de saída. Outros países, incluindo a Itália, seriam contaminados pelo contágio bancário. E a Grécia sempre soube usar a chantagem como arma para obter resgates. Mas até quando os disciplinados alemães vão tolerar esta situação? Se o preço for maior controle alemão nas contas públicas gregas, será que os gregos aceitariam? Não custa lembrar que a Grécia sofreu barbaramente sob o regime nazista, com cerca de 300 mil pessoas morrendo de fome em Atenas durante o inverno de 1941 e 1942.

Como espero ter deixado claro acima, o casamento entre alemão e grego sob um regime monetário comum sem cláusula de saída é um empreendimento mais que ousado; é irresponsável. A Grécia semi-agrária, indisciplinada e sob o controle da mesma família há décadas não vai se transformar em um país estável e decente de uma hora para a outra. Os pacotes de resgate para salvar a Grécia estão destinados a um fundo perdido, pois as promessas de austeridade não passam disso: promessas, que não serão cumpridas. Fica então a pergunta-chave no ar: até quando os alemães vão sustentar o Maranhão da Europa para salvar o projeto do euro?

Rodrigo Constantino

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29/06/2015

às 9:47 \ Crise Internacional

Grécia a um passo de abandonar o euro: um casamento difícil

Greece & Germany

À luz dos recentes acontecimentos, com a Grécia decretando feriado bancário e os mercados europeus desabando mais de 3% hoje, resgato um artigo publicado no GLOBO no passado em que argumento como era complicado manter esse casamento forçado:

Casamento difícil

Completam-se hoje duas décadas da assinatura do Tratado de Maastricht, marco da criação da União Europeia. A data é adequada para uma análise da situação na região, que vive sua pior crise desde então, com a maior taxa de desemprego dos últimos tempos. A própria sobrevivência do euro não está garantida.

O projeto que criou a moeda comum partiu das elites europeias, incluindo socialistas franceses que sonhavam com um meio para recuperar seu prestígio e influência. O principal objetivo era político: domar a Alemanha recém-unificada. A ortodoxia de seu banco central (Bundesbank) e as reformas conhecidas como “ordoliberalismo” transformaram o país em uma potência na região. A valorização do marco frente às demais moedas era uma constante humilhação para todos.

O sonho de se criar os Estados Unidos da Europa veio a calhar para aqueles que desejavam enterrar de vez o Bundesbank. Mas os alemães não iriam sucumbir facilmente. Houve muita resistência ao projeto, e o maior receio era justamente a perda do rigor monetário. O Banco Central Europeu (BCE) teria que ser independente. Nenhum país poderia ter mais que 3% do PIB em déficit fiscal ou mais de 60% do PIB de dívida pública.

Tudo acertado, foi dada a largada rumo à convergência. Quando gregos, portugueses, espanhóis e italianos puderam se endividar pagando taxas alemãs, teve início uma farra de crédito. O estado de bem-estar social encontrou farto financiamento para suas benesses. Todos pareciam felizes. Mas havia um detalhe: aqueles países continuavam muito diferentes entre si.

Enquanto a Alemanha fazia seu dever de casa, o restante acumulava dívidas impagáveis. A Grécia é um caso extremo, mas a situação é caótica para os outros também. Com a crise deflagrada em 2008, a era da bonança de crédito fácil acabou. A Europa, que nadava nua, ficou exposta.

Logo surgiram fortes pressões para duas medidas: união fiscal e atuação mais agressiva do BCE. No primeiro caso, fala-se de “solidariedade”, o que pode ser traduzido como os mais trabalhadores e produtivos sustentando os mais preguiçosos e ineficientes. No segundo caso, trata-se da saída inflacionária, uma espécie de calote disfarçado.

Nenhuma das alternativas agrada os alemães. Ficar transferindo mesada para gregos não pode ser uma solução séria para a crise. Quanto à inflação, os alemães morrem de medo, pois já passaram por isso e o resultado foi Hitler. Por isso os alemães insistem tanto na necessidade de duras reformas de austeridade.

Apertar os cintos, contudo, exige postura de estadista, que foca no longo prazo. Estadistas estão em falta na Europa (e no mundo). Os políticos parecem preocupados apenas com as próximas eleições, e desejam empurrar os problemas com a barriga. O que querem é mais estímulo fiscal e monetário. Mas foi justamente isso que agravou a crise!

O acúmulo de rombos fiscais e endividamento está no cerne dos problemas atuais. As autoridades pedem mais veneno para curar a doença. Na vã esperança de evitar a ressaca, sonha-se ser possível permanecer eufórico com mais bebida.

O governo Obama foi por este caminho, produziu o maior déficit fiscal da história americana, o banco central inundou os mercados com dólares, mas o desemprego segue elevado e a economia patinando. Os investidores sabem que terão de pagar a conta, e perdem a confiança no futuro. E quem produz riqueza de fato é o setor privado, não o governo.

O que existe na Europa é um grave problema de baixa competitividade nos países periféricos, além da enorme dívida e de uma bomba-relógio demográfica, mortal para o welfare state. A região perdeu dinamismo, as “conquistas” trabalhistas engessam a economia, e os privilégios do setor público criaram uma classe de parasitas acomodados. Nada disso vai ser resolvido com mais estímulos do governo.

Austeridade ou crescimento? Trata-se de uma falsa dicotomia. O governo, para gastar, precisa tirar do setor privado via impostos ou produzir inflação, o que dá no mesmo. A diferença é que alguns focam somente no curtíssimo prazo, enquanto outros estão preocupados com a sustentabilidade do crescimento.

O ministro das Finanças alemão compreende isso, e declarou que uma redução razoável dos elevados déficits é condição sine qua non para um crescimento sustentável. Já a França deve eleger um socialista, cujo discurso vai à contramão das reformas necessárias para sair da crise.

Duas décadas depois do Tratado de Maastricht, os membros da zona do euro ainda falam línguas diferentes. Assim fica muito difícil salvar este casamento.

Rodrigo Constantino

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28/06/2015

às 12:50 \ Democracia, Economia

“Não chegamos ao fundo do poço”, diz Arminio Fraga

Fonte: FOLHA

Ele foi, depois de Aécio Neves, a maior vítima de ataques chulos e infundados por parte da militância petista durante as últimas eleições. Apontado previamente como futuro ministro da Fazenda em caso de vitória, ele foi difamado, teve sua reputação desconstruída por falácias e mentiras grosseiras. Seus alertas sobre os problemas que o país logo enfrentaria, ao contrário do quadro rosado apresentado pela campanha de João Santana, seriam ridicularizados no personagem Pessimildo, criado pelo marqueteiro do PT. Falo, claro, de Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

Em entrevista à Folha, Arminio lamentou o cenário atual de nossa economia, e disse que os ajustes ainda levarão muito tempo, até porque esse governo não tem credibilidade alguma. Condenou não só o tamanho do estado, mas também o fato de ter sido capturado por grupos de interesse, na linha da excelente coluna de hoje do também ex-presidente do BC Gustavo Franco, sobre o “capitalismo de compadres”. E reclamou da falta de reformas estruturais, dividindo nossos desafios naqueles de curto prazo e de médio prazo. Eis alguns trechos:

O governo chutou o pau da barraca [do gasto público] nas eleições e agora paga a conta. Isso já tinha acontecido no início do primeiro mandato da presidente Dilma. A situação hoje é pior porque o país entrou muito torto na história. A evolução da dívida é assustadora, e a recessão morde firme. É possível ver isso na indústria, no setor imobiliário.

[...]

Na campanha eleitoral, você foi criticado por dizer que o país entraria em recessão, e hoje isso se concretizou. Como você se sente?
Aquilo foi um grande teatro, um show de mentiras. O Aécio e o Fernando Henrique falaram isso o tempo todo. O custo é este: temos um país morrendo de medo.

Com medo de quê?
De tudo: recessão, desemprego, inflação. Não sou político, vivo de administrar o dinheiro dos meus clientes. Se for pessimista, estou acabado, mas tenho que ser realista. A situação não está boa.

As empresas estão demitindo. A situação vai piorar?
Infelizmente, acredito que não chegamos ao fundo do poço. Espero estar errado, mas analiticamente não estamos nem perto disso.

Havia um represamento de demissões em razão das incertezas que as eleições geram. Agora a situação ficou clara e as empresas demitem.

Esse ciclo, no entanto, ainda mal começou.

O tempo mostrou quem tinha razão. E o tempo foi bem curto, diga-se de passagem. Em poucos meses após o estelionato eleitoral garantir a reeleição de Dilma já estava claro quem dizia a verdade. O desmonte do teatro petista foi bem rápido, e hoje 65% dos brasileiros rejeitam seu governo (os que aprovam ou vivem em Marte ou estão ganhando algum privilégio do estado). O Pessimildo, afinal, estava certo, ou até mesmo otimista demais. E a crise está apenas começando.

Eis o mais assustador: não chegamos nem perto do fundo do poço. Concordo com Arminio nesse prognóstico. Os desafios são imensos, e não vemos, por parte do governo, a capacidade ou o interesse de realmente mudar o rumo, cortar na carne, abandonar seu viés ideológico ultrapassado. Dilma representa o atraso do desenvolvimentismo, e pensar que os eleitores optaram por isso ao invés de ter Arminio no comando da economia diz muito sobre o Brasil – e nos dá calafrios. Difícil ser muito otimista com o futuro.

É preciso fazer reformas estruturais, reduzir drasticamente os gastos públicos, e desarmar o capitalismo de estado turbinado pelo PT. Sobre isso, recomendo o artigo supracitado de Gustavo Franco. Seguem alguns trechos:

O cronismo desembarcou no Brasil pelas mãos do PT, que em 2008, passa de uma postura passiva e envergonhada, para outra de extroversão onde parecia atacar cada um dos pressupostos dos consensos internacionais em políticas públicas. Na ocasião, o ministro Guido Mantega proclamou: “O capitalismo precisa ser sempre reinventado. Onde está dando mais certo? Nos países que adotaram o capitalismo de Estado.”

E lá fomos nós procurando ser “chineses”, ou ganhar o Nobel em economia, através de várias “opções estratégicas”, como as escolhas para o petróleo, e, mais genericamente, em todas as frentes de políticas públicas onde se buscou confrontar as soluções de mercado pois, segundo se dizia, o “capitalismo não regulado” havia fracassado no mundo inteiro.

Seis anos e muitos escândalos depois, passando por prejuízos bilionários, heterodoxias, pedaladas, e outras tantas coisas horríveis que cabem muito bem dentro do figurino internacional do cronismo, é bastante claro que essa nova matriz não apenas fracassou no tocante ao desempenho da economia, como desandou em um oceano de irregularidades e crimes.

É um fracasso histórico da maior importância, e que traz, como boa notícia, a demonstração de que o Brasil possui anticorpos poderosos contra o cronismo (nos órgãos de controle, no Judiciário e na mídia).

Eis o desafio agora: punir os que se aproveitaram de uma simbiose nefasta entre grandes grupos e estado, principalmente os políticos envolvidos nesses escândalos. Falo, claro, dos petistas e do “chefe”, aquele que se achava intocável, o maior responsável por essa lambança toda, até porque Dilma é apenas sua criatura. Não chegamos no fundo do poço. Mas haverá luz no fim do túnel, se ao menos o brasileiro puder resgatar sua esperança nas instituições republicanas e ver aqueles responsáveis por essa desgraça toda sendo punidos.

Rodrigo Constantino

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28/06/2015

às 11:11 \ Democracia, Filosofia política

O desencanto dos jovens com a política e a crise de representatividade

O jovem, apesar de ter mais tempo pela frente, costuma ser mais ansioso, quer resolver tudo logo, para “ontem”. Apresenta também uma tendência a embarcar mais em utopias, em soluções mágicas, românticas. Por fim, também demonstra normalmente maior dose de arrogância. Como dizia Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. O jovem pensa ter descoberto a resposta para as grandes questões, já que ainda não possui experiência o bastante para lhe esfregar muitos erros na cara e, com isso, o tornar mais humilde.

Quando os jovens partiam para a política, portanto, normalmente era para aderirem a partidos mais radicais, aqueles que propõem magias e bruxarias, revolucionários. A esquerda nunca ignorou esse fato, e por isso sempre foi a grande defensora do voto para pessoas cada vez mais jovens, ainda que, em total contradição, diga logo depois que esse mesmo “jovem responsável” não passa de uma criança indefesa se matar um inocente. A esquerda radical sempre atraiu mais a juventude.

Enquanto isso, os jovens mais preocupados com seu futuro, cientes, pela boa educação dos pais, de que terão de se sustentar por conta própria, não com base em esmolas estatais ou recursos alheios obtidos à força em nome da “justiça social”, nunca tiveram tanto tempo para a política, para “salvar o mundo”. Estavam ralando, estudando para ser alguém na vida, alguém de verdade, digno de respeito, e não um presidente da UNE ou um senador petista. Por isso os jovens com inclinação mais liberal ou conservadora raramente aportavam na política.

Uma grande reportagem do GLOBO hoje mostra como o desencanto da juventude com a política institucionalizada é crescente. Os maiores partidos têm perdido membros jovens, principalmente o PT. Os partidos perderam nada menos do que a metade dos jovens em termos proporcionais em poucos anos. Os partidos estão envelhecendo, incapazes de se renovarem, de atraírem gente nova. O próprio ex-presidente Lula reconheceu isso recentemente, de forma bastante direta:

O PT precisa, urgentemente, voltar a falar para a juventude tomar conta do PT. O PT está velho. Eu, que sou a figura proeminente do PT, já estou com 69 (anos), já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980. Fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido.

A juventude utópica está decepcionada com a política, desiludida, e a fadiga do PT no poder, após tantos escândalos de corrupção, representa muita lenha nessa fogueira. Mas não se trata de fenômeno apenas nacional, e sim mundial. Além disso, há o surgimento das redes sociais, que compensam a perda de interesse com a política tradicional, vista como antro de corruptos (não sem boa dose de razão). Os jovens encontraram outros meios para expressar seus sonhos e fantasias, suas revoltas ou angústias, para além da política institucionalizada.

Agitadores de massas estão de olho nisso, naturalmente. Se não é mais pela via normal da política, então que seja pelas redes sociais e ruas. Manuel Castells, Zizek e tantos outros vibram com as novas possibilidades. A crise visível de representatividade, com parlamentares incapazes de efetivamente dar voz aos eleitores, especialmente os mais jovens, abre o flanco para os “commnunity organizers”, os “líderes comunitários” que agitam os sentimentos de insatisfação para ver o circo pegar fogo. Estratégia da esquerda radical e revolucionária, apenas adaptada aos tempos modernos.

Conhecemos bem isso nas manifestações de junho de 2013. Nos Estados Unidos, o Occupy Wall Street também foi nessa linha. E na Espanha, talvez o caso de maior sucesso dos radicais, os Indignados ajudaram a parir o Podemos, um partido oficial que chegou ao poder agora, mesmo sob acusações de ligação com o tráfico de drogas venezuelano. O desencanto com a política tradicional não é necessariamente o desencanto com a revolução sonhada: é somente uma transferência de meios.

Diante disso, o que todos aqueles que apreciam a democracia representativa, jovens ou velhos, podem fazer? Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que não há vácuo de poder em política: ele logo será preenchido. Melhor que o seja por pessoas comprometidas com as instituições, com a democracia representativa, portanto. Mas é fundamental os políticos compreenderem o que está em jogo aqui. Se continuarem virando as costas para os anseios da população em geral, perderão mais credibilidade ainda, e cada vez as alternativas da “democracia direta” ou da tomada das ruas pela turba revoltada serão mais atraentes. Será a “marcha da insensatez” daqueles que chegaram ao poder e não perceberam os riscos que corriam.

Já os jovens liberais e conservadores precisam, de alguma maneira, resgatar o apreço pela política clássica. Sei que não é tarefa fácil, seja porque esse jovem está de olho em seu futuro profissional, como já dito acima, seja porque ele está cansado e desiludido com os políticos também. Mas quanto mais a política for vista como uma porcaria, e não uma via legítima para resolver dilemas públicos na vida em sociedades civilizadas, mais livre estará o caminho para os oportunistas de plantão, para os vagabundos que desde cedo só enxergavam na política um trampolim para se dar bem sem ter que trabalhar e estudar, apenas bradando slogans vazios entre uma baforada e outra de maconha.

Em artigo neste sábado no Estadão, Marco Aurélio Nogueira falou justamente sobre o lado positivo da política tradicional, tantas vezes esquecido na atualidade. Os gregos tinham isso em mente no passado, e é triste ver como a política se deteriorou na própria Grécia hoje, tornando-se apenas um palco para oportunistas. Hannah Arendt era outra que entendia a importância da política. Diz o autor:

Pode não parecer, mas política não é somente – nem sequer principalmente – coação, roubalheira, disputa infrene pelo poder, esforço para destruir inimigos e adversários. Tem uma dimensão nobre, positiva, dedicada à construção de articulações, consensos e legitimidade. O lado sombrio da atividade política, marcado pelo binômio coerção-corrupção, é compensado por um lado solar, vinculado aos temas quentes da vida, aberto para o que é coletivo, público, e para o futuro.

A política sempre flutua entre as extremidades do “bem” e do “mal”, fato que faz tudo o que a orbita aparecer de modo tenso e contraditório para os cidadãos. Mas os cidadãos continuam a ser o que são – portadores de direitos e obrigações – porque integram uma comunidade política. Somos o que somos porque somos animais políticos. Dessa constatação elementar podemos derivar algumas coisas.

Não há vida coletiva sem política, mas nem tudo na vida é política: nem tudo o que pulsa tem em vista o poder, a contestação, a disputa, ou o delineamento de pautas coletivas de ação e zonas sólidas de consenso. Viver também é usufruir, gozar a vida, experimentar os desafios da individualidade e da diferenciação. Ser um animal político é antes de tudo saber pensar e dialogar. A política é um campo exclusivo do agir humano, mas não submete tudo a si. Para incorporar os cidadãos há que existir qualidade, perspectiva e razoabilidade. Massas podem seguir encantadores de serpentes, mas sempre em ritmo de autoritarismo e tragédia.

[...]

Os políticos, em particular – eles próprios, seus líderes, seus partidos, suas vozes –, seguem em marcha batida para a deslegitimação, para a perda de contato com a sociedade. Exagerando: movem-se como bandos suicidas, ou zumbis.

O cenário é de horror. Mas não se sabe direito como evoluirá. Há poucas prospecções e elas não chegam ao mundo político, que continua a olhar para o próprio umbigo. Ninguém sabe o que fazer com as reservas políticas e intelectuais do País, com as energias cívicas e associativas que estão de prontidão. Na falta de um eixo comum que coordene tudo, o desperdício e a irracionalidade crescem, a alimentar, no limite, uma marcha para trás, o crescimento insano dos fundamentalismos, o protagonismo primitivo dos retrógrados, o mau funcionamento dos sistemas.

Não temos uma tarefa nada fácil pela frente. Como um liberal que entende bem o alerta de Lord Acton, de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, e também como um liberal que compreende bem a importância de uma sociedade maior do que o estado, acho que se politizou coisas demais no Brasil, que muitos assuntos que simplesmente não deveriam transitar pela via política viraram temas para decisões coletivas por voto, o que é um perigo para as liberdades individuais.

Mas a saída não é abandonar de vez a política, pois há um alerta ainda mais relevante aqui: você pode não se interessar pela política, mas os políticos vão se interessar por você de qualquer jeito. “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”, disse o historiador Arnold Toynbee. “A punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus”, já dizia Platão muito antes. Ignorar a política, portanto, não é solução para o problema.

O que temos de fazer é insistir na batalha das ideias, mostrando com argumentos os riscos do radicalismo, das revoluções “mágicas”, do excesso de estado, da “democracia direta”, etc. E também ampliar o campo de atuação na própria política, formando jovens lideranças, gente comprometida com os valores liberais que estejam dispostos a se dedicar ao debate político, que começa já nos diretórios estudantis. Por décadas esse espaço foi deixado totalmente livre para os barbudinhos com camisas do assassino Che Guevara. Não mais. Chapas liberais têm sido formadas para ocupar tais espaços, com sucesso. São os ventos de mudança, alvissareiros.

O liberalismo está na vanguarda, e o socialismo conquista cada vez menos jovens, a despeito de toda a campanha criminosa de militantes disfarçados de professores, que fazem intensa lavagem cerebral e doutrinação ideológica. Esse desencanto da juventude com a política institucionalizada demonstra em parte isso, mas o perigo é essa gente cair nas garras de algum aventureiro agitador de massas, de um líder totalitário que julgue falar em seu nome. Esses jovens precisam ser atraídos, ao contrário, para os bons fundamentos da filosofia liberal ou conservadora, amadurecendo neles a ideia de que as utopias são perigosas e as “soluções” não são mágicas.

Eis o grande desafio: persuadir gente que, normalmente, deseja extravasar sentimentos em ebulição em vez de usar mais a massa cinzenta, e que está, hoje, revoltada e desiludida com o sistema apodrecido de nossa democracia “representativa”, sonhando com alternativas extremamente perigosas. Essa turma precisa entrar em contato com as boas ideias liberais. E as redes sociais, apesar de servirem de palco para todo tipo de radicalismo e estupidez, podem ajudar também, disseminando bons textos, apresentando bons autores.

A forma mais fácil de acabar com uma guerra é perdê-la, disse George Orwell. Não podemos entregar os pontos nessa batalha intelectual e política. Seria suicídio, a morte da própria democracia.

Rodrigo Constantino

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27/06/2015

às 10:02 \ Cultura, Legislação

#LoveWins: a esquerda brasileira se encanta com o Tio Sam

Vivemos na era das redes sociais, logo, na era dos modismos, dos “memes” que, feito pragas, invadem nossa página no Facebook. Ontem foi assim: começou a pipocar por todo lado fotos com um arco-íris na frente. Quem sou eu para estragar esse momento de empolgação das pessoas com as leis americanas? Apesar, claro, de que Nelson Rodrigues talvez apontasse para certo complexo vira-lata, uma vez que o Brasil já possui legalização para casamento gay, e que, pelo visto, damos mais relevância para o que se passa nos Estados Unidos do que aqui. Eu, por exemplo, preferia ver todos colocando essa foto em seus perfis, em homenagem aos avanços da Operação Lava-Jato:

Lula arcoiris

Não vou entrar na questão em si da decisão da Suprema Corte. Basta dizer que tenho algum receio do precedente aberto, do crescente fortalecimento do governo central e, como consequência, do enfraquecimento do federalismo. A decisão da Suprema Corte americana pode ter sido positiva nesse caso em particular, mas representa mais uma – e grave – afronta ao federalismo, base de suas liberdades. Quase todos os estados já tinham aprovado o casamento gay. Quando a União passa por cima dos estados e começa a impor tudo do governo central, fortalecendo-o, isso pode ser perigoso. Hoje podemos festejar o que foi aprovado. Mas temo pelo amanhã, pelo processo de redução da descentralização de poder.

Outro aspecto que alguns conservadores têm todo o direito de levantar é onde isso vai parar. Sim, pois o amor foi celebrado nesta sexta (sendo que ninguém precisa de aprovação estatal para amar), mas quem acompanha mais de perto esses movimentos organizados de “minorias” sabe que sua pauta é bem mais abrangente. Não vai se dar por satisfeita nem a pau (sem trocadilho). Por exemplo: o poliamor. Por que, se tudo o que importa é o sentimento, limitar o casamento a duas pessoas apenas? Por que não a poligamia, como no mundo islâmico? Quem terá moral para negar tal “direito” se houver o “argumento” de que é o desejado pelo grupo, que se “ama”? Se seguirmos nessa linha, como ficam questões como a Previdência Social?

Há outras questões ainda mais indigestas, mas vou poupar o leitor. Vou apenas mencionar en passant que há uma ala muito maluca da esquerda relativista e “progressista” que considera abusiva a “perseguição” aos pedófilos, pois, com uma sexualização cada vez mais precoce, eles entendem que é “preconceito” restringir demais o amor com base na idade. Tem até um professor brasileiro que escreve de vez em quando na Folha que defende a pedofilia com base nessa visão (tosca) – e não está preso, mas sim dando aulas e escrevendo na imprensa.

É preciso só saber onde os movimentos que simplesmente odeiam a família tradicional e qualquer conceito de “normalidade” vão parar, se é que vão (o “progresso” que eles almejam levaria a humanidade a viver somente com base em apetites, no desejo do momento, o que nos tornaria muito parecidos com os animais irracionais). Vão quebrar todos os tabus, já que tabu é coisa de reacionário? Até o incesto pode entrar na fila: irmãos que se “amam” de forma diferente, por exemplo, ou filhos com pais, como os cachorros.

O leitor, nesse momento, poderá dizer que perdi o juízo, que sou um paranoico, que nada disso tem a ver com a união entre duas pessoas que se amam. Gostaria muito de crer nisso. Mas andei lendo vários livros e textos sobre essa turma, e não estou inventando nada aqui. Claro que não é a ala majoritária desses movimentos (ainda). Mas as revoluções morais começam aos poucos, com minorias organizadas. E a senha está dada: acusar tudo de preconceito e ir rompendo todas as barreiras existentes aos apetites e desejos. Nada pode ficar entre o desejo e a ação para a geração mimada sem limites.

Mas deixemos a “paranoia” de lado por um tempo e celebremos, sem os modismos do Facebook, a facilidade de duas pessoas do mesmo sexo que realmente se amam se casarem. A esquerda brasileira se descobriu encantada com o Tio Sam. #LoveWins, como usam por aí. Vale notar que essa mesma esquerda, que adora odiar os Estados Unidos, não pode comemorar uma conquista dessas na Venezuela ou em Cuba, que perseguem gays, muito menos na Palestina ou no Irã, que matam gays. É bonito, portanto, ver esses antiamericanos todos morrendo de amores pelos “imperialistas ianques”.

Mas pergunto: não querem aproveitar a onda e copiar, por exemplo, a redução da maioridade penal dos americanos também? Aqui, se moleque delinquente matar com 14 anos não tem conversa: vai em cana e pelo resto da vida em alguns casos. Ou, quem sabe, copiar o rigor das leis para com bandidos corruptos? Não tem moleza: foi pego com a boca na botija vai pro xilindró, não importa a renda ou o poder. Que tal copiar o capitalismo de livre mercado, num país em que o setor estratégico de petróleo, por exemplo, é totalmente privado? Vamos privatizar a Petrobras de uma vez e acabar com o petrolão?

Vamos, enfim, aproveitar essa fase de empolgação e encantamento com o Tio Sam e aprender algumas coisas úteis com os americanos? Com a palavra, a esquerda brasileira…

Rodrigo Constantino

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26/06/2015

às 17:01 \ Filosofia política, Socialismo

A direita brasileira é a esquerda americana: o caso do comércio externo

A coisa mais lamentável de nossos “debates políticos” é o enorme atraso ideológico visível, acima de tudo, na “acusação” de que o PSDB é um partido de direita. Em qualquer país civilizado do mundo ele seria visto como aquilo que é: um partido de centro-esquerda, social-democrata. Mas aqui ainda há forte ranço marxista, os velhos socialistas ainda pululam, e o resultado é esse salto do centro para a esquerda, onde até radicais bolivarianos passam a ser vistos como “moderados”, enquanto basta o menor sinal de conservadorismo para ser logo tachado de “extrema-direita”.

Não há no Brasil nada como uma Fox News, por exemplo, e a esquerdista CNN é tida como “neutra” ou “isenta”. Não me entendam mal: há esquerda radical nos Estados Unidos também, e Obama e Hillary Clinton fazem parte dela, como boa parte do Partido Democrata. Essa gente bebeu em fonte extremamente “progressista”. Mas como a cultura da liberdade e as instituições americanas são bem fortes, esses radicais não se criam muito, e precisam se dobrar diante da realidade. A esquerda americana, por isso, seria direita no Brasil, acabaria “acusada” de “neoliberal” também.

Querem um exemplo claro? A política externa voltada para o comércio. Enquanto o Brasil do PT afunda cada vez mais na lama bolivariana do Mercosul, totalmente ideologizado, os Estados Unidos, mesmo sob Obama, fecham acordos de livre-comércio e abraçam a globalização. No Brasil, isso seria visto como algo de “ultra-liberais”. A postura da esquerda americana fica evidente na entrevista de Penny Pritzker a Duda Teixeira nas páginas amarelas da VEJA da semana passada. Pritzker, com fortuna avaliada em US$ 2,5 bilhões, é secretária de Comércio do governo Obama, e vem quebrando a cultura protecionista do partido. Disse ela:

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A esquerda americana, representada pelo Partido Democrata, não chega ao extremo de condenar a globalização e pregar soluções como o fechamento protecionista. Como mais prova disso, o governo vem fechando acordos bilaterais, o que coloca ainda mais pressão sobre o Brasil, com sua camisa de força do Mercosul, conforme constata o editorial do GLOBO de hoje:

Por 60 a 38 votos, o Senado americano deu ao presidente Barack Obama autoridade para negociar acordos comerciais por meio do chamado fast-track, agilizando a atuação da Casa Branca nas negociações de importantes tratados comerciais com a Ásia e a Europa. Pelo sistema fast-track, as propostas acertadas em negociações do governo americano só podem ser aprovadas ou rejeitadas em bloco, não cabendo ao Legislativo a inclusão de emendas. A prerrogativa do Congresso de alterar o que fosse negociado no exterior enfraquecia o poder de barganha de Washington e colocava em dúvida a validade das negociações em andamento.

Neste caso, o principal adversário de Obama era seu próprio partido, historicamente comprometido com os sindicatos americanos e outros grupos, como produtores rurais, segmentos trabalhistas e defensores dos “interesses nacionais”, leia-se, protecionismo.

[...]

Tomada um dia após o lançamento do nosso Plano Nacional de Exportações (que já nasceu afetado pelo ajuste fiscal), a decisão dos senadores americanos não é uma boa notícia para o Brasil, que continua imobilizado no Mercosul, bloco que substituiu a integração comercial pelo isolamento político.

As evidências do equívoco estão nos números da nossa balança comercial (déficit acumulado até maio de US$ 2,3 bilhões). Lamenta-se que, ao deixar a ideologia dominar o comércio exterior, o Brasil fique de fora de acordos preferenciais e desperdice oportunidades num momento em que os preços das commodities caem, e o resto do mundo se reinventa em tratados multilaterais vantajosos.

Ou seja, não só a oposição de direita vota a favor do país, de forma responsável, como a própria esquerda americana entende que é preciso mergulhar na globalização, em vez de se fechar para o mundo para “proteger empregos” (à custa de todos os consumidores e pagadores de impostos). A esquerda americana demonstra, assim, um mínimo de bom senso, de noção econômica.

Quem no Brasil tem essa visão é o PSDB, que continua sendo de esquerda, mas com claras concessões ao mundo moderno. Só que o PSDB é visto como “direita”, e não temos nada parecido com o Partido Republicano, à exceção de alguns poucos casos isolados dentro do DEM. Um Tea Party, então, seria impensável no Brasil por enquanto. E até uma TV Globo, com Jô Soares e novelas “progressistas”, é tida como de “direita” pela esquerda brasileira. Imagina uma Fox News em terras tupiniquins!

Tudo isso é muito triste, e retrata nosso atraso intelectual. Ainda debatemos se a Terra é quadrada ou redonda, em vez de debatermos as nuanças do seu arredondamento. Por aqui, Marx ainda é levado a sério! Professores universitários idolatram Cuba. É um espanto! A esquerda americana seria a nossa direita, e simplesmente não temos uma verdadeira direita, partidos liberais ou conservadores que defendem abertamente o capitalismo, o livre mercado, a globalização, a drástica redução do estado.

Por falar em Cuba, a secretária de Obama, o presidente mais à esquerda das últimas décadas nos Estados Unidos, acha que a saída para tanta miséria é justamente o capitalismo, a globalização:

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Já a nossa esquerda ainda aplaude o regime cubano, e, sem notar a contradição, culpa o embargo americano pela miséria na ilha. Ou seja, também acha que o problema de Cuba é a falta de capitalismo, de globalização, o fato de não ser “explorada” pelos “consumistas ianques”. Mas não admite, ou não consegue ligar lé com cré, causa e efeito. Prefere continuar admirando e pregando o socialismo, enquanto cospe no capitalismo e na globalização. É jurássico!

Enquanto a secretária do esquerdista Obama pede mais mercado para Cuba, a nossa esquerda defende a importação de escravos cubanos pelo Brasil, e ainda faz silêncio diante de absurdos como o caso do médico impedido de casar com uma brasileira, conforme um leitor do GLOBO apontou hoje:

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Onde estão Chico e Caetano? Ora, em Paris, jogando pelada em campos particulares do Recreio, ou fazendo shows no exterior para ganhar em dólar, moeda forte. Onde está a oposição? É de esquerda também, salvo raras exceções. Ronaldo Caiado tem condenado esse absurdo, mas é uma voz isolada praticamente. E o problema maior é justamente a falta de uma direita organizada e forte, como existe nos Estados Unidos. No Brasil, preso no século XX, a nossa direita inexiste, enquanto nossa esquerda moderada é vista como “ultra-direita”, e nossa esquerda jurássica é tida como “moderada”. Vamos levar um bom tempo até superar os dinossauros marxistas…

Rodrigo Constantino

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