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28/03/2015

às 11:06 \ Economia, Inflação, Sem categoria

Resultado do PIB é ainda pior do que parece. Ou: É estagflação sim!

A economia brasileira ficou oficialmente estagnada em 2014, tendo “crescido” apenas 0,1%, segundo o IBGE. No período que comporta o primeiro mandato de Dilma, o crescimento foi de medíocres 2,1% ao ano, a taxa mais baixa desde Collor, e a terceira pior da história de nossa República. Quase que Dilma teve a oportunidade de efetivamente usar o bordão de Lula, seu criador: “Nunca antes na história deste país…”

Se o dado por si só já é péssimo, ele fica ainda pior quando abrimos por seus diferentes componentes. A indústria, por exemplo, que costuma gerar empregos de maior valor agregado, teve queda de 1,2% em 2014. E o mais assustador: os investimentos sofreram redução de 4,4%. Do lado positivo, puxando o PIB para cima, tivemos o governo, com aumento de 1,3%, e as famílias, cujo consumo se expandiu 0,9%.

Peço licença ao leitor não familiarizado com o “economês” para entrar um pouco em teoria aqui. A obsessão com o resultado final do PIB ignora que há enorme diferença de qualidade quando um país cresce puxado por indústria e investimento ou quando “cresce” puxado por gastos de consumo das famílias e do governo. Para o PIB final, tanto faz. Mas para a sustentabilidade e qualidade desse crescimento, faz toda a diferença do mundo.

Como o governo não pode dar nada sem tirar do setor privado, pois suas fontes de recursos são os impostos, a inflação (que não passa de um imposto disfarçado) e o endividamento (que terá que ser pago eventualmente), claro que o aumento dos gastos públicos terá como contrapartida, inevitavelmente, a redução ou dos investimentos privados ou do consumo privado. Mas o foco demasiado no curto prazo, fruto de uma visão míope, faz com que os keynesianos negligenciem esses impactos negativos ao longo do tempo. Se o governo quer estimular o crescimento econômico e, portanto, a criação de empregos, basta ele expandir seus gastos.

Keynes argumentava que em períodos de insuficiente demanda agregada, caberia ao governo compensar esta queda com o aumento dos gastos. É a famosa política anticíclica. Foi a justificativa teórica perfeita para políticos ansiosos para torrar o dinheiro da “viúva” e conquistar votos pelas vias populistas. Claro que na época da bonança e do forte crescimento econômico, o termo “anticíclico” era ignorado. A política acabava unidirecional, como se feita por economistas manetas. Mas o próprio conceito de demanda agregada insuficiente é falacioso. Parece que o rabo é que balança o cachorro, e não o contrário.

A lógica, de forma simplificada, funciona assim: a crise econômica ocorre como reação a uma queda da demanda agregada, sabe-se lá por qual motivo. Os empreendedores perderam seu “espírito animal” de repente. E cabe ao governo estimular a economia com aumento de gastos. Isso fará a demanda agregada subir, empregos serão criados e o consumo poderá retomar sua trajetória. Com mais consumo, as empresas produzem mais, empregando mais gente. Os salários podem aumentar, gerando um ciclo virtuoso. Parece tão simples que toda a miséria do mundo fica parecendo apenas resultado da falta de “vontade política”.

Isso é uma grande falácia. Se alguém questiona quais fatores permitem o aumento da “renda nacional”, a resposta deverá ser: a melhoria dos equipamentos, das ferramentas e máquinas empregadas na produção, por um lado, e o avanço na utilização dos equipamentos disponíveis para a melhor satisfação possível das demandas individuais, por outro lado. O primeiro caso depende da poupança e da acumulação de capital, o segundo das habilidades tecnológicas e das atividades empresariais. Se o aumento da renda nacional em termos reais é chamado de progresso, devemos aceitar que este é fruto das conquistas dos poupadores, investidores e empreendedores.

Os gastos do governo costumam desviar recursos destes fins mais produtivos. Keynes chegou ao ponto absurdo de defender que seria justificável o governo, durante uma crise, contratar gente para cavar buracos e mais gente para tampá-los. Evidentemente que o fantástico desta proposta não passou despercebida na época. Questionado sobre o efeito de tais medidas no longo prazo, Keynes cunhou sua famosa frase: “No longo prazo estaremos todos mortos”. O longo prazo, porém, um dia chega. O de Dilma chegou.

O consumo das famílias cresceu pelo décimo-primeiro ano consecutivo, e os gastos públicos só crescem sob o lulopetismo. Isso pode impactar positivamente o PIB, salvando-o de um resultado ainda pior, mas nada diz sobre sua qualidade. As famílias e o governo estão gastando mais em um cenário de queda dos investimentos e da produtividade, ou seja, esse gasto maior é insustentável. O que permite mais consumo é justamente mais investimento produtivo. E isso o Brasil não tem tido.

Outra forma mais acurada de analisar o PIB é observando o crescimento per capita. Afinal, crescer apenas pela maior quantidade de gente não quer dizer muito. O que importa é quanto está crescendo por brasileiro. Pois bem: o PIB per capita caiu pela primeira vez desde 2009: recuo de 0,7%, para R$ 27.229. Estamos ficando mais pobres, e isso sem levar em conta o resto do mundo. Se analisarmos em dólar, o resultado é muito pior!

Outra forma de analisar melhor o dado, para deixar claro como ele precisa melhorar muito para ser apenas medíocre, é compará-lo ao resto do mundo. A desculpa esfarrapada usada por Dilma de que estamos vivendo os efeitos de uma crise internacional não se sustenta por um segundo. Na América Latina mesmo, o Brasil só “cresce” mais do que a Venezuela, mergulhada em severa crise causada pelo bolivarianismo. Em geral, o Brasil teve o terceiro pior crescimento do G20. Crise internacional uma ova!

Como se não bastasse toda essa visão terrível pelo retrovisor, a expectativa em relação ao futuro não é nada melhor. Ao contrário: a situação deve piorar bastante. O próprio ministro Joaquim Levy reconhece que a economia verá “forte desaceleração” neste começo de ano. Ora, o que entender como “forte desaceleração” quando já estamos estagnados? O ministro acha que os investimentos já voltam a subir no segundo semestre, mas será mesmo? Com esse ambiente político e econômico?

O que parece mais certo de prever é a queda no consumo das famílias. Justamente a parte que era insustentável naquele “crescimento” de 2014. E, com isso, teremos uma redução mais acentuada no PIB, provavelmente entre 1% e 2% este ano. Isso, nunca é demais lembrar, com uma inflação de 8%. E ainda há economistas que negam o uso do termo estagflação para definir nossa situação atual. É estagflação sim! O Brasil tem uma economia estagnada na melhor das hipóteses, e uma inflação de quase dois dígitos. Se isso não é estagflação, não sei o que é…

Rodrigo Constantino

27/03/2015

às 19:17 \ Cultura, Educação

Cortella, a esquerda e a demofobia

Cortella, eleitor do PT e entendido em ética…

Escutava a CBN, programa “Fim de expediente”, quando quase bati de carro. É que a fala do filósofo Mario Sergio Cortella, o entrevistado, fez eu levar automática e incoscientemente a mão à barriga, procurando o estômago. Quando lembro que sua especialidade é falar sobre ética, bate uma tristeza ainda maior. Nossa esquerda não tem jeito mesmo!

E o que foi dito de tão assustador? Bem, após tecer loas ao mestre Paulo Freire, pintado não como um homem, mas quase como um santo e um gênio, basicamente pelos títulos conquistados (apelo à autoridade*), pois o reconhecimento oficial de “patrono da educação brasileira”, convenhamos, não deveria ser tão honroso num país com esse ensino lamentável que ocupa a rabeira dos rankings internacionais, Cortella resolveu falar sobre a esquerda e a direita.

Sua definição “histórica” dos termos foi a seguinte: esquerda é tudo aquilo que não tem “demofobia”, enquanto direita é tudo que tem “demofobia”. E lá vamos nós para o monopólio das virtudes uma vez mais, a velha e surrada tática de se apropriar dos fins nobres e demonizar os oponentes pelas supostas intenções terríveis. Mesmo que o partido se diga de esquerda, alega Cortella, ele será de direita se não quiser o bem do povo, se não desejar melhorar a vida dos pobres.

Esquerda, para ele, é um sentimento bom, uma alegada intenção nobre, um “amor” por tudo que é popular. Como Rousseau, que “amava” a Humanidade, especialmente o “bom selvagem”, mesmo tendo abandonado todos os filhos e criado problema com todos os amigos, chegando a ser visto como um “poço de vileza” por Voltaire. Detalhes bobos. Ser de esquerda, nos diz Cortella, é apreciar o povo, enquanto ser de direita é detestá-lo, torcer para que os pobres não possam frequentar os aeroportos.

O que dizer de tanta estupidez ou desonestidade? Só posso dizer que o discípulo teve o mestre que merecia. Quem sabe Cortella não possa ser o novo patrono de nossa educação? Até porque está cotado para o ministério, não é mesmo? (assim que o texto foi publicado, saiu a notícia de que Renato Janine é o novo ministro, ou seja, outro puxa-saco do petismo) Nada mais adequado do que um especialista em ética aceitar um cargo no governo do PT, não é verdade? Será apenas mais um a levar a mentalidade marxista de oprimidos e opressores para dentro da sala de aula, colaborando com afinco para o declínio ainda maior de nosso ensino público.

Cortella, em seguida, passou a minimizar nossos escândalos de corrupção com base na juventude nacional. Ou seja, o Brasil é um país com apenas 500 anos. Como podemos nos comparar com países milenares? Ele citou a China e a Índia como exemplos. Como é? Qual a lição aprendida pela China ao longo de tanto tempo? Um país sem democracia e ultra corrupto, vai ensinar o que exatamente? E a Índia, uma miséria total, de que serviu tantos milênios de idade? Já os Estados Unidos…

Mas ficamos assim: devemos ser menos exigentes com nossos políticos pois o Brasil é um país jovem ainda. Disse o entendido sobre ética, e que talvez vá para o governo do PT. Não é tudo incrível? Acho que tenho um pouco de “petistofobia”, admito, pois quando vejo o que esses petistas fazem com o nosso povo que tanto “amam”, a revolta é inevitável…

* Acho incrível como os “intelectuais” de esquerda apelam para os títulos acadêmicos, na incapacidade de focar em argumentos. Não importa quantos doutorados honoris causa Paulo Freire recebeu, isso não diz nada sobre suas ideias serem boas ou ruins. Outros acadêmicos renomados e repletos de títulos também defenderam baboseiras. Aliás, vários marxistas são doutores, e isso não salva o marxismo, um retumbante fracasso, de nada. Podemos pensar em Chomsky, respeitado na área linguística, mas um rematado idiota político, chegando a afirmar que os Estados Unidos representam a maior ditadura do mundo, enquanto defende as tiranias assassinas de esquerda. O certo não é se respaldar em títulos acadêmicos, mas nos argumentos e nos fatos, algo que a esquerda nunca faz.

PS: Certa vez o jornalista Elio Gaspari também apelou para a tal “demofobia” para blindar o PT de críticas, como se estas fossem derivadas de um suposto ódio ao povo. Uma piada! Comentei o absurdo aqui.

Rodrigo Constantino

27/03/2015

às 12:19 \ Democracia, História, Política, Socialismo

O indivíduo comum como o único agente da história

A ideia do herói revolucionário não é, de forma alguma, nova. Na realidade, é um dos mais interessantes paradoxos do marxismo que este tenha combinado uma teoria da história que nega a eficácia da liderança com uma prática revolucionária que depende inteiramente da liderança para seu sucesso, e que foi capaz de consolidar-se no poder somente por estabelecer hábitos de adoração ao herói revolucionário”.

A passagem, de Roger Scruton sobre Gramsci, traz um ponto muito interessante sobre uma das maiores – entre tantas – contradições do marxismo: a crença no determinismo histórico concomitante ao culto do líder revolucionário. As “forças históricas” são produzidas pela luta de classes, segundo os marxistas, e do feudalismo passamos ao capitalismo que, inexoravelmente, chegará ao socialismo.

A crença em qualquer fatalismo deveria levar à inação. Ora, se tais acontecimentos independem da volição das pessoas, até mesmo da ação de indivíduos, então por que lutar tanto? Para “acelerar” o processo histórico inevitável? Claro que não faz o menor sentido, e o classismo marxista, esse abjeto coletivismo que só enxerga classes abstratas e nunca indivíduos de carne e osso como os protagonistas da história, não passa de uma forma de tornar o violento revolucionário mais insensível ao dano que causa às pessoas.

Somente quando a “burguesia” é o alvo, o grande inimigo, que revolucionários podem dar vazão à sede de violência eliminando os kulaks, os pequenos proprietários russos de terras. Somente quando os seguidores de Pol-Pot enxergam nada além de “classes dominantes” é que um terço da população do Camboja pode ser exterminada sem tanto peso na consciência dos revolucionários. Não matavam pessoas, pais e mães, gente de carne e osso, mas uma “classe”. O mesmo com os nacional-socialistas na Alemanha, exterminando “ratos judeus”, e não seres humanos como você e eu.

Não perceber que são indivíduos os verdadeiros agentes da história, cuja trajetória é sempre indefinida, é um equívoco primário que o marxismo comete, e que possibilita todo tipo de prática nefasta por parte dos revolucionários – eles mesmos indivíduos também, seguindo seus instintos mais do que sua razão, e agindo impunemente e com paz na consciência, pois se sentem agindo como uma “classe” oprimida, nunca como pessoas responsáveis por seus atos.

Toda essa longa explanação foi para chegar na realidade brasileira atual. Os petistas, herdeiros tupiniquins do marxismo, julgavam-se os “protagonistas da história” como representantes da “classe oprimida”, enquanto os demais, mesmo os esquerdistas tucanos, eram da “elite”, da “classe opressora”, e portanto “reacionários”. A mobilização das massas nas ruas era monopólio do PT, pois somente ele agia em prol do avanço da história rumo ao seu destino inevitável: o socialismo.

Muitos realmente acreditaram e acreditam nessa baboseira. É por isso que olham perplexos, com um sentimento doloroso de dissonância cognitiva, para milhões nas ruas contra o PT. Precisam ser acusados de “classe golpista”, de “elite”, mesmo que sejam pessoas comuns, da classe média, um misto de tudo, de trabalhadores, de profissionais liberais, de aposentados, de jovens estudantes, de empresários grandes, médios ou pequenos. Todos viram um monolítico grupo de “reacionários golpistas”, pois se colocam contra o “progressismo” petista, aquele que fala em nome dos pobres e de seu futuro brilhante.

Reinaldo Azevedo falou algo similar em sua coluna de hoje na Folha, mostrando, com o próprio Marx, como alguns podem ser vítimas de sua própria visão de mundo. O PT está em crise grave, definhando, murchando, e antigos aliados pulam fora do barco que afunda. O partido pode até mesmo ser totalmente destruído. Mas esquerdistas históricos se recusam a ver o que acontece. Escreve Reinaldo, usando o petista Andre Singer como exemplo:

Tentei achar nos seus textos onde estão os sujeitos que fazem história fora das hostes da esquerda. Não há. Ou os homens que disputam as narrativas estão engajados num movimento que traz em si o germe da mudança necessária ou estão articulando as forças da reação, o que levaria o mundo a andar pra trás.

É impressionante que mesmo os esquerdistas que leram mais de três livros ignorem que os valores do homem médio –que, no fim das contas, asseguram a estabilidade disso que entendemos como civilização– também podem ser afirmativos, não apenas reativos ou derivados da mobilização esquerdista. Bakunin, numa crítica pela esquerda, apontava “a falta de simpatia” de Marx pela raça humana. A crítica era pertinente. O furunculoso nunca se interessou pelo homem que há, aquele que realmente faz história, mas sempre pelo homem a haver, que existe como projeto.

O petismo perdeu o bonde. Também perdeu a rua, como ficará claro, de novo!, no dia 12 de abril. O petismo já morreu. Tornou-se vítima de sua própria concepção de mundo.

Amém! Mas não chega a ser uma declaração de fé, e sim uma conclusão lógica derivada da análise fria dos fatos, algo que os petistas jamais foram capazes de fazer. Eles eram o “motor da história”, e isso era tudo que bastava para sua arrogância e seu ataque virulento aos opositores, tratados por eles como inimigos, como obstáculos ao futuro radiante de sua utopia.

É o que dá essa mania de enxergar somente coletivos abstratos, e nunca o indivíduo de carne e osso, o único agente verdadeiro da história, sempre imprevista. Para os liberais, o indivíduo sempre faz a diferença – para o bem e para o mal.

Rodrigo Constantino

27/03/2015

às 10:13 \ Economia

O fim da classe média e o surgimento da ralé

Esquenta os tambores que vem aí a nova ralé brasileira!

Está estampada a manchete na capa do jornal: “Renda tem maior queda em 10 anos”. O rendimento médio real habitual do trabalhador ficou em R$ 2.163,20, em fevereiro deste ano, uma queda de 0,5% em relação a fevereiro do ano passado. Essa é a primeira queda anual do rendimento desde outubro de 2011 (-0,3%) e a maior queda desde maio de 2005 (-0,7%). Os dados são da Pesquisa Mensal de Emprego (PME).

“Há muito tempo não há uma retração do rendimento. Nesses dois últimos meses, a gente vê o aumento do indicador da inflação. Houve de fato uma retração em função da inflação, para rendimentos em termos reais”, disse a pesquisadora do IBGE, Adriana Beringuy.

A queda também pode ser explicada por redução dos postos de trabalho em setores que pagam mais, como a indústria, que teve recuo de 7,1% no contingente de desocupados entre fevereiro deste ano e o mesmo período do ano passado. O rendimento também teve queda, de 1,4%, na comparação com o mês de janeiro.

O que estamos vendo é o começo do declínio da tal “nova classe média”, que o governo anunciou com muito alarde – e tortura estatística. O desemprego está aumentando, a economia deve se retrair esse ano em 1% ou mais, e a inflação provavelmente terminará 2015 acima de 8%. Será que podemos afirmar que se trata do fim da classe média e do surgimento da “ralé”?

O leitor acha que sou insensível por usar esse termo? Talvez. Mas calma que explico. Não é exatamente um termo meu. Há um pesquisador que divide o país exatamente nessas “classes”: a ralé, os batalhadores e os ricos. É o autor de um estudo sobre a tal “ralé brasileira” e como ela vive. Pensa o leitor que se trata de algum “neoliberal” qualquer? Nada disso. Seu nome é Jessé Souza, e não tem nada de liberal.

Nunca ouviu falar? Pois é, mas os petistas sim, a presidente Dilma sim. Afinal, o homem se tornou nada menos do que o novo presidente do Ipea, aquele órgão de pesquisa aplicada que outrora gozou de grande respeito, e que desde a chegada do PT no poder virou sinônimo de piada de mau gosto, de “pesquisas” com claro viés ideológico e partidário.

Logo na epígrafe deste trabalho, o autor cita uma frase de Celso Furtado, guru das esquerdas, em uma entrevista para a “Caros Amigos”, aquela revista que de tão caricata serve apenas para rir. A frase: “A doença grave do Brasil é social, não econômica”. E é com base nesse diagnóstico que tantos “economistas” (ou antropólogos e sociólogos) ignoram tudo aquilo que faria a economia de fato crescer e, com isso, reduzir a miséria social. Basta “vontade política” para distribuir a riqueza e tudo ficará bem, na cabeça dessa gente…

Na introdução, Jessé já mostra a que veio: “Na verdade, a força do liberalismo economicista, hoje dominante entre nós, só se tornou possível pela construção de uma falsa oposição entre mercado como reino paradisíaco de todas as virtudes e o Estado identificado com a corrupção e o privilégio”. Liberalismo “economicista” dominante entre nós? Em que mundo ele vive? Mercado como “reino paradisíaco”, no Brasil? Vemos na largada que a honestidade intelectual não é seu forte, e que o intuito é apenas vender sua ideologia estatólatra, infelizmente já bastante disseminada no país.

Mas não é esse meu ponto principal aqui. Jessé chama o andar de baixo de “ralé”, e se coloca como uma espécie de porta-voz desses desvalidos. Só de usar esse termo, um economista liberal já seria tachado dos mais chulos adjetivos. Ironia das ironias, o sujeito acusa o outro lado de “simplista”, mas divide a sociedade em ralé, batalhadores e ricos. Em qual “classe” está o leitor?

Nessa entrevista ao ator Lázaro Ramos, Jessé deixa claro que essa coisa de mérito não existe, que o resultado é fruto da classe de largada. Seria muito perguntar como, dentro das mesmas famílias, há resultados tão distintos? Ou então como, especialmente nos países mais liberais, tanta gente sai da pobreza e chega ao sucesso? Detalhe, detalhe. Marxistas, disfarçados ou não, traem seu desejo de atacar os ricos, mascarando-o de “busca pela justiça social”. Jessé quer ajudar os “invisíveis”, e para isso precisa tirar dos “ricos”.

Pior: para Jessé, a corrupção não tem nada a ver com excesso de estado, mas sim com desregulamentação. Ou seja, se aumentarmos a burocracia e o poder estatal, teremos menos corrupção! Vai ver por isso a União Soviética era tão pouco corrupta… Vai ver por isso o petrolão ocorreu na Vale privatizada, e não na Petrobras estatal… Ops!

A escolha do presidente do Ipea é do ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos. No caso, Mangabeira Unger, aquele que cuspia no governo do PT como um dos mais corruptos e logo depois embarcou no time sem mais nem menos, mostrando como é capaz de mudar de ideia da noite para o dia, graças, claro, a fortes argumentos persuasivos. Não dá para cobrar coerência dessa turma.

Tudo que escrevi acima seria desnecessário, bastando revelar ao leitor uma só informação: o Brasil 171 adorou a escolha! Acha que Mangabeira “marcou um golaço”. Por aí o leitor já pode ver o que nos espera. Será que teremos saudades de Marcio Pochmann? Não custa lembrar que foi em sua gestão que a decadência do Ipea começou, e logo depois o economista mostrou sua verdadeira cor, ao se candidatar como político pelo PT.

Infelizmente, o estrago institucional causado pela passagem do PT pelo poder – espera-se que perto do fim – é enorme e levará muito tempo até ser revertido. O PT aparelhou toda a máquina estatal com seus pelegos e militantes, avançou sobre os diferentes órgãos como se fossem braços partidários, destruiu a credibilidade de inúmeras entidades importantes. O critério de escolha nunca é técnico, mas sempre ideológico.

E, no processo, inventou uma “nova classe média”, que agora poderá ser estudada e analisada com esmero pelo Ipea, como a nova ralé brasileira!

Rodrigo Constantino

26/03/2015

às 20:57 \ Democracia, Política

Bate-papo com leitores no lançamento do livro em Brasília

Segue o rápido bate-papo com os leitores presentes até o final no lançamento de Contra a maré vermelha em Brasília.

Rodrigo Constantino

26/03/2015

às 19:40 \ Democracia

Recado de Caplan para Dilma: até populistas precisam maneirar no populismo

Meu cachorro resolveu fazer xixi em alguns de meus livros, que ficam na parte de baixo da prateleira. Retaliação porque estava viajando para lançar meu novo livro ontem. Minha primeira reação foi colocá-lo de castigo após uma bela bronca, claro, pois os petistas podem fingir não saber quando fazem “caca”, mas até os cães entendem perfeitamente a diferença entre certo e errado.

Mas depois, quando a raiva inicial se dissipou, resolvi analisar melhor seus alvos. Entre eles, estava o excelente The myth of the rational voter, de Bryan Capan, que já comentei aqui. Caplan não é um grande entusiasta da democracia de massas, pois sabe como ela acaba induzindo o e levando ao populismo.

Folheando as páginas tingidas de amarelo e com forte odor, deparo-me com essa passagem perfeita para os dias de hoje, quando as medidas populistas de Dilma voltam feito um bumerangue para assombrá-la, fazendo sua popularidade derreter mais rápido do que sorvete no asfalto do verão carioca:

Os políticos enfrentam uma situação desconfortável: “Populismo descarado funciona bem no início, mas uma vez que as consequências negativas cheguem, os eleitores vão me culpar, não a si mesmos”. Isso dificilmente implica que nunca compensa tomar a rota populista. Mas os líderes têm de encontrar um equilíbrio entre fazer o que o público pensa que funciona e o que realmente funciona.

Pois é. Se o líder populista quiser, pode ler essas palavras como uma espécie de conselho maquiavélico. Populismo tudo bem, o público em geral demanda do governo democrático, especialmente em um país com muita carência material, grande ignorância econômica e forte mentalidade estatólatra. Mas para tudo tem limite! Se o populista exagerar na dose, o próprio populismo lhe mata politicamente, pois quando o custo da farra chegar, o público vai culpar somente o líder, esquecendo que lá atrás votou no populismo.

Culpar Dilma apenas pela desgraça que se abate sobre o Brasil é fingir que ela e o PT não foram eleitos por quatro mandatos seguidos. Sim, há a questão da urna eletrônica, do abuso da máquina estatal, da compra de votos, dos militantes (ou meliantes) dos Correios, tudo isso. Mas não dá para ignorar que uma enorme quantidade de gente simplesmente pedia mais e mais populismo, assistencialismo, gastos públicos, crédito fácil, casa subsidiada.

Não importa que Dilma tenha inúmeros cúmplices. O que importa, agora, é que ela pagará o pato, culpada pelos eleitores pela situação em que o país se encontra, fruto do populismo. Faltou equilíbrio à Dilma. Ela exagerou na dose do populismo. Agora toma xixi na cara!

Rodrigo Constantino

26/03/2015

às 17:12 \ Filosofia política

Delfim desanca socialistas em templo do socialismo

Delfim Netto é muito inteligente, isso ninguém nega. Onde há controvérsias é sobre o uso de tal inteligência. Desenvolvi aqui a tese de que se trata de dois em um, uma espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Dependendo do dia, vemos o médico sábio em ação, ou então o monstro colocando seu conhecimento em prol de coisas indefensáveis – como o governo petista.

Mas dessa vez Delfim se superou e me surpreendeu, admito. O homem desancou os socialistas em pleno templo do socialismo! Usou seu espaço na Carta Capital para meter o pau nos retrógrados defensores da ideologia vermelha, que trata com desdém o mercado – o pobre mercado, esse ente abstrato que adquire CPF, endereço e tudo mais por parte da esquerda, personificando todo o mal existente no mundo.

O que foi dito não é o mais interessante – muitos outros dizem coisas similares, e para ser sincero, é puro bom senso reconhecer que alguma tensão entre “urna” e “mercado” tem sido a trajetória dos países mais desenvolvidos. O que nos chama a atenção é onde foi dito, e também por quem foi dito. Não era um texto meu ou de Reinaldo Azevedo na Veja, e sim um texto de Delfim Netto, até ontem defensor de Dilma, na CC! Seguem alguns trechos para o leitor compreender o espanto:

Todos sabemos que a URSS implodiu em 1991 por uma constelação de erros econômicos e corrupção política, sob o jugo dos herdeiros daquela “vanguarda” partidária que em 1917 convencera o mundo intelectual de que era portadora do segredo do sonho generoso de como organizar a sociedade para a felicidade geral, o “socialismo”.

[...]

O curioso é que, em 1919, durante a revolução comunista de Bela Kun, na Hungria, Georg Lukacs, pragmaticamente, já esquecera o “altruísmo” e escreveu: “Se os trabalhadores não adotarem imediata e espontaneamente uma disciplina de trabalho e aumentarem a sua produtividade, o proletariado deve aplicar a ditadura a si mesmo (sic), isto é, devem ser criadas instituições que os obriguem a fazê-lo”. Tinha razão George Orwell, “um homem tem de pertencer à ‘intelligentsia’ para acreditar numa coisa como essa!”

[...]

A esquerda consagrou Luckacs como o Galileu do século XX, mas no século XXI persiste a indignação de alguns de nossos intelectuais que continuam a se pretender “vanguarda”. Não se conformam com a “alienação” que os trabalhadores revelam nas urnas nos processos democráticos livres. Como é possível que, apenas porque gozam de relativo conforto no emprego, têm um salário razoável para sustentar sua família, contam com alguma segurança e têm alguma garantia de uma modesta aposentadoria, rendem-se à sociedade “consumista” e “exploradora” produzida pelo indecente “capitalismo”? Por que, afinal, negam-se o “direito” de se entregarem à “democracia” que eles lhes oferecem e que os levará ao paraíso do “socialismo”?

A explicação cínica e talvez a verdadeira é que o trabalhador “alienado” aprendeu que a tal “esquerda” está, em geral, confortavelmente instalada no serviço público, gozando seus “direitos” pagos com os recursos que o maldito Estado capitalista extrai dele! Aprendeu na vida real o que a “vanguarda” finge ignorar: a igualdade prometida significa, no fundo, mais Estado e a busca da igualdade absoluta significa o Estado absoluto, que, para compensar sua ineficiência também absoluta, sempre exige o fim da liberdade.

[...]

 O insuperável Adam Smith, 250 anos atrás, na sua Teoria dos Sentimentos Morais (1759), já alertava seus leitores contra aqueles que se julgam sábios e “imaginam que podem organizar os membros de uma grande sociedade com a mesma facilidade com que organizam as peças de xadrez num tabuleiro”.

No momento em que nossa juventude continua sendo miseravelmente deseducada pela história “criativa” promovida pelos mesmos “intelectuais” financiados pelo governo, é preciso insistir. Não há caminho especial para a realeza na construção da sociedade civilizada! Ela tem de resultar do jogo democrático dinâmico e continuado, entre o “mercado” e a “urna”. As alternativas propostas nunca levarão a ela. São atalhos propostos ou pela direita boçal, cuja ditadura consome 20 anos, ou pela esquerda imbecil, que costuma durar 70.

Não fui eu quem escreveu tais palavras! E tampouco elas foram publicadas na Veja! Para o desespero dos “intelectuais” de esquerda, elas foram proferidas por um “companheiro”, ao menos de tempos mais recentes, e publicadas naquela revista que adora propaganda estatal. Um espanto…

Rodrigo Constantino

26/03/2015

às 16:14 \ Empreendedorismo, Filosofia política

As quatro lições de Jouvenel

Por João Cesar de Melo, publicado no Instituto Liberal

Num dos capítulos de seu livro A Ética da Redistribuição, o escritor francês Bertrand de Jouvenel esclarece sobre o papel da desigualdade na distribuição de riqueza e as consequências de políticas de nivelamento intelectual e econômico. Para tanto, o autor identifica quatro pontos que devem ser considerados: Primeiro, “Necessidades pessoais para indivíduos de gostos originais”; segundo, “A perda, para a sociedade, do esforço especial que essas pessoas fariam a fim de satisfazerem suas necessidades especiais”; terceira, “A perda, para a sociedade, da variedade de estilos de vida resultantes de esforços bem sucedidos para satisfazer desejos especiais”; quarta, “A perda, para a sociedade, daquelas atividades que são sustentadas pela demanda das minorias”. Entendamos o que cada um desses pontos significa.

1° – Cada indivíduo carrega em si um conjunto de características próprias, moldadas pela genética e potencializadas pela família, cultura, religião, sociedade e economia, o que torna absurda qualquer medida genérica do Estado visando atender “demandas sociais” − cada indivíduo tem necessidades próprias!

Numa mesma família, filhos de um mesmo casal, criados num mesmo ambiente, apresentam interesses, gostos e desejos diferentes, independentemente da vontade dos pais. Essa obviedade tão ignorada pelo socialismo − que tenta incansavelmente formatar todas as pessoas num único arquétipo intelectual − é o principal fomentador do desenvolvimento humano. O sucesso de qualquer país está vinculado ao nível de liberdade que cada cidadão tem para desenvolver-se em função de suas próprias características. Para cada indivíduo que se utilizará da liberdade para roubar ou matar, haverá muitos outros utilizando esta mesma liberdade para trabalhar, produzir, criar novos procedimentos e tecnologias e também para ajudar outras pessoas. O socialismo justifica seus métodos dizendo que é necessário coibir a violência e a ganância em suas origens − família e mercado −, porém, tais métodos acabam penalizando todos os indivíduos indiscriminadamente, muito antes da identificação dos “malfeitores”. A burocracia representa isso muito bem – o Estado impondo um conjunto de formalidades na esperança de impedir fraudes, o que acaba criando o ambiente perfeito para os fraudadores desenvolverem, junto a alguns agentes do próprio Estado, formas de se burlar tais formalidades. Ou seja: O Estado enxerga todos os cidadãos como picaretas – “as exceções que provem o contrário!”. Não por acaso, a burocracia é uma das principais características dos regimes mais à esquerda.

2° – Numa sociedade livre, a quase totalidade dos indivíduos tentará atingir seus objetivos por meio do trabalho. Quanto maiores as ambições de cada indivíduo, maior é seu esforço em realizá-las; e o conjunto dos esforços de outros indivíduos alimenta a competição, que aumenta a qualidade dos produtos e serviços oferecidos a todos. O operário que quiser um carro melhor ou uma casa maior que a de seus colegas terá que se esforçar mais ou demonstrar alguma capacidade especial para ganhar um salário melhor. Neste ambiente, até os preguiçosos e incapazes ganham, já que terão acesso a produtos e serviços melhores e mais baratos produzidos por outras pessoas, afinal, numa economia rica e dinâmica, todos são consumidores de todos.

Nas economias subjugadas aos caprichos socialistas, esforços tendem a não ser recompensados. A principal razão da ineficiência da agricultura cubana é a ausência de recompensas individuais, já que todos os esforços devem ser destinados ao “bem comum”, esta entidade abstrata, sempre descrita poeticamente pelos socialistas, cobrada com fervor nos discursos − desde que o “bem comum” absorva apenas os esforços dos outros.

3° – A variedade de estilos de vida resultantes de desejos especiais gera uma incontável gama de produtos e serviços que interagem com a economia de massa. Até pouco mais de um século atrás, o ato de se alimentar era uma questão de sobrevivência diária para a grande maioria da população. Escolher o que comer era privilégio dos ricos. Hoje, esta mesma parcela de pessoas escolhe, por prazer, o que almoçar ou jantar. Até mesmo um favelado brasileiro tem um cotidiano alimentar muito superior a de um cidadão de “classe média” do final do século XIX. Favelado faz churrasco!

Não foram as “boas intenções” socialistas que promoveram a diversificação e massificação da produção de alimentos no mundo. Foram as excentricidades e as ambições dos mais ricos; pessoas desejando alimentos melhores e diferentes − e, por que não, mais baratos −, financiaram o desenvolvimento do setor, cujas empresas enxergaram que poderiam aproveitar o know-how para produzir alimentos também para as camadas mais baixas da população. Hoje, quase não há diferença entre o que o Presidente dos Estados Unidos e o cidadão comum americano ou brasileiro comem. O mesmo podemos dizer a respeito de higiene pessoal, da saúde e do vestuário. Até o século XVIII, na Europa, “o que distinguia o homem de classe média do de classe baixa era o fato de o primeiro ter sapatos, e o segundo não”, como já disse Ludwig von Mises. Sapatos era um luxo, sua fabricação era voltada para atender os mais ricos, porém, os próprios fabricantes destes sapatos começaram a perceber que poderiam criar produtos voltados para as camadas mais baixas, principalmente depois que elas começaram a ter rendas maiores por conta da nova atividade econômica, a indústria. Imaginemos, então, o que teria acontecido se algum governo tivesse imposto que… “se todos não podem ter sapatos, ninguém os terá”.

Todo produto de luxo financia, direta ou indiretamente, o mercado popular. Um playboy, qualquer que seja suas excentricidades, gera mais benefícios públicos do que a maioria dos engajamentos sociais. Para atender aos caprichos de cada playboy, diversos profissionais especializados oferecem produtos e serviços especiais, recebendo remunerações especiais. Cada produto e serviço, por mais especial que seja, depende de uma gama de fornecedores que, de uma forma ou de outra, também atendem as massas.

Sem as excentricidades privadas, também não teríamos uma arte tão diversificada. Quem encomendaria quadros para embelezar a casa? Quem se disporia a produzir algo “diferente” para uma massa de clientes com os mesmos gostos e rendas? Ninguém. Novamente, nos basta dar uma olhada em Cuba, onde a produção cultural é riquíssima de coisas iguais, afinal, como diz o artigo 38 da constituição do país: “És libre la criación artística siempre que su contenido no sea contrario a la Revolución”.

4° – Se uma das funções da democracia é salvaguardar a liberdade das minorias, e se “a menor das minorias é o indivíduo”, como já disse Ayn Rand, toda e qualquer excentricidade deve ser respeitada. A excentricidade faz parte da alma do ser humano. Do mais rico ao mais miserável, todos têm as suas. O mendigo da esquina mantém consigo um ou outro objeto que achou na rua. Na maioria das vezes, algo sem valor ou função, mas para ele representa alguma coisa. Um automóvel de um milhão de dólares, por mais sem sentido que seja para muitas pessoas, para outras é algo desejável, e esse desejo movimenta toda uma cadeia de esforços individuais, distribuindo renda numa cascata de vasão espontânea e legítima.

“É difícil dizer o que teria sido do desenvolvimento econômico do Ocidente caso as coisas essenciais tivessem sido colocadas em primeiro lugar”, reflete Jouvenel, apontando para a realidade de que são desejos muitas vezes extravagantes que acabam alimentando uma gigantesca cadeia produtiva que, uma hora ou outra, beneficia até a pessoa mais miserável. A maioria dos produtos que abarrotam os supermercados e das tecnologias que tornam nossas vidas confortáveis têm suas origens na vaidade e na excentricidade de uma minoria de indivíduos.

Discriminar os mais ricos é um dos piores erros que uma sociedade pode cometer contra si mesmo. Em vez de rejeitá-los, devemos criar o ambiente para que eles se interessem em gastar suas fortunas consumindo nossos produtos e serviços, não os dos outros.

Jouvenel finaliza: “A história nos mostra que cada ampliação bem sucedida das oportunidades de consumo estava vinculada à distribuição desigual dos meios de consumir”.

26/03/2015

às 15:09 \ Cultura, Economia

O valor do amanhã: a cigarra triste e a formiga pobre

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“Eu acredito muito na sorte, e descubro que quanto mais duro trabalho, mais eu tenho dela.” (Thomas Jefferson)

Em seu livro O Valor do Amanhã, Eduardo Giannetti discorre sobre o tema das escolhas intertemporais de forma bastante objetiva e didática. O autor deixa claro que o fenômeno dos juros é inerente a toda e qualquer forma de troca em diferentes períodos no tempo, representando o prêmio da espera para o lado credor, ou o preço da impaciência na ponta devedora. Ou seja, os ganhos decorrentes da transferência de valores do presente para o futuro, ou os custos de antecipar valores do futuro para o presente. Nesse cenário, os juros monetários são apenas uma pequena fatia do conceito geral de juros.

O economista trata também da questão da miopia temporal, quando o indivíduo dá demasiada importância ao que está mais próximo no tempo, e seu espelho, a hipermetropia temporal, quando é atribuído um valor excessivo ao amanhã, em prejuízo das demandas correntes. De um lado, o sujeito que vive literalmente o carpe diem, de forma hedonista ou mesmo irresponsável, e do outro lado, o que adia tanto seu viver que o hoje vira um enorme vazio. Se o míope com freqüência é vítima do remorso, porque o futuro chega e cobra seu preço pelo passado despreocupado, o hipermétrope normalmente sofre com o arrependimento pelo desperdício de oportunidades perdidas com o excesso de zelo pelo amanhã. Como disse Schopenhauer: “Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados; é raro alguém manter com exatidão a justa medida”.

Giannetti inicia sua explanação sobre os juros pelo fator biológico, lembrando que a senescência é o valor pago pelo rigor da juventude. “A plenitude do corpo jovem se constrói às custas da tibieza do corpo velho”, como coloca o próprio autor. Há um claro trade-off implícito em cada escolha intertemporal que fazemos, entre “viver agora e pagar depois”, ou “plantar agora e colher depois”. Não podemos ter e comer o bolo ao mesmo tempo.

Animais e crianças costumam viver mais intensamente o momento, reagindo basicamente por instinto. Os desejos exigem pronto atendimento, e a busca de rápida satisfação fala mais alto que tudo. Ainda não aprenderam o valor da espera, e não possuem ferramentas racionais para avaliar se esta compensa ou não. A impaciência infantil é fruto da combinação da dificuldade de figurar mentalmente o amanhã e uma baixa capacidade de autocontrole, de resistir ao apelo de impulsos. Como resultante, há uma forte propensão a desfrutar o momento e descontar o amanhã. Infelizmente, são muitos os adultos que não conseguem também dominar tal impulsividade através da razão.

Retardar o consumo atual para poder investir na produtividade rende frutos no futuro. Os recursos não caem do céu, e faz-se mister uma escolha intertemporal entre menos agora, mais depois. Hoje mais que nunca, a preocupação com o amanhã deve ser enorme. Os nômades caçadores viviam o aqui-e-agora, ignorando a necessidade da previdência. Entretanto, quem nasce atualmente vive aproximadamente o dobro do que era comum antes da Revolução Industrial. O progresso da técnica tem aumentado de forma bastante acelerada a expectativa média de vida. O mundo necessita mais da racionalidade da formiga que da impulsividade da cigarra. A poupança de hoje é que permite o consumo maior de amanhã. Tal obviedade parece ignorada quando observamos a situação caótica dos sistemas de previdência social modernos. Talvez as pessoas não saibam que o governo não cria riqueza, e portanto não pode garantir a renda da aposentadoria futura sem a contrapartida da poupança atual. O conforto de amanhã exige um sacrifício hoje.

O filósofo Bentham dizia que “as crianças que comeram o bolo são inimigas naturais daquelas que ainda possuem o seu”. Isso é importante pois trata de um sentimento comum presente nos devedores irresponsáveis em relação aos credores: o ressentimento. Confessar o próprio erro é difícil e doloroso, assumir o vício da prodigalidade, o hábito de gastar mais do que ganha, exige força de vontade e integridade. Estes não querem abandonar a dolce vita, preferindo utilizar a poupança alheia antes que o produto de seu próprio e duro trabalho acumulado possa estar disponível. Extrapolando isso para todo um povo, utiliza-se a poupança externa para acelerar o consumo presente, e na hora de pagar a conta resta o rancor com os credores, como se estes fossem malvados. Como disse Meira Penna: “É muito mais fácil esbravejar contra o rico banqueiro, sobretudo quando é estrangeiro, do que apertar o cinto e ‘fazer economia’…”

Um dos problemas do curto horizonte temporal no Brasil, com baixa taxa de poupança, é o coletivismo. Trata-se de um ambiente social em que o futuro pessoal de cada indivíduo pouco depende dele mesmo, ou seja, depende apenas em pequena medida das escolhas que ele faz. É o moral hazard do nosso modelo previdenciário, sem contas individuais e independente da contribuição de cada um para a determinação do benefício futuro. Além disso, nosso grau de impaciência como nação é absurdamente elevado, devido às necessidades urgentes impostas pela miséria. Por fim, as oportunidades de investimento, prejudicadas pelo péssimo ambiente institucional, oferecem baixo valor para o uso de recursos que deixam de ser consumidos no presente, podendo assim ser deslocados para render frutos à frente. A confiabilidade da ordem jurídica aumenta a confiança no amanhã.

O somatório dessas características faz com que a sociedade brasileira tome emprestado do futuro, de forma irresponsável até. Desta forma, a dívida pública através do Estado beira um trilhão e meio de reais, e a taxa de poupança é absurdamente baixa, menor que 20% do PIB. O Brasil vive demasiadamente no presente, com seu governo inchado e assistencialista, sem a necessária poupança que se reverte em investimentos produtivos. Como uma criança, age por impulso, para atender os desejos do momento. Quer o bônus da prosperidade sem o ônus da poupança. Quer o crescimento sem o custo da espera, e quando o resultado não é inflação ou crise na balança de pagamentos, é juros altos.

O valor do amanhã continua baixo por aqui, como nos tempos indígenas. E quem tudo quer, nada tem. No afã de querer tanto o consumo maior no presente quanto o conforto da farta poupança no futuro, o país corre o risco de terminar sem nada: a cigarra triste e a formiga pobre.

Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

25/03/2015

às 16:50 \ Economia, História

Chega de ajuda! O assistencialismo ocidental fomenta a miséria africana

“O melhor lugar para achar uma mão auxiliadora é no final de seu braço.” (Provérbio Sueco)

Durante décadas, os países emergentes conviveram com bilhões em empréstimos e doações por parte de instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Infelizmente, tal ajuda se mostrou completamente ineficaz. As violentas crises não foram evitadas, muito pelo contrário. A causa do insucesso está no fato de que faltavam os incentivos adequados para as necessárias reformas estruturais desses países.

O caso da Zâmbia é típico do padrão ocorrido. As ajudas internacionais chegaram a representar um quarto do PIB do país, enquanto a inflação era de 40% ao ano. Países com três dígitos de inflação recebiam a mesma ajuda que países com um dígito. Não era o critério de sucesso das reformas que condicionava a ajuda. O resultado foi um contundente fracasso. Algo como metade dos programas do FMI trouxeram a inflação para baixo. Uma taxa de sucesso não diferente do lance de uma moeda!

Os casos se repetem. O Banco Mundial e o FMI deram para Côte d’Ivoire, ou Costa do Marfim, 18 empréstimos entre 1980 e 1994. Ainda assim, o país incorreu em déficit fiscal de 14% do PIB entre 1989 e 1993. Fazer o dever de casa não parecia uma condição necessária para ser ajudado. Não se trata de um caso isolado. O Paquistão recebeu 22 empréstimos entre 1970 e 1997. O déficit permaneceu estável em 7% do PIB durante este período, contrariando o acordo estabelecido. O mais espantoso de tudo talvez seja o fato de que não havia distinção entre países corruptos ou não. Não há como gerar um bom resultado emprestando dinheiro para um governo sabidamente corrupto, e no entanto foram vários os casos, incluindo Libéria, Haiti, Indonésia, Paraguai e Congo.

A ajuda, aparentemente, é determinada pelos interesses estratégicos dos doadores, não pelas escolhas políticas dos receptores. Isso explica o governo dos Estados Unidos ajudar tanto o Egito, como retribuição pelo acordo de paz assinado em Camp David, ou a França ajudar suas ex-colônias.

Os governos irresponsáveis que recebiam as doações e empréstimos sempre encontravam uma maneira de burlar os acordos travados. Para entregar alguns índices acordados, bastava modificar a forma de tomar emprestado do futuro, jogando a fatura para a frente. Assim, governos cortaram investimentos em infra-estrutura, condenando o potencial futuro, para mostrar melhores números no presente. Ou então garantiam empréstimos subsidiados para estatais deficitárias, adiando a conta a ser paga. Ou ainda, emitiam moeda para cobrir gastos correntes, gerando inflação. O ponto é que não existiam os corretos incentivos para as necessárias reformas de longo prazo.

Por isso o ciclo ajuda das agências internacionais, crise aguda, e nova ajuda, parecia se perpetuar. Doze países receberam 15 ou mais empréstimos do Banco Mundial e FMI durante o período de 1980 a 1994. A mediana do crescimento per capita nesses 12 países nesse período foi zero. As políticas que realmente garantem o crescimento sustentável, como maior abertura econômica e redução significativa dos gastos públicos, simplesmente não estavam presentes. Faltavam os incentivos para tanto.

Os incentivos para os burocratas e economistas que decidem o destino da ajuda são muitas vezes perversos e contrários aos reais interesses da população, tanto do país que empresta como da que recebe. Em primeiro lugar, os departamentos das instituições de ajuda costumam ser divididos por países ou regiões, e o orçamento do grupo é determinado pela magnitude dos recursos doados. Maiores orçamentos estão associados a maior prestígio, e garantem a renovação do alto orçamento no ano seguinte. Em segundo lugar, muitas vezes o país receptor já é reincidente, com dificuldades para honrar a dívida assumida anteriormente, e deixar o cliente declarar calote seria uma mancha no currículo, um atestado de fracasso. Logo, as instituições acabam renovando os empréstimos apenas para que os antigos sejam pagos. Do lado receptor, mais miséria significa mais ajuda. Os pobres tornam-se reféns da lógica dos acordos. Enfim, é burocrata de um lado, burocrata do outro, e no meio ficam os explorados, tanto os pagadores de impostos que sustentam as agências de ajuda como o povo das nações pobres, vítimas do abuso estatal. São os pobres dos países ricos, ajudando os ricos dos países pobres. *

Como o economista queniano James Shikwati chegou a declarar, “a África necessita é de uma chance para ser capaz de administrar e comercializar as próprias riquezas”. O economista pede o fim das ajudas internacionais. Na década de 80, a África Subsaariana recebeu 83 bilhões de dólares em auxílio. No mesmo período, o padrão de vida na região caiu 1,2% ao ano. Shikwati conclui: “A doação só tornou os países africanos mais dependentes de ajuda”. E como solução, o economista diz que “o caminho para o desenvolvimento é ter acesso livre a outros mercados e conseguir investimentos externos”.

Exatamente. Os países pobres precisam aprender a viver sem as esmolas, e a população terá que pressionar seus governos pelas reformas estruturais. A velha máxima de aprender a pescar em vez de ganhar um peixe. Caso contrário, a condição de babá e bebê irresponsável irá durar ad infinitum. Novas crises virão, fruto da irresponsabilidade dos governos gastadores dos países pobres. E mais ajuda será preciso. Precisa-se de reformas verdadeiras, que reduzam a intervenção e o tamanho do Estado na economia. Chega de esmolas! Chega de ajuda!

* Um autor que tratou de forma muito parecida do tema foi Lord Peter Thomas Bauer, no livro From Subsistence to Exchange and Other Essays. Bauer explica que os problemas já começam no uso do termo “ajuda”, o que confere um monopólio de compaixão aos defensores das doações internacionais contra seus críticos. Uma das conseqüências claras dessa “ajuda” é a promoção da politização da vida nos países receptores. A via política passa a ser mais relevante para o sucesso relativo que a via econômica. O critério é cruel também, já que não contribui em nada para a saída da miséria, uma vez que é justamente a miséria que garante mais ajuda. Bauer segue mostrando que a história é prova de que várias famílias, grupos, comunidades ou países saíram da miséria para a prosperidade sem doações e em curto espaço de tempo. Se a ajuda externa fosse indispensável para o avanço econômico, o mundo estaria na Idade da Pedra ainda, pois do ponto de vista do planeta, não há subsídio externo algum. O foco de Bauer está na conduta humana, já que o desemenho econômico depende de fatores culturais e pessoais, das atitudes e motivações das pessoas, das instituições políticas. A ajuda externa promove a dependência. Ela encoraja a idéia de que a emergência da miséria depende de fatores externos. Infelizmente, segundo Bauer, essa lógica encontra forte resistência nos interesses dos poderosos. As doações internacionais favorecem justamente esses à custa do povo.

 Texto presente em “Uma luz na escuridão”, minha coletânea de resenhas de 2008.

 

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