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União Européia

01/03/2015

às 19:00 \ Vasto Mundo

Anti-EUA, anti-imigrante, anti-União Europeia, estatizante: esta mulher pode ser presidente da França

(Foto: Joel Sajet/AFP)

De olho na candidatura em 2017, Marine Le Pen prega o nacionalismo de forma radical (Foto: Joel Sajet/AFP)

UNIDOS PELO NACIONALISMO

A aversão ao liberalismo e o antiamericanismo da mulher que pode se tornar a próxima presidente da França são a prova de que a direita e a esquerda se encontram nos extremos

Entrevista a Nathalia Watkins, de Estrasburgo, publicada em edição impressa de VEJA

Marion Anne Le Pen, chamada de Marine, é a favorita nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2017 na França, com 30% das intenções de voto. Advogada de 46 anos, ela comanda o partido Frente Nacional (FN), fundado por seu pai, Jean-Marie, em 1972. Marine despacha três dias por mês em seu escritório no Parlamento Europeu, do qual é deputada, em Estrasburgo, na França.

Na entrevista a VEJA, interrompida por baforadas em um cigarro eletrônico, ela se mostrou fortemente estatizante, antiamericana, protecionista e nacionalista. Embora situe no espectro de oposição à FN os políticos de esquerda (entre os quais os chavistas venezuelanos e os gregos do Syriza), ela não consegue esconder sua admiração por eles.

Podemos chamá-la de líder da extrema direita francesa?

A Frente Nacional não é um partido de extrema direita. Somos uma organização patriota, que preza o Estado-nação, o nacionalismo econômico, a independência diplomática em relação aos Estados Unidos e defende uma imigração controlada.

Na França, a direita e a esquerda desenvolveram uma mesma e frouxa política. São responsáveis pelos mesmos números elevados de imigração. Por isso, a divisão entre esquerda e direita aqui não existe. É uma miragem. A verdadeira separação é aquela entre os que defendem a nação, como nós, e os que, em benefício do comércio global, advogam o desaparecimento das nações, a abolição das fronteiras e o fim das identidades nacionais.

O atentado à redação do Charlie Hebdo, em Paris, fortaleceu o seu movimento?

Os atentados não tiveram vencedores. Só perdedores. O certo é que nós fomos os únicos que há muito tempo advertimos que tudo o que estava sendo feito no país só aumentava o poder do fundamentalismo islâmico e punha em risco nossa segurança interna.

A senhora é favorita nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de 2017. Qual seria sua primeira medida como presidente da França?

Devolver aos franceses seus direitos, sua soberania. Hoje, com a União Europeia (UE), nossos direitos foram retirados. Não controlamos nossas fronteiras. Nosso orçamento e nossas leis são inferiores àqueles impostos pelos tecnocratas europeus. Quero o poder para devolvê-lo ao povo. Para isso, pretendo organizar um referendo sobre a saída da UE, que é um modelo totalitário.

Que dados justificariam a saída da França da UE?

Um dos continentes mais ricos do mundo está falido. Isso começou com o euro. O desemprego e a pobreza explodiram. Nossas economias estão em crise. As políticas de austeridade criaram um sofrimento imenso. Hoje a UE é sinônimo de guerra. O conflito na Ucrânia, as disputas em Kosovo, a luta econômica que coloca os povos uns contra os outros e elimina direitos sociais. Isso criou o que chamo de “dumping social”, que agora se torna também ambiental e monetário.

O que é exatamente o “dumping social”?

É a eliminação dos direitos sociais locais que exacerba a concorrência entre os trabalhadores, produzindo um efeito do qual apenas algumas multinacionais se aproveitam.

Não foi justamente o fim dos nacionalismos e do protecionismo econômico, dois pilares da UE, que garantiu tantas décadas de paz na Europa?

Isso é uma grande mentira. Foi a paz que permitiu a construção da UE, e não o contrário.

Então o que produziu a paz, em sua opinião?

Foram a vontade das nações e o aprendizado com os erros das guerras do passado que evitaram novos conflitos. Na Ucrânia, o que está acontecendo hoje é resultado da influência americana. Para defenderem seus interesses, os Estados Unidos mostrara­m-se dispostos a lançar uma guerra no seio da Europa depois de terem feito o mesmo por todo o Oriente Médio.

O que a senhora acha da coalizão internacional, liderada pelos Estados Unidos, para combater o Estado Islâmico (Isis)?

A França está indo atrás dos americanos, que estão deslegitimados naquela parte do mundo. Eles são responsáveis pelo desequilíbrio da região, pela ascensão do Isis e do fundamentalismo islâmico. Quero a França com uma diplomacia independente. Antes, tínhamos reputação e influência. Isso foi perdido. Estamos submissos à diplomacia americana. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/01/2015

às 16:15 \ Vasto Mundo

Novo governo de extrema esquerda na Grécia descarta pagamento de toda a dívida

O líder do partido esquerdista Syriza, Alexis Tsipras (Foto: John Kolesidis/Reuters)

O líder do partido esquerdista Syriza, Alexis Tsipras: prioridade do governo é a renegociação da dívida grega (Foto: John Kolesidis/Reuters)

Segundo porta-voz do partido vencedor das eleições no domingo, a Syriza, credores devem estar dispostos a negociar. A dívida do país soma 240 bilhões de euros

De VEJA.com

O principal porta-voz da equipe econômica da Syriza, o partido vencedor das eleições na Grécia neste domingo, disse nesta terça-feira à rede de notícias BBC que “é pouco realista” esperar que a Grécia pague toda a sua dívida.

Segundo Euclid Tsakalotos, os credores da União Europeia (UE) devem estar dispostos a negociar os débitos com o país. “Ninguém acredita que a dívida da Grécia seja sustentável”, declarou o representante da coalizão de esquerda.

Uma das prioridades do novo governo, cujo primeiro-ministro agora é Alexis Tsipras, é renegociar com a UE, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) uma reestruturação da dívida do Estado grego, que chega a 240 bilhões de euros. “Não conheci nenhum economista que honestamente diga que a Grécia pagará toda essa dívida. Não é possível”, afirmou Tsakalotos em entrevista à emissora britânica.

Após as eleições de domingo, os líderes da Coalizão de Esquerda Radical (Syriza) estão tentando um acordo com o partido de direita nacionalista Gregos Independentes para a formação de um novo governo. Para Tsakalotos, assim como seus pares do país, os líderes europeus também devem estar dispostos a trabalhar com a Syriza.

Leiam mais: Tsipras confirma aliança com nacionalistas para governar
Líder antiausteridade vence na Grécia e preocupa Europa

“Vai ser uma Europa muito peculiar e perigosa se (os líderes) indicarem que, após um voto democrático, não estão interessados em conversar com um novo governo”, advertiu. Ele disse ainda que se a Grécia for retirada da zona do euro, o bloco econômico será derrubado, episódio que classificou de “seu pior pesadelo”.

“Dissemos desde o princípio que a zona do euro está em perigo, mas não pela Syriza, e sim pelas políticas de austeridade”, ponderou. Apesar disso, ele assegurou que o novo governo está disposto a cooperar e a renegociar “uma solução justa, viável e de benefício mútuo”.

O partido de extrema esquerda Syriza venceu as eleições legislativas da Grécia no domingo com uma plataforma contrária ao plano de austeridade assumido pelo país anos atrás em troca de auxílio financeiro para pagar as suas dívidas. A vitória do grupo que rejeita as exigências da troika de credores — UE, BCE e FMI — coloca em risco a permanência da Grécia na zona do euro e traz ainda mais instabilidade para o bloco.

No Twitter, o premiê britânico David Cameron escreveu que o resultado “vai aumentar a incerteza econômica na Europa”.

Na segunda-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, disse que a Grécia tem que respeitar as regras da zona do euro e não pode exigir tratamento especial para sua dívida.

Na mesma linha, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, reforçaram o compromisso que a Grécia deve manter junto aos credores internacionais. A dívida da Grécia alcançou 117% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2014, o que significa, em dados concretos, que cada grego tem uma dívida externa de 29.700 euros a pagar.

26/01/2015

às 15:15 \ Vasto Mundo

Líder de extrema esquerda vence na Grécia e preocupa Europa

Alexis Tsipras, líder do partido de extrema esquerda da Grécia: contrário aos resgates financeiros internacionais (Foto: Louisa Gouliamakis/AFP)

Alexis Tsipras, líder do partido de extrema esquerda da Grécia: busca por uma nova solução para a dívida do país, sem medidas de austeridade (Foto: Louisa Gouliamakis/AFP)

Triunfo do partido liderado por Alexis Tsipras coloca em risco a permanência do país na zona do euro; Syriza conquistou 149 das 300 cadeiras do Parlamento

De VEJA.com

O partido de extrema esquerda Syriza venceu as eleições legislativas da Grécia neste domingo com uma plataforma contrária ao plano de austeridade assumido pelo país em troca de auxílio financeiro para pagar as suas dívidas.

A vitória do grupo que rejeita as exigências da troika de credores — União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) — coloca em risco a permanência da Grécia na zona do euro e traz ainda mais instabilidade para o bloco. No Twitter, o premiê britânico David Cameron escreveu que o resultado “vai aumentar a incerteza econômica na Europa”.

Leia mais:
Premiê grego reconhece vitória de partido de esquerda
Partidos anti-UE se destacam nas eleições europeias

Discursando diante de uma multidão de seguidores em Atenas, o líder do partido Alexis Tsipras afirmou que a troika é “coisa do passado” e que, com a vitória, a Grécia “deixa a austeridade após cinco anos de humilhação”. Tsipras acrescentou que pretende negociar “uma nova solução, viável” para a dívida grega.

Com 36% dos votos, o Syriza conquistou 149 das 300 cadeiras do Parlamento, apenas duas a menos do que a maioria absoluta – que poderá ser alcançada com alianças com outros partidos. A legenda de centro-direita Nova Democracia, do atual premiê Antonis Samaras, teve 27% dos votos e obteve 76 cadeiras.

O Syriza promete renegociar a dívida do país, que soma 240 bilhões de euros (720 bilhões de reais), e afirma que vai reverter muitas das reformas exigidas pelos credores internacionais desde 2010. Tsipras declarou que não se considera vinculado às exigências da troika que, em troca de ajuda financeira, impôs um plano de austeridade econômica à Grécia. 

Durante a campanha, ele prometeu aumentar o salário mínimo, reduzir impostos para os mais pobres e negociar a dívida externa da Grécia. Na Alemanha, o presidente do Banco Central local pediu ao novo governo grego que “não faça promessas que não pode cumprir nem que o país não possa pagar”.

As promessas de acabar com o período de austeridade no país atraíram muitos eleitores gregos, descontentes com a deterioração do padrão de vida e aumento dos impostos. A retórica contra os resgates internacionais, no entanto, renova dúvidas de investidores sobre se a Grécia será capaz de sair de sua crise financeira.

Autoridades europeias temem que, com a vitória do Syriza, o país volte a ser o epicentro de uma crise no continente. Nesta segunda-feira, em Bruxelas, os ministros do Eurogrupo – os dezenove países que integram o euro – vão se reunir para analisar o resultado da eleição grega.

(Com agências EFE e AFP)

04/01/2015

às 17:30 \ Vasto Mundo

Rússia: crise econômica e outros problemas graves colocam em xeque a imagem oficial de Putin como “vencedor”

Putin entra sob aplausos nuçm dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Putin entra sob aplausos num dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Por Tamara Fisch

Já há alguns anos que os cidadãos russos perceberam o surgimento de um culto ao redor da personalidade de Vladimir Putin. Presidente pela segunda vez, Putin está efetivamente no poder desde 2000.

Após dois mandatos, foi forçado a abandonar o posto por mandamento da Constituição, mas elegeu seu discípulo e primeiro-ministro Dmitri Medvedev para tapar o buraco de quatro anos até que pudesse voltar ao Kremlin.

Sem erro: em 2012, Putin estava de novo ao leme do Kremlin – e agora para um mandato não de quatro anos, mas de seis, providenciado pelo amigo junto ao dócil Parlamento, com direito a uma nova reeleição em 2018.

O início de um terceiro mandato gerou controvérsias, porque estava clara mesmo aos russos submetidos a um bombardeio de propaganda pró-Putin e carentes de uma imprensa independente a estratégia do presidente de se perpetuar no poder.

Uma pesquisa de opinião feita em outubro de 2011, com o ex-agente da KGB já eleito e a alguns meses de assumir a presidência novamente, revelou que um quarto dos russos acreditava na existência de um culto em torno de Putin.

Outros 30% viam a possibilidade do surgimento de tal adoração. Os números dizem muito quando comparados aos de um levantamento de sete anos antes, 2004, quando Putin era presidente, segundo o qual apenas 10% dos entrevistados percebiam um culto à personalidade.

O problema foi o que aconteceu depois. Na presidência (e fora dela), Putin tomou o controle dos meios de comunicação e propagou sua imagem de líder, e seus seguidores tornaram-se mais enfáticos na pregação de uma figura que teria salvo a Rússia da anarquia dos anos 90, com o colapso da União Soviética, e restaurado a união e o orgulho ao país.

O resultado foi claro. Em 2004, 10%; em 2011, 25%; finalmente, em 2014, sonoros 50% da população russa acreditam que já existe ou pode vir a existir um culto à personalidade do presidente.

Não é para menos. Desde o início do ano, com a anexação da região da Crimeia, pertencente à vizinha Ucrânia, e o consequente isolamento da Rússia no cenário mundial, a imagem do país está cada vez mais deteriorada, mas as taxas de aprovação de Putin parecem se alimentar disso.

No início de 2014, ele ostentava uma quantidade historicamente baixa de apoiadores, para os padrões de uma Rússia desprovida de liberdades públicas e com a população metralhada por propaganda oficial – pouco acima de 60%.

Em outubro, mesmo com o conflito na Ucrânia, a economia estagnada e o clima de Guerra Fria com o Ocidente, o presidente russo atingiu impressionantes 88% de aprovação. Ironicamente, a anexação da Crimeia, internacionalmente repudiada, é um dos feitos de Putin que mais contribuem para sua popularidade atual.

Os números levantam a questão: eliminado do pais o comunismo, que cultuou até extremos de delírio personalidades como as de Vladimir Lenin e, principalmente, de Josef Stálin — prática que logo se espalharia para quase todo o universo comunista –, o endeusamento oficial do líder está voltando a plena carga na Rússia?

Parece que sim. Há alguns meses, quando Putin fez 62 anos, Moscou praticamente parou devido às comemorações. Pessoas na Praça Vermelha enfrentavam filas de até duas horas para comprar camisetas estampadas com o rosto do presidente cada vez mais vitalício, que não estava nem ali para receber homenagens – ele passou seu aniversário na Sibéria, a mais de 300 quilômetros da Rússia urbanizada.

Na capital, uma mostra chamada “Os doze trabalhos de Putin” – sim, equiparando o presidente ao semideus Hércules, da mitologia grega – foi montada em comemoração à data.

Existe até uma proposta de transformar o dia 7 de outubro, aniversário de Putin, em um feriado nacional. Nada que um mero mortal mereça.

Em seu aniversário, o presidente russo foi homenageado com uma comparação a Hércules (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

O culto à personalidade: no aniversário o presidente russo foi comparado a Hércules, o semideus da mitologia grega (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

A ascensão do ex-chefe da KGB se deveu em grande parte à sua imagem construída de líder jovem, para os padrões da gerontocracia russa, e determinado. Tudo que corre bem no país foi e é atribuído a ele pessoalmente, mas o contrário não ocorre.

O presidente é sempre apresentado como um campeão, um vencedor, até fisicamente um forte, apesar de sua pouca altura – não se poupam sequer imagens suas se exibindo em lutas marciais, andando a cavalo sem camisa, a bordo de jatos de combate. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

22/11/2014

às 12:00 \ Disseram

Aconteça o que acontecer

“Simplesmente ficar aqui e dizer ‘Eu vou ficar (…) aconteça o que acontecer’ não vai funcionar.”

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ao defender a renegociação dos laços entre a Grã-Bretanha e a União Europeia

17/09/2014

às 20:15 \ Vasto Mundo

CAIO BLINDER: Escoceses, naw, naw, naw!

(Foto: Reprodução/VEJA.com)

O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, investe incessantemente na campanha pelo “sim” à independência (Foto: Reprodução/VEJA.com)

Post publicado no blog de Caio Blinder, em VEJA.com

Há um ano, eu não acordava pensando na Ucrânia (com todo respeito por meus avós que nasceram naquelas bandas). Agora, tenho pesadelos diários (geopolíticos) por causa do belicismo de Vladimir Putin. Esta semana até a Suécia, aquele paraíso nórdico da tolerância, me deixou sobressaltado devido ao avanço da extrema-direita com raízes neonazistas nas eleições de domingo. E ainda por cima tem este referendo sobre independência na Escócia na quinta-feira para nos assustar.

É para assustar mesmo. O referendo dá uma medida de convulsões na velha Europa. Por que desfazer uma união tão bem sucedida e civilizada de 307 anos entre Inglaterra e Escócia, no casamento dentro da Grã-Bretanha?

Pelas pesquisas, metade dos escoceses não pensam assim e acham que chegou a hora do divórcio, que, no final das contas, não será tão amigável, tão fleumaticamente britânico.  Hora de dizer “sim” pela independência? Pelas pesquisas, o resultado de quinta-feira vai ser no sufoco, embora haja alertas de que os números finais podem enganar pela margem mais folgada, a favor ou contra.

Já li tantas teorias que a crise no casamento é culpa do tédio, da arrogância inglesa e do desejo de aventura dos escoceses (que tiveram esta tradição na expansão do império britânico). Outros fatores: nacionalismos e tribalismo estão em alta.

Há também uma explicação ideológica. Os escoceses estão à esquerda dos ingleses e não gostam do governo conservador em Londres (no Parlamento britânico, dos 59 deputados escoceses, apenas um é conservador).

No entanto, nada disso me convence muito, embora haja uma dose de cada explicação no drink. A Escócia não é colônia do império e preserva sua identidade nacional dentro do Reino Unido. Pelas contas, já foram onze primeiros-ministros escoceses a serviço de sua majestade. O ex-primeiro-ministro trabalhista (e escocês) Gordon Brown se tornou figura indispensável e infatigável na campanha pelo “não” no referendo.

Houve, aliás, muito descaso na campanha do “não” e agora é este desespero para recuperar o tempo perdido. Semanas atrás, parecia conversa de bêbado achar que o “sim” venceria o referendo. Agora, é uma campanha movida pelo medo, com o objetivo de aterrorizar os escoceses sobre o preço que irão pagar pelo divórcio.

Será um acerto litigioso sobre moeda, dívida, receitas, petróleo no mar do Norte e adesão à União Europeia. A retórica é apocalíptica: será o fim da Escócia, o fim da Grã-Bretanha, o fim da União Europeia. Haverá o efeito cascata de movimentos separatistas na Espanha, Itália e Bélgica. Meu Deus, até no Texas.

Alguns têm medo que esta campanha de medo irrite os teimosos escoceses e muitos decidam votar aye de pirraça. É verdade que este terror eleitoral da campanha do “better together”, melhor juntos, é acompanhada de promessas de mais poderes e controle de recursos pelo  Parlamento escocês, conforme o documento firmado na terça-feira pelo primeiro-ministro conservador David Cameron e pelos líderes trabalhista, Ed Miliband, e liberal democrata, Nick Clegg.

Eu reitero minha aposta. Para o Instituto Blinder & Blainder, este esforço que mescla terror e ternura irá funcionar a favor do naw na quinta-feira.

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17/09/2014

às 19:30 \ Vasto Mundo

Na véspera do referendo sobre a separação da Escócia do Reino Unido, o nacionalismo — e o contexto que levou à consulta

(Foto: Dylan Martinez/Reuters)

Véspera do referendo: “Uma oportunidade de usar nossa riqueza para a Escócia” contra “Ame a Escócia, vote não” (Foto: Dylan Martinez/Reuters)

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi, afirma membro da Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha

Artigo de Robert Skidelsky* publicado em VEJA.com

Como acredito que os escoceses são sensatos, penso que irão votar “não” para a independência esta semana. Mas, seja qual for o rumo que tome o pleito, a ascensão espetacular do nacionalismo, na Escócia e em outros países da Europa, é um sintoma de uma cena política doente.

Muitos agora estão convencidos de que a maneira como lidamos com as nossas questões atualmente não merece fidelidade inquestionável; que o sistema político encerrou o debate sério sobre alternativas econômicas e sociais; que os bancos e as oligarquias governam; e que a democracia é uma farsa. O nacionalismo promete uma fuga da disciplina de alternativas “sensatas” que no fim provam não oferecer alternativa alguma.

Os nacionalistas podem ser divididos em dois grupos principais: aqueles que genuinamente acreditam que a independência providenciará a saída de um sistema político bloqueado, e aqueles que a usam como ameaça para forçar concessões dos poderes estabelecidos. De qualquer forma, políticos nacionalistas aproveitam a enorme vantagem de não precisarem de um programa prático: tudo que é bom virá com a soberania.

Leiam também:
Celebridades opinam sobre a independência da Escócia
Para evitar separação, Grã-Bretanha promete mais recursos à Escócia

Elizabeth II pede que escoceses pensem ‘cuidadosamente’ sobre voto de independência

Embora políticas nacionalistas tenham sido suprimidas depois da II Guerra Mundial pela prosperidade econômica e pelas lembranças dos horrores do pré-guerra, a Europa oferece solo fértil para a sua volta. E não só pelo mal-estar econômico prolongado, mas porque praticamente todas as nações-estados da Europa contêm minorias étnicas, religiosas ou linguísticas geograficamente concentradas.

Além disso, a incorporação desses Estados à União Europeia – uma espécie de império voluntário – desafia a lealdade dos seus cidadãos. Consequentemente, os nacionalistas podem esperar tanto que a Europa os proteja dos seus próprios Estados, ou que seus Estados os protejam do império europeu.

É por isso que a Inglaterra deu origem simultaneamente dois nacionalismos. O Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), liderado pelo populista Nigel Farage, espera que Londres proteja a independência britânica da burocracia da UE. O Partido Nacional Escocês (SNP), liderado pelo astuto Alex Salmond, espera que Bruxelas proteja a Escócia do Parlamento “imperial” em Westmister. Dadas as condições adequadas, o nacionalismo sempre irá descobrir um “outro” contra o qual se definir.

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi. A Escócia convocou o seu primeiro Parlamento regional em 1999, dando ao SNP uma plataforma política em Edimburgo de onde fazer uma campanha pela independência. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/08/2014

às 14:40 \ Vasto Mundo

INDEPENDÊNCIA DA ESCÓCIA: A um mês do referendo, metade dos escoceses não querem a separação. Conheçam os argumentos

(Foto: ALAMY)

Nas pesquisas mais recentes, pouco mais de metade dos escoceses (cuja bandeira é a azul com a cruz diagonal branca) se mostraram favoráveis a permanecer no Reino Unido, que tem uma das bandeiras mais conhecidas do mundo (Foto: ALAMY)

Por Tamara Fisch

A data do referendo para a independência da Escócia em relação ao Reino Unido se aproxima. Daqui a um mês, no dia 18 de setembro, os escoceses votarão a favor ou contra a separação, e a disputa continua acirrada.

Para os 51% dos cidadãos escoceses que não querem a independência — o percentual dos que gostaria da separação e dos ainda indecisos varia conforme o levantamento –, há argumentos em abundância para apoiar sua opinião. A campanha Better Together, criada por escoceses que querem continuar parte do Reino Unido, listou alguns:

Parlamento escocês: com uma representação forte na legislação do Reino Unido, a Escócia tem autonomia em seu governo e, ao mesmo tempo, tem garantida a participação na forte política do Reino Unido, o que garante segurança.

Moeda: o governo britânico resiste à proposta dos nacionalistas escoceses de, em caso de separação, continuar utilizando a libra esterlina como moeda. Essa incerteza sobre algo tão vital assombra a vida de muitos dos cidadãos da Escócia.

Turbulência local e internacional: a Better Together destaca que a situação está instável tanto no plano nacional quanto no cenário global, e que a Escócia com certeza se fortalecerá pela união, que ajudará na criação de empregos e no crescimento econômico. A alternativa da independência só garante incerteza e barreiras comerciais.

Mercado: o maior parceiro comercial da Escócia é o resto do Reino Unido, cujo mercado é um dos maiores e mais bem sucedidos do mundo, além de ter a moeda mais valiosa.

Segurança: as Forças Armadas do Reino Unido são extremamente renomadas e oferecem sua proteção à Escócia. Além disso, como parte da união, a Escócia tem papel significativo no Conselho de Segurança da ONU, na OTAN e na União Europeia. Deixar o Reino Unido e continuar sob a proteção — inclusive nuclear — da OTAN representaria começar do zero a montagem de Forças Armadas próprias, a um custo inestimável.

Diversidade: ao contribuir para a grande variedade de nacionalidades, etnias e culturas que habitam o Reino Unido, a Escócia garante o enriquecimento de sua sociedade

Coabitação: com a quantidade enorme de ingleses morando na Escócia, de escoceses morando na Inglaterra e de outras diversas combinações, o Reino Unido apresenta uma interdependência muito forte entre as quatro nações que o compõem — além de Inglaterra e Escócia, o País de Gales e o Ulster (Irlanda do Norte) –, algo que cria uma identidade generalizada no lugar de definições rígidas baseadas em nacionalidade

A campanha também destaca como a colaboração entre os países membros da união resultou em instituições importantíssimas, como o respeitadíssimo complexo de comunicações (TV, rádio e internet) BBC e o Banco da Inglaterra, ambos fundados por escoceses, e o Sistema Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), criado por um inglês.

Outro ponto é a responsabilidade que a Escócia cede ao governo central. Como um país pequeno, de apenas 5 milhões de habitantes, para a Escócia é mais interessante deixar temas de maior importância, como defesa e impostos, para quem está mais equipado para lidar com eles — neste caso, o Reino Unido.

Uma dúvida muito válida em relação à independência é a de muitos indivíduos que não entendem como a separação beneficiaria a eles próprios ou à Escócia. Por que consertar o que não está quebrado?

Nessa mesma linha de pensamento, existe um certo receio em relação ao futuro nacional caso ocorra a separação. Não se sabe exatamente o que mudaria no dia a dia, mas a ideia de alterações radicais já é suficiente para assustar quem está em cima do muro.

Por mais que haja razões e razões para permanecer junto ao Reino Unido, os escoceses têm tantos motivos quanto para escolher se separar. A questão é: qual dos lados juntará mais seguidores no próximo mês?

07/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

NÚMEROS DO PAÍS DA “GERENTONA”: Brasil gasta mais em juros da dívida pública do que a desgraçada Grécia

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas:   (Foto: AP)

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas: (Foto: AP)

Sabem a Grécia, país que desde 2011 enfrenta brutal crise econômica, país que quebrou e que, para começar a se levantar, precisou do socorro da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI no valor de 110 bilhões de euros (algo como 335 bilhões de reais) — em troca de brutais medidas de arrocho que incluíram até uma redução generalizada de salários?

Pois bem, amigos do blog, endividada até a raiz dos cabelos, com crescimento econômico perto de zero, número recorde de desemprego e outros problemas colossais, a Grécia paga percentualmente MENOS juros do que o Brasil por sua dívida pública (próxima a 1 trilhão de reais): 4% anuais de seu Produto Interno Bruto (PIB), contra 5% do Brasil.

Será que Dilma exibirá esses números na campanha eleitoral como parte de seu “legado”?

27/07/2014

às 22:30 \ Vasto Mundo

No grupo de nações separatistas que existem hoje, a Escócia lidera em probabilidade de independência. O mundo ficará sabendo dia 18 de setembro

(Foto: Ivon Bartholomew)

Manifestações: em setembro do ano passado, milhares de escoceses foram às ruas exigir a independência do Reino Unido (Foto: Ivon Bartholomew)

Publicado originalmente a 25 de julho de 2014, às 14 horas

Por Tamara Fisch

Entre os mais barulhentos casos de separatismo da atualidade, um está próximo de atingir seu objetivo. Não se trata da Catalunha, na Espanha, que realizará um plebiscito informal — não previsto na Constituição e sem valor legal– a 9 de novembro. Tampouco do País Basco, em que há forças políticas há décadas defendendo a separação da Espanha e se declarando “uma nação sem Estado”, ou da Córsega, na França, onde movimento nesse sentido vem arrefecendo.

Estamos falando da Escócia, nação de 71 mil quilômetros quadrados e 5,3 milhões de habitantes que ocupa o norte da ilha da Grã-Bretanha. Em uma recente pesquisa de opinião realizada na Escócia, foi registrado o maior número de pessoas favoráveis a uma independência em relação ao Reino Unido desde que a questão começou a ser debatida mais seriamente, no final dos anos 1970. Em abril, 48% da população queriam a separação, mas a maioria — 52% — não.

O Partido Nacional Escocês, majoritário no Parlamento local, brigou duramente para que fosse realizado um referendo sobre a obtenção da independência total. Deu certo. Após prolongadas negociações entre o governo local escocês e o governo central, em Londres, regras foram estabelecidas para a consulta e a votação  marcada para o dia 18 de setembro.

O governo escocês, liderado pelo PNE, diz que essa é uma “chance única em uma geração”.

Desde 1999, quando o governo britânico aceitou o estabelecimento de um legislativo autônomo na Escócia, o país passou a ter uma grande série de temas a seu cuidado. Ficaram com o governo escocês questões envolvendo educação, saúde, crime, justiça, assuntos domésticos e desenvolvimento econômico, entre outros. Assuntos como relações internacionais, defesa, impostos, orçamento, imigração e energia nuclear continuam sob o comando do governo central, em Londres.

As maiores dúvidas em relação ao funcionamento de uma Escócia independente têm a ver com a economia.

A moeda, por exemplo. O Reino Unido decidiu não permitir que o país, nesse caso, continuasse a utilizar a libra esterlina, embora na prática nada impeça que o uso possa ser feito de forma não oficial.

Também é questionado se a Escócia seria forçada a adotar o euro caso se juntasse à União Europeia. Em teoria, a adoção da moeda comum é voluntária, mas é uma exigência do bloco que cada novo membro tenha um banco central, de forma a contribuir para o grupo em caso de necessidade, e a Escócia não poderia sediar bancos caso não tivesse uma moeda oficial. Em suma, ou o país independente poderia adotar o euro, ou teria de criar uma moeda própria, o que é absurdamente menos provável.

Outra questão é o próprio ingresso na União Europeia. A Escócia considera essenciais os benefícios trazidos pelo, mas nada está garantido, já que a nação, descolada do Reino Unido, teria de se candidatar ao título de membro como qualquer outro país.

O presidente da Comissão Europeia, João Manuel Barroso, já disse ser “extremamente difícil, se não impossível” que uma Escócia independente se filie à União Europeia, porque conseguir a obrigatória aprovação de todos os países membros seria um grande desafio para uma nação vinda de outra já pertencente ao bloco. O ingresso da Escócia certamente serviria de estímulo a nacionalismos incômodos para governos como os da Espanha (catalães e bascos), da França (bascos e corsos) ou da Itália (movimentos independentistas no norte).

Quanto à economia nacional, o governo escocês diz que a independência do Reino Unido apenas favoreceria a situação. O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, afirmou que, se a economia escocesa fosse independente, 8 bilhões de libras (cerca de 30 bilhões de reais) poderiam ter sido poupadas nos últimos cinco anos.

Há uma pesquisa, no entanto, que garante que o déficit orçamentário da Escócia é pior que o do resto do Reino Unido. O Instituto de Estudos Fiscais, órgão responsável pelo estudo, alerta que o governo escocês deve planejar a independência tomando cuidado com o otimismo exagerado.

Além da questão econômica, discute-se a crucial questão da defesa escocesa no caso de uma separação do Reino Unido. O PNE diz que montaria um novo sistema em cima das bases militares existentes — uma aérea e uma naval —, o que o secretário da Defesa britânico, Phillip Hammond, chama de “ridículo”, por insuficiente. O país independente não disporia da proteção da OTAN, a aliança militar ocidental, a não ser que decidisse aderir ao tratado que a formou — o que implicaria, entre outros pontos, em contribuir financeiramente e, em casos pontuais, com contingentes e equipamentos militares para a organização.

A Escócia faz parte do Reino Unido desde 1707, quando foi assinado o Ato da União, sob o reinado de Ana (rainha entre 1702 e 1714). Mesmo na época, muitos escoceses não aprovaram a decisão de juntar os países.

(Foto: PA)

Sobre a independência, o país ainda está dividido entre apoiadores, indecisos e opositores (Foto: PA)

Hoje, há mais integração do que parece. O próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, por exemplo, é de família escocesa e faz campanha para que a Escócia permaneça na união. “Estas ilhas realmente significam algo mais do que a soma de nossas partes, elas representam ideais maiores, causas mais nobres, valores melhores”, declarou Cameron.

Na lista de primeiros-ministros do Reino Unido desde 1707, nada menos do que onze foram escoceses — inclusive os dois antecessores de Cameron, Tony Blair (1997-2007) e Gordon Brown (2007-2010).

Várias celebridades adotaram a causa de ambos os lados. A escritora J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, recentemente doou um milhão de libras para a campanha “Better Together” (Melhor Juntos), que apoia a unidade. Nascida na Inglaterra, Rowling é casada com um escocês e mora no país há muitos anos.

Outros artistas que defendem que a Escócia permaneça no Reino Unido são o cantor David Bowie, o ator Mike Myers e Alex Ferguson, legendário ex-treinador por 25 anos e hoje dirigente do Manchester United. Na direção oposta, os atores Sean Connery e Brian Cox apoiam fervorosamente a independência.

Nos últimos meses, têm sido feitas comparações entre o referendo ilegal realizado na Crimeia e o que deve ocorrer este ano na Escócia. A associação, no entanto, não é minimamente apropriada, já que a votação na Ucrânia foi inconstitucional e não ofereceu uma opção real de dizer “não” à anexação à Rússia. Sem contar que em nenhum dos dois países se pode dizer que haja uma democracia remotamente semelhante à britânica.

O referendo escocês é algo exigido por uma parcela significativa da população e apoiado pelo partido no poder, além de oferecer dois caminhos claros: permanecer integrante do Reino Unido ou se separar por completo.

É difícil dizer o que acontecerá em 18 de setembro. Os números estão próximos demais para determinar o resultado provável, então há especulações sobre se haverá algum tipo de mudança mesmo caso a Escócia decida permanecer no Reino Unido, pois terá ficado claro que parte do eleitorado não desejava isso.

Uma pesquisa do site What Scotland Thinks (O Que a Escócia Pensa) mostrou que, em 11 de julho, 63% dos escoceses achavam que, diante desse resultado, o parlamento nacional deve se tornar responsável também por decisões a respeito de impostos e benefícios sociais.

Uma pesquisa de opinião do mesmo site mostrou que, no momento, a maior parte dos questionados prefere que a Escócia mantenha o status quo — 45%, contra 34% que querem a independência.

Com a flutuação constante dos números, resta apenas esperar. No entanto, uma coisa parece evidente: o referendo, para um ou outro lado, não deixará para trás uma Escócia igual à de antes.

 

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