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União Européia

09/05/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

Ora, ora, quem diria: a Itália, apresentada muitas vezes como sinal de bagunça e desgoverno, dá exemplo na União Europeia

Ora, ora, ora, quem diria?

Não sei se os amigos do blog prestaram atenção aos dados finalmente consolidados de 2012 sobre a situação das finanças dos países europeus – brutalmente afetados pela crise de 2008 –, a cargo do Eurostat, o organismo da União Europeia responsável por todos os dados oficiais.

Vou ajuda-los.

Há ali surpresas espantosas. Quem diria, por exemplo, que a desgraçada, estraçalhada, humilhada Grécia, com déficit público equivalente a 10% do PIB, estivesse melhor do que a Espanha, com assustadores 10,6% — o maior entre os 27 países-membros da União Europeia?

Sabem o poderoso Reino Unido, orgulhosa sexta maior economia do mundo?

Pois bem amigos, com 6,3% do PIB de déficit público, o país governado pelo primeiro-ministro David Cameron tem resultado i-gual-zinho ao de… Chipre, o pequeno país-ilha de 1 milhão de habitantes cujos bancos precisaram ser socorridos pela União Europeia para não levar a economia local para ao buraco, espalhando efeitos até para a Rússia.

A lista de surpresas é longa – e inclui, por exemplo, a Polônia ex-comunista (déficit de 3,9% do PIB) bem melhor do que a França eterna (4,8%).

A maior de todas, porém, vem da Itália: o país sem governo estável e até sem presidente da República até há poucos dia, agora pilotado pelo jovem primeiro-ministro Enrico Letta à frente de uma complicada e heterogênea coligação, frequentemente citado como sinônimo de desgoverno e bagunça apresenta o MELHOR resultados entre os 17 países cujos dados o Eurostat divulgou: déficit de 3% do PIB, rigorosamente dentro das normas da União Europeia.

Sinal de competência do governo de técnicos do primeiro-ministro Mario Monti, responsável por uma rigorosa e ousada e curta gestão (novembro de 2011 a abril deste ano).

O único dos 27 países da União Europeia a apresentar superávit foi a Alemanha – 0,2% do PIB.

24/03/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

FRANÇA: O bonachão Hollande veste trajes de guerreiro, se aproxima militarmente da Grã-Bretanha e recebe aplausos

Blindados franceses durante intervalo de operações no Mali (Foto: AFP)

Por Gilles Lapouge – Correspondente em Paris do jornal O Estado de S.Paulo

Dois anos de horror na Síria, 70 mil mortos e 1 milhão de refugiados. E o presidente Bashar Assad, contra o qual se levantou o povo sírio há 24 meses, continua a desafiar uma opinião pública horrorizada pelo cinismo dos açougueiros de Damasco.

Isso não quer dizer que a Europa não fez nada para pôr fim à carnificina. Em intervalos regulares, Washington, Paris, Berlim e Roma suspiram. Às vezes, dizem: “É uma vergonha o que ocorre na Síria”.

Agora, porém, dois países europeus se aborreceram: França e Grã-Bretanha. Eles pediram que a União Europeia levantasse o embargo de armas aos rebeldes.

Assim, enquanto o tirano Assad é reabastecido por Rússia e Irã, os rebeldes estão submetidos ao bloqueio. O presidente francês, François Hollande, e o premiê britânico, David Cameron, informaram que, se o embargo não for levantado, França e Grã-Bretanha o ignorarão e entregarão armas, sobretudo mísseis terra-ar.

Trata-se de uma decisão audaciosa. Com o tempo, a rebelião síria foi inundada por guerrilheiros de todo o mundo árabe e seguidores do islamismo radical. Em suma, Paris pretende armar na Síria homens que são primos ideológicos dos terroristas contra os quais a França enviou seu Exército ao Mali.

Hollande não ignora isso, mas estima que não se pode deixar Assad bombardear suas próprias cidades e assassinar seu povo sem agir.

Assim, o presidente francês renova seus laços calorosos com os britânicos no momento em que o clima entre Londres e Paris era glacial. Essa reaproximação não é inocente.

Alguns meses atrás, a dupla França e Alemanha, que conduzia a Europa há 50 anos, se desentendeu e perdeu fôlego. O motor franco-alemão entrou em pane. Em seu lugar, a chanceler alemã, Angela Merkel, entregou-se aos primeiros testes de um novo motor anglo-alemão.

Mas sobre a Síria está se formando uma nova dupla: França e Grã-Bretanha. A Alemanha, que até então sempre foi hostil ao envio de armas aos rebeldes sírios, sente-se isolada. Merkel não deve ficar contente.

Hollande é um sujeito estranho. Ninguém é menos belicoso, menos militar do que esse tipo gorducho, hesitante, escrupuloso, que é apresentado sempre com traços de um homem não muito corajoso, um “político à antiga”, mais à vontade num gabinete ministerial do que de uniforme de batalha.

Hollande recebe explicações de oficiais da Marinha dentro do submarino atômico "Le Terrible", na costa da Normandia (Foto: AFP / ECPAD / Arnaud Roine)

Por paradoxo ou ironia da história, porém, esse civil absoluto conhece seus mais belos sucessos como comandante de guerra. A decisão que ele acabou de tomar para a Síria se inscreve nessa análise. Enquanto todos os líderes ocidentais, exceto Cameron, tapam seus ouvidos para não ouvir os gritos dos rebeldes, Hollande e Cameron decidem agir.

Há algumas semanas, Hollande já havia jogado a carta militar quando decidiu enviar o Exército francês ao Mali para impedir que jihadistas estabelecessem um “Estado terrorista” no coração da África.

A ação transformou e amplificou a imagem internacional de Hollande e da França. Nos jornais do mundo inteiro, editorialistas teceram elogios ao “guerreiro”. Os jornais americanos, em particular, descobriram, de repente, uma França inédita, resoluta, militar.

Caso de amor

“Vive la France!”, escreveu a revista Newsweek como título de um longo artigo enaltecendo Hollande, no qual se diz que “a França com seus aviões, seus helicópteros e seus paraquedistas é a única nação da Europa capaz de lutar contra os jihadistas no território malinês”.

O New York Times não deixou por menos. “Como nação militar, a França não tardará em destronar a Grã-Bretanha.”

Na Espanha, a reação foi de entusiasmo: “A França é o gendarme do Ocidente”, disse o La Vanguardia, de Barcelona. “Ela encontra seu status de capital da Europa mediterrânea”. O La Razón, de Madri, celebrou “a nova grandeza” da França.

Mesmo na Índia, os trajes de guerreiro vestidos por Hollande são admirados. O jornal India Today, de Nova Délhi, não economizou as palavras: “Bye-bye, Londres. Hello, Paris!”, escreveu. “As relações da Índia com a França estão voltadas para o futuro, enquanto as existentes com a Grã-Bretanha estão orientadas para o passado.”

Esses aplausos são particularmente surpreendentes porque, na própria França, a figura de Hollande é, ao contrário, mais discutida e mais criticada do que nunca.

No momento em que os Estados Unidos descobrem, de repente, virtudes insuspeitadas na França, os franceses são, cada vez mais, hostis a Hollande. Seu índice de popularidade caiu. Apenas 30% dos franceses confiam nele atualmente.

De maneira bizarra, agora que os grandes jornais estrangeiros descobriram que o terno de três peças de Hollande dissimula, na verdade, um uniforme militar repleto de medalhas e ornado com fuzis, lança-granadas, aviões e foguetes, os franceses insistem em ver seu presidente como um burguês acanhado, melhor equipado para a retirada ou para a derrota do que para o ataque ou para a vitória.

Eles reconhecem, contudo, que ele é bastante afável e não faria mal a uma mosca. É esse, aliás, o sentido do apelido que seus ministros e adversários lhe deram: “Bonachão”.

31/01/2013

às 16:34 \ Política & Cia

Sardenberg: governo brasileiro consegue desastre de grande competência, ao fazer a Petrobras perder dinheiro

Petrobrás: uma companhia petrolífera, dona de reservas elevadas, dependendo de uma queda no preço de seu principal ativo (Foto: Vanessa Carvalho / AE)

Petrobras: uma companhia petrolífera, dona de reservas elevadas, dependendo de uma queda no preço de seu principal ativo. Pode? (Foto: Vanessa Carvalho / AE)

Artigo publicado hoje no jornal O Globo

A PETROBRAS PERDEU ATÉ O SENSO

Sabe qual a melhor coisa que poderia acontecer para a Petrobras? Uma forte queda do preço internacional do petróleo. Isso derrubaria também as cotações da gasolina e do diesel, produtos que estão quebrando a estatal brasileira. Como não há produção interna suficiente desses combustíveis, a companhia tem que importá-los. Como o governo Dilma segura os preços internos para conter a inflação, a Petrobras se vê na situação esdrúxula de comprar caro e vender barato – que perdura mesmo depois do reajuste anunciado na última terça.

Prejuízo na veia.

Logo, se o governo não deixa aumentar mais o preço interno, resta torcer pela queda da cotação internacional.

Pode? Uma companhia petrolífera, dona de reservas elevadas, dependendo de uma queda no preço de seu principal ativo!

Acrescente aí uma forte valorização do real e o quadro “melhoraria” ainda mais para a estatal. Se o dólar voltasse, digamos, para R$ 1,70, a Petrobras economizaria cerca de 15% nas suas compras externas de combustível.

Claro que, nesse caso, também cairia o valor das reservas da Petrobras. De novo, pode? Uma companhia precisando de queda no valor de seu patrimônio.

Por outro lado, que sempre tem, a queda do preço internacional de petróleo colocaria em risco a operação no pré-sal. Ainda não se sabe o custo exato, pois a tecnologia está em desenvolvimento, mas certamente será muito caro retirar o óleo lá do fundão do oceano. Assim, se a cotação global cair muito, o pré-sal torna-se economicamente inviável.

Consequências: a Petrobras não conseguiria financiamento para as novas operações e os Estados e municípios perderiam os royalties pelos quais tanto brigaram.

Ou seja, é uma ideia de jerico torcer pela queda dos preços internacionais do óleo e dos combustíveis.

De outro lado, ainda, um dólar mais barato facilitaria as importações de equipamentos para extração e refino. Bom, não é mesmo?

Seria, se as políticas para o setor tivessem alguma lógica. Ocorre que a Petrobras é obrigada pelo governo a dar preferência ao produtor nacional, mesmo pagando mais caro, até um certo nível. Ora, com o real valorizado, a diferença de preços entre o local e o estrangeiro ficará bem maior, de modo que a estatal não terá como justificar a compra do equipamento made in Brasil.

Isso destruiria a política do governo para estimular a indústria nacional ou, caso o modelo fosse mantido, aumentaria os custos da Petrobrás em reais.

Ou seja, é outra ideia de jerico torcer pela valorização do real neste caso.

Voltamos assim ao senso comum, pelo qual uma companhia de petróleo deve se dar bem quando o preço do petróleo está em alta. Esta lógica não mudou. O que a subverte é a gestão do governo brasileiro. Um desastre de grande competência: não é fácil fazer uma petrolífera perder dinheiro.

Outra coisinha: lembram-se de toda aquela campanha do governo Lula comemorando a autossuficiência em petróleo? Pois é, foi só marketing eleitoral. Só não, porque a estatal, que não pertence só ao governo, muito menos ao PT, pagou por aquela fraude. Custo na veia da população.

 

Protecionista quem?

Andam dizendo por aí que as negociações comerciais entre Mercosul e União Europeia (UE) não avançam por causa por causa do protecionismo dos dois lados.

Curioso. A UE, só na América Latina, tem acordos de livre comércio fechados com Chile e México (já em vigor) e mais Peru, Colômbia e América Central (a vigorar neste ano). Fora da região, tem acordos com diversos países da Ásia, inclusive Coreia do Sul, e esta prestes a iniciar negociações com os Estados Unidos.

Já o Mercosul tem acordos com Israel e Jordânia.

Mas, dizem governo Dilma e aliados, neste ano as conversas com a Europa vão avançar.

Sério?

Se o Brasil não consegue ter livre comércio nem com a Argentina, principal sócia no Mercosul, se a Argentina, pelo calote, está excluída do mercado financeiro global, e se a Venezuela, nova sócia, só quer acordos com os amigos bolivarianos, Cuba, por exemplo, quem mesmo vai negociar com a UE?

No último fim de semana, a Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe, Ceal, reuniu-se com a UE – encontro de cúpula, solene. Olhando bem, no entanto, os líderes europeus mantiveram duas conversas bem diferentes. Uma com o pessoal do Mercosul – só protocolar, para os fotógrafos.

Outra, para valer, com o chamado bloco do Pacífico, liderado por Chile, Peru, Colômbia e México. Enquanto o Mercosul torna-se cada vez mais restrito ao grupo bolivariano de Chávez, Cristina Kirchner e outros menores, o bloco do Pacífico  já tem acordos com os EUA, Europa e negocia um megatratado com a Ásia.

Devem estar todos equivocados, não é mesmo?

18/01/2013

às 19:00 \ Vasto Mundo

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

Publicado originalmente a 17 de junho de 2011.

A crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega depois da capital, os serviços de abastecimento de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.


10/01/2013

às 17:00 \ Vasto Mundo

A Irlanda está eliminando da paisagem os sinais da bolha imobiliária: as “residências fantasmas”

Casa não terminada e depenada antes de ir abaixo: com 300 mil habitações vazias e milhares de projetos inconcluídos, governo considera demolições a saída "mais sensata" (Foto: bloomberg.com)

Publicado originalmente em 21 de outubro de 2012.

O governo do primeiro-ministro Enda Kenny, que aos poucos vai tirando a Irlanda da brutal crise em que mergulhou, junto a outros países da União Europeia, está levando à frente a decisão radical que tomou para eliminar as cicatrizes mais visíveis de sua nefasta bolha imobiliária: colocar abaixo, com enormes bulldozers, as chamadas “residências fantasmas” que assombram o país.

Sendo um país pequeno, de pouco mais de 4,5 milhões de habitantes, a Irlanda construiu mais de meio milhão de habitações entre 1996 e 2005, num ritmo de construção que equivalia ao dobro da média europeia.

Atualmente, há 300 mil casas vazias (15% do total de habitações do país) e espantosos 1.850 projetos habitacionais inacabados.

A bolha imobiliária na Irlanda agiu como em outros países europeus, principalmente na Espanha: com a febre de construções e a valorização a jato dos imóveis, a atividade devorou grande parte dos investimentos, os bancos emprestaram dinheiro sem critério e, quando começaram os calotes, o castelo de cartas desabou. A falta de investimentos durante anos em atividades produtivas (imóveis não se exportam) deixou o país sem capacidade de reação.

Um bulldozer põe abaixo casa inacabada em área próxima a Dublin (Foto: The Irish Times)

O governo pretende vender alguns projetos ou destiná-los a habitação popular, mas “há lugaraes em que a decisão mais sensata está sendo a demolição”, diz a ministra da Habitação, Jan O’Sullivan.

A Agência Nacional de Gestão de Ativos (NAMA, sigla em inglês) — o “banco podre” criado em 2009 para limpar as entidades financeiras de seus ativos tóxicos — começou as demolições em julho passado na localidade de Gleann Riada, inicialmente por razões de segurança. Depois, as razões mudaram.

Muitos conjuntos habitacionais que vêm sendo postos abaixo estavam ocupados por viciados em drogas, outros se tornaram abrigos de ratos e outras pragas e — dizem os irlandeses — as ruínas da bolha, além do mais, estragam a beleza das paisagens verdejantes do interior. Não por acaso, a cor nacional da Irlanda é o verde, que os bulldozers aos poucos pretendem restaurar por completo.

08/01/2013

às 14:00 \ Vasto Mundo

Entenda as razões que levaram ao resgate dos bancos da Espanha pela União Europeia

O ministro espanhol da Economia, Luis de Guindos, dizendo, em Bruxelas, que o resgate não era resgate (Foto: rtve.es)

Publicado originalmente em 11 de junho de 2012.

Negando o que faria – e fez – mais vezes e mais enfaticamente do que Pedro negou a Cristo, o governo da Espanha finalmente acorreu no final de semana aos 17 países do Eurogrupo, que adotam o euro como moeda no seio da União Europeia, com um pedido de socorro para não quebrar sua banca, e foi atendido.

Como se sabe, 100 bilhões de euros (250 bilhões de reais) serão direcionados, a conta-gotas, ao abalado sistema bancário da Espanha, com recursos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF, por suas iniciais em inglês) – o mecanismo provisório de socorro que será este ano substituído pelo definitivo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEF).

A conta-gotas porque a liberação do dinheiro para o FROB – espécie de Proer espanhol –, que por sua vez os repassará aos bancos com ativos podres, dependerá do monitoramento a ser exercido pela chamada troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia – o executivo da União Europeia – e FMI) sobre o andar da carruagem da consolidação fiscal e das reformas estruturais do governo do primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy, no poder desde novembro.

Patéticas tentativas de negar o resgate

Diante do tamanho e da gravidade da crise que afeta o país, soaram patéticas as tentativas do governo de negar a ocorrência do resgate – palavra maldita banida dos discurso e entrevistas oficiais. Negou-se que haveria um resgate e, uma vez promovido o resgate, negou-se que o resgate seja um resgate.“Um empréstimo em condições extremamente favoráveis”, denominou a operação o ministro da Economia, Luis de Guindos, referindo-se aos juros de cerca de 3% ao ano que custará esse dinheiro aos bancos, com aval do Estado espanhol. “O ocorrido ontem (sábado”), repetiu diversas vezes, no domingo, o próprio Rajoy, ao explicar o resgate.

A operação constituiu, obviamente, um resgate, mas de fato um resgate mais soft em relação aos já ocorridos até agora no âmbito da crise – os de Grécia, Portugal e Irlanda. Mais soft porque se restringe aos bancos, e mais soft porque sem as condições draconianas impostas aos outros três países.

Mesmo assim, ninguém duvida de que Bruxelas, a capital da Europa, estará empurrando o governo de Rajoy rumo a novos apertos, como o corte na gastança das comunidades autônomas (algo equivalente aos governos estaduais no Brasil) – que exigirá mudanças na legislação –, algum tipo de reforma das aposentadorias (medida que Rajoy jurou durante toda a campanha eleitoral jamais seria feita) e aumentos de impostos, a começar pelo IVA (equivalente ao ICMS), contrariando outra garantia de Rajoy aos eleitores.

Guindos procurou ressaltar que o enorme empréstimos à banca foi feito em condições “muito favoráveis”, impossíveis de encontrar no mercado, e que seus efeitos positivos logo se farão sentir, porque os bancos, fortalecidos, poderão reativar o crédito às famílias e às empresas e fazer rodar a economia, em grave recessão e com um índice de desemprego próximo aos 25% da força de trabalho.

A Moody’s elogiava a banca espanhola no final de 2010

O ministro não explicou, porém, como levar os bancos a arriscar-se a emprestar em vez de, como ocorreu em dois socorros domésticos anteriores, tentarem se capitalizar investindo o dinheiro em títulos públicos de países que andam bem e pagam juros, ou especularem com moedas sólidas como o franco suíço.

O desabamento da banca espanhola surpreende para quem acreditou na agência de análise de riscos Moody’s – que no final de 2010 considerou-a a terceira mais sólida da zona do euro, atrás apenas dos bancos de Finlândia e França e à frente, vejam só, até da Alemanha.

A bolha imobiliária: o resultado final são 1 milhão de imóveis vazios e sem comprador, e dívidas de 100 bilhões de euros (Foto: EFE)

Mas não surpreende os especialistas que há anos se preocupavam com a causa de toda essa encrenca: a famosa bolha imobiliária espanhola, que explodiu no final de 2007, antecipando-se ao estouro do banco americano de investimentos Lehman Brothers, em 2008, responsável pela crise que, com efeito dominó, atingiu o mundo inteiro e faz sentir seus efeitos até hoje.

Os comos e porquês da bolha imobiliária, a causa da crise

A bolha é a grande responsável pelo afundamento dos bancos e pela crise espanhola. Em que consistiu/consiste o fenômeno? Resumidamente, um estouro na construção de imóveis que

Engoliu a maior parte dos investimentos do país

Reduziu de forma brutal a base produtiva da Espanha, não permitiu o crescimento de outras áreas nem o desenvolvimento de novas tecnologias e, assim, jogou no chão a capacidade de o país competir no mercadointernacional

Levou a uma colossal montanha de dívidas não pagas.

Vamos a alguns números que dêem uma ideia do problema.

Em 1997, o conjunto do crédito imobiliário oferecido por bancos, caixas econômicas e cooperativas de crédito significava perto de 40% de todo o crédito do setor privado da economia – e, em valores, superava 28% do PIB espanhol.

No ano seguinte, essa situação, que já significava um desequilíbrio, agravou-se com a chamada Lei do Solo absolutamente liberalizante aprovada pelo governo conservador do primeiro-ministro José María Aznar: em resumo, a lei proclamava como “urbanizável” todo pedaço de terra em qualquer lugar do país onde alguma outra lei não proibisse, expressamente, a construção de imóveis.

No mesmo ano, com a febre imobilária se acelerando, 14% dos empregos no país já se situavam na construção civil – 5 pontos percentuais acima dos 9% do Reino Unido e o dobro do que representava na Alemanha. Até 2007, a temperatura da febre subiu astronomicamente: foram construídos nada menos do que 5,7 milhões de imóveis, 30% mais do que tudo o que existia na Espanha antes da bolha. Os preços subiram quase 200% em dez anos.

Diferentemente do que pretendia e anunciava o governo Aznar – o aumento no número de residências faria baixar os preços –, a especulação desenfreada teve efeito oposto: pessoas e empresas compravam casas e apartamentos não porque fossem baratas, mas porque, embora caras, seriam ainda mais no futuro. O fenômeno levou a uma onda de euforia, gastança pública e corrupção Espanha afora, com prefeituras mexendo nas leis de zoneamento, não raro com o “estímulo” de propinas a políticos.

Em 2008, Zapatero ainda tinha prestígio suficiente para ir apoiar, na França, a candidata socialista à Presidência, Ségolène Royal (Foto: AFP)

Com a vitória eleitoral do socialista José Luís Rodríguez Zapatero, em 2004, nada mudou: Zapatero surfou na prosperidade que a bolha trouxe ao “tigre latino”, a Espanha. Nada de furar a bolha, que enchia os cofres públicos de recursos e permitia bondades como presentear com 2.500 euros (6,3 mil reais) cada casal que tivesse um filho — o “cheque-bebê”. O dirigente socialista era apontado como exemplo, e seu prestígio o levou até a apoiar candidatos a eleições em outros países, como a França.

Com três anos de governo socialista, em 2007, aquele crédito imobiliário que representava dez anos antes 40% do total de crédito ao setor privado já passava de 60%, e os pouco mais de 28% doPIB de 1997 transformaram-se em espantosos, alarmantes 102%.

Bolhas, como se sabe, chegam ao fim. A pouca diversificação da economia espanhola, com a concentração de investimentos no setor imobiliário, acabou aumentando o desemprego em áreas como a indústria e os serviços, o mercado imobiliário saturou-se, começaram os calotes de incorporadores, construtoras e compradores – e a bola de neve iniciou sua rápida corrida montanha abaixo. O saldo específico do setor é de 1 milhão de imóveis vazios, sem compradores, e 100 bilhões de euros de créditos em atraso.

De todo modo, os principais analistas coincidem em que 70% do setor bancário espanhol está em boa forma, e que o saneamento dos outros 30% necessita entre 40 e 50 bilhões de euros. Os 100 bilhões obtidos, dessa forma, propiciam uma folga considerável para realizar reformas pelas quais Bruxelas certamente vai, que incluem o fechamento e fusões de bancos, sem contar cortes de privilégios espantosos permitidos pela legislação atual – até bancos que sofreram intervenção do governo por má gestão e perdas brutais premiaram dirigentes com bônus de milhões de euros e aposentadorias milionárisas.

Rajoy (polegar levantado) falou rapidamente aos jornalistas sobre o resgate e depois foi a Gdansk, na Polônica, ver a partida Espanha 1 x Itália, 1. Na foto, o príncipe herdeiro, Felipe (terno claro) e a princesa Letícia (Foto: EFE)

No final das contas, sem cair no abismo grego, o governo de Rajoy acaba tendo um novo fôlego para enfrentar o bombardeio da crise. Ele bem que precisa: com apenas seis meses no Palácio de la Moncloa, o chefe de governo já sofre um grande desgaste político – até pelo estranho hábito de não aparecer no Parlamento ou diante da imprensa para explicar medidas cruciais que seu governo adota, como o resgate.

Ele deixou o protagonismo todo ao ministro de Guindos, e só falou è imprensa, por pouco mais de 20 minutos, no domingo, ontem – antes de viajar à Polônia para assistir à partida em que a seleção de futebol da Espanha empatou com a da Itália pela Eurocopa.

 

19/09/2012

às 17:00 \ Vasto Mundo

União Europeia adverte: uma Catalunha independente da Espanha ficaria fora da Europa

Bandeiras da Europa em frente à sede da Comissão Europeia, em Bruxelas: se a Catalunha separar-se da Espanha por conta própria, está fora (Foto: guardian.co.uk)

Sempre disse isso, e escrevi aqui mesmo — e nem era preciso ser profeta para tanto: a Catalunha, ou qualquer outra região de um Estado-membro da União Europeia que se declare independente, ficará automaticamente excluída da UE e seus cidadãos perderão todos os direitos europeus — como o de viver e trabalhar em qualquer dos 27 países integrantes.

O balde de água fria foi lançado desde Bruxelas, sede do “governo” da UE, depois que 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas de Barcelona no dia 11 passado em protesto contra a suposta discriminação contra a Catalunha por parte do governo central espanhol em matéria de distribuição de impostos — uma manifestação-monstro que foi convocada por entidades independentistas e acabou tendo o caráter de um grande ato em prol da separação entre Catalunha e Espanha.

A advertência sobre a exclusão da Catalunha, em caso de haver a separação, foi feita por um porta-voz oficial da Comissão Europeia, o organismo executivo da UE, presidido pelo ex-primeiro-ministro português José Manuel Durão Barroso — sem, porém, referir-se concretamente ao problema, por força da política da UE de não se imiscuir em questões internas dos países que a integram.

Mas o porta-voz disse, com todas as letras, e em nome oficial da UE que, em caso de uma secessão — os catalães independentistas pregam “um Estado a mais na Europa — a região interessada (no caso, claro, a Catalunha) deveria solicitar adesão à UE, a soliticação passaria pela Comissão Europeia para checar se cumpre todos os requisitos exigidos pelos diversos tratados que configuram o organismo e, finalmente, a integração deveria ser aprovada pela unanimidade dos 27 Estados -membros.

Espanha tem poder de veto — e países como a França e a Bélgica não querem nem ouvir falar de secessão

Ou seja, a própria Espanha dispõe de poder de veto para barrar o projeto independentista, sem contar, como já comentei anteriormente, com outros países europeus muitíssimo pouco interessados em escancarar as porteiras da secessão, como o Reino Unido em relação à Escócia (que realizará um plebiscito a respeito em 2014), a França com o País Basco francês e, principalmente, a Córsega, a Bélgica com a crescente beligerância entre as comunidades de fala e cultura francesas e holandesas — e por aí vai.

O presidente da Catalunha, Artur Mas, em reunião com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, no ano passado (Foto: euroexpress.es)

A questão de uma teórica independência começa com o fato, reconhecido pela Comissão Europeia, de que “não existem disposições contretas no Tratado da UE [o Tratado de Lisboa, de 2009] sobre a secessão de uma região de um Estado-membro”. Diante da manifestação ocorrida na Catalunha, porém, o “governo” europeu informou que seu serviço jurídico do realizou uma interpretação restritiva do Tratado e, com base no direito internacional, considerou que a região em questão, ao separar-se do Estado-membro da UE e deixar, portanto, de fazer parte dele, automaticamente está fora UE.

Usar o euro, sim

O que um país Catalunha poderia fazer sem grandes problemas seria, como lembrou recentemente o jornal El Periódico, de Barcelona, seria continuar utilizando o euro, que existem, sim, países de fora da UE que adotaram a moeda mediante acordos bilaterais com os 17 países da zona do euro e o Banco Central Europeu — como o Principado de Andorra, entre a Espanha e a França, e dois países desmembrados da ex-Iugoslávia, Montenegro e Kosovo.

Os independentistas, aos quais agora se soma o próprio presidente da Catalunha, Artur Mas, do partido conservador nacionalista Convergencia i Unió, continuam celebrando o êxito da manifestação do dia 11 e as organizações pró-independência querem a realização de um plebiscito em 2014. Continuam, porém, esbarrando nas realidades da vida: não apenas a questão da União Europeia — que a Catalunha sonha integrara como país –, mas o fato de que a Constituição da Espanha requer que, nesse tipo de referendo, todos os cidadãos espanhóis sejam chamados a votar.

11/09/2012

às 21:10 \ Vasto Mundo

Para a Catalunha ser independente, falta combinar com muita gente

A Catalunha celebra hoje seu grande dia no ambiente mais indepedentista dos últimos anos e pendente de importantes mudanças econômicas.

A multidão que ocupou todo o centro de Barcelona portava bandeiras independentistas, como esta (a bandeira da Catalunha em vigor não contém a estrela branca sobre fundo azul) (Foto: Lluis Gene / AFP)

Não bastava a gravíssima situação da economia espanhola, com crescimento próximo a zero, o desemprego batendo em um quarto da população economicamente ativa, o sistema bancário dependendo de uma multibilionária injeção de recursos do Banco Central Europeu, o próprio governo dependurado numa dívida pública superior a 70% do Produto Interno Bruto – e por aí vai.

A colossal manifestação independentista promovida hoje por diversos organismos da Catalunha, a mais rica e a segunda mais populosa das comunidades autônomas (espécies de Estados norte-americanos) da Espanha e parte integrante do país há 500 anos, torna-se agora um problema primordial para o chefe de governo, Mariano Rajoy.

A população foi às ruas para comemorar a chamada data nacional da Catalunha — paradoxalmente, a celebração de uma derrota, quando os catalães rebelados durante a Guerra de Sucessão Espanhola de 1714 foram derrotados pelas tropas enviadas pelo rei Felipe V de Borbón.

Mas a ocasião foi aproveitada por movimentos independentistas e pelo próprio governo nacionalista catalão para, no bojo de um protesto contra as regras fiscais em vigor que, argumentam, retira mais impostos da região do que os investimentos feitos pela administração em retorno, defender que a melhor saída para os 7,5 milhões de catalães é desligar-se da Espanha.

Movimento separatista catalão

Para a Catalunha ser um "novo Estado da Europa" é preciso combinar com muita gente... a começar por aliados da Espanha na União Europeia que têm seus próprios movimentos separatistas (Foto: EFE)

A questão nacional da Catalunha é uma ferida latente que, de tempos em tempos, volta a latejar. Sufocada duramente em sua cultura e tradições durante a ditadura do generalíssimo Franco (1939-1975), que proibia até a utilização do idioma catalão, a região ganhou autonomia considerável – muito superior à dos Estados brasileiros – com a redemocratização do país.

Um passo adiante na direção de mais autonomia ocorreria entre 2005 e 2006, quando um novo Estatuto de Autonomia (equivalente a uma constituição local) seria sucessivamente aprovado pelo Parlamento catalão, referendado pelo eleitorado e receberia o OK das Cortes, o Parlamento espanhol, sob a égide do chefe de governo socialista José Luís Rodríguez Zapatero.

Em 2010, porém, o clima entre Madri e Barcelona azedou consideravelmente quando o Tribunal Constitucional da Espanha, ao julgar um recurso apresentado pelo então oposicionista Partido Popular, conservador, hoje no governo, considerou inconstitucionais uma série de prerrogativas asseguradas às instituições catalãs pelo novo Estatuto.

A decisão, que podou dezenas de artigos do Estatuto, levou setores até então favoráveis a uma acomodação da Catalunha dentro da Espanha a caminhar para o independentismo.

 

A ideia de uma Catalunha independente enfrenta enormes dificuldades constitucionais e políticas para se concretizar

 

Na manifestação de hoje, a principal palavra de ordem foi “Catalunha, um novo Estado na Europa”. Falta, porém, combinar com muita gente.

As enormes dificuldades constitucionais e políticas para concretizar a independência da Catalunha incluem, entre outras, as seguintes:

1. Um plebiscito sobre a questão não pode, segundo a Constituição, se circunscrever apenas à Catalunha. Deve ser decidido “pelo conjunto do povo espanhol”.

2. O PP, no governo, dispõe de maioria absoluta tanto no Congresso de Deputados como no Senado e tem condições de evitar que uma eventual reforma da Constituição para permitir um plebiscito local seja sequer discutida — quanto mais aprovada.

3. É altamente duvidoso afirmar-se que a independência é desejada pela maioria da população da Catalunha, que nos últimos 30 anos sofreu um grande influxo de imigração estrangeira e de migração interna de espanhóis de outras regiões. Os levantamentos de opinião pública ao longo dos últimos anos apontavam consistentemente para um máximo de 25% de independentistas. Houve um aumento no contingente depois da questão do Estatuto, mas o movimento pró-independência interessa mais a políticos catalães e a uma considerável parte da elite — intelectuais, a universidade, a imprensa, parte do empresariado — do que aqueles que os espanhóis chamam de ciudadanos de a pie – ou seja, as pessoas comuns da rua, em grande parte confortáveis com o fato de serem cidadãos da Catalunha e da Espanha.

4. É altamente duvidoso achar que “Catalunya, el nou Estat d’Europa”, como diziam as faixas, seja bem visto por boa parte dos… Estados da Europa, especialmente os parceiros da Espanha na União Europeia que abrigam, eles próprios, minorias separatistas: entre outros exemplos, a Grã-Bretanha tem a velha questão da Irlanda do Norte e, mais recentemente, a da Escócia; a França, a Córsega e o País Basco Francês; a Itália, os separatistas racistas da Liga Norte, que inventaram um país fictício que querem transformar em realidade, a “Padania”; a Bélgica vive permanentemente as tensões entre suas comunidades de língua francesa e holandesa.

Não parece lógico que tais países queiram abrir as comportas de seus próprios problemas e aceitar a Catalunha como membro da União Europeia – sem contar que o governo espanhol tem pleno direito de veto a esse movimento.

07/09/2012

às 12:00 \ Vasto Mundo

Boa leitura para o feriadão (1) — O primeiro-ministro de Portugal: “Nosso objetivo é tirar o Estado da economia, acabar com o Estado patrão, dono de empresas. Pretendemos atrair capital novo e deixar atuar a livre iniciativa”

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Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal: "As medidas de austeridade que estamos adotando não são a origem do problema. São parte da solução" (Foto: Mario Proença / Bloomberg / Getty Images)

O ESTADO NO SEU DEVIDO LUGAR

 

(Entrevista a Duda Teixeira, publicada na edição impressa de VEJA)

 

O primeiro-ministro de Portugal vê na crise a oportunidade para fazer reformas. Ele vai cortar os benefícios sociais de quem não precisa, privatizar estatais e abrir a economia

Para muitos economistas, Portugal está a caminho de se tornar, depois da Grécia, a próxima nação da zona do euro a afundar. A taxa de desemprego é de 15%, superior à média europeia, e o PIB deve encolher 3% em 2012.

O desafio de Pedro Passos Coelho, de 47 anos, primeiro-ministro português, no cargo desde junho de 2011, é reduzir a dívida e os gastos públicos e, ao mesmo tempo, tirar o país da recessão.

Antes de Coelho assumir, Portugal só se salvou da quebra por receber um pacote de ajuda externa no valor de 78 bilhões de euros, um terço do que foi obtido pela Grécia. Com voz de barítono, que usava para cantar fados em ocasiões privadas, Passos Coelho falou a VEJA na residência oficial do chefe de governo, o Palácio São Bento, em Lisboa.

 

O governo brasileiro quer encarecer e dificultar a importação de vinhos, incluindo os portugueses, para beneficiar os produtores da Serra Gaúcha. Qual sua opinião sobre isso?

O protecionismo, por mais que pareça dar oportunidades imediatas aos grupos nacionais, é pouco eficiente a médio e longo prazo. Quando se diminui a exposição do país à competição externa, os consumidores são obrigados a pagar um preço mais elevado por um determinado nível de consumo ou de realização de serviços.

Ora, se uma parte desse gasto for liberada para a compra de outro produto ou para investimentos, a economia no seu conjunto ganhará mais. Portanto, mais vale privilegiar a competição internacional do que proteger os nossos campeões internos.

 

O que o senhor diz aos portugueses que culpam a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pela crise europeia?

Esse é um clichê muito difundido na imprensa. O fato de Alemanha e França procurarem soluções para a crise resultou na ideia errônea de que eles eram de certa forma responsáveis ou até beneficiários dessa situação.

Nada mais exagerado.

Primeiro porque, apesar de serem os líderes de duas das principais economias europeias, as decisões finais sobre os rumos do bloco são tomadas por um comitê mais amplo de chefes de governo e de Estado. Segundo, a situação adversa que Portugal vive hoje não veio em consequência das decisões de Merkel ou de Sarkozy.

Os desequilíbrios existentes em Portugal são resultado de más decisões tomadas por nós mesmos. Usamos mal o dinheiro, selecionamos mal os projetos de obras públicas, aumentamos os impostos para gastar em serviços de pouco valor, não flexibilizamos suficientemente o mercado de trabalho, não abrimos a economia…

Os líderes europeus não agravaram nossos problemas. Ao contrário, eles nos ajudaram a encontrar uma saída para eles.

 

Sarkozy e Merkel se reúnem em Bruxelas para conversar sobre a crise na UE (Fabrizio Bensch/Reuters)

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel: "os líderes europeus não causaram nem agravaram os problemas de Portugal. Os responsáveis foram nós mesmo, os portugueses" (Foto: Fabrizio Bensch / Reuters)

 

A Grécia está imersa no caos social e ainda negocia para não pagar uma parte de sua dívida. Toda a ajuda em dinheiro vinda de fora parece não ser suficiente para equilibrar as contas e superar a recessão. Alguns analistas dizem que Portugal será a próxima Grécia. Qual o risco de isso ocorrer?

Nosso país tem adotado medidas que a comunidade internacional e a União Europeia consideram bem-sucedidas. Corrigimos algumas deficiências em tempo recorde. Internamente, fizemos um acerto duro nos gastos públicos.

Apesar de a crise econômica ter reduzido a nossa receita tributária e aumentado as nossas despesas com benefícios sociais para os desempregados, conseguimos cortar o déficit estrutural em 4 pontos porcentuais.

Externamente, reduzimos o déficit na balança de pagamentos. Nesse quesito, alcançamos em dezembro de 2011 uma meta que todos esperavam ser possível atingir apenas em dezembro de 2012. Essa conquista ocorreu não apenas por causa da nossa política de austeridade, mas sobretudo porque os setores exportadores, como o têxtil e o automotivo, tiveram um desempenho superior ao previsto.

O turismo, que representa 10% do PIB, também foi muito bem. Até 2013 vamos atingir o equilíbrio nas contas externas. Isso dá aos mercados uma sensação de estabilidade e de confiança em relação a nós. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

02/09/2012

às 17:00 \ Vasto Mundo

Europa: em menos de 50 anos, 1 em 4 quatro habitantes será imigrante ou descendente de estrangeiros

SEM ROSTO -- Mulher paga multa por usar niqab, uma vestimenta islâmica, em Bruxelas, na Bélgica: uma proibição nascida da aversão europeia à submissão feminina (Foto: Sander de Wilde / Corbis)

SEM ROSTO -- Mulher paga multa por usar niqab, uma vestimenta islâmica, em Bruxelas, na Bélgica: uma proibição nascida da aversão europeia à submissão feminina (Foto: Sander de Wilde / Corbis)

Matéria de Nathalia Watkins, publicada em edição impressa de VEJA

 

 A NOVA FACE DA EUROPA

Em menos de cinquenta anos, um em cada quatro habitantes será imigrante ou descendente de estrangeiros. O desafio será assimilá-los sem subtrair da sociedade os melhores valores ocidentais

 

As fotos nos passaportes brasileiros e americanos não deixam dúvidas de que essas são nacionalidades forjadas com a intensa imigração. A variedade de formatos de rosto, de tons de pele e de tipos de cabelo faz com que, no retrato 5×7, qualquer cidadão do mundo passe tranquilamente por brasileiro ou americano. Em cinco décadas, o mesmo acontecerá com os passaportes europeus.

Segundo a agência oficial de estatísticas da União Europeia, Eurostat, até 2061 pouco mais de um quarto de seus habitantes será imigrante ou descendente de estrangeiros. Na Áustria, a proporção poderá chegar a 40%. Do ponto de vista econômico, a mudança é necessária. A chegada dos imigrantes impede que a população desses países diminua.

As mulheres europeias estão tendo poucos filhos, uma tendência que já vem de décadas. Por causa disso, a região precisará receber 700 milhões de pessoas até 2050 apenas para manter o atual nível populacional.

O desafio será assimilar esse contingente de origens culturais e religiosas variadas sem prejuízo para os traços de identidade marcantes da Europa, como o secularismo, o respeito às minorias e a liberdade de expressão. Trata-se de um dilema que nenhum país europeu conseguiu, até o momento, solucionar plenamente.

A dificuldade na assimilação de imigrantes costuma ser atribuída à falta de planejamento dos governos europeus, em outros temas tão eficientes em aplicar políticas com uma visão de longo prazo.

Enquanto nos Estados Unidos se criaram diretrizes para receber novos cidadãos desde a Independência, em 1776, isso só foi feito recentemente na Europa. “Nos Estados Unidos, os requisitos mínimos para alguém obter o status de americano são aceitar as normas da sociedade e estar disposto a trabalhar”, diz o consultor grego Demetrios Papademetriou, presidente do Instituto de Políticas de Migração, em Washington. “Os europeus sempre pediram mais que isso. Exigem o respeito à tradição, à cultura e ao idioma.”

 

Fenômenos migratórios

A verdade é que a Europa não pretendia ser um destino natural de imigrantes. Pensava-se que os três principais fenômenos migratórios do século XX na região seriam temporários, e que logo os estrangeiros voltariam para sua terra natal. Nos anos 50 e 60, cidadãos dos países do sul da Europa mudaram-se para os do norte para trabalhar na reconstrução após a II Guerra Mundial.

Depois, nações comprometidas com os direitos humanos, como a Inglaterra, a Alemanha e os países escandinavos, passaram a conceder asilo a refugiados de guerra e perseguidos políticos vindos principalmente do Oriente Médio e da Ásia.

Com a independência das ex-colônias europeias na África e na Ásia, nos anos 60 e 70, o fluxo de pessoas alcançou seu auge. Ainda assim, as políticas migratórias só entraram em vigor nos últimos quinze anos.

 

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Sem fluência na língua local, com valores e costumes diferentes e penando para encontrar trabalho – que ficou mais raro com a atual crise econômica -, muitos imigrantes se colocaram nas franjas das sociedades que os receberam e vivem em guetos. Alguns desafiam as regras locais como se vivessem em um mundo paralelo.

Um exemplo disso são os crimes de honra cometidos por imigrantes muçulmanos mais radicais. A tensão que nasce da falta de integração às vezes explode sob a forma de confrontos com a polícia, como os que ocorreram em Amiens, no norte da França, na semana passada. Indignados com uma batida da polícia em um funeral, jovens vândalos, na maioria filhos ou netos de imigrantes, atearam fogo a carros e feriram dezesseis oficiais.

De maneira simplificada, os europeus dividem-se em duas visões conflitantes sobre como resolver o problema. Uns pedem o fechamento das fronteiras e a expulsão dos estrangeiros. Outros dizem que os imigrantes devem ser aceitos como são, ainda que entrem em conflito com os valores e com as leis europeias.

Daqui a cinquenta anos, essas duas posições provavelmente terão se tornado obsoletas. E o que é ser europeu terá adquirido um novo significado, ainda em formação.

 

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