Blogs e Colunistas

União Européia

22/11/2014

às 12:00 \ Disseram

Aconteça o que acontecer

“Simplesmente ficar aqui e dizer ‘Eu vou ficar (…) aconteça o que acontecer’ não vai funcionar.”

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ao defender a renegociação dos laços entre a Grã-Bretanha e a União Europeia

18/11/2014

às 17:22 \ Vasto Mundo

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

Publicado originalmente a 17 de junho de 2011

Campeões-de-audiênciaA crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega depois da capital, os serviços de abastecimento de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.


17/09/2014

às 20:15 \ Vasto Mundo

CAIO BLINDER: Escoceses, naw, naw, naw!

(Foto: Reprodução/VEJA.com)

O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, investe incessantemente na campanha pelo “sim” à independência (Foto: Reprodução/VEJA.com)

Post publicado no blog de Caio Blinder, em VEJA.com

Há um ano, eu não acordava pensando na Ucrânia (com todo respeito por meus avós que nasceram naquelas bandas). Agora, tenho pesadelos diários (geopolíticos) por causa do belicismo de Vladimir Putin. Esta semana até a Suécia, aquele paraíso nórdico da tolerância, me deixou sobressaltado devido ao avanço da extrema-direita com raízes neonazistas nas eleições de domingo. E ainda por cima tem este referendo sobre independência na Escócia na quinta-feira para nos assustar.

É para assustar mesmo. O referendo dá uma medida de convulsões na velha Europa. Por que desfazer uma união tão bem sucedida e civilizada de 307 anos entre Inglaterra e Escócia, no casamento dentro da Grã-Bretanha?

Pelas pesquisas, metade dos escoceses não pensam assim e acham que chegou a hora do divórcio, que, no final das contas, não será tão amigável, tão fleumaticamente britânico.  Hora de dizer “sim” pela independência? Pelas pesquisas, o resultado de quinta-feira vai ser no sufoco, embora haja alertas de que os números finais podem enganar pela margem mais folgada, a favor ou contra.

Já li tantas teorias que a crise no casamento é culpa do tédio, da arrogância inglesa e do desejo de aventura dos escoceses (que tiveram esta tradição na expansão do império britânico). Outros fatores: nacionalismos e tribalismo estão em alta.

Há também uma explicação ideológica. Os escoceses estão à esquerda dos ingleses e não gostam do governo conservador em Londres (no Parlamento britânico, dos 59 deputados escoceses, apenas um é conservador).

No entanto, nada disso me convence muito, embora haja uma dose de cada explicação no drink. A Escócia não é colônia do império e preserva sua identidade nacional dentro do Reino Unido. Pelas contas, já foram onze primeiros-ministros escoceses a serviço de sua majestade. O ex-primeiro-ministro trabalhista (e escocês) Gordon Brown se tornou figura indispensável e infatigável na campanha pelo “não” no referendo.

Houve, aliás, muito descaso na campanha do “não” e agora é este desespero para recuperar o tempo perdido. Semanas atrás, parecia conversa de bêbado achar que o “sim” venceria o referendo. Agora, é uma campanha movida pelo medo, com o objetivo de aterrorizar os escoceses sobre o preço que irão pagar pelo divórcio.

Será um acerto litigioso sobre moeda, dívida, receitas, petróleo no mar do Norte e adesão à União Europeia. A retórica é apocalíptica: será o fim da Escócia, o fim da Grã-Bretanha, o fim da União Europeia. Haverá o efeito cascata de movimentos separatistas na Espanha, Itália e Bélgica. Meu Deus, até no Texas.

Alguns têm medo que esta campanha de medo irrite os teimosos escoceses e muitos decidam votar aye de pirraça. É verdade que este terror eleitoral da campanha do “better together”, melhor juntos, é acompanhada de promessas de mais poderes e controle de recursos pelo  Parlamento escocês, conforme o documento firmado na terça-feira pelo primeiro-ministro conservador David Cameron e pelos líderes trabalhista, Ed Miliband, e liberal democrata, Nick Clegg.

Eu reitero minha aposta. Para o Instituto Blinder & Blainder, este esforço que mescla terror e ternura irá funcionar a favor do naw na quinta-feira.

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17/09/2014

às 19:30 \ Vasto Mundo

Na véspera do referendo sobre a separação da Escócia do Reino Unido, o nacionalismo — e o contexto que levou à consulta

(Foto: Dylan Martinez/Reuters)

Véspera do referendo: “Uma oportunidade de usar nossa riqueza para a Escócia” contra “Ame a Escócia, vote não” (Foto: Dylan Martinez/Reuters)

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi, afirma membro da Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha

Artigo de Robert Skidelsky* publicado em VEJA.com

Como acredito que os escoceses são sensatos, penso que irão votar “não” para a independência esta semana. Mas, seja qual for o rumo que tome o pleito, a ascensão espetacular do nacionalismo, na Escócia e em outros países da Europa, é um sintoma de uma cena política doente.

Muitos agora estão convencidos de que a maneira como lidamos com as nossas questões atualmente não merece fidelidade inquestionável; que o sistema político encerrou o debate sério sobre alternativas econômicas e sociais; que os bancos e as oligarquias governam; e que a democracia é uma farsa. O nacionalismo promete uma fuga da disciplina de alternativas “sensatas” que no fim provam não oferecer alternativa alguma.

Os nacionalistas podem ser divididos em dois grupos principais: aqueles que genuinamente acreditam que a independência providenciará a saída de um sistema político bloqueado, e aqueles que a usam como ameaça para forçar concessões dos poderes estabelecidos. De qualquer forma, políticos nacionalistas aproveitam a enorme vantagem de não precisarem de um programa prático: tudo que é bom virá com a soberania.

Leiam também:
Celebridades opinam sobre a independência da Escócia
Para evitar separação, Grã-Bretanha promete mais recursos à Escócia

Elizabeth II pede que escoceses pensem ‘cuidadosamente’ sobre voto de independência

Embora políticas nacionalistas tenham sido suprimidas depois da II Guerra Mundial pela prosperidade econômica e pelas lembranças dos horrores do pré-guerra, a Europa oferece solo fértil para a sua volta. E não só pelo mal-estar econômico prolongado, mas porque praticamente todas as nações-estados da Europa contêm minorias étnicas, religiosas ou linguísticas geograficamente concentradas.

Além disso, a incorporação desses Estados à União Europeia – uma espécie de império voluntário – desafia a lealdade dos seus cidadãos. Consequentemente, os nacionalistas podem esperar tanto que a Europa os proteja dos seus próprios Estados, ou que seus Estados os protejam do império europeu.

É por isso que a Inglaterra deu origem simultaneamente dois nacionalismos. O Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), liderado pelo populista Nigel Farage, espera que Londres proteja a independência britânica da burocracia da UE. O Partido Nacional Escocês (SNP), liderado pelo astuto Alex Salmond, espera que Bruxelas proteja a Escócia do Parlamento “imperial” em Westmister. Dadas as condições adequadas, o nacionalismo sempre irá descobrir um “outro” contra o qual se definir.

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi. A Escócia convocou o seu primeiro Parlamento regional em 1999, dando ao SNP uma plataforma política em Edimburgo de onde fazer uma campanha pela independência. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/08/2014

às 14:40 \ Vasto Mundo

INDEPENDÊNCIA DA ESCÓCIA: A um mês do referendo, metade dos escoceses não querem a separação. Conheçam os argumentos

(Foto: ALAMY)

Nas pesquisas mais recentes, pouco mais de metade dos escoceses (cuja bandeira é a azul com a cruz diagonal branca) se mostraram favoráveis a permanecer no Reino Unido, que tem uma das bandeiras mais conhecidas do mundo (Foto: ALAMY)

Por Tamara Fisch

A data do referendo para a independência da Escócia em relação ao Reino Unido se aproxima. Daqui a um mês, no dia 18 de setembro, os escoceses votarão a favor ou contra a separação, e a disputa continua acirrada.

Para os 51% dos cidadãos escoceses que não querem a independência — o percentual dos que gostaria da separação e dos ainda indecisos varia conforme o levantamento –, há argumentos em abundância para apoiar sua opinião. A campanha Better Together, criada por escoceses que querem continuar parte do Reino Unido, listou alguns:

Parlamento escocês: com uma representação forte na legislação do Reino Unido, a Escócia tem autonomia em seu governo e, ao mesmo tempo, tem garantida a participação na forte política do Reino Unido, o que garante segurança.

Moeda: o governo britânico resiste à proposta dos nacionalistas escoceses de, em caso de separação, continuar utilizando a libra esterlina como moeda. Essa incerteza sobre algo tão vital assombra a vida de muitos dos cidadãos da Escócia.

Turbulência local e internacional: a Better Together destaca que a situação está instável tanto no plano nacional quanto no cenário global, e que a Escócia com certeza se fortalecerá pela união, que ajudará na criação de empregos e no crescimento econômico. A alternativa da independência só garante incerteza e barreiras comerciais.

Mercado: o maior parceiro comercial da Escócia é o resto do Reino Unido, cujo mercado é um dos maiores e mais bem sucedidos do mundo, além de ter a moeda mais valiosa.

Segurança: as Forças Armadas do Reino Unido são extremamente renomadas e oferecem sua proteção à Escócia. Além disso, como parte da união, a Escócia tem papel significativo no Conselho de Segurança da ONU, na OTAN e na União Europeia. Deixar o Reino Unido e continuar sob a proteção — inclusive nuclear — da OTAN representaria começar do zero a montagem de Forças Armadas próprias, a um custo inestimável.

Diversidade: ao contribuir para a grande variedade de nacionalidades, etnias e culturas que habitam o Reino Unido, a Escócia garante o enriquecimento de sua sociedade

Coabitação: com a quantidade enorme de ingleses morando na Escócia, de escoceses morando na Inglaterra e de outras diversas combinações, o Reino Unido apresenta uma interdependência muito forte entre as quatro nações que o compõem — além de Inglaterra e Escócia, o País de Gales e o Ulster (Irlanda do Norte) –, algo que cria uma identidade generalizada no lugar de definições rígidas baseadas em nacionalidade

A campanha também destaca como a colaboração entre os países membros da união resultou em instituições importantíssimas, como o respeitadíssimo complexo de comunicações (TV, rádio e internet) BBC e o Banco da Inglaterra, ambos fundados por escoceses, e o Sistema Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), criado por um inglês.

Outro ponto é a responsabilidade que a Escócia cede ao governo central. Como um país pequeno, de apenas 5 milhões de habitantes, para a Escócia é mais interessante deixar temas de maior importância, como defesa e impostos, para quem está mais equipado para lidar com eles — neste caso, o Reino Unido.

Uma dúvida muito válida em relação à independência é a de muitos indivíduos que não entendem como a separação beneficiaria a eles próprios ou à Escócia. Por que consertar o que não está quebrado?

Nessa mesma linha de pensamento, existe um certo receio em relação ao futuro nacional caso ocorra a separação. Não se sabe exatamente o que mudaria no dia a dia, mas a ideia de alterações radicais já é suficiente para assustar quem está em cima do muro.

Por mais que haja razões e razões para permanecer junto ao Reino Unido, os escoceses têm tantos motivos quanto para escolher se separar. A questão é: qual dos lados juntará mais seguidores no próximo mês?

07/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

NÚMEROS DO PAÍS DA “GERENTONA”: Brasil gasta mais em juros da dívida pública do que a desgraçada Grécia

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas:   (Foto: AP)

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas: (Foto: AP)

Sabem a Grécia, país que desde 2011 enfrenta brutal crise econômica, país que quebrou e que, para começar a se levantar, precisou do socorro da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI no valor de 110 bilhões de euros (algo como 335 bilhões de reais) — em troca de brutais medidas de arrocho que incluíram até uma redução generalizada de salários?

Pois bem, amigos do blog, endividada até a raiz dos cabelos, com crescimento econômico perto de zero, número recorde de desemprego e outros problemas colossais, a Grécia paga percentualmente MENOS juros do que o Brasil por sua dívida pública (próxima a 1 trilhão de reais): 4% anuais de seu Produto Interno Bruto (PIB), contra 5% do Brasil.

Será que Dilma exibirá esses números na campanha eleitoral como parte de seu “legado”?

27/07/2014

às 22:30 \ Vasto Mundo

No grupo de nações separatistas que existem hoje, a Escócia lidera em probabilidade de independência. O mundo ficará sabendo dia 18 de setembro

(Foto: Ivon Bartholomew)

Manifestações: em setembro do ano passado, milhares de escoceses foram às ruas exigir a independência do Reino Unido (Foto: Ivon Bartholomew)

Publicado originalmente a 25 de julho de 2014, às 14 horas

Por Tamara Fisch

Entre os mais barulhentos casos de separatismo da atualidade, um está próximo de atingir seu objetivo. Não se trata da Catalunha, na Espanha, que realizará um plebiscito informal — não previsto na Constituição e sem valor legal– a 9 de novembro. Tampouco do País Basco, em que há forças políticas há décadas defendendo a separação da Espanha e se declarando “uma nação sem Estado”, ou da Córsega, na França, onde movimento nesse sentido vem arrefecendo.

Estamos falando da Escócia, nação de 71 mil quilômetros quadrados e 5,3 milhões de habitantes que ocupa o norte da ilha da Grã-Bretanha. Em uma recente pesquisa de opinião realizada na Escócia, foi registrado o maior número de pessoas favoráveis a uma independência em relação ao Reino Unido desde que a questão começou a ser debatida mais seriamente, no final dos anos 1970. Em abril, 48% da população queriam a separação, mas a maioria — 52% — não.

O Partido Nacional Escocês, majoritário no Parlamento local, brigou duramente para que fosse realizado um referendo sobre a obtenção da independência total. Deu certo. Após prolongadas negociações entre o governo local escocês e o governo central, em Londres, regras foram estabelecidas para a consulta e a votação  marcada para o dia 18 de setembro.

O governo escocês, liderado pelo PNE, diz que essa é uma “chance única em uma geração”.

Desde 1999, quando o governo britânico aceitou o estabelecimento de um legislativo autônomo na Escócia, o país passou a ter uma grande série de temas a seu cuidado. Ficaram com o governo escocês questões envolvendo educação, saúde, crime, justiça, assuntos domésticos e desenvolvimento econômico, entre outros. Assuntos como relações internacionais, defesa, impostos, orçamento, imigração e energia nuclear continuam sob o comando do governo central, em Londres.

As maiores dúvidas em relação ao funcionamento de uma Escócia independente têm a ver com a economia.

A moeda, por exemplo. O Reino Unido decidiu não permitir que o país, nesse caso, continuasse a utilizar a libra esterlina, embora na prática nada impeça que o uso possa ser feito de forma não oficial.

Também é questionado se a Escócia seria forçada a adotar o euro caso se juntasse à União Europeia. Em teoria, a adoção da moeda comum é voluntária, mas é uma exigência do bloco que cada novo membro tenha um banco central, de forma a contribuir para o grupo em caso de necessidade, e a Escócia não poderia sediar bancos caso não tivesse uma moeda oficial. Em suma, ou o país independente poderia adotar o euro, ou teria de criar uma moeda própria, o que é absurdamente menos provável.

Outra questão é o próprio ingresso na União Europeia. A Escócia considera essenciais os benefícios trazidos pelo, mas nada está garantido, já que a nação, descolada do Reino Unido, teria de se candidatar ao título de membro como qualquer outro país.

O presidente da Comissão Europeia, João Manuel Barroso, já disse ser “extremamente difícil, se não impossível” que uma Escócia independente se filie à União Europeia, porque conseguir a obrigatória aprovação de todos os países membros seria um grande desafio para uma nação vinda de outra já pertencente ao bloco. O ingresso da Escócia certamente serviria de estímulo a nacionalismos incômodos para governos como os da Espanha (catalães e bascos), da França (bascos e corsos) ou da Itália (movimentos independentistas no norte).

Quanto à economia nacional, o governo escocês diz que a independência do Reino Unido apenas favoreceria a situação. O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, afirmou que, se a economia escocesa fosse independente, 8 bilhões de libras (cerca de 30 bilhões de reais) poderiam ter sido poupadas nos últimos cinco anos.

Há uma pesquisa, no entanto, que garante que o déficit orçamentário da Escócia é pior que o do resto do Reino Unido. O Instituto de Estudos Fiscais, órgão responsável pelo estudo, alerta que o governo escocês deve planejar a independência tomando cuidado com o otimismo exagerado.

Além da questão econômica, discute-se a crucial questão da defesa escocesa no caso de uma separação do Reino Unido. O PNE diz que montaria um novo sistema em cima das bases militares existentes — uma aérea e uma naval —, o que o secretário da Defesa britânico, Phillip Hammond, chama de “ridículo”, por insuficiente. O país independente não disporia da proteção da OTAN, a aliança militar ocidental, a não ser que decidisse aderir ao tratado que a formou — o que implicaria, entre outros pontos, em contribuir financeiramente e, em casos pontuais, com contingentes e equipamentos militares para a organização.

A Escócia faz parte do Reino Unido desde 1707, quando foi assinado o Ato da União, sob o reinado de Ana (rainha entre 1702 e 1714). Mesmo na época, muitos escoceses não aprovaram a decisão de juntar os países.

(Foto: PA)

Sobre a independência, o país ainda está dividido entre apoiadores, indecisos e opositores (Foto: PA)

Hoje, há mais integração do que parece. O próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, por exemplo, é de família escocesa e faz campanha para que a Escócia permaneça na união. “Estas ilhas realmente significam algo mais do que a soma de nossas partes, elas representam ideais maiores, causas mais nobres, valores melhores”, declarou Cameron.

Na lista de primeiros-ministros do Reino Unido desde 1707, nada menos do que onze foram escoceses — inclusive os dois antecessores de Cameron, Tony Blair (1997-2007) e Gordon Brown (2007-2010).

Várias celebridades adotaram a causa de ambos os lados. A escritora J. K. Rowling, autora da série Harry Potter, recentemente doou um milhão de libras para a campanha “Better Together” (Melhor Juntos), que apoia a unidade. Nascida na Inglaterra, Rowling é casada com um escocês e mora no país há muitos anos.

Outros artistas que defendem que a Escócia permaneça no Reino Unido são o cantor David Bowie, o ator Mike Myers e Alex Ferguson, legendário ex-treinador por 25 anos e hoje dirigente do Manchester United. Na direção oposta, os atores Sean Connery e Brian Cox apoiam fervorosamente a independência.

Nos últimos meses, têm sido feitas comparações entre o referendo ilegal realizado na Crimeia e o que deve ocorrer este ano na Escócia. A associação, no entanto, não é minimamente apropriada, já que a votação na Ucrânia foi inconstitucional e não ofereceu uma opção real de dizer “não” à anexação à Rússia. Sem contar que em nenhum dos dois países se pode dizer que haja uma democracia remotamente semelhante à britânica.

O referendo escocês é algo exigido por uma parcela significativa da população e apoiado pelo partido no poder, além de oferecer dois caminhos claros: permanecer integrante do Reino Unido ou se separar por completo.

É difícil dizer o que acontecerá em 18 de setembro. Os números estão próximos demais para determinar o resultado provável, então há especulações sobre se haverá algum tipo de mudança mesmo caso a Escócia decida permanecer no Reino Unido, pois terá ficado claro que parte do eleitorado não desejava isso.

Uma pesquisa do site What Scotland Thinks (O Que a Escócia Pensa) mostrou que, em 11 de julho, 63% dos escoceses achavam que, diante desse resultado, o parlamento nacional deve se tornar responsável também por decisões a respeito de impostos e benefícios sociais.

Uma pesquisa de opinião do mesmo site mostrou que, no momento, a maior parte dos questionados prefere que a Escócia mantenha o status quo — 45%, contra 34% que querem a independência.

Com a flutuação constante dos números, resta apenas esperar. No entanto, uma coisa parece evidente: o referendo, para um ou outro lado, não deixará para trás uma Escócia igual à de antes.

24/07/2014

às 16:22 \ Política & Cia

Carta ao Leitor de VEJA: Se os integrantes do grupo dos Brics — Dilma, inclusive — fingirem que não viram o crime do avião da Malásia e passarem a mão na cabeça do companheiro Putin, estarão se condenando ao fracasso ético e moral

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

No encontro dos Brics, um grande problema: Putin e sua atuação na Ucrânia (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O PRIMEIRO DESAFIO

Carta ao leitor da edição impressa de VEJA de 23 de julho de 2014

Uma reportagem da edição de VEJA que está nas bancas relata o que ocorreu em Fortaleza na VI Cúpula dos Brics, o grupo de países emergentes cujas iniciais deram forma à sigla – Brasil, Rússia, Índia e China, acrescidos posteriormente da África do Sul.

Dilma Rousseff e seus colegas chefes de Estado e de governo, o russo Vladimir Putin, o chinês Xi Jinping, o indiano Narendra Modi e o sul-africano Jacob Zuma, falaram bem de si próprios pela frente e, pelas costas, mal da União Europeia, do Japão e, principalmente, dos Estados Unidos.

De concreto, mesmo, emergiu da reunião a decisão de criar o que batizaram de Novo Banco de Desenvolvimento, cuja sigla em inglês é NDB, que terá como primeiro presidente um indiano e sede permanente em Xangai, o centro financeiro da China.

O NDB disporá de 100 bilhões de dólares em fundos destinados a salvar da quebra qualquer um dos cinco sócios que se meter em grossa encrenca financeira. É um FMI dos pobres ou, para quem acredita na solidez e no futuro de um grupo tão heterogêneo, um FMI dos novos ricos do mundo.

VEJA considera altamente positiva a formação de grupos econômicos destinados a aumentar o volume de intercâmbio e de comércio entre os países-membros, desde que montados com o espírito de uniformização compartilhada das qualidades de cada povo e também de contenção ou amortecimento dos arroubos destrutivos de cada um dos membros, cujas estratégias de defesa dos interesses nacionais imediatos passariam a levar em conta os objetivos permanentes do conjunto.

Isso significa que enxergamos benefícios em grupos cujos membros adeptos da democracia representativa influenciam positivamente os demais a aderir a essa consagrada forma de organização política, social e econômica – modelo que pode não ser perfeito, mas é melhor do que todas as outras opções.

Entre tantas características desejáveis desse modelo está garantir a paz, já que nunca se registrou na história nenhuma guerra entre dois países democráticos.

O que se tem até agora com os Brics, porém, é um ajuntamento de países díspares organizados em uma hierarquia, com um membro dominante na política, a Rússia de Putin, e outro na economia, a China de Jinping. Os demais são coadjuvantes com papéis secundários e destinados a seguir a liderança.

Não se ouviu em Fortaleza uma única condenação à perseguição sistemática e violenta de opositores na China ou um alerta inequívoco sobre a beligerante política externa de Putin na vizinha Ucrânia.

Mal terminou a reunião de cúpula dos Brics, o grupo já tem pela frente seu maior desafio: como reagir à derrubada de um avião comercial com 298 pessoas a bordo que cruzava o espaço aéreo da Ucrânia? O jato foi abatido por uma bateria de mísseis de fabricação russa operada por milicianos separatistas financiados, treinados e obedientes a Moscou.

Se os integrantes do grupo dos Brics fingirem que não viram o crime e passarem a mão na cabeça do companheiro Putin, estarão se condenando ao fracasso ético e moral, justamente o que destrói as chances de sucesso em todos os outros campos.

17/07/2014

às 19:30 \ Política & Cia

Banco dos Brics é uma boa ideia. Pena que Dilma haja estendido tapete vermelho ao tirano Putin, da Rússia, no momento em que ele está isolado internacionalmente — por boas razões

(Foto: Agência Brasil)

Dilma com Putin em Brasília na segunda-feira: tapete vermelho para o presidente russo no exato momento em que ele recebe sanções dos EUA e da Europa (Foto: Agência Brasil)

Apesar de um considerável tom anti-Ocidente, é uma iniciativa inteligente e ousada a criação do Banco dos Brics — sigla do grupo de grandes países em desenvolvimento que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Como se sabe, a instituição, anunciada anteontem na sexta reunião de cúpula do grupo, em Fortaleza, terá um capital de 50 bilhões de dólares, destinados a financiar projetos de infraestrutura e a serem desembolsados igualmente pelos sócios ao longo de dois anos, mais um colchão de reservas de 100 bilhões de dólares para fazer frente a eventuais crises cambiais.

Essas reservas, cujo montante poderá ser aumentado e cujo mecanismo de formação não foi anuncado em detalhes, não são suficientes para enfrentar crises de grande monta, mas sem dúvida constituem uma boa ideia e um bom começo.

A suposta “derrota” do governo brasileiro, e da presidente Dilma em particular, por não haver emplacado a presidência da entidade é muito mais fofoca de mídia do que algo com qualquer fundamento na realidade. A presidência será rotativa, cabendo o primeiro mandato à Índia — que, afinal de contas, foi quem teve a ideia do banco — e, ademais, o Brasil ficou com a presidência do Conselho de Administração.

(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Na primeira fileira, da esquerda para a direita, em seguida à presidente Cristina Kirchner, os dirigentes dos cinco países-sócios: Rússia, Índia, Brasil, China e África do Sul. Fechando a fila, Evo Morales, da Bolívia. O gesto em direção à América do Sul foi político — não se sabe se e quando o novo banco irá trabalhar com países da região (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

O fato de a gigantesca Xangai, na China, ter sido escolhida para sede do banco não reflete mais do que a evidência de que o colosso chinês, com seu Produto Nacional Bruto de 9,2 trilhões de dólares, era o destinatário inevitável da nova entidade. Se não a China, quem seria? A África do Sul, com seu PIB de 350 bi?

O convite para que governos sul-americanos — vários deles “bolivarianos”, a começar pelo desgoverno delirante de Nicolás Maduro na Venezuela — participassem de parte da cúpula dos Brics é um gesto político, uma canelada a mais que o o governo lulopetista do Brasil, autor da iniciativa do convite, quis assestar nos Estados Unidos, país com o qual a relação atual é “morna”, segundo a própria presidente Dilma.

Não se sabe se o gesto político terá consequências práticas, como um socorro da nova instituição à Argentina de Cristina Kirchner, à beira de não conseguir honrar compromissos internacionais. A óbvia prioridade do novo banco é impulsionar projetos nos cinco sócios — e mesmo para isso o dinheiro, os 50 bilhões de dólares, é curto.

O que chateia os democratas nisso tudo é o governo do Brasil haver permitido que o impacto da iniciativa ajudasse a retirar o autoritário presidente russo Vladimir Putin da situação de semipária internacional.

O lançamento do banco e o tapete vermelho estendido por Dilma a Putin ocorreram no exato e preciso momento em que a Rússia sofria sanções dos EUA e da União Europeia em represália à anexação do ex-território ucraniano da Crimeia e por, debaixo dos panos, mas notoriamente, ajudar os rebeldes ucranianos de etnia e cultura russas que querem juntar mais um pedaço do país à soberania russa.

Não bastasse isso, há evidências de que Putin, por meio de seus aliados na Ucrânia, tem as mãos sujas de sangue pela derrubada de um jato da Malaysia Airlines que matou 298 pessoas próximo à fronteira ucraniano-russa.

Dilma também não se manifestou, nem em conversas à parte com Putin, sobre as crescentes violações dos direitos humanos na Rússia.

13/07/2014

às 18:40 \ Política & Cia

AMARELAS: O Brasil deve esquecer o Mercosul, deixar a Argentina de lado e fazer, sozinho, um acordo de livre comércio com a União Europeia

(Foto: Lailson Santos)

(Foto: Lailson Santos)

O BRASIL DEVE SEGUIR SOZINHO

O economista e ex-diretor da área internacional da Fiesp diz que é hora de deixar a enrolada e endividada Argentina de lado e fazer um acordo de livre-comércio com a União Europeia

Entrevista a Duda Teixeira publicada em edição impressa de VEJA

Por nove anos, o economista Roberto Giannetti da Fonseca foi diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entidade que representa 41% do setor industrial nacional. Até o ano passado, quando deixou o cargo, trabalhou dentro dessa instituição para que o Brasil se abrisse para o mercado internacional.

Aos 64 anos, ele agora se dedica a sua consultoria econômica, a Kaduna. “Por causa da decisão de priorizar o Mercosul, o Brasil ficou muito dependente das exportações para a Argentina”, diz o economista. Para Giannetti, com o país vizinho à beira de um novo calote na dívida externa, fica claro quanto o Brasil se arrisca em não reduzir essa dependência.

A Argentina tem até o fim deste mês para pagar uma dívida com credores estrangeiros. Qual é o risco de o país dar o calote?

É bastante alto. A Argentina caiu em uma armadilha jurídica. No contrato de reestruturação da dívida, feito alguns anos atrás, há uma cláusula muito importante. Ela determina que os credores que aceitaram receber o valor da dívida com desconto devem ter um tratamento igual ao dos demais credores.

A questão é que uma parte menor dos credores, que ficou com 8% do montante, obteve na Justiça americana o direito de receber os títulos pelo seu valor de face, ou seja, 100%. Se os outros, que aceitaram receber menos, agora também entrarem na Justiça, a Argentina terá de pagar o valor integral. Isso representaria uma dívida total de 100 bilhões de dólares, muito mais do que os 28 bilhões de dólares de reserva internacional que o país tem.

O que pode ser feito, então?

A única saída é negociar com aqueles que aceitaram o desconto e tentar retirar a cláusula. Ao mesmo tempo, é necessário convencer os outros fundos, chamados de abutres, a aceitar o valor de face, mas em um prazo mais longo.

O que aconteceria se a Argentina desse o calote?

Se o calote for inevitável, os argentinos estarão diante de uma crise da maior gravidade. Eles ficarão isolados do resto do mundo. Será uma situação caótica. Qualquer propriedade do Estado argentino no exterior – imóveis, navios e contas bancárias – poderá ser penhorada para pagar aos fundos abutres.

A comunidade internacional, porém, se esforçará para evitar esse cenário. Deve haver uma nova renegociação, com a ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional) e de outras instituições. Para isso, a Argentina tem de se sentar à mesa sem arrogância, com humildade.

A palavra “abutre” não é exagerada?

Pode ser, mas a analogia não deixa de fazer sentido. Esses fundos compram títulos de dívida de países ou empresas em dificuldades por uma fração da cifra original. Depois, entram na Justiça e tentam ganhar o valor integral do devedor, arrancando o seu fígado. Pode-se não gostar deles, mas a realidade é que não há nada de novo nisso. Fundos mais agressivos existem em qualquer mercado.

O erro por parte da gestão dos presidentes Néstor e Cristina Kirch­ner foi acreditar que eles não seriam um problema no futuro. Houve um certo descaso. O governo argentino deveria ter negociado antes com os administradores desses fundos e minimizado as dificuldades. Era algo que podia ter sido evitado.

Qual seria a consequência, para o Brasil, de um calote argentino?

As consequências não seriam financeiras, já que os investidores sabem muito bem diferenciar um país do outro. Os efeitos negativos ocorreriam mais no âmbito comercial. O mercado interno argentino está em franco declínio e é o destino de mais de 20% das nossas exportações de manufaturados, como peças de automóveis, sapatos e eletrodomésticos.

Sem reservas em dólar, ou seja, se der o calote, a Argentina não terá como pagar esses bens. O volume do nosso comércio com a Argentina então cairia bastante. A perda em exportação de manufaturados pode chegar a 5 bilhões de dólares por ano.

No mês passado, o Brasil alterou o acordo automotivo com a Argentina. Antes, podíamos exportar sem imposto 1,95 dólar em carros e peças para cada dólar importado. Agora, ficou em 1,5 dólar para cada dólar importado. Ou seja, ficou mais caro exportar. Foi uma decisão acertada?

Qualquer acordo é melhor do que nada. Mas, se a crise chegar, nem essa ajuda terá efeito. Eles não terão como pagar o que importam de qualquer jeito.

Dar ênfase demais ao comércio com a Argentina foi um erro?

Certamente. Preso ao Mercosul, o Brasil deixou de assinar acordos de livre-comércio com outros países. Exportar 20% dos manufaturados para um país instável como o dos nossos vizinhos é muito arriscado. Se nossa economia fosse mais aberta, estaríamos exportando esse valor para países como Japão, Estados Unidos, Canadá ou para a Europa.

O Mercosul negocia um tratado de livre-comércio com a União Europeia há catorze anos, mas a Argentina sempre atrapalha as conversas. Qual é a probabilidade de esse país embolar o jogo novamente?

Os argentinos sempre surpreendem na última hora. Deixam a negociação seguir para avaliar até onde o Brasil é capaz de chegar. Então, quando tudo está bem adiantado, dizem que não aceitam o que foi colocado na mesa. Em 2004, o Brasil chegou muito perto de fechar com a União Europeia, mas aí houve o boicote da indústria argentina, que reclamou do risco de ter tarifas reduzidas em relação aos concorrentes europeus. Houve uma sabotagem em um momento decisivo.

Foi uma pena porque, enquanto o Mercosul fracassou, o México já havia feito um acordo com a União Europeia quatro anos antes. O Chile concluiu o seu em 2003. O tratado com a Colômbia e o Peru entrou em vigor no ano passado. O elevado desempenho da economia desses países atualmente é resultado direto desses tratados. O Mercosul, contudo, foi na contramão e preferiu ficar isolado.

Pelas regras do Mercosul, o bloco só pode decidir por consenso. O Brasil está de mãos amarradas, ou há alternativas?

Os negociadores brasileiros deveriam ter assinado o acordo com a União Europeia sem a Argentina, dando cinco anos para os nossos vizinhos se adaptarem à nova situação.

Para fazer isso, há uma saída técnica. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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