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União Européia

01/03/2015

às 19:00 \ Vasto Mundo

Anti-EUA, anti-imigrante, anti-União Europeia, estatizante: esta mulher pode ser presidente da França

(Foto: Joel Sajet/AFP)

De olho na candidatura em 2017, Marine Le Pen prega o nacionalismo de forma radical (Foto: Joel Sajet/AFP)

UNIDOS PELO NACIONALISMO

A aversão ao liberalismo e o antiamericanismo da mulher que pode se tornar a próxima presidente da França são a prova de que a direita e a esquerda se encontram nos extremos

Entrevista a Nathalia Watkins, de Estrasburgo, publicada em edição impressa de VEJA

Marion Anne Le Pen, chamada de Marine, é a favorita nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2017 na França, com 30% das intenções de voto. Advogada de 46 anos, ela comanda o partido Frente Nacional (FN), fundado por seu pai, Jean-Marie, em 1972. Marine despacha três dias por mês em seu escritório no Parlamento Europeu, do qual é deputada, em Estrasburgo, na França.

Na entrevista a VEJA, interrompida por baforadas em um cigarro eletrônico, ela se mostrou fortemente estatizante, antiamericana, protecionista e nacionalista. Embora situe no espectro de oposição à FN os políticos de esquerda (entre os quais os chavistas venezuelanos e os gregos do Syriza), ela não consegue esconder sua admiração por eles.

Podemos chamá-la de líder da extrema direita francesa?

A Frente Nacional não é um partido de extrema direita. Somos uma organização patriota, que preza o Estado-nação, o nacionalismo econômico, a independência diplomática em relação aos Estados Unidos e defende uma imigração controlada.

Na França, a direita e a esquerda desenvolveram uma mesma e frouxa política. São responsáveis pelos mesmos números elevados de imigração. Por isso, a divisão entre esquerda e direita aqui não existe. É uma miragem. A verdadeira separação é aquela entre os que defendem a nação, como nós, e os que, em benefício do comércio global, advogam o desaparecimento das nações, a abolição das fronteiras e o fim das identidades nacionais.

O atentado à redação do Charlie Hebdo, em Paris, fortaleceu o seu movimento?

Os atentados não tiveram vencedores. Só perdedores. O certo é que nós fomos os únicos que há muito tempo advertimos que tudo o que estava sendo feito no país só aumentava o poder do fundamentalismo islâmico e punha em risco nossa segurança interna.

A senhora é favorita nas pesquisas de intenção de voto para o pleito de 2017. Qual seria sua primeira medida como presidente da França?

Devolver aos franceses seus direitos, sua soberania. Hoje, com a União Europeia (UE), nossos direitos foram retirados. Não controlamos nossas fronteiras. Nosso orçamento e nossas leis são inferiores àqueles impostos pelos tecnocratas europeus. Quero o poder para devolvê-lo ao povo. Para isso, pretendo organizar um referendo sobre a saída da UE, que é um modelo totalitário.

Que dados justificariam a saída da França da UE?

Um dos continentes mais ricos do mundo está falido. Isso começou com o euro. O desemprego e a pobreza explodiram. Nossas economias estão em crise. As políticas de austeridade criaram um sofrimento imenso. Hoje a UE é sinônimo de guerra. O conflito na Ucrânia, as disputas em Kosovo, a luta econômica que coloca os povos uns contra os outros e elimina direitos sociais. Isso criou o que chamo de “dumping social”, que agora se torna também ambiental e monetário.

O que é exatamente o “dumping social”?

É a eliminação dos direitos sociais locais que exacerba a concorrência entre os trabalhadores, produzindo um efeito do qual apenas algumas multinacionais se aproveitam.

Não foi justamente o fim dos nacionalismos e do protecionismo econômico, dois pilares da UE, que garantiu tantas décadas de paz na Europa?

Isso é uma grande mentira. Foi a paz que permitiu a construção da UE, e não o contrário.

Então o que produziu a paz, em sua opinião?

Foram a vontade das nações e o aprendizado com os erros das guerras do passado que evitaram novos conflitos. Na Ucrânia, o que está acontecendo hoje é resultado da influência americana. Para defenderem seus interesses, os Estados Unidos mostrara­m-se dispostos a lançar uma guerra no seio da Europa depois de terem feito o mesmo por todo o Oriente Médio.

O que a senhora acha da coalizão internacional, liderada pelos Estados Unidos, para combater o Estado Islâmico (Isis)?

A França está indo atrás dos americanos, que estão deslegitimados naquela parte do mundo. Eles são responsáveis pelo desequilíbrio da região, pela ascensão do Isis e do fundamentalismo islâmico. Quero a França com uma diplomacia independente. Antes, tínhamos reputação e influência. Isso foi perdido. Estamos submissos à diplomacia americana. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/01/2015

às 16:15 \ Vasto Mundo

Novo governo de extrema esquerda na Grécia descarta pagamento de toda a dívida

O líder do partido esquerdista Syriza, Alexis Tsipras (Foto: John Kolesidis/Reuters)

O líder do partido esquerdista Syriza, Alexis Tsipras: prioridade do governo é a renegociação da dívida grega (Foto: John Kolesidis/Reuters)

Segundo porta-voz do partido vencedor das eleições no domingo, a Syriza, credores devem estar dispostos a negociar. A dívida do país soma 240 bilhões de euros

De VEJA.com

O principal porta-voz da equipe econômica da Syriza, o partido vencedor das eleições na Grécia neste domingo, disse nesta terça-feira à rede de notícias BBC que “é pouco realista” esperar que a Grécia pague toda a sua dívida.

Segundo Euclid Tsakalotos, os credores da União Europeia (UE) devem estar dispostos a negociar os débitos com o país. “Ninguém acredita que a dívida da Grécia seja sustentável”, declarou o representante da coalizão de esquerda.

Uma das prioridades do novo governo, cujo primeiro-ministro agora é Alexis Tsipras, é renegociar com a UE, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) uma reestruturação da dívida do Estado grego, que chega a 240 bilhões de euros. “Não conheci nenhum economista que honestamente diga que a Grécia pagará toda essa dívida. Não é possível”, afirmou Tsakalotos em entrevista à emissora britânica.

Após as eleições de domingo, os líderes da Coalizão de Esquerda Radical (Syriza) estão tentando um acordo com o partido de direita nacionalista Gregos Independentes para a formação de um novo governo. Para Tsakalotos, assim como seus pares do país, os líderes europeus também devem estar dispostos a trabalhar com a Syriza.

Leiam mais: Tsipras confirma aliança com nacionalistas para governar
Líder antiausteridade vence na Grécia e preocupa Europa

“Vai ser uma Europa muito peculiar e perigosa se (os líderes) indicarem que, após um voto democrático, não estão interessados em conversar com um novo governo”, advertiu. Ele disse ainda que se a Grécia for retirada da zona do euro, o bloco econômico será derrubado, episódio que classificou de “seu pior pesadelo”.

“Dissemos desde o princípio que a zona do euro está em perigo, mas não pela Syriza, e sim pelas políticas de austeridade”, ponderou. Apesar disso, ele assegurou que o novo governo está disposto a cooperar e a renegociar “uma solução justa, viável e de benefício mútuo”.

O partido de extrema esquerda Syriza venceu as eleições legislativas da Grécia no domingo com uma plataforma contrária ao plano de austeridade assumido pelo país anos atrás em troca de auxílio financeiro para pagar as suas dívidas. A vitória do grupo que rejeita as exigências da troika de credores — UE, BCE e FMI — coloca em risco a permanência da Grécia na zona do euro e traz ainda mais instabilidade para o bloco.

No Twitter, o premiê britânico David Cameron escreveu que o resultado “vai aumentar a incerteza econômica na Europa”.

Na segunda-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, disse que a Grécia tem que respeitar as regras da zona do euro e não pode exigir tratamento especial para sua dívida.

Na mesma linha, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente do Eurogrupo, o ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, reforçaram o compromisso que a Grécia deve manter junto aos credores internacionais. A dívida da Grécia alcançou 117% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2014, o que significa, em dados concretos, que cada grego tem uma dívida externa de 29.700 euros a pagar.

26/01/2015

às 15:15 \ Vasto Mundo

Líder de extrema esquerda vence na Grécia e preocupa Europa

Alexis Tsipras, líder do partido de extrema esquerda da Grécia: contrário aos resgates financeiros internacionais (Foto: Louisa Gouliamakis/AFP)

Alexis Tsipras, líder do partido de extrema esquerda da Grécia: busca por uma nova solução para a dívida do país, sem medidas de austeridade (Foto: Louisa Gouliamakis/AFP)

Triunfo do partido liderado por Alexis Tsipras coloca em risco a permanência do país na zona do euro; Syriza conquistou 149 das 300 cadeiras do Parlamento

De VEJA.com

O partido de extrema esquerda Syriza venceu as eleições legislativas da Grécia neste domingo com uma plataforma contrária ao plano de austeridade assumido pelo país em troca de auxílio financeiro para pagar as suas dívidas.

A vitória do grupo que rejeita as exigências da troika de credores — União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) — coloca em risco a permanência da Grécia na zona do euro e traz ainda mais instabilidade para o bloco. No Twitter, o premiê britânico David Cameron escreveu que o resultado “vai aumentar a incerteza econômica na Europa”.

Leia mais:
Premiê grego reconhece vitória de partido de esquerda
Partidos anti-UE se destacam nas eleições europeias

Discursando diante de uma multidão de seguidores em Atenas, o líder do partido Alexis Tsipras afirmou que a troika é “coisa do passado” e que, com a vitória, a Grécia “deixa a austeridade após cinco anos de humilhação”. Tsipras acrescentou que pretende negociar “uma nova solução, viável” para a dívida grega.

Com 36% dos votos, o Syriza conquistou 149 das 300 cadeiras do Parlamento, apenas duas a menos do que a maioria absoluta – que poderá ser alcançada com alianças com outros partidos. A legenda de centro-direita Nova Democracia, do atual premiê Antonis Samaras, teve 27% dos votos e obteve 76 cadeiras.

O Syriza promete renegociar a dívida do país, que soma 240 bilhões de euros (720 bilhões de reais), e afirma que vai reverter muitas das reformas exigidas pelos credores internacionais desde 2010. Tsipras declarou que não se considera vinculado às exigências da troika que, em troca de ajuda financeira, impôs um plano de austeridade econômica à Grécia. 

Durante a campanha, ele prometeu aumentar o salário mínimo, reduzir impostos para os mais pobres e negociar a dívida externa da Grécia. Na Alemanha, o presidente do Banco Central local pediu ao novo governo grego que “não faça promessas que não pode cumprir nem que o país não possa pagar”.

As promessas de acabar com o período de austeridade no país atraíram muitos eleitores gregos, descontentes com a deterioração do padrão de vida e aumento dos impostos. A retórica contra os resgates internacionais, no entanto, renova dúvidas de investidores sobre se a Grécia será capaz de sair de sua crise financeira.

Autoridades europeias temem que, com a vitória do Syriza, o país volte a ser o epicentro de uma crise no continente. Nesta segunda-feira, em Bruxelas, os ministros do Eurogrupo – os dezenove países que integram o euro – vão se reunir para analisar o resultado da eleição grega.

(Com agências EFE e AFP)

04/01/2015

às 17:30 \ Vasto Mundo

Rússia: crise econômica e outros problemas graves colocam em xeque a imagem oficial de Putin como “vencedor”

Putin entra sob aplausos nuçm dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Putin entra sob aplausos num dos salões do Kremlin: endeusamento oficial será posto à prova com a crise que a Rússia atravessa (Foto: Reuters/Alexsey Druginyn/RIA Novosti/Pool )

Por Tamara Fisch

Já há alguns anos que os cidadãos russos perceberam o surgimento de um culto ao redor da personalidade de Vladimir Putin. Presidente pela segunda vez, Putin está efetivamente no poder desde 2000.

Após dois mandatos, foi forçado a abandonar o posto por mandamento da Constituição, mas elegeu seu discípulo e primeiro-ministro Dmitri Medvedev para tapar o buraco de quatro anos até que pudesse voltar ao Kremlin.

Sem erro: em 2012, Putin estava de novo ao leme do Kremlin – e agora para um mandato não de quatro anos, mas de seis, providenciado pelo amigo junto ao dócil Parlamento, com direito a uma nova reeleição em 2018.

O início de um terceiro mandato gerou controvérsias, porque estava clara mesmo aos russos submetidos a um bombardeio de propaganda pró-Putin e carentes de uma imprensa independente a estratégia do presidente de se perpetuar no poder.

Uma pesquisa de opinião feita em outubro de 2011, com o ex-agente da KGB já eleito e a alguns meses de assumir a presidência novamente, revelou que um quarto dos russos acreditava na existência de um culto em torno de Putin.

Outros 30% viam a possibilidade do surgimento de tal adoração. Os números dizem muito quando comparados aos de um levantamento de sete anos antes, 2004, quando Putin era presidente, segundo o qual apenas 10% dos entrevistados percebiam um culto à personalidade.

O problema foi o que aconteceu depois. Na presidência (e fora dela), Putin tomou o controle dos meios de comunicação e propagou sua imagem de líder, e seus seguidores tornaram-se mais enfáticos na pregação de uma figura que teria salvo a Rússia da anarquia dos anos 90, com o colapso da União Soviética, e restaurado a união e o orgulho ao país.

O resultado foi claro. Em 2004, 10%; em 2011, 25%; finalmente, em 2014, sonoros 50% da população russa acreditam que já existe ou pode vir a existir um culto à personalidade do presidente.

Não é para menos. Desde o início do ano, com a anexação da região da Crimeia, pertencente à vizinha Ucrânia, e o consequente isolamento da Rússia no cenário mundial, a imagem do país está cada vez mais deteriorada, mas as taxas de aprovação de Putin parecem se alimentar disso.

No início de 2014, ele ostentava uma quantidade historicamente baixa de apoiadores, para os padrões de uma Rússia desprovida de liberdades públicas e com a população metralhada por propaganda oficial – pouco acima de 60%.

Em outubro, mesmo com o conflito na Ucrânia, a economia estagnada e o clima de Guerra Fria com o Ocidente, o presidente russo atingiu impressionantes 88% de aprovação. Ironicamente, a anexação da Crimeia, internacionalmente repudiada, é um dos feitos de Putin que mais contribuem para sua popularidade atual.

Os números levantam a questão: eliminado do pais o comunismo, que cultuou até extremos de delírio personalidades como as de Vladimir Lenin e, principalmente, de Josef Stálin — prática que logo se espalharia para quase todo o universo comunista –, o endeusamento oficial do líder está voltando a plena carga na Rússia?

Parece que sim. Há alguns meses, quando Putin fez 62 anos, Moscou praticamente parou devido às comemorações. Pessoas na Praça Vermelha enfrentavam filas de até duas horas para comprar camisetas estampadas com o rosto do presidente cada vez mais vitalício, que não estava nem ali para receber homenagens – ele passou seu aniversário na Sibéria, a mais de 300 quilômetros da Rússia urbanizada.

Na capital, uma mostra chamada “Os doze trabalhos de Putin” – sim, equiparando o presidente ao semideus Hércules, da mitologia grega – foi montada em comemoração à data.

Existe até uma proposta de transformar o dia 7 de outubro, aniversário de Putin, em um feriado nacional. Nada que um mero mortal mereça.

Em seu aniversário, o presidente russo foi homenageado com uma comparação a Hércules (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

O culto à personalidade: no aniversário o presidente russo foi comparado a Hércules, o semideus da mitologia grega (Foto: Vasily Maximov/AFP/Getty Images)

A ascensão do ex-chefe da KGB se deveu em grande parte à sua imagem construída de líder jovem, para os padrões da gerontocracia russa, e determinado. Tudo que corre bem no país foi e é atribuído a ele pessoalmente, mas o contrário não ocorre.

O presidente é sempre apresentado como um campeão, um vencedor, até fisicamente um forte, apesar de sua pouca altura – não se poupam sequer imagens suas se exibindo em lutas marciais, andando a cavalo sem camisa, a bordo de jatos de combate. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

22/11/2014

às 12:00 \ Disseram

Aconteça o que acontecer

“Simplesmente ficar aqui e dizer ‘Eu vou ficar (…) aconteça o que acontecer’ não vai funcionar.”

David Cameron, primeiro-ministro inglês, ao defender a renegociação dos laços entre a Grã-Bretanha e a União Europeia

18/11/2014

às 17:22 \ Vasto Mundo

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

Publicado originalmente a 17 de junho de 2011

Campeões-de-audiênciaA crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega depois da capital, os serviços de abastecimento de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.


17/09/2014

às 20:15 \ Vasto Mundo

CAIO BLINDER: Escoceses, naw, naw, naw!

(Foto: Reprodução/VEJA.com)

O primeiro-ministro da Escócia, Alex Salmond, investe incessantemente na campanha pelo “sim” à independência (Foto: Reprodução/VEJA.com)

Post publicado no blog de Caio Blinder, em VEJA.com

Há um ano, eu não acordava pensando na Ucrânia (com todo respeito por meus avós que nasceram naquelas bandas). Agora, tenho pesadelos diários (geopolíticos) por causa do belicismo de Vladimir Putin. Esta semana até a Suécia, aquele paraíso nórdico da tolerância, me deixou sobressaltado devido ao avanço da extrema-direita com raízes neonazistas nas eleições de domingo. E ainda por cima tem este referendo sobre independência na Escócia na quinta-feira para nos assustar.

É para assustar mesmo. O referendo dá uma medida de convulsões na velha Europa. Por que desfazer uma união tão bem sucedida e civilizada de 307 anos entre Inglaterra e Escócia, no casamento dentro da Grã-Bretanha?

Pelas pesquisas, metade dos escoceses não pensam assim e acham que chegou a hora do divórcio, que, no final das contas, não será tão amigável, tão fleumaticamente britânico.  Hora de dizer “sim” pela independência? Pelas pesquisas, o resultado de quinta-feira vai ser no sufoco, embora haja alertas de que os números finais podem enganar pela margem mais folgada, a favor ou contra.

Já li tantas teorias que a crise no casamento é culpa do tédio, da arrogância inglesa e do desejo de aventura dos escoceses (que tiveram esta tradição na expansão do império britânico). Outros fatores: nacionalismos e tribalismo estão em alta.

Há também uma explicação ideológica. Os escoceses estão à esquerda dos ingleses e não gostam do governo conservador em Londres (no Parlamento britânico, dos 59 deputados escoceses, apenas um é conservador).

No entanto, nada disso me convence muito, embora haja uma dose de cada explicação no drink. A Escócia não é colônia do império e preserva sua identidade nacional dentro do Reino Unido. Pelas contas, já foram onze primeiros-ministros escoceses a serviço de sua majestade. O ex-primeiro-ministro trabalhista (e escocês) Gordon Brown se tornou figura indispensável e infatigável na campanha pelo “não” no referendo.

Houve, aliás, muito descaso na campanha do “não” e agora é este desespero para recuperar o tempo perdido. Semanas atrás, parecia conversa de bêbado achar que o “sim” venceria o referendo. Agora, é uma campanha movida pelo medo, com o objetivo de aterrorizar os escoceses sobre o preço que irão pagar pelo divórcio.

Será um acerto litigioso sobre moeda, dívida, receitas, petróleo no mar do Norte e adesão à União Europeia. A retórica é apocalíptica: será o fim da Escócia, o fim da Grã-Bretanha, o fim da União Europeia. Haverá o efeito cascata de movimentos separatistas na Espanha, Itália e Bélgica. Meu Deus, até no Texas.

Alguns têm medo que esta campanha de medo irrite os teimosos escoceses e muitos decidam votar aye de pirraça. É verdade que este terror eleitoral da campanha do “better together”, melhor juntos, é acompanhada de promessas de mais poderes e controle de recursos pelo  Parlamento escocês, conforme o documento firmado na terça-feira pelo primeiro-ministro conservador David Cameron e pelos líderes trabalhista, Ed Miliband, e liberal democrata, Nick Clegg.

Eu reitero minha aposta. Para o Instituto Blinder & Blainder, este esforço que mescla terror e ternura irá funcionar a favor do naw na quinta-feira.

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17/09/2014

às 19:30 \ Vasto Mundo

Na véspera do referendo sobre a separação da Escócia do Reino Unido, o nacionalismo — e o contexto que levou à consulta

(Foto: Dylan Martinez/Reuters)

Véspera do referendo: “Uma oportunidade de usar nossa riqueza para a Escócia” contra “Ame a Escócia, vote não” (Foto: Dylan Martinez/Reuters)

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi, afirma membro da Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha

Artigo de Robert Skidelsky* publicado em VEJA.com

Como acredito que os escoceses são sensatos, penso que irão votar “não” para a independência esta semana. Mas, seja qual for o rumo que tome o pleito, a ascensão espetacular do nacionalismo, na Escócia e em outros países da Europa, é um sintoma de uma cena política doente.

Muitos agora estão convencidos de que a maneira como lidamos com as nossas questões atualmente não merece fidelidade inquestionável; que o sistema político encerrou o debate sério sobre alternativas econômicas e sociais; que os bancos e as oligarquias governam; e que a democracia é uma farsa. O nacionalismo promete uma fuga da disciplina de alternativas “sensatas” que no fim provam não oferecer alternativa alguma.

Os nacionalistas podem ser divididos em dois grupos principais: aqueles que genuinamente acreditam que a independência providenciará a saída de um sistema político bloqueado, e aqueles que a usam como ameaça para forçar concessões dos poderes estabelecidos. De qualquer forma, políticos nacionalistas aproveitam a enorme vantagem de não precisarem de um programa prático: tudo que é bom virá com a soberania.

Leiam também:
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Embora políticas nacionalistas tenham sido suprimidas depois da II Guerra Mundial pela prosperidade econômica e pelas lembranças dos horrores do pré-guerra, a Europa oferece solo fértil para a sua volta. E não só pelo mal-estar econômico prolongado, mas porque praticamente todas as nações-estados da Europa contêm minorias étnicas, religiosas ou linguísticas geograficamente concentradas.

Além disso, a incorporação desses Estados à União Europeia – uma espécie de império voluntário – desafia a lealdade dos seus cidadãos. Consequentemente, os nacionalistas podem esperar tanto que a Europa os proteja dos seus próprios Estados, ou que seus Estados os protejam do império europeu.

É por isso que a Inglaterra deu origem simultaneamente dois nacionalismos. O Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), liderado pelo populista Nigel Farage, espera que Londres proteja a independência britânica da burocracia da UE. O Partido Nacional Escocês (SNP), liderado pelo astuto Alex Salmond, espera que Bruxelas proteja a Escócia do Parlamento “imperial” em Westmister. Dadas as condições adequadas, o nacionalismo sempre irá descobrir um “outro” contra o qual se definir.

O nacionalismo escocês não foi criado por uma crise econômica recente, mas o plebiscito foi. A Escócia convocou o seu primeiro Parlamento regional em 1999, dando ao SNP uma plataforma política em Edimburgo de onde fazer uma campanha pela independência. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/08/2014

às 14:40 \ Vasto Mundo

INDEPENDÊNCIA DA ESCÓCIA: A um mês do referendo, metade dos escoceses não querem a separação. Conheçam os argumentos

(Foto: ALAMY)

Nas pesquisas mais recentes, pouco mais de metade dos escoceses (cuja bandeira é a azul com a cruz diagonal branca) se mostraram favoráveis a permanecer no Reino Unido, que tem uma das bandeiras mais conhecidas do mundo (Foto: ALAMY)

Por Tamara Fisch

A data do referendo para a independência da Escócia em relação ao Reino Unido se aproxima. Daqui a um mês, no dia 18 de setembro, os escoceses votarão a favor ou contra a separação, e a disputa continua acirrada.

Para os 51% dos cidadãos escoceses que não querem a independência — o percentual dos que gostaria da separação e dos ainda indecisos varia conforme o levantamento –, há argumentos em abundância para apoiar sua opinião. A campanha Better Together, criada por escoceses que querem continuar parte do Reino Unido, listou alguns:

Parlamento escocês: com uma representação forte na legislação do Reino Unido, a Escócia tem autonomia em seu governo e, ao mesmo tempo, tem garantida a participação na forte política do Reino Unido, o que garante segurança.

Moeda: o governo britânico resiste à proposta dos nacionalistas escoceses de, em caso de separação, continuar utilizando a libra esterlina como moeda. Essa incerteza sobre algo tão vital assombra a vida de muitos dos cidadãos da Escócia.

Turbulência local e internacional: a Better Together destaca que a situação está instável tanto no plano nacional quanto no cenário global, e que a Escócia com certeza se fortalecerá pela união, que ajudará na criação de empregos e no crescimento econômico. A alternativa da independência só garante incerteza e barreiras comerciais.

Mercado: o maior parceiro comercial da Escócia é o resto do Reino Unido, cujo mercado é um dos maiores e mais bem sucedidos do mundo, além de ter a moeda mais valiosa.

Segurança: as Forças Armadas do Reino Unido são extremamente renomadas e oferecem sua proteção à Escócia. Além disso, como parte da união, a Escócia tem papel significativo no Conselho de Segurança da ONU, na OTAN e na União Europeia. Deixar o Reino Unido e continuar sob a proteção — inclusive nuclear — da OTAN representaria começar do zero a montagem de Forças Armadas próprias, a um custo inestimável.

Diversidade: ao contribuir para a grande variedade de nacionalidades, etnias e culturas que habitam o Reino Unido, a Escócia garante o enriquecimento de sua sociedade

Coabitação: com a quantidade enorme de ingleses morando na Escócia, de escoceses morando na Inglaterra e de outras diversas combinações, o Reino Unido apresenta uma interdependência muito forte entre as quatro nações que o compõem — além de Inglaterra e Escócia, o País de Gales e o Ulster (Irlanda do Norte) –, algo que cria uma identidade generalizada no lugar de definições rígidas baseadas em nacionalidade

A campanha também destaca como a colaboração entre os países membros da união resultou em instituições importantíssimas, como o respeitadíssimo complexo de comunicações (TV, rádio e internet) BBC e o Banco da Inglaterra, ambos fundados por escoceses, e o Sistema Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), criado por um inglês.

Outro ponto é a responsabilidade que a Escócia cede ao governo central. Como um país pequeno, de apenas 5 milhões de habitantes, para a Escócia é mais interessante deixar temas de maior importância, como defesa e impostos, para quem está mais equipado para lidar com eles — neste caso, o Reino Unido.

Uma dúvida muito válida em relação à independência é a de muitos indivíduos que não entendem como a separação beneficiaria a eles próprios ou à Escócia. Por que consertar o que não está quebrado?

Nessa mesma linha de pensamento, existe um certo receio em relação ao futuro nacional caso ocorra a separação. Não se sabe exatamente o que mudaria no dia a dia, mas a ideia de alterações radicais já é suficiente para assustar quem está em cima do muro.

Por mais que haja razões e razões para permanecer junto ao Reino Unido, os escoceses têm tantos motivos quanto para escolher se separar. A questão é: qual dos lados juntará mais seguidores no próximo mês?

07/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

NÚMEROS DO PAÍS DA “GERENTONA”: Brasil gasta mais em juros da dívida pública do que a desgraçada Grécia

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas:   (Foto: AP)

Manifestação contra cortes de gastos públicos e demissões em Atenas: (Foto: AP)

Sabem a Grécia, país que desde 2011 enfrenta brutal crise econômica, país que quebrou e que, para começar a se levantar, precisou do socorro da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI no valor de 110 bilhões de euros (algo como 335 bilhões de reais) — em troca de brutais medidas de arrocho que incluíram até uma redução generalizada de salários?

Pois bem, amigos do blog, endividada até a raiz dos cabelos, com crescimento econômico perto de zero, número recorde de desemprego e outros problemas colossais, a Grécia paga percentualmente MENOS juros do que o Brasil por sua dívida pública (próxima a 1 trilhão de reais): 4% anuais de seu Produto Interno Bruto (PIB), contra 5% do Brasil.

Será que Dilma exibirá esses números na campanha eleitoral como parte de seu “legado”?

 

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