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nacionalismo

24/04/2014

às 20:30 \ Tema Livre

VÍDEO: Pep Guardiola, favorável à separação da Catalunha da Espanha, defende o uso do idioma catalão… em plena Madri

Pep Guardiola fala a jornalistas no estádio Santiago Bernabéu, em Madri: em catalão, por favor (Foto: Real Madrid)

Pep Guardiola fala a jornalistas no estádio Santiago Bernabéu, em Madri: em catalão, por favor (Foto: Real Madrid)

Um dos melhores técnicos do mundo, Pep Guardiola também não faria feio em uma competição entre poliglotas.

Nas entrevistas coletivas que concedia quando comandava o Barcelona (2008-2012), naquele que entrou para história como o melhor período da história do clube, o treinador nascido há 43 anos em Sampedor, interior da Catalunha, não raro dava um verdadeiro show.

Respondia a uma pergunta em seu idioma nativo, o catalão, em seguida tecendo algum comentário em espanhol. Instantes depois recorria, sem hesitar, ao italiano – como jogador, atuou por dois anos no Brescia – ou ao inglês para rebater observações de jornalistas estrangeiros.

No entanto, o momento mais glorioso a contribuir para sua fama de talentoso poliglota ocorreu em julho do ano passado, quando surpreendeu a todos ao responder em alemão, com notável desenvoltura, as primeiras perguntas que ouviu em entrevista coletiva como técnico de seu novo time, o Bayern de Munique. Falei deste episódio neste post.

Poliglota, mas sem – nunca – abrir mão do catalão

Todo este repertório, porém, parece não abalar nenhum fiapo do orgulho independentista catalão de Guardiola.

Separatista assumido – embora tenha defendido a seleção espanhola enquanto jogador -, ele em 2012 chegou a aparecer em vídeo apoiando oficialmente a campanha pela transformação da Catalunha, comunidade autônoma pertencente à Espanha, em um país. “Desde Nova York, aqui vocês têm mais um”, dizia o técnico, que à época passava um ano sabático na Grande Maçã.

E na quarta-feira, dia da derrota por 1 a 0 de seu Bayern para o eterno rival de seu ex-clube, Real Madrid, Pep voltou a dar seu recado soberanista.

Estava nos vestiários do estádio Santiago Bernabéu, em Madri, do espanholíssimo time da casa, representando uma entidade alemã, o Bayern. Até que um repórter da Catalunya Radio, Francesc Garriga, afirmou, antes de formular questão a Guardiola, que sofrera represália da UEFA por ter lhe perguntado em catalão na entrevista coletiva anterior, e que usaria o espanhol.

Ao escutar a explicação, o treinador não arredou pé e comprou a briga: “você está enganado. Pode sim me perguntar em catalão”. O jornalista atendeu a seu pedido, em seguida traduzindo sua pergunta ao castelhano. Pep, é claro, utilizou o mesmo método “tecla sap” para retrucar. Assistam:

 

 

24/04/2014

às 12:00 \ Disseram

As tendências da Europa

“O nacionalismo não é apenas a guerra, é o egoísmo. O hegemonismo é o egoísmo. E se temos uma crise política hoje na Europa é talvez porque existem tendências hegemônicas na Europa.”

Daniel Cohn-Bendit, em sua última intervenção como eurodeputado; o líder das revoltas estudantis de maio de 1968 na França ficou vinte anos no Parlamento Europeu

31/03/2014

às 17:00 \ Política & Cia

50 ANOS DO GOLPE MILITAR: FHC lamenta: “Faltam-nos crença na democracia e grandeza na vida política”

(Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

O ex-presidente em sua sala no Instituto que leva seu nome, em São Paulo: militares golpistas não tinham projeto (Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

Entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo

se entre ser socialista nos modos e marxista nas ideias. E fazia a cabeça da estudantada da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

Daí o golpe se consumou e o professor Fernando Henrique teve que sumir. Vazou, como se diz hoje. “Quando os policiais chegaram na Maria Antonia (nome da rua onde ficava a faculdade, em São Paulo) para me prender quase levaram o (filósofo) Bento Prado, achando que era eu”, comenta o ex-presidente ao lembrar de um tempo em que precisou pular de casa em casa, de cidade em cidade, às escondidas, até se fixar no Chile, para onde seguiram a mulher, Ruth Cardoso, e os filhos pequenos.

entrevista que se segue, o trigésimo-quarto mandatário brasileiro reflete sobre a ditadura e conclui que ela não chegou a desmontar o Estado regulador. “Falam tanto em neoliberalismo, mas nunca tivemos isso no País. Já liberalismo político, esse eu até gostaria que houvesse mais”.

A 50 anos do golpe que o levou para o exílio e aos 82 de idade, Fernando Henrique, deixa passar uma nota de amargura: “Não estamos em condição de ensinar democracia a ninguém, porque há muito a aprender. Faltam-nos, sobretudo, crença na democracia e grandeza na vida política.”

Onde o senhor estava quando tudo aconteceu, 50 anos atrás?

Semanas antes do golpe, quando houve aquele comício da Central do Brasil, eu estava no Rio, onde vivia meu pai. Passei pelo comício e embarquei lá mesmo, rumo a São Paulo.

Era 13 março. No trem estavam o (hoje ex-ministro) José Gregori, o (hoje ex-deputado federal) Plínio de Arruda Sampaio, com quem eu acabaria me reencontrando no exílio, e um rapaz chamado Marco Antonio Mastrobuono, que depois viria a casar com a Tutu, filha do Jânio Quadros.

Viemos conversando ao longo da viagem sobre a situação. Ali ninguém era entusiasta do Jango, eu também não era. Embora meu pai fosse um militar nacionalista, que inclusive havia sido deputado pelo PTB.

Seu pai era um nacionalista. E o senhor?

Um socialista. Tivera contato com o comunismo nos anos 1950, mas àquela altura, depois do stalinismo, não sobravam ilusões. Também não tinha ilusão de que o Jango seria algo extraordinário ao país, porque ele era um populista e eu, um acadêmico. E, na universidade, tínhamos a convicção de que as mudanças viriam da luta de classes, não do populismo.

Pois bem, chegando a São Paulo, encontrei um clima de grande agitação. Nessa época o Darcy (Ribeiro) já havia sido nomeado chefe da Casa Civil do Jango. E era muito amigo da minha família.

Nós nos falamos algumas vezes por telefone naqueles dias e isso terminou me trazendo uma dor de cabeça tremenda, pois o aparelho do Darcy estava grampeado e fui grampeado, também.

O que aconteceu exatamente?

O Darcy um dia me disse que viria a São Paulo e eu comentei “vem com cuidado aí com o Grupo dos Onze” (grupo de resistência radical concebido em 1963 pelo então governador gaúcho Leonel Brizola).

Disse aquilo por dizer, sem qualquer intenção, porque havia acontecido uma violência contra o ministro da Reforma Agrária do Jango, em São Paulo, algo assim. Esse comentário grampeado iria me complicar no futuro, quando fui processado na Justiça Militar.

Mas, na noite do golpe, lá na Maria Antonia, havia mesmo muita confusão. Eu exercia certa influência sobre alunos e professores mais jovens, embora fosse jovem também – tinha só 33 anos, mas já fazia parte do Conselho Universitário. Muitos dos meus colegas achavam que o golpe era do Jango e dos generais leais a ele, o Amaury Kruel, o Osvino Ferreira Alves.

A confusão era tanta que eu telefonei para o Luiz Hildebrando da Silva, que era da Medicina da USP e ligado ao Partidão (o então clandestino Partido Comunista Brasileiro), dizendo para ele vir até a Maria Antonia, pois estavam preparando um manifesto contra um golpe do presidente. E não um manifesto contra o golpe no presidente! Veja como estávamos perdidos na USP, isolados da vida política, mergulhados num marxismo teórico.

Vou contar uma passagem estapafúrdia: naqueles dias soubemos que haveria uma resistência armada no Sul e então o Bento Prado, o (cientista social) Leôncio Martins Rodrigues, o Paulo Alves Pinto, que era sobrinho do general Osvino, e eu cogitamos tomar um aviãozinho no Campo de Marte para lutar no Sul.

Ainda bem que não houve luta alguma (ri). Então, assim foi a minha última noite andando pela rua Maria Antonia. No dia seguinte, a polícia apareceu por lá para me prender. Quase levaram o Bento Prado, pensando que fosse eu.

Como escapou de ser preso na Maria Antonia?

Alunos meus ficaram nas esquinas, à espreita, para me avisar que a polícia estava lá, assim que eu me aproximasse. Acabei não indo à faculdade e naquela noite dormi na casa de um amigo, o cineasta Bráulio Muniz. Continuei me escondendo, daí fui para o Guarujá na casa do (fotógrafo) Thomas Farkas, com o Leôncio. E a Ruth (Cardoso), minha mulher, ficou aqui, tentando entender o que se passava.

Ruth procurou o Honório Monteiro, que fora ministro do presidente Dutra e era meu colega no Conselho Universitário. O Honório tentou interferir a meu favor junto ao Miguel Reale, então secretário de Segurança. Mas o Reale respondeu que no meu caso não havia o que fazer, porque “esse professor Cardoso não é só teórico, mas prático também”.

Outro amigo, o (economista, museólogo e autor teatral) Maurício Segall, que já se ocupava de organizar fugas, achou que eu tinha que cair fora, não havia condições de ficar no país. Saí por Viracopos e fui para Argentina, para a casa de um ex-colega meu na França, que mais tarde viria a ser ministro do Kirchner, o José Nun.

Tive convite para lecionar na Universidade de Buenos Aires, mas também convite para trabalhar na Cepal, no Chile. Preferi ir para o Chile. Meses depois Ruth veio ao meu encontro, com as crianças, e lá ficamos anos.

Voltou ao Brasil nesse período?

Duas vezes. Eu me encontrei em Paris com (o professor e crítico literário) Antonio Candido, que dava aulas por lá, e ele me ajudou a voltar ao Rio para ver meu pai. Era 1965. Quando meu pai morreu, eu estava no Chile, mas já com passaporte validado, portanto voltei para o enterro. Houve uma missa com muitos oficiais e um deles chegou perto do meu irmão para dizer, referindo-se a mim: “Ou ele vai embora ou vai ser preso”.

Vim para a casa do (empresário e editor) Fernando Gasparian, em São Paulo, dormi outra noite na casa do (sociólogo) Pedro Paulo Popovic, e regressei ao Chile. Acabei não sendo preso.

Houve o processo contra mim na Justiça Militar, com acusações ridículas, entre as quais aquela envolvendo o telefonema grampeado do Darcy, e outras histórias vindas da universidade, de colegas que naquele momento dedo-duraram bastante, mas depois virariam ultra-esquerdistas.

O general Peri Bevilacqua, neto do Benjamin Constant e homem ligado à minha família, foi quem me deu um habeas corpus anos depois (no Superior Tribunal Militar, de que era ministro). Mais tarde ele seria cassado, também. Pude devolver as medalhas do general para a família dele, quando estava na Presidência.

O que o senhor pesquisava na época do golpe?

O empresariado brasileiro. Foi minha tese de livre-docência, defendi em 1963 e publiquei-a no ano seguinte.

Contestava a visão da esquerda de que havia uma aliança dos latifundiários com os imperialistas, contra a burguesia nacional e o povo. Isso era bobagem. Os empresários tinham ligação com o campo e não eram antiimperialistas, com exceção de dois ou três. A esquerda apostava no papel progressista da burguesia nacional e eu tinha uma visão crítica em relação a isso.

Disse que não se entusiasmava por João Goulart. Como o definiria?

Jango não era de assustar ninguém e hoje seria um político muito mais tranquilo do que qualquer um desses governantes populistas da América Latina. Mas, no contexto da Guerra Fria, e pelos contatos que tinha com os comunistas, representava o horror naquele momento.

Vi isso acontecer de novo no Chile. Allende era um reformista e virou o belzebu. Enfim, Jango era um político brasileiro tradicional, populista, um latifundiário que nunca quis fazer revolução alguma. Levantava a bandeira das reformas de base e ninguém sabia exatamente o que eram.

Olhando sociologicamente: tínhamos o mundo contingenciado pela Guerra Fria, porém o Brasil começava a se encaixar no eixo dos investimentos estrangeiros, desde o Juscelino. Havia crescimento industrial, forte migração campo-cidade e um Estado incompetente para atender às demandas de uma sociedade que crescia.

Então, a população começou a se movimentar e ir para as ruas. Nós, acadêmicos, estávamos tão entretidos com os debates teóricos, que quando nos demos conta as ruas tinham entrado na universidade!

Qual era o projeto dos militares em 1964? Submeter o País a uma modernização imposta de cima para baixo?

Acho que nem tinham projeto. Setores pensavam de forma diferente e foram variando de posição até o final. O general Amaury Kruel (foi ministro da Guerra de Jango), por exemplo, foi um que variou até o momento do golpe. Mesmo o general Mourão, de Minas, não tinha noção do que deveria ser feito.

Quem tinha? Os oficiais da Escola Superior de Guerra, o grupo do Castello Branco. Esses sabiam que seria importante empreender no País a modernização conservadora. Mas, veja só, entregaram a economia ao (Otávio Gouveia de) Bulhões e ao (Roberto) Campos, que por sua vez saíram atrás da modernização capitalista – arrocho fiscal, arrocho salarial, tudo feito a machadinhas, o povo pagando um preço alto.

Implantaram um programa austero, que deu na explosão econômica dos anos 70. Ora, quem fez isso não foram os militares, mas o Bulhões e o Campos. Havia necessidade de modernizar o capitalismo brasileiro. E, consequentemente, frear o avanço do setor estatal. Até porque o Juscelino já tinha feito o enganche do país com o setor produtivo global e os militares sabiam disso.

O senhor acha que o regime, no seu primeiro momento, tratou de sepultar o legado varguista?

O Castello, talvez. A verdade é que os militares já estavam claramente divididos, e isso era visível no Clube Militar: havia o setor ultranacionalista e o setor democrático-liberal. Este se aproximava dos Estados Unidos. E o ultranacionalista, embora não engolindo os russos, achava que eles funcionavam como contrapeso ao poderio americano.

Isso, evidentemente, tem a ver com as posturas “ser Getúlio” ou “ser anti-Getúlio”, levando-se em conta que o Getúlio simbólico foi sempre o nacionalista-estatizante. É interessante notar como era o contexto da época: os militares nacionalistas-estatizantes, que nunca confiaram nas forças do mercado, eram chamados de esquerda, o que era exagero. E os democráticos-liberais eram vistos como direita, outro exagero.

Daí o regime foi se radicalizando.

Exato, foi radicalizando a tendência autoritária. Isso não foi pretendido no começo, mas foi se formando. E virou um monstro que, não fosse o (general Ernesto) Geisel ter-se oposto, justo ele, um nacionalista-estatizante, correríamos o risco de cair numa direita fascista. Uma direita que se justificaria pelo apego à ordem, e não pelo desenvolvimento capitalista.

Cabe ainda muita pesquisa sobre o período, para analisar com objetividade e entender como tudo aconteceu ao largo de um intenso processo de industrialização e urbanização. São Paulo, em meados da década de 70, crescia 5% ao ano. Havia mais de cinco milhões de pessoas vivendo aqui. Tivemos um crescimento econômico que não correspondeu ao social.

Isso começa a ser corrigido com a redemocratização e vem até agora. Penso que hoje, de novo, vivemos algo parecido. Não se tem mais a mobilidade rural-urbana do passado, mas uma intensa mobilidade social. As pessoas querem mais e o Estado não tem como dar.

Instalados no poder, os militares trataram de providenciar uma fachada de legalidade ao regime. Chegaram a falar em “democracia relativa”.De fato, eles nunca aceitaram que o regime não fosse visto como democrático.

Confira parte da entrevista de FHC no vídeo abaixo:

28/10/2013

às 16:30 \ Política & Cia

Reynaldo-BH: os governos lulopetistas e a ditadura militar — semelhanças, ou meras coincidências?

Como no tempo da ditarura militar, atualmente a política econômica é tratada como segredo de estado

“Como no tempo da ditarura militar, atualmente a política econômica é tratada como segredo de Estado”

Post do leitor Reynaldo-BH

Coincidências

Post-do-Leitor11 – Censura

Ditadura militar: controle sobre a imprensa, com um comitê designado pelos militares (os censores) que liberava o que era pró-”milagre” ou se abstinha de críticas e censurava notícias em contrário.

Lulopetismo: obsessão pelo controle social da mídia em que os novos censores seriam escolhidos pelo Estado (como na ditadura) com poderes para interferir em conteúdos.

2 – Imprensa paga

Ditadura militar: Amaral Neto e O Cruzeiro são exemplos.

Lulopetismo: blogs oficiais e algumas revistas/jornalistas/colunistas que se dizem progressistas. Pagos do mesmo modo.

3 – Bipartidarismo

Ditadura militar: dois partidos, a Arena e o MDB, e as “sublegendas” que abrigavam as correntes dentro de cada um deles.

Lulopetismo: base alugada que se reduz a uma posição de “contra x a favor”.

4 – Judiciário

Ditadura militar: intimidação e escolha de dóceis ministros do Supremo, de modo a não contrariar a ditadura.

Lulopetismo: Sem comentários.

5 – Legislativo

Ditadura militar: domínio total dobre o Poder Legislativo.

Lulopetismo: idem, com uso de emendas e acordos regionais. Tentativa de ir mais fundo, com o mensalão.

6 – Obras faraônicas

Ditadura militar: Transamazônica, hidrelétrica de Itaipu e Ponte Rio-Niteroi, entre outras.

Lulopetismo: Ferrovia Norte-Sul, transposição do Rio São Francisco.

(As propagandas são AS MESMAS! O Brasil que nunca houve antes!)

7 – Obras de papel

Ditadura militar: Angra 3, 4, etc.

Lulopetismo: Trem-bala

Obras gigantescas são marcas registradas dos dois períodos: na ditadura militar, foi a transamazônica e a Angra III, e no lulopetismo a transposição do Rio São Francisco e o trem-bala (Fotos: ABr :: Hans von Manteuffel :: VEJA :: Presidência da República)

Obras faraônicas, nem sempre concluídas, são marcas registradas dos dois períodos: na ditadura militar, a Transamazônica e a Angra III (fotos da coluna à esquerda), e no lulopetismo a transposição do Rio São Francisco e o trem-bala (Fotos: ABr :: Hans von Manteuffel :: VEJA :: Presidência da República)

8 – Slogans

Ditadura militar: “Ninguém segura este país.”

Lulopetismo: “Nunca antes neste país.”

9 – Aparelhamento

Ditadura militar: em cada ministério, um exército de militares da reserva, sobretudo nas extintas áreas de informação de cada um deles.

Lulopetismo: em cada ministério, um exército de sindicalistas.

10 – Demonização

Ditadura militar: “Brasil! Ame-o ou deixe-o!”

Lulopetismo: todos os adversários são inimigos. FHC é o culpado de tudo, até da seca no Nordeste.

11 – Estatais

Ditadura militar: em nome de um nacionalismo caolho, criaram-se dezenas de estatais.

Lulopetismo: quase sem comentários. Para o pré-sal, não bastava a Petrobras: criou-se também a PPSA.

12 – Economia

Ditadura militar: o mundo estava errado e o Brasil certo.

Lulopetismo: idem, ibidem.

13 – Corrupção

Ditadura militar: nunca houve uma condenação de militares corruptos (não existiu nenhum?)

Lulopetismo: são todos inocentes mesmo com provas em contrário.

14 – Divisão de poderes

Ditadura militar: entre os falcões e os moderados das Forças Armadas, ficando em segundo plano a capacitação do indicado ao cargo.

Lulopetismo: entre os partidos da base e correntes do PT, ficando em segundo plano a capacitaão do indicado ao cargo.

15 – Medo

Ditadura militar: dos comunistas.

Lulopetismo: dos direitistas raivosos — denominação reservada à maioria dos críticos e adversários do governo.

Tanto ontem como hoje, a escolha de ministros para o STF era feita de modo a não contrariar o governo (Foto: Creative Commons - CC BY 3.0)

“Tanto ontem como hoje, a escolha de ministros para o STF era feita de modo a não contrariar o governo” (Foto: Creative Commons – CC BY 3.0)

16 – Inimigos preferenciais

Ditadura militar: os democratas.

Lulopetismo: os democratas.

17 – Previsão temporal

Ditadura militar: eterna.

Lulopetismo: a eternidade.

18 – Eleições

Ditadura militar: valia tudo. O importante era ter os mais de 70% (em média) que conseguiam nas urnas.

Lulopetismo: Gilberto Carvalho, Dilma e Lula já responderam: “o bicho vai pegar” e a eles vão “fazer o diabo” nas eleições.

19 – Segredos

Ditadura militar: tudo na economia era secreto. Nada revelado

Lulopetismo: perguntem ao BNDES. A partir de 2027, por favor.

20 – Política externa

Ditadura militar: apoiando e ajudando as ditaduras do Chile, Uruguai, Paraguai e outras na América Latina.

Lulopetismo: apoiando e ajudando as ditaduras de Cuba, Venezuela, Angola, Mianmar, Líbia de Kadhafi, Coreia do Norte e qualquer outra que se enquadra na diplomacia ideológica (já abandonada até pela China).

CONCLUSÃO

Lula e Dilma são como os generais de ontem. (Óbvio que não me refiro à tortura e assassinatos. Mas somente divergir nisto é suficiente?). Um passando o poder ao outro. Legitimados por eleições, como era a Arena. Usando de TODOS os meios para se manter no poder. Mentindo. Acusando. Demonizando. Manipulando. Intimidando.

Se antes coronéis aposentados mandavam em estatais e gritavam “sentido!”, hoje sindicalistas incultos, despreparados, ignorantes e desonestos estão nos mesmos cargos e gritam “presente!”.

Se antes o Brasil se alinhava a um “americanismo” de extrema-direita com as ditaduras do Cone Sul, hoje estamos alinhados com o bolivarianismo (seja o que isto for) de uma América Latina que parece condenada a ser um poço de atraso.

Se antes tínhamos uma ditadura, hoje, se os democradas não reagirem, caminhamos para outra.

Disfarçada. Aprendeu com a outra. Mas tão perniciosa quanto.

17/12/2012

às 17:00 \ Política & Cia

José Goldemberg: A crise de energia e suas causas

O País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelé­tricas, uma fonte limpa e reno­vável de energia (Foto: VEJA.com)

O País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelétricas, uma fonte limpa e renovável de energia (Foto: VEJA.com)

Publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo

A CRISE DE ENERGIA E SUAS CAUSAS

 

O sistema energético brasileiro foi montado ao longo dos últimos cem anos e funcionou relativamente bem até recentemente  o País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelétricas, uma fonte limpa e renovável de energia, e se tornou também quase autossuficiente na produção de petróleo.

A eletricidade foi introduzida no Brasil por empresas estrangeiras (e uns poucos empreendedores nacionais) no fim do século 19 e só começou a dar problemas quando, em meados do século 20, o governo federal impediu reajustes das tarifas que compensassem os investimentos. Investir em eletricidade deixou, então, de ser atraente para o setor privado.

A solução foi a criação da Eletrobrás e empresas estatais nos Estados, verdadeiras agências de desenvolvimento regional que – com recursos públicos – construíram usinas hidrelétricas  As empresas estatais do setor elétrico revelaram, no início, grande dinamismo, mas se tornaram burocráticas e pesadas. A tentativa do governo Fernando Henrique Cardoso de privatizá-las só funcionou parcialmente em razão de interesses das corporações que se formaram dentro e em torno delas.

As distribuidoras, como a Light, foram privatizadas, mas a transmissão e a geração, de modo geral, permaneceram em empresas estatais.

No caso do petróleo, o País era totalmente dependente de importações até meados do século 20, mas a Petrobrás conseguiu nos levar quase à autossuficiência, o que foi um grande avanço. Contudo a euforia nacionalista criada pela descoberta de petróleo a grandes profundidades e no pré-sal levou a empresa a um programa gigantesco de obras que não era capaz de realizar sozinha, o que nos levou de volta à importação de combustíveis, a obras atrasadas e a uma queda do valor das ações da Petrobrás.

Como o governo se recusa a reajustar os preços dos combustíveis desde 2007, a situação atual é que a empresa importa gasolina a preços internacionais – que subiram muito nos últimos anos – e vende essa mesma gasolina a preços congelados no nível de 2007, perdendo dinheiro e pondo-a no vermelho.

Uma consequência imediata dessa situação é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar. Esse é o melhor programa de energia renovável que surgiu no mundo nos últimos 20 anos. Sucede que, como o petróleo e derivados subiram de preço internacionalmente  os insumos utilizados na produção de álcool – como fertilizantes - subiram também.

Uma consequência imediata da política pública energética é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar (Foto: Getty Images)

Uma consequência imediata da política pública energética é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar (Foto: Getty Images)

Hoje é mais caro produzir um litro de etanol do que cinco anos atrás. Impedir o reajuste do preço do álcool, de forma que ele possa competir favoravelmente com a gasolina, torna inviável a sua produção, que já caiu de 27 bilhões de litros por ano para 22 bilhões em 2012. Com a atual política de preços dos derivados de petróleo sofre a Petrobrás  com prejuízos crescentes, e sofrem os produtores de etanol  pondo em risco mais de 1 milhão de empregos que essa atividade agroindustrial privada criou.

Os três pilares da política energética do País - eletricidade  petróleo e etanol – estão, portanto, em crise, causada por políticas equivocadas do governo da União adotadas nos últimos anos.

Como pode isso acontecer depois de um século de relativo sucesso?

A resposta é relativamente simples: uma mistura de política e incompetência.

 

A influência política revela-se de duas formas:

- Um nacionalismo exacerbado na exploração do petróleo, afastando parcerias com empresas internacionais com competência na área de pesquisa e produção em águas profundas e uma obsessão pela ideia da “modicidade tarifária” no custo da eletricidade, que tenta

- baixar as tarifas quando esses custos são crescentes e diferenciados. Os leilões para contratação de energia elétrica são sempre realizados pelo menor preço, independentemente de onde e da forma como ela é produzida  o que é um contrassenso, da mesma forma que seria exigir que qualquer tipo de carne (filé mignon ou costela) tivesse o mesmo preço no mercado.

 

As demandas por modicidade tarifária originam-se nos setores industriais eletrointensivos, como o de alumínio, que desejam tarifas mais baixas, e em setores populistas do governo, que tentam tratar a energia elétrica como se fosse uma “Bolsa-Família”.

Essa política levou o governo a baixar uma medida provisória fixando exigências para a prorrogação por mais 30 anos das concessões de exploração das usinas hidrelétricas como um meio de baixar as tarifas. Tal medida se propunha a eliminar o custo exagerado – na visão do governo – da geração, uma vez que os investimentos feitos pelas concessionárias já foram pagos.

Todas as questões relativas a acertos de contas e compensações pela extinção das atuais concessões parecem ter sido levadas a efeito por técnicos alheios aos problemas reais do setor, como se pode ver, por exemplo, quando a Eletrobrás reivindica compensações de cerca de R$ 30 bilhões e o governo estima que ela só tem direito a R$ 13 bilhões.

Ao que tudo indica, enfrentamos no setor de energia uma situação parecida com a que levou o presidente da França Georges Benjamin Clemen­ceau, durante a II Guerra Mundial, a declarar que a guerra “é uma coisa demasiadamente grave para se deixar nas mãos dos militares” – no caso presente, dos tecnocratas do setor energético.

Seria preciso que setores mais amplos da sociedade fossem ouvidos a respeito dessas questões, um dos quais é o Conselho Superior de Política Energética - praticamente desativado nos últimos dez anos e que se tornou, na prática, um órgão de homologação de decisões do governo.

17/11/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

REPORTAGEM ESPECIAL E IMPERDÍVEL: O mundo prende a respiração: a gigante China troca de comando

NOIVOS DE XANGAI -- Casal  posa para sessão de fotos antes do casamento, ocasião em que o álbum tem de estar pronto para ser exibido aos convidados (Foto: Adam Dean)

NOIVOS DE XANGAI -- Casal posa para sessão de fotos antes do casamento, ocasião em que o álbum tem de estar pronto para ser exibido aos convidados (Foto: Adam Dean)

Reportagem de Thaís Oyama, de Pequim, publicada em edição impressa de VEJA 

 O GRANDE TESTE DA CHINA

O país que mais influencia a prosperidade mundial faz a maior troca de comando da década. Os novos líderes assumirão em meio a um dilema: para manter a China crescendo será preciso arejar o regime, mas um movimento equivocado pode ser desastroso. O mundo aguarda com a respiração suspensa

Pequim tem mais de 3000 anos de história, mas para o visitante a efemeridade da vida é a primeira lembrança que ela evoca. Andar em um táxi na capital da China pode ser uma experiência aterradora.

Os motoristas guiam em zigue-zague, têm fixação pela buzina e horror ao cinto de segurança, que socam no vão do banco de modo que nem por mil gafanhotos o passageiro consegue arrancá-lo de lá.

Pequim tem 5 milhões de carros e o pior trânsito do mundo. Só se vê uma rua livre aqui quando a polícia abre caminho para a passagem de um guanyuan, termo usado para se referir a um dirigente do Partido Comunista da China (PCC).

Dia 8 de novembro, as avenidas que levam à Praça Tiananmen foram interditadas para que centenas de guanyuans se dirigissem ao Grande Salão do Povo. Lá, ao lado do enorme retrato de Mao Tsé-Tung, eles elegeram, ou melhor, referendaram o nome dos homens que liderarão a China pelos próximos anos. É a mais profunda troca de comando da última década no país que se tornou o GPS geopolítico mundial e o termômetro da economia global.

Tudo o que se passa na China interessa diretamente ao mais alienado dos mortais, no mais distante dos países. Quando, no fim dos anos 90, se dizia que o bater de asas de uma borboleta em Tóquio poderia causar um furacão no Texas, o fenômeno da interdependência das economias já era um fato consumado.

Mas nem o mais delirante visionário poderia imaginar a que ponto ele chegaria. A China levou ao paroxismo a ideia de globalização da economia.

É por isso que o mundo agora prende a respiração ante o anúncio da nova geração de líderes – sobre a qual tudo o que se pode dizer é que não incluirá um único fio de cabelo branco.

GLORIOSO É GASTAR -- Eles continuam brotando como cogumelos: de 2011 para 2012, o número de milionários na China subiu 6,3%. Eles gastam mais que o dobro da média dos seus equivalentes europeus e americanos (Foto: Adam Dean)

GLORIOSO É GASTAR -- Eles continuam brotando como cogumelos: de 2011 para 2012, o número de milionários na China subiu 6,3%. Eles gastam mais que o dobro da média dos seus equivalentes europeus e americanos (Foto: Adam Dean)

Transparência zero

A estrutura de comando no regime chinês continua cimentada no mais genuíno molde soviético – é centralizada, monolítica e inescrutável, e culmina no Comitê Permanente do Politburo, a mais alta instância decisória do PCC.

Do novo chefe do PCC e futuro presidente, Xi Jinping, pouco se sabe além do fato de que é engenheiro químico por formação, integrante da nobreza vermelha (o pai foi homem de confiança de Mao) e fã de programas de esporte na TV.

O regime chinês encara o conceito de transparência da mesma forma que os motoristas de Pequim veem o cinto de segurança – como um acessório apreciado pelos ocidentais, mas sem utilidade por lá.

O Brasil olha apreensivo para essa potência opaca como a Grande Muralha do momento em que acorda à hora em que vai dormir. “O que a China compra ou deixa de comprar é tão crucial que dizemos que ela é o nosso ministro da Economia”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

16/07/2012

às 18:30 \ Vasto Mundo

O nacionalismo catalão, na Espanha, chega a paroxismos cômicos

Cartaz em favor do uso do catalão: exageros que chegam ao patético

Excetuados os bebês, seria uma raridade, quase uma extravagância, encontrar algum dos 7,5 milhões de habitantes da Catalunha, a região mais rica da Espanha, que não fale espanhol.

Pois bem, ainda assim os exageros nacionalistas do governo catalão e de diversos de seus setores chegam a paroxismos cômicos.

Já contei, uma vez, que durante a visita de uma delegação de deputados da Nicarágua ao Parlamento regional catalão os deputados catalães exigiram, para a reunião com os colegas nicaragüenses, a presença de tradutores simultâneos — como se, em vez de todos os presentes serem absolutamente fluentes em espanhol, os parlamentares locais estivessem diante de um grupo de uzbeques, mongóis ou chineses. Tradutores pagos com dinheiro público, naturalmente.

Filme espanhol, indo para o ar em território espanhol, mas com legendas… em catalão

Pois bem, neste final de semana assisti no Canal 33 da televisão pública da Catalunha a um filme feito em co-produção entre a Espanha e o Equador. Falado, naturlamente, em espanhol.

E adivinhem o quê?

Tinha legendas em… catalão.

Televisão pública, legendas inúteis — só para manifestar o nacionalismo divisionista — mandadas fazer com dinheiro público.

E a Catalunha, não custa lembrar, é a comunidade autônoma (equivalente a um Estado norte-americano) mais endividada da Espanha.

Pois entrem no link do Canal 33 e constatem: não há uma só palavra em espanhol — nada, nada, nada, embora a Constituição disponha que o espanhol (que só é chamado de “castelhano” na Catalunha) é língua oficial do país, devendo ser utilizada par a par com idiomas regionais também considerados oficiais, entre eles o basco, o catalão e o galego.

11/02/2012

às 16:00 \ Vasto Mundo

O especialista em estratégia diz, em ótima entrevista: “A Europa está abúlica, perdeu o ímpeto de empreender e de exercer o poder político”

Walter Laqueur:

Walter Laqueur: “Os países europeus não sonham mais, como no passado, com expandir-se territorialmente, exercer o poder político. Os europeus querem ser deixados em paz" (Foto: Amin Akhtar / Other Images)

Amigos do blog, se você estão tendo dificuldades de entender o que, afinal, se passa com a Europa, que não sai da crise e, a despeito do esforço de alguns líderes, não parece ir a lugar algum, então leia a ótima entrevista abaixo.

Profundo conhecedor da Europa, o entrevistado avança por explicações originalíssimas, e pouco discutidas, para a situação da Europa. Uma delas é que, afastados os tempos de dominadora do mundo, os habitantes da Europa querem, sobretudo, ser deixados em paz.

Isso faz toda a difereça, como você poderá constatar nesta fascinante entrevista, com respostas simples, diretas e surpreendentes.

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O futuro modesto da Europa

O historiador alemão naturalizado americano, um dos maiores especialistas do planeta em estratégia, diz que a atual crise econômica na região não é grave o suficiente para forçar os europeus a aprofundar a união de suas nações

Por Tatiana Gianini

Em 2007, o historiador Walter Laqueur escreveu que a Europa enfrentava problemas estruturais graves que levariam à sua decadência num futuro próximo. Foi acusado de excesso de pessimismo.

“Agora, as mesmas vozes que contestaram minhas ideias produzem manchetes apocalípticas sobre a Europa”, diz Laqueur, de 90 anos. Nascido na Alemanha e naturalizado americano, o autor de mais de 25 livros sobre Europa, Oriente Médio e o Holocausto acaba de lançar nos Estados Unidos a obra Depois da Queda: o Fim do Sonho Europeu e o Declínio de um Continente.

Ex-diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, ele falou a VEJA de Londres, onde moram seus filhos, sobre como a Europa pode reencontrar seu lugar no mundo.

Um ano antes da crise financeira de 2008, o senhor previu que a Europa estava prestes a enfrentar a falência das políticas de bem-estar social. Quais eram os indícios disso?

A Europa estava em declínio havia décadas, ainda que muitos analistas acreditassem que a situação era maravilhosa e que o futuro estava assegurado. Eles tinham essa impressão porque nos anos seguintes à II Guerra Mundial a recuperação dos países europeus havia sido espetacular e promissora.

Com o tempo, esse ímpeto esmoreceu. Desde os anos 70, com a alta nos preços do petróleo, as economias europeias passaram a apresentar sinais de fraqueza. O Estado de bem-estar social começou a depender de uma base econômica frágil e o endividamento público explodiu.

Ao mesmo tempo, a Europa era dependente dos Estados Unidos no campo da defesa. A cooperação militar interessava a todos enquanto havia a União Soviética como inimigo comum. Com o fim da Guerra Fria, no início da década de 90, a disposição dos Estados Unidos em defender a Europa tornou-se menos óbvia.

Por fim, os países da região foram inundados por imigrantes de nações muçulmanas. Com valores culturais em muitos pontos incompatíveis com os dos países que os receberam, esses imigrantes não foram bem assimilados. Em resumo, a queda na autoconfiança, o endividamento dos Estados, a dependência militar e a imigração islâmica são os componentes de um processo de declínio, que só se tornou evidente para a maioria das pessoas com a atual crise econômica.

navio-missil-ira (Foto: Rouholla Vahdati / AFP)

Navio do Irã lança míssil: armas de destruição em massa de longo alcance são desafios para convivência pacífica (Foto: Rouholla Vahdati / AFP)

O que esse declínio significará para a ordem global?

A região já havia deixado de ser o centro do mundo depois da II Guerra, mas ainda era uma fonte de inspiração por seus valores civilizatórios.

Agora, ficará mais difícil para a Europa promover a liberdade e os direitos humanos para o resto do mundo. Mesmo internamente, será um desafio preservar a democracia em um momento em que, em meio a uma recessão, se tornou inevitável a adoção da austeridade nos gastos públicos.

Pobres em recursos naturais e energéticos, os europeus lutarão para manter seu padrão de vida e suas conquistas sociais. A opção por solucionar questões externas com base na convivência pacífica e na cooperação também será posta à prova, pois entre 2020 e 2030 a proliferação de armas de destruição em massa de longo alcance terá se consolidado em países do Oriente Médio.

Como a Europa enfrentará essas ameaças?

A origem de muitos dos problemas da região está na resistência dos membros da União Europeia em rumar para a integração completa, para a criação dos Estados Unidos da Europa, ou seja, uma configuração política semelhante ao sistema federativo americano.

Para poder fazer frente aos desafios externos será imperativo adotar uma política de defesa comum, da mesma forma que para resolver os problemas estruturais será preciso centralizar as decisões sobre as questões econômicas.

Para seguirem esse caminho, contudo, os países europeus teriam de fazer concessões radicais de soberania. Mas não existem muitas opções ao alcance. Ou a União Europeia se desintegra de vez, liberando os países para tomar seu próprio rumo, ou tenta atravessar as turbulências atuais do jeito que dá, sem mexer muito na atual configuração institucional do bloco.

Essa segunda opção é a mais provável, porque a história mostra que as instituições, uma vez instaladas, tendem a se manter por inércia. O mais preocupante, contudo, é que mesmo um continente europeu unido pode não reunir a fortaleza necessária para sustentar de modo consistente uma posição relevante nos assuntos mundiais.

Talvez optar por uma postura modesta seja o mais fácil e menos arriscado para a Europa. As ambições dos países europeus, antes acostumados a ser fortes e influentes, terão de ser reduzidas.

Crises econômicas, como se sabe, são cíclicas. Passada a atual fase, os europeus não podem reaver seu antigo poder de alguma forma?

A crise que a Europa enfrenta é grave, talvez a mais profunda desde o fim da II Guerra, mas não é de vida ou morte. A recessão de 2008 teve certo efeito, pois induziu a Alemanha e a França a criarem um fundo de estabilidade financeira para resgatar a Grécia e a Irlanda.

Isso é suficiente para evitar o desastre iminente, mas não basta. A meu ver, só uma crise de sobrevivência levaria os europeus a sair do estado coletivo de abulia em que se encontram.

Como assim?

Abulia era uma expressão consagrada pelos psiquiatras na França do fim do século XIX para descrever a total falta de ânimo e de vontade de um paciente. Os países europeus, alguns mais do que os outros, perderam o ímpeto de empreender e de exercer o poder político.

A Europa sofre de abulia política e econômica. O desejo de ter poder e de exercê-lo se esvaneceu. O nacionalismo agressivo que prevaleceu na região até 1950 se converteu em um nacionalismo passivo.

Até os fascistas de hoje são defensivos. Os países europeus não sonham, como no passado, em se expandir territorialmente, mas sim em se fechar para o mundo. Os europeus querem ser deixados em paz.

A história mostra que as grandes mudanças muitas vezes ocorrem quando há a ascensão de uma nova geração, otimista e ambiciosa. Isso não está ocorrendo agora na Europa. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

12/01/2012

às 19:25 \ Vasto Mundo

Eleições na Catalunha: um teste para a ideia de separar-se da Espanha

Manifestação de protesto em julho passado: os independentistas (portando a respectiva bandeira) tomaram conta

Publicado originalmente em 27 de novembro de 2010

Barcelona, uma das mecas mundiais da arquitetura e do design, assiste já há seis anos, impassível, à destruição de um dos marcos da cidade: a majestosa praça de touros de Las Arenas, belo exemplar do chamado estilo árabe inaugurada há 110 anos, foi quase inteiramente demolida para dar lugar a um shopping center. O edifício do empreendimento, cujas obras se atrasaram por falta de dinheiro, só manterá, da velha arena, a fachada.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Não se trata apenas, como parece, de um problema comercial ou de arquitetura. Por trás da iniciativa há um sinal simbólico, como tantos outros que um visitante atento pode perceber em Barcelona e pela região da Catalunha afora, de que o nacionalismo catalão está vivo e com saúde. Arenas e touros são coisas da Espanha, parece dizer a obra em Las Arenas. Nós somos diferentes – somos catalães, e não espanhóis.

Esse tipo de raciocínio, encontrável em toda parte e a cada momento, não é mero jogo de palavras, nem somente expressão de uma bravata regionalista: a hostilidade ao governo central e à própria idéia de que a Catalunha é, sim, parte da Espanha há meio milênio cresce de tal forma na região mais rica e a segunda mais populosa do país que, nas eleições catalãs que se celebram neste domingo, 28, poderão estar no governo dirigentes políticos que contemplem, no horizonte, a independência completa de Madri. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/09/2011

às 15:30 \ Vasto Mundo

Acabaram-se as touradas em Barcelona. Fica agora o prejuízo para o governo catalão e a dúvida: o que fazer com a arena Monumental?

A fachada da Plaza Monumental de Barcelona: estilo mudéjar e bizantino, com elementos modernistas. Proibidos os touros, não se sabe o que fazer com ela

A bravata nacionalista do Parlamento da Catalunha de proibir as touradas em seu território depois de 600 anos (leia post anterior) vai custar caro. Especialmente para uma região que está sob severa contenção de gastos para equilibrar o orçamento — de 22,1 bilhões de euros (55,2 bilhões de reais), 10% menor do que o ano passado, o que é um milagre para qualquer governo.

Cálculos ainda não concluídos indicam que a Generalitat — o governo catalão — deverá arcar com custos de 400 milhões de euros (1 bilhão de reais) em indenizações várias, que vão do proprietário da última praça de touros da Catalunha, a Monumental de Barcelona, a toda uma série de profissionais, entidades e empresas que dependiam da atividade taurina. Embora não se imagine que o dinheiro seja desembolsado de uma só vez, é um embaraço para um governo que está cortando até vagas em hospitais em nome da austeridade.

A arena agora desativada, vista de cima: para quase 20 mil espectadores sentados

Mas a atitude política de distanciar-se da Espanha, onde os touros ainda constituem paixão nacional, desabou com especial complexidade sobre o dono da Monumental, um colosso de 10 mil metros quadrados de construção, com capacidade para 19.582 espectadores sentados, erguida em 1916 num misto dos estilos mudéjar e bizantino, com elementos decorativos típicos do modernismo catalão. O empresário Pedro Balañá, de fato, está no mato sem cachorro.

A arena está tombada e a prefeitura não quer comprar

Ele não pode derrubar a Monumental para erguer algum empreendimento em seu lugar, já que a arena desde 1979 faz parte do patrimônio arquitetônico de Barcelona. (E, de fato, mesmo para quem não gosta de touradas, a imponente estrutura num ponto movimentado da Gran Via, a principal avenida da cidade, de há muito se incorporou à paisagem urbana). Por esta mesma razão, o terreno não é passível de ser “requalificado”, como se diz na Espanha, para servir a outros destinos.

Não bastasse isso, a Monumental — palco de milhares de corridas de toros e da morte de dois banderilheiros, um novilheiro (toureiro iniciante) e um matador, e cenário de 70 apresentações do maior toureiro espanhol de todos os tempos, Manolete, além de ter servido como espaço para todo tipo de espetáculo, inclusive um histórico show dos Beatles, em 1965 — igualmente não pode sofrer qualquer tipo de mudança em sua estrutura, tanto na fachada como na parte interna.

Finalmente, o prefeito de Barcelona, Xavier Trias, da coligação conservadora-nacionalista CiU, já declarou que não há interesse da cidade em comprar o belo espaço.

Balañá, sempre discreto em suas declarações públicas, limitou-se a dizer, enigmaticamente, que “haverá corridas de touros em Barcelona em 2012″. Aparentemente, ele confia em que o Tribunal Constitucional derrube a lei proibicionista, atendendo a uma medida judicial impretrata pelo conservador Partido Popular.

 

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