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17/12/2012

às 17:00 \ Política & Cia

José Goldemberg: A crise de energia e suas causas

O País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelé­tricas, uma fonte limpa e reno­vável de energia (Foto: VEJA.com)

O País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelétricas, uma fonte limpa e renovável de energia (Foto: VEJA.com)

Publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo

A CRISE DE ENERGIA E SUAS CAUSAS

 

O sistema energético brasileiro foi montado ao longo dos últimos cem anos e funcionou relativamente bem até recentemente  o País gera quase toda a sua eletricidade em usinas hidrelétricas, uma fonte limpa e renovável de energia, e se tornou também quase autossuficiente na produção de petróleo.

A eletricidade foi introduzida no Brasil por empresas estrangeiras (e uns poucos empreendedores nacionais) no fim do século 19 e só começou a dar problemas quando, em meados do século 20, o governo federal impediu reajustes das tarifas que compensassem os investimentos. Investir em eletricidade deixou, então, de ser atraente para o setor privado.

A solução foi a criação da Eletrobrás e empresas estatais nos Estados, verdadeiras agências de desenvolvimento regional que – com recursos públicos – construíram usinas hidrelétricas  As empresas estatais do setor elétrico revelaram, no início, grande dinamismo, mas se tornaram burocráticas e pesadas. A tentativa do governo Fernando Henrique Cardoso de privatizá-las só funcionou parcialmente em razão de interesses das corporações que se formaram dentro e em torno delas.

As distribuidoras, como a Light, foram privatizadas, mas a transmissão e a geração, de modo geral, permaneceram em empresas estatais.

No caso do petróleo, o País era totalmente dependente de importações até meados do século 20, mas a Petrobrás conseguiu nos levar quase à autossuficiência, o que foi um grande avanço. Contudo a euforia nacionalista criada pela descoberta de petróleo a grandes profundidades e no pré-sal levou a empresa a um programa gigantesco de obras que não era capaz de realizar sozinha, o que nos levou de volta à importação de combustíveis, a obras atrasadas e a uma queda do valor das ações da Petrobrás.

Como o governo se recusa a reajustar os preços dos combustíveis desde 2007, a situação atual é que a empresa importa gasolina a preços internacionais – que subiram muito nos últimos anos – e vende essa mesma gasolina a preços congelados no nível de 2007, perdendo dinheiro e pondo-a no vermelho.

Uma consequência imediata dessa situação é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar. Esse é o melhor programa de energia renovável que surgiu no mundo nos últimos 20 anos. Sucede que, como o petróleo e derivados subiram de preço internacionalmente  os insumos utilizados na produção de álcool – como fertilizantes - subiram também.

Uma consequência imediata da política pública energética é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar (Foto: Getty Images)

Uma consequência imediata da política pública energética é a asfixia e morte lenta do Programa Brasileiro de Álcool, produzido a partir da cana-de-açúcar (Foto: Getty Images)

Hoje é mais caro produzir um litro de etanol do que cinco anos atrás. Impedir o reajuste do preço do álcool, de forma que ele possa competir favoravelmente com a gasolina, torna inviável a sua produção, que já caiu de 27 bilhões de litros por ano para 22 bilhões em 2012. Com a atual política de preços dos derivados de petróleo sofre a Petrobrás  com prejuízos crescentes, e sofrem os produtores de etanol  pondo em risco mais de 1 milhão de empregos que essa atividade agroindustrial privada criou.

Os três pilares da política energética do País - eletricidade  petróleo e etanol – estão, portanto, em crise, causada por políticas equivocadas do governo da União adotadas nos últimos anos.

Como pode isso acontecer depois de um século de relativo sucesso?

A resposta é relativamente simples: uma mistura de política e incompetência.

 

A influência política revela-se de duas formas:

- Um nacionalismo exacerbado na exploração do petróleo, afastando parcerias com empresas internacionais com competência na área de pesquisa e produção em águas profundas e uma obsessão pela ideia da “modicidade tarifária” no custo da eletricidade, que tenta

- baixar as tarifas quando esses custos são crescentes e diferenciados. Os leilões para contratação de energia elétrica são sempre realizados pelo menor preço, independentemente de onde e da forma como ela é produzida  o que é um contrassenso, da mesma forma que seria exigir que qualquer tipo de carne (filé mignon ou costela) tivesse o mesmo preço no mercado.

 

As demandas por modicidade tarifária originam-se nos setores industriais eletrointensivos, como o de alumínio, que desejam tarifas mais baixas, e em setores populistas do governo, que tentam tratar a energia elétrica como se fosse uma “Bolsa-Família”.

Essa política levou o governo a baixar uma medida provisória fixando exigências para a prorrogação por mais 30 anos das concessões de exploração das usinas hidrelétricas como um meio de baixar as tarifas. Tal medida se propunha a eliminar o custo exagerado – na visão do governo – da geração, uma vez que os investimentos feitos pelas concessionárias já foram pagos.

Todas as questões relativas a acertos de contas e compensações pela extinção das atuais concessões parecem ter sido levadas a efeito por técnicos alheios aos problemas reais do setor, como se pode ver, por exemplo, quando a Eletrobrás reivindica compensações de cerca de R$ 30 bilhões e o governo estima que ela só tem direito a R$ 13 bilhões.

Ao que tudo indica, enfrentamos no setor de energia uma situação parecida com a que levou o presidente da França Georges Benjamin Clemen­ceau, durante a II Guerra Mundial, a declarar que a guerra “é uma coisa demasiadamente grave para se deixar nas mãos dos militares” – no caso presente, dos tecnocratas do setor energético.

Seria preciso que setores mais amplos da sociedade fossem ouvidos a respeito dessas questões, um dos quais é o Conselho Superior de Política Energética - praticamente desativado nos últimos dez anos e que se tornou, na prática, um órgão de homologação de decisões do governo.

17/11/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

REPORTAGEM ESPECIAL E IMPERDÍVEL: O mundo prende a respiração: a gigante China troca de comando

NOIVOS DE XANGAI -- Casal  posa para sessão de fotos antes do casamento, ocasião em que o álbum tem de estar pronto para ser exibido aos convidados (Foto: Adam Dean)

NOIVOS DE XANGAI -- Casal posa para sessão de fotos antes do casamento, ocasião em que o álbum tem de estar pronto para ser exibido aos convidados (Foto: Adam Dean)

Reportagem de Thaís Oyama, de Pequim, publicada em edição impressa de VEJA 

 O GRANDE TESTE DA CHINA

O país que mais influencia a prosperidade mundial faz a maior troca de comando da década. Os novos líderes assumirão em meio a um dilema: para manter a China crescendo será preciso arejar o regime, mas um movimento equivocado pode ser desastroso. O mundo aguarda com a respiração suspensa

Pequim tem mais de 3000 anos de história, mas para o visitante a efemeridade da vida é a primeira lembrança que ela evoca. Andar em um táxi na capital da China pode ser uma experiência aterradora.

Os motoristas guiam em zigue-zague, têm fixação pela buzina e horror ao cinto de segurança, que socam no vão do banco de modo que nem por mil gafanhotos o passageiro consegue arrancá-lo de lá.

Pequim tem 5 milhões de carros e o pior trânsito do mundo. Só se vê uma rua livre aqui quando a polícia abre caminho para a passagem de um guanyuan, termo usado para se referir a um dirigente do Partido Comunista da China (PCC).

Dia 8 de novembro, as avenidas que levam à Praça Tiananmen foram interditadas para que centenas de guanyuans se dirigissem ao Grande Salão do Povo. Lá, ao lado do enorme retrato de Mao Tsé-Tung, eles elegeram, ou melhor, referendaram o nome dos homens que liderarão a China pelos próximos anos. É a mais profunda troca de comando da última década no país que se tornou o GPS geopolítico mundial e o termômetro da economia global.

Tudo o que se passa na China interessa diretamente ao mais alienado dos mortais, no mais distante dos países. Quando, no fim dos anos 90, se dizia que o bater de asas de uma borboleta em Tóquio poderia causar um furacão no Texas, o fenômeno da interdependência das economias já era um fato consumado.

Mas nem o mais delirante visionário poderia imaginar a que ponto ele chegaria. A China levou ao paroxismo a ideia de globalização da economia.

É por isso que o mundo agora prende a respiração ante o anúncio da nova geração de líderes – sobre a qual tudo o que se pode dizer é que não incluirá um único fio de cabelo branco.

GLORIOSO É GASTAR -- Eles continuam brotando como cogumelos: de 2011 para 2012, o número de milionários na China subiu 6,3%. Eles gastam mais que o dobro da média dos seus equivalentes europeus e americanos (Foto: Adam Dean)

GLORIOSO É GASTAR -- Eles continuam brotando como cogumelos: de 2011 para 2012, o número de milionários na China subiu 6,3%. Eles gastam mais que o dobro da média dos seus equivalentes europeus e americanos (Foto: Adam Dean)

Transparência zero

A estrutura de comando no regime chinês continua cimentada no mais genuíno molde soviético – é centralizada, monolítica e inescrutável, e culmina no Comitê Permanente do Politburo, a mais alta instância decisória do PCC.

Do novo chefe do PCC e futuro presidente, Xi Jinping, pouco se sabe além do fato de que é engenheiro químico por formação, integrante da nobreza vermelha (o pai foi homem de confiança de Mao) e fã de programas de esporte na TV.

O regime chinês encara o conceito de transparência da mesma forma que os motoristas de Pequim veem o cinto de segurança – como um acessório apreciado pelos ocidentais, mas sem utilidade por lá.

O Brasil olha apreensivo para essa potência opaca como a Grande Muralha do momento em que acorda à hora em que vai dormir. “O que a China compra ou deixa de comprar é tão crucial que dizemos que ela é o nosso ministro da Economia”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

16/07/2012

às 18:30 \ Vasto Mundo

O nacionalismo catalão, na Espanha, chega a paroxismos cômicos

Cartaz em favor do uso do catalão: exageros que chegam ao patético

Excetuados os bebês, seria uma raridade, quase uma extravagância, encontrar algum dos 7,5 milhões de habitantes da Catalunha, a região mais rica da Espanha, que não fale espanhol.

Pois bem, ainda assim os exageros nacionalistas do governo catalão e de diversos de seus setores chegam a paroxismos cômicos.

Já contei, uma vez, que durante a visita de uma delegação de deputados da Nicarágua ao Parlamento regional catalão os deputados catalães exigiram, para a reunião com os colegas nicaragüenses, a presença de tradutores simultâneos — como se, em vez de todos os presentes serem absolutamente fluentes em espanhol, os parlamentares locais estivessem diante de um grupo de uzbeques, mongóis ou chineses. Tradutores pagos com dinheiro público, naturalmente.

Filme espanhol, indo para o ar em território espanhol, mas com legendas… em catalão

Pois bem, neste final de semana assisti no Canal 33 da televisão pública da Catalunha a um filme feito em co-produção entre a Espanha e o Equador. Falado, naturlamente, em espanhol.

E adivinhem o quê?

Tinha legendas em… catalão.

Televisão pública, legendas inúteis — só para manifestar o nacionalismo divisionista — mandadas fazer com dinheiro público.

E a Catalunha, não custa lembrar, é a comunidade autônoma (equivalente a um Estado norte-americano) mais endividada da Espanha.

Pois entrem no link do Canal 33 e constatem: não há uma só palavra em espanhol — nada, nada, nada, embora a Constituição disponha que o espanhol (que só é chamado de “castelhano” na Catalunha) é língua oficial do país, devendo ser utilizada par a par com idiomas regionais também considerados oficiais, entre eles o basco, o catalão e o galego.

11/02/2012

às 16:00 \ Vasto Mundo

O especialista em estratégia diz, em ótima entrevista: “A Europa está abúlica, perdeu o ímpeto de empreender e de exercer o poder político”

Walter Laqueur:

Walter Laqueur: “Os países europeus não sonham mais, como no passado, com expandir-se territorialmente, exercer o poder político. Os europeus querem ser deixados em paz" (Foto: Amin Akhtar / Other Images)

Amigos do blog, se você estão tendo dificuldades de entender o que, afinal, se passa com a Europa, que não sai da crise e, a despeito do esforço de alguns líderes, não parece ir a lugar algum, então leia a ótima entrevista abaixo.

Profundo conhecedor da Europa, o entrevistado avança por explicações originalíssimas, e pouco discutidas, para a situação da Europa. Uma delas é que, afastados os tempos de dominadora do mundo, os habitantes da Europa querem, sobretudo, ser deixados em paz.

Isso faz toda a difereça, como você poderá constatar nesta fascinante entrevista, com respostas simples, diretas e surpreendentes.

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O futuro modesto da Europa

O historiador alemão naturalizado americano, um dos maiores especialistas do planeta em estratégia, diz que a atual crise econômica na região não é grave o suficiente para forçar os europeus a aprofundar a união de suas nações

Por Tatiana Gianini

Em 2007, o historiador Walter Laqueur escreveu que a Europa enfrentava problemas estruturais graves que levariam à sua decadência num futuro próximo. Foi acusado de excesso de pessimismo.

“Agora, as mesmas vozes que contestaram minhas ideias produzem manchetes apocalípticas sobre a Europa”, diz Laqueur, de 90 anos. Nascido na Alemanha e naturalizado americano, o autor de mais de 25 livros sobre Europa, Oriente Médio e o Holocausto acaba de lançar nos Estados Unidos a obra Depois da Queda: o Fim do Sonho Europeu e o Declínio de um Continente.

Ex-diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, ele falou a VEJA de Londres, onde moram seus filhos, sobre como a Europa pode reencontrar seu lugar no mundo.

Um ano antes da crise financeira de 2008, o senhor previu que a Europa estava prestes a enfrentar a falência das políticas de bem-estar social. Quais eram os indícios disso?

A Europa estava em declínio havia décadas, ainda que muitos analistas acreditassem que a situação era maravilhosa e que o futuro estava assegurado. Eles tinham essa impressão porque nos anos seguintes à II Guerra Mundial a recuperação dos países europeus havia sido espetacular e promissora.

Com o tempo, esse ímpeto esmoreceu. Desde os anos 70, com a alta nos preços do petróleo, as economias europeias passaram a apresentar sinais de fraqueza. O Estado de bem-estar social começou a depender de uma base econômica frágil e o endividamento público explodiu.

Ao mesmo tempo, a Europa era dependente dos Estados Unidos no campo da defesa. A cooperação militar interessava a todos enquanto havia a União Soviética como inimigo comum. Com o fim da Guerra Fria, no início da década de 90, a disposição dos Estados Unidos em defender a Europa tornou-se menos óbvia.

Por fim, os países da região foram inundados por imigrantes de nações muçulmanas. Com valores culturais em muitos pontos incompatíveis com os dos países que os receberam, esses imigrantes não foram bem assimilados. Em resumo, a queda na autoconfiança, o endividamento dos Estados, a dependência militar e a imigração islâmica são os componentes de um processo de declínio, que só se tornou evidente para a maioria das pessoas com a atual crise econômica.

navio-missil-ira (Foto: Rouholla Vahdati / AFP)

Navio do Irã lança míssil: armas de destruição em massa de longo alcance são desafios para convivência pacífica (Foto: Rouholla Vahdati / AFP)

O que esse declínio significará para a ordem global?

A região já havia deixado de ser o centro do mundo depois da II Guerra, mas ainda era uma fonte de inspiração por seus valores civilizatórios.

Agora, ficará mais difícil para a Europa promover a liberdade e os direitos humanos para o resto do mundo. Mesmo internamente, será um desafio preservar a democracia em um momento em que, em meio a uma recessão, se tornou inevitável a adoção da austeridade nos gastos públicos.

Pobres em recursos naturais e energéticos, os europeus lutarão para manter seu padrão de vida e suas conquistas sociais. A opção por solucionar questões externas com base na convivência pacífica e na cooperação também será posta à prova, pois entre 2020 e 2030 a proliferação de armas de destruição em massa de longo alcance terá se consolidado em países do Oriente Médio.

Como a Europa enfrentará essas ameaças?

A origem de muitos dos problemas da região está na resistência dos membros da União Europeia em rumar para a integração completa, para a criação dos Estados Unidos da Europa, ou seja, uma configuração política semelhante ao sistema federativo americano.

Para poder fazer frente aos desafios externos será imperativo adotar uma política de defesa comum, da mesma forma que para resolver os problemas estruturais será preciso centralizar as decisões sobre as questões econômicas.

Para seguirem esse caminho, contudo, os países europeus teriam de fazer concessões radicais de soberania. Mas não existem muitas opções ao alcance. Ou a União Europeia se desintegra de vez, liberando os países para tomar seu próprio rumo, ou tenta atravessar as turbulências atuais do jeito que dá, sem mexer muito na atual configuração institucional do bloco.

Essa segunda opção é a mais provável, porque a história mostra que as instituições, uma vez instaladas, tendem a se manter por inércia. O mais preocupante, contudo, é que mesmo um continente europeu unido pode não reunir a fortaleza necessária para sustentar de modo consistente uma posição relevante nos assuntos mundiais.

Talvez optar por uma postura modesta seja o mais fácil e menos arriscado para a Europa. As ambições dos países europeus, antes acostumados a ser fortes e influentes, terão de ser reduzidas.

Crises econômicas, como se sabe, são cíclicas. Passada a atual fase, os europeus não podem reaver seu antigo poder de alguma forma?

A crise que a Europa enfrenta é grave, talvez a mais profunda desde o fim da II Guerra, mas não é de vida ou morte. A recessão de 2008 teve certo efeito, pois induziu a Alemanha e a França a criarem um fundo de estabilidade financeira para resgatar a Grécia e a Irlanda.

Isso é suficiente para evitar o desastre iminente, mas não basta. A meu ver, só uma crise de sobrevivência levaria os europeus a sair do estado coletivo de abulia em que se encontram.

Como assim?

Abulia era uma expressão consagrada pelos psiquiatras na França do fim do século XIX para descrever a total falta de ânimo e de vontade de um paciente. Os países europeus, alguns mais do que os outros, perderam o ímpeto de empreender e de exercer o poder político.

A Europa sofre de abulia política e econômica. O desejo de ter poder e de exercê-lo se esvaneceu. O nacionalismo agressivo que prevaleceu na região até 1950 se converteu em um nacionalismo passivo.

Até os fascistas de hoje são defensivos. Os países europeus não sonham, como no passado, em se expandir territorialmente, mas sim em se fechar para o mundo. Os europeus querem ser deixados em paz.

A história mostra que as grandes mudanças muitas vezes ocorrem quando há a ascensão de uma nova geração, otimista e ambiciosa. Isso não está ocorrendo agora na Europa. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

12/01/2012

às 19:25 \ Vasto Mundo

Eleições na Catalunha: um teste para a ideia de separar-se da Espanha

Manifestação de protesto em julho passado: os independentistas (portando a respectiva bandeira) tomaram conta

Publicado originalmente em 27 de novembro de 2010

Barcelona, uma das mecas mundiais da arquitetura e do design, assiste já há seis anos, impassível, à destruição de um dos marcos da cidade: a majestosa praça de touros de Las Arenas, belo exemplar do chamado estilo árabe inaugurada há 110 anos, foi quase inteiramente demolida para dar lugar a um shopping center. O edifício do empreendimento, cujas obras se atrasaram por falta de dinheiro, só manterá, da velha arena, a fachada.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Não se trata apenas, como parece, de um problema comercial ou de arquitetura. Por trás da iniciativa há um sinal simbólico, como tantos outros que um visitante atento pode perceber em Barcelona e pela região da Catalunha afora, de que o nacionalismo catalão está vivo e com saúde. Arenas e touros são coisas da Espanha, parece dizer a obra em Las Arenas. Nós somos diferentes – somos catalães, e não espanhóis.

Esse tipo de raciocínio, encontrável em toda parte e a cada momento, não é mero jogo de palavras, nem somente expressão de uma bravata regionalista: a hostilidade ao governo central e à própria idéia de que a Catalunha é, sim, parte da Espanha há meio milênio cresce de tal forma na região mais rica e a segunda mais populosa do país que, nas eleições catalãs que se celebram neste domingo, 28, poderão estar no governo dirigentes políticos que contemplem, no horizonte, a independência completa de Madri. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/09/2011

às 15:30 \ Vasto Mundo

Acabaram-se as touradas em Barcelona. Fica agora o prejuízo para o governo catalão e a dúvida: o que fazer com a arena Monumental?

A fachada da Plaza Monumental de Barcelona: estilo mudéjar e bizantino, com elementos modernistas. Proibidos os touros, não se sabe o que fazer com ela

A bravata nacionalista do Parlamento da Catalunha de proibir as touradas em seu território depois de 600 anos (leia post anterior) vai custar caro. Especialmente para uma região que está sob severa contenção de gastos para equilibrar o orçamento — de 22,1 bilhões de euros (55,2 bilhões de reais), 10% menor do que o ano passado, o que é um milagre para qualquer governo.

Cálculos ainda não concluídos indicam que a Generalitat — o governo catalão — deverá arcar com custos de 400 milhões de euros (1 bilhão de reais) em indenizações várias, que vão do proprietário da última praça de touros da Catalunha, a Monumental de Barcelona, a toda uma série de profissionais, entidades e empresas que dependiam da atividade taurina. Embora não se imagine que o dinheiro seja desembolsado de uma só vez, é um embaraço para um governo que está cortando até vagas em hospitais em nome da austeridade.

A arena agora desativada, vista de cima: para quase 20 mil espectadores sentados

Mas a atitude política de distanciar-se da Espanha, onde os touros ainda constituem paixão nacional, desabou com especial complexidade sobre o dono da Monumental, um colosso de 10 mil metros quadrados de construção, com capacidade para 19.582 espectadores sentados, erguida em 1916 num misto dos estilos mudéjar e bizantino, com elementos decorativos típicos do modernismo catalão. O empresário Pedro Balañá, de fato, está no mato sem cachorro.

A arena está tombada e a prefeitura não quer comprar

Ele não pode derrubar a Monumental para erguer algum empreendimento em seu lugar, já que a arena desde 1979 faz parte do patrimônio arquitetônico de Barcelona. (E, de fato, mesmo para quem não gosta de touradas, a imponente estrutura num ponto movimentado da Gran Via, a principal avenida da cidade, de há muito se incorporou à paisagem urbana). Por esta mesma razão, o terreno não é passível de ser “requalificado”, como se diz na Espanha, para servir a outros destinos.

Não bastasse isso, a Monumental — palco de milhares de corridas de toros e da morte de dois banderilheiros, um novilheiro (toureiro iniciante) e um matador, e cenário de 70 apresentações do maior toureiro espanhol de todos os tempos, Manolete, além de ter servido como espaço para todo tipo de espetáculo, inclusive um histórico show dos Beatles, em 1965 — igualmente não pode sofrer qualquer tipo de mudança em sua estrutura, tanto na fachada como na parte interna.

Finalmente, o prefeito de Barcelona, Xavier Trias, da coligação conservadora-nacionalista CiU, já declarou que não há interesse da cidade em comprar o belo espaço.

Balañá, sempre discreto em suas declarações públicas, limitou-se a dizer, enigmaticamente, que “haverá corridas de touros em Barcelona em 2012″. Aparentemente, ele confia em que o Tribunal Constitucional derrube a lei proibicionista, atendendo a uma medida judicial impretrata pelo conservador Partido Popular.

01/09/2011

às 19:30 \ Vasto Mundo

Sebastián Piñera: conheça o presidente do Chile contra o qual estudantes e outros setores protestam

 

Presidente Chileno Sebastián Piñera

Piñera: "melhor sistema econômico é o livre mercado" (Foto: Luiz Maximiano)

Com as manifestações de protesto iniciadas há várias semanas por estudantes por mudanças no sistema educacional do Chile, logo transformadas em protestos genéricos contra o governo e secundadas por outros segmentos sociais, entrou novamente em grande evidência o presidente chileno, Sebastián Piñera, um liberal eleito no ano passado por maioria absoluta num segundo turno que disputou contra o respeitado ex-presidente Eduardo Frei, apoiado pela coligação de centro-esquerda Concertación, que há 20 anos governava o Chile.

Piñera, empresário bem sucedido e bilionário, que, a despeito de situar-se à direita no espectro político, se opôs à ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), já havia atraído atenções fora das fronteiras do Chile pela rapidez com que seu governo reconstruiu o país após a sucessão de terremotos que coincidiu com sua posse. Mais tarde, em outubro, acompanhou pessoalmente o dramático resgate de 33 trabalhadores presos há 69 dias por um deslizamento em uma mina de cobre no Deserto de Atacama, no norte do país.

Com os atuais acontecimentos no Chile, achei proveitoso para os leitores do blog conhecerem o presidente, por meio de trechos da entrevista que concedeu à jornalista Mariana Pereira de Almeida, publicada originalmente em VEJA a 10 de novembro do ano passado.

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“Alternância de poder é vital”

O presidente do Chile fala do simbolismo da operação do resgate dos 33 mineiros de San José, dos pilares da economia e da democracia chilenas

Presidente do Chile há 8 meses, Sebastián Piñera já passou por testes que outros governantes jamais enfrentaram. Às vésperas de sua posse, o Chile foi atingido por um dos 5 terremotos mais fortes já registrados e viu uma fração considerável da infraestrutura do país ser arrasada. Logo depois, veio a comoção nacional com o aprisionamento de 33 mineiros em San José, no Deserto do Atacama.

A administração Piñera respondeu com rapidez e eficiência aos desastres. A impecável operação de salvamento dos mineiros, em especial, entrou para a história como um feito de rara e positiva repercussão interna e externa, levando a aprovação popular do presidente a confortáveis 63%.

Professor universitário convertido em empreendedor, Piñera tornou-se um dos homens mais ricos do Chile, com participações acionárias na emissora de televisão Chilevisión, na empresa aérea Lan e na popular equipe de futebol Colo Colo. Com fortuna na casa do bilhão de dólares, ele vendeu ou está vendendo suas ações de empresas, para evitar conflitos com o cargo que ocupa. Piñera falou a VEJA no Palácio de la Moneda, sede da Presidência, em Santiago.

O senhor temeu pelo pior em algum momento, na operação de salvamento dos mineiros?

A maior tensão foi antes do resgate, durante os 17 dias em que os buscávamos às cegas. Eu fui a Copiapó [norte do Chile] e me reuni com os familiares. Os parentes estavam aterrorizados. Assumi o compromisso de que buscaríamos os mineiros como se fossem nossos filhos. Quando se trata de um filho, a gente vai até o fim do mundo para buscá-lo. Isso criou uma aliança de alma e de coração entre os familiares e o governo. O momento do resgate em si foi de muita paz e alegria, porque era o fim de 69 dias de angústia e incerteza.

Normalmente, num acidente desse tipo, o resgate não é prioridade de governo. Por que foi diferente nesse caso?

Quando o acidente ocorreu, muitos assessores recomendaram que mantivéssemos distância do assunto. Acreditavam que a história terminaria com 33 cruzes na montanha e, portanto, não era bom estar vinculado à tragédia. Por alguma razão inexplicável, assim como as famílias dos mineiros, sempre tive uma profunda convicção de que eles estavam vivos. Cada vez que eu ia à mina com minha mulher, voltava mais convencido de que seria possível salvá-los. Visto que a empresa dona da mina era incapaz de assumir o desafio do resgate, era o governo ou não era ninguém. O resgate foi uma mensagem a todos os chilenos de que não vamos deixar ninguém para trás.

(…)

mineiros-chile1

Sobre o resgate dos mineiros soterrados: "era o governo ou não era ninguém"

Estrear com 2 desastres nacionais, o terremoto e o soterramento dos mineiros, poderia ter aniquilidado sua Presidência, não?

Fomos atingidos por um dos 5 piores terremotos da história da humanidade e depois sacudidos por maremotos. Esses abalos nos custaram mais de 700 vidas. Ainda há dezenas de chilenos desaparecidos. O terremoto provocou uma destruição material gigantesca, com custo estimado em 30 bilhões de dólares, 18% de nosso Produto Interno Bruto. Mas o Chile não está de joelhos. Ao contrário. Apesar do terremoto e dos maremotos, nós nos comprometemos ainda mais com um programa de governo que tem objetivos claros: deixar para trás o subdesenvolvimento e a pobreza.

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24/10/2010

às 10:11 \ Vasto Mundo

Veja no vídeo como o nacionalismo catalão do repórter irritou o zagueiro Sergio Ramos, da seleção espanhola

Não percam o vídeo abaixo, mas antes deixem-me explicar um pouquinho.

Os exageros do nacionalismo catalão na Espanha — assunto que comentarei em breve num post sobre as próximas eleições regionais na Catalunha, em novembro — tiraram do sério o zagueiro Sergio Ramos, zagueiro central do Real Madrid e lateral direito da seleção espanhola de futebol.

O episódio ocorreu em Salamanca, na Espanha, durante uma coletiva de imprensa de jogadores da seleção, na véspera da partida em que a Espanha derrotou a Lituânia por 3 a 0 pelas eliminatórias da Eurocopa (copa européia de seleções), no dia 8.

Um jornalista da TV3 da Catalunha perguntou ao zagueiro do Barcelona Piqué,  que é catalão, a respeito do atacante David Villa, e solicitou que a resposta fosse dada em catalão.

No final, Piqué, conhecido por ser bonachão, brincalhão e boa praça, foi gentil e perguntou ao jornalista se queria que ele traduzisse sua resposta para o castelhano (espanhol) aos demais jornalistas.

Foi aí que Sergio Ramos, que é de Sevilha, na região da Andaluzia, perdeu a paciência. Rosto sério, visivelmente chateado, ele seria o próximo a responder e perguntou ao jornalista:

– Respondo pra você em andaluz [dialteto da Andaluzia]? Vai ver que você entende. Em castelhano posso ver que está difícil.

Mais tarde, pelo seu twitter, Ramos disse tratar-se de uma brincadeira, que nada tem contra os catalães, e ainda publicou uma foto em que está abraçado a Piqué.

Vejam, pela cara e pela resposta atravessada, se foi mesmo brincadeira. E Ramos tem razão: é puro fruto do nacionalismo delirante, minoritário embora crescente na Catalunha, que um jornalista catalão, e portanto espanhol, dirigindo-se a jogadores da seleção de seu país, e em meio a jornalistas também espanhóis, crie esse tipo de embaraço por nada.

 

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