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Johann Cruyff

04/01/2014

às 16:15 \ Tema Livre

O grande Cruyff, um dos maiores craques da história, em entrevista: “Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.”

Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011campeões de audiência 02

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

Cruyff com Daniel, autografando a camiseta… para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do dream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

12/09/2013

às 17:12 \ Tema Livre

FUTEBOL: O grande Cruyff surpreende e diz que vai torcer contra seu time de coração — o Barça — na Copa dos Campeões

Cruyff diante de um cartaz de sua fundação: ocupando lugar de honra no panteão dos maiores de todos os tempos (Foto: Claudio Versiani)

Ele revolucionou, como jogador e como técnico, o jeito de jogar futebol do F. C. Barcelona, é considerado o grande criador e inspirador do estilo de jogo que fez do Barça o melhor time do mundo, vive na cidade de Barcelona há 40 anos, tem três filhos catalães e chegou a ser presidente de honra do clube — honraria que lhe foi vergonhosamente retirada pelo presidente do Barça, Sandro Rosell, pouco depois de assumir, em 2010.

Por isso, obteve enorme repercussão a entrevista que o grande Johann Cruyff — um dos gigantes definitivamente entronizado no panteão dos melhores da história — concedeu a uma emissora de TV de seu país, a Holanda.

Cruyff como jogador do Barça, saudando a torcida: carreira impressionante, com 22 titulos e 3 Bolas de Ouro (Foto: EFE)

Perguntado sobre para que time torceria no confronto que terão, na fase de grupos da Copa de Campeões da Europa, o Barça — clube central em sua vida — e o Ajax, time holandês em que se projetou, Cruyff surpreendeu ao responder:

– Pelo Ajax, claro.

O repórter perguntou:

– O senhor vai assistir à partida que os dois travarão no Camp Nou [campo do Barça]?

Cruyff respondeu:

– Não. Não piso no estádio enquanto Sandro Rosell for presidente do clube.

Homem de vida pessoal irrepreensível, financiador do próprio bolso de uma fundação que aos oucos se espalha pelo mundo e trabalha em prol da educação e do esporte, Cruyff não apenas ficou justamente chateado pela desfeita de Rosell em relação a seu título honorífico. Ele tem sérias reservas sobre a forma como o ex-alto executivo da Nike administra o Barça, embora evite comentar em detalhes o que sabe.

Para se compreender bem o que significa a entrevista de Cruyff e seu peso no futebol do Barça, da Espanha e da Europa, é preciso lembrar que, em sua trajetória como jogador, ele abocanhou 22 títulos, ganhou três Bolas de Ouro e fez 425 gols em partidas oficiais. Como treinador, foi 14 vezes campeão.

O grande Johann Cruyff, hoje com 65 anos, não apenas em seus primeiros anos colocou a Holanda no mapa do futebol ao ganhar incríveis e sucessivas três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) como depois encabeçou a Laranja Mecânica, lendária seleção de seu país que encantou o mundo na Copa de 1974.

Contratado pelo FC Barcelona em 1973, seu futebol extraordinário foi decisivo para levar o clube, logo em 1974, a seu primeiro título de campeão da Liga Espanhola após uma dolorosa travessia do deserto que já durava 14 anos.

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do fabuloso dream team do Barcelona no início dos anos 1990, faturando quase inacreditáveis quatro títulos espanhóis consecutivos e a primeira das três Copas da Europa ostentadas hoje pelo melhor time do mundo.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse certa vez o ex-craque argentino Jorge Valdano, ex-diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”.

 

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23/06/2013

às 18:00 \ Tema Livre

Conheça o atacante Romarinho — não o do Corinthians, mas o filho do Baixinho

Romarinho, no Brasiliense: gols como profissional (Foto: Fabrício Marques)

Romarinho, no Brasiliense: gol na inauguração do Estádio Nacional Mané Garrincha -- e temperamento diferente do do pai (Foto: Fabrício Marques)

Reportagem de Lilian Tahan, publicada em edição impressa de VEJA Brasília

FILHO DE PEIXE É JACARÉ

Herdeiro de craque, Romarinho ajuda o Brasiliense a ganhar um título, renova contrato e passa a escrever a própria história

Foram oito horas em trabalho de parto numa clínica de Barcelona, na Espanha, até Mônica dar à luz o filho. Naquele 20 de setembro de 1993, o menino nascia superlativo, com 4,2 quilos e 53 centímetros. Nas primeiras horas de vida, contudo, o bebê receberia identidade no diminutivo.

Romarinho seria o seu cartão de acesso ao universo desbravado pelo pai, craque da bola, reconhecido em todo o mundo. Em maio, o herdeiro do tetracampeão mundial e deputado federal Romário (PSB) acertou passes que o ajudarão a construir a própria história no futebol.

Fez gol nos 47 minutos do segundo tempo, já nos acréscimos da partida de inauguração do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Com a performance, Romário de Souza Faria Filho confirmou a vitória de 3 a 0 do Brasiliense sobre o Brasília, colocou as digitais na taça do Candangão e cavou melhores condições na renovação de seu contrato. Recebeu aumento de 50% em seu salário, que até o dia da final no Mané era de 8 mil reais.

Perto da fortuna que Romário fez no futebol, os 12 mil reais de Romarinho soam como mesada. Ainda assim, é o dobro do ordenado de alguns colegas do Brasiliense. Embora vice-campeão da Copa do Brasil em 2002, o Jacaré amarga a série C do Campeonato Brasileiro. O maior time do Distrito Federal não tem tradição no futebol de elite. Romarinho tampouco.

Mas naquele sábado ensolarado de maio foi diferente. Pelas lentes de uma imprensa com um olho no campo e o outro no acabamento das obras do Mané Garrincha, Romarinho se destacou. Era o teste da arena da capital da República, que acabou sendo palco da partida entre Brasil 3 x Japão 0, o jogo que estreou a Copa das Confederações,  em 15 de junho. Fermentados pela circunstância histórica, equipe e jogadores cresceram.

Prenúncio: seu primeiro presente foi uma bola de futebol (Foto: Acervo de família)

Prenúncio: seu primeiro presente foi uma bola de futebol (Foto: Acervo de família)

Em um gramado ainda arenoso, Romarinho marcou o segundo gol de sua carreira profissional. O primeiro que emocionou publicamente o pai, eleito em 1994 o melhor jogador do mundo pela Fifa, quando o filho dava os primeiros passos, no Brasil. “Romarinho nunca foi de brincar com carrinho nem bonecos. O negócio dele era a bola”, diz a mãe, Mônica de Carvalho.

Primeira mulher de Romário, ela ainda convalescia na maternidade quando recebeu a visita de uma das filhas do treinador holandês Johann Cruyff, que escalou Romário no Barcelona para seu dream team. A menina levou um urso de pelúcia para o recém-nascido.

“Minha sogra (dona Manuela) dizia que o primeiro presente dele tinha de ser uma bola. Alguns dias depois, descobrimos que aquele ursinho virava uma bola do Barcelona. Foi um sinal”, lembra a mãe, que proibiu o assédio de fotógrafos até que Romário chegasse a Barcelona para conhecer o filho.

Um dia antes do nascimento do menino, o artilheiro estava em campo no Maracanã contra o Uruguai, pelas eliminatórias da Copa de 1994. Fez os dois gols que credenciaram o Brasil para o Mundial.

Se o mimo de Cruyff foi interpretado como prenúncio do que o futuro reservava para Romarinho nos campos, vieram outros sinais não tão coerentes com o perfil de um atleta. Durante a infância, o primeiro filho homem de Romário sofreu com crises de alergia respiratória, tinha adenoide, amigdalite crônica, roncava como adulto e seu corpo não crescia nas proporções esperadas para uma criança saudável. “Aos 16 anos, ele parecia um garoto de 13″, descreve a mãe.

Com 14 anos, o franzino Romarinho ingressou no Vasco. Primeiro no infantil, em 2007. Em 2011, estava entre os juniores quando participou de treinos do time profissional, sem nunca ter disputado um jogo oficial. Na época, operou a adenoide, tirou as amígdalas e, como consequência da cirurgia, teve o palato reconstruído. O resultado lhe deu novo fôlego, menos infecções e uma esticada ao atual 1,82 metro (vantagem sobre o pai, o Baixinho, de 1,68 metro).

“Queria ter feito história no Vasco, mas não deu”, economiza Romarinho, sobre a polêmica que começou quando o pai julgou que ele estava subutilizado, tomou suas dores e vociferou. Na versão mais educada, chamou o técnico dos juniores, Sorato, de “jogador medío­cre”; o presidente do Vasco, Roberto Dinamite, de “chefe sem personalidade”; e o time, de “casa da mãe joana”.

Romário chutou o balde da carreira do filho, encruada nas bases do Vasco, e com um telefonema resolveu o destino do jovem, no fim do ano passado. Pediu a Fábio Braz, amigo de sua época no time cruzmaltino, hoje zagueiro do Brasiliense, que fizesse a ponte com Luiz Estevão, dono do time candango.

“Imagina! Aceitei de pronto”, diz o cartola, que conta ter negociado o valor do contrato de Romarinho segundo orientação do pai do jogador: “Ele me pediu que fosse a mesma quantia de quando o garoto jogava no Vasco. Agora, se ganhou aumento, foi porque mostrou serviço”.

Desde janeiro, Romarinho treina de terça a sexta-feira, folga em geral no sábado, e joga aos domingos. “Só fico de bobeira, na piscina, nos fins de semana. Senão dá ‘inhaca’, aquela moleza que atrapalha.”

Romário e o filho: há um ano eles dividem a casa no Lago Sul (Foto: Fernando Lemos)

Romário e o filho: há um ano eles dividem a casa no Lago Sul (Foto: Fernando Lemos)

À mesa, é praticante de vale-tudo, mas prefere bife, batata frita e bolo de sobremesa. Na rua, exercita a diversidade gastronômica – da Toca do Açaí, em Taguatinga, ao menos popular Coco Bambu, na beira do lago.

No restaurante de frutos do mar, tem mesa cativa, com vista para seu endereço na QL 24, onde mora com o pai desde janeiro, numa casa com seis suítes, piscina, campo de futebol e quadra de futevôlei. “Estamos muito próximos”, disse Romário sobre o fato de o filho ter se mudado do Rio para morar com ele.

Na infância, conviviam pouco. A pensão de Romarinho e de Moniquinha, a primeira filha de Romário, motivou brigas ruidosas entre o ex-jogador e a mãe das crianças.

Desde os primeiros chutes, Romarinho provou sabores e embaraços de ser filho de Romário, a quem puxou no gosto pelo esporte, mas não herdou hábitos noturnos nem o ímpeto para trocar de namorada.

Seu status: solteiro. Acanhado, menos atrevido, mais amistoso que o pai, o filho vê diferenças de temperamento entre eles. “Eu penso antes de falar”, conta.

“As comparações podem destruir uma carreira. Mas Romarinho é maduro”, avalia Márcio Fernandes, técnico do Brasiliense, que nas bases de times paulistas treinou Neymar, Ganso e Robinho.

Para Fernandes, o filho de Romário é “mais fácil de lidar”, numa comparação tácita com o gênio do pai, já que ninguém ousa fazer paralelo sobre o quesito talento. “É humilde, sabe ouvir”, complementa.

Qualidades que, se não são decisivas, podem ajudar Romarinho a repetir o resultado de maio. “Tenho muito orgulho do meu pai, mas preciso seguir meu caminho”, diz o garoto, que sonha jogar na Europa e ter em campo a desenvoltura que, por enquanto, é virtual.

No jogo de videogame Fifa, é craque do Atlético Mineiro, na pele de Ronaldinho.

Currículo

- Nome: Romário de Souza Faria Filho

- Idade: 19 anos

- Peso: 80 quilos

- Altura: 1,82 metro

- Times: Vasco (nas categorias de base, entre 2007 e 2012) e Brasiliense (atual)

- Posição: atacante

- Gols na carreira profissional: dois

- Salário: 12.000 reais

24/04/2013

às 17:15 \ Vasto Mundo

Escândalo financeiro envolvendo presidente do Bayern de Munique é mais do que isso: é o desabamento de um ídolo nacional alemão

Uli Hoeness em foto que parece profética, devido a sua situação atual: um ídolo que tomba a ponto de até Merkel se dizer "decepcionada" (Foto: n-tv.de)

Quando alguém sobe muito, a queda é mais feia, ou triste, ou espalhafatosa.

É o caso que acaba de ocorrer com Ulrich “Ulli” Hoeness, presidente do mais poderoso clube de futebol da Alemanha, o Bayern de Munique, o mesmo Bayern que ontem arrasou por 4 a 0 o melhor time do planeta, o Barcelona, pelas semifinais da Liga de Campeões da Europa, na Allianz Arena.

Acusado de fraude fiscal, o dirigente admitiu ter conta livre de impostos na Suíça, em valor ainda não determinado, mas de muitos milhões de euros — talvez 20 milhões (mais de 50 milhões de reais).

Os mais velhos se lembram da espetacular final da Copa de 1974, na então Alemanha Ocidental — aquela mesma em que Zagalo nada sabia do Carrossel holandês que humilhou a Seleção Brasileira e a eliminou do torneio. A fabulosa Holanda do grande Cruyff chegou à final contra a dona da casa, que tinha entre outros o não menos extraordinário Beckenbauer.

Logo aos 2 minutos de jogo, Cruyff entorta o lateral Vogts (futuro técnico da seleção alemã) e, ao entrar na área, é derrubado pelo meia-atacante Hoeness. Pênalti! Outro grande craque holandês, Neeskens, cobra, converte e a Holanda sai na frente — no jogo em que acabaria perdendo a Copa para os alemães por 2 a 1, em Munique, a 7 de julho de 1974.

Esse mesmo Hoeness, que poderia carregar a maldição do pênalti cometido vida afora, defendeu 76 vezes a seleção alemã em suas várias categorias, sendo 35 na principal, e subiu muito na vida: mesmo encerrando a carreira prematuramente, por contusão no joelho, fez carreira como dirigente, tornando-se um manager de extraordinário sucesso do Bayern que, em seu período, entre outros títulos, foi 15 vezes campeão alemão.

Como gestor, não poderia ser melhor: o clube aumentou 10 vezes seu faturamento nos mais de 20 anos de sua gestão, e, em número de sócios — com 100 mil –, só não bate hoje, no mundo, o Barcelona. Não por acaso, ele assumiu a presidência do clube em 2009, sucedendo ao kaizer Beckenbauer, que se tornou presidente de honra. Paralelamente, Hoeness explodiu como empresário: filho de um açougueiro, seguiu no ramo do pai e é dono de uma indústria de frios que fatura 60 milhões de dólares por ano e tem entre seus clientes o McDonald’s alemão.

Era um modelo para a sociedade — e Merkel lamenta

A admissão da fraude fiscal, descoberta e divulgada pela revista semanal Focus — a velha e boa imprensa livre, que esquerdas demagógicas consideram “burguesa” –, não significa apenas encrenca para um grande nome do futebol alemão e europeu.

Hoeness em ação, nos anos 70: joelho obrigou-o a deixar o futebol aos 27 anos de idade (Foto: Getty Images)

Hoeness, 61 anos, era considerado na Alemanha um modelo para a sociedade, graças aos objetivos que alcançou. No final de 2012, um jornal popular realizou uma consulta e 88% dos alemães disseram que gostariam de vê-lo na política.

Entre suas proezas mais recentes no Bayern, a mais espetacular foi a contratação do treinador mais badalado do mundo, o catalão Pep Guaradiola, responsável pelo recorde de conquistas da história do Barcelona — 18 títulos importantes em apenas 4 anos.

Por tudo isso, um clima de desencanto, tristeza e indignação percorre a opinião alemã, com a perspectiva de Hoeness até ir parar na cadeia, dependendo da extensão de sua lesão ao fisco, a ser apurada pelo Ministério Público e a polícia.

O porta-voz da chanceler Angela Merkel, Steffen Seibert, expediu a respeito uma declaração que diz, a certa altura: “Muitas pessoas estão decepcionadas por Hoeness em nosso país, e a chanceler federal está entre elas”.

Já com a cartolagem brasileira, muito mais incompetente e ineficaz do que um dirigente como Hoennes, e com vida financeira coberta de sombras, fica tudo por isso mesmo — não é?

10/03/2013

às 16:00 \ Bytes de Memória

Nos 60 anos de Zico, uma homenagem: a mais ampla reportagem de VEJA com o craque no seu auge — e os bastidores de sua feitura

Zico, o novo camisa 10: "Com Pelé, não há comparação" (Foto: M.M. Passos)

Zico com a camisa 10, que também celebrizou: "Com Pelé, não há comparação" (Foto: M.M. Passos)

Vocês sabiam que Zico, um dos grandes craques do futebol mundial em todos os tempos — que se tornou sessentão esta semana — é formado em Contabilidade e gostaria de ter estudado piano?

Que seu apelido de garoto era “Caroço”?

Que não se considera o melhor dos três irmãos Antunes que se aventuraram no futebol — para ele, o baixinho Edu, que infernizou os adversários do América e do Vasco durante um período dos anos 70, era o cara?

Que, vindo das divisões inferiores do Flamento e já jogando uma barbaridade, nunca teve uma chance no time principal com o então técnico Zagalo?

O grande Zico completou 60 anos de idade esta semana e recebeu muitas homenagens. A minha é a de republicar reportagem/perfil que fiz para VEJA quando o craque estava no auge, às vésperas da Copa de 1982 — com as informações curiosas mencionadas acima e muitas outras.

A “chamada” da capa (veja foto abaixo) dizia: “O Grande Zico”. E o título da reportagem, dentro da revista, era: “O nosso craque maior”. A foto de abertura da reportagem é a foto que abre este post.

Depois do final da reportagem, leia um texto em que conto bastidores de sua feitura.

Reportagem publicada na edição de VEJA de 17 de março de 1982

O NOSSO CRAQUE MAIOR

Vencidos problemas e preconceitos, Zico chega aos 29 anos como o melhor jogador do Brasil e com tudo para explodir na Copa do Mundo

Quando as seleções do Brasil e da Alemanha Ocidental pisarem o gramado do Maracanã, no Rio de Janeiro, no próximo domingo, os apreciadores estarão diante do que, no momento, o futebol internacional pode oferecer de melhor – e testemunharão, de quebra, o confronto direto de duas superestrelas desse esporte: o brasileiro Arthur Antunes Coimbra, o Zico, 29 anos, e o alemão Karl-Heinz Rummenigge, 26.

Poucos críticos e torcedores, excetuados talvez os argentinos, deixariam de considerar Brasil e Alemanha o maior clássico do planeta.

Da mesma forma, o mundo parece convencido de que Zico e Rummenigge compõem, com o argentino Maradona, o trio de gigantes de sua geração.

Embora seja um amistoso preparatório para a Copa do Mundo da Espanha, que começa em junho, o jogo de domingo oferece atrações capazes de transformá-lo num grande acontecimento. Em primeiro lugar, há o ressentimento dos alemães com o duro retrospecto sobre os encontros Brasil e Alemanha – em nove jogos, o Brasil venceu seis, empatou dois e perdeu apenas um.

Além disso, o fortíssimo time do técnico Jupp Derwall ainda parece francamente atônito com a impiedosa goleada de 4 a 1 que lhe foi imposta pela equipe de Telê Santana no Mundialito do Uruguai, há pouco mais de um ano. São temperos que certamente apimentarão o duelo entre Zico e Rummenigge.

Trata-se de um daqueles tira-teimas entre craques que tanto atrai as multidões – no último deles, entre Zico e Maradona, Zico levou a melhor.

Num Flamengo e Boca Juniors realizado em setembro passado, o Flamengo ganhou de 2 a 0 – dois gols de Zico, numa partida em que Maradona jogou mal e saiu antes do fim.

Zico merece todo o respeito dos alemães. “Ele é um jogador-exceção, uma raposa, um craque que conquista a bola com leveza e agilidade”, diz o meio-campo Wolfgang Dremmler, 27 anos, que no domingo atuará contra o Brasil.

A exibição ao lado de Rummenigge, um habilíssimo atacante sem posição fixa, eleito o melhor jogador da Europa em 1980 e 1981, será uma boa oportunidade para que Zico se consolide na posição de primeiro aspirante a uma coroa que foi de Pelé por muitos anos e, na prática, está sem dono desde que o holandês Johann Cruyff se afastou da Seleção Holandesa, às vésperas da Copa de 1978.

CURRÍCULO ESPLÊNDIDO

Com Sócrates, na vitória contra a Alemanha por 2 a 1, em maio de 1981: o grande clássico do futebol mundial (Foto: J.B. Scalco)

Com Sócrates, na vitória contra a Alemanha por 2 a 1, em maio de 1981: o grande clássico do futebol mundial (Foto: J.B. Scalco)

Que Zico é o maior jogador do Brasil ninguém mais duvida – nem mesmo Sócrates, o atacante do Corinthians, reconhecidamente o único que poderia fazer-lhe sombra de forma direta. “Isso não se discute: o melhor jogador do Brasil é Zico”, encerra Sócrates.

Fantasmas e preconceitos ficaram para trás

E já ficaram definitivamente para trás alguns fantasmas e preconceitos que assombraram a carreira de Zico.

Pipoqueiro? “Santo Deus, eu queria ter um pipoqueiro desses em cada clube que eu treinar”, diz o técnico Oswaldo Brandão, o primeiro a convocar Zico para a Seleção, no início de 1976.

Jogador que só vai bem no Maracanã? Basta ver a chuva de gols que Zico marca por todo o Brasil, ou, então, os aplausos que recebeu da insaciável torcida paulista no magro empate por 1 a 1 contra a Checoslováquia, no início do mês. Mesmo no “purgatório” tradicional à saída do estádio, onde nem Sócrates escapou de xingamentos, Zico foi poupado.

Craque que não dá certo na Seleção? Que se ouça, então, o técnico Telê, para quem Zico é “o maior nome do futebol brasileiro”, “um dos melhores jogadores do mundo” e “um grande profissional”, que em vinte das 28 partidas da Seleção disputadas desde que Telê assumiu, há dois anos, fez dezenove gols, sem contar os que proporcionou a seus companheiros.

Ninguém, no futebol brasileiro atual, chega perto do esplêndido currículo do novo camisa 10 da Seleção. Zico foi seis vezes campeão da Taça Guanabara e seis vezes campeão do Rio de Janeiro pelo Flamengo, ganhou três títulos de torneios internacionais pela Seleção e dois pelo Flamengo, foi campeão da Taça Libertadores da América e Mundial de Clubes no ano passado.

Vibrando com mais um gol: o principal artilheiro do Flamengo (Foto: Ricardo Chaves)

Vibrando com mais um gol: o principal artilheiro do Flamengo (Foto: Ricardo Chaves)

O maior artilheiro da história do Flamento: em 8 campeonatos, artilheiro em 5 e vice em 2

De 1974 para cá, quando se firmou de vez no ataque do Flamengo, em oito campeonatos disputados no Rio, Zico foi artilheiro em cinco e vice-artilheiro em dois.

Um dos poucos jogadores profissionais em todos os tempos a superar a marca dos 500 gols, até a semana passada ele balançara as redes adversárias exatas 560 vezes, 502 das quais no Flamengo – o que o transforma no maior artilheiro da história do clube -, 53 na Seleção Brasileira e cinco em outras seleções.

Para onde se olhe na carreira de Zico, lá estará sendo quebrado algum recorde.

Foi ele, por exemplo, o maior goleador do Maracanã num único campeonato, o de 1975, com trinta gols, batendo um recorde estabelecido ainda na década de 50 pelo legendário Ademir de Menezes e igualado na década seguinte pelo artilheiro Quarentinha, do Botafogo.

Foi ainda Zico quem mais gols marcou num único jogo no Maracanã – seis, na goleada de 7 a 1 do Flamengo contra o Goytacaz, em março de 1979, dose repetida três meses depois contra o Niterói. Na segunda-feira dia 22 ele receberá o Troféu Craque do Ano da revista Placar, escolhido pelo voto dos leitores, unanimidade do Júri Especial da revista e por um júri de jornalistas esportivos de quatro capitais brasileiras.

AUTÓGRAFOS EM BOLAS

Na escolinha do Flamengo: em cinco anos, de "Caroço" a supercraque (Foto: A. J. B.)

Na escolinha do Flamengo: em cinco anos, de "Caroço" a supercraque (Foto: A. J. B.)

Ele próprio diz: “Não há comparação com Pelé”

Zico chega ao limiar da Copa do Mundo com uma unanimidade nacional semelhante à ostentada por Pelé. “Mas não há termo de comparação entre Zico e Pelé”, ressalva o camisa 10 do Flamengo.

As estatísticas sugerem que mesmo o grande Zico não poderá reprisar a glória do genial Pelé. Zico precisou chegar aos 29 anos de idade para ter marcado 500 gols. Pelé, com a mesma idade, já havia colecionado 1.000.

Mas os dois se parecem ao menos na infinita paciência com que ambos sabem conviver com a condição de ídolo. “Este rapaz já não se pertence, não pode ficar tranquilo um minuto”, irrita-se o supervisor do Flamengo, Domingos Bosco.

Celebridade com paciência infinita

É verdade. Tome-se ao acaso qualquer dia na vida de Zico e se terá uma prova para os nervos de um mortal comum. Dia de jogo do Flamengo em Fortaleza, no Ceará, por exemplo. No restaurante em que ele almoça no Hotel Praiano, o garçom larga na mesa o filé do maior jogador do Brasil, saca do bolso uma câmara e põe-se a fotografar o craque.

Hoje, com sandra, Júnior e Bruno (Foto: Ricardo Chaves)

Hoje, com Sandra, Júnior e Bruno (Foto: Ricardo Chaves)

Nos 15 minutos em que se aventura a chegar perto da piscina, não consegue parar: dá autógrafos em bolas, raquetes de tênis, cartões-postais. Segura criancinhas para fotografias, abraça fãs que nunca viu, é sucessivamente beijado.

Na sede do Flamengo no Rio, na Gávea, é pior ainda.

Num dia normal, como antes da recente partida contra o Atlético Mineiro, Zico pode bem demorar 40 minutos entre o final do treino e o momento em que, enfim, exausto, pode entrar no banho.

No percurso, entrevistas a cinco emissoras de rádio, a três jornalistas italianos e a dois árabes que mal falam português, uma ida até as arquibancadas para conversar com crianças excepcionais trazidas por uma professora, uma pausa para receber sua imagem entalhada em madeira por um fã adolescente – e, claro, incontáveis autógrafos.

SUCESSO NO TEATRINHO

Os pais, com Antunes, Tonico, Zico, Nando e Edu (Foto: Abril)

Os pais, seu Antunes e dona Matilde, com Antunes, Tonico, Zico, Nando e Edu (Foto: Abril)

“Quem perde a paciência às vezes sou eu”, diz a mulher, Sandra

“As pessoas às vezes abusam, mas ele dificilmente perde a paciência”, diz Sandra de Sá Coimbra, 26 anos, a mulher de Zico. “Eu é que às vezes perco”, arremata, lembrando casos em que Zico mal pôde permanecer numa boate ou teve o braço confiscado por algum fã num restaurante no momento exato de levar o garfo à boca. “Faz parte de minha vida”, diz Zico, resignado. “Essas pessoas só me vêem de longe nos estádios, gostam de mim. Eu não me escondo, não.”

Maria José, a “Zezé”, 38 anos, irmã mais velha de Zico, psicóloga com consultório em Copacabana e professora na Universidade Gama Filho, acha que Zico “tem muito equilíbrio para conviver com essa glória e ser um homem feliz”.

Pragmático, o próprio Zico explica sua técnica para sobreviver quando está em trânsito por algum lugar público: “Você não pode é parar. Se parar, aglomera”. Nas férias com Sandra e os filhos Arthur Júnior, de 4 anos, e Bruno, de 3, o recurso é ir para o exterior. “No Brasil, não tem mais lugar nenhum em que eu passe despercebido”, diz ele com simplicidade.

Caminho para os filhos flamenguistas foi aberto… no Fluminense

O caminho de Zico para a glória, desde que era o pequeno craque “Caroço” (apelido resultante de um quisto próximo a seu olho esquerdo, já eliminado) das peladas em Quintino Bocaiúva, um subúrbio a 45 minutos de ônibus do centro do Rio, entre Cascadura e Piedade, na zona norte, já entrou para a legenda do futebol brasileiro.

O alfaiate José Antunes Coimbra – “seu” Antunes, o pai, hoje com 81 anos – fora goleiro na juventude, depois que emigrou de Portugal, mas mesmo assim se opusera a que os filhos, todos flamenguistas roxos como ele, jogassem futebol profissionalmente.

Segundo a mãe, dona Matilde, o filho caçula era um menino bem-comportado, que não dava trabalho. “Ele gostava muito de cantar e de participar do teatrinho da escola”, lembra-se sua primeira professora no Grupo Escolar Rocha Pombo, dona Neide Almeida Sampaio. “Uma vez ele foi o caçador na encenação do ‘Chapeuzinho Vermelho’ e se saiu muito bem.” Acima de tudo, ele gostava de futebol.

Um garoto que antes dos 10 anos encantava Quintino nas peladas de rua, Zico, porém, obedecia ao pai – e foi preciso que o irmão José Carlos, o “Zeca”, hoje um economista de 37 anos, mais conhecido por Antunes, abrisse caminho para uma breve carreira no Fluminense para que os irmãos pudessem segui-lo.

MAMADEIRA E SERIEDADE

Com a primeira professora, dona Neide: lembrando o "Chapeuzinho Vermelho" (Foto: Sérgio Bebezovsky)

Com a primeira professora, dona Neide: lembrando o "Chapeuzinho Vermelho" (Foto: Sérgio Berezovsky)

Fernando, o “Nando”, formado em Comunicações, 36 anos, acabou jogando no Madureira e no Futebol Clube do Porto, de Portugal. Eduardo, o “Edu”, hoje com 35 anos, concluindo o curso de Educação Física, treinador dos juvenis do América Carioca e instrutor da Funabem no Rio, foi uma sensação no América, jogou no Vasco e no Flamengo, esteve entre os quarenta selecionados para a Copa do México e encerrou sua carreira no mês passado pelo Campo Grande, no Rio.

O moleque franzinho faz 14 gols numa partida de futebol de salão 

Dos cinco homens – Zezé, a psicóloga, é a única mulher -, apenas Antônio, o “Tonico”, 36 anos, formado em Administração e funcionário do Detran, não foi jogador profissional.

A história do Zico craque começou com o radialista Celso Garcia, da Rádio Tupi, vizinho de bairro dos Antunes, sendo chamado para ver o garoto em ação no futebol de salão do Clube River, em Piedade.

O Santos, time de Zico, então com 14 anos, ganhou de 22 a 2, e aquele franzino atacante fez catorze gols. “Fiquei impressionado, com a certeza de que tinha descoberto um craque excepcional”, diz Garcia, hoje conselheiro o Flamengo.

Moisés enfrenta Zico: usando o "direito da falta" (Foto: Rodolpho Machado)

Moisés enfrenta Zico: usando o "direito da falta" (Foto: Rodolpho Machado)

Zagalo, técnico, nunca lhe deu uma chance no time principal do Fla

Garcia levou Zico para treinar na Gávea e espantou o treinador dos juvenis, Modesto Bria, com o físico mirrado do garoto: 1,55 metro e 37 quilos. “Isso aqui é coisa muito séria, Celso”, reclamou Bria. “Esse menino precisa é de mamadeira.”

Mas Zico agradou em cheio no primeiro treino – e daí para a frente ninguém o segurou, nem a má vontade de técnicos sem visão.

Joubert não o deixava treinar, já crescido, com os profissionais. Zagalo, mais tarde, nunca lhe deu uma chance no time principal. E Antoninho conseguiu excluí-lo dos convocados para a Olimpíada de Munique, em 1974, mesmo sendo o Flamengo campeão estadual e Zico, ainda um aspirante o artilheiro do time.

GOSTOS SIMPLES

O vôlei na praia: cada vez mais raro (Foto: Adalberto Diniz)

O vôlei na praia: cada vez mais raro (Foto: Adalberto Diniz)

O baixinho magricela ganha peso, músculos e altura

Um intenso programa de condicionamento físico transformaria Zico completamente. Dividido em três fases – uma completa revisão médica, tratamento à base de anabolizantes hormonais para estimular o crescimento combinado com superalimentação e treinamentos físicos especiais -, o programa fez Zico ganhar 17 centímetros e 13 quilos de 1969 a 1974. Valeu.

Zico não se importa de ser chamado de craque de laboratório. “O futebol eu sempre tive, ninguém me ensinou”, diz. Embora poucos notem, ele acabou ficando 2 centímetros mais alto que Pelé, e hoje tem 66 quilos.

O maior jogador do Brasil é um homem de gostos simples. Seu prato preferido é filé com fritas, arroz e feijão. Quando frequenta seus restaurantes prediletos no Rio, o Castelo da Lagoa, o Antiquarius e o Mário’s, costuma pedir frutos do mar.

Gosta de cerveja gelada e de vinho rosê, embora só beba socialmente, e odeia gravata. Passa a maior parte do tempo com roupa esporte, e usa muito – por força de um contrato de publicidade – os artigos da marca Le Coq Sportif.

Zico dispensa os penduricalhos que normalmente enfeitam os jogadores de futebol: junto com o relógio, usa uma pequena pulseira de ouro, presente de Sandra. E, no pescoço, uma medalha também de ouro mostrando dois peixinhos nadando entrelaçados – referência a seu signo e presente que ganhou no Dia dos Pais do ano passado.

No lazer, o vôlei de praia de outrora tomou-se impraticável. Seu grande passatempo, hoje, é a aparelhagem de vídeo-cassete instalada num painel de mais de 2 metros em sua sala. Ali, Zico tem quase todos os gols que marcou e uma enorme coleção de filmes e musicais. Confessa-se “amarrado” em samba e conhece de cor os sambas-enredos das principais escolas do Rio. Vai pouco a cinema – prefere ver em casa – e muito a teatro.

PLANOS ABANDONADOS

Com a torcida: "Eles gostam de mim" (Foto: Ricardo Chavez)

Com a torcida: "Eles gostam de mim" (Foto: Ricardo Chaves)

Um homem de família, que beija o pai, os tios e os irmãos homens

É um homem de família. Costuma beijar não só mãe e a irmã, mas também o pai, os tios e os irmãos homens. Sabe de memória as datas de aniversário de todos os parentes e amigos mais próximos, e não deixa passá-las sem um presente. Gosta de trabalhar com os que lhe são próximos: seu procurador, João Batista de Almeida, é irmão de dona Neide, a primeira professora, e o irmão Antunes ajuda a administrar seus negócios.

Longe do público, é brincalhão e considerado pelos companheiros de time “um grande gozador”. “Pintou um lance, ele encarna”, diz o lateral Leandro, do Flamengo. Seu círculo de amizades é elástico. No mundo do futebol, os mais próximos são Cláudio Adão, do Vasco, e sua mulher, Paula, o goleiro reserva do Flamengo, Cantarele, e o lateral Júnior. Mas nele figuram também o cantor Fagner, o comediante Chico Anysio e os atores Carlos Eduardo Dollabela, Pepita Rodrigues e Fábio Júnior.

Casado há sete anos com Sandra, primeira namorada e irmã mais nova de Suely, mulher de Edu, declara-se até hoje apaixonado pela “mulher, irmã, amiga e amante”. “Nunca tivemos uma crise ou briga séria”, garante Sandra, que o chama de “Filho”. Para os colegas de Flamengo é “Galo” – uma alusão ao apelido “Galinho de Quintino” com o qual foi batizado pelo locutor Waldir Amaral.

Sandra vai com frequência ao Maracanã para assistir aos jogos de Zico, e tem viajado ao exterior durante as excursões do Flamengo, para ficar próxima do marido. Sandra vai à Copa da Espanha, e Zico aplaude a idéia.

O futebol obrigou o supercraque a arquivar alguns planos. Ele gostaria de estudar piano, se tivesse tempo. Sandra, que passou no vestibular de Comunicações da Gama Filho em 1977 mas deixou os estudos quando ficou grávida de Arthur Júnior, tateia algum horário para que Zico estude inglês, como ela. Zico, que fez Contabilidade, abandonou seu curso de Educação Física na Faculdade Castello Branco em 1974, por falta de tempo.

ESPÍRITO DE LIDERANÇA

O vídeo-cassete: quase todos os gols (Foto: Avanir Niko)

O vídeo-cassete: quase todos os gols (Foto: Avanir Niko)

 

Tempo também falta para Zico exercer como gostaria suas funções de presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio de Janeiro. “Vou lá quando dá”, desculpa-se.

Mas faz o que pode. Atualmente, Zico empenha-se sobretudo pela criação de uma entidade nacional de atletas profissionais, pela destinação da renda de um teste da Loteria Esportiva às entidades assistenciais dos jogadores e por uma reformulação da lei do passe, que “escraviza o jogador ao clube”. “Ele é um grande líder de nossa classe”, diz Zé Mário, substituído por Zico no cargo quando se transferiu do Vasco para a Portuguesa, em São Paulo.

Só reivindica para o grupo

“O Zico tem um grande espírito de liderança”, afirma o advogado Antônio Augusto Dunshee de Abranches, presidente do Flamengo, acostumado a receber o craque para tratar das reivindicações dos jogadores. Foi Zico quem exigiu que o vestiário fosse reformado, ou que os jogadores tivessem participação nas rendas. “Quando ele reivindica, é sempre para o grupo, nunca só para ele”, atesta o lateral Júnior.

É claro que Zico sabe também defender seus próprios interesses – mas, rumo aos 30 anos e próximo de disputar a que provavelmente será sua última Copa do Mundo, ele ainda não é exatamente um bilionário do futebol. Obviamente, está muito longe de ser pobre. Mora com família numa bela casa de três andares, quatro suítes e piscina na Barra da Tijuca, no Rio, servida por quatro empregados permanentes e dois eventuais.

Um bom patrimônio, mas longe do que poderia ser

Para comprá-la no ano passado, porém, teve que vender seu primeiro apartamento, na Tijuca, porque lhe faltavam os 7 milhões de cruzeiros da entrada. Além disso, possui dois apartamentos, dois terrenos, uma casa de veraneio em Praia Grande, no litoral fluminense, uma loja de artigos esportivos – a Zico Esportes, na Tijuca – e três automóveis: uma Caravan, um Passat Dacon e um Del Rey.

 

COTAS ESPECIAIS

A casa de Zico: patrimônio em alta com a renda

A casa de Zico: patrimônio em alta com a renda (Foto: Ricardo Chaves)

A condição de jogador mais bem pago do futebol brasileiro – entre luvas e salários, ele ganha hoje cerca de 3 milhões de cruzeiros mensais estipulados por um contrato que vai até maio de 1983 – não permitiu que Zico juntasse um patrimônio muito superior a 100 milhões de cruzeiros.

A preços de hoje, portanto, é menos que a quarta parte do primeiro contrato assinado por Pelé com o Cosmos de Nova York, em 1977. “Proporcionalmente ao que ele traz para o clube, Zico é o jogador mais barato do Brasil”, exagera Michel Assef, assessor jurídico do Flamengo.

A tendência, porém, é a aceleração do ritmo de sua caminhada para a riqueza: seu contrato atual prevê cotas especiais por participação em jogos no exterior, e o sistema de prêmios do Flamengo, com participação dos jogadores na renda e nos direitos de televisamento, permite, nas boas fases do Flamengo, que Zico receba pelo menos 1,5 milhão adicional por mês.

Acima de tudo Zico está agora entrando de rijo no terreno em que realmente uma celebridade esportiva hoje ganha dinheiro: os contratos de publicidade. “Quando terminarem esses contratos, ele será um homem rico”, assegura George Helal, vice-presidente do Flamengo, velho amigo do jogador e seu sócio na firma Zico Participações e Empreendimentos Ltda.

Para ele, o irmão Edu foi melhor

A empresa comercializará, no futuro, a marca “Zico”, já patenteada, como fez Pelé. Hoje, cuida dos negócios publicitários de Zico, que tem contratos com a Coca-Cola, Le Coq Sportif, Wella (xampus), Calcigenol (fortificante), Losango (turismo) e Estrela (brinquedos). Quanto Zico está ganhando com tudo isso? “Bem…”, desconversa o jogador, com um sorriso reticente.

Ele se torna bem mais loquaz ao falar de futebol – e é modesto ao analisar suas qualidades. Acredita sinceramente que seu irmão Edu o “superava longe em termos de qualidade técnica”. Talvez se trate de um tique familiar: o pai, “seu Antunes”, jura que o melhor entre os filhos era Antunes. Considera-se um bom jogador, embora admita que precisa aperfeiçoar o chute de esquerda com bola parada e não se veja como um marcador eficiente.

Suas jogadas preferidas são partir do meio de campo com a bola dominada, em arrancada fulminante rumo ao gol – cada vez mais difícil, hoje em dia -, e chutar de primeira, quando consegue, uma bola cruzada da linha de fundo. Acha que sua principal característica é a rapidez dentro da área: “Procuro não enfeitar – quero jogar a bola dentro do gol, pegar o goleiro no contrapé”.

O POVO SABE

Garoto dos anúncios, como este da Coca-Cola

Garoto dos anúncios, como este da Coca-Cola

Quanto à Copa, Zico entende que Telê está no caminho certo, que não há “casos claros de injustiçados” e que “é preciso respeitar o fato de que certos técnicos trabalham melhor com certos tipos de jogador”. Baseado sobretudo na divisão de chaves, ele aponta Alemanha e Espanha como grandes forças que poderão cruzar o caminho do Brasil.

Entre os jogadores estrangeiros, acha que brilharão sobretudo o argentino Maradona, os alemães Breitner, Runimenigge e Hansi Müller, e o inglês Keegan. Do Brasil, omitindo-se da lista, ele aponta como os melhores Sócrates, Júnior, Leandro, Cerezo e Luizinho.

Falando de política e de economia

Zico também não se acanha em selecionar nomes em política. Nessa área, é ecumênico. O senador Tancredo Neves, ex-PP, agora PMDB, é “um cara de cabeça muito legal”. Sandra Cavalcanti, candidata do PTB ao governo do Rio, que conhece pessoalmente, “é uma cabeça poderosa”. Seu rival do ex-PP e agora do PMDB, Miro Teixeira, amigo pessoal de Zico, representa “sangue novo”.

Ele apoia o projeto de abertura do presidente Figueiredo – e publicou um artigo no jornal Hora do Povo, do MR8. “Não vejo problema algum nisso”, diz Zico, que no entanto esclarece não se tratar de coluna fixa, como o jornal deu a entender. “Eu estava falando dos problemas do jogador de futebol.”

Zico não está satisfeito com o estado da economia. “Então vou ser a favor dessa inflação terrível que aí está comendo tudo?”, pergunta. “Vou dizer que a situação econômica é boa? Claro que não é”, diz, apontando como uma das causas a “má administração”.

Zico acha que o brasileiro está plenamente preparado para votar. Espera que haja logo eleições diretas para a Presidência – “Temos que chegar lá” – e não aprovou a vinculação de votos estabelecida pelo pacote de novembro: “Deve haver liberdade de escolha”.

Pretende votar em seu amigo Márcio Braga, ex-presidente do Flamengo, para deputado federal. Com a incorporação, produto direto dos casuísmos eleitorais do governo, se Márcio, ex-PP, mantiver sua candidatura, Zico, portanto, vai acabar votando no PMDB nas eleições de novembro.

Mas Zico lembra que “política não é meu setor”, e acha que as pessoas célebres, no Brasil, são patrulhadas caso não se pronunciem “sobre tudo”. Sua vida está centrada mesmo é no futebol. Segundo o craque, para o Brasil estrear em pleno estilo na Espanha, “só falta o pessoal poder ficar com a cabeça voltada para a Copa”.

A dele já está – e, no auge da forma, Zico poderá voltar da Espanha como o maior jogador do mundo.

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BYTES DE MEMÓRIA — BASTIDORES

Não basta trabalhar muito: jornalista também precisa ter sorte

Zico não voltou da Espanha com o título que ele e seus companheiros mereciam: o de tetracampeão do mundo.

Eu estive naquela Copa, por dever profissional, e vi a extraordinária seleção de Telê Santana passar dançando pelas primeiras três partidas, classificar-se em primeiro lugar em seu grupo, dar um baile de 3 a 1 na fortíssima Argentina – com Maradona já despontando e tudo o mais — e, na “tragédia de Sarriá”, cair por 3 a 2 ante uma Itália até então medíocre, que se classificara para o misto de oitavas e quartas de final daquela disputa com três empates.

Mas a história com Zico começou assim: J. R. Guzzo, o diretor de Redação de VEJA, me chamou à sua sala, um belo dia, logo no final de 1981, e disse:

– Setti, vou mandar você para a Copa do Mundo da Espanha. Você terá duas tarefas: cobrir a Seleção Brasileira e chefiar a equipe da revista que vai para a Copa.

Saí da sala com um misto de euforia, por poder trabalhar num tema que me apaixonava, e de forte aperto no estômago. Eu não era jornalista da área esportiva — era sub-editor da então importante editoria de Internacional, na qual trabalhava havia seis anos.

De bigodão e bolsa a tiracolo, com Zico no estacionamento da Gávea, dia 9 de março de 1982: o assédio ao craque era tanto que só ali foi possível terminar a entrevista (Foto: Rodolpho Machado)

Gostava de futebol e sabia quem eram todos os personagens ligados à Seleção. Nisso, estava confortável. — o problema é ninguém com quem eu trataria. Nenhuma fonte de informação, a começar pelo técnico Telê Santana, tinha ideia de quem eu era.

E cerca de 400 jornalistas, todos da área, experientes, iriam cobrir a Copa.

Guzzo, com minha designação, queria um olhar diferente sobre a Seleção, e estava plenamente ciente de que eu precisava me enfronhar no tema antes de embarcar para a Europa, meses depois. Assim, ficou combinado que eu passaria a dividir meu tempo entre as tarefas da Internacional e a cobertura de alguns treinos e amistosos da Seleção Brasileira. (Foi o que fiz no Morumbi, no Maracanã, no Recife e em São Luís do Maranhão).

A primeira etapa desse processo, porém, era um desafio: fazer no começo de março uma reportagem de capa, extensa e detalhada, sobre Zico, o maior craque do país na época.

Fui auxiliado, na tarefa, pelo repórter Maurício Cardoso, que sabia tudo de futebol e conhecia todo mundo nesse terreno. Ele ouviu várias pessoas do entorno do craque e o técnico Telê. (Infelizmente, por decisão que escapou de meu alcance, ele não teve crédito na reportagem.)

Pesquisei muito, li tudo o que podia sobre Zico e, não sem dificuldade, consegui manter uma primeira conversa com ele no final de um treino no agradabilíssimo Hotel Rancho Silvestre, em Embu das Artes, a meia hora da sede da Editora Abril, um oásis verdejante, dotado até de campo de futebol com medidas oficiais, onde a seleção tradicionalmente se concentrava quando em São Paulo.

No caso, estava concentrada para um amistoso contra a poderosa Alemanha Ocidental.

Conversando com Júnior e Zico durante a entrega do troféu "Bola de Ouro", da revista "Placar", no Copacabana Palace, a 22 de março de 1982 (Foto: Rodolpho Machado)

Na conversa com Zico, interrompida por constantes pedidos de declarações feitas por colegas, acabei combinando com ele de continuar a entrevista no Rio. Dias depois, fui de manhã até sua casa na Barra da Tijuca, mas o Galinho de Quintino estava com a agenda atrapalhada e me pediu para encontrá-lo mais tarde, durante um treino do Flamengo, seu clube, na Gávea.

Naquela época, Zico era uma das quatro ou cinco pessoas mais célebres do país. Perguntei a ele em que lugar do Brasil ele conseguia ficar sossegado com a mulher e os filhos — para almoçar num restaurante, ir a um cinema ou a um teatro.

Zico respondeu, com simplicidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo — e que era mesmo, para ele:

– Que lugar? Nenhum.

Imaginem então vocês na Gávea o que era assédio ao craque. Assisti ao treino do Flamengo, conversei com alguns jogadores e dirigentes a respeito do objeto de minha reportagem mas, com Zico… Uma pedreira. Solicitado por Deus e o mundo, ele demorou uns 40 minutos entre o final do treino e a chegada aos vestiários, para tomar banho. Me fazia sinal para esperar, e assim fiz.

Só consegui terminar a entrevista iniciada no verdejante Hotel Rancho Silvestre no estacionamento da Gávea, perto do Ford Del Rey de Zico. Aquele contato preliminar seria aprofundado no mesmo mês, quando reencontrei o Galinho no Copacabana Palace, no Rio, onde recebeu da revista Placar a Bola de Ouro por suas atuações em 1981, e em diversos amistosos que a Seleção realizou no Brasil antes de embarcar para a Europa. Quando lá chegamos, Zico já confiava em mim e se tornara uma boa fonte de informações.

Voltando à reportagem de capa: depois de falar com o craque, era preciso, ainda, tentar entrevistar pessoas de sua família, com integrantes espalhados por vários bairros do Rio, agendas e interesses diferentes.

E aí veio a sorte, atributo fundamental para jornalistas cumprirem bem suas tarefas.

Exatamente naquela semana anterior à partida contra a Alemanha o apresentador Silvio Santos comandava o programa Esta é sua vida — e o personagem era, precisamente, Zico. Ou seja, tratava-se de um programa sobre a vida de Zico, da infância até a glória no futebol. E a produção providenciou a presença, nos longínquos estúdios da então TVS na Vila Guilherme, em São Paulo, de toda a família de Zico, de vários amigos de infância e até de sua primeira professora!

Com o craque no dia 6 de julho de 1982, na concentração de Más Badó, próxima a Barcelona, no dia seguinte à derrota da Seleção para a Itália e sua eliminação da Copa de 1982

Maurício Cardoso e eu seguimos para a Vila Guilherme num carro da Abril, com o fotógrafo Sérgio Berezovsky (hoje diretor de Redação da revista Quatro Rodas). Para nossa surpresa, quase não havia jornalistas na gravação do programa. Pudemos entrevistar os pais de Zico, seu irmão Edu — um driblador infernal que jogava uma barbaridade, quanto atuou pelo América e, depois, pelo Vasco –. sua primeira professora…

A sucursal de VEJA no Rio, dirigida por Zuenir Ventura, também colaborou com algumas declarações.

De posse dessa montanha de informações, sentei-me à minha mesa na redação de VEJA, então na sede da Abril na Marginal do Tietê, em São Paulo, e escrevi o texto.

Até hoje não sei por que cargas d’água não incluí na reportagem uma informação inacreditável que me foi fornecida pela mãe do craque, dona Matilde: Zico, contou-me ela, mamou do leite materno até os 11 anos de idade.

29/08/2012

às 16:00 \ Tema Livre

No maior clássico interclubes do mundo, Real Madrid e Barcelona fazem daqui a pouco um sensacional tira-teima

Jogo de ida Barcelona x Real Madrid, na quinta-feira passada: Cristiano Ronaldo persegue Messi, que é cercado também por Coentrão e Xabi Alondo (Foto: Getty Images)

É o grande clássico do futebol espanhol e talvez seja o maior clássico entre times do mundo, hoje.

Mas a partida de volta e decisiva pela Supercopa da Espanha entre o Real Madrid e o Barcelona, daqui a pouco — às 17h30 (hora do Brasil), no Estádio Santiago Bernabéu, em Madri, é também um extraordinário tira-teima entre as duas grandes equipes.

Elas não poderiam estar mais empatadas em quase tudo: em 110 anos de ferrenha rivalidade e 220 partidas, 87 vitórias para o Real, 87 para o Barcelona e 47 empates. Em matéria de títulos oficiais dentro do país, o Real Madrid tem 74 e o Barcelona, 73. Se forem contadas três copas menos importantes e que não existem há muito tempo, as Copas de Feria, seriam 76 para o Barça e 74 para o Real.

Em gols marcados, é quase empate, também: o Real fez 369, o Barça 358.

Essas são as grandes estatísticas envolvendo o jogo. Mas a mania da imprensa esportiva espanhola por destrinchar os mais disparatados recordes sobre os encontros Real Madrid x Barcelona não para aí – há literalmente dezenas de outros, alguns deles sem a menor importância a não ser pela curiosidade, e que são, no entanto, registrados com religiosa compenetração.

Alguns exemplos:

* Se o Barça vencer hoje, seu novo técnico, Tito Vilanova, será o primeiro treinador estreante que ganha suas quatro primeiras partidas de forma consecutiva. O resultado não foi conseguido nem por técnicos fabulosos como o grande holandês Johan Cruyff – criador das diretrizes que até hoje regem o belo futebol do clube – ou o campeoníssimo Pep Guardiola, técnico mais vencedor na história do time, com 14 títulos de 19 possíveis em apenas quatro anos.

* Se o Barça vencer hoje, o cracaço Xavi vai igualar o lendário Gento, ponta-esquerda do Real, como jogador com mais títulos oficiais na história do futebol espanhol: 24.

* Com seu primeiro gol na derrota do Real por 3 a 2 contra o Barça, em Barcelona, na partida de ida, na quarta-feira passada, Cristiano Ronaldo se converteu no primeiro jogador da história do time branco a marcar no Camp Nou pela quarta vez consecutiva.

* Nessa mesma partida, Xavi se tornou o jogador que mais disputou essa partida clássica até hoje: 32. O goleirão Casillas, do Real, tem 31. Ambos devem jogar hoje, e só mudarão os números: Xavi, 33, Casillas, 32.

* Ainda no mesmo encontro, o mesmo Xavi – escarafuncharam os jornalistas esportivos –, autor do terceiro gol do Barça, igualou o búlgaro Stoichkov como o único jogador que marcou gols em quatro edições diferentes da Supercopa da Espanha.

E por aí vai.

 

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