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Ajax

24/06/2014

às 16:52 \ Tema Livre

COPA 2014: Vitória do Uruguai elimina a Itália, mas é empanada pela inacreditável mordida do astro Luisito Suárez no zagueiro Chiellini

(Foto: ESPN)

O lance em que Suárez claramente mordeu o ombro do zagueiro Chiellini — e depois, simulando um golpe não passou de um esbarrão, jogou-se no chão — foi ignorado pelo juiz (Foto: ESPN)

Foi apertadamente justa a vitória do Uruguai diante da Itália, que lutou de forma heroica mas, desfalcada de Marchisio, expulso com acerto logo aos 14 minutos do segundo por uma patada no defensor uruguaio Arévalo Ríos, acabou cedendo e tomou um gol do zagueirão Godin, do Atlético de Madrid, faltando apenas 13 minutos para o final.

Como torcedor, acho uma pena uma Copa que prossiga sem a Squadra Azzurra, tetracampeã mundial, e de colossos já históricos do futebol como o goleiro e capitão Buffon, em seu quinto e certamente último mundial, aos 36 anos, e o esplêndido meia Pirlo. Tradição por tradição, os italianos estão anos-luz à frente dos uruguaios. A do Uruguai “campeão” já é velha de 64 anos — sem contar que seu bi é mais simbólico do que qualquer outra coisa, porque a primeira Copa, disputada em território uruguaio em 1930, foi uma espécie de torneio de casados x solteiros, com 13 times inscritos, sem eliminatórias e sem as principais seleções da Europa.

Também estou entre aquela minoria que não gosta muito da tal “raça” uruguaia, que de fato existe e é notável, mas que frequentemente envolve violência, catimba antiesportiva e outros atos pouco recomendáveis. Na partida de hoje, fica no time uruguaio a mancha da inacreditável mordida de seu principal astro, Luisito Suárez, no ombro do zagueiro Chiellini, que milhares de torcedores na Arena das Dunas e mais de 1 bilhão de telespectadores enxergaram, menos o juiz mexicano. Luisito ainda simulou ter sofrido um golpe terrível de Chiellini, que mal esbarrou em seu rosto.

Uma das muitas caricaturas de Luisito na imprensa britânica: comparado, entre outros, ao Drácula e a Hannibal Lechter, o canibal do cinema (Foto: dailymail.co.uk)

Uma das muitas caricaturas de Luisito na imprensa britânica: comparado, entre outros, ao Drácula e a Hannibal Lechter, o canibal do cinema (Foto: dailymail.co.uk)

Inacreditável porque não é a primeira vez que Luisito se vale dos dentes levemente salientes para agredir adversários. De fato, antes do episódio de hoje, no ano passado, em uma partida contra o Chelsea, Suárez, do Liverpool, mordeu o braço do zagueiro sérvio Branislav Ivanovic. Depois do ocorrido, foi suspenso por dez jogos e pediu desculpas publicamente. Antes, em 2010, quando era capitão do Ajax, da Holanda, o herói da Celeste mordeu durante uma partida o ombro de Otman Bakkal, meio-campo do também holandês PSV Eindhoven. A punição foi o afastamento por sete partidas.

Houve outras tentativas que levaram a imprensa popular britânica a apelidá-lo de “Drácula” ou de “Hannibal Lechter”, o canibal terrível do filme O Silêncio dos Inocentes e de sua sequência, que posteriormente adquiriu vida própria no cinema. (Hoje, no Brasil, as redes sociais deitaram e rolaram com o episódio.) Mas o rapaz, orelhinhas coladas ao rosto, cabelo aparado e ar de bom moço, está precisando de algum tratamento, porque protagonizou mais episódios negativos.

Em 2012, Suárez adquiriu reputação de racista após chamar de forma depreciativa de “negro” o lateral francês Patrice Evra, do Manchester United, de “negro”. Dessa vez foi impedido de participar de oito jogos e recebeu uma multa equivalente a 115 mil reais. Ele negou ter tido a intenção de ofender, mas em seu retorno ao Liverpool após a suspensão, durante a tradicional troca de saudações entre os jogadores que antecede as partidas na Europa, Suárez deixou no ar a mão estendida de Evra, o que só consolidou sua imagem de mau caráter.

O resultado é que o principal “matador” do Uruguai poderá ser suspenso — talvez até por mais de uma partida — pelo Comitê Disciplinar da FIFA.

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COPA 2014: Depois da mordida de Suárez e da defesa do ato covarde feita pelo zagueiro Lugano, tornei-me colombiano desde criancinha para o jogo Uruguai x Colômbia, no sábado

04/01/2014

às 16:15 \ Tema Livre

O grande Cruyff, um dos maiores craques da história, em entrevista: “Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.”

Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011campeões de audiência 02

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

Cruyff com Daniel, autografando a camiseta… para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do dream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

12/09/2013

às 17:12 \ Tema Livre

FUTEBOL: O grande Cruyff surpreende e diz que vai torcer contra seu time de coração — o Barça — na Copa dos Campeões

Cruyff diante de um cartaz de sua fundação: ocupando lugar de honra no panteão dos maiores de todos os tempos (Foto: Claudio Versiani)

Ele revolucionou, como jogador e como técnico, o jeito de jogar futebol do F. C. Barcelona, é considerado o grande criador e inspirador do estilo de jogo que fez do Barça o melhor time do mundo, vive na cidade de Barcelona há 40 anos, tem três filhos catalães e chegou a ser presidente de honra do clube — honraria que lhe foi vergonhosamente retirada pelo presidente do Barça, Sandro Rosell, pouco depois de assumir, em 2010.

Por isso, obteve enorme repercussão a entrevista que o grande Johann Cruyff — um dos gigantes definitivamente entronizado no panteão dos melhores da história — concedeu a uma emissora de TV de seu país, a Holanda.

Cruyff como jogador do Barça, saudando a torcida: carreira impressionante, com 22 titulos e 3 Bolas de Ouro (Foto: EFE)

Perguntado sobre para que time torceria no confronto que terão, na fase de grupos da Copa de Campeões da Europa, o Barça — clube central em sua vida — e o Ajax, time holandês em que se projetou, Cruyff surpreendeu ao responder:

– Pelo Ajax, claro.

O repórter perguntou:

– O senhor vai assistir à partida que os dois travarão no Camp Nou [campo do Barça]?

Cruyff respondeu:

– Não. Não piso no estádio enquanto Sandro Rosell for presidente do clube.

Homem de vida pessoal irrepreensível, financiador do próprio bolso de uma fundação que aos oucos se espalha pelo mundo e trabalha em prol da educação e do esporte, Cruyff não apenas ficou justamente chateado pela desfeita de Rosell em relação a seu título honorífico. Ele tem sérias reservas sobre a forma como o ex-alto executivo da Nike administra o Barça, embora evite comentar em detalhes o que sabe.

Para se compreender bem o que significa a entrevista de Cruyff e seu peso no futebol do Barça, da Espanha e da Europa, é preciso lembrar que, em sua trajetória como jogador, ele abocanhou 22 títulos, ganhou três Bolas de Ouro e fez 425 gols em partidas oficiais. Como treinador, foi 14 vezes campeão.

O grande Johann Cruyff, hoje com 65 anos, não apenas em seus primeiros anos colocou a Holanda no mapa do futebol ao ganhar incríveis e sucessivas três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) como depois encabeçou a Laranja Mecânica, lendária seleção de seu país que encantou o mundo na Copa de 1974.

Contratado pelo FC Barcelona em 1973, seu futebol extraordinário foi decisivo para levar o clube, logo em 1974, a seu primeiro título de campeão da Liga Espanhola após uma dolorosa travessia do deserto que já durava 14 anos.

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do fabuloso dream team do Barcelona no início dos anos 1990, faturando quase inacreditáveis quatro títulos espanhóis consecutivos e a primeira das três Copas da Europa ostentadas hoje pelo melhor time do mundo.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse certa vez o ex-craque argentino Jorge Valdano, ex-diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”.

 

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Exceção entre ex-astros do esporte, Johan Cruyff mostra facetas humanitária e educativa com fundação e instituto em seu nome

18/09/2011

às 16:00 \ Tema Livre

Exceção entre ex-astros do esporte, Johan Cruyff mostra facetas humanitária e educativa com fundação e instituto em seu nome

Por Daniel Setti

Cruyff-posa-em-frente-a-cartaz-de-sua-fundação-Foto-Claudio Versiani-

Cruyff posa em frente a cartaz de sua fundação, em Barcelona (Foto: Claudio Versiani)

Presença confirmada em 100% das listas dos melhores jogadores da história do futebol; maior futebolista europeu do século XX, segundo a FIFA; ganhador de três Liga dos Campeões da Europa consecutivas (entre 1971 e 1973) com um time até então inexpressivo, o Ajax, da Holanda; cérebro da “Laranja Mecânica”, a seleção holandesa que encantou o mundo na copa de 1974 e que até hoje serve de referência para o jogo bonito e eficiente; melhor e mais vencedor técnico da história do Barcelona – 11 títulos conquistados entre 1988 e 1996 — até a chegada do atual detentor do cargo, Pep Guardiola, seu mais devoto discípulo; ex-presidente de honra do clube catalão; sinônimo de futebol ofensivo e guru inspirador do maravilhoso Barça atual.

Com um currículo assim, qualquer um sentiria pelo menos uma grande tentação em se acomodar. Não é o caso do grande Johan Cruyff, 64, nascido em Amsterdã, na Holanda, justamente o personagem descrito no parágrafo acima. Independentemente do que já tenha conquistado esportiva ou financeiramente, El Flaco (“O Magro”), como era conhecido na Espanha nos tempos em que vestia a eterna camisa 14, quer mesmo é continuar aguçando suas inquietações.

E não só por manter a língua e a ponta da caneta afiadas nas entrevistas que concede ou nos artigos que escreve toda segunda-feira para o jornal El Periódico, de Barcelona, onde vive até hoje.  Cruyff trabalha também, com extrema dedicação, a favor de um elemento que quase ninguém considera parte do esporte: a educação.

Uma fundação ativa em vários países – inclusive o Brasil

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Cruyff com crianças da Fundação, em frente ao Camp Nou (Foto: Play & Train)

Por meio da Fundação Johan Cruyff, há 16 anos o ex-craque que encantou o mundo busca parceiras com prefeituras e empresas de cidades de diversos países do mundo para construir campos de futebol com infraestrutura adequada em bairros menos favorecidos. O objetivo é educar, divertir e integrar jovens, dando particular atenção aos os que possuem deficiências.

“Nós educamos os usuários, e eles passam a cuidar do próprio campo”, explicou Cruyff a este repórter, na sede da entidade em Barcelona, durante entrevista que teve trecho publicado pela Revista da ESPN Brasil em sua edição de janeiro (leia a matéria completa aqui). “Depois de tantos anos de experiência, os mais velhos do bairro passam a querer participar. Isso faz de tudo muito melhor”.

A fundação conta com a ajuda de outras associações, mas também investe o dinheiro do próprio patrono nos projetos. Só na Holanda, onde recebe apoio de uma porção de compatriotas de peso – Sjneider, da Inter de Milão, e Robben, do Bayern de Munique, quiseram o projeto em suas cidades –, já inaugurou 110 campos, marcando presença também em países como Marrocos e África do Sul e tendo aberto um no ano passado em Ermelino Matarazzo, bairro com grandes carências na zona leste de São Paulo. “O Brasil tem muito, muito potencial. Tem que ser muito tonto para não aproveitá-lo”, afirma Cruyff.

O Instituto Cruyff

Para Cruyff, o esporte ainda não recebe da sociedade um tratamento digno na maioria dos países. “Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo é tempo é impossível. É um absurdo”, aponta

Obcecado pela ideia de que os esportistas têm que ter instrução para poder ser pessoas produtivas e responsáveis durante e depois da carreira, há doze anos o jogador criou também o Instituto Cruyff, que forma especialistas em gestão esportiva.

O instituto, com sedes na Holanda, na Espanha, no México, no Peru e na África do Sul – e mais projetos desenvolvidos junto a organizações de países como Brasil, Equador e Estados Unidos – , oferece um mestrado com duração de um ano, ou 250 horas de aula, além de programas de ensino virtuais. Em 2010, 1500 alunos participaram dos diferentes cursos ministrados pela organização.

O número 14 em ação na Copa de 1974: massacre de 4 a 0 na forte Argentina -- com dois gols dele

No Brasil, 20 ex-craques da seleção estão abaixo da linha de pobreza

Uma das prioridades do instituto é ajudar ex-atletas a ter atividade produtiva (e rentável) depois que deixam de competir. “A maioria dos frequentadores de nossos cursos é formada por ex-esportistas, não só do mundo do futebol”, explica o holandês. “Os ex-jogadores de futebol são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sempre você pode gastar e dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo”.

A preocupação do inesquecível número 14 com seus colegas que dependuraram as chuteiras acentuou-se com o que ele constatou no Brasil. Diz Cruyff: “Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 ex-jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo”.

Palavra de um herói — que, com sua atual atividade, na qual não revela quanto coloca do próprio bolso, continua sendo um exemplo.

15/05/2011

às 16:31 \ Tema Livre

Um gol de placa que não teve a placa que merecia: Ibrahimovic

Amigos, hoje é domingo e é apropriado falarmos de futebol.

E de mostrar um gol de placa que, no entanto, nunca teve a placa que merecia.

Depois de dar sete dribles consecutivos, o cracaço Ibrahimovic, o sueco filho de ciganos da ex-Iugoslávia que o Barcelona trouxe do Inter de Milão e depois esnobou, “por problemas de vestiário”, estufa as redes do adversário. Hoje ele está no Milan, emprestado, mas esse gol foi quando defendia o Ajax, da Holanda, o que ocorreu entre 2001 e 2004.

Meus conhecimentos futebolísticos não foram suficientes para identificar o adversário, mas o atento leitor Felipe esclareceu tratar-se do NAC Breda, que disputa o campeonato holandês.

 

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