06/02/2012
às 16:58 \ Política & CiaA concessão à iniciativa privada de três grandes aeroportos é ótima notícia — mas há três poréns

Leilão da concessão dos aeroportos na BM&F Bovespa, em São Paulo: um passo adiante, com várias dúvidas (Foto: Marcos Alves / Agência O Globo)
Quem é a favor da privatização e da concessão de serviços públicos como fator de progresso, como é meu caso, deve ter gostado do extraordinário êxito conseguido hoje pelo governo no leilão de outorga de três grandes aeroportos à iniciativa privada: os de São Paulo/Guarulhos, de Viracopos, em Campinas (SP), e o Presidente Juscelino Kubitschek, de Brasília.
Os mais de 24 bilhões de reais arrecadados pela concessão equivalem a mais de cinco vezes o preço-base estabelecido pelo governo pelos três.
O campeão do leilão foi o Presidente JK, que alcançou o espetacular ágio de 673,89% sobre o preço inicial, o qual por sua vez já havia, conforme comentei em post anterior, sido elevado 7,7 vezes em relação ao valor estimado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU).
De toda maneira, há três aspectos que gostaria de comentar.

O aeroporto de SP/Guarulhos: sai das mãos do Estado e passa a uma empresa... controlada por fundos de pensão de estatais (Foto: Infraero)
O primeiro aspecto: o de Guarulhos tem privatização às avessas
A joia da coroa do leilão era o aeroporto de São Paulo/Guarulhoa, recentemente denominado, por lei, Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro – o mais movimentado do país, com quase 30 milhões de passageiros no ano passado.
E quem o arrematou, para tocar por 20 anos o aeroporto e fazer as ampliações necessárias, foi um consórcio em que são majoritárias entidades estreita, estreitissimanente ligadas ao Estado. O consórcio denominado Invepar – ACSA, composto pelo grupo Invepar e pela Airport Company South Africa (ACSA), levou a concessão por 16,2 bilhões de reais.
E quem é o misterioso grupo “Invepar”? Além da poderosa construtora baiana OAS, integram-no os fundos de pensão Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, o Petros, dos funcionários da Petrobras, e o Funcef, dos servidores da Caixa Econômica.
A Invepar tem 90% do consórcio, tendo como parceira técnica a ACSA, empresa que opera os três principais aeroportos da Áfria do Sul: o O.R. Tambo, que serve a Johannesburgo, o Cape Town, da Cidade do Cabo, e o King Shaka (também conhecido como La Mercy), em Durban.
Fundos de pensão de funcionários, no Brasil, se transformaram – infelizmente – em apêndices do governo, especialmente no lulo-petismo. Nenhum fundo designa seu presidente e a maioria dos diretores sem que o governo ou tenha poder de veto sobre a escolha ou simplesmente seja responsável por ela.
Não foram raras, por outro lado, as ocasiões em que o Tesouro socorreu fundos de funcionários mal geridos – dinheiro dos contribuintes garantindo a aposentadoria de empregados de empresas estatais.
Assim sendo, a outorga de Guarulhos por 16,2 bilhões acabou sendo uma privatização que, de alguma maneira, reestatiza o maior aeroporto do Brasil. Uma privatização um tanto às avessas.
O segundo aspecto: a maioria dos aeroportos geridos pelo sócio técnico do consórcio que “levou” Viracopos é de países miseráveis da África
Agora, quero referir-me à parte técnica. Venceram as três concessões os três consórcios com empresas internacionais que gestionam aeroportos menos importantes do que outros, colossais, que integravam os grupos derrotados.
O de Guarulhos/São Paulo, como vimos, terá a parceria técnica da empresa sul-africana.
O de Viracopos, em Campinas, que saiu por 3,82 bilhões de reais, caberá ao consórcio Aeroportos Brasil, composto pela Triunfo Participações, UTC Participações e Egis Airport Operation. A Egis é uma empresa francesa que não gestiona um único aeroporto de grande porte ou de alguma importância internacional – sequer um único aeroporto que possa ser reconhecido pela maioria dos passageiros comuns ou mesmo leitores de jornal.
Ela gere atualmente onze aeroportos.
Veja se você se entusiasma com algum deles:
O de Abidjan, na Costa do Marfim
O de Libreville, no Gabão
Os de Brazzaville, Pointe-Noire e New Ollombo, no Congo
Os de Pafos e de Larnaka, em Chipre
Os de Tahiti-Faa’a, Bora Bora, Raiatea e Rangiroa, na Polinésia Francesa.
Ficaram fora consórcios que administram, entre outros, o terceiro aeroporto mais movimentado do planeta – o gigantesco Heathrow, de Londres, por onde transitaram 70 milhões de passageiros em 2011 – e o moderníssimo, espetacular aeroporto de Changi, em Singapura.
O terceiro aspecto: a incompetente Infraero não larga o osso
O terceiro porém que coloco no assunto é algo que já comentei mais de uma vez anteriormente. Para mim, pelo menos, não ficou claro o papel da incompetente estatal Infraero — veja-se a bagunça que são os principais aeroportos do país para constatar se estou exagerando — nessa história.
A Infraero “participará da gestão” dos aeroportos.
Como?
Não sei. Mas eu preferia ver essa estatal, que possui bons quadros técnicos mas, invariavelmente, diretores indicados por políticos, pelas costas.
Tags: Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek, aeroportos, Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, BM&F Bovespa, Changi, Chipre, concessão de serviços públicos, Congo, Costa do Marfim, Gabão, Guarulhos, Heathrow, leilão, Londres, privatização, Singapura, Tribunal de Contas da União, Viracopos




























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