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Bytes de Memória

Anotações de um repórter

08/03/2012

às 18:57 \ Bytes de Memória

No Dia Internacional da Mulher, breve memória sobre trabalhar com elas

Mulheres em ação (Foto: Divulgação)

Mulheres em ação (Foto: Divulgação)

Tive o privilégio – benza Deus! – de trabalhar com mulheres desde o começo, já longínquo, de minha carreira.

Comecei cedo, com 18 anos, e hoje, com algumas décadas mais, posso dizer que vi, com prazer, a profissão passar de machista, quase misógina, para uma daquelas em que as mulheres mais se aproximam da plena igualdade com os homens, embora ainda considere um absurdo haver tão poucas mulheres nos postos principais de mando de grandes veículos e empresas de comunicação.

Trabalhei com mulheres na condição de colega, na de subordinado e na de chefe. Vivi, entre muitas outras, a riquíssima experiência de chefiar dezena e meia de mulheres jornalistas muito categorizadas – diretoras de Redação – durante quase dois anos, na qualidade de Diretor Editorial das revistas femininas da Editora Abril.

Tal como se deu na profissão com a crescente presença feminina, também me beneficiei enormemente desse convívio ao longo dos anos.

Sensibilidade, seriedade, aplicação, coragem

Aprendi muito – a dar valor à intuição, a aprimorar a sensibilidade e a admirar a seriedade, a aplicação, a inteligência e a coragem das colegas de redação em diferentes veículos.

Sim, coragem: entre muitos casos, lembro o de uma repórter, subordinada a mim no Jornal do Brasil em São Paulo, que no exercício de seu (bom) trabalho recebeu de um político muito conhecido a proposta indecorosa e obscena de tornar-se sua amante em troca, entre outras supostas vantagens, de “um apartamento montado”.

Profissional correta, mãe de filhos, ela voltou para a redação humilhada, desabafou comigo chorando – infelizmente não tínhamos prova para processar o canalha – mas, dias depois, fez questão de apresentar-se a uma coletiva do mesmo político, por considerar seu dever.

É claro que, como sempre acontece, nem tudo foram flores.

Invariavelmente defendi as mulheres profissionais contra clichês machistas, mas considerava golpe baixo certas atitudes como, por exemplo, uma subordinada recorrer ao choro depois de receber reparos, civilizados e procedentes, a seu trabalho. Também confesso que me horrorizei, como diretor das Femininas da Abril, diante de uma ou outra diretora de revista que se revelava indignada com a gravidez de alguém de sua redação.

Sobre mentores e sobre caráter

Sou daqueles que acreditam que você só se torna um bom jornalista se, entre outras circunstâncias, tiver mentores, aqueles chefes que, profissão afora, orientam, ensinam, dão bronca e sobretudo inspiram. Não cabe a mim dizer se me tornei um bom jornalista.

Mas quero assinalar que, entre meus grandes mentores, contáveis nos dedos de uma só mão, figura uma mulher: Dorrit Harazim, minha chefe em VEJA, em duas diferentes situações, por quase seis anos, até hoje uma amiga muito querida. Sem ter compartilhado tarefas com Dorrit e testemunhado a cada dia seu talento, sua tenacidade, sua imensa capacidade de trabalho, sua ética e sobretudo seu rigor eu não seria o jornalista que sou nem teria chegado onde cheguei na carreira.

É algo que compensa, de longe, o fato de que a maior punhalada pelas costas que recebi na vida profissional tenha vindo de uma mulher. Mas nesse caso tratava-se de problema de caráter, e não obviamente de gênero.

Para finalizar, como não ver com especial apreço as mulheres no jornalismo, tendo uma filha – Adriana Setti – jornalista e, modéstia à parte, trabalhadora e talentosa, que tanto orgulho me dá?

 (Este texto foi escrito para uma edição especial sobre mulheres jornalistas da newsletter Jornalistas & Cia em janeiro de 2008. Como foi escrito há quatro anos, não incluí, nele, menções a duas jornalistas sem as quais eu não simplesmente conseguiria fazer o blog, que iniciei em setembro de 2010: Domitila Becker, hoje no SporTV, e Rita de Sousa)

 

19/02/2012

às 19:28 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (1): o dia em que Maitê Proença foi regra 3 de Vera Fischer

(Post publicado originalmente no dia 11 de outubro de 2010)

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editorias executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999. Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei. Começarei a fazer isto agora, no blog).

Lidar com deusa não é brincadeira.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Eu que o diga quando ousei tentar contratar Vera Fischer para ser a estrela de capa da edição de 21º aniversário de Playboy, em 1996. A edição, como sempre, sairia no mês de agosto. E deveríamos enviá-la à Gráfica da Editora Abril, pronta, “fechada”, no jargão jornalístico, no máximo na primeira semana de julho, como costumava acontecer com as revistas mensais.

Tínhamos o desafio representado pela edição de aniversário do ano anterior, dos 20 anos redondos, com Adriane Galisteu na capa – felizmente na minha gestão. Vendera 1 milhão de exemplares nas bancas, a que se juntavam 180 mil assinantes. Estourara também em páginas de publicidade. Não era propriamente necessário superar ou mesmo igualar o recorde. Só que não podíamos fazer feio.

Assim sendo, comecei a me preocupar com a edição de agosto já em janeiro, sempre secundado, nesse sofrimento, por uma grande profissional que era meu fiel braço direito  no terreno das contratações e dos ensaios de nu – a editora de Fotografia, Ariani Carneiro. Na primeira reunião sobre a edição de aniversário, decidimos por um nome: a estrelíssima Vera Fischer. Ah, que complicação, ainda me lembro bem.

A DEUSA EM INFERNO ASTRAL – Com altos e baixos pessoais, Vera continuava atraindo holofotes mas, por alguma razão que desconhecíamos, vivia uma fase de inferno astral. Frequentara uma única vez a capa da revista, catorze anos antes, em fevereiro de 1982. Agora, mostrava-se arredia, inacessível, até hostil, não queria conversa com ninguém.

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Vera na edição de fevereiro de 1982 em Playboy

Juro que não era nada fácil ser diretor de Playboy. Havia, claro, muitas compensações, mas ao prazer e ao desafio de todo mês produzir um forte pacote de jornalismo, humor, ficção e serviços para o leitor juntava-se a permanente aflição de precisar preencher uma capa ainda em branco com uma mulher bonita e, sempre que possível, famosa.

Cada uma delas demandava extensas negociações, ofertas e contra-ofertas financeiras, exame e reexame de minutas de contratos – e o tempo correndo, correndo.

Pois bem, voltando a Vera. Como estava difícil sequer começar uma negociação, abrimos, como de praxe, outra frente – sempre em sigilo, para não melindrar as partes envolvidas, um problemaço quando eventualmente acontecia. Ariani passou a conversar, naquele mesmo janeiro, com Maitê Proença. Eu troquei faxes com ela, cuja cópia ainda guardo. (Estávamos na fase pré-email).

A bela Maitê já estivera na capa de Playboy em fevereiro de 1987, e a respectiva edição seguia constando entre as mais vendidas em bancas da história da revista, com 626,1 mil exemplares. Ainda ostentando a mesma beleza clássica ao se aproximar dos 40 anos, sem grandes considerações a víamos como uma boa alternativa.

RUMO À CASA DE VERA, NO RIO – De repente, abre-se uma brecha na frente Vera Fischer. Depois de dezenas de contatos, telefonemas e sondagens, um agente, também advogado, com quem costumávamos tratar aqui e ali, aparece em nome de Vera. Vamos negociar.

Aí seguiu-se um sem-número de faxes para lá, faxes para cá. Nas mensagens, focadas sobretudo em cifras, acabamos chegando a um acordo: Vera receberia um bom xis à vista, tão logo estivesse concluído o ensaio, e seria premiada com o sucesso com xis centavos de real por cada exemplar vendido acima de um determinado limite.

Essa forma de contrato agradava à área financeira da Editora Abril porque dividia os riscos – e, claro, o êxito – com a contratada. Prudentes, precavidos, contudo, mantínhamos vivos os contatos com Maitê, a cargo da paciente, educada e competente Ariani. O sinal amarelo de alarme fora ligado: já estávamos quase no fina de abril.

Fechado o acordo por fax, combinamos uma conversa pessoal com Vera, em sua casa, no Rio. Para lá seguimos de São Paulo, no mesmo vôo, Ariani, o agente e eu. Juntos, pegamos o mesmo táxi. A deusa morava numa bela casa de dois andares no Joá, com uma vista espetacular para o mar, as montanhas verdejantes e a linha de edifícios de São Conrado, bem ao longe.

ELA TINHA OLHOS BELOS, MAS TRISTES – Para dizer a verdade, não fiquei bem impressionado ao chegar. A casa carecia de cuidados, de alguma maneira, imaginei, refletindo o mood então atribuído à dona. Pintura descascada, piscina semi-abandonada, um velho sofá, molhado por uma goteira, na garagem que abrigava um Volkswagen Golf, importado e novinho, verde.

Ao entrarmos pelo grande portão da frente, pudemos perceber uma escada que levava da cozinha ao quintal. Sob o vão, ao lado de um tanque de lavar roupa, aglomeravam-se garrafas de plástico e vidro vazias. No ar, um certo ar de abandono.

Sentamo-nos num sofá na sala espaçosa e envidraçada, recebidos pelo único empregado doméstico presente, um rapaz que também cuidava de Gabriel, o irrequieto e cabeludo filho da atriz com o ator Felipe Camargo, então com três anos.

De repente, ela. Cabelos dourados, olhos azul turquesa, pouca maquiagem, calça comprida, uma blusa rosa, de crochê, e sandálias. Parecia um tanto apressada, impaciente. Surpreendi-me com seus olhos, muito tristes, apagados, apesar de belos. De todo modo, ali, ao vivo, na iluminada sala de estar de sua casa, estava sem duvida uma bela mulher. Não pude, contudo, deixar de notar que suas mãos não correspondiam à juventude exuberante da então mais que quarentona Vera: menos tratadas do que eu poderia supor, menos delicadas do que imaginava, e salpicada de manchas marrom-claras.

Adiantei-me em agradecer por nos receber e passei ao discurso que ensaiara, elogiando seu trabalho profissional, seus dotes, dizendo de nossa admiração pelo que ela havia conquistado. Vera parecia alheia àquelas palavras e me cortou, brusca:

– Tudo bem, tudo bem, mas quero deixar bem clara uma coisa: já fiz essa história de participação em teatro, me dei mal e nem quero ouvir falar no assunto.

O ADVOGADO, HIPNOTIZADO PELOS SEIOS SEM SUTIÃ – Quase emudeci, mas toquei em frente. Disse que teatro era uma coisa, revista, outra. Argumentei com a solidez e a credibilidade da Abril. Naturalmente sem mencionar cifras, citei exemplos de estrelas que haviam declarado grande satisfação com o esquema de participação.

Ariani, esperta e experiente, deu um jeito de mudar a conversa. Onde Vera gostaria de ser fotografada, em que país? Tinha idéia de algum tema que lhe agradasse? – sua primeira vez em Playboy havia sido um ensaio em que ela, a despeito da lourice, protagonizava uma espécie de deusa grega.

Quanto ao agente e advogado, mantinha-se alheio à peremptória reação de Vera ao tipo de contrato que eu próprio negociara longamente com ele. Parecia hipnotizado por um detalhe: a deusa estava sem sutiã, e suas protuberâncias bronzeadas estufavam a blusa de crochê.

A conversa, inevitavelmente, voltou à questão da participação. Vera mantinha-se intransigente, não queria saber de um contrato assim. Vi que tudo fora por água abaixo quando ela, em terminado momento, afirmou:

– Bem, de qualquer maneira vou pensar no assunto e, é claro, preciso consultar meu advogado.

VONTADE DE ESGANAR – Estarrecido – até então julgava, por todas as razões do mundo, que nosso companheiro de viagem representasse Vera legalmente –, encaminhei o diálogo para o fim. Despedimo-nos de forma civilizada, combinamos futuros contatos. Percebi, porém, que para a edição de agosto seria impossível estampar a deusa na capa.

Voltamos, os três, em silêncio para a Zona Sul do Rio. No táxi, eu espumava de raiva contida. Meu impulso interior ordenava esganar o advogado. Só que silenciei, engoli o gigantesco sapo, diante da carteira de estrelas que ele representava. Quem sabe mais adiante eu o colocaria contra a parede, exigindo uma explicação para o vexame. Agora, não.

As maravilhas de ser diretor de Playboy, lembram-se?

Nosso companheiro de viagem marcara compromissos no Rio, de modo que desembarcou do táxi em Copacabana enquanto Ariani e eu rumamos para Aeroporto Santos Dumont. Imediatamente pedi a Ariani:

– Por favor, dê um telefonema pra Maitê e tente marcar um encontro para acertar o contrato.

Do próprio carro, por celular, ela deu sorte e falou com Maitê na hora. Marcou-se a reunião para dias depois.

E MAITÊ ASSINA UM CONTRATO – A 8 de maio de 1996, em seu apartamento num edifício ao lado do hotel Copacabana Palace, no Rio, Maitê Proença, a regra 3 de alto luxo que mantínhamos de sobreaviso, assinou contrato para estrelar a capa do 21º aniversário de Playboy.

Maitê na edição de agosto de 1996 em Playboy

O ensaio, assinado pelo magnífico fotógrafo Bob Wolfenson, teve como palco o interior da Sicilia, no Sul da Itália, em junho. Sobre isso falarei num post futuro.Durante muito tempo imaginei que Maitê nunca soube que nossa primeira opção havia sido por Vera Fischer. Hoje, analisando o quanto custou financeiramente aquele ensaio e as exigências posteriores da atriz – Ariani viajou pelo menos meia dúzia de vezes para o Rio com provas do ensaio, para o exame rigoroso e detalhado de Maitê – acho que, sim, de alguma maneira ela ficou  ao par.

De todo modo, valeu a pena. Fotos do ensaio figuram em revistas e livros de fotografia até hoje. E Playboy vendeu quase meio milhão de exemplares nas bancas.

De minha parte, fiquei feliz e aliviado. Até me lembrar de que, em setembro, havia outra capa a ser feita.

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18/01/2012

às 14:30 \ Bytes de Memória

A delícia de estar à margem

Vargas Llosa, Pelé, Vera Fischer e Arafat

Arafat, Pelé, Vera Fischer e Vargas Llosa

Publicado originalmente em12 de novembro de 2010

Nada interessa mais às pessoas do que as demais pessoas, sabemos.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Por essas e outras, o jornalista é alguém obrigado a lidar profissionalmente com a celebridade – e não estamos, aqui, falando apenas de quem trabalha em revistas como a Caras.

Existem os que gostam desse métier, existem os que não gostam e há, inclusive, aqueles que se confundem com o que deveria ser apenas o objeto de sua atenção no trabalho – sem contar, é claro, os que se metamorfoseiam, eles mesmos, em celebridades.

O jornalismo de TV está repleto de exemplos.

Tancredo, Arafat, Pelé, Vera Fischer

O contato profissional com personalidades do país ou do exterior, naturalmente, é enriquecedor.

Jornalista com longa trajetória, conheci, por razões de trabalho – como ocorreu com muitos colegas –, provavelmente milhares de personalidades interessantes, de Tancredo Neves a FHC, do rei do Camboja, Norodom Sihanouk, ao falecido dirigente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, de Telê Santana a Pelé, de Vera Fischer ao cantor Bobby Short, de Gore Vidal a Mario Vargas Llosa.

Sempre, porém, tive um fascínio especial pelos encontros fortuitos e casuais com celebridades, em circunstâncias em que o destino fez caber a mim a parte do cidadão anônimo.

Uma aparição em Buenos Aires: Borges

Uma seleção de cenas gravadas na memória não poderia deixar de incluir, por exemplo, uma aparição – a de Jorge Luís Borges passeando na Calle Florida, em Buenos Aires, numa manhã de outono.

Sem ser reconhecido pelos passantes, lá ia o grande homem, de braços dados com uma jovem esguia e prestativa que muito mais tarde eu viria a saber tratar-se de Maria Kodama, a enigmática secretária, discípula e futura esposa meio século mais nova que o extraordinário escritor, considerado por gente de peso um dos maiores de todos os tempos.

Jorge Luís Borges: vendo passar o grande homem numa manhã de outono

Passo firme apesar da idade, indiferente ao movimento selvagem de turistas ávidos se atropelando em direção à vitrine mais próxima, com o rosto de olhos baços erguido para o sol, sentindo com visível prazer na pele a luz que não enxergava, a majestosa passagem de Borges me pareceu uma miragem.

Felizmente lá estavam também minha mulher, Marcia, e o jornalista Nirlando Beirão, meu compadre e grande amigo, a testemunhar que de fato vi o que vi, e não sonhei.

O aniversário do grande campeão de Fórmula 1

Buenos Aires reservaria outra surpresa em encontros casuais.

Minha infância de garoto criado no interior fora povoada por uma galeria de ídolos esportivos que incluía o mitológico Juan Manuel Fangio. Imbatível pentacampeão mundial de Fórmula 1 nos tempos heróicos da década de 50 em que a tecnologia era primitiva e os pilotos arremetiam pelas pistas em arrojo suicida – o futuro hexacampeão Michael Schumacher ainda era um bebê –, eu guardara sua silhueta de nariz proeminente e sorriso discreto debaixo de antigos capacetes de couro.

Juan Manuel Fangio: materializando-se na mesa ao lado

Foi portanto com alegria que, certa noite, vi aquela mesma figura materializar-se a um metro de distância da mesa a que me sentava, na casa noturna El Viejo Almacén, reduto do tango.

O velho campeão, cercado de casais amigos sorridentes em traje de gala, comemorava 65 anos no exato dia (com os argentinos, Deus sabe, é sempre assim) em que se celebravam os 40 anos da morte de Carlos Gardel.

Interrompeu-se o show, rufou a bateria da orquestra e um holofote do palco iluminou a fisionomia que eu conhecera em velhos jornais, para o aplauso emocionado da platéia.

Houve também uma tarde, numa Paris por alguma razão surpreendentemente avara de restaurantes abertos, em que minha mulher e eu finalmente conseguimos, aliviados, nos alojar numa mesa confortável. Ao lado, durante todo o almoço, o ator italiano Walter Chiari – mais conhecido na época do que hoje, sobretudo por ter um dia conquistado, que Deus seja louvado, a divina Ava Gardner (chequem quem ela era no Google, leitores mais jovens) – namorava uma dama. Ao retirar-se antes do casal de brasileiros desconhecidos, presenteou-os, sem mais, com uma garrafa do (bom) vinho que bebericava com seu par.

Mas todas essas, de uma ou outra forma, foram situações em que se permitiu ao lado anônimo da questão a observação tranqüila do outro. Encontros ainda mais fugazes revelaram-se igualmente interessantes.

Nureyev e bate-boca de Jânio com a mulher

Como um rápido cruzar de caminhos com uma figura feminina fabulosa num saguão de hotel, o Carrera Sheraton, em Santiago do Chile. Eu, jovem repórter chegando para uma dificílima cobertura – a da eleição presidencial que terminaria dando a vitória a Salvador Allende, em 1970 –, ela, Elsa Martinelli, saindo sabe lá Deus para que compromisso ou destino.

Alta, vaporosa, coberta de peles, elegante e perfumada, Elsa Martinelli pareceu incomparavelmente mais bela, diáfana e inatingível do que a mediana atriz que foi no cinema.

Elsa Martinelli: de perto, mais bela e diáfana do que no cinema

Se a mim tivesse incumbido entrevistá-la, talvez hoje em dia nem me lembrasse mais da tarefa. Mas o encontro de segundos, circunstancial e inesperado, que me remeteu à condição de voyeur do cidadão comum, ficou.

Tratar com os poderosos pode ser fascinante para um jornalista – mas muito melhor do que entrevistar, por exemplo, o ex-presidente Jânio Quadros (coisa que fiz), é ver-se anonimamente postado diante de uma vitrine, em Genebra, na Suíça, ao lado dele e de Dona Eloá (coisa que me aconteceu), e de repente ouvi-los em discreto e prosaico bate-boca conjugal.

Ou subitamente compartilhar de uma esteira rolante no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, com uma figura de boné e casaco de couro, sacolas de viagem elegantes, foulard ao pescoço – para perceber que se tratava do bailarino russo Rudolf Nureyev. Ou viajar alguns andares de elevador num prédio no centro de Manhattan e, quando a mulher grisalha de ar enérgico vira o rosto, verificar que é ela mesmo – Katharine Graham, dona do The Washington Post.

Ou, ainda, terminar aos trancos e barrancos, às sete da manhã, o fechamento de mais uma edição de IstoÉ numa improvisada redação na Rua da Consolação, em São Paulo, e dar de cara com um sujeito ruivo, de calças e casaco de jeans, surgido ninguém sabe de onde – e constatar que é Daniel Cohn-Bendit, o líder da revolução de maio de 1968 na França. A foto de Danny le Rouge na Redação, feita por meu querido amigo Claudio Versiani, ainda tenho, em algum lugar de meu imenso arquivo..

Capacidade de se embasbacar

A lista poderia se estender, mas paremos por aqui dizendo que, para quem ganha a vida tentando, munido de indispensável dose de distanciamento, manter-se dentro dos acontecimentos, ficar provisoriamente à margem deles guarda o encanto de um retorno à capacidade de se embasbacar do homem comum.

É passageiro, mas é um descanso.

(Texto publicado no número 2 da Rev. Nacional, do fotógrafo J. R. Duran, que acaba de ser posto em circulação)

01/01/2012

às 19:15 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de “Playboy” (5): O dia em que Adriane Galisteu se depilou, na foto mais polêmica da história da revista

A capa do 20º aniversário de "Playboy" com Adriane Galisteu na Grécia

Publicado originalmente em 20 de maio de 2011

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editoriais executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999. Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei. E que agora, no blog, estou contando aos poucos.)

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

O fotógrafo J. R. Duran ficou preocupado quando ele e a equipe de Playboy chegaram à ilha de Santorini, na Grécia. Apesar de ser um consumado globetrotter, sem contar que estava prestes a realizar o 107º ensaio fotográfico para a revista, era sua primeira vez na ilha, e ele não gostava do que via.

A estrada que saía do acanhado aeroporto mostrava uma paisagem pedregosa, desértica, absolutamente destituída de atrativos. E ele carregava a responsabilidade de fotografar para a edição de 20º aniversário da revista – e no mais glamouroso cenário possível – a mulher mais comentada do país: Adriane Galisteu, a última namorada do supercampeão de Fórmula-1 Ayrton Senna, morto no ano anterior, 1994.

Havíamos, em Playboy, investido meses de trabalho e uma grande soma em dinheiro para conseguir contratar Adriane. No processo de negociação, seria vital o papel de meu amigo querido, compadre e esplêndido jornalista Nirlando Beirão, com quem tive a honra de contar na redação de Playboy como editor especial. Beirão escrevera, para Adriane, o livro-depoimento No Caminho das Borboletas — Meus 405 Dias ao Lado de Ayrton Senna (Editora Caras, 1944, 300 páginas), grande best-seller daquele ano, e era merecedor da confiança da estrela. Minha primeira reunião com Adriane se deu no apartamento de Beirão em São Paulo, e com sua presença. Lembro-me de que, depois, como forma de aproximação, dei uma carona a ela até a casa do piloto Rubens Barrichello, de quem se tornara amiga próxima.

Ao cachê de valor provavelmente inédito até então — é difícil fazer contas exatas com as sucessivas trocas de moeda ocorridas no Brasil desde a fundação de Playboy, em 1975, até então –, pesavam-me os custos e a responsabilidade pelo deslocamento de uma grande equipe para realizar o ensaio o exterior – além de Duran, a editora Ariani Carneiro, a assistente de fotografia de Duran, Sandra Jeha, a produtora Florise Oliveira, o cabeleireiro Marco Antonio de Biaggi e o maquiador Kaká Moraes e também a à época agente de Adriane, Cristina Moreira.

Uma edição planejada para ser histórica

Por todas as razões, sobretudo pelo pique de celebridade em que estava Adriane, alvo de enorme atenção da mídia, aquela edição estava planejada para ser histórica. Queríamos uma edição de campeões. A entrevista principal, repleta de revelações inéditas, era do campeoníssimo Emerson Fittipaldi. Nada podia dar errado.

Ariani Carneiro, editora de Fotografia da revista e meu braço direito em matéria de contratação, pré-produção e feitura de ensaios, também estava apreensiva. Apesar de que, embora jovem, já tivesse boa experiência em viagens ao exterior — havia trabalhado inclusive no distante e idílico Taiti. (Nos anos seguintes durante nossa gestão na revista, ela faria dezenas de outras viagens para fotografar estrelas, fosse em Aspen, no Colorado, ou em Veneza, Los Angeles ou Istambul, Londres, Roma ou Las Vegas.) “Eu me preocupava com a eventualidade de termos escolhido o lugar errado”, me confessou recentemente.

Num intervalo da feitura do ensaio, a editora Ariani oferece um creme hidradante para Adriane, no terraço do hotel Heliotopos (Foto Sandra Jeha)

Ariani, como Duran, sabia que meu próprio pescoço estava exposto. O contrato com Adriane, muito acima do que vínhamos pagando a estrelas, havia sido negociado por mim, pessoalmente — fugindo à regra geral segundo a qual as negociações eram iniciadas e no mais das vezes concluídas por Ariani, sempre em contato permanente comigo.

Nove dias de trabalho

As apreensões de ambos, porém, logo se dissiparam quando atravessaram uma espécie de grande portal do paredão rochoso que parece proteger Santorini, sobra ancestral de um vulcão extinto, que dá acesso à esplêndida baía de águas azul-marinho, emoldurada por escarpas coalhadas de casas brancas brilhando ao sol — nada mais grego, e mais magnífico.

As atividades começaram no dia seguinte, e se estenderam por 9 dias. Em seus 15 anos de Playboy, Ariani Carneiro não se recorda de tarefa que demandasse tanto tempo. Tenaz em seu objetivo de obter o máximo de originalidade no ensaio, Duran havia previamente anotado uma série de ideias num caderninho — não, não era um iPad… — que costuma levar consigo.

Reprodução parcial da página de um exemplar da edição de agosto de 1995 da revista mostrando Adriane, ao ar livre, como se se banhasse numa bacia

Peculiares, surpreendentes, elas foram se materializando em fotos: Adriane nua, de sandálias brancas de salto alto, passando roupa ao ar livre. Ou, a céu aberto, banhando-se numa bacia (veja reprodução tirada da revista de agosto de 1995 abaixo). Estendida, de olhos fechados, sobre a cúpula curva do chalé do hotel em que a equipe se hospedou, o Heliotopos. Passeando sua nudez num pequeno iate alugado por Ariani. Um close de uma mini-calcinha branca dependurada no varal. Adriane bebendo sensualmente leite de um pires. “Os pressupostos dos ensaios de nu são quase sempre os mesmos”, ressalta o fotógrafo. “O diferencial é a sensação de intimidade que as fotos possam produzir”, ensina.

Aí, e por isso, Duran viria com a proposta de algo “extremamente íntimo” – inspirado em cena rápida e improvisada de sua vida privada, durante uma viagem –, que se tornaria um marco na história da revista: que tal se ela se deixasse fotografar depilando, com um barbeador de lâminas, o púbis?

– Nem pensar! – reagiu Adriane.

Reprodução parcial da página de um exemplar da edição de agosto de 1995 de "Playboy" com aquela que é, provavelmente, a foto mais polêmica da história da revista

Experiente, o fotógrafo jogou a isca:

– OK, sem problemas. Então eu deixo essa foto para fazer em outro trabalho, com outra estrela.

Ele sabia que ela ficaria ruminando aquilo, e não teve erro. No último dia, Adriane, que já se acostumara ao profissionalismo de Duran e se sentia visivelmente mais segura, voltou ao assunto:

– Olha, Duran, pensei bem e aquela ideia pode ser legal.

A foto foi feita em uma locação providenciada por Ariani — o espetacular hotel Tisouras, também debruçado sobre o mar. Hotel elegante e badalado, que tinha entre seus freqüentadores um dos papas mundiais da moda, o italiano Gianni Versace. (Veja acima reprodução parcial da página em que aparece a foto)

De propósito, Duran criou um quadro inverossímel. Adriane não se pôs a depilar-se no banheiro, mas num cenário inusual – uma saleta ornada com quadros, assentada sobre um sofá de couro branco. Tampouco estava nua, e sim de salto alto, blusa de seda azul, faixa branca nos cabelos louros, um anel de ouro e pedra preciosa no dedo mínimo esquerdo, naturalmente sem roupa íntima, com espuma de barbear sobre o púbis e um barbeador comum na mão direita.

Reprodução parcial de página dupla de um exemplar da edição de 20º aniversário: depois da foto à esquerda, Adriana iria almoçar com a equipe vestida como estava

A foto da “deusa loura nua na Grécia”, como dizia a chamada de capa da revista, virou notícia no dia em que a edição veio à luz, atingindo uma venda superior a 1 milhão de exemplares (bancas e assinaturas) e batendo todos os recordes da revista em seus à epoca 20 anos de existência no Brasil.

O colunista Zózimo Barrozo Amaral, que ditava moda e modismos no (infelizmente) extinto Jornal do Brasil, logo a denominou de “raspadinha” – alusão maliciosa aos bilhetes da loteria instantânea, ainda muito em voga naquele 1995.

Ariani clicou esta cena logo após a feitura da foto mostrada mais acima: a estrela seguindo para o almoço com a equipe num restaurante próximo

O tema atiçou uma torrente de manifestações, que incluíram de psicanalistas a programas de fofoca e até mesas-redondas na televisão, do escritor Luis Fernando Verissimo a revistas semanais. Adriane e Playboy não saíam do noticiário. Na festa dos 20 anos da revista, com um show do cantor Bobby Short para 1.200 convidados no Teatro Municipal, em São Paulo, uma multidão se aglomerou na porta para ver, aplaudir e saudar aos gritos a estrela, vestida num longo branco.

Na Folha de S. Paulo, que tratou do caso várias vezes, o exigente colunista Marcelo Coelho sentenciou: “Uma foto antológica”.

A equipe, menos o assistente, que fez a foto, numa das cúpulas redondas do hotel em que se hospedou: da esquerda para a direita, em pé, Duran (de boné), Adriane (com as pernas em torno de Ariani), Marco Antonio e Kaká; embaixo, Cristina, Ariani Carneiro e Florise (Foto Sandra Jeha)

Leia também:

Exclusivo: o fotógrafo J. R. Duran conta como foi feita a nova foto de Adriane Galisteu se depilando

O dia em que Maitê Proença foi regra 3 de Vera Fischer

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O dia em que contratei a filha de Fidel Castro para posar nua (1ª parte)

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Revista do fotógrafo J. R. Duran é para “ver, ler e guardar” — e é ótima

10/12/2011

às 15:09 \ Bytes de Memória

Gaveta de Presidentes: Minha reportagem com Médici sofreu um corte da censura da ditadura. Vai ver foi por minha cara feia

A pequena reportagem publicada em VEJA no dia 15 de outubro de 1975

Amigos,  publico hoje um post “campeões de audiência”, um dos mais acessados no blog. Este post foi publicado originalmente em 8 de maio de 2011.

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A ordem veio do editor Almyr Gajardoni, jornalista e pessoa de primeiríssima, um de meus dois chefes na seção “Brasil” de VEJA, onde eu chegara há pouco mais de 3 meses e era um dos editores-assistentes.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Marcos Sá Corrêa, a quem se poderia aplicar igualmente os dois adjetivos, era o outro editor de “Brasil”. Almyr ficava na sede da revista, em São Paulo, e Marcos na sucursal do Rio. A distância geográfica e a diferença de idade e de temperamentos — Almyr mais velho e mais fechado, Marcos expansivo, brincalhão e mais jovem — não impedia que formassem uma dupla em permanente e impressionante sintonia, como se fossem xifópagos.

Os dois recebiam maçarocas de laudas dos repórteres e longos relatos das sucursais e, juntos, manuseando aquela papelada e se revezando na máquina de escrever — eram tempos pré-computador — até que saíam textos claros, límpidos, articulados e, não raro, repletos de ironia.

Médici, naturalmente, era o ex-ditador Emílio Garrastazu Médici, terceiro dos generais-presidentes do regime militar, que transferira o poder em março do ano anterior para o general Ernesto Geisel e se recolhera, discreto, a seu apartamento no Rio.

Pouco ou nada identificado com o projeto de abertura “lenta, gradual e segura” do regime proposta por Geisel, seu eventual reaparecimento público poderia ter implicações políticas.

Num dia de outubro de 1975, lá fui eu para Campinas, junto com o fotógrafo Sérgio Sbragia, hoje cineasta.

É importante que vocês leiam o texto que eu escrevi, e está depois da foto abaixo. Saiu na edição nº 371 de VEJA, de 15 de outubro de 1975. É curtinho. Depois eu volto, também em itálico, para contar o fim da história.

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Médici, tendo à esquerda o prefeito Lauro Péricles Gonçalves e o general Mário de Souza Pinto e, à direita, o reitor Benedito Fonseca. Atrás do reitor, cabeludo e bigodudo, eu olho feio para o ex-general presidente

Três vezes chamado de “nosso eterno presidente” e uma de “o unificador do século XX” por um orador que também não se esqueceu de louvar-lhe a “voz máscula e serena”, o general Emílio Garrastazu Mádici foi homenageado terça-feira passada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Inaugurava-se, na ocasião, uma praça no campus universitário que leva seu nome e, ao que parece, um novo hábito na até agora recatada e discreta vida do ex-presidente: o de viajar, ouvir discursos, receber homenagens e conversar com políticos e chefes militares.

O inflamado orador – André Prezzi, presidente da comissão de formatura dos estudantes de Comunicações, que escolheram Médici como patrono em 1974 – teve sua opinião quanto à eternidade do cargo honorífico compartilhado pelo reitor da PUC, Benedito Fonseca, que falou em seguida e louvou a obra do governo anterior. Como resposta, um servidor da PUC leu a protocolar mensagem que o ex-presidente deixara, por escrito, no livro de visitas da reitoria. Médici não discursou.

Médico com o reitor e o prefeito; em primeiro plano, eu, de cara feia de novo

Visitantes – O general chegou segunda-feira à noite, e na terça, às 8h30, visitou a Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Depois das solenidades na PUC, almoçou num hotel com os formandos. Sempre protegido por uma dúzia de seguranças, visitou ainda uma creche da Prefeitura e no dia seguinte, antes de voltar ao Rio, concedeu audiência ao prefeito de Paulínia – cidade vizinha incluída na área de segurança nacional e sede de uma refinaria da Petrobrás.

O prefeito, entretanto, não foi o único visitante recebido por Médici no Hotel Vila Rica: lá estiveram, entre outros, o general Mário de Souza Pinto, comandante da 11ª Brigada de Infantaria Blindada, o coronel José Maria Camargo, comandante da Escola Preparatória, o deputado Ricardo Izar e o ex-governador Laudo Natel.

O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender “a convites irrecusáveis” e em casos extremos.

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Aqui volto eu, amigos. Naturalmente, devido ao período negro em matéria de direitos humanos no qual governou o país, como cidadão eu não tinha nenhum apreço pelo general Médici. Como profissional, porém, cabia-me cobrir a visita e apurar o que pudesse sobre sua incursão campineira. Por alguma razão, porém, nas fotos de Sérgio Sbragia em que apareci, estava de cara feia.

Eu andava destreinado em política, porque, durante praticamente todo o governo Médici, deixara a área política para trabalhar, no Jornal da Tarde e posteriormente na extinta revista Visão, na editoria Internacional, o que me levara, entre outras experiências, a cobrir a eleição do socialista Salvador Allende no Chile.

Nunca tinha estado com Médici, a quem apenas vira de perto uma vez, por acaso, quando, altas horas da noite, voltava de um lanche no centro de São Paulo para a redação do Jornal da Tarde e dei com o então presidente, acompanhado de poucos agentes de segurança, descendo de um carro e entrando no Hotel Jaraguá, que ficava no mesmo edifício. Eu me aproximei para observar, fiquei a um metro do general e, para minha surpresa, não levei safanão de nenhum segurança.

Mesmo destreinado, em Campinas não foi nem um pouco difícil descobrir o segredinho embutido na homenagem que os formandos haviam prestado ao ex-presidente. A última frase de meu texto publicado ali atrás, só para lembrar, era: “O ajudante-de-ordens de Médici, major Ivo Pachalli, assegura que tudo isso é fora da rotina, pois o ex-presidente só sai do Rio para atender ‘a convites irrecusáveis” e em casos extremos.” O texto continuava com a seguinte informação, que explicava tudo:

O que não parece ter sido o [caso] de Campinas: segundo o estudante Prezzi, foi a própria assessoria de Médici que lhe telefonou em julho passado, informando que o general gostaria de ir à cidade, já que não pudera comparecer à formatura, seis meses antes.

Vejam no trecho da lauda, abaixo, o corte com tinta vermelha feito pelo censor que então “trabalhava” em VEJA, e que se chamava Richard Bloch:

O fecho do texto foi proibido pela censura: mostrava que Médici, na verdade, tinha se auto-convidado para a homenagem em Campinas

A censura da ditadura quis, portanto, que VEJA não revelasse a seus leitores que o general, para voltar a aparecer publicamente, se auto-convidara.

Mas não sei, não.

Vai ver que os seguranças do general constataram a cara feia do repórter, julgaram tratar-se de um perigoso dissidente do regime e passaram a informação à censura, que imediatamente tomou providências.

É claro que estou brincando. Mas o regime que então oprimia os brasileiros, além de negro, também sabia ser extremamente ridículo. Uma coisa assim poderia até acontecer. O fato é que, embora frustrado por não ver publicada a razão de ser da matéria, acabei depois considerando o corte do censor como uma pequena condecoração.

24/10/2011

às 16:00 \ Bytes de Memória

Vídeo histórico: bastidores do famoso bate-boca entre Maluf e Brizola na campanha presidencial de 1989

Bate-boca entre Maluf e Brizola, em debate para presidência em 1989

Bate-boca entre Maluf e Brizola, em debate para presidência em 1989

Campanha presidencial de 1989, 17 de julho, segunda-feira: primeiro grande debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, a Band de hoje. Primeira e movimentadíssima campanha para a Presidência, pelo voto livre e direto dos brasileiros, desde 1960 e após o longo jejum imposto pela ditadura militar (1964-1985).

Bancadas apinhadas de convidados. Por um milagre que não acontece mais, os jornalistas credenciados – ou pelo menos vários jornalistas credenciados – puderam permanecer dentro do estúdio, desde que não ficassem visíveis para as câmeras.

Presentes quase todos os principais candidatos à primeira grande eleição presidencial da democracia pós-regime de 1964: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Leonel Brizola (PDT), Mário Covas (PSDB), Paulo Salim Maluf (PDS, antecessor do atual PP), Guilherme Afif Domingos (PL, partido que desapareceu dentro do PR de hoje), Roberto Freire (PCB, atual PPS) e Ronaldo Caiado (PSD).

O favorito nas pesquisas de intenção de voto, Fernando Collor, de um partideco chamado PRN, não compareceu, como não apareceria em nenhum outro debate do primeiro turno.

Por diferentes razões, faltaram Ulysses Guimarães (PMDB), Affonso Camargo Neto (PTB) e Aureliano Chaves (PFL, atual DEM).

De repente, o tom subiu de vez

Mediado pela jornalista Marília Gabriela, o debate corria, esquentando e baixando de tom. Até que, a certa altura, o tom subiu de vez.

Durante uma intervenção de Paulo Maluf, o ex-governador Leonel Brizola tenta um aparte, mas Maluf, que segundo o regulamento do debate tinha a palavra, não concede. Segue-se um bate-boca mas, prevalecendo as regras da emissora, Brizola tem que deixar Maluf seguir em frente:

– Não lhe concedo aparte, porque o senhor é um desequilibrado!

Pausou e repetiu:

– Desequilibrado!

Brizola bufava, tentava replicar, mas Maluf se impõe aos gritos:

– É um desequilibrado!

Apesar das advertências da mediadora, Marília Gabriela, parte da plateia aplaude Maluf. Brizola, que os correligionários chamavam de “Engenheiro”, por sua profissão original, reage:

– Malufistas! Tudo malufista! Filhotes da ditadura!

Marília Gabriela chama o intervalo comercial.

“Malufistas! Cambada de malufistas!”

Diante do rumor que continua na plateia, Brizola, fora das câmeras, manifesta crescente desconforto e continua gritando na direção dos aplausos:

– Malufistas! Vocês são todos malufistas! Cambada de malufistas!

Pálido, mostrando indignação, o candidato do PDT levanta-se da bancada e começa a caminhar para fora do estúdio, acompanhado pelo grupo de assessores que trouxera consigo, para preocupação geral, em especial do diretor de jornalismo da Bandeirantes, Fernando Mitre.

Para pasmo geral, Brizola parece estar abandonando o debate. À época diretor regional do Jornal do Brasil em São Paulo, e escrevendo sistematicamente sobre política, eu estava ali, a alguns metros de distância, encostado à parede do estúdio, justamente no espaço que separava Maluf de Brizola, estando Mário Covas à direita de Maluf.

Como muitos, tive a perfeita sensação de que Brizola, furioso e inconformado, ia mesmo embora, criando um grande caso e produzindo um fato político. Sobretudo porque todo o seu grupo o acompanhou quando ele se levantou.

Há então um corre-corre atrás do ex-governador.  Um bolo de gente some de minha vista.

De repente, nova surpresa: lépido, já calmo e até risonho, Brizola reaparece no estúdio.

Vai caminhando até a bancada, e volta a sentar-se.

Então se esclareceu o incidente: o Engenheiro só tinha ido fazer xixi.

(Texto publicado originalmente a 18 de setembro de 2010)

21/08/2011

às 14:05 \ Bytes de Memória

Gaveta de presidentes: eu vi JK votar no marechal Castello para depois ser cassado (capítulo 2, final)

Castello Branco

O marechal Castello Branco, primeiro presidente do regime militar

Como escrevi no post anterior sobre o assunto, à semelhança de meu colega de site e grande amigo Augusto Nunes, também adquiri uma pequena coleção de presidentes ao longo da carreira. Não se trata de um grande baú, como o dele, mas, tal qual figura no título acima, uma gaveta.

E contava no post anterior como, ainda antes de me tornar jornalista – começava o primeiro ano de curso de Direito na Universidade de Brasília (UnB) –, apenas acompanhando meu pai, Arnaldo Setti,  e um grande amigo dele, o advogado Léo Lynce de Araújo, meu irmão Arnaldo Augusto e eu acabamos sendo duas entre as apenas duas mil testemunhas, entre os 70,1 milhões de brasileiros de então, a presenciar, das tribunas do Congresso Nacional, a eleição indireta do primeiro presidente da ditadura militar, marechal Humberto de Alencar Castello Branco, no dia 11 de abril de 1964.

E com o voto a favor do ex-presidente Juscelino Kubitschek, então principal líder do PSD, senador por Goiás, pré-candidato a voltar ao Palácio do Planalto no ano seguinte, e a quem o regime militar viria a cassar o mandato, suspender os direitos políticos, perseguir e humilhar.

A “vacância” da Presidência

João Goulart fora derrubado por um golpe militar, mas tecnicamente, a eleição se daria para preencher a vacância do cargo.

Para quem não se lembra ou não sabe, recordo ou explico.

João Goulart e Leonel Brizola

João Goulart e Leonel Brizola

Deflagrado o golpe pelo comandante de uma unidade militar em Minas Gerais, general Olympio Mourão Filho, com o apoio do então governador mineiro Magalhães Pinto, da extinta UDN, o presidente decidiu viajar de Brasília para Porto Alegre, onde a opinião pública e os militares já haviam se levantado em 1961 contra a perspectiva de um golpe de Estado para evitar sua posse, após a renúncia de Jânio, sob a liderança do então governador Leonel Brizola (do velho PTB de Getúlio Vargas, não o atual), cunhado de Jango, casado com Neusa Goulart, irmã do presidente.

O chefe da Casa Civil de Jango, professor Darcy Ribeiro, informou o Congresso por ofício, lido em plenário pelo 1º secretário, senador Adalberto Senna (PTB-AC), que o presidente seguira de Brasília para o Rio Grande do Sul.

Mesmo assim, o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade (PSD-SP), enfrentando a fúria de deputados e senadores governistas e um grande tumulto no plenário, declarou vago o cargo de presidente, uma vez que João Goulart, disse, encontrava-se “em lugar incerto e não sabido”.

Confira abaixo o clima desse momento histórico, inclusive os gritos e protestos de deputados e senadores:

A importância do PSD de JK

Os militares estavam com a faca, o queijo, a caneta e os canhões nas mãos, mas, em sua preocupação de dar tinturas supostamente democráticas ao golpe, queriam manter algumas formalidades. A eleição indireta de Castello pelo que sobrou do Congresso após cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos era uma delas.

E, por uma questão de segurança, havia que se ter o apoio da maior bancada, a do PSD, até porque muitos parlamentares inclinavam-se a votar no general Amaury Kruel, comandante do poderoso II Exército (hoje Comando Militar do Sudeste, sediado em São Paulo). O gaúcho Kruel, amigo e compadre de Jango, havia aderido ao golpe na última hora.

JK, naturalmente, era figura-chave do PSD. Mantivera postura escorregadia no curso do golpe contra Jango, que fora seu vice (e em seguida de Jânio, até ele próprio assumir, em 1961), proferindo a célebre frase: “Estou onde sempre estive, ao lado da liberdade e da democracia”. Conhecia Castello Branco. Mais que isso: por indicação e insistência de um amigo de Castello, Augusto Frederico Schmidt, poeta, intelectual e assessor pessoal de Juscelino quando presidente, fora exatamente JK quem havia promovido, em 1958, o agora marechal a general-de-divisão.

Como JK virou senador

Para isso, precisou contrariar seu homem forte nas Forças Armadas, o ministro da Guerra, general Henrique Duffles Baptista Teixeira Lott (que posteriormente, em 1960, seria o candidato de JK à Presidência, derrotado por Jânio).  Castello chegou a visitar o presidente no Palácio Laranjeiras em sinal de agradecimento.

JK e Henrique Lott

JK e e seu ministro da Guerra, general Henrique Duffles Batista Teixeira Lott

O ex-presidente chegara ao Senado graças a uma manobra pouco edificante. Queria um mandato, mas em 1961, quando deixou o poder, não haveria eleições para o Congresso. Elas só ocorreriam no ano seguinte. O PSD providenciou, então, a renúncia do senador Taciano de Melo, de Goiás, eleito em 1958 e que tinha mandato até 1967, de forma a abrir uma vaga que tornasse necessária uma eleição “solteira”, como determinava a Constituição de 1946. Em troca, Taciano ganhou de presente o posto de ministro (hoje denominado conselheiro) do Tribunal de Contas do Distrito Federal.

Com 84,4% dos votos

JK, de qualquer forma, dispunha da desculpa de estar em curso em Goiás, como efetivamente estava, um grande movimento popular em favor de sua candidatura, do qual participava até a adversária UDN estadual. E a eleição também seria para valer – nada parecida com a que o magnata da imprensa Assis Chateaubriand providenciara no passado, quando deu um jeito de disputar o Senado pelo Maranhão, em 1955, sem adversários.

O ex-presidente concorreu com uma figura carimbada em Goiás, o ex-delegado-geral de polícia e ex-deputado federal Wagner Estelita Campos, um dos estruturadores da Fundação Getúlio Vargas e do que é hoje o BNDES, no Rio.

Mesmo sendo favorito absoluto, Juscelino partiu para uma campanha alucinante para os recursos da época – nada de jatinhos, com estradas precárias nos fundões de Goiás, acomodações péssimas e dificuldades de comunicação –, na qual percorreu 80 cidades. Foi um massacre: obteve 145.366 votos contra 26.800 atribuídos a Estelita, ou 84,4% dos votos válidos contra 15,6%.

Dois encontros com Castello no Rio

Voltemos, então, à eleição de Castello. Em abril de 1964, com a eleição marcada para o dia 11, o marechal Castello faria no dia 6 uma peregrinação aos cardeais do PSD, em conversa intermediada por um deputado da UDN, adversária tradicional do PSD, mas seu conterrâneo do Ceará e amigo, Paulo Sarasate.

O encontro aconteceu no apartamento em Copacabana do deputado Joaquim Ramos (PSD-SC). Cabelos branco-prata e vastos bigodes da mesma cor, discretíssimo, pouco conhecido fora de seu estado, o deputado não obstante era um articulador hábil, que carregava a política no DNA. Eu o conheci quando jovem repórter em Brasília. Pertencia à dinastia Ramos de Santa Catarina: irmão de Nereu Ramos, respeitado ex-presidente do Senado e interino da República (de 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956), e de Celso Ramos, governador e senador por Santa Catarina e atualmente nome de não uma, mas duas cidades do Estado – Celso Ramos e Governador Celso Ramos.

No apartamento aguardavam-no, além do anfitrião, o senador Amaral Peixoto (RJ), genro do presidente Getúlio Vargas e eterno presidente do PSD, o deputado Martins Rodrigues, pessedista do Ceará, e o deputado Sarasate. Mediante garantias genéricas sobre democracia fornecidas por Castello, garantiu-se o apoio do PSD a sua eleição.

Faltava, porém, o encontro pessoal Castello-JK. Programou-se nova reunião para o dia seguinte, 7 de abril, no mesmo apartamento. Castello chegou à casa de Joaquim Ramos acompanhado de dois coronéis. Lá estavam Amaral Peixoto, José Maria Alckmin, deputado mineiro e ex-ministro da Fazenda de JK – legendário por sua esperteza política, e que acabaria sendo o vice-presidente figurativo de Castello –, Martins Rodrigues e o embaixador Negrão de Lima, também figura de proa do PSD. JK chegou pouco depois.

Frequentes consultas ao relógio

A conversa seria cordial, mas as frequentes consultas do ex-presidente ao relógio irritaram Castello, que comentaria depois, abismado, que JK chegou a tirar do bolso um pente e ajeitar os cabelos.

O marechal sempre negou que tivesse ido à reunião para pedir o apoio ou qualquer coisa a JK, mas um dos coronéis que o acompanharam, Affonso Heliodoro, chegou a contar anos depois, em carta ao jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, amigo de Juscelino, que, ao se despedirem, o marechal perguntou a Juscelino, a quem chamou de “presidente”:

– Então, presidente, estou aprovado para a Presidência?

JK respondeu:

– Perfeitamente, general, e com o nosso apoio.

Juscelino cumpriu o compromisso. Os militares, temerosos de sua popularidade, não. Seu mandato de senador seria cassado dois meses depois, a 8 de junho daquele 1964, e os direitos políticos suspensos por 10 anos.

Vendo aproximar-se a degola, o ex-presidente proferiu seu último e enérgico discurso no Senado cinco dias antes, a 3 de junho de 1964. Alertando que a nação vivia “sob os efeitos do terror” e declarando-se “vítima preferida da sanha liberticida” do regime, disse JK:  “Sinto uma perfeita correlação entre minha ação presidencial e a iníqua perseguição que me estão movendo”.

Ouça um trecho desse discurso histórico e veja imagens de JK abaixo:

Cara feia dos seguranças e gabinetes vazios

A história termina aqui. Até hoje não consigo saber direito como é que meu pai, seu amigo Léo Lynce de Araújo, meu irmão e eu fomos parar nas superlotadas galerias da Câmara. Meu pai partiu em 2003, o dr. Léo também se foi. Não temos mais, meu irmão e eu, a quem perguntar.

Meu irmão se recorda de que o dr. Léo, conceituado advogado de Goiás que trabalhara com nosso pai no extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), no Rio, e muito tempo depois seria diretor da Caixa Econômica Federal, recomendou que fôssemos todos de terno e gravata, inclusive seu interlocutor, que apesar de não haver completado 16 anos já media perto de 1,90m.

Por algum sortilégio, o dr. Léo conseguiu estacionar o carro com que nos levou em uma das garagens do Congresso. E, mesmo diante de eventuais caras feias e tentativas de pedir credenciais de parte dos seguranças da Câmara e do Senado enquanto íamos em busca das galerias, recomendava:

– Façam de conta que não viram, vamos em frente, vamos em frente!

Revendo mentalmente aqueles momentos, imagino que talvez ele tivesse recebido algum tipo de salvo-conduto do senador de Goiás José Feliciano, também amigo de nosso pai. Recordo-me vagamente de que cortamos caminhos por gabinetes vazios até nos acomodarmos, os quatro, sabe Deus como, nos pequenos assentos das galerias. O plenário, lá embaixo, regurgitava.

Dá para esquecer?

(Publicado originalmente a 17 de outubro de 2010)

20/08/2011

às 11:30 \ Bytes de Memória

Gaveta de presidentes: eu vi JK votar no marechal Castello, para depois ser cassado (capítulo 1)

Parlamentares aplaudem depois de elegerem o marechal Castello Branco como primeiro presidente do regime militar (reprodução revista "Manchete")

Meu primeiro presidente foram dois: Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o marechal Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), primeiro do ciclo da ditadura de 1964. Só que eu ainda não era jornalista – mas, meninos, eu vi.

Entre os 70,1 milhões de brasileiros de então, eu fui, aos 18 anos, e ao lado de meu pai, de um grande amigo dele e de um de meus quatro irmãos, um dos 2.000 cidadão que assistiram, no Congresso Nacional, à eleição indireta de Castello como presidente da República para completar o mandato do deposto presidente João Goulart, o Jango.

Dessas duas mil pessoas – entre o público nas galerias da Câmara dos Deputados, onde se reúne o Congresso, os próprios parlamentares e os funcionários e jornalistas que assistiram à cena história –, quantos estarão vivos?

Sem ter planejado nada e na condição de mero estudante de Direito na Universidade de Brasília (UnB), acredito ser hoje, com meu irmão Arnaldo Augusto, à época estudante secundarista, uma rara testemunha sobrevivente entre 193 milhões de brasileiros do triste acontecimento, que se deu no dia 11 de abril de 1964.

E vi JK – sim, exatamente JK, que seria cassado e perseguido pela ditadura – votar no marechal. 

Excitação e tensão no Congresso

O leitor já percebeu, até pelo título do post, que, à semelhança de meu colega de site e querido amigo Augusto Nunes, também adquiri uma pequena coleção de presidentes ao longo da carreira. Não se trata de um grande baú, como o dele, mas, tal qual figura no título, uma gaveta. Comecemos, então, pelo começo.

O senador Auro de Moura Andrade (PSD-SP) em seu gabinete de trabalho: ele presidiu a sessão do Congresso que elegeu Castello, com o voto de JK

Lembro-me perfeitamente do clima de excitação e tensão que reinava aquele dia no Congresso até que a sessão começasse. Não me esqueço, igualmente, do vozeirão empostado, digno de locutor profissional, com que o então presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, do PSD paulista, chamava um por um, Estado por Estado, deputados e senadores para que votassem a descoberto, em voz alta. (O Congresso fora profundamente depenado pelas cassações de mandatos, mas os militares não queriam correr qualquer risco. Nada de voto secreto).

Houve um grande frisson no plenário quando Moura Andrade chamava para votar a bancada da Bahia. Ao declamar o nome do então deputado da “banda de música” da UDN — feroz opositora do governo de JK — Aliomar Baleeiro, futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, o deputado aproveitou o momento solene para fustigar o candidato a vice-presidente que o PSD conseguira contrabandear para a chapa de Castello, o ex-ministro da Fazenda José Maria Alckmin.

O ministro fora acusado pelo deputado, em 1957, de acobertar negócios escusos de um empresário, Antonio Sanchez Galdeano, no que a oposição a JK chamou de “o escândalo do uísque a meio dólar”.

Chamado seu nome, em vez de votar, como toda a UDN fazia, no marechal Castello, Baleeiro berrou, do fundo do plenário, escandindo vagarosamente cada palavra:

– Antonio… Sanchez… Galdeano!

Houve um estrondo simultâneo de aplausos, gargalhadas e vaias.

A devoção de meu pai a JK e Brasília em obras

Meu pai, Arnaldo Setti, viu com péssimos olhos o golpe contra Jango. Adepto incondicional de JK, que no início de seu mandato, em 1956, convidara aquele jovem advogado do interior do Paraná, formado na Faculdade do Largo de São Francisco, para exercer altas funções no hoje extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC), no Rio, ele trabalhara próximo ao presidente e temia que o novo regime fosse expurgá-lo, como de fato acabaria ocorrendo.

A devoção de meu pai ao ex-presidente era tal que, em determinadas férias familiares, passadas em Goiás no longínquo julho de 1959, ele levou minha mãe e os cinco filhos para conhecer Brasília. Experiência absolutamente inesquecível para o moleque de 13 anos que eu era – uma cidade inteira sendo erguida do nada, um turbilhão de obras cobertas de poeira vermelha.

Naquele Brasil ainda primitivo, rural, que JK acelerou em todas as áreas, causava espanto e orgulho ver o exército de enormes bull-dozers – falava-se em mil – rugindo seus poderosos motores por todo lado, terraplenando o solo ressequido e vermelho do cerrado, preparando o terreno para construções, rasgando futuras avenidas e estradas.

A Esplanada dos Ministérios ainda em esqueleto, em julho de 1959. A foto foi tirada por mim, então com 13 anos de idade, na Brasília em obras

Numa capenga, rudimentar câmera Kapsa ganha de presente, fiz algumas fotos da obra gigantesca e grandiosa. Só sobrou a que está publicada acima – a Esplanada dos Ministérios, ainda um esqueleto. Também viviam a fase de concretagem os edifícios-sede da Câmara dos Deputados e do Senado, o Palácio do Planalto, a sede do Supremo Tribunal Federal.

A catedral e a torre de TV não passavam de esboços. O Alvorada, onde JK se hospedava, funcionava e foi devidamente visitado pela família, embasbacada.

Chegando a hora de JK votar

De todo modo, apesar de suas desconfianças para com o golpe, naquele 11 de abril meu pai estava ali, nas galerias do Congresso, seus olhos muito azuis fixos no plenário, algo esperançoso de que ainda houvesse chance de prosseguimento da campanha pela volta de JK – o movimento “JK-65”, referência ao ano da eleições presidenciais previstas para o ano seguinte.

O ex-presidente Juscelino Kubitschek, eleito em 1961 senador por Goiás, apoiou Castello, certo de que os militares o poupariam. Terminou cassado

Os militares golpistas juravam que queriam uma democracia.

Quanto a mim, tal qual meus quatro irmãos menores, fora criado na veneração doméstica ao “presidente bossa-nova”, o construtor de Brasília e de hidrelétricas, que cortara o país de rodovias, implantara a indústria automobilística, era tolerante e generoso com os inimigos e dissipou Brasil afora uma onda de otimismo e confiança até então inédita. Um presidente galante e dançarino, que se emocionava com a canção “Peixe Vivo”, percorria o Brasil de avião turboélice – extraordinária novidade –, tinha duas filhas adolescentes e venerava a mãe velhinha, mas firme e forte em sua natal Diamantina (MG).

Portanto, é compreensível que me lembre com emoção – ainda me arrepiam os pelos do braço – quando a chamada do senador Moura Andrade para a votação nominal se aproximava do Estado de Goiás, pelo qual Juscelino se elegera senador no ano anterior, com avassaladora votação.

O vozeirão trovejou:

– Goiás!

E em seguida, por ordem alfabética dos três senadores do Estado, chamou:

– José Feliciano! [ex-governador, do mesmo PSD de JK]:

– Castello Branco! – foi o voto.

E Auro:

– Juscelino Kubitschek!

JK fez o combinado dias antes, como contarei em outro post.

– Castello Branco!

Uma enorme ovação, com palmas e gritos das galerias, do plenário e até de funcionários quebrou o protocolo. Não me esqueço, não vou me esquecer nunca, da figura para mim então mitológica de JK, na parte posterior do plenário, do lado direito do corredor central, de pé e sorridente, recebendo a saudação. Antes disso — e meu irmão é quem me refresca a memória –, tanta gente cumprimentava o ex-presidente que ele passou parte da sessão num incessante senta-e-levanta.

O general Amaury Kruel

Combinaram de poupar JK, e o cassaram

Os militares golpistas, que queriam manter as aparências de uma democracia tutelada, preocupavam-se com o possível apoio de deputados e senadores ao general Amaury Kruel, comandante do poderoso  II Exército, sediado em São Paulo — atual Comando Militar do Sudeste –, amigo e compadre de Jango.

Era, então, muito importante o apoio do PSD, maior partido do Congresso, a Castello. E ficou combinado que o ex-presidente seria poupado das cassações em troca de seus parlamentares votarem em Castello na eleição indireta daquele 11 de abril de 1964.

Que nada.

Castello, previsivelmente, elegeu-se. Obteve 361 votos. Três congressistas votaram no deputado e marechal Juarez Távora, ex-tenente da Revolução de 1930, dois homenagearam o marechal e ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), 72 se abstiveram e 37 não compareceram.

Menos de dois meses depois da eleição indireta, a 8 de junho de 1964, Castello cassou o mandato e suspendeu por 10 anos os direitos políticos de JK.  Não demoraria e o ex-presidente seguiria para o exílio em Paris. (Continua amanhã).

Castello, já presidente, chega ao Palácio do Planalto com um dos netos

(Publicado originalmente a 11 de outubro de 2010. Continua amanhã.)

11/07/2011

às 19:31 \ Bytes de Memória

Histórias secretas de Playboy (4): o dia em que Pelé foi, pessoalmente, recolher todas as fotos de Xuxa nua

Xuxa abraçando Pelé nos bons tempos: namoro foi de 1981 a 1986

Campeões de Audiência(Amigos, com a reedição deste post damos continuidade à série que, brincando, chamamos de “Campeões de Audiência” porque se trata de reapresentar aos muitos leitores novos do blog, em dias diferentes, os 30 posts mais acessados desde o início desta coluna, a 13 de setembro de 2010.

Refiro-me aos posts mais acessados, e não aos mais comentados. O post abaixo foi publicado originalmente no dia 27 de novembro de 2010).

De repente, ali estava ele: o sorriso planetariamente conhecido, o topete típico, inimitável, metido dentro de um estranho traje entre o terno e um conjunto esportivo, com calças e uma espécie de paletó ou casaco sem gola e do mesmo material: couro macio azul. No mais, uma camiseta cinza-clara também sem gola, sapatos pretos reluzentes, um relógio vistoso no pulso esquerdo.

O Rei, o Atleta do Século, o mago, o mito. O homem mais famoso do mundo, Pelé, acabara de chegar a uma sala no 6º andar da na época sede da Editora Abril, na Avenida Marginal do Tietê, em São Paulo, naquela tarde de um dia de um determinado mês, provavelmente maio, de 1985.

Celebridades eram rotina naquele edifício, mas Pelé causou grande alvoroço

Naquele edifício era comuníssimo, fazia parte do dia-a-dia o entra-e-sai de celebridades de todos os calibres — governantes, inclusive presidentes, líderes políticos, ídolos do esporte, estrelas da TV e da música popular, modelos de sucesso –, para realizar visitas de cortesia, conceder entrevistas, tirar fotos ou almoçar com jornalistas ou diretores da empresa no restaurante do chamado Roof, um espaço ajardinado situado na cobertura que incluía um heliporto.

Mesmo assim, tratava-se de Pelé, s sua chegada provocou grande alvoroço. Corre-corre na chegada, gritinhos, pedidos de autógrafo, uma atmosfera que incluiu até as secretárias, algumas venerandas, do Sexto Andar — o andar abaixo do da redação de VEJA e onde se instalava a diretoria, e cuja numeração ordinal designava, na gíria interna da Abril, o poder na empresa. “O Sexto Andar vai gostar desta capa”, dizia-se. “O Sexto Andar ainda não decidiu pelo lançamento da revista tal”. E por aí vai.

Reprodução de parte do pôster da edição de 10º aniversário de "Plabyoy": última foto da estrela nua na revista

A missão do Rei: recolher todas as fotos de Xuxa nua

Pelé abrira espaço na sua movimentadíssima agenda para uma missão de caráter pessoal: recolher, ele mesmo, todos os cromos (slides) e negativos de todas as fotos em que Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, namorada do Rei desde 1981, aparecia nua nas páginas de Playboy. Xuxa, àquela altura, ultrapassara de longe a categoria de estrelinha em busca de popularidade, que exibia o corpo no Carnaval e surgia seminua ou despida em revistas, e se consolidava havia dois anos na TV como a apresentadora de programas infantis que se tornaria a “Rainha dos Baixinhos”.

Preocupada com sua nova imagem, Xuxa, que posara nua em cinco oportunidades para uma concorrente de Playboy de circulação menor, a extinta Ele & Ela, da Bloch Editores, não queria deixar rastros dessa fase de sua vida. Pelo que entendi da conversa, as fotos da revista dos Bloch já haviam retornado a suas mãos, já que ela era a grande atração da também já extinta Rede Manchete de Televisão, do mesmo grupo. (Xuxa iria se transferir no ano seguinte, 1986, para a Globo, onde trabalha até hoje. No mesmo ano terminaria seu longo caso com Pelé).

A apresentadora ainda tomaria medidas polêmicas nessa refeitura de imagem, que incluíram a apreensão, graças a uma medida judicial, de todas as cópias em vídeo e DVD do filme Amor Estranho Amor (1982), do respeitado cineasta Walter Hugo Khouri, no qual sua personagem não apenas aparecia nua como introduzia um menino de 12 anos no mundo sexo.

Os advogados de Xuxa argumentaram, com sucesso, que o contrato para o filme não previa versão para vídeo ou DVD. Xuxa viu-se muito criticada uma vez que, não mais sendo reprisado no cinema, e raríssimas vezes na TV — hoje em dia, certamente não na Globo –, o filme praticamente desapareceu da cultura brasileira.

Xuxa e Pelé durante coquetel oferecido à colônia brasileira em Nova York, no dia 27 de setembro de 1982

Apagar o passado de símbolo sexual

A reunião na Editora Abril ia na mesma linha de apagar o passado da estrela como símbolo sexual. E Xuxa jogara pesado: enviara ninguém menos do que Pelé como seu emissário. A reunião fora acertada entre Pelé e o diretor de Redação na época, o quase legendário Mário Escobar de Andrade, que comandou direta ou indiretamente a revista desde pouco tempo após o lançamento, em 1975, até falecer de forma prematura em 1991, quando, sem deixar de supervisionar Playboy, vinha acumulando outras funções.

Eu era redator-chefe da revista na época da reunião com o Rei – só muito tempo mais tarde, em 1994, depois de trabalhar em diferentes veículos, inclusive fora da Abril, seria convidado a tornar-me diretor de Redação. Naquele 1985, como redator-chefe, supervisava o trabalho de editores e repórteres, cuidava das reportagens, entrevistas, matérias de serviço e de todo o texto, da primeira à última palavra, mas nada tinha a ver com a contratação das garotas de capa nem com os ensaios de mulheres nuas, atribuição de outros colegas e do diretor de Redação.

Mesmo assim Mário, por alguma razão, me quis presente à reunião, talvez como testemunha. As redações das revistas mensais da Abril não mais cabiam no edifício da Marginal do Tietê, e a maioria delas, inclusive a de Playboy, localizava-se num prédio no bairro paulistano do Brooklyn. De lá viemos para o encontro. À nossa espera estava o dr. Edgard de Silvio Faria, um dos diretores da Abril, cujas funções incluíam a área jurídica.

Depois de atravessar com paciência o torvelinho de assédio a que estava inteiramente acostumado há décadas, o Rei chegou à sala sem assessores ou advogados, acompanhado apenas de seu irmão, Jair Arantes de Nascimento, o Zoca, dois anos mais novo, que funcionava como uma espécie de assessor pessoal. Feitas as apresentações, todos se sentaram e, após alguns minutos de small talk, Mário foi à luta.

Na reunião, o irmão de Pelé pingava adoçante no cafezinho do Rei

Sempre cativante e diplomático, como de seu feitio, Mário de Andrade começou elogiando Pelé pelo que representava para o Brasil e por sua simplicidade a despeito da fama, agradecendo o fato de ter vindo pessoalmente à Abril. Disse que a devolução das fotos era uma deferência especial a ele, Pelé, e também uma consideração para com Xuxa.

Nesse meio tempo, me impressionou o relacionamento de Pelé com o irmão que tentou, sem êxito, ser jogador de futebol profissional pelo mesmo time do Santos. Zoca agia como uma espécie de mordomo de Pelé, que por sua vez se comportava em relação ao irmão como patrão. Se o garçom da Abril servia um café a Pelé, Zoca apressava-se, a um sinal do Atleta do Século, a pingar adoçante na xícara. Confesso que fiquei um tanto chocado com o servilismo de Zoca, e com a naturalidade com que Pelé o encarava.

Com a passagem dos anos, Zoca também mudara muito fisicamente, em relação à figura do jogador efêmero de que eu me lembrava. Na juventude, embora não fosse parecido com Pelé, tinha a mesma cor e o mesmo tipo de cabelo do irmão. O Zoca à nossa frente, porém, com um bigodinho fininho, pele bem mais clara e cabelos esticados, lembrava um portorriquenho de filme americano.

Lá pelas tantas na conversa, Mário de Andrade introduziu espertamente um tema: Playboy completaria 10 anos de existência no mês de agosto daquele ano. Um perfil de Pelé em Nova York – onde ele vivia a maior parte do tempo, como executivo da Warner Communications – seria perfeito para a edição especial planejada. Pelé não poderia, em troca da gentileza da devolução das fotos (algumas, por contrato, ainda poderiam ser publicadas), atender com especial atenção a um jornalista da publicação, “abrindo” sua vida de maneira mais livre do que costumava fazer com jornalistas?

Pelé aceita abrir sua vida para o editor Nirlando Beirão

Pelé topou na hora e Mário, rápido, já indicou quem iria procurá-lo: o editor Nirlando Beirão que, além de ser um dos melhores jornalistas do país já na época, era (e é) um gentleman impecável, diante de cuja inteligência, simpatia e magnetismo pessoal os entrevistados não costumavam resistir.

O dr. Edgard, que pouco interveio durante o encontro porque, experiente, percebeu que as coisas andavam bem, diante do acerto amigável estendeu a Pelé minutas de contrato previamente preparadas para sacramentar a devolução das fotos, pelas quais o Rei se tornou responsável. Mário passou a Pelé um envelope com as fotos de Xuxa.

Não era tanto material como muita gente poderia imaginar. Xuxa, na verdade, protagonizou apenas um único ensaio para Playboy, publicado na edição de 7º aniversário, em agosto de 1982, e ao lado da irmã Maruska. As chamadas de capa falavam em “Segredo de família” e “As fotos que Pelé quase proibiu”. Fotos desse ensaio, algumas inéditas, seriam depois republicadas, em diferentes edições. A última de todas seria um pôster na edição de 10º aniversário, concessão que Mário obteve de Pelé no finzinho da reunião.

Xuxa na edição de 7º aniversário de "Playboy": "As fotos que Pelé quase proibiu"

O que ocorreria é que Playboy, aproveitando a capa com Xuxa e a irmã, acabou explorando o “veio Xuxa” a partir de então. Vieram, em consequência, capas com a hoje atriz Luciana Vendramini (uma das “xuxetes”, denominação que precedeu a das “paquitas”), em dezembro de 1987, com Andréa Veiga (paquita), em setembro de 1988, com Regina Meneghel (cunhada de Xuxa), em maio de 1989, com Deborah Meneghel (prima), em outubro de 1989, com Ângela Matos (secretária e irmã de sua então empresária Marlene Mattos), em abril de 1991, e com a também xuxete Shirley Miranda, em julho de 1992. Em minha gestão, fizemos uma capa com a ex-paquita Andréa “Sorvetão”, em dezembro de 1995.

(Eu não conseguiria recuperar a trajetória de Xuxa na revista, nem as de estrelas de capa a ela ligadas, se não fosse o auxílio do Romário de Oliveira, o maior fã de Playboy que já conheci, e que trabalhou no atendimento ao leitor da revista — e na descoberta de garotas para posar — de 1990 a 1998. Romário é um arquivo vivo de Playboy, a quem agradeço aqui pela colaboração).

A reunião toda entre Pelé, Mário de Andrade e Edgard de Silvio Faria, presenciada por mim e por Zoca, não durou uma hora. Mário, por via das dúvidas, anotou todos os telefones de Pelé para passar a Nirlando.

Feitas as despedidas, Mário e eu, em meio a novo alarido pelos corredores da Abril, acompanhamos Pelé até o térreo, onde um carro com motorista o esperava.

Regina Meneghel, cunhada de Xuxa, na edição de setembro de 1988: o "veio Xuxa"

Pelé em Nova York: um belo apartamento, casa em meio a milionários, um Cadillac com motorista, amigo de Robert Redford e Muhammad Ali

O resultado da negociação, para Playboy, seria um perfil espetacular publicado na edição de 10º aniversário, em agosto de 1985, escrito por Nirlando Beirão sob o título “A Vida do Rei em Nova York”.

Preciso contar a vocês, amigos do blog, um pouco do que contém essa matéria.

Pelé para Nirlando: “Um dia desses, descendo para almoçar, acho que no Charley O’s da rua 48, com o Robert Redford, estávamos eu e ele na rua, e ele, de repente, espantado, me disse: ‘Fuck, man, how popular you are!’ Também pudera: eu já tinha dado uns dez autógrafos e ele, o Robert Redford, nenhum”.

O grande ator era amigo e vizinho de escritório de Pelé — no mesmo prédio, no mesmo andar.

Pelé para Nirlando: “A Jackie Kennedy me cumprimentou, e na mesma hora senti aqueles olhares em volta, como se o pessoal estivesse pensando: ‘Pô, o crioulo está com tudo’, e eu lá, pensando, ‘Ela nem é bonita, nem dá tesão’”.

Pelé para Nirlando: “Estraçalhei o [cineasta Steven] Spielberg numa partida de tênis em East Hampton [paradisíaco reduto de milionários à beira-mar em Long Island, próximo a Nova York] ele não acerta uma bola…”

Pelé para Nirlando: “Uma noite, indo jantar, eu e o [extraordinário campeão mundial dos pesos-pesados Muhammad] Ali (…). “Ele chorou na minha festa de despedida”.

Executivo da multinacional Warner, com dez anos de casa e responsabilidades de globetrotter, como escreveu Nirlando, o Rei naquela época vestia ternos da centenária loja Brooks Brothers, levava um Rolex de ouro no pulso, desfilava num imenso Cadillac preto do ano, com telefone a bordo — décadas antes dos celulares –, presente da empresa.

"A Vida do Rei em Nova York": um perfil espetacular de Pelé publicado por "Playboy" na edição de 10º aniversário

Vivia na Rua 54, esquina com a Segunda Avenida, num apartamento igualmente presenteado pela Warner, de dois salões e três quartos, para o qual se mudara seis anos antes, depois de separado da primeira mulher, Rose Cholby do Nascimento – processo penoso, caro e lento que levou dois anos para terminar. Há 25 anos, o apartamento valia 700 mil dólares. E o dono tinha entre seus vizinhos Dustin Hoffman e Al Pacino.

Ajudava financeiramente os tios em Três Corações, lavava a própria roupa, relaxava em bangalô de rico em East Hampton

Famoso, poderoso e rico, no entanto, Pelé lavava e secava sua própria roupa na lavanderia do edifício, como faz todo mundo em Nova York. Continuava ajudando financeiramente os pais, Dondinho e Celeste, alguns tios e primos na sua cidade natal de Três Corações (MG). Pagava religiosamente pensão para a ex-mulher e bancava as despesas dos filhos Kelly Cristina, Edinho e Jennifer. Só Edinho lhe custava, na época, 8 mil dólares mensais.

Para relaxar, costumava esticar nos fins de semana no bangalô construído em meio a 1.500 metros quadrados de um dos mais valorizados braços de mar de East Hampton, o balneário chique dos novaiorquinos, dotado de piscina, um ancoradouro para a lancha e uma garagem para o barco a vela. Era, por sinal, o único negro em redondezas que abrigavam em weekends ou temporadas gente como a atriz Lauren Bacall, o diretor de cinema Sidney Lumet e legendário diretor do jornal The Washington Post, Ben Bradlee.

120 mil quilômetros viajados em 6 meses e 14 passaportes cheios de vistos e carimbos

Para ter e dispor de tudo isso, o homem trabalhava duro, verificou Nirlando. Pelé a essa altura da vida passava sete meses no circuito Nova York-Europa e cinco meses fazendo do Brasil ponte para viagens. (No Brasil, possuía uma grande casa em Santos, sua cidade de adoção, cedida aos pais, uma casa e uma cobertura em São Paulo e a casa recém-inaugurada no Guarujá, litoral paulista, onde vive até hoje).

Nem havia terminado aquele primeiro semestre de 1985 e o Atleta do Século já viajara 120 mil quilômetros de avião, em primeira classe, naturalmente, algo como 134 horas de voo.

Do Brasil para Nova York e vice-versa inúmeras vezes, e de Nova York para Los Angeles, Tóquio (duas vezes), Frankfurt, Munique, Londres, Paris, Sidney (Austrália), Nairobi (Quênia), Kampala (Uganda), as ilhas caribenhas de Saint Thomas e Guadalupe, Assunção (Paraguai) e Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), com compromissos já agendados para países como a Arábia Saudita e, uma vez mais, a Austrália.

Não é de estranhar que, àquela altura, já acumulasse 14 passaportes repletos de vistos e carimbos de entrada e de saída. Achava tempo, no entanto, para praticar judô e karatê.

Quanto ganhava o Rei? Bom de drible, Pelé desconversou, mas deu pistas. “Uma nota”, reconheceu. “Mas não dá para calcular porque o forte é o que vem em royalties, faturamento de publicidade, de merchandising”. Calculava ter 50 pessoas trabalhando com ele na Warner, sem contar seus representantes pessoais em países como o Japão e a Inglaterra. Precursor em relação ao que enche os bolsos dos atletas de hoje, há 25 anos a gigante de alemã de artigos esportivos já havia lançado toda uma linha de chuteiras com seu nome.

Pelé abre o coração: casou com Rose, a primeira mulher, sem amá-la

A parte mais delicada e reveladora do perfil escrito por Nirlando, porém, seria a em que Pelé abordou aspectos da vida pessoal, sobretudo de seu casamento com Rose. Veja só:

“Eu nunca disse isso para ninguém: eu gostei muito da Rose numa época, quando eu a conheci ela tinha uns 13 para 14 anos, e eu 18 para 19. Eu saía pra caçar com o pai dela, pra pescar, ia na casa dela, eu e outros jogadores do Santos, a gente ia em grupo. Ela e as irmãs, são três irmãs, eram fanáticas pelo Santos, a gente fez amizade, começamos a sair juntos, amigo, amiga, acabei namorando e casando. Depois eu descobri que não amava, eu casei sem amar.”

Nirlando perguntou: “E ela?”

“Não sei, da mesma maneira que eu pensei que amava, e não amava, só gostava, talvez ela tivesse pensado que amava e só gostava. Mas, por educação religiosa, essas coisas, eu não queria separar de jeito nenhum. Um dia, ela quis separar, propôs uma coisa que eu não iria cumprir, porque eu sou honesto. Ela queria, depois que a gente veio para cá [Nova York], em 1975, que eu deixasse de fotografar, de fazer comerciais com mulher, que eu deixasse de filmar, que eu vivesse só para ela e pro Cosmos [time de futebol da Warner que contratou Pelé em 1977, três anos depois de ele encerrar sua carreira no Santos].Ou isso ou a separação. Quer dizer, ela me botou na parede”.

Mais adiante, depois que Pelé revela como o casamento estava complicado, Nirlando pergunta:

– Mas vocês ainda tiveram a filha Jennifer. Foi uma tentativa de salvar o casamento ou aconteceu sem esperar?

“É uma coisa meio difícil pra eu explicar, porque a gente não tinha combinado nada, já estávamos aqui em Nova York e já tínhamos tido problemas. Ela tomava pílula depois do Edinho, engordou, depois recuperou, mas ela não queria tomar. E, um dia, me disse que estava grávida”.

– Cá entre nós, talvez tenha sido uma tentativa de te segurar…

“É, pode ser, mas acontece que…”

– Acontece que nasceu e vocês se separaram.

“É, nasceu, e na mesma semana a gente se separou. Eu voltei da Copa do Mundo [na Argentina, em 1978] e a gente se sseparou. Foi um negócio chato, triste, e a educação religiosa que eu te falei, minha família não aceitava muito. Agora, a gente tem uma amizade relativa. Não é uma coisa muito boa, mas a gente conversa.”

Xuxa sentada no colo de Pelé, na residência de Alfredo Saad, em janeiro de 1986

Xuxa era virgem quando se conheceram

Naturalmente a conversa abordou o tema Xuxa. Pelé contou que a conheceu durante uma foto de capa para a falecida revista Manchete intitulada “Gaiola de Ouro”, abordando a recém-adquirida liberdade do Rei como homem solteiro. Posou com quatro modelos, entre as quais Xuxa e Luíza Brunet. Jogou seu olho comprido em direção a Luíza, convidou-a para ir a um show no Canecão e recebeu um fora: mesmo com 17 anos, a Brunet era casada.

Mais tarde, sairia com Xuxa em um grupo, até que a convidou para uma festa na casa do empresário Alfredo Saad à qual precisou levar também os pais e o irmão da modelinho, então com 17 anos.

Aí revelou a Nirlando um segredo até então bem guardado: Xuxa era virgem nessa época. Pelé não elaborou o assunto, mas deu a entender que só viria a namorá-la de fato tempos depois, quando havia uma amizade entre os dois e Xuxa se acostumara a procurá-lo, pessoalmente ou por telefone, para conversar e pedir conselhos.

O fato é que a certa altura começou um namoro de celebridades que ocupou manchetes durante anos. Quando Nirlando entrevistou Pelé para o perfil, o casal estava junto há quase cinco anos. Mesmo assim, com grande naturalidade, Pelé, enquanto Xuxa estava no Brasil, mantinha seu intenso ritmo de relacionamentos breves com outras, com muitas mulheres.

Como narrou Nirlando, em sua prosa elegante: “Pelé é um desbravador das noites, das louras vaporosas, dos amores secretos, das incansáveis badalações do jet set”…

É a vez de Xuxa falar. Depois da separação, ela considerava Pelé “pequeno”. E detestava o pé do Rei

Aquela reunião de 1985 de certa forma repercutiria 11 anos depois. Estando eu já na direção de Playboy, conseguimos para a edição de 21º aniversário, em agosto de 1996, uma rara, longa e reveladora entrevista de Xuxa – a segunda que ela concedia à revista. Conferimos a missão ao editor contribuinte Guilherme Cunha Pinto, amigo querido que infelizmente teria, como Mário de Andrade, morte súbita e prematura, antes de a entrevista ir às bancas.

Nessa época já uma celebridade estelar, Xuxa, como não poderia deixar de ser, foi perguntada sobre Pelé. E mostrou-se claramente revoltada com o fato de o Rei haver revelado sua condição de virgem quando se conheceram. Só que ela atribuiu a revelação a uma longa e excelente entrevista que Pelé concedera a Juca Kfouri, o diretor de Playboy que me antecedeu, para a edição de agosto de 1993, e não, como de fato ocorreu, ao perfil de autoria de Nirlando Beirão que acabamos de mencionar.

A longa e reveladora entrevista de Xuxa publicada na edição de 21º aniversário de "Playboy", em agosto de 1996

De todo modo, na entrevista de Xuxa a Guilherme Cunha Pinto em 1996 o tema veio à tona, junto com uma avaliação bastante rigorosa da estrela a respeito de seu namorado durante mais de cinco anos.

Confira o trecho abaixo da conversa entre Xuxa e Guilherme Cunha Pinto:

PLAYBOY – Sabe uma impressão que fica? Que uma pessoa comum nunca vai ter chance com você. Pensando nos seus namorados, ou são celebridades, como Pelé e Ayton Senna, ou modelos de beleza, como esse rapaz [referia-se ao então modelo Luciano Szafir, que tempos mais tarde seria pai de sua filha, Sasha]. É isso?

XUXA – Não, não é. As coisas simplesmente aconteceram. O encontro com o Pelé foi por acaso, a gente se conheceu numa fotografia que fui fazer. E no caso do Ayrton foi ele que buscou, de todas as maneiras, chegar perto de mim. Eu me apeixonei por duas figuras conhecidas, mas pode pintar qualquer pessoa.

PLAYBOY – A aparência não é importante? Se não for um sujeito bonitão…

XUXA – E tu acha o Pelé bonitão?

PLAYBOY – [Confuso.] O Pelé?

XUXA – Na época eu achava ele o máximo! Lindo. Mas já achava e continuo achando o pé dele horrível. O resto eu achava maravilhoso. Entendeu?

PLAYBOY – Você não gosta dos pés do Pelé?

XUXA – São horríveis.

PLAYBOY – Aqueles pés que fizeram…

XUXA – Horríveis. Parecem garras.

PLAYBOY – Aqueles pés ganharam três Copas do Mundo!

XUXA – Uma mulher que gosta de pé não pode olhar para o pé dele.

PLAYBOY – Você deve ser a única pessoa do mundo que não admira os pés do Pelé.

XUXA – Eu dizia para ele: “Se um dia tu arrumar uma namorada que tenha tara por pé, tu tem de ficar de meia”. Você não viu o pé dele [risos.]

PLAYBOY – Você e o Pelé namoraram durante seis anos, no começo da sua carreira. Agora faz tempo que não se falam?

XUXA – [Séria.] Eu não falo mais com ele. Faz tempo, já.

PLAYBOY – Foi por causa da entrevista que ele deu para PLAYBOY três anos atrás? [Nessa entrevista, em meio a diversos outros comentário e afirmações sobre Xuxa, Pelé disse que ela teria revelado ser virgem quando os dois se conheceram, no início da década de 80. E que a teria aconselhado a “resolver esse problema” antes de se envolvder com ele.]

XUXA – Não. Foi por uma série de coisas que aconteceram.

PLAYBOY – Mas e o que ele falou na entrevista?

XUXA – O Pelé faz parte da minha história e eu faço parte da história dele, mas acho que isso era uma coisa que não deveria ser dita, porque se alguém teria de falar seria eu. Ficou uma coisa grotesca. E, já que ele resolveu falar, que falasse a verdade. Quando a gente se conheceu, ele não sabia que eu era – eu não me apresentava às pessoas e dizia: ”Olá, meu nome é Xuxa, eu sou virgem”. Eu era virgem, mas ele só foi descobrir depois, quando a gente já estava junto.

PLAYBOY – Você teria dito, depois dessa entrevista do Pelé, que se por acaso se apaixonasse de novo por um rei, não seria um rei tão pequeno como ele. A raiva continua tão grande?

XUXA – Vamos dizer assim: tive momentos bons e ruins com ele. Às vezes, a gente aprende muito mais errando. E eu aprendi muito com ele. Hoje, não poderia ficar com uma pessoa tão pequena.

PLAYBOY – Pequena em que sentido, precisamente?

XUXA – É aqui [apontando a cabeça.] Saem coisas que, às vezes, não dá para entender. Dá o microfone para ele falar, que você vai sentir, vai ouvir. Ele é pequeno. Mas faz parte, fez parte da minha vida. Não posso negar isso, nunca.

PLAYBOY – Numa certa medida ele apresentou o mundo para você, não foi?

XUXA – Ele me apresentou muita coisa. Muita coisa boa, também. Um ponto que o Pelé tinha de legal é que queria me ver crescendo profissionalmente. Mas talvez não soubesse que eu teria tantas oportunidades. Uma vez ele disse para mim: “Nunca queira ser a melhor. Porque é muito difícil ser o primeiro”. Quando eu quis sair da [extinta Rede] Manchete [de Televisão] para ir para a Globo, ele disse: “Não faça isso. Não queira. Você vai ter de provar que é a melhor todo dia”. Pois hoje posso dizer que é muito bom ser a melhor. Não gostaria de ser a segunda.

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Publicado originalmente a 24 de outubro de 2010

(Os leitores não têm a menor obrigação de saber, mas a uma certa altura de minha longa carreira no chamado jornalismo hard – cuidando especialmente de temas políticos e relações internacionais – e no desempenho de cargos editorias executivos, coube-me ser diretor de Redação da revista Playboy, entre 1994 e 1999. Um período muito rico, que, felizmente, deu resultados muito positivos para a Editora Abril e rendeu muitas histórias que nunca contei. E que agora, no blog, estou contando, como já fiz antes. Se quiser conferir a história anterior, leia aqui).

Em 22 anos de história de Playboy até então, nunca tínhamos vivido nada parecido – mesmo agora, aos 35 anos de idade, a revista não viu o fenômeno se repetir. O fato é que de alguma forma vazou, dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a informação, verdadeira, de que uma de suas militantes, Débora Cristina Rodrigues, havia assinado contrato para posar nua para a revista.

A imprensa, como sempre, ficou sabendo. E seu súbito, avassalador interesse por Débora transformou a bela sem-terra num caso espetacular do que os americanos chamam de instant celebrity — alguém que passa, em questão de dias, do absoluto anonimato para a condição de celebridade.

Foi uma loucura midiática – não estou exagerando. Parecia que o mundo vinha abaixo. Reportagens pipocaram não apenas em jornais e revistas das maiores capitais, como O Globo e a Folha de S. Paulo, a Istoé e o Jornal da Tarde, ou os belo-horizontinos Diário da Tarde e Hoje em Dia, ou, ainda, o Correio Braziliense, do Distrito Federal. A coisa se espraiou por dezenas de jornais regionais do país, do Rio Grande do Sul a Pernambuco, do Paraná à Bahia.

Eu a descobri lendo jornal na praia

Playboy tinha sob contrato, na época, uma assessoria de imprensa encarregada principalmente de divulgar a revista para a mídia do interior do país, além de providenciar clippings – coleções de recortes de jornais e revistas e gravações de programas de rádio e TV em que a se mencionasse Playboy. Tenho até hoje, nos arquivos de meu escritório, a montanha de material sobre Débora.

Os programas de fofocas nas redes de TV não falavam de outra coisa. Celebridades, como a socialite Thereza Collor ou a atriz Danielle Winits, palpitavam. Num programa de rádio em São Paulo, a hoje senadora Marta Suplicy (PT-SP), que ainda comentava profissionalmente assuntos de sexo e relacionamento, mesmo sem saber nada de concreto do caso espinafrou a revista e a mim, pessoalmente, por “explorar” uma militante dos “movimentos sociais”.

Thereza Collor: para ela o ensaio não combinava bem com uma militante

Até um deputado do PT, o bigodudo Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), acabou entrando na história, para “defender os direitos” de Débora. Eu não imaginava, juro que não, que tudo aquilo fosse ocorrer quando, lendo sossegadamente ao sol o Estadão de domingo ao lado de minha mulher no refúgio litorâneo onde recuperava as energias com a família, na escondida minipraia de Sorocotuba, no Guarujá, a 90 quilômetros de nosso apartamento em São Paulo, dei com uma reportagem sobre José Rainha Júnior, o líder dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado.

Num canto da foto em preto e branco de Rainha com um grupo, aparecia uma bela mulher, de calças jeans, rabo-de-cavalo, um boné do MST e grandes brincos tipo argola. Era Débora, e resolvi na hora que iria colocá-la nas páginas de Playboy.

“A beleza no rosto e nos olhos”

Na semana seguinte, na reunião que sempre fazia com meu braço direito na contratação de estrelas e na produção de ensaios fotográficos, a editora Ariani Carneiro, mostrei-lhe o recorde de jornal em que aparecia a foto de Débora e pedi para que ela desse um jeito de entrar em contato com a moça.

Ariani lançou mão de sua formação como jornalista e em pouco tempo, com indicação de colegas do Estadão e os bons ofícios de militantes próximo a Rainha, conseguiu localizar Débora. Ela tinha um emprego na prefeitura de Teodoro Sampaio, cidade de 20 mil habitantes a 670 quilômetros de São Paulo, na região do Pontal.

Não se assustou com a proposta. Ariani, porém, para evitar surpresas sobre as virtudes físicas até então apenas entrevistas numa foto preto e branco da jovem, convidou-a a vir a São Paulo, para conhecê-la pessoalmente.

José Rainha entregou os pontos: “Nesse caso, por curiosidade, vou ver, sim”

José Rainha entregou os pontos: “Nesse caso, por curiosidade, vou ver, sim”

Débora só me contaria depois, mas, apertada financeiramente, foi de carona para São Paulo e chegou até a dormir em banheiro de posto de gasolina. Mas apareceu na redação, naquela época situada não no imponente edifício que a Abril ocupa hoje na avenida Marginal de Pinheiros, mas num prédio menor, no bairro do Brooklyn. Eu estava em um compromisso fora, Ariani a recebeu.

Débora, aos 29 anos, divorciada aos 20, mãe de dois filhos e tendo uma vida dura – fora motorista de ônibus de bóias-frias, entre outras atividades –, não ostentava um corpo escultural, constatou Ariani. Mas ela ainda se lembra: “Fiquei impressionada com a beleza do rosto dela, principalmente os olhos”.

Um belo dinheiro na época

Ariani merecia minha total confiança nas avaliações do potencial das candidata a ensaios e Débora, portanto, estava aprovada. A surpresa e o barulho que fariam uma edição com uma militante do MST nua nas páginas de Playboy já não seriam poucos. Sendo realmente bonita, então, era o melhor dos mundos. Ariani lhe fez a proposta financeira que combináramos, ela topou e, dias depois, receberia por Sedex cópias da minuta do contrato, que assinou e devolveu, mantendo uma para si.

Jamais revelo valores de cachês, mesmo tantos anos depois de deixar a revista. Vou abrir exceção desta vez devido à polêmica que se seguiu sobre esse ponto específico: o contrato previa o pagamento de 20 mil reais a Débora. Um belo dinheiro – lembrem-se de que o episódio é de 13 anos atrás. Suficiente para comprar em 1997 dois automóveis médios, ou mesmo pagar parte de uma casa em Teodoro Sampaio.

Recebido o contrato, no começo de abril, estávamos num ano tão movimentado que a feitura do ensaio acabou sendo adiada, adiada…

Editores reportando em Buenos Aires, na Europa, nos EUA…

Àquela altura, já estávamos profundamente voltados para a necessidade de assegurar uma estrela de grande apelo para a edição de 22º aniversário, em agosto – com o detalhe de que a revista de agosto deveria estar pronta na Gráfica da Editora Abril entre o final de junho e o começo de julho.

Eu, pessoalmente, iniciara os primeiros contatos com Marisa Orth, excelente atriz de teatro, cinema e TV mas cuja imensa popularidade decorria sobretudo da burralda personagem Magda, do humorístico dominical Sai de Baixo, da Rede Globo. (Marisa seria, efetivamente, a protagonista da edição de aniversário, com enorme vendagem nas bancas, como contarei em futuro post).

A Redação estava a pleno vapor. Só para citar alguns casos: o editor Ricardo Castilho, entre outras tarefas, preparava dezenas de milhares de questionários que seriam enviados a professores de todo o Brasil para municiar o hoje extinto Ranking Playboy das Melhores Faculdades do Brasil, elogiado pelo ministro da Educação, Paulo Renato, como o mais completo instrumento de avaliação do ensino superior antes da criação do Provão.

O editor Nirlando Beirão, que acabara de voltar de Buenos Aires com um nutrido perfil do estrambótico presidente argentino Carlos Menem embarcara para a Europa, onde retrataria as delícias do principado de Mônaco. O editor Marcos Emílio Gomes estava nos Estados Unidos cuidando de três reportagens – uma delas, a história de um brasileiro que aguardava execução no corredor da morte de uma penitenciária na Flórida. E por aí vai.

O vazamento da assinatura do contrato com Débora, e também dos valores, se deu justamente porque demoramos a produzir o ensaio com a integrante do MST, e ocorreu exatamente no mês de agosto, com a revista trazendo Marisa Orth na capa já nas bancas e, graças a Deus, vendendo barbaridade.

Stedile: “prejudicial para a imagem do movimento”

João Pedro Stedile: “prejudicial para a imagem do movimento”

Falaram Stedile, Thereza Collor, Danielle Winits…

Ao explodir na mídia, veio a público todo tipo de reação. Curiosa acabariam sendo as diferentes posturas dos sisudos, enfezados dirigentes do MST. João Pedro Stedile, o líder nacional, deixou momentaneamente o planejamento de invasões de fazendas para considerar “prejudicial para a imagem do movimento” que Débora posasse para Playboy.

Segundo Stedile, se o ensaio fosse associado ao MST – um delírio absoluto numa revista que se pretendia elegante e sofisticada como Playboy, e que não passava pela cabeça de ninguém na redação –, afetaria “moralmente” o movimento. Outro chefão dos sem-terra, Gilmar Mauro, amenizou. “Ela não faz parte da direção e não nos cabe julgar suas decisões pessoais”, disse, acrescentando que o MST não era formado por “anjos”.

José Rainha Júnior, talvez até por conhecer Débora pessoalmente, deu um passo adiante. Considerou um “absurdo” a hipótese de se aplicar alguma punição à integrante do MST por causa das fotos. Jurando não ser um “consumidor freqüente” da revista, entregou os pontos: “Nesse caso, por curiosidade, vou ver, sim”.

Celebridades variadas, procuradas pela mídia, entraram no caso. A bela Thereza Collor, esclarecendo não ter “nada contra” a disposição de Débora, opinou, não obstante, que um ensaio de nu poderia impactar o movimento que ela integrava. Norma Bengell, a primeira atriz a aparecer em cenas de nu frontal no cinema brasileiro, no célebre filme Os Cafajestes (1962), lembrou: “O corpo é dela, ela faz o que achar que deve”.

A atriz Danielle Winits também apoiou Débora, assegurou ter recusado um convite da revista – que não houve, só viria muito depois – e considerou “baixo” o cachê acertado. Marta Suplicy, por conta própria, num programa de rádio em que comentava temas da mulher, fez coro sobre o tema “cachê baixo” – que deixara felicíssima a principal interessada, Débora –, falando em “exploração”.

Norma Bengell : “O corpo é dela, ela faz o que achar que deve”, disse a atriz

Norma Bengell : “O corpo é dela, ela faz o que achar que deve”, disse a atriz

Chegam o deputado e seu bigodaço

Tanto se avolumou o falatório que a própria Débora houve por bem querer renegociar o valor do contrato. Por indicação da turma do MST, apareceu para representá-la o deputado federal do PT paulista e advogado Luiz Eduardo Greenhalgh. Combinamos um encontro na redação e, lá pelas tantas, surge o deputado, com seu formidável bigodaço.

Greenhalgh me conhecia há muitos anos. Não éramos próximos, mas tínhamos amigos comuns, freqüentamos as mesmas pessoas e as mesmas festas durante um bom período, quando jovens. Seu apelido brincalhão entre os amigos, ainda me lembro, era “Pirata”. Mesmo assim, ele me tratou com impessoalidade, e a desconfiança de quem lida com um potencial explorador dos pobres e oprimidos.

Além de querer elevar as cifras, exigiu – como se fosse necessário – que nenhum símbolo do MST aparecesse no ensaio. E complementou com a obrigatoriedade de que a moça aprovasse as fotos antes de sua publicação.

Não tive maiores problemas com os três temas.

A fama instantânea de Débora justificava uma melhoria na remuneração, que passou a ser de uma parte fixa bem superior aos anteriores 20 mil, e uma parte variável, que consistia em lhe pagar um xis por exemplar vendido acima de 200 mil exemplares, um xis adicional se as vendas ultrapassassem 300 mil e assim por diante. Algo semelhante, com valores bem inferiores, ao que propus a Vera Fischer, em post já publicado neste blog.

Quanto aos símbolos do MST, bem, o que queríamos era transformar Débora em uma deusa, com lingerie e jóias refinadas, fotografada num belo cenário. (Para que se tenha idéia de como foi, no ensaio, Ariani utilizou, entre outras peças, fina lingerie La Perla, uma camisa de seda de Alexandre Hercovitch e jóias H. Stern).

Finalmente, a aprovação das fotos, com cópia assinada uma a uma pela contratada, era uma rotina em se tratando de estrelas, algo que Débora já se tornara. Nenhum problema.

Luiz Eduardo Greenhalgh: renegociando o contrato em nome de Débora

Luiz Eduardo Greenhalgh: renegociando o contrato em nome de Débora

O cerdo da mídia, até com helicóptero

Feito o acerto, que estabelecia adicionalmente a confidencialidade dos detalhes financeiros, lá se foi, todo satisfeito, o deputado, que dias depois, porém, revelaria em entrevistas detalhes sobre a participação de Débora nas vendas.

Com a enorme repercussão do caso Débora, resolvemos, é claro, produzir imediatamente o ensaio, que estamparia a capa de outubro. (A de setembro já estava na gráfica). Trazida a São Paulo para preparativos num salão de beleza, Débora voltou à redação, quando finalmente a conheci. Devo testemunhar que, das dezenas de estrelas e algumas dezenas de modelos não tão conhecidas com quem tive contato em cinco anos dirigindo a revista, Débora, pessoalmente, foi de longe uma das mais bonitas que conheci.

A despeito da vida dura que levara, era uma típica, genuína beleza brasileira, de pernas grossas, nádegas salientes e um rosto bonito e marcante, emoldurado por cabelos castanhos. Ostentava também um sorriso agradável e uma covinha no queixo. Com outros integrantes da equipe, a levamos para almoçar num restaurante espanhol próximo, situado no conjunto do World Trade Center.

No dia seguinte começaria o trabalho do fotógrafo Thomas Susemihl e do time constituído por Ariani,  a produtora Silvia Costanti, o cabelereiro Kaká Moraes e o maquiador Lili.

O cerco da mídia a Débora e à equipe da revista tornou a feitura das fotos uma proeza. De nada adiantou o sigilo sobre a escolha do cenário para as fotos — a praia de Camburi, no paradisíaco litoral norte de São Paulo, a 170 quilômetros da capital.

Equipes de TV montaram plantão na porta do prédio onde Débora se hospedava, outros jornalistas descobriram o endereço de Ariani, o Vectra alugado por Ariani e onde viajavam Débora, Silvia, Kaká e Lili foi seguido no trânsito quando buscava o litoral e, mesmo tendo ela conseguido despistar os perseguidores, a casa alugada por Playboy em Camburi acabou sendo acossada por dezenas de profissionais de imprensa — até helicópteros de TV rondavam. “Tinha gente atrás de moitas, subindo muros, e Débora a certa altura não se sentia mais à vontade sem roupa”, recorda Ariani.

É claro que o primeiro dia de trabalho, interrompido por uma entrevista coletiva de Débora, que foi também filmada e fotografada pela mídia, rendeu pouco. No dia seguinte, a imprensa parcialmente saciada, quem não ajudou foi São Pedro: o tempo fechou…

Escapando disfarçada para a Bahia

A equipe decidiu mudar de rumo e, correndo contra o relógio e com minha autorização, rumou para a Praia de Imbassaí, 60 quilômetros ao norte de Salvador, na Bahia. Os cuidados de Ariani foram tantos que nem mesmo Débora sabia exatamente para onde iria — ela própria pediu para só ser informada do destino quando estivesse dentro do avião. Disfarçada com uma improvável peruca preta cacheada, e maquiada com exagero — o batom fez aumentar a boca, por exemplo –, ela conseguiu passar incógnita pelo Aeroporto de Congonhas.

Na Bahia, enfim, o fotógrafo Thomas Susemihl pôde trabalhar. O ensaio, com a chamada (título) de capa “Finalmente — Débora Rodrigues, a sem-terra mais bonita do Brasil”, ocupou 18 páginas da edição de setembro. As vendas superaram ligeiramente os 400 mil exemplares em bancas, que se somaram a 170 mil assinantes. Todo mundo na Abril vibrou com os resultados, que incluíram excelente faturamento em publicidade. Quanto a mim, acho que a mídia falou tanto em Débora que acabou impedindo números ainda mais altos. Mas não disse nada. Afinal, não havia qualquer motivo para queixas.

Hoje ela é piloto na Fórmula Truck

Ainda mais que o fato de haver estrelado a capa de Playboy mudou muito, e para melhor, a vida de Débora Cristina Rodrigues.

Atualmente, Débora é a única mulher piloto de Fórmula Truck

Ela administrou bem o dinheiro recebido, voltou-se para uma atividade nova — a Fórmula Truck, certame de corrida de caminhões com grande público e forte patrocínio, onde estreou como piloto no ano seguinte, 1998 –, e se casou com um campeão do esporte, o comerciante Renato Martins, fundador da equipe em que corre, a RM competições.

Hoje com 42 anos, Débora vive com o marido, a mãe e os dois filhos numa confortável casa com vasto terreno nos arredores de São Paulo.

Vocês não imaginam a minha alegria ao saber que aquele dia na praia, lendo o Estadão de domingo, além de tudo acabaria nisso.

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