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domingo, 4 de dezembro de 2011

Mais tolerante do que parecia

Dilma e Lupi: bye bye ministro

Tudo indica que a degola de Carlos Lupi não passa de amanhã. Mas a essa altura Dilma Rousseff já deve admitir – senão em público, ou para seus auxiliares diretos, ao menos para ela própria – que errou no timing da demissão.

Dilma quis, com Lupi, seguir um script que ensaiara com Orlando Silva – e que já não dera certo. Ou seja, não entregar a cabeça de um ministro – por mais enrolado que estivesse – por causa de revelações feitas pela imprensa. Lula e aliados insistiam que Dilma devia resistir.

Às favas com a ética e moralidade, mas isso lhe daria, por essa visão, força junto à base governista. O negócio é proteger a base, que lhe retribuirá com o apoio necessário no Congreesso.

Dilma, portanto, já tentara ainda com Orlando guardar a vassoura no armário e deixar o assoalho enlameado. A estratégia não deu certo ali, mas Dilma quis dobrar a aposta com Lupi. “O.K., ele não tem condições de continuar ministro, mas dá para empurrar com a barriga até a reforma ministerial de janeiro”, virou o novo mote.

Imaginou – ou “imaginaram”, ela e os gênios do Planalto – que depois de dúzias de revelações, a fonte dos descalabros secara. Não contava que, neste caso, é só vasculhar o lixo que o cheiro ruim se espalha.

Foi o que aconteceu. A Folha de S. Paulo e outros jornais provaram isso na semana passada. A Comissão de Ética da Presidência supreendeu e fez a permanência de Lupi no governo ficar ainda mais esdrúxula.

Novamente, portanto, não vai dar para segurar um ministro desmoralizado. Mas Dilma sai menor desse rolo todo. Alguns exemplos passados, mostram que sua popularidade não deve ser afetada por isso. A economia, embora em franca desaceleração, caminha razoavelmente bem, mais ainda se o brasileiro olhar o quadro mundial.

O fato de nenhuma dessas vacilações de Dilma grudar na sua imagem não deve causar surpresa. Todo governante que comanda um país com economia em crescimento se beneficia do efeito tefal. Já se dizia isso de FHC, em seu primeiro mandato. Lula foi exemplo inconteste disso em seu governo. Exemplos não faltam.

A marca de uma governante que não tolera conviver com a corrupção, fraudes e malfeitos, no entanto, está virando conversa de marqueteiro.

Por Lauro Jardim

domingo, 30 de outubro de 2011

Mais Dilma, menos Lula

Dilma e Lula: ministério com novas feições

Aviso aos navegantes: o título acima e o texto que se segue nada têm a ver com o recém-descoberto câncer de Lula. De acordo com as primeiras manifestações dos médicos, Lula tem todas as chances de continuar a influenciar (e muito) a vida brasileira.

Referem-se, sim, à uma outra previsão, feita durante a transição entre o antigo e o atual governo. Tantos eram os ministros herdados de Lula por Dilma Rousseff, que Antonio Palocci sintetizou com perfeição aos mais próximos a discussão sobre a influência do ex no futuro governo: “No primeiro ano, será um governo Lula-Dilma. No segundo, um governo Dilma-Lula. No terceiro, será Dilma-Dilma”.

Palocci queria, obviamente, enfatizar que, a medida que o tempo caminhasse, Dilma moldaria o governo mais e mais às suas feições. Muito antes dos três anos previstos por Palocci, o governo começou a ficar com a cara de Dilma. Os escândalos apressaram as coisas – Palocci, aliás, que o diga.

Sob Dilma, a costumeira reforma ministerial feita um ano depois da posse, uma espécie de freio de arrumação que os governantes brasileiros fazem para sacar aqueles que não renderam o esperado, será uma segunda reforma. A primeira já foi feita nos últimos cinco meses, aos trancos e barrancos.

Tem se falado em seis ministros novos. Na verdade, as mexidas foram sete. A conta de meia dúzia subtrai outro ministro que não deu certo: Luiz Sérgio, que (alguém aí se lembra?) ocupou opacamente o cargo que hoje é de Ideli Salvatti e hoje navega num ministério de segunda classe, o da Pesca, com a mesma competência que demonstrou nas Relações Institucionais.

Ter um ministério com a cara de Dilma é importante porque, afinal, quem foi eleito deve nomear seus assessores. Mas não é necessariamente garantia de melhora na administração.

Em alguns casos, sim. Gastão Vieira é um político sob qualquer aspecto que se olhe superior a Pedro Novais – e tem se esforçado, neste primeiro mês como ministro do Turismo em tentar ficar livre do jugo das nomeações da bancada do PMDB na Câmara. Celso Amorim tem tentado entender a Defesa e estreitar relações com os militares. Também tem sido pragmático ao falar pouco – ao contrário do boquirroto antecessor e do que fazia como chanceler.

Outras mexidas de Dilma no tabuleiro não mostraram qualquer resultado. Gleisi Hoffmann é na visão quase unânime de quem trabalha no Palácio do Planalto e dos políticos em geral, tímida demais para a Casa Civil. Ou, como disse, recentemente um senador da base governista numa conversa com um interlocutor:

- Os pezinhos da Gleisi não tocam no chão quando ela senta naquela cadeira de ministra, já reparou? É que a cadeira é grande demais para ela.

Amanhã, assume Aldo Rebelo, com a missão de espanar Ongs e malfeitos que teve um primeiro tempo com Agnelo Queiroz e um segundo tempo com Orlando Silva. Embora, Aldo tenha sudo uma imposição do PCdoB, será mais uma tentativa de Dilma e não alguém, como Orlando Silva, herdado do govenro anterior.

Quando fevereiro vier (mas pode ser antes, se necessário), está previsto a tal reforma ministerial. Devem sair uns cinco ministros. Os ministros-candidatos, como Fernando Haddad; e os ministros-paisagem, como Ana de Hollanda.

No mesmo instante em que Aldo Rebelo assume, Lula inicia o seu tratamento quimioterápico. Mesmo sob tratamento, Lula continuará a operar politicamente. Mas é inegável que, para o bem ou para o mal, o governo Dilma-Dilma começará muito antes do terceiro ano previsto por Palocci na transição do ano passado.

Por Lauro Jardim

domingo, 23 de outubro de 2011

Um morto-vivo no ministério



Orlando Silva: um problemaço

A decisão de Dilma Rousseff de manter no governo um ministro sangrando em praça pública é a opção pela agenda negativa. Desde maio, quando estourou o caso Palocci, Dilma convive com essa agenda – corrupção, malfeitos, escândalos.

A partir daí, com precisão de relógio suíço, caíram os ministros dos Transportes, Agricultura e Turismo (não convém lembrar dos seus nomes aqui, são figuras menores que ocupavam cargos relevantes). Nenhum dos programas de governo de Dilma parecem existir – alguém aí lembra-se que foi lançado o Brasil contra a Miséria?

Pode se argumentar que, apesar de tudo isso, sua popularidade está nos céus. Está, sim. E o motivo é o de sempre: a economia continua relativamente bem (mais ainda em comparação ao resto do mundo) e os níveis de emprego e renda – termômetros fundamentais – mantêm-se em alta. Mas neste primeiro ano de governo, a marca de um ministério fraco, tomado por gente encrencada, se solidificou. E essa fatura pode ser cobrada lá na frente.

Se nos casos anteriores, Dilma trocou Antônio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi e Pedro Novais por ministros que até agora não lhe trouxeram problemas, com Orlando a aposta foi bancá-lo numa prorrogação imprevisível. Isso ocorreu em parte por que seus aliados (de Lula ao PMDB) a criticam por ceder com facilidade “às denúncias da mídia”.

A decisão de Dilma é, portanto, também uma estratégia – ainda que arrriscada – para baixar o fogo da chiadeira da base governista. É uma gente que reclama como se o problema estivesse na faxina e não na sujeira.

A opção de Dilma, portanto, foi a de continuar a ver o Ministério do Esporte nas manchetes e ter Orlando Silva como uma espécie de protagonista moral do governo.

Da cartola do ministério do Esporte já saiu de tudo: fraudes milionárias em convênios com ONGS ligadas ao PCdoB, mulher do ministro recebendo dinheiro público, o Procurador-Geral da República pedindo ao STF que investigue Orlando “por graves irregularidades”, fitas gravadas mostrando cumplicidade entre assessores do ministro e um ongueiro implicado em irregularidades. Já são dezenas de furos no casco. A tendência é sair muito mais coelho desta cartola. E Dilma age como se o número 1 do ministério não tivesse nada a ver com isso.

O que se verá a partir de amanhã, o primeiro dia útil depois que Dilma decidiu manter Orlando, é um ministro do Esporte de perna quebrada tentando exercer suas funções. E tendo que dar novas explicações para revelações de velhos malfeitos.

Por um lado, Orlando Silva estará sendo investigado pela Procuradoria-Geral da República. Por outro, estará tomando decisões sobre a Copa 2014 e a Olimpíada 2016. A solução de tirar de Orlando a caneta para assuntos importantes do ministério só evidenciará sua condição de morto-vivo.

Por Lauro Jardim

domingo, 21 de agosto de 2011

Os afagos aos políticos e a natureza de Dilma

Ao mesmo tempo em que a casa de Wagner Rossi desmoronava, Dilma Rousseff iniciou na semana passada sua primeira e real tentativa de afagar sua base no Congresso. Recebeu em almoços e conversas longas uma turma de goela costumeiramente grande. Líderes do PMDB, PTB, PP, PRB e PT foram ao palácio. Entre os comensais, gente que dias antes a ameaçava com uma emboscada na primeira curva – ou mais precisamente na votação importante para o governo. Os almoços ocorreram justamente por que a rebelião já parecia incontrolável. E, acredite se quiser, Dilma se saiu bem nessas conversas. Todos saíram do palácio falando bem dela. Beleza. Mas quanto tempo durará essa lua de mel?

Dilma saiu-se bem, claro, sob a perspectiva fisiológica. Cumpriu uma agenda pragmática, seguindo o manual que Lula tem lhe passado insistentemente em seus encontros quinzenais. Durante os almoços o fantasma da faxina pareceu-lhes menos assustador.

A própria resistência de Dilma em demitir o já desmoralizado Wagner Rossi ajudou o clima dos encontros – todos sentiram-se protegidos contra a sanha da imprensa que, sabe-se lá com que objetivo, teima em revelar falcatruas e transações suspeitas dos políticos e apadrinhados.

Entre uma garfada e outra, Dilma foi amável (“O governo é nosso, gente. Estamos mudando o Brasil juntos”) e prometeu resolver de uma vez por todas as nomeações pendentes dos partidos. Não deu prazo, mas eles entenderam que em 60 dias estará tudo resolvido. “Vamos acabar logo com isso”, enfatizou.

Como informa um senador que participou de um dos almoços, “Dilma chamou para si a responsabilidade do contato direto com a base”. E repetiu para a tranquilidade de todos o novo mantra: “A imprensa não vai me pautar”. Falou o que todos queriam ouvir. Agradou, enfim. Como reza a etiqueta de momentos assim, Dilma fingiu que sepultou o que de verdade acha dessa turma. Deputados e senadores fizeram o mesmo.

O freio de arrumação da semana passada obrigará Dilma a tentar mudar uma de suas características seminais – ela prefere despachar sobre assuntos técnicos e administrativos, não gosta do bate-papo com políticos. Ou seja, se quiser manter esse clima de afabilidade terá que fazer dos encontros da semana passada algo frequente.

Aliás, um desses almoços durou três horas: imagine-se o sacrifício para Dilma… Terá também que ceder a esses políticos os tais cargos que até agora relutou em mandar para o Diário Oficial.

E, mais difícil, terá que saber calibrar a fome insaciável dos fisiológicos com a moralidade pública e a necessidade de a máquina pública funcionar. No mundo ideal, essa turma deveria receber migalhas; no mundo real tem conseguido fatias gordas.

Enfim, Dilma terá paciência para realizar periodicamente esses encontros? Conseguirá mudar sua personalidade arredia a eles aos 64 anos? Impossível, não é. Mas seria uma transmutação e tanto.

Por Lauro Jardim

domingo, 7 de agosto de 2011

A crise cresce diante de Dilma. Ou melhor, as crises

Foi uma semana longa para Dilma Rousseff, daquelas que não acabam mais. Começou já no sábado de manhã quando VEJA chegou às bancas com a entrevista de Oscar Jucá (“”Ali na Conab só tem bandido”"). Três dias depois, o Senado aprovou uma CPI para investigar as encrencas rodoviárias do governo. E manteve-se em ponto de combustão com as incontinências verbais de Nelson Jobim. Na sexta-feira, a S&P deu um empurrão no pânico econômico global ao cravar que os EUA não são mais um país AAA. Parecia o gran finale. Mas novas revelações de VEJA, publicadas ontem, levaram o número dois do ministériio da Agricultura a pedir demissão. Agora, o imbróglio é no topo de um ministério comandado pelo PMDB – mais do que isso comandado por um dos melhores amigos de Michel Temer, Wagner Rossi.

Tudo isso somado já daria dor de cabeça sufuiciente para Dilma Rousseff. São encrencas dentro do governo, nas suas relações com o Congresso e na economia. Nos próximos dias, Dilma tentará equilibrar-se nesta corda bamba. Não é tarefa para qualquer um. Cada um desses pepinos tem vida própria e tende a continuar a perturbá-la.

No Senado, por exemplo, mal conseguiu sepultar a CPI que investigaria as estrepolias nos Transportes – a um custo sempre grande, pois é obrigatório render-se aos pedidos não republicanos de alguns senadores – Dilma está diante de outro fantasma. Trata-se de uma CPI destinada a investigar o BNDES.

Ou mais precisamente os empréstimos que o BNDES deu nos últimos anos para criar os chamados ‘campeões nacionais’ e as obras das grandes empreiteiras em cerca de 40 países latinoamericano e na África. Este pedido de CPI já conta com 22 das 27 assinaturas necessárias para sua instalação. Quem conhece a alma do Senado avalia que as assinaturas que faltam devem aparecer nos próximos dias.

Se essa CPI irá nascer de fato dependerá da capacidade do governo em negociar. Os heterodoxos senadores só retirarão seus nomes dali se receberem algo em troca. Em resumo, num Senado onde tem, em tese, maioria folgada, o governo está tendo que ceder mais do que devia.

E olha que já cedeu na semana passada, quando autorizou o pagamento de 150 milhões de reais em emendas parlamentares de deputados e senadores. Cedeu também, desta vez sem alarde, nos Transportes: uma comissão de altíssimo nível, composta dos senadores Magno Malta, Clésio Andrade e Blairo Maggi está acertando nomeações para o , veja só, Ministério dos Transportes. O mesmo que acabou de passar por meia faxina. Dilma corre o risco de em breve precisar de mandar comprar mais desinfetante.

Tudo isso acontece em meio a um cenário global de crise. Ninguém pode precisar ao certo como o mundo amanhecerá na segunda-feira, o primeiro dias útil pós-rebaixamento dos EUA e com a possibilidade do contágio da gripe europeia chegar a França e a Inglaterra. O que se sabe com certeza é que Dilma será obrigada a dividir seu tempo entre diminuir a chama da crise no governo, no Congresso e na economia.

Na quarta-feira, será divulgada a pesquisa CNI/Ibope. Como foi feita há duas semanas, num ambiente muito mais calmo e logo depois de o IBGE anunciar uma taxa recorde de empregos e a renda do trabalhador em alta, o resultado será um bálsamo para Dilma. Sua popularidade subirá em relação ao que foi registrado no final de março pela mesma CNI/Ibope. O governo poderá até marquetear esses números. Mas sabe que são percentuais que retratam outra realidade.

O quanto tudo isso já paralisa a máquina governamental não se sabe. É cedo para medir a extensão de tanta confusão. Não é pouca coisa mudar o ministro da Casa Civil, o de Articulação Instituciional, de Transportes e o da Defesa em apenas sete meses de governo (Por generosidade, não entra nesta conta a troca no inútil ministério da Pesca). Mas não é difícil se prever mais uma semana longa, daquelas que parecem não acabar mais para Dilma.

Por Lauro Jardim

domingo, 10 de julho de 2011

O depoimento de Pagot e o estilo Dilma

Será que na terça-feira Luiz Antonio Pagot em seu depoimento no Senado vai cumprir a ameaça e botar o PT na roda? Vai detalhar o que lançou no ar sobre o ministro Paulo Bernardo, que durante a campanha seria o inspirador ou teria “trabalhado em conjunto” com o Dnit nos aditivos para várias obras?

Pela quantidade de emissários que tem circulado em Brasília com o objetivo de baixar a bola de Pagot, o mais provável é que seja um depoimento chocho. Ou seja, não deve avançar mais do que já avançou nas entrevistas dos últimos dias. Não é todo dia que aparece um Roberto Jefferson para explodir-se e explodir esquemas bem armados.

Para além do depoimento de Pagot e da escolha do novo dono da cadeira de ministro dos Transportes, há uma outra questão que excita Brasília: o estilo Dilma. Ele voltou à cena nos episódios da semana passada. Mais do que a demissão de Antonio Palocci, a queda de Alfredo Nascimento e da quadrilha da pesada do ministério dos Transportes deixou inquieta a base do governo no Congresso.

A rapidez do desfecho da crise rompeu, como diz em tom crítico e reservadamente um senador governista, “com as regras básicas da convivência política”. Ele fala da particular etiqueta política a que o mundo de Brasília se acostumou.

Dilma, fique claro, não está chutando o pau da barraca. Mantém suas alianças com partidos 100% fisiológicos. Dá a eles cargos e algum poder. Pragmaticamente, os aceita em troca da governabilidade. Mas, também é verdade, atuou na semana passada num diapasão diferente sobretudo do que foi o padrão da era Lula.

Um político nordestino, dono de um (bom) cargo tanto no governo Lula como no atual, resume à perfeição o sentimento da turma:

- O Lula passava a mão na cabeça do encrencado e o segurava até onde dava. Só quando não dava mais para segurar o demitia. Dessa forma, ficávamos de algum modo grato a ele. Com a Dilma instituiu-se o “publicou na revista, foi para rua”. Não pode ser assim. Está todo mundo tenso.

E qual é o problema? O mesmo político nem espera a pergunta. Não em tom de ameaça (embora seja), mas de aviso, saca rápido um conselho :

- Tem que ter cuidado com a base parlamentar.

É esse o jogo delicado em que Dilma está se metendo. Em suas reuniões fechadas e nas conversas reservadas com jornalistas, a tal base parlamentar do governo tem desenhado um fantasma: o troco, um cascudo no governo numa votação importante na volta do recesso parlamentar de julho.

Ressalte-se que ninguém aqui imagina que Dilma Rousseff esteja querendo botar os maus costumes políticos dos partidos da base porta afora. Até porque eles pululam dentro de sua própria casa, ou seja no PT, como qualquer mensaleiro e aloprado está cansado de saber.

Dilma não está, portanto, como disse outro dia um afoito e exagerado senador, querendo lançar as bases para uma “nova maneira de fazer política”. Talvez ela queira apenas dar um freio de arrumação para diminuir um pouco o grau de fisiologismo e corrupção geral. Ou, numa palavra, livrar-se de parte da herança maldita que Lula deixou como herança.

Por Lauro Jardim

domingo, 3 de julho de 2011

Se o BNDES cumprir a palavra, Abílio pode perder o negócio


A atabalhoada entrada em cena da operação Pão de Açúcar-Carrefour completa uma semana amanhã com uma agenda delicada para Abíllio Diniz – a reunião entre o Casino e o BNDES, ou mais precisamente entre o presidente Luciano Coutinho e o presidente e controlador do Casino, Jean Charles Naouri. Tem tudo para ser o pior momento da guerra de Abílio até aqui.

Um “pior momento” que concorre com outras derrapadas de Abílio nesta disputa. Entre as várias, seguem três emblemáticas:

*A revelação de que já negociava com o Carrefour sem sequer avisar o Casino, seu sócio e principal concorrente do Carrefour;

*A artilharia que vem sofrendo por requerer dinheiro do BNDES para o negócio;

*A tentativa de fazer da fusão um negócio bom bom para o Brasil acima de tudo.

Além disso tudo Abílio perdeu a batalha da mídia. O noticiário está francamente negativo para ele e para sua oferta. Sobrou também para o governo, cujos ministros tentaram em vão explicar o negócio com argumentos frágeis.

No encontro de amanhã na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, Coutinho repetirá o que o BNDES disse em nota oficial na sexta-feira: só dará os 3,9 bilhões de reais para Abílio se o Casino fizer um acordo amigável com o Pão de Açúcar. Mais do que uma declaração formal, o comunicado de duas linhas é um xeque-mate no Pão de Açúcar.

Abílio preparou-se para brigar, contratou um batalhão de advogados e está respondendo de modo feroz à acusação do Casino de que a proposta é uma quebra de contrato. Mas o que o BNDES disse na curta nota oficial bota o jogo agora nas mãos do Casino.

Se Jean Charles Naouri simplesmente disser que não topa nem conversar sobre a proposta, au revoir Abílio e suas pretensões. Se o comunicado do BNDES for seguido ao pé da letra, é exatamente isso que pode acontecer. E neste caso não adianta Abílio ter advogados e argumentos econômicos pró-fusão (e eles existem. São um dos poucos pontos incontestáveis de todo esse imbróglio).

Nouri pode também passar a pedir do BNDES, ou melhor, exigir, mudanças na oferta de Abílio. Que tipo de alterações? Não se sabe. Até porque o Casino, pelo contrato que assinou com o Pão de Açúcar em 2005, passa a ser o controlador da empresa dentro de seis meses. Então, pelo menos em tese, o próprio Casino mesmo poderia propor esse negócio ao Carrefour em 2012. Não precisaria ficar a reboque de Abílio.

Por Lauro Jardim

domingo, 12 de junho de 2011

O novo jogo de Dilma

Dilma Rousseff reembaralhou as cartas do seu governo, botou um novo jogo na mesa. Só que os outros jogadores (e os brasileiros) ainda não sabem o que ela fará com as cartas que ainda têm nas mãos. A partir de amanhã, Dilma terá obrigatoriamente que preencher não só cargos que os sempre esfomeados aliados reclamam, mas as expectativas criadas por sua atuação na crise que abateu o governo há um mês.

Há nos bastidores uma ofensiva entre os fieis aliados de Dilma (sim, eles existem). A ideia central é convencer os formadores de opinião e a diminuta parcela da população que lê jornais que Dilma retomou as rédeas do governo, deu um chega para lá em petistas e peemedebistas afoitos e até em Lula.

Faz parte também desse trabalho calculado insistir também que Dilma tem gosto, sim, pela política – não pela política miúda, da conversinha ao pé do ouvido com políticos, mas pela estratégia política. Invariavelmente, como se a história se repetisse, lembram também que o governo Lula só ganhou seu rosto definitivo depois das crises que levaram o ex-trio todo-poderoso formado por Antonio Palocci, José Dirceu e Luiz Gushiken à lona. O renascimento de Dilma, por essa visão chapa-branca, estaria garantido como que por encanto.

No mundo real, as coisas não são exatamente assim. Em primeiro lugar, se é verdade que Dilma Rousseff bancou, sim, duas ministras importantes contra a vontade de petistas e peemedebistas, é verdade também que todos eles estão contrariados. Esqueça, portanto, o que 90% dos políticos dizem em público sobre a “boa escolha” que Dilma fez ao nomear Gleisi Hoffman e Ideli Salvatti. Nas conversas entre eles, o tom é de choradeira e ameaça. O PMDB não está em paz com o governo. Parte expressiva do PT também não. Profissionais que são, esperam um vácuo para tentar enquadrá-la.

Assim como fizeram na votação do Código Florestal, terão boas oportunidades para dar os seus recados. Se determinadas nomeações não saírem, se a conversa com o Planalto não fluir como querem, o troco aparecerá. No Senado, por exemplo. Uma rejeição ao nome de Henrique Meirelles na votação para aprovar o seu nome para o posto de Autoridade Pública Olímpica é sempre o exemplo dado por essa turma.

As consequências da atuação de Lula daqui para frente são uma incógnita. O palestante número um do Brasil baixou um pouco a crista para efeito externo. Já sabe seus arroubos por holofotes e por roubar a cena devem ser contidos diante do público. Mas apenas diante do público. Não abre mão, contudo, de “ajudar” Dilma nos bastidores. Continua se metendo no governo em conversas reservadas. Será sempre uma sombra. Está encarnado nesse papel para o qual se auto-escalou – até por que odiou os primeiros 90 dias pós-governo. Não se adaptou definitivamente à vida na planície.

Este é um ponto relevante. Todo o discurso dos dilmistas nos últimos dias têm sido na linha da retomada da autoridade da presidente – afinal, Dilma mandou Antonio Palocci para o espaço, levou Gleisi Hoffman para o seu lado a despeito do que queria Lula. Ele, por sua vez, quer continuar “ajudando” o governo. Dependendo da calibragem, essa “ajuda” vira “tutela”. Mais à frente, numa outra crise, como repetir esse discurso da retomada da autoridade novamente?

Por Lauro Jardim

domingo, 29 de maio de 2011

O segundo governo Dilma


Começa amanhã um novo governo Dilma Rousseff. O primeiro iniciou-se no dia 1º de janeiro e terminou há duas semanas quando a Folha de S. Paulo revelou o lado superconsultor de Antonio Palocci. Depois de duas semanas nervosas, de intervenções extemporâneas de Lula e paralisia geral no Palácio do Planalto, Dilma Rousseff posará amanhã sorridente (conseguirá mesmo?) ao lado de Michel Temer, pouco antes de embarcar para uma viagem rápida para o Uruguai. Na quarta-feira, almoça com os senadores peemedebistas. Um dia depois, repete a dose com a bancada do PTB.

Logo ela, que sempre preferiu almoçar no máximo ao lado de Palocci conversando sobre assuntos administrativos. Agora, terá que, sem dar chance para a indigestão, engolir uma dieta gordurosa com peemedebistas e petebistas à mesa. Todos eles com muita fome. Assim como, nunca se deve esquecer nem menosprezar, terá que domar os próprios parlamentares petistas que hoje, quase que unanimemente, a criticam pelas costas.

Dilma Rousseff tentará, assim, fazer algo que não gosta e, até aqui, revelou não ter aptidão: política. Tentará tomar as rédeas do governo agora que teve o seu principal articulador político baleado e viu, a contragosto, a entrada em cena triunfal de Lula na semana passada.

O governo Dilma da forma como se viu nos seus cinco primeiros meses, portanto, acabou no Caso Palocci. A nova fase inicia-se com alguma dose de descrença dos políticos que mandam de fato em Brasília e – pior para Dilma – sem aqueles cem dias de lua de mel e poucas cobranças a que todo governo tem direito no início. Dilma já começa essa sua segunda encarnação no olho do furacão.

Além dos desafios naturais de todos os governos, o mais urgente para ela é afirmar-se como chefe política. Lula, com sua aparição pirotécnica da semana passada, teve o poder de desidratar Dilma e diminuí-la. Ela passou em poucos dias de presidente a, de novo, gerente. Lula tirou-lhe a autoridade. Se sua intenção foi a de fazer polítiicos e população em geral crerem que ela não sabe governar sozinha, o resultado foi alcançado. Quem a conhece sabe o quanto isso a incomodou.

Dilma foi menos presidente nos últimos dias. A partir das reuniões desta semana tentará restaurar a autoridade arranhada. Não é tarefa fácil. Sobretudo por que terá que lidar na verdade com duas crises, a de Palocci e a do próprio governo. A crise Palocci, no limite, poderia acabar com sua demissão do governo. A outra, no entanto, não se resolve tão fácil.

Por Lauro Jardim

domingo, 22 de maio de 2011

O PSDB antes da guerra

A menos de uma semana da convenção nacional do PSDB, que se realizará no sábado que vem, o clima entre aecistas e serristas é o pior possível. Os tucanos brigam por tudo. Enquanto o nascente governo Dilma passa pela sua pior crise até aqui, com o seu virtual primeiro-ministro nu (mas rico) em praça pública, o PSDB se consome. Que tipo de entendimento os tucanos podem alcançar até o dia 28?

Nos últimos dias, Aécio Neves e sua turma deixaram patente que vão para convenção para tomar conta do partido. Aparentemente, têm votos de sobra para fazê-lo. A questão, porém, é como fazê-lo sem humilhar José Serra. Não é uma equação simples.

Os serristas reivindicaram, inicialmente, a presidência do partido. Não tiveram cacife. Desistiram. Foi o início da fricção neste processo que se arrasta desde o final do ano passado. Agora, os serristas ainda insistem em ficar com a importante secretaria-geral, onde alojariam Alberto Goldman. Os aecistas não abrem mão de manter o mineiro Rodrigo Castro no posto. No início da semana passada, Geraldo Alckimin lançou o nome de Serra para presidir o Instituto Teotônio Vilella. Numa manobra rápida, Sérgio Guerra lembrou que para o centro de pesquisas e estudos tucano o nome teria que ser o de Tasso Jereissati. Alckmin recuou e não se falou mais nisso.

Nenhum dos dois lados negociou de fato até agora. Aliás, registre-se que Aécio Neves e José Serra não tiveram uma mísera conversa a sós desde o fim do processo eleitoral do ano passado. Isso dá bem uma medida de como anda o clima entre os dois. Neste jogo de xadrez, FHC tem feito cara de paisagem. É uma postura que evidentemente não favorece José Serra.

Aécio pretende tomar conta do PSDB agora. Tem jogado até aqui mostrando que não quer abrir mão de nada de relevante no partido. O PSDB estaria, assim, definindo com três anos de antecedência seu candidato a presidência. É um passo importante, mas que não tem o poder de mandar Serra para o espaço. Serra pensa de fato numa terceria chance em 2014. E será sempre uma sombra poderosa para as ambições de Aécio. É só encomendar uma pesquisa de opinião pública nacional que isso será constatado.

Pela estratégia do grupo de Aécio a ideia é esticar a corda ao máximo e sentar-se à mesa de conversas na última hora. Em resumo, primeiro mostraram força. Depois, com o adversário enfraquecido, negocia-se. Ou seja, lá pelo meio da semana, por essa estratégia, abrirão-se as possibilidades reais de negociação.

Aí, sim, oferecerão alguns cargos como moeda de troca. Para Alberto Goldman estaria reservada a primeira vice-presidência. Outro serrista ficaria no comando da primeira-secretaria. Pensa-se também em ressuscitar uma ideia que circulou nas últimas semanas – a criação de um conselho político integrado pelas cabeças coroadas do partido: Aécio, Serra, Tasso, Sergio Guerra e, claro, FHC. Serra rechaça essa solução. Desdenha o conselho.

Ainda assim, nos próximos dias a posisbilidade voltará a ser discutida. Será levantada, claro, pelos aecistas. Estes são, pelo menos, os planos da turma do Aécio. É com essa linha e essa agulha que Aécio Neves tentará costurar um acordo. O maior desafio é fazê-lo sem esgarçar de vez o fino tecido que ainda une o partido.

Por Lauro Jardim

domingo, 27 de março de 2011

O que o governo quer da Vale

Nos últimos meses, dois pesos-pesados se movimentaram nas arenas mais poderosas do país. Se os dois pudessem ser resumidos com palavras de ordem, um levantaria a bandeira “pede para sair, Roger”; e o outro estenderia a faixa “tire as mãos da Vale”. Não é preciso entender de minério de ferro para perceber que no primeiro time joga o governo. E do outro lado estão Roger Agnelli e os que consideram a interferência do governo na sucessão da Vale um retrocesso inacreditável – o que, de fato, é.

Agnelli mobilizou aliados e trabalhou intensamente nos bastidores. Só que lutas contra governos costumam ser inglórias – sobretudo na área econômica. Por isso, nos últimos dias deu-se o desfecho previsível de uma fritura que começou há quase dois anos, mas que se tornou uma decisão de governo no final do ano passado, após Dilma Rousseff vencer a eleição.

Desde então, quem conversasse com os ministros e com os comandantes de fundos de pensão ouviria, sob a condição do anonimato, o seguinte mantra: a decisão está tomada, mas só será executada quando o contrato de Agnelli vencer, em maio.

O objetivo era disfarçar o indisfarçável. Ou seja, que o governo resolveu decidir o destino (e os investimentos) da maior empresa privada brasileira – a essa altura, aliás, o adjetivo “privada” ficaria melhor emoldurado com as devidas aspas.

O Bradesco, afinal o sócio privado mais relevante e berço de Roger Agnelli, foi avisado ainda no final do ano passado da intenção do governo. Mais de uma conversa foi realizada na sede do banco.

Ministros e presidentes de fundos de pensão lá estiveram com o trio que manda no banco, segundo reza a lenda: o “Lázaro”, o “Mello e o “Brandão”. Já há algum tempo o Bradesco concordara com o pedido do governo – afinal “pedido” de governos costuma ser ordem. Lázaro de Mello Brandão tinha e tem uma relação forte com Agnelli, que em dez anos de Vale só tem números portentosos para apresentar. Em situação normal de temperatura e pressão, preferiria que Agnelli ficasse onde está. O Agnelli que Brandão queria na Vale, porém, era o que exibisse lucros espetaculares e cultivasse boa relação com o governo. Agnelli, contudo, só conseguia encher a metade do copo.

Como o nome do sucessor não aparecia, Agnelli se movimentava como podia para ficar. Nem sempre da melhor maneira. Botou em risco até sua justa fama de bom administrador e executivo devotado ao lucro e ao mercado. Por exemplo quando topou descascar um abacaxi para o governo e dizer que participaria da bilionária construção da usina de Belo Monte, em substituição ao grupo Bertin, que morreu na praia.

Os últimos dias foram mais dramáticos. Desde segunda-feira, quando O Estado de S. Paulo estampou em sua primeira página uma reunião ocorrida três dias antes entre Guido Mantega e Lázaro de Mello Brandão, a guerra da sucessão ganhou contornos mais nervosos. Agnelli ainda trabalhou ferozmente para manter-se na cadeira.

Mobilizou todo mundo que podia. De petistas graduados a tucanos idem. Procurou Lula em busca de apoio. Foi a FHC que, por exemplo, chegou a dar um telefonema para Brandão no meio da semana. No meio da semana, esteve na sede da Previ. Relatou a Ricardo Flores, presidente do fundo, o processo de fritura. Reclamou muito. Agnelli só jogou a toalha mesmo na manhã de sexta-feira.

Nas mãos do governo, a Vale deverá ser outra Vale. Até por que só faria sentido tomar a Vale para si se for para usá-la de acordo com algumas receitas muito próprias. Para Dilma, “um empresário tem papel no desenvolvimento do país e não pode deixar de investir em algo importante só porque outro negócio é mais lucrativo para ele”.

Há alguns anos, Lula levou Agnelli a loucura ao insistir que a Vale investisse pesado na área siderúrgica. Na quinta-feira passada, no Planalto, durante uma reunião com líderes governistas no Congresso, Dilma disse textualmente, de acordo com um senador que lá estava: “Não dá mais para ficar exportando minério de ferro para a China e importar aço deles”.

Não resta dúvida, portanto, que esses investimentos siderúrgicos serão intensificados. Assim como parece claro que a Vale passará a investir em alguns megaprojetos de interesse do governo – como fazem os grandes fundos de pensão estatais e a Petrobras. Aliás, num exercício de projeção conservador pode-se olhar para a Petrobras da era petista e enxergar o que será a “nova” Vale daqui a alguns anos – uma empresa alinhada com o governo.

Por Lauro Jardim

domingo, 13 de março de 2011

Agnelli cuida de tributos e do pescoço

Roger Agnelli desembarca amanhã em Brasília para uma conversa desagradável com o governo. Vai reunir-se com o ministro Edison Lobão para tentar desenrolar uma megapendência de 4 bilhões de reais. Trata-se de uma dívida relativa aos impostos sobre mineração que o governo acha que lhe é devida e a Vale considera uma injustificável sanha governista por tributos.

Por causa da bilionária dívida, a conversa teria relevância em qualquer situação. Ganha, no entanto, um sabor especial por que acontece em plena guerra pela sucessão na Vale.

O novo confronto surge no momento em que Agnelli parecia ter saído das cordas, depois de meses tomando pancadas dadas por uma ala poderosa do governo.

Agnelli foi à luta nos últimos meses. Tratou de embalar um pacote de bondades sob medida para o governo. Prometeu entrar (e reservou alguns bilhões de reais para tanto) no consórcio que constrói Belo Monte para suprir a desistência da Bertin. Uma mãozinha de ouro que nenhum governo esquece – pelo menos é o que a Vale deve pensar. Reforçou seus investimentos no setor de fertilizantes, outra opção estratégica que o governo vê com ótimos olhos. Anunciou novas siderúrgicas, algo que desde Lula o governo cobra de Agnelli.

O atrito dos impostos surge, portanto, para lançá-lo novamente na berlinda. Nunca é demais repetir que o governo não deveria meter sua mão grande na Vale, uma empresa privada e altamente lucrativa. Mas no mundo real, a coisa não funciona assim. A Previ e o BNDES integram o grupo de controle da Vale. E ambos têm delegação do governo para procurar (fazendo o menor burburinho possível) um substituto para Agnelli.

O que o Bradesco e a japonesa Mistsui, também  grupo de controle da Vale,  pensam dessa articulação? Os japoneses preferem continuar com Agnelli, mas não se oporão a um novo nome se assim os seus sócios decidirem.

O Bradesco - origem, aliás, de Agnelli - não foi protagonista de qualquer movimento pela sua substituição. O que não significa que esteja alheio à discussão. Seu alto comando já conversou diversas vezes sobre o tema com gente do governo. Nunca se chegou a qualquer nome. Vários foram citados. Nenhum foi levado adiante como opção.

Defensores de Agnelli argumentam que o executivo dá ao Bradesco (e a todos os acionistas) lucro, muito lucro. Foram espetaculares 30 bilhões de reais em 2010.  Seria esta sua missão principal. Beleza. Não é o bastante, no entanto, nem para o governo e nem para o próprio Bradesco.

Para o Bradesco porque, no final das contas, o melhor executivo para a Vale será sempre aquele que leve a empresa a ótimos resultados (ponto para Agnelli) e não tenha problemas de qualquer espécie com o governo (ponto para os seus adversários). Não é satisfatório para nenhum grande banco qualquer atrito com governos.

Para o governo a alta lucratividade também não é o suficiente porque Dilma Rousseff trabalha com a ideia (assim como Lula trabalhava) de que a Vale é um patrimônio do país e que deve pensar antes no desenvolvimento do Brasil do que na rentabilidade. Disse, por exemplo, Dilma a um interlocutor no ano passado, durante um almoço privado: “Um empresário tem papel no desenvolvimento do país e não pode deixar de investir em algo importante só porque outro negócio é mais lucrativo para ele”.

E então, Agnelli cai ou não cai? Ninguém tem hoje essa resposta. Só o fato de não se tê-la, todavia, dá mostras do estado de tensão que vive o homem que dirige a Vale há dez anos. Amanhã, novamente ele desembarca em Brasília para escrever mais um capítulo de sua luta pela permanência no comando da maior empresa privada brasileira. Numa palavra, Agnelli vai ao Planalto Central cuidar de tributos e do próprio pescoço.

Por Lauro Jardim

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A briga pelos direitos do Brasileirão: os próximos passos

A novela da disputa pelos direitos de transmissão dos Brasileirões de 2012 a 2014 terá capítulos eletrizantes já no início desta semana.

Nos próximos dias, a Globo começa a negociar com cada um dos vinte clubes que integram o esfacelado Clube dos 13 – e com mais alguns times hoje na Segunda Divisão, mas que poderão subir no campeonato do ano que vem.

A negociação é a consequência mais direta da brigalhada que estava latente nos últimos meses, mas que eclodiu espetacularmente somente na semana passada. Não se trata de uma querela qualquer.

Mobiliza duas paixões dos brasileiros – os times de futebol e as duas emissoras de TV do país. E envolve valores bilionários: tanto no montante a ser pago por emissoras, operadoras de telefonia e portais pelos direitos de transmissão, quanto nos patrocínios que as grandes empresas passaram a despejar de forma crescente nos clubes de futebol nos últimos anos.

A partir de amanhã, os negociadores da família Marinho – Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esporte à frente – começam a se reunir com os presidentes de todos os vinte clubes que compõem o Clube dos 13. Vão pôr em prática a estratégia definida na quinta-feira passada, numa reunião que só terminou na madrugada seguinte.

Partirão para o ataque imaginando flechar pelo menos quinze dos vinte clubes que integram o Clube dos 13. Os de maior torcida são escancaradamente simpáticos à Globo que, aliás, jogou de forma inédita para seduzi-los. Até Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo, se meteu diretamente no tema: chegou a falar ele mesmo com Patrícia Amorim, presidente do Flamengo.

O que a Globo vai propor, além de mais dinheiro do que paga hoje, é o estreitamento do que chama de parceria entre a emissora e os clubes. E que essa parceria já dura mais de uma década.

Vai lembrá-los que sua audiência é quase três vezes maior do que a da Record, portanto, frequentar a programação da emissora é mais negócio para os clubes em termos de imagem e exposição. É um argumento que sensibiliza os clubes. Enfim, a emissora vai apelar para o “em time que está ganhando não se mexe”.

Afinal, quem vai vencer esse cabo-de-guerra? O Clube dos 13 imagina que, o temporal tende a cessar agora que o edital está nas ruas, embora a Globo não vá participar (o que não é pouca coisa).

Os dirigentes da entidade acham que, quando no dia 11 de março os clubes derem de cara com a proposta da Record em torno dos 500 milhões de reais pelos direitos da TV aberta, cairão na real e desistirão de qualquer veleidade de negociar diretamente com as TVs. Os tais 500 milhões de reais correspondem ao dobro do que hoje é pago. E, afirmam esses dirigentes nos bastidores, seriam suficientes para adoçar a boca e cofres dos cartolas.

O Clube dos 13 aposta também que o Cade vetará qualquer negociação direta entre as partes. Argumenta que o acordo assinado no ano passado lhe dá plenos poderes para a negociação.

A Globo tem, naturalmente, outra visão. Considera que as duas principais exigências do Cadê podem ser cumpridas quando sentar-se à mesa com os clubes: um acordo sem cláusula de preferência para nenhuma emissora e que seja dividido por plataformas (TV aberta, fechada, pay per view etc.).

Conselheiros do Cade afimam que uma negociação direta não é proibida. Mas que, claro, analisarão os eventuais contratos fechados com lupa.

Talvez o Clube dos 13, hoje rompido com a Globo, esteja simplificando demais esse xadrez futebolístico-televisivo.

Mas a Globo tem bala para saciar a sede dos clubes? Afinal, os cartolas têm dito aos quatro ventos que negociarão direto com a Globo para conseguir valores maiores do que o que o Clube dos 13 acena pra eles?

Neste ponto, o Clube dos 13 argumenta que a conta não fecha. Se a Globo não quer pagar os 500 milhões de reais estabelecidos no edital para a TV aberta, como pagaria mais a cada um dos clubes? (Fora os valores também mais altos das outras plataformas, tais como pay per view, TV por assinatura, internet)

A Globo não diz publicamente, nem é hora para isso, mas os tais 500 milhões de reais não seriam o grande problema – embora, também o seja. O que de fato a Globo não admite são outras condições que aparecem no edital do Clube dos 13.

A emissora dos Marinho não quer, por exemplo, que as imagens sejam geradas pelo Clube dos 13. Não admite que a transmissão pela internet possa acontecer com um delay de apenas 45 minutos após o início da partida (mataria o pay per view, alega a Globo). Não aceita que os direitos das imagens geradas passem a ser propriedade do Clube dos 13 – e não dela, como é hoje.

Impossível prever quem ganhará essa parada. A Globo aparentemente leva vantagens. Tem poder, tradição no futebol, a maioria dos clubes pende de fato para seus encantos. Mas é apenas um favoritismo momentâneo, que pode evaporar no momento seguinte.

Não se pode menosprezar também a possibilidade de parte dos times fechar com a Record e parte com a Globo. Ainda que a Globo leve os clubes de maior torcida, o que parece mais lógico, em algum momento eles enfrentarão os de menor torcida – e, neste caso, as emissoras donas desses direitos de transmissão terão que se entender.

O que fica patente, no entanto, é que de modo atabalhoado ou não, a concorrência chegou para valer num campo em que a Globo sempre reinou absoluta. Se a líder de audiência ganhar, terá sido despendendo um suor nunca imaginado por ela e pelos telespectadores. Se expondo como nunca e mostrando uma perda relativa de poder. E talvez seja a última vez que conseguirá vencer a concorrência em várias plataformas de mídia. Os tempos, se não mudaram ainda, estão mudando. Mas isso a Globo sabe – o que importa para ela, neste momento, é vencer. Mesmo que de 1 a 0 e com gol na prorrogação.

Por Lauro Jardim

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A batalha que Dilma não pode perder

Vai ser uma praça de guerra. A frase tem sido repetida para alguns interlocutores por Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB, para retratar a quarta-feira na Câmara. A votação do salário mínimo de 545 reais será o batismo de fogo de um governo que mal iniciou.

Dilma Rousseff não pode perder a parada para não sangrar nas suas relações com a base aliada já em seu 45º dia de governo.

Não pode sair derrotada para não ser obrigada a recuar em seu enfrentamento com uma parte substancial do PMDB – sobretudo o de Henrique Alves e Eduardo Cunha, mas não só dos dois, claro.

O governo não pode piscar e ver aprovado, por exemplo, um mínimo de 560 reais, algo que desequilibrará sua política econômica por um bom tempo.

Dilma não pode perder também por que o insucesso trincaria um pouco a recente, mas cada vez mais estreita de relação de confiança com Antonio Palocci, seu articulador político.

Ela não pode, enfim, deixar escapar a oportunidade para iniciar o seu governo com uma vitória importante na Câmara. Um mau resultado a enfraqueceria aos olhos não só da classe política, sempre tão diligente em aproveitar-se desses vácuos de poder. O malogro na quarta-feira a debilitará também aos olhos da opinião pública.

Pode ser a senha para que a população comece a processar sinais de um início de governo em tom menos róseo que o propagado pela garganta autocongratulatória de Lula.

Indo direto ao ponto, um tropeço na Câmara fará dupla ao anúncio dos cortes de 50 bilhões no Orçamento — necessários, óbvio, mas também uma evidência de que havia descontrole no ar. Ou como, gostam de dizer os petistas quando recebem governos de mãos adversárias, seria o indicador de uma “herança maldita”. Tudo isso, ressalte-se, num período de menos de uma semana.

Enfim, se vier não será uma derrota qualquer. FHC amargou uma em abril de 1995, em sua primeira batalha do reajuste do salário mínimo. Vivia, então, o auge dos louros do Plano Real. Perdeu. E foi obrigado a abrir alguns espaços ao PMDB que não estavam em seu programa.

As chances de Dilma conseguir emplacar o salário mínimo de 545 reais são muito maiores do que de fracassar na quarta-feira. Em privado, até a oposição e as centrais sindicais reconhecem isso.

Até onde se sabe, a turma do PMDB que já recebeu um chega pra lá de Dilma (sim, a de Cunha & Alves) não está se movimentando para atrapalhar a vida do governo na quarta-feira. Já é um bom indicador para o governo. Mas quando se entrar numa praça de guerra nada está garantido de véspera.

Por Lauro Jardim

domingo, 30 de janeiro de 2011

A guerra de Furnas

As disputas por cargos nos governos podem ocorrer de maneira mais ou menos ruidosa. Algumas delas, raras, não vazam para o distinto público. Em outras, a maioria, o embate público transcorre em níveis razoáveis de decibeis. E, de vez em quando, a coisa sai do controle da turma da boquinha e se transforma numa estridente e constrangedora torrente de ataques. A guerra que se desenrola pelo comando de Furnas enquadra-se na terceira categoria. Como acabará?

Antônio Palocci já avisou aos interessados (ou seja, PMDB e PT): Furnas será do PMDB, sim. Mas não de Eduardo Cunha. O governo quer que o PMDB indique uma lista tríplice de técnicos do setor e Dilma Rousseff faz a escolha final. Mas, repita-se, que os nomes apareçam sem as impressões digitais de Cunha.

O governo, porém, não quer decidir nada oficialmente antes da eleição para a presidência da Câmara, marcada para terça-feira. Não é que não queira. Não deve, não pode. O motivo é que ninguém sabe o tamanho do porrete de Eduardo Cunha na eleição do dia 1. Ou, mais precisamente, qual é o tamanho da “bancada do Cunha”. Na legislatura passada, Cunha tinha uns 20 deputados-carneirinhos que votavam de acordo com suas instruções. E agora? Ninguém sabe ao certo se a bancada de Cunha emagreceu ou manteve-se. Aposta-se que, pelo menos neste início de legislatura, deve ter diminuído. Mas diante da eleição de um presidente da Câmara ninguém quer pagar para ver.

Na semana passada, Cunha esteve com Michel Temer. Estava com as duas mãos cheias. Numa, trazia defesa detalhada das acusações de irregularidades em Furnas que favoreceriam pessoas ligadas a ele, conforme dossiê confeccionado pelo PT fluminense. Na outra mão, levava um dossiê contra Valter Cardeal, diretor da Eletrobras e um dos quadros preferidos de Dilma no setor elétrico. É o estilo Cunha. Na sexta-feira passada, em conversa com um interlocutor sobre uma troca de acusações entre ele e o ex-aliado Anthony Garotinho, via twitter, Cunha demarcou:

- Vai ser baixaria? Tudo bem, topo qualquer parada.

Nos bastidores do governo o que se garante é que Dilma Rousseff decidiu mudar toda a diretoria de Furnas, um consórcio petista-peemedebista. Não é só. O governo quer também “matar esse poder e arrogância do Cunha”, na expressão pouco sutil de um ministro petista.

Diz-se que Dilma Rousseff detesta as intromissões de Eduardo Cunha nas negociações de cargos. Tem horror ao deputado. Assim, estaria liberada aos petistas a tentativa de “matar esse poder e arrogância do Cunha”. O controvertido deputado, porém, sobreviveu ao mesmo sentimento que sabidamente Lula nutria por ele. Como se movimenta bem pelas aleias peemedebistas e de alguns partidos satélites, tem mantido sua força.

De qualquer forma, o que se verá a partir de quarta-feira, quando o presidente da Câmara for finalmente escolhido, será uma espécie de caçada ao Cunha. Como o ousado deputado não está acostumado a apanhar calado, muita podridão não republicana pode ser destampada a partir dessa guerra.

Por Lauro Jardim

domingo, 23 de janeiro de 2011

PMDB versus PMDB versus governo

Sem alarde, a briga do PMDB com o governo por cargos (pelo que mais seria?) está entrando numa nova fase que poderá ser percebida com mais clareza nos próximos dias. Está mais para PMDB versus PMDB do que para PMDB versus governo Dilma. Tudo isso com a chancela do governo.

A chave para a mudança foi a percepção do governo, Antonio Palocci à frente, de que o PMDB que está estrilando, pelo menos neste momento, não é o de Michel Temer, Moreira Franco, Renan Calheiros, José Sarney, Eunício Oliveira e Geddel Vieira Lima.

Quem está acendendo o fósforo, segundo sacou o Palácio do Planalto depois de conversas e mais conversas com o sexteto elencado acima, são dois peemedebistas ruidosos, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha.

O tom do discurso agora é: “não tem crise com o PMDB; a tensão é com os dois Eduardos”. Do outro lado do ringue peemedebista, um dirigente do partido fustiga:

- Os dois não fazem parte da direção nacional do PMDB. Portanto, a briga com o governo não é nossa. É uma briga pessoal deles, dos Eduardos.

Como interessa ao Palácio do Planalto e à essa ala peemedebista, praticamente combinou-se entre que a dupla seria isolada. Não será fácil fazê-lo. Cunha e Alves têm na ponta da língua alguns postos para os quais querem nomear seus preferidos. Além do que já têm, Alves quer também a vice-presidência de crédito da CEF, uma diretoria do Banco do Nordeste e o comando do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Cunha quer Furnas e alguns postos em fundos de pensão.

É evidente que essa nova conformação só se sustentará se o governo efetivamente nomear quem Renan, Sarney & Cia pedirem mais à frente — e essa turma aceita esperar fevereiro para discutir outras nomeações. Uma delas, é a de Geddel Vieira Lima.

Do contrário, essa turma que momentaneamente está apartada de Cunha e Alves voltará a se unir. E aí, como sempre, sai de baixo.

Por Lauro Jardim

domingo, 16 de janeiro de 2011

Subida dos juros será carta de apresentação do BC de Dilma

Nem o mais desenvolvimentista dos desenvolvimentistas, nem aqueles para quem uma “inflaçãozinha não dói” acham que há condições para que o Banco Central baixe — ou mesmo mantenha — a taxa de juros nos atuais 10,75% ao ano. A primeira reunião do Copom sob Dilma Rousseff começa depois de amanhã sob um consenso raro. É hora de elevar a Selic. Pelas expectativas de nove entre dez bancos e consultorias, o juro subirá 0,5 ponto percentual. Uns poucos chegam a apostar numa alta ligeiramente maior.

A reunião do Copom será uma espécie de carta de apresentação do BC de Alexandre Tombini. Ao mercado. Ao país. A decisão sobre os juros e a ata da reunião, que será divulgada dez dias depois, servirão, enfim, como uma carta de apresentação do próprio governo Dilma.

Assim foi com Lula em 2003. Henrique Meirelles assumiu o BC com uma taxa de juros de 25% ao ano e já em janeiro aumentava a Selic em 0,5 ponto percentual (no mês seguinte, dobrou a dose do aperto). Era necessário fazê-lo pelo mesmo motivo de agora, embora num contexto diferente: a inflação precisa cair.

Cabe ao BC perseguir o centro da meta de inflação, de 4,5% ao ano. E o IPCA já bateu os 5,9%. Desta vez, ao contrário do que aconteceu durante o governo Lula nem Guido Mantega defende outra solução.

No final de dezembro, o BC fez alguns alertas num contundente relatório sobre a inflação. Notou que a demanda crescia acima da capacidade de produção das empresas (que, a propósito, já se encontra elevada acima do razoável). Enfatizou que desde setembro a inflação vinha subindo.

Deixou claro, enfim, que todo esse cenário precisa de um freio. Num determinado trecho do relatório, lê-se com todas as letras que “desvios em relação à meta de inflação sugerem a necessidade de, no curto prazo, um ajuste na taxa básica de juro”.

De lá para cá, não houve arrefecimento da demanda. Os sinais de aquecimento da economia continuam piscando suas luzes amarelas. Mais: os preços da commodities agrícolas estão subindo mundo afora.

É o que se tem que fazer, portanto. Ainda que com os efeitos colaterais indesejados de sempre. Atrair mais capital interessado numa taxa tão apetitosa, valorizando mais ainda o real, é o primeiro deles.

Essa primeira reunião do Copom acontecerá num ambiente de pressões pouco estridente. A próxima, no início de março, quando tudo indica que seja necessária nova pancada para cima nos juros, não se dará em cenário tão favorável.

Por Lauro Jardim

domingo, 9 de janeiro de 2011

Dilma versus PMDB: como acabará a briga por cargos?

Primeiros dias de governo são pródigos em cartas de intenções e promessas de ministros recheando o noticiário. Na primeira semana de Dilma, essa tradição foi dividida com as ameaças, chantagens e reclamações do PMDB. Aliás, não existe novela mais previsível do que a do PMDB em busca de cargos ou de, como gostam de sofismar os peemedebistas, espaços para dividir responsabilidade do governo. E então, como acabará a contenda pelas nomeações? Primeiro, não acabará já. A novela mal começou. E tende a prolongar-se por alguns meses.

Convém, neste momento, rebobinar a fita. Volte-se ao ano de 2007, primeiro ano do segundo mandato de Lula. Com Lula, a pendenga prolongou-se por quase doze meses. O PMDB, aderira oficialmente ao governo e cobrava, claro, cargos e nomeações — sempre para ontem. Lula testou o quando pôde os peemedebistas. Foi soltando uma nomeação aqui, outra ali.

O conta-gotas pingou praticamente o ano inteiro, num cabo-de-guerra que tem tudo para se repetir em 2011. Já está se repetindo, embora seja cedo para afirmar se Dilma copiará Lula ou se soltará as rédeas mais cedo. O mais lógico é que tudo dependa da força do PMDB para atrapalhar o governo no Congresso.

O roteiro que o PMDB seguirá enquanto as pretendidas nomeações não saírem, contudo, será rigorosamente o mesmo de quatro anos atrás.

Alguns recortes de notícias de 2007, pinçados aleatoriamente reforçam que o script peemedebista não muda. Em maio, numa reunião com a cúpula peemedebista, Lula ouviu que “os deputados estavam insatisfeitos com a demora nas nomeações para cargos importantes no segundo escalão do governo, entre os quais as diretorias das estatais Petrobras e Furnas”.

Ainda em maio, a arma da chantagem foi usada — assim como agora se faz na votação do salário-mínimo. Repare na semelhança: “O PMDB condicionou a indicação de seus quatro representantes na CPI do Apagão Aéreo à nomeação de seus quadros para o segundo escalão”.

E o que o PMDB queria, na ocasião? “O PMDB de Minas quer uma diretoria da Petrobras; o de Goiás, a vice-presidência de Agronegócios do Banco do Brasil; o do Rio, a presidência de Furnas”. Os pedidos de hoje são rigorosamente os mesmos.

Aliás, quem acabou sendo o presidente daquela CPI foi o onipresente Eduardo Cunha. Na enxurrada de informes divulgados em dezembro pelo Wikileaks, os americanos relatam o que não era segredo para ninguém: o “PMDB usou CPI do Apagão Aéreo para barganhar cargos”.

O enfrentamento seguiu 2007 afora. Em setembro, Cristiana Lôbo em seu blog contava que “um dia depois de se unir à oposição para impor derrota ao governo – com a derrubada da MP que criou a Secretaria de Longo Prazo e mais 670 cargos – a bancada do PMDB avalia que o governo entendeu a mensagem: o partido quer ser prestigiado na distribuição de cargos”.

As discussões de hoje, como se vê, soam iguais às de 2007. Dilma Rousseff tem dito para Michel Temer que não aceitará qualquer indicação do PMDB. Exige que os indicados sejam técnicos qualificados. Não é nada diferente do que outros presidentes determinaram, mas foram obrigados a transigir na primeira votação importante perdida no Congresso.

PMDB e Dilma vão se testar na votações da Câmara e do Senado a partir de fevereiro. É inevitável. Se o PMDB tiver bala na agulha, leva os cargos. Evidentemente, não todos e nem com os personagens que desejaria ver comandando esta ou aquela diretoria de estatal.

O jogo das nomeações que será disputado votação a votação, nomeação a nomeação. Na retaguarda, Dilma Rousseff terá que contar mais do que nunca com as articulações do habilidoso Antônio Palocci. Ele pode fazer a diferença.

Por Lauro Jardim

domingo, 12 de dezembro de 2010

Disputa silenciosa

Entre o início e o meio da semana passada, Aécio Neves fez um tour político de respeito. Recebeu um prêmio no Rio de Janeiro. Almoçou com Geraldo Alckmin, em São Paulo. Foi ao Roda Viva. Esteve com FHC. Visitou José Alencar no hospital. Fez uma visita de cortesia ao comando do DEM, na sede do partido em Brasília. Circulou pelo Congresso. Parecia estar em todos os lugares.

Foi uma espécie de volta oficial à cena política, depois de suas férias pós-eleitorais. Nas conversas, botou algumas de suas cartas na mesa, mas sem pressa. Quer ser candidato a presidente em 2014, mas seu jogo é de longo prazo.

Ficou claro, porém, em várias das conversas, sobretudo com os tucanos, que o “até logo” que José Serra proclamou com ênfase na noite de sua derrota para Dilma Rousseff é para valer.

Serra de fato não pensa em se aposentar. Muito mais do que isso: nutre esperanças de disputar a presidência pela terceira vez, na esteira de um eventual fracasso do governo Dilma. E, na cabeça de Serra, ele, do alto dos seus 44 milhões de votos, seria novamente a melhor opção da oposição para o embate. Serra tem falado isso mais próximos.

Mesmo considerando que não é hora de bater de frente com Serra, Aécio sabe que em algum momento — nem que seja dentro de dois ou três anos — um confronto entre os dois acontecerá. Tal e qual aconteceu nas eleições de 2010.

Desta vez, no entanto, Aécio terá ao seu lado parte expressiva de tucanos importantes que, em 2010, esteve todo tempo apoiando Serra – FHC à frente. Outros, como Geraldo Alckmin, Aécio terá que conquistar.

De qualquer forma, assim como Aécio era fundamental para Serra sonhar com algum triunfo em 2010, é importante para Aécio ter, em 2014, o partido unido se quiser candidatar-se à presidência com alguma chance. Aécio percebeu, contudo, que Serra não lhe facilitará os passos. E que era conversa para boi dormir a que tiveram o final do ano passado, em Belo Horizonte. Serra, na ocasião, pedia o apoio do ainda pré-candidato tucano Aécio Neves com o seguinte argumento: aos 68 anos, aquela seria sua última oportunidade para tentar ser presidente da República; Aécio tinha idade para esperar.

Nos próximos meses, Serra e Aécio disputarão um silencioso jogo de xadrez. O novo governo ainda nem tomou posse, mas no PSDB o fogo (ainda que brando) continua aceso, opondo os mesmos personagens. Vale a pena prestar atenção nos próximos lances.

Por Lauro Jardim

domingo, 5 de dezembro de 2010

Dilma 1 x 0 PMDB

A verdade é que até agora na formação do ministério os profissionais do PMDB levaram um banho da neófita Dilma Rousseff. Escudada pelo nada neófito Antônio Palocci, o PT vem emplacando seus nomes, o PSB avança nos seus e o PMDB está suando para manter o mesmo número de ministérios que possui no governo Lula.

Além do mais, os ministérios em negociação são francamente menos importantes. Basta ver que o PMDB deve levar como novidade o Turismo e a Previdência e largar Comunicações e Integração Nacional. Sem falar no ministério da Saúde que, o.k., nunca foi seu de fato (José Gomes Temporão, filiado ao partido, foi uma escolha pessoal de Lula), mas ainda assim lhe dava a oportunidade de nomeações em órgãos como a Funasa, por exemplo.

Nessa altura do campeonato, o PMDB vai usar os próximos dias para tentar virar o jogo em reuniões com a cúpula petista da transição. Fará até um “jantar de agradecimento” para Lula na quarta-feira – uma noite que tem mais cheiro de lobby.

O PMDB errou tanto até aqui que ajudou Dilma e o PT em certa medida a conseguirem este 1 x 0. Mostrou-se dividido na negociação que se seguiu ao triunfo do dia 31 de outubro. Cada grupo começou a falar e trabalhar por si. Michel Temer perdeu o controle da condução do processo. Na segunda-feira, Sérgio Cabral deu um passo em falso, precipitou-se e perdeu um ministro que havia feito.

Os diversos PMDBs (o da Câmara, o do Senado, o do Michel Temer etc.), que pareciam unidos na campanha, só estão juntos da boca para fora – ou mais precisamente nas declarações oficiais que fazem à imprensa.

Nos bastidores, o pau está comendo. Não há nada mais para inglês ver do que o discurso que o deputado Henrique Alves tem repetido por aí (“O PMDB está em paz e amor”).

Ou de outra risível afirmação que vários de seus líderes vem repetindo desde a campanha, a de que na formação do governo Dilma o PMDB mostraria à sociedade que não é um partido fisiológico.

É uma dessas frases que nunca foi levada a sério por ninguém, mas que o tempo ajuda a torná-las mais ridículas.

O jogo, porém está ainda no começo. O PMDB tem uma atávica fome por cargos e partirá para o ataque. Pode avançar unido, o que será um problema para o governo. Suas armas serão as de sempre, as votações no Congresso.

Deu certo, sobretudo, no primeiro governo Lula. No segundo mandato, como conseguiu praticamente tudo o que queria, as coisas se acalmaram.

Essa ameaça de rolo compressor será usada veladamente agora. Seja para conseguir um ministério a mais – está sendo negociado um para Moreira Franco, como cota pessoal de Temer – ou para aumentar os pleitos de nomeações nas diretorias de estatais. Se não der certo neste momento será usada na próxima legislatura de modo concreto.

Ainda que a revanche do PMDB se dê com as conhecidas armas, registre-se que o partido, de conhecidos profissionais da política, repita-se, perdeu o primeiro embate.

Tentou fazer-se ouvido de igual para igual nas discussões para reforma ministerial em curso. Não teve voz. Tentou manter os ministérios que tinha e avançar. Não teve fôlego. Tentou manter-se unido, como na campanha. Não conseguiu.

Por Lauro Jardim

domingo, 28 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro pega fogo. Cadê a Dilma?

Praticamente um mês já se passou depois do seu triunfo eleitoral e Dilma Rousseff continua meio sumida. Às voltas com a delicada costura para a montagem do seu ministério, praticamente não apareceu em público nestes 28 dias. A última vez que mostrou a cara e falou em público foi há nove dias, num evento do PT.

O Rio de Janeiro está pegando fogo e de Dilma não se ouviu nada sobre o assunto — somente um vago “Sérgio Cabral tem o apoio da presidente”, dito por um assessor.

O.k., Lula ainda é o presidente. Ele, naturalmente, tem o protagonismo de certas situações, tanto por ser o presidente como por ser o chefe inconteste do PT. Mas parece evidente que era a hora apropriada para começar a passagem de bastão: Dilma deveria, sim, estar botando a cara na TV pontuando assuntos urgentes como o da guerra carioca.

Até porque o brasileiro quer ouvir da presidente recém-eleita suas opiniões sobre temas reais — algo que a campanha muitas vezes não permitiu. Além do mais, a palavra de Lula só vale pelos próximos 32 dias; a dela até 2014. É também, portanto, uma questão de prazo de validade.

Não se trata só da guerra do Rio – este é apenas um exemplo.  O ministério é outro: vem sendo anunciado por porta-vozes. A palavra de Dilma não foi ouvida. E neste caso nem dá para lançar a hipótese de que ela estaria preocupada em não melindrar um Lula ainda presidente.

Esse quase sumiço de Dilma desde que se elegeu levanta suspeitas sobre o seu estilo de governar. Alguns aliados temem que Dilma que, de modo explícito, detestou a experiência de fazer campanha, tendo que se expor diariamente, tente governar para dentro. Temem que ela repita os tempos em que era ministra das Minas e Energia ou da Casa Civil. Ou seja, com muito trabalho de gabinete e pouca exposição pública.

O receio dos aliados é que se enfurnar no Palácio do Planalto, dando pouca importância ao simbólico das aparições públicas (sempre seguidas de declarações), afete sua popularidade.

Para o bem ou para o mal, o chefe do executivo hoje é obrigado a estar com a cara todos os dias (ou pelo menos quase todos) na TV ou na internet. Não é só Lula que fez e faz isso. José Serra fez isso quando prefeito e governador de São Paulo. Sérgio Cabral faz isso (mesmo quando o Rio está em paz). É, pois, uma necessidade suprapartidária

Ainda é cedo para cravar o estilo Dilma de governar. Mas os primeiros 28 dias depois de eleita só ajudaram a aumentar as evidências de que ela não é afeita à exposição à luz.

Por Lauro Jardim

domingo, 21 de novembro de 2010

O que pode fazer Meirelles ficar no BC

Depois de oito anos no governo, Henrique Meirelles não se cansou. Quer permanecer. Nesta semana, terá uma conversa decisiva com Dilma Rousseff numa condição que podia lhe ser mais favorável: nos últimos dias, um ruído na comunicação causou-lhe embaraços fora de hora.

Na sexta-feira, parte do noticiário sustentava que Meirelles já conversara com Dilma. No encontro, teria botado uma espécie de faca no peito da presidente: só aceitaria continuar à frente do BC, se mantivesse a autonomia que Lula lhe concedeu desde 2003.

Aos mais próximos, Meirelles suspeita que esse vazamento de uma reunião que nunca ocorreu teria vindo dos seus adversários no governo.

Efetivamente, Meirelles nunca disse, mesmo privadamente, que tenha conversado com Dilma sobre sua posição no próximo governo. O que talvez tenha causado o curto-circuito seja outro ponto – a tal autonomia.

Meirelles sempre pôs essa condição como fundamental para o sucesso (inegável) de sua gestão no BC. Repetia a quem quisesse ouvir que não seria presidente do BC noutra condição que não essa. Daí para a afirmação ser usada conta ele num momento delicado foi um pulo.

Quando a campanha eleitoral ainda se desenrolava, Meirelles imaginava algumas possibilidades para o seu ano de 2011. Pensava, por exemplo, em ser ministro. De qual pasta? Uma possibilidade lhe agradava: um ministério do Planejamento com funções ampliadas.

Continuar no BC não era a primeira opção, talvez pelo cansaço de oito anos na mesma cadeira, mas Meirelles nunca descartou totalmente a ideia – sempre ressalvando que mantidas as condições de trabalho que Lula lhe franqueou.

Nesta fase de formação do governo, é a hora do óbvio se tornar mais óbvio: neopeemedebista, Meirelles não tem o apoio do partido para nenhuma aspiração maior. Até porque, para tê-lo seria obrigado a abrir mão da sonhada autonomia. Ou alguém imagina que o PMDB sustente nomes para ministérios que ousem nomear quem quiser para os postos relevantes?

No encontro dos próximos dias com Dilma não adiantará para Meirelles ser mais ou menos hábil e tentar desarmar o eventual mau humor da presidente com o curto-circuito de informações dos últimos dias. Aparentemente, a julgar pelo que dizem pessoas próximas a Dilma, ela estaria decidida a nomear um novo presidente do BC.

O que pode fazê-la mudar de ideia? Lula poderia. E ele é favorável a manutenção de Meirelles. Mas há uma força maior do que Lula que pode balançar Dilma — sim, de vez em quando surge uma força maior do que Lula, por mais que isso possa surpreender os petistas que babam pelo presidente.

Mais do que balançar: convencê-la de que seja necessário conservar alguém com a experiência de Meirelles na condução da política monetária em tempos nublados (ainda que não agrade a Dilma que o presidente do BC e o ministro da Fazenda se detestem, algo que Lula sempre tirou de letra).

Está se falando aqui das pressões inflacionárias, mais e mais evidentes. O recém-anunciado salto do IGP-M, de 0,89% para 1,20% entre outubro e novembro (uma subida de 10% em um ano) é apenas um dos exemplos que se apresentam. E quando se fala dessas quatro letrinhas está se falando de impopulares reajustes nos aluguéis.

O problema é agravado pela decisão do governo de ter como meta para 2011 um superávit primário nas contas públicas de 3% do PIB – o alvo anterior era de 3,3%.

Não custa repetir algo que o próprio governo parece ter esquecido: essa mudança forçará uma elevação da taxa de juros. A propósito, no dia 8 de dezembro o Copom se reúne pela última vez na era Lula. Há um quase consenso de que será necessário elevar a Selic.

Numa palavra, a aproximação de um tempo ruim pode balançar Dilma, pode forçá-la a ser mais prudente e conservadora neste início de governo. Se for assim, Meirelles fica.

Por Lauro Jardim

domingo, 14 de novembro de 2010

Na terça-feira, o jogo começará para Dilma

Reza a lenda que o melhor momento para um político é o que vai da vitória nas urnas até a posse. Seria um tempo de lua de mel com a população e poucas cobranças.

Pode ser verdade para quem não precisa encarar apetites por cargos como os que excitam PT e PMDB. Não é, portanto, o caso de Dilma Rousseff. Sua lua de mel, se de fato ocorreu, acaba na terça-feira quando começará a montar de fato o seu ministério.

Durante a campanha, o PMDB reclamou de várias coisas – como, por exemplo, não ser ouvido pela cúpula que conduzia a estratégia eleitoral de Dilma. Mas os peemedebistas não iam além de determinado ponto. Agora, não. No processo de escolha de ministros, presidentes de estatais, diretorias de agências reguladoras e de outro tantos cargos, o PMDB vai bater mais duro. E, justiça se faça ao partido, é um jogo que o partido sabe jogar.

O PMDB não para de mandar recados. O PT idem. Na semana passada, quem teve paciência de acompanhar o noticiário político, notou: nas frases cifradas das entrevistas ou em declarações mais diretas, todos exercitaram a busca por espaços.

O que o PMDB e o PT querem é uma coisa só: ampliar seus espaços no governo. Não só os dois, aliás: é só perguntar ao PSB se o partido acha de bom tamanho manter os feudos que têm no governo Lula. Não acha. Quer mais.

Os três partidos sentem-se como os vitoriosos das eleições e querem que tal triunfo se traduza em cargos — ou, numa palavra, em mais poder. O problema é que a conta não fecha. Alguém terá que ceder cadeiras.

Dilma Rousseff, marinheira de primeira viagem na urna, chegou lá pegando carona na bonança econômica e no colo largo de Lula. A partir de terça-feira, terá que domar todas essas ambições sem nunca ter tido experiência em negociações deste tipo. Não é coisa fácil.

Em 2002, também na transição, Lula, que já possuía uma bagagem de negociador seja como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, seja como presidente de um partido dividido em vários grupos, errou na mão na primeira formação de seu governo. Inicialmente, dera a José Dirceu carta branca para negociar alguns ministérios com o PMDB. Dirceu chegou a convidar peemedebistas ilustres para alguns postos — Roseana Sarney, por exemplo. Só que na última hora, Lula o desautorizou e não chamou ninguém. Mais tarde, já pilotando a presidência, foi obrigado a render-se aos encantos do PMDB. Até porque, só se despreza o PMDB quem não precisa dele para governar. E Dilma  precisa.

A partir dessa terça-feira, Dilma começa de fato a ser presidente da República.

Por Lauro Jardim

domingo, 31 de outubro de 2010

A oposição precisa de um discurso coerente – e sedutor

No último dia da propaganda eleitoral gratuita de José Serra, na sexta-feira passada, havia uma passagem esdrúxula que diz muito sobre o futuro do derrotado PSDB e das oposições em geral.

Lá pelas tantas, o locutor acusava “Dilma e sua turma” de venderem “o pré-sal para empresas privadas”. Não bastasse a vergonha que tem de defender uma bandeira histórica do PSDB, a privatização, a campanha de Serra pegou carona numa das piores bandeiras do PT — o discurso estatista.

Serviu apenas para confundir o eleitor. Além de ter soado falso. O discurso dúbio de Serra sobre o assunto deixou órfão o eleitor tradicional do PSDB e não convenceu o eleitor mais à esquerda. Pela segunda vez consecutiva numa eleição presidencial o partido cometeu o mesmo erro — nem o efeito surpresa havia.

Esse é um dos desafios que o PSDB e as oposições de modo geral terão que enfrentar a partir de amanhã: criar um discurso próprio, coerente e que tenha força para (re)conquistar o eleitor. Não será tarefa fácil. A máquina de propaganda do PT opera com eficiência a bandeira do estatismo e do “nós defendemos os pobres e vocês as elites”.

Para além do ideário, é preciso saber quem comandará a tropa. Ainda que não se deva desprezar Geraldo Alckmin – nunca é prudente descartar o governante do estado mais poderoso do país — o nome de Aécio Neves surge naturalmente como o novo sol em torno do qual girarão o PSDB e a oposição.

Aécio possui pelo menos duas qualidades que o tornam imbatível para a missão. Primeiro, ele é a cara nova que o PSDB poderá oferecer ao Brasil. Fez um governo bem avaliado, sem escândalos e é um vencedor de eleições. E tem carisma. Mesmo não sendo conhecido nacionalmente, é um bom “produto” para ser vendido aos brasileiros. Em segundo lugar, não há ninguém com sua capacidade de articulação política.

A possibilidade de Aécio deixar o PSDB para criar um novo partido, como aqui e ali se cochicha, é pequena: a vitória do partido em estados importantes, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, por exemplo, abortaram uma ideia que até poderia fazer sentido.

Não é improvável, contudo, que Aécio trabalhe para engordar o PSDB – e ele tem capacidade de costura para tocar a tarefa. As primeiras iscas devem ser lançadas ao DEM, que sai baleado da eleição. Mas outras poderão ser arremessadas em direção de líderes políticos estaduais em conflito com companheiros do mesmo partido.

No Senado, Aécio sonha também com uma missão difícil, quase impossível: eleger-se presidente da Casa. Não já: agora é a hora de quem venceu as eleições – e tem maioria no Senado – dar as cartas.

Ele pensa em candidatar-se a presidente do Senado em 2013. De lá sairia para ser o candidato das oposições à presidência do Brasil no ano seguinte. Por isso, mais do que nunca, é hora de pensar num discurso coerente e sedutor para apresentar aos brasileiros a partir do ano que vem.

No processo eleitoral deste ano, Serra enfrentou o mais poderoso dos adversários. Não se trata de Lula e de sua popularidade acachapante, mas da razão principal dos seus 80% de sua aprovação: o bom momento da economia. Em 2014, Aécio – ou quem for o candidato – poderá ter que lidar com a mesma maré a favor na economia. E o tempo estiver chuvoso na economia? Terá que enfrentar Lula querendo voltar e garantindo que consertará qualquer estrago feito por Dilma Rousseff.

Por Lauro Jardim

domingo, 24 de outubro de 2010

Um milhão de votos por dia

Para perder a eleição, Dilma Rousseff precisa deixar de ter o apoio de 1 milhão de eleitores por dia, de hoje até o próximo domingo. Impossível? Não. Difícil? Muito.

Até o dia 31, Dilma comparecerá ainda a uma série de eventos de rua e comícios. Neles, não corre riscos (exceto, talvez, de uma bolsa de água cair sobre sua cabeça; mas isso não tira votos, ao contrário).

Como é natural, estará sempre protegida pela claque de militantes e pela popularidade de Lula — que deve estrelar todos esses eventos, a começar pela carreata de hoje de manhã no Rio de Janeiro. Também nos programas eleitorais do rádio e da TV navegará em águas tranquilas.

Dilma, no entanto, estará exposta a duas situações potenciais de perda de votos. Uma são os debates — o de amanhã, na Record; e o de quinta-feira, na Globo. Programa ao vivo, tensão de campanha, tudo isso contribui para uma possibilidade de tropeço.

Em favor de Dilma, porém, é preciso reconhecer que, se ela não é boa de debate na TV (é prolixa, artificial, não conclui pensamentos etc.), também nunca teve uma atuação desastrosa nestes confrontos. Até aqui, ela os perdeu por pontos. Se quiser manter as esperanças, José Serra terá que vencer por nocaute os dois debates.

A outra situação de risco que pode lhe roubar votos é a reportagem de capa de VEJA desta semana. A pressão para que um alto funcionário do ministério da Justiça produzisse dossiês contra adversários é uma revelação de teor explosivo. E que reforça uma característica do perfil de Dilma: a da pessoa pública com uma queda especial pela fabricação de dossiês.

Há dois anos, foi justamente na Casa Civil comandada por Dilma que Erenice Guerra coordenou a confecção de um dossiê com gastos pessoais de FHC e de Ruth Cardoso (a papelada foi reunida com o objetivo de chantagear adversários, num contra-ataque às revelações de gastos de ministros de Lula feitas pela CPI dos Cartões Corporativos.).

O caso Erenice (o mais recente, não aquele do parágrafo acima), tirou parte dos votos que Dilma possuía em algum momento de setembro e ajudou a levar a disputa para o segundo turno. E agora?

Apesar da gravidade da revelação, ainda é cedo para dizer como isso se traduzirá em (perda de) votos. Nos últimos anos, políticos e pesquisadores repetem que notícias de que a confeção de um dossiê não tira votos de ninguém – segundo o chiste corrente, o brasileiro médio entende “docinho” quando ouve “dossiê”.

Ainda que tal confusão seja real, na dinâmica de uma campanha nervosa como a atual por prudência não se deve tentar adivinhar o futuro com base em clichês deste tipo. Assim, o mais correto é aguardar mais alguns dias.

De qualquer forma, permanece o desafio do primeiro parágrafo, que dizia mais ou menos assim: para vencer a eleição, José Serra precisa ganhar o apoio de 1 milhão de eleitores por dia, de hoje até o próximo domingo. Impossível? Não. Difícil? Muito.

Por Lauro Jardim

domingo, 17 de outubro de 2010

Agora ninguém pode errar

José Serra e Dilma Rousseff estão separados por magra diferença, a julgar pelas pesquisas — um instrumento sempre contestado, mas ainda o mais poderoso parâmetro de aferição de tendências no meio de uma campanha.

Por isso, a quinze dias da eleição, as duas campanhas são obrigadas a pisar em ovos. Qualquer carta mal colocada na mesa pode ser fatal.

Numa hora dessas não adianta apenas ser conservador, imaginando, assim, minorar a possibilidade de erro. Na campanha, como em qualquer batalha, é preciso saber também a hora de ousar. Um equilíbrio nada fácil de ser alcançar.

É o momento de apostar em estratégias novas e consolidar outras já em curso, tudo ao mesmo tempo agora.

Dilma tenta aninhar-se no colo generoso de Lula, que volta a protagonizar os comerciais e programas de rádio e TV no PT. Vai dar certo? Ninguém sabe. O que se sabe é que a decisão foi uma imposição de Lula ao marqueteiro João Santana, um profissional experiente, mas que foi atropelado pelo desejo do dono da bola que se auto-escalou para voltar ao campo — como capitão e técnico do time.

A campanha de Dilma terá também que continuar lidando com a questão religiosa. Muito já foi feito, reuniões com evangélicos e católicos, promessas, rezas, missas. Mas está claro que não é uma questão liquidada e será um tema sensível até o dia 31.

Para o bem ou para o mal, a essa altura está claro que pastores e padres tomaram gosto pelo protagonismo que conseguiram nessas eleições e continuarão a usar missas e o YouTube para pregar – e em geral eles têm rogado aos céus contra Dilma.

José Serra, da mesma maneira, precisa girar vários pratos ao mesmo tempo, sem deixar cair um só. Não é fácil:

*Terá que continuar a roubar os votos evangélicos de Dilma e atrair os de Marina Silva.

*Será obrigado a não deixar se alargar a já grande diferença de Dilma sobre ele no Nordeste. Para isso, o jeito é trabalhar para seduzir lideranças locais que hoje estão com Dilma, mas descontentes. Geddel Vieira Lima, é um exemplo. Se não der para fazê-los entrar em sua campanha, um corpo mole para Dilma já estaria de bom tamanho para o tucano.

*Será necessário também a Serra jogo de cintura para a partir de agora receber ataques de Lula na campanha e conseguir reagir na medida certa – algo nem sempre fácil no calor da batalha. Ao estilo Pinheiro Machado, Serra não poderá ser tão agressivo com Lula que pareça desrespeitoso com um político bem avaliado por 81% dos brasileiros; e nem tão banana que aparente ser alguém sem personalidade e subserviente.

O primeiro desafio na “operação erro zero” será o debate de hoje à noite na RedeTV!. Não pela sua audiência — provavelmente, não passará dos três pontos no Ibope. Mas pela possibilidade de um deslize que virará arma do adversário nesta reta final, sobretudo se usado nos programas de TV.

Uma frase mal colocada, um ataque que soe destemperado demais, um escorregão em pontos sensíveis, tudo isso pode ajudar a definir a batalha. Tudo isso pode criar uma uma daquelas ondas que surgem pequenas, mas que crescem a ponto de derrubar uma candidatura.

A chance de Dilma ir ao debate de hoje com quatro pedras na mão, como fez na Band, é grande. A razão é a mesma: dada a baixa audiência que o programa terá, Dilma ficaria mais livre para ousar. Ou seja, poderá usar o debate para atacar Serra e, assim, inflamar sua militância e usar os seus “melhores momentos” editados nos programas de TV. O risco da estratégia, novamente, é ultrapassar o tom adequado.

Por Lauro Jardim

domingo, 10 de outubro de 2010

O novo desafio de Marina: domar um saco de gatos chamado PV

As derrotas não têm todas a mesma cara. Ao candidato derrotado o que interessa, para saber se valeu a pena o esforço de campanha, cabe numa indagação: ele saiu da eleição maior ou menor do que entrou? Marina Silva pode dizer tranquilamente que saiu das urnas do dia 3 com outro tamanho.

Beleza. O que parecia ser o mais difícil, Marina conseguiu. Só que o triunfo foi tão expressivo que agora Marina tem diante de si uma nova e urgente tarefa, sem a qual seus planos de manter-se como uma referência na política brasileira podem sofrer um baque: tem que domar um saco de gatos chamado PV. Precisa virar, pelo menos neste momento, uma espécie de liderança inconteste.

Na campanha, para além dos 19 milhões de votos, Marina teve outros triunfos a contabilizar. Driblou temas que no início pareciam que a empurrariam para um gueto: por exemplo, o debate sobre o criacionismo (e o seu eventual ensino nas escolas) e, consequentemente, a submissão da de suas políticas às questões religiosas.

Mais: como num equilíbrio perfeito, além de não ter perdido votos por causa disso, manteve e ampliou o dos evangélicos.

Marina Silva também conseguiu fugir da armadilha monotemática. Incluiu, como era de se esperar, a temática verde em seus discursos e propostas, mas deixou espaço para falar de segurança, habitação, saúde etc. – não se está analisando aqui se eram ideias consistentes ou meros estandartes vazios, mas o fato de Marina ter abraçado outros assuntos. E, tão importante quanto, Marina saiu da campanha sem qualquer acusação relacionada à ética ou corrupção.

Agora, Marina precisa pensar no futuro. Como agir para manter e ampliar esse capital eleitoral para 2014? Como fazer para não virar uma espécie de Ciro Gomes ou Anthony Garotinho de saias? Em 1998, Ciro alcançou 11% dos votos. Repetiu o resultado em 2002. Hoje, depois de uma série de erros estratégicos, é apenas um político sem mandato que perdeu o bonde da história e faz um bico como “coordenador da campanha de Dilma no Nordeste”.

Garotinho conseguiu impressionantes 18% quando candidatou-se a presidente. Assim como Ciro, viu seu capital político derreter nos últimos anos. Foi eleito hoje o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro – quase nada para o tamanho de suas ambições.

Assim como saiu maior dessa eleição, Marina também ficou maior do que o Acre. Por isso, agora que não tem mais mandato de senadora, após dezesseis anos, irá fixar-se em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

Numa dessas duas cidades, Marina usará um veículo certo para pilotar sua carreira política até a próxima eleição. Ficará à frente de uma ONG, a IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade), e com ela rodará o país, em campanha permanente – ainda que o road show não leve oficialmente o nome de campanha.

O que o entorno de Marina planeja para ela é um caminho semelhante ao trilhado por Lula. Derrotado três vezes, Lula continuou rodando o Brasil mesmo derrotado e, afinal, chegou lá. Há, no entanto, uma diferença fundamental entre os dois: Lula sempre teve um partido para sustentar suas ambições.

E o PV? Bem, o PV é ainda uma colcha verde de retalhos. Cabe de tudo do partido — tudo de ruim, inclusive. Marina terá que trabalhar duro para também tomar as rédeas do PV – assim como tomou as de sua campanha, que foi feita por uma turma à parte do comando do partido.

Na semana que se inicia, Marina terá o seu primeiro embate de verdade com o PV. Marina quer a neutralidade no segundo turno. Parte expressiva da cúpula do partido prefere apoiar José Serra em troca de cargos – assim como alguns diretórios regionais inclinam-se por Dilma pelos mesmos motivos.

Na semana passada, os primeiros ruídos das posições divergentes foram ouvidos. Nada que ainda não possa ser contornado. Como será resolvido o imbróglio? Com que conseqüências?

Já nos próximos dias se saberá se Marina está conseguindo administrar o capital surpreendente que tirou das urnas.

Por Lauro Jardim

domingo, 3 de outubro de 2010

Como será a segunda-feira de Aécio?

Aécio Neves anoitecerá senador, elegerá  governador o poste-eleitoral Antonio Anastásia e deve levar Itamar Franco ao Senado na garupa de seu prestígio. Mais: fará um strike nos seus adversários, derrubando numa só tacada o PMDB (de Hélio Costa, Newton Cardoso & Cia) e o PT (de Patrus Ananias e Fernando Pimentel).

Aécio acorda hoje como um dos vitoriosos da eleição, mas sem saber como será o dia de amanhã, literalmente: seus movimentos políticos de curto prazo dependem de José Serra. Ou, mais precisamente, estão sujeitos à definição sobre se haverá segundo turno.

Se a resposta for sim, Aécio será obrigado a fazer algo que não fez na campanha que se encerrou oficialmente na quinta-feira passada – trabalhar duro por Serra.

Não o fez por cálculos óbvios. Temia que Serra fosse uma cruz demasiado pesada eleitoralmente para carregar. Logo ele que já tinha que tirar do chão o tecnocrata Anastasia. Jogou todo o seu peso para eleger Anastasia e Itamar. Um riisco calculado.

O êxito no jogo estadual, porém, teve o seu preço: no PSDB não são poucos os que reclamam da estratégia. Acusam-no, sempre pelas costas, de ter pouco espírito partidário.

Portanto, se a eleição não acabar hoje o mais provável é que Aécio tente virar este jogo na segunda etapa. Assim, arregaçaria as mangas e faria por Serra o que fez por Anastasia. Ainda na hipótese de um segundo turno, se Aécio conseguir migrar para Serra votos que o levem pelo menos ao empate com Dilma em Minas Gerais, recomporia a imagem de alguém que só pensa em si –  uma polida na imagem que sempre cai bem.

Se, porém, a eleição acabar hoje com a vitória de Dilma, Aécio terá uma semana mais calma: fará um pronunciamento aos mineiros, tirará umas férias e deixará a poeira da derrota tucana baixar um pouco. Mas no médio e no longo prazos terá que trabalhar como nunca. Passa a ser o líder da oposição. Em torno de Aécio passará a girar o planeta oposição.

Por Lauro Jardim

domingo, 26 de setembro de 2010

E então, vai ter segundo turno?

A resposta mais provável é “não”, por mais que os serristas odeiem ouvi-la. Mas e as pesquisas dos últimos dias, todas mostrando a diminuição da diferença de Dilma Rousseff para José Serra e Marina Silva?

O.k., as pesquisas foram unânimes em verificar esse estreitamento, mas ainda não é algo que se configure em tendência. Quem tem acesso às pesquisas diárias feitas por encomenda dos partidos observa, por exemplo, que a flutuação de pontos entre Serra e Dilma fica sempre entre 25 e 30 pontos percentuais. Essa diferença manteve-se nas pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Para que haja segundo turno, é obrigatório que Dilma perca mais de meio milhão de votos por dia até domingo que vem (ou mais precisamente 715 000 votos diariamente). Apesar de as revelações do escândalo de Erenice e seu bando (de familiares) serem chocantes, o grosso do eleitorado não se comoveu. Não é  pouca coisa, portanto, virar tanto voto de Dilma.

Até porque o PT também aprendeu com erros da campanha de 2006 – e não se imagina que irá repeti-los. Não está se falando aqui dos aloprados: essa estrepolia – ou crime – petista acabou sendo repetida, sim, no caso da quebra de sigilo de tucanos. O erro que o PT não tornará a fazer é fugir do debate da Globo, coisa que, somado ao escândalo dos aloprados, efetivamente tirou das mãos de Lula a vitória no primeiro turno quatro anos atrás.

Pesquisas do próprio PT indicaram isso. Mostraram que o eleitor não aprovou a estratégia de candidato-fujão adotada, então, por Lula. Por isso, Dilma irá ao debate de quinta-feira na Globo, o único que realmente importa nesta eleição.

Por todos esses motivos, a fatura parece liquidada. Mas há fatores externos que não podem ser desconsiderados. Por exemplo, ninguém sabe de verdade o real impacto da exigência de o eleitor votar levando para a zona eleitoral um documento com foto – uma novidade implantada pelo TSE nesta eleição.

Segundo uma pesquisa do Ibope, 95% dos eleitores sabem dessa obrigação. Beleza. Mas as coisas não são tão simples. Do contrário, o PT não teria entrado na sexta-feira com uma ação direta de inconstitucionalidade no STF para derrubar essa exigência.

Na ação, o PT alegou “cerceamento legal do direito político do cidadão”. Como o PT não está de fato minimamente preocupado com, repita-se, “cerceamento legal do direito político do cidadão”, é fácil imaginar que algum temor maior tenha motivado a ida ao STF.

Aparentemente, a eleição presidencial caminha para terminar no domingo que vem. É o que diz a lógica – o que não significa que ela irá prevalecer. Façam suas apostas.

Por Lauro Jardim

domingo, 19 de setembro de 2010

Disputa pelo Senado: candidatos insones

Pimentel ou Itamar? Cesar Maia, Crivella, Picciani ou Lindberg? Netinho, Marta, Aloysio ou Tuma? Marco Maciel ou Armando Monteiro? Ana Amélia, Rigotto ou Paim?

A lista de dúvidas poderia ir além de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Chegaria fácil aos 27 estados que vão às urnas no dia 3. Faltam duas semanas para as eleições e, de acordo com as pesquisas, metade dos brasileiros ainda não escolheu pelo menos um dos dois candidatos ao Senado.

É dura a vida dessa turma – a do eleitor também é, mas este é outro assunto. Apesar da importância do cargo, o eleitor trata-os como coadjuvantes na disputa.

Seja porque o foco do brasileiro é jogado nas campanhas para presidente e para governador, seja porque o brasileiro não tem a menor idéia do que faz um senador - ou para que serve aquele salão coberto por uma cúpula que lembra um prato virado para baixo.

Veja-se o caso de Aloizio Mercadante, agora candidato ao governo de São Paulo. As pesquisas do PT são cristalinas quando detectam que o paulista não tem a menor idéia do que Mercadante fez (ou deixou de fazer) em seus oito anos como senador.

O cenário é ainda mais complicado quando o que está em disputa é a renovação de dois terços do Senado. É a eleição mais imprevisível. Até porque de oito em oito anos, religiosamente, o brasileiro vota em dois senadores, mas se esquece disso também religiosamente - e parece só descobrir a “novidade” quase na boca da urna.

Tradicionalmente, o segundo voto é definido entre poucos dias antes e já perto do posto de votação. Neste caso, um candidato que esteja num longínquo terceiro lugar uma semana antes do pleito, pode crescer arrasadoramente nos últimos dias.

Melhor ainda se esse candidato  possuir uma máquina forte no estado – ou se estiver abrigado numa chapa que vai eleger o governador e o presidente da República, por exemplo. Por isso, tantas são as escaladas retumbantes de última hora.

No Rio de Janeiro, há um caso exemplar para um cenário de virada. O Datafolha publicado ontem mostra quatro candidatos com chances, Marcelo Crivella (40%), Lindberg Farias (38%), Cesar Maia (27%) e Jorge Picciani (21%).

Não é difícil imaginar um quadro em que o lanterna Picciani cresça e eleja-se junto com Lindberg. Basta que Sergio Cabral, que deve levar a eleição para o governo do Rio já no primeiro turno, em vez de pedir votos apenas para Picciani em seus programas de TV, passe a pedir ao seu eleitor que vote em Lindberg e Picciani. Deste modo, eliminaria a chance de o segundo voto de Picciani ou de Lindberg fluir, por exemplo, para Crivella. (A propósito, desde ontem Cabral já está agindo desta maneira).

De acordo com o Datafolha, raros são os candidatos que podem dormir tranqüilos. Para ser mais exato, nos sete estados e no DF onde a pesquisa foi feita, apenas Aécio Neves pode de fato se dar a este luxo. O resto vai ficar insone até o dia 3.

Por Lauro Jardim
 

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