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Covid-19: o verdadeiro papel do sistema imunológico no ataque à doença

Em entrevista exclusiva, o jornalista e escritor Matt Richtel, do 'NYT', esclarece mitos, como a crença que precisamos melhorar o sistema de defesa

Por Giulia Vidale - Atualizado em 27 abr 2020, 17h16 - Publicado em 27 abr 2020, 13h44

Desde o início da pandemia do novo coronavírus um sistema do nosso corpo tem ganhado importância: o sistema imunológico. Aposto que antes disso você apenas lembrava dele – se lembrasse – quando ficava doente. Ou talvez nem assim. Agora, fala-se dele para explicar por que a maior parte do mundo é suscetível ao novo coronavírus, por que o desenvolvimento de uma vacina é crucial para acabar com a pandemia e por que muitos pacientes têm seu quadro agravado por uma reação exagerada de seus próprio sistema imunológico ao vírus – as chamadas tempestades de citocinas.

Mas, afinal, o que é o sistema imunológico? É justamente isso o que o jornalista do The New York Times e escritor Matt Richtel busca desvendar no livro Imune – A extraordinária história de como o organismo se defende das doenças (400 páginas, editora HarperCollins). Por meio da história de vida de quatro personagens – Jason, que é curado de um câncer graças a uma terapia que interfere em seu sistema imunológico; Bob que tem um dos sistemas imunológicos mais inusitados do mundo; e Linda e Merredith, que sofre as consequências de um sistema imunológico hiperativo -, autor explica de forma simples e didática aspectos fascinantes protagonizados por genes e células do organismo.

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Richtel, que ganhou um prêmio Pulitzer, aproveita a obra para esclarecer alguns mitos, como a ideia de que os sistema imunológico é como um exército preparado para derrotar qualquer ameaça e fazer com que a gente viva eternamente. Ou que devemos “turbinar” o nosso sistema imunológico para combater inimigos ao nosso organismo.

Em entrevista exclusiva a VEJA, o jornalista explica como o nosso sistema imunológico reage a um vírus e por que de tempos em tempos surgem agentes patogênicos incontroláveis como o coronavírus. Spoiler: segundo ele, isso se tornará cada vez mais comum. Confira abaixo a entrevista:

O interesse da ciência pelo sistema sistema imunológico aumentou nas últimas décadas? Nós aprendemos muito sobre o sistema imunológico e a maior parte desse conhecimento veio muito tarde na história. É muito interessante que a gente tenha demorado para aprender tanto sobre algo tão importante. Por exemplo, nós sabíamos muito mais sobre áreas da ciência que não são tão importantes para a nossa sobrevivência quanto o sistema imunológico. Mas há uma boa razão para isso e é porque tudo acontece a nível molecular. Nós não conseguíamos ver o que acontecia porque não era algo visível para nós. Então a maior parte do aprendizado sobre esse sistema só foi possível há pouco tempo.

Com a pandemia de coronavírus, surgem “receitas” para turbinar o sistema imunológico e se proteger melhor. Por que isso não é uma boa ideia? Acho que uma das coisas mais importantes que aprendemos sobre o sistema imunológico é que ele precisa de equilíbrio. Essa é a chave. No início, eu não entendia isso. Eu queria ter um sistema imunológico super poderoso que fosse capaz de esmagar qualquer invasor. Mas não é assim que funciona. Ele funciona tentando descobrir quem é o inimigo, quem é o amigo, com o que pode cooperar e o que deve destruir. Eu penso nisso como uma relação entre um segurança e uma bailarina. Um cara grande e durão e uma dançarina de balé profunda e graciosa que anda o mais leve possível na ponta dos pés e diz: ‘é aqui que devemos atacar’. ‘É aqui que devemos parar ou nos retirar’. ‘É aqui que devemos dar uma pirueta’. E essa é realmente a grande ideia conceitual que a ciência entendeu. Um dos desafios para os seres humanos agora é encontrar as melhores maneiras de manter esse equilíbrio.

Qual é o melhor jeito de fazer isso? Acho que existem quatro formas e cada uma delas requer um pouco de explicação científica. São elas: manter níveis baixos de estresse, dormir bem, praticar atividade física moderada ou intensamente e ter uma alimentação equilibrada. A questão do sono, do estresse e da atividade física estão fortemente associadas. Quando você está com muita adrenalina, como em um estado de luta ou fuga, como se você estivesse sendo perseguido por um leão, isso pode causar uma queda na sua resposta imunológica. Por que isso acontece? Porque se você está sendo perseguido por um leão, o resfriado pode esperar. Evolutivamente, não é algo tão importante para o seu corpo se preocupar naquele momento.

Na vida moderna, em diversas ocasiões nós nos comportamos como se estivéssemos sendo perseguidos por um leão, mas não há leão. Se seu parceiro fica bravo com você, isso não é o mesmo que um leão. Se você perde um prazo ou tem medo, não é o mesmo que um leão. Se você está preso no trânsito, não é o mesmo que um leão. Mas quando vemos isso como uma ameaça, nossa adrenalina aumenta – como se estivéssemos sendo perseguidos por um leão – e nosso sistema imunológico pode diminuir. O mesmo acontece com o sono. Se você não dorme o suficiente, mesmo em um dia ou dois, seu sistema imunológico pode perder o equilíbrio e isso pode torná-lo mais vulnerável a vírus e bactérias.

Esses são passos simples e mesmo assim nós odiamos esses passos porque queremos simplesmente tomar uma pílula que resolva tudo. Queremos a pílula mágica. Mas o que realmente precisamos é de bons hábitos. E é aí que o sono e o stress se tornam tão importantes. Eles são hábitos e mante-los é muito importante, principalmente neste momento. Estamos trancados em casa. Temos medo, mas muitos estão seguros. E não adianta nada dizer “estou com medo” e ficar repetindo isso inúmeras vezes porque é contraproducente. Que tal algumas respirações profundas, alguns exercícios e uma boa noite de sono? Essas coisas vão ajudar.

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E a alimentação? Quando se trata de comida, também não temos uma pílula mágica. Muitas comidas são vendidas para nós como pílulas mágicas. Aparecem coisas como, “apenas limpe esta manga e você ficará melhor”. Não é verdade. Às vezes, há promessas de alimentos que aumentam seu sistema imunológico. Existem muitas promessas sobre isso, mas todas são mentiras.

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Por que é perigoso ‘turbinar’ o sistema imunológico? Como eu disse, eu acho que nenhuma dessas coisas funciona, mas se funcionassem, poderia ser ser perigoso. Aumentar o sistema imunológico pode levar a mais fadiga, mais dores nas articulações e, às vezes, a inundações de células imunológicas nos seus pulmões, no caso da Covid-19, que podem matá-lo [em referência às tempestades de citocinas que afetam muitos pacientes com a doença]. Então não turbine seu sistema imunológico, apenas siga esses hábitos simples – mantenha níveis baixos de stress, faça atividade física, durma e se alimente bem. Há evidência científica sobre sua eficácia e eles estão sob seu controle.

A pandemia de gripe espanhola aconteceu há 100 anos. De lá para cá apareceram diversos vírus novos, como HIV, H1N1, Ebola, Mers, Sars e agora o Sars-Cov-2. Por que vírus novos continuam a aparecer? Nós teremos mais vírus novos e eles vão aparecer muito mais rápido. Temos uma alta densidade populacional, o que facilita a transmissão. Vivemos muito próximo dos animais, incluindo animais selvagens, e ainda tem os mercados que vendem animais vivos. Tudo isso pode facilitar uma mutação que permita que um vírus salte de um animal para um humano [H1N1, Mers e Sars são vírus que ‘saltaram’ de animais para humanos. Acredita-e que o mesmo tenha acontecido com o novo coronavírus.] e que esse novo vírus se espalhe entre humanos, como um efeito em rede. Isso acontece porque biologicamente vírus, parasitas e bactérias foram feitos para transmitir seus genes. Ao sofrerem mutações, eles acabam encontrando um nicho, uma brecha que não está imune a eles para infectar. Portanto, por mais sofisticados que fiquemos, não podemos começar a adivinhar quais mutações elas apresentarão.

Por que, depois de tanto tempo e dos avanços da ciência e da medicina ainda é tão difícil combatê-los? Vírus e bactérias são organismos vivos que lutam para sobreviver. Eles se reproduzem a cada 20 ou 30 minutos. Enquanto nós demoramos 20, 30 anos para nos reproduzir. Ou seja, a cada 24 ou 48 horas aparecem novas ondas com novas mutações de vírus e bactérias e uma dessas mutações pode ser a que eles precisam para entrar no nosso sistema e se reproduzir. Então, por mais sofisticadas que sejam a ciência e a medicina, não somos capazes de adivinhar qual mutação eles podem apresentar que poderão nos afetar. Quando um vírus novo aparece, ele precisa recuperar o atraso e aprender a combate-lo. É diferente de quando enfrentamos uma ameaça que nosso organismo já viu antes e temos algo chamado imunidade de rebanho, que é uma imunidade construída para a nossa comunidade.

No futuro, estaremos mais preparados? Temos influências competitivas concorrentes. No lado negativo, temos seres vivos que estão lutando para sobreviver e que nós somos sua comida. Estamos vivendo cada vez mais próximos fisicamente e a transmissão pode acontecer como um efeito de rede, que acelera as coisas. Mas também temos um efeito em rede do outro lado. Temos melhores comunicações e avanços de ciência e da  tecnologia que nos ensinam a combatê-los. Já temos armas tão simples quanto lavar as mãos de forma correta, quanto mais complexas como antibióticos, vacinas, ventiladores e sistemas hospitalares extraordinários. Eu não acho que essa competição irá acabar tão cedo. No entanto, os seres humanos têm seu próprio sistema imunológico extraordinário, que evoluiu ao longo de centenas de milhões de anos para ser capaz de enfrentar organismos estranhos. E mesmo que não tivéssemos todos esses avanços proporcionados pela mente humana, nosso sistema primitivo, o sistema imunológico, conseguiria combate-los. Nós sobreviveríamos à Covid-19, como muitos já estão sobrevivendo. Há um capítulo no livro chamado A máquina de infinitude, que descreve como nossas células imunológicas se reorganizam quando estamos no útero e nos dão códigos para combater muitas bactérias e vírus. Inclusive aqueles que nunca vimos antes, que podem até mesmo vir de outro planeta. Então, somos construídos com uma capacidade quase infinita de lutar contra novos organismos. Acrescente a isso à mente humana, que começa a construir outros tipos de defesa, como sabonete, medicamentos e vacinas. Então é assim que vamos lutar.

Mesmo com todo esse arsenal, muitas vezes o sistema imunológico não consegue combater esses organismos e nós morremos. Por que? É importante entender que o sistema imunológico não é construído para salvar a vida de um indivíduo. Ele foi construído para preservar a linhagem genética e a morte é uma parte essencial desse processo. Se não morrermos, não abriremos espaço para as mutações que levam à evolução que permitem a nossa sobrevivência como espécie. Muitas pessoas acreditam que se o sistema imunológico for refinado o suficiente, ficaremos vivos para sempre. Eu também pensava isso quando comecei a escrever esse livro. Mas eu estava errado. O sistema imunológico é construído para nos manter vivos por um período de tempo. Talvez pelo tempo necessário para que possamos transmitir nossos genes. E, na verdade, esses sistema é cúmplice na nossa morte para abrir espaço para a próxima geração. Então, quando você pergunta sobre o Ebola ou Sars ou Mers ou Covid-19, a realidade é que algumas dessas doenças vão levar alguns de nós e deixar outros. E nós lutaremos para preservar nossa qualidade de vida e a duração de nossas vidas por meio de tecnologia, adaptação e inovação. Mas com o tempo, nó não vamos deixar o sistema imunológico tão incrível a ponto de vivermos para sempre. Nós podemos passar dos 110 anos, mas no final, o sistema imunológico acabará nos matando.

Qual é o maior avanço que podemos fazer para diminuir nossa vulnerabilidade contra futuros vírus? Eu acho que os melhores avanços que podemos fazer são na área de vacinas. À medida que desenvolvemos novas vacinas, seremos capazes de descobrir como dar ao sistema imunológico uma visão adiantada dos vírus e bactérias que podem nos matar. De modo que, quando eles aparecerem, poderemos preparar rapidamente a população para uma resposta imune mais efetiva. É isso o que está acontecendo agora em um ritmo acelerado. Muito mais rápido do que conseguimos com a poliomielite ou a varíola, por exemplo. Se começarmos a colocar esses mecanismos num lugar em que, no momento em que vemos um novo vírus ou bactéria, sequenciamos seu DNA, encontramos seu ponto fraco, entendemos como ele é construído ou como ele nos ataca e, em seguida, criamos uma vacina com base nas plataformas já usadas, cada um de nós poderá tomar uma vacina ou um comprimido que nos dará uma resposta mais rápida. Mas, novamente, eu digo: não subestime os patógenos, eles querem se alimentar de você e encontrarão um jeito.

Por que você, como jornalista, decidiu escrever um livro sobre o sistema imunológico? Acho que para fazer isso você tem que ser louco ou tem que testemunhar um milagre, que é o que aconteceu comigo. Eu tenho um amigo chamado Jason que é muito importante e muito especial. Nos conhecemos no ensino médio, quando eu morava no Colorado. Ele era um dos melhores jogadores de basquete e de beisebol da escola e as meninas o amavam. Parecia que ele tinha saído de uma capa de revista. Quando tínhamos 40 anos, ele teve câncer. Ele fez radiação e quimioterapia, mas não adiantou. Até que um dia, já com 7 quilos de tumor nas costas, Jason foi enviado para casa para morrer. Foi quando ele tomou um medicamento de imunoterapia. Duas semanas depois, sua namorada o acordou e disse: “Jason, saia da cama. Seu tumor sumiu.” Foi como assistir Lázaro ressuscitar da sepultura. Isso aconteceu com um amigo meu. Eu assisti de perto e, como jornalista, sou curioso e fui atrás para entender o que era essa terapia e como ela funcionava. Quatrocentas páginas depois, temos Imune – A extraordinária história de como o organismo se defende das doenças.

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