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Líder indígena Ailton Krenak analisa a ameaça da Covid-19 aos nativos

'Se ninguém tentar contato com os isolados, eles serão os mais protegidos do mundo'

Por Jennifer Ann Thomas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 24 abr 2020, 10h56 - Publicado em 24 abr 2020, 06h00

Como o senhor recebeu a notícia da chegada da Covid-19 aos índios? Para minha surpresa, locais remotos registraram a ocorrência da doença, como as comunidades ianomâmis em Roraima e o Vale do Javari, no Amazonas. Estávamos mais preocupados com os guaranis no Jaraguá, em São Paulo, pela proximidade com a área urbana. É desconcertante saber que quem mora na floresta está exposto do mesmo jeito.

O senhor acredita que os indígenas estejam em maior risco? A ideia de que os índios vivem uma intensa fricção coletiva é uma construção histórica. Há comunidades onde as pessoas têm regras por grupo de idade e não se misturam. Os missionários adoram chamar os espaços indígenas de promíscuos — eles é que são. Convocam centenas de pessoas aos templos e andam colados no presidente. Vão acabar contaminando a todos.

E os povos isolados? Se ninguém tentar contato com os isolados, eles serão os mais protegidos do mundo. É uma UTI coletiva. Vivam os isolados! Temos de assegurar que os tomadores de decisão respeitem a autonomia das comunidades e não se metam no meio delas, como um grupo de missionários americanos que foi recentemente ao Vale do Javari. O que eles querem na floresta? Catequizar? Ou levar o contágio?

A forma de lidar com a floresta será diferente depois da pandemia? Depende da perspectiva. Se alguém estiver cogitando retomar as atividades do mesmo jeito, nada mudará. É preciso parar para uma profunda reflexão.

O que deveria mudar? O Estado de Minas Gerais, onde vivo, foi devastado pela mineração nos últimos 500 anos. O Brasil vive como uma plataforma extra­tivista para vender minério ao resto do mundo. Vamos fazer o mesmo com a Amazônia? É estúpido. São como porcos dentro da floresta caçando pedras preciosas. Fico indignado com a obsessão que as pessoas têm pelo garimpo.

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O que esperar do poder público? Nem sei se temos um governo. Depois de ver o bate-boca entre o ex-ministro da Saúde e o presidente, cheguei à conclusão de que estamos à revelia. Se os cidadãos não tomarem conta de si mesmos e se protegerem deste caos social, estarão sujeitos a tudo.

Há questões que se tornaram mais evidentes com o novo coronavírus? Tentaram desmantelar o subsistema de saúde indígena. Agora ele é útil no combate à Covid-19 em locais remotos. É uma oportunidade para entender como priorizaram cortes em áreas essenciais, como a saúde. Hoje tem muita gente dizendo que é um escândalo acabar com as políticas voltadas para a diminuição da desigualdade.

Para o senhor, a sociedade mudará após o surto global? A natureza está se manifestando de uma forma surpreendente, com os pássaros, a vegetação e a água limpa dos rios. Se tanto melhorou, não há por que regressar ao estágio anterior. Acredito em alternativas para não colocar o carro na avenida e enfrentar um engarrafamento. Se tudo voltar como se nada tivesse acontecido, não teremos aprendido nada.

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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