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Com UTIs saturadas, o Nordeste forma comitê de cientistas renomados

Diante do aumento rápido de casos de Covid-19, a região recorre à ciência para tentar conter o avanço da doença

Por João Pedroso de Campos - Atualizado em 24 Apr 2020, 10h38 - Publicado em 24 Apr 2020, 06h00

À medida que o Brasil se aproxima do momento mais crítico da pandemia de coronavírus, torna-se ainda mais valioso o uso do conhecimento para tentar frear a doença. Em situação bastante delicada, com 27% dos casos confirmados no país e um alto risco de colapso no sistema de saúde de algumas de suas principais cidades, o Nordeste decidiu apostar na ciência e, no fim de março, criou um comitê específico para enfrentar a Covid-19. Coordenado pelo ex-ministro da Ciência e Tecnologia Sérgio Rezende e pelo neurocientista Miguel Nicolelis, um dos mais importantes nomes brasileiros da área, o grupo reúne diariamente médicos, físicos, matemáticos e pesquisadores em nove subcomitês temáticos que tratam desde a compra de equipamentos, insumos e testes até a elaboração de modelos matemáticos que indiquem para onde o vírus está se movendo. Entre as ações já recomendadas, além da manutenção do isolamento social e da resistência ao uso da hidroxicloroquina, estão a proibição de viagens intermunicipais e interestaduais e a criação de uma brigada emergencial de saúde, que inclui médicos formados no exterior, com validação alternativa de diplomas, para atuar sobretudo em unidades básicas. O grupo também lançou o aplicativo Monitora Covid-19, que, na falta de testes em massa, recebe dos usuários relatos sobre sintomas e facilita o mapeamento de novos focos da doença. “O comitê tem reafirmado e legitimado tecnicamente as principais decisões”, diz Marcos Pacheco, secretário de Articulação das Políticas Públicas do Maranhão e coordenador do subcomitê de medidas socioeconômicas do grupo.

As três capitais com maior incidência da enfermidade em relação à população ficam no Nordeste: pela ordem, Fortaleza, São Luís e Recife. O grande desafio do comitê científico é implementar as medidas necessárias em meio à estrutura de saúde precária da região. Ceará e Pernambuco estão com a capacidade das UTIs públicas saturada. Em Salvador, que concentra 63% das ocorrências da Bahia, dois dos três hospitais com UTI para atendimento a infectados têm mais da metade dos leitos ocupada.

Um dos motivos que levaram ao quadro foi a demora na proibição de voos internacionais em estados turísticos como Ceará e Pernambuco, os mais afetados. No caso cearense, o governador Camilo Santana (PT) pediu à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a suspensão das aterrissagens em 16 de março, quando o estado contava apenas nove ocorrências. Os voos foram vetados duas semanas depois, momento em que já havia 359 infectados e cinco mortes. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda tentou proibir barreiras de inspeção da Secretaria de Saúde cearense no Aeroporto de Fortaleza, veto negado pela Justiça.

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As autoridades desses dois estados também atribuem o maior volume de casos da Covid-19 à testagem mais intensa. “A vigilância epidemiológica tem averiguado todas as mortes decorrentes de síndromes respiratórias agudas graves. Aqui, praticamente não há fila de espera para exames de óbitos suspeitos”, diz o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB). Não por acaso, os governadores nordestinos foram os primeiros a se reunir com o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, na segunda 20. Ele ouviu as necessidades, checou o que havia sido prometido pelo antecessor, Luiz Henrique Mandetta, e defendeu uma atuação federal mais integrada com os estados. Espera-se que não fique apenas no discurso. Sem a ajuda política materializada em recursos emergenciais, de nada vai adiantar o Nordeste contar com um grupo de cientistas renomados no front contra a Covid-19.

Publicado em VEJA de 29 de abril de 2020, edição nº 2684

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