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Secretário da Cultura de Bolsonaro é demitido após copiar fala de nazista

Exoneração será oficializada em edição extra do Diário Oficial da União. Presidentes da Câmara, do Senado e do STF repudiaram vídeo que copia Goebbels

Por André Siqueira, Edoardo Ghirotto, João Pedroso de Campos, Larissa Quintino - Atualizado em 17 Jan 2020, 18h16 - Publicado em 17 Jan 2020, 11h37

O secretário especial de Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, foi demitido do cargo nesta sexta-feira, 17. Alvim deixa o cargo depois da divulgação de um vídeo em que copiou um discurso do nazista Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, para anunciar a criação do Prêmio Nacional das Artes.

Antes da confirmação da demissão, interlocutores do Palácio do Planalto e congressistas próximos ao governo Bolsonaro diziam que a situação do secretário era insustentável e davam como certa a exoneração. A oficialização da demissão foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União nesta sexta.

Postado no perfil do Twitter da Secretaria, o vídeo causou indignação nas redes sociais tanto pelo discurso quanto pela estética, semelhante à de pronunciamentos de Goebbels (veja abaixo).

“A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada”, disse o secretário de Cultura.

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Ele parafraseou uma fala de Goebbels registrada no livro Joseph Goebbels: Uma biografia, do historiador alemão Peter Longerich: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”. A declaração foi feita em 1933 por meio de uma carta em que o nazista sugeria “novas direções” ao teatro.

A trilha sonora usada no vídeo protagonizado por Roberto Alvim é Lohengrin, do compositor favorito de Hitler, o alemão Richard Wagner. A ópera é citada no livro Mein Kampf (Minha Luta), do nazista.

Após repercussão negativa, que incluiu declarações de repúdio dos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF), Alvim publicou um texto em seu perfil no Facebook alegando que a cópia da fala do ministro da propaganda nazista foi uma “coincidência retórica”. Ele, no entanto, ressaltou que “a frase em si é perfeita”.

“Repito: foi apenas uma frase do meu discurso na qual havia uma coincidência retórica. Eu não citei ninguém. E o trecho fala de uma arte heróica e profundamente vinculada às aspirações do povo brasileiro. Não há nada de errado com a frase. Todo o discurso foi baseado num ideal nacionalista para a Arte brasileira, e houve uma coincidência com UMA frase de um discurso de Goebbles… Não o citei e JAMAIS o faria. Foi, como eu disse, uma coincidência retórica. Mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspirações do povo é o que queremos ver na Arte nacional”, escreveu. 

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Depois, em outra publicação na rede social, ele pediu desculpas à comunidade judaica e disse ter colocado o cargo à disposição de Bolsonaro, “com o objetivo de protegê-lo”. “Dei minha vida por este projeto de governo, e prossigo leal ao presidente, e disposto a ajudá-lo no futuro na dignificação da Arte e da Cultura brasileiras”, escreveu.

Por meio de sua conta no Twitter, Jair Bolsonaro classificou a fala do ex-secretário como “um pronunciamento infeliz” que “tornou insustentável a sua permanência”.

“Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, como o nazismo e o comunismo, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos muitos valores em comum”, escreveu o presidente.

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