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‘Insatisfação do PMDB com o governo aumentou muito’

Em meio a uma crise entre o Palácio do Planalto e sua base aliada, deputado mineiro diz que 'boa parte do PMDB tem simpatia pelo senador Aécio Neves'

Por Marcela Mattos 30 Maio 2013, 13h03

“Não podemos tapar os nossos olhos. Precisamos ter maturidade e rediscutir a posição do partido”

O deputado mineiro Leonardo Quintão é um exemplo claro da insatisfação que se espalhou pela bancada do PMDB na Câmara com o governo Dilma Rousseff. Enquanto o Palácio do Planalto tentava contornar a crise que travou a articulação política no Congresso nas últimas semanas, ele percorreu o plenário coletando assinaturas de deputados para criar uma CPI da Petrobras. Aproveitando os ânimos acirrados, recolheu 199 nomes, 52 deles somente na sua bancada – são necessárias 171 assinaturas para abrir a comissão. “O descontentamento dos parlamentares do PMDB com o governo tem aumentado muito”, afirmou Quintão ao site de VEJA. Para o peemedebista, a crise tem duas frentes: a dificuldade dos parlamentares em conseguir recursos nos ministérios e as negociações eleitorais nos estados. Leia a entrevista.

O PMDB recolheu assinaturas para a criação de uma CPI contra a Petrobras. Foi uma ameaça ao governo? De forma alguma. Eu me considero da base. Agora, ser base é também ter voz e diálogo, o que nós não temos. A questão da Petrobras ocorreu pela falta de diálogo da presidente [da Petrobras] Graça Foster com o Congresso. Em uma estratégia pessoal, ela decidiu vender os ativos para investir no pré-sal. Nós consideramos isso um erro porque está causando prejuízo para a Petrobras. Não podemos ter na maior empresa do Brasil uma política que seja determinada por pensamentos individuais.

Mas essa CPI poderia trazer problemas para o governo. Eu espero que não crie uma crise. Mas, a despeito desse risco, eu não posso ser servil e fechar meus olhos. O maior impacto é fechar os olhos e deixar esse patrimônio ser vendido por um preço abaixo do mercado, dando prejuízo de bilhões de dólares para a Petrobras e para o povo brasileiro. A CPI vai impedir isso e dar um freio nessa desordem. A maioria dos deputados que assinou a proposta é da base, foram mais de cem da base. Acho que CPI não é só para retaliar o governo, e sim dar rumo ao governo.

O presidente da Câmara, Henrique Alves, sinalizou que a CPI não vai ser instaurada. Acho que essa é a primeira fala dele, temos de conversar. Não cabe ao presidente dizer que sim ou que não. Acho que pega mal ao Parlamento inviabilizar essa investigação. Se a presidente Graça realmente determinar que vai dialogar e que esse patrimônio não vai ser entregue a grupos econômicos, eu acho que já é um grande avanço. Agora, vamos investigar.

No ano passado, o senhor desistiu da disputa da prefeitura de Belo Horizonte para abrir espaço para o candidato do PT, Patrus Ananias, com a garantia de um ministério. O senhor se sente enganado por não ter recebido o cargo? Geralmente, em politica não acontece assim como aconteceu comigo. Eu respeito a presidente Dilma, ela escolhe os seus ministros. Mas o ponto disso tudo é que eu não pedi para dialogar, não ofereci a minha desistência. Já tinha a minha candidatura registrada, já estava com a campanha toda estruturada e me procuraram pedindo para desistir em prol do projeto nacional. Eu entendi naquele momento que era importante aceitar, mas defendi meu estado e disse que o PMDB e Minas Gerais estavam sub-representados nos ministérios. Infelizmente, durante esse processo, o meu partido se apequenou, desistiu de lutar por um cargo maior, aceitando o Ministério da Agricultura. Fico triste de o PMDB ter se apequenado.

Na disputa pelo governo de Minas Gerais, há espaço para o PMDB apoiar a candidatura do senador Aécio Neves à Presidência? Boa parte do PMDB tem simpatia pelo Aécio Neves. Mas o jogo político começa no ano que vem. O senador tem uma habilidade muito grande de convencimento. A gente tem de ser franco nesse diálogo: se a parceria não for boa para o PT e o PMDB, o partido tem a obrigação de procurar os seus caminhos.

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Essa é a vontade do senhor? Isso não depende de mim. Na semana que vem vou enviar uma carta para o presidente Valdir Raupp pedindo que o partido possa explicitar o que quer, para mostrar para a militância peemedebista qual o rumo do partido: ou buscar a coligação com o PT ou abrir diálogo com o PSDB. Nós vamos consultar as nossas bases. O senador Aécio tem a simpatia de boa parte dos peemedebistas de Minas Gerais. Eu sou da ala do PMDB que vai lutar para ter candidatura própria em Minas.

O governador Eduardo Campos procurou o senhor em busca de apoio em Minas? O Eduardo Campos me procurou. A intenção dele é de criar um palanque aqui no estado. Certamente a preferência do PMDB, caso decida apoiar outro nome, seria o Aécio. Mas ele me procurou, disse que a tendência é que seja candidato à Presidência da República. Ele me convidou para ser candidato ao governo estadual. Caso o PMDB decida não participar das eleições, pode ser uma opção.

Há uma crise entre o PMDB e o PT? Realmente o relacionamento não está bom. O descontentamento dos parlamentares do PMDB com o governo tem aumentado muito, mas não envolve a questão do pedido de CPI. Essa insatisfação a gente tem condição de resolver, mas precisa ter maturidade e não dizer que não existe o problema. Não podemos tapar os nossos olhos. Precisamos ter maturidade e rediscutir a posição do partido.

O PMDB quer mais espaço no governo? Quando o PT precisa do PMDB sabemos sentar para conversar. Mas quando o PMDB precisa do PT, temos de saber dialogar. O caso do Rio de Janeiro é notório. É o governo mais importante do PMDB. Não faz sentido a base se dividir. O governador está correto em defender o partido no estado. Caso o PT não entenda que seja importante, o governador também se sente na liberdade de tomar seu rumo.

Qual a origem desse descontentamento? Os deputados reclamam que os ministros do próprio PMDB não os atendem. Sempre que os parlamentares procuram os ministérios do PMDB, voltam sem ser atendidos. Isso fragiliza o mandato do parlamentar. O PMDB tem de ser representado dentro do governo de acordo com seu tamanho. Temos a vice-presidência da República, que é um cargo muito importante, mas temos de rever a nossa posição.

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