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Passeio na serra

Pablo Escobar, o maior narcotraficante do mundo, escapa de seu presídio de faz-de-conta e expõe ao ridículo o governo da Colômbia

Reprodução da reportagem publicada na edição 1284 Reportagem publicada em 29 de julho de 1992, edição 1245. Veja mais no Acervo VEJA.

Reportagem publicada em 29 de julho de 1992, edição 1245. Veja mais no Acervo VEJA. (Reprodução/VEJA)

Construída especialmente para abrigar o megatraficante colombiano Pablo Escobar, a prisão de La Catedral parece tudo, menos uma cadeia. Tem celas-suíte com cama de casal, salão de jogos com mesas de pingue-pongue e sinuca, aparelho de faz à disposição 24 horas por dia e uma magnífica vista panorâmica para a região serrana de Medellín, a capital mundial da cocaína. O lugar foi escolhido a dedo pelo próprio Escobar – um projeto destinado a uma clínica de recuperação de drogados, no município de Envigado, onde o criminoso mais famoso do planeta passou os anos da juventude e onde, segundo se sussurra sempre em tom de respeito ou medo, nem mesmo uma folha de árvore se move sem sua autorização. Como companheiros de reclusão, o ilustre hóspede selecionou seus assessores de confiança, que, agora se sabe, circulavam livremente pelas dependências do presídio carregando a tiracolo metralhadoras Uzi, de fabricação israelense. Até mesmo a indicação dos guardas passava pelo crivo de Escobar, a pretexto de que necessitava sentir-se protegido de seus muitos inimigos.

Tudo isso era do conhecimento do governo, sempre pronto a justificar os privilégios concedidos ao chefão do Cartel de Medellín como um mal menor, comparado ao banho de sangue em que o país mergulhou, no final da última década, quando as autoridades tentaram reprimir para valer a máfia das drogas. O narcoterrorismo fez mais de 2.000 mortos, até que, em junho do ano passado, Escobar e seus escudeiros fecharam uma controvertida barganha com o governo. Em troca de liberdade, os traficantes ganharam a promessa de penas reduzidas e as mordomias de presidiários cinco estrelas. A própria Constituição foi alterada, de modo a proibir a extradição dos criminosos para os Estados Unidos, o país de destino da maior parte da cocaína sul-americana. Durante treze meses a Colômbia respirou aliviada, convencida de que o negócio valera a pena. Quem conheceu o inferno vivido pelos colombianos no auge da guerra desfechada pelos barões da coca compreendeu seu alívio. Afinal, se até a rica e desenvolvida Itália sofre nas mãos de sua Máfia, a original, por que a Colômbia não poderia tentar uma solução menos ortodoxa?

A ilusão de que é possível negociar com um bandido só viria a terminar na semana passada. Na noite do dia 22, quarta-feira, o presidente Cesar Gaviria apareceu na televisão para cancelar sua viagem a Madri, onde participaria da reunião da cúpula dos presidentes ibero-americanos, e confirmar rumores que sobressaltavam o país desde o dia anterior: Pablo Escobar havia fugido de sua gaiola de ouro. “Não sabemos como ele fez isso”, admitiu Gaviria, com um ar aparvalhado. “O Exército nos deve uma explicação.”

Conto do TúnelNa sexta-feira, três dias depois da fuga, nem o Exército, nem a polícia, nem o próprio Gaviria eram capazes de determinar sequer o horário em que o ex-prisioneiro se despediu do “Escobar Plaza”, como o pseudocárcere era conhecido. Tudo o que se sabe é que o plano de fuga teve como peça central um motim, desencadeado pelos prisioneiros diante da comunicação de que seriam transferidos para outra penitenciária. Encarregados de levar a notícia aos detentos (quinze, no total), o vice-ministro da Justiça, Eduardo Mendoza, e o diretor-geral das prisões, coronel Hernando Navas, agiram como se estivessem numa missão de rotina. Na terça-feira à tarde, entraram sem escolta em Envigado e foram imediatamente capturados pelos detentos, que os mantivera em seu poder por mais de doze horas. Enquanto isso, Pablo Escobar, seu irmão Roberto e outros oito graduados dirigentes do narcotráfico tratavam de dar o fora.

Os reféns só seriam resgatados na quarta-feira de manhã, quando as tropas despachadas de Bogotá entraram no presídio, depois de um breve tiroteio. Os guardas da prisão, em vez de combater os amotinados, agiram o tempo todo como seus cúmplices, e alguns deles chegaram a disparar contra soldados. Um dos guardas morreu e outros 26 estão presos. Um telefonema anônimo denunciou que os bravos guardiões da lei receberam 1,4 milhão de dólares em subornos. Durante a confusão, o próprio Escobar se comunicou com uma emissora de rádio por telefone celular – uma das muitas mordomias de sua vida carcerária – e disse que estava escondido num túnel e disposto a resistir até a morte. O telefonema confundiu as forças do governo, que perderam preciosas horas procurando Escobar dentro do presídio e nos seus arredores quando ele já se encontrava, provavelmente, a quilômetros de distância. Os 600 soldados vasculharam toda a região, mas não encontraram o menor vestígio da existência de um buraco por onde pudesse ter ocorrido a fuga. Tanto o túnel como o próprio tiroteio eram cortinas de fumaça para despistar as autoridades. Outro telefonema anônimo, atribuído aos traficantes rivais agrupados no Cartel de Cali, disse que Escobar deixou o presídio vestindo um uniforme do Exército.

Guerra no CartelTantas informações desencontradas só agravaram a desmoralização do governo, cuja renúncia era pedida, no final de semana, pelas vozes mais exaltadas da oposição. “Gaviria não tem autoridade moral para seguir governando a Colômbia”, trovejou o ex-ministro da Justiça Enrique Parejo Gonzalez, respeitado no país como uma espécie de herói do combate ao narcotráfico. Condenado à morte pelo Cartel de Medellín como responsável por algumas extradições na década de 80, Parejo Gonzalez sobreviveu milagrosamente aos ferimentos de um atentado a bala que o alcançou em Budapeste, na Hungria. No plano internacional, o presidente Gaviria viu se dissipar, da noite para o dia, seu esforço para desfazer a imagem negativa da Colômbia como um país à mercê de narcotraficantes poderosos, os quais são impossíveis manter atrás das grades. Na primeira reação dos Estados Unidos, Bob Martinez, a mais importante autoridade no combate às drogas, se declarou “estupefato” com a notícia de que Escobar está outra vez à solta. “Manifestamos várias vezes nossa preocupação com as condições de segurança da prisão, mas o governo colombiano nos assegurou repetidamente que o local era seguro”, reclamou Martinez, que não dá conta do serviço em seu próprio país, mas aproveitou para criticar uma manobra que os Estados Unidos nunca engoliram.

Por ironia, a fuga de Escobar ocorre justamente no momento que as autoridades mostravam pela primeira vez a disposição de tratá-lo como prisioneiro e não como hóspede. Para a maioria dos colombianos, era um segredo de polichinelo o fato de que ele continuava a manejar de sua cela os fios do lucrativo tráfico de cocaína. Uma guerra interna no Cartel de Medellín quebrou o sossego de Escobar em Envigado. No início do mês, 22 traficantes foram sequestrados, aparentemente por ordens diretas suas. Os corpos de oitos deles foram encontrados, com marcas de torturas. Entre as vítimas estavam dois dos principais gerentes de Escobar, Fernando Galeano e Geraldo Moncada, que teriam, segundo a polícia, desafiado o chefe ao se recusarem a aumentar o quinhão dos lucros a serem repassado a ele.

O procurador-geral da República, Gustavo de Greiff, foi a Medellín para investigar o caso pessoalmente e descobriu que Galeano e Moncada, antes de serem assassinados, foram levados ao presídio de Envigado e lá submetidos a um arremedo de julgamento, no qual o próprio Don Pablo ditou o veredicto. O relatório de De Greiff foi a gota d’água que levou o governo a decidir pela transferência dos presos – uma operação desastrada, cujos preparativos certamente não escaparam aos olheiros que o Cartel de Medelín mantém espalhados por todas as esferas da sociedade colombiana.

“Vai chover Dinamite” – Mestre na arte de esconder-se (entre 1984 e 1991 conseguiu se safar de dezenas de emboscadas para capturá-lo), Escobar ao fugir deixou sobressaltados 32 milhões de colombianos, traumatizados com a carnificina dos anos que antecederam sua prisão. Um dos fugitivos, John Jairo Valásquez, o “Popeye”, chefe dos pistoleiros do cartel, reforçou esses temores ao dizer ao vice-ministro da Justiça que os mafiosos iriam voltar ao terrorismo. “Vai chover dinamite”, sentenciou. Pablo Escobar, numa gravação divulgada na sexta-feira, em que diz encontrar-se “nas selvas da Colômbia”, acusa o governo de trair o compromisso de jamais retirá-lo de Envigado, mas afirma que, “por enquanto”, continua disposto a dialogar com as autoridades. No mesmo comunicado, ele impõe uma condição espantosa para regressar à prisão e desistir da violência: que as Nações Unidas se encarreguem da vigilância do presídio. Em outras palavras, o chefão das drogas, num delírio de grandeza, tenta colocar sua quadrilha em pé de igualdade com uma nação constituída, como a Bósnia, o Kuwait ou o Camboja, e pede ao Estado colombiano que renuncie a suas faculdades de prender os delinquentes onde julgar conveniente, delegando o poder de polícia aos capacetes azuis da ONU.

O governo colombiano não descarta a possibilidade de que Escobar volte a entregar-se, mesmo sem a arrogante proposta de intervenção da ONU. Na sexta-feira, o presidente Gaviria garantiu que o fugitivo “terá um julgamento justo e será mantido em lugar seguro”, mas deixou claro que ele não regressará em hipótese alguma a Envigado. O procurador-geral Gustavo de Greiff definiu bem a questão, ao lembrar que o rei dos traficantes fez um mau negócio ao renunciar, com novos atos ilícitos, a um processo legal que lhe permitiria negociar uma pena reduzida – não maior do que oito anos, na opinião da maioria dos juristas. O mais provável é que, na clandestinidade, Pablo Escobar logo comece a sentir saudades da vida mansa que desfrutava nos bons tempos em seu presídio-hotel. Caçado por todo o país, ele volta a se tornar um alvo de inimigos poderosos – o Cartel de Cali; a polícia antidrogas dos Estados Unidos que recentemente conseguiu da Suprema Corte americana carta branca para sequestrar suspeitos no exterior; seus próprios rivais no Cartel de Medellín; e a polícia colombiana, que não esquece as centenas de agentes que Escobar mandou executar, pagando aos sicários um preço de tabela de 400 dólares por assassinato. Com essa penca de inimigos no seu encalço, só há mesmo um lugar onde Pablo Escobar pode se sentir seguro: a cadeia.

A TRAJETÓRIA DO CHEFÃO

1974: Pablo Escobar enfrenta a primeira prisão, por roubo de automóvel
1976: Detido com 39 gramas de cocaína
1982: Eleito suplente de deputado com os votos dos bairros pobres de Medellín, onde ganhou fama de benfeitor (dois anos mais tarde, teve o mandato cassado).
1984: Passa a viver na clandestinidade, depois que pistoleiros sob suas ordens matam o ministro da Justiça, Rodrigo Lara Bonilla
1989: Acusado pela morte do senador Luis Carlos Galán, o candidato favorito à Presidência.
1991: Citado novamente pela revista Forbes na lista dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna superior a 2 bilhões de dólares. Em junho, faz um acordo com o governo e recolhe-se ao presídio de Envigado.

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