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Chacina no shopping

Carro-bomba explode num centro comercial de Bogotá, mata onze pessoas e devasta embaixada brasileira

Matéria publicada em 21 de abril de 1993, edição 1284. Matéria publicada em 21 de abril de 1993, edição 1284. Veja mais no Acervo Veja.

Matéria publicada em 21 de abril de 1993, edição 1284. Veja mais no Acervo Veja. (Reprodução/VEJA)

Passava um pouco das 2 e meia da tarde quando José Tellez parou seu carro diante do Centro Comercial 93, que concentra as lojas mais chiques de Bogotá. Era uma quinta-feira cinzenta, e Tellez pediu à filha Martha, de 7 anos, que esperasse dentro do carro. Saiu sozinho e foi comprar entradas para assistir a um espetáculo de circo no fim de semana (presente para Martha, pelas boas notas na escola). Tellez já tinha os ingressos na mão quando ouviu uma forte explosão. Em segundos adivinhou a tragédia. Um carro-bomba carregado com 200 quilos de dinamite acabara de explodir diante do centro comercial, na calçada oposta, a poucos metros do local onde tinha estacionado. Tellez gritou e correu. Dentro do carro, reduzido a um emaranhado de ferragens, encontrou restos de carne humana calcinada. Desesperado, continuou procurando a filha até que viu, a alguns metros do carro, uma cabeça decepada, morena, com tranças compridas. Só então acreditou. “Esses assassinos mataram minha filhinha”, chorava. “Ela era tão jovem, estava aqui agora há pouco, feliz. Agora está morta. ”

A explosão aconteceu na Avenida Quinze, uma das artérias principais de Bogotá, no coração do Chico, um bairro elegante ao norte da cidade onde convivem edifícios suntuosos, agências bancárias e butiques de luxo. O carro-bomba estava parado diante de uma loja de móveis e decorações, da qual nada sobrou além de escombros. Segundo a polícia, foi detonado por controle remoto. No local, abriu-se uma cratera de 3 metros de largura por 1 metro de profundidade. Até a noite de sexta-feira, as equipes de resgate haviam encontrado onze corpos, e cinco pessoas continuavam desaparecidas. Os feridos eram cerca de 200, metade em estado grave. Um bebê foi internado com as pernas amputadas. A explosão estilhaçou vidros de prédios num raio de 500 metros, destruiu 34 veículos nas imediações e arrasou uma centena de lojas. O número de vítimas só não foi maior porque Bogotá, habituada a conviver com um carro-bomba a cada onze dias em média, reage depressa às grandes tragédias. Motoristas de táxi transportavam feridos, e casas luxuosas nas redondezas transformavam-se em hospitais improvisados. “Aqui na Colômbia, aprendemos que quem não é vítima tem que doar sangue para os feridos”, declarou o secretário de Saúde de Bogotá, Gustavo Malagón.

“MILAGRE”A pouca distância do carro-bomba, numa torre comercial colocada ao shopping center, a Embaixada do Brasil em Bogotá tremeu sob o impacto do atentado. “Estava na minha sala, quando vi o clarão e escutei o estrondo”, contou o diplomata José Luís Costa, adido cultural da embaixada. “O teto desabou, vidros e divisórias foram pulverizados. A destruição na embaixada foi tão grande que é quase um milagre que não tenha havido feridos graves.” Sete diplomatas e 25 funcionários trabalham na representação brasileira em Bogotá, que ocupa todo o 8º andar do edifício. Houve cinco feridos, mas apenas duas funcionárias, Ilza Pinto dos Santos e Veridiani Vellani Feliz, foram hospitalizadas. Ilza, operadora de telex, ficou presa entre os escombros quando o teto caiu e tomou onze pontos na cabeça e nas pernas. A sala do embaixador Alberto da Costa e Silva, de onde se avista a Avenida Quinze, foi a mais atingida pela explosão. Para sua sorte, o embaixador estava no Brasil na semana passada, acompanhando a visita das ministras das Relações Exteriores da Colômbia, Noemi Sanín de Rubio, ao país. “A sala ficou arrasada”, afirma o arquiteto Antonio Carlos Gomes de Oliveira. “Se o embaixador estivesse aqui, teria ficado gravemente ferido. ” Por coincidência, Gomes foi enviado pelo Itamaraty à Colômbia duas semanas antes do atentado, especialmente para vistoriar as condições de segurança da embaixada. “Acabei vítima da situação”, conta o arquiteto, que foi ferido por estilhaços de vidro.

Apesar do tamanho dos estragos, a representação brasileira não era o alvo da explosão. Na sexta-feira, o governo culpou o narcotraficante Pablo Escobar, o todo-poderoso chefão do Cartel de Medellín, está foragido desde julho do ano passado, quando escapou da prisão de Envigado, perto de Medellín. Não era segredo para ninguém que Escobar mandava em Envigado. Foi o próprio barão da cocaína quem escolheu o local onde deveria ser construída a prisão, com uma bela vista para as montanhas. Vivia como um hóspede de hotel cinco estrelas: a cadeia tinha sauna, salão de ginástica e sala de jogos, entre outras mordomias. De lá, comandava as operações de seu cartel, que ainda hoje distribui uma parcela considerável da cocaína consumida nos Estados Unidos. A farsa acabou quando o presidente Cesar Gaviria ameaçou despachar o narcotraficante mais famoso do planeta para uma prisão comum. Escobar escapou em companhia de nove asseclas e desencadeou uma vingança sangrenta contra o governo colombiano. O Exército pôs uma tropa de elite com 1 500 homens em seu encalço, em missões de busca que reviraram diariamente os arredores de Medellín. Escobar não é perseguido só pelo Exército, mas também por um grupelho paramilitar que se intitula PEPES (a sigla de Perseguidos por Pablo Escobar), formado por dissidentes do próprio Cartel de Medellín. O objetivo máximo da organização é a destruição do chefão do narcotráfico e de sua família.

Guerra Total Com o Exército e a guerrilha do Pepes à sua procura, Escobar tentou sem sucesso discutir com o governo colombiano uma rendição que lhe fosse conveniente. No dia seguinte à fuga de Envigado, o narcotraficante dispôs-se a voltar para a cadeia cinco estrelas sob a proteção das Nações Unidas. O governo descartou a ideia. Escobar foi reduzindo gradualmente suas exigências até que, em setembro passado, ofereceu-se para aceitar “a cela mais humilde em qualquer prisão de Antioquia”, sua terra natal. Enquanto o chefão tentava negociar a rendição, a polícia colombiana capturou oito dos nove companheiros que haviam fugido com Escobar, inclusive seu irmão Roberto. O procurador-geral da Colômbia, Gustavo de Greiff. A rendição não saiu e, em janeiro, Escobar anunciou a formação de um exército paralelo, que chamou de Antioquia Rebelde.

Era uma declaração de guerra total. Só este ano, as autoridades da Colômbia atribuíram a Escobar a autoria de onze atentados, a maioria em Bogotá e Medellín, que deixaram pelo menos sessenta vítimas fatais. Escobar teria participado pessoalmente de algumas operações. Seu paradeiro ainda hoje é um mistério. Na semana passada, a cozinheira de uma pousada no centro de Parati, no litoral sul do Rio de Janeiro, afirmou que o chefão da cocaína teria passado o réveillon na cidade, como hóspede da pousada. A polícia mandou dezenas de agentes a Parati, mas, até o final da semana passada, não havia qualquer indício de que Escobar tivesse festejado a entrada do ano em terras brasileiras.

Cheiro de SangueO atentado da semana passada foi o pior do ano e também o primeiro depois de uma trégua de quarenta dias entre o narcotráfico, o Exército e a guerrilha dos Perseguidos por Pablo. Nas últimas semanas, correu a notícia de que Escobar, combalido pela perseguição em dose dupla, estaria prestes a se entregar. O país parou para esperar e viveu dias de paz. A explosão do carro-bomba diante do Centro Comercial 93 foi um lembrete de que, mesmo perseguido, Pablo Escobar ainda é imensamente rico (segundo a revista Forbes, sua fortuna beira os 3 bilhões de dólares), poderoso – e cruel. Depois de uma reunião ministerial de emergência, o presidente Cesar Gaviria anunciou um pacotaço de medidas para conter o narcoterrorismo. O conselho de ministros elevou de quarenta para sessenta anos de prisão a pena máxima para terroristas. O governo avisou que vai apertar a vigilância policial e prometeu não arredar o pé das operações de busca para capturar Escobar. Em Medellín, os Pepes avisaram que o atentado da quinta-feira negra marcou o fim da trégua. “Começa agora uma guerra de morte”, dizia um comunicado da organização. Horas depois, os Pepes sequestraram e assassinaram um dos principais advogados de Pablo Escobar, Guido Parra. Mais uma vez, na Colômbia, há cheiro de sangue no ar.

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