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Pablo Escobar: o maior bandido do mundo

Uma carreira feita de sangue e pó

Perfil publicado em 26 de junho de 1991, edição 1188. Perfil publicado em 26 de junho de 1991, edição 1188. Veja mais no Acervo VEJA.

Perfil publicado em 26 de junho de 1991, edição 1188. Veja mais no Acervo VEJA. (Reprodução/VEJA)

No início da semana passada, ele era o traficante mais procurado do mundo. Na quarta-feira, ao render-se à polícia colombiana, passou a ser um dos prisioneiros mais protegidos do mundo – nem tanto para evitar sua fuga, mas para impedir a vingança de seus inimigos. Completados seus primeiros dias de cárcere, ele ainda é o criminoso mais rico do planeta. Com essa notável sucessão de superlativos, o megatraficante de cocaína Pablo Emilio Escobar Gaviria, de 41 anos, alcançou um título incontestável: ele é dono da carreira criminosa mais fulminante da era contemporânea, um equivalente ilegal dos superyuppies que construíram fortunas fabulosas durante a década de 80 nos Estados Unidos com operações na bolsa efusões de empresas. Como um autêntico self made-man, o adolescente que começou roubando carros e, segundo a lenda, afanando lápides de mármore nos cemitérios até transformar-se no chefão do Cartel de Medellín tinha amealhado antes dos 40 anos uma fortuna calculada em 3 bilhões de dólares, segundo a revista americana Forbes, ou 6 bilhões, pelos cálculos que circulam na Colômbia (ninguém pode afirmar com certeza pois Escobar não faz declaração de renda) e virou um caso raríssimo. Não existe traficante, assassino ou mafioso capar de superá-lo na rapidez e na fartura com que enriqueceu distribuindo cocaína.

Coroa Iluminada – “Subi na vida usando a cabeça, os punhos e o revólver”, costuma dizer. Ele é mesmo um bandido que se fez sozinho e à base de muito sangue. Ao contrário de John Gotti, o chefão da “família” Gambino, considerado o maior mafioso dos Estados Unidos, Pablo Escobar não ganhou o controle de uma organização já estruturada – ele próprio construiu o império da droga. Filho de camponeses, também não era membro natural de um clã de gângsters – ele mesmo criou sua máfia, com uma legião de traficantes e assassinos de aluguel. E hoje é três vezes mais rico que o grande mafioso italiano Carmine Afieri, “o Raivoso”, que lidera setenta clãs da Camorra napolitana. Criado numa família de doze irmãos, Escobar conservou o fervor por Nossa Senhora Auxiliadora, cuja imagem sempre carrega consigo ao lado da pistola alemã Sauer, de 7.65 milímetros, e o jeitão de milionário caipira. Conta-se que as mais prestigiadas casas de moda do mundo lhe enviaram catálogos e propostas de desenhos exclusivos, mas ele sempre preferiu a moda de Medellín. Suas grandes paixões de consumo, além das mansões cinematográficas e dos animais selvagens do seu zoológico particular, o maior do mundo, são os automóveis (uma coleção de Rols-Royce) e camisas de seda de mangas curtas. Sua mulher Maria Victoria Eugenia Henao prefere sapatos – 700 pares, pelo menos. Comparada à coleção de Imelda Marcos, é até pouco.

Na carreira de crimes, Pablo Escobar agiu pela cartilha clássica. Violento e vingativo, os seus inimigos ainda vivos são aqueles que exilaram do país, como o presidente da Suprema Corte, Fernando Uribe Restrepo, que em 1987 trocou o cargo vitalício na Colômbia pela aposentadoria compulsória no Equador. A mesma sorte não tiveram as testemunhas da meia dúzia de crimes que a polícia conseguiu a muito custo relacionar no seu prontuário: antes de depor em juízo, elas apareciam barbaramente assassinadas. Só a DEA, o órgão americano que combate o narcotráfico, acusa Pablo Escobar de 240 assassinatos. Se fosse extraditado para os estados Unidos, o chefão do Cartel de Medellín enfrentaria julgamentos em Los Angeles, Miami e Atlanta. Foi a garantia de que não passaria o resto da vida numa prisão americana que levou Escobar – autor da frase segundo a qual os traficantes preferem “um túmulo na Colômbia a uma cela nos Estados Unidos” – a se entregar.

Obcecado pela ideia de que o túmulo na Colômbia possa chegar antes do tempo, cavado por seus muitos inimigos entre os rivais do tráfico e a polícia local, Escobar cercou-se de uma espetacular parafernália de segurança. A cadeia de Envigado, a cidade de 100.000 habitantes onde passou a infância miserável, fica no alto de um morro, ao qual só se tem acesso de jipe, e a 500 metros da base militar de La Catedral, instalada pelo Exército para controlar toda a área do vale, por onde se distribuem metralhadoras e baterias antiaéreas. Toda a construção, de 700 metros quadrados, foi coberta com uma malha de aço para evitar que caso seja jogada uma granada sobre o telhado ela não venha a cair diretamente sobre os prisioneiros vips. À noite, quando os refletores instalados junto à cerca eletrificada se acendem, a prisão ganha o formato onírico de uma coroa iluminada no alto da serra, dominando a cidade de Medellín lá embaixo.

“Don Pablo, o Bom” – Escobar escolheu o local da prisão a dedo. Ao estilo de Al Capone, o gângster americano que chegou a gastar 12.000 dólares para distribuir 120.000 pratos de sopa aos miseráveis da Chicago dos anos 30, o traficante colombiano também cultivou a simpatia popular com o dinheiro fácil da droga. Fez de tudo um pouco para se firmar como líder populista. Construiu 300 casas populares, espalhou quadras de basquete, vôlei e até uma pista de patinação na periferia de Medellín. Aficionado pelo futebol, sustentava a equipe do Nacional, campeão da Taça Libertadores da América. Chegou a ser eleito suplente de deputado. Ganhou o título de “Don Pablo, o bom” e o apelido de “Robin Hood das massas”. Colheu os frutos depois que começou a ser caçado ostensivamente, a partir do assassinato do ministro Rodrigo Lara Bonilla, em 1984. “Esses quase sete anos de clandestinidade foram muito duros e difíceis, mas também interessantes”, disse ele numa entrevista ao jornal espanhol El Mundo, em maio. “Realizaram muitas operações contra minha pessoa, mas sempre contei com a solidariedade dos camponeses e dos habitantes das comunidades desprotegidas. ” Arvorado em herói dos descamisados, multibilionário e poderoso a ponto de ditar regras de sua rendição, ele só não se converteu no “grande criminoso” que merece até admiração, como dizia o poeta e filósofo francês Diderot. Faltou-lhe esse título.

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